sábado, 10 de agosto de 2019

SINOPSE | Portela: "Guajupiá, Terra Sem Males"




IRIN-MAGÉ, PAJÉ DO MEL, POVOADOR DA TERRA...
 
Todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes, desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado. 
 
Então veio castigo. O fogo desceu do céu e destruiu tudo sobre a terra. Apenas um homem considerado digno, foi poupado desse castigo. Seu nome era Irin-Magé.
 
Levado para o céu ele, aos prantos, diz à Monã, que seria difícil viver sem pares nesse imenso vazio. Comovido, Monã reverte a situação, e fez com que caísse um dilúvio sobre a terra. Dessa água surgiram os oceanos, os rios e tudo frutificou.

Monã então deu a Irin-Magé uma mulher e o mandou de volta à terra para que ele a repovoasse de homens melhores. Dentre os muitos de seus filhos, nasce um em especial que se tornaria o grande guru, o grande karaíba, "o profeta transformador", chamado Maíramûana. 
 
Familiar de Monã, Maíramûana aprendera a arte de transformar tudo o que quisesse de acordo com sua vontade nas mais diversas formas; de animais, pássaros, peixes e para punir os homens podia transformá-los também ao seu bel-prazer. 
 
É esse profeta-guru, dotado de poderes e conhecimentos "sobrenaturais" e misteriosos, quem ensinará todas as práticas sagradas, todos os costumes e regras da organização social das tribos tupinambás.
 
 
BAÍA DA GUANABARA, NOSSO GUAJUPIÁ
 
Na beleza do azul sobre o azul, da calma sobre a calma, um curso d'água serpenteia num vale de árvores verdes e frondosas. Em todas as direções a floresta é vívida. Há que se fiar no Sol, a luz é cultivada e tudo deve ser puro.
 
O rio é o caminho, é sagrado, tem peixe, tem marisco. As aves voam livres, colorindo o céu. Temos tudo ao alcance das mãos, água de beber, de lavar e de se banhar. Vivemos a vida em profunda gratidão.
 
Mas além de pescar e caçar, somos também bravos guerreiros. Só aqueles que enfrentam a morte, sem medo, conseguem encontrar o Guajupiá. Os tupinambás representavam esse paraíso como um lugar idílico, recoberto de flores e regado por um maravilhoso rio, em cujas margens viam-se enormes árvores. 
 
E nenhum lugar poderia ser tão igual ao imaginado Guajupiá eterno do que um Rio de Janeiro ainda virgem.
 
 
 
NASCE UM KARIÓKA
Chemembuira rakuritim, chemebuira rakuritim (eu já vou parir, eu já vou parir)
 
Nasce um tupinambá. Ritos e tradições serão seguidos, para assegurar bons presságios. Unhas de onça e garras de águia, ornarão o berço-rede, para garantir que nada de mal lhe aconteça.
 
Pai, mãe, filhos, avós, tios, tias, primos e primas, se juntam, está formada a maloca, a casa coletiva da tribo. Cercando o okara (grande quintal) se construía uma taba. Karióka, a lendária taba tupinambá, surge majestosa à esquerda da paradisíaca baía de kûánãpará. 
 
O homem roçava a terra, plantava, fabricava canoas, arcos, flechas, tacapes, adornos de penas multicoloridas. Eram eles os responsáveis pela segurança das tabas.  E sua função primordial era a de ensinar a arte da guerra.
 
Às mulheres eram imputadas as rígidas tradições e responsabilidades tribais, cuidavam da horta, participavam da pesca, fiavam algodão, teciam redes, fitas para amarrar nos cabelos e faixas para amarrar as crianças, trançavam cestos em junco e vime, manuseavam o barro para produzir panelas, vasilhas e potes, e mantinham acesos os dois fogos junto a rede do chefe da família. Eram o sustentáculo para o "esforço de guerra" tão cultivado pelo tupinambás.
 
Aos mais velhos cabiam repassar oralmente as histórias, o saber, e as orientações do que deveriam fazer, aos ainda jovens, em cada fase de sua vida.
 
Os tupinambás acreditavam que o homem tinha duas substâncias essenciais: uma eterna e outra transitória e ambas, o corpo e a alma, estavam ligadas.
 
 
 
KAÛÍ, A BEBIDA "DOS DEUSES"
 
Ó vinho, ó bom vinho! Jamais existiu outro igual!
Ó vinho, ó bom vinho! Vamos beber à vontade.
Ó vinho, ó bom vinho! Ó bebida que não dá preguiça!
 
Peguem as canoas! Passem pelas tabas: Yabebira – a aldeia maracanã, a do Peixe Pirá, de Eiraiá – atual Irajá - e sigam em direção a Guirá Guaçu, a aldeia com nome de águia, porque a festa vai começar!
 
Ao som dos marakás, chocalhos, flautas, tambores, pífanos e apitos, cantamos e dançamos. Tem que ter Kaûi ou Cauim, o licor sagrado que tanto adoramos.
 
A bebida era feita de raízes e frutos. As propriedades inebriantes do cauim eram feitas pela mastigação, e esse processo era considerado místico. Só mulheres, as mais lindas e puras, podiam participar da fabricação do "vinho". Os tupinambás eram beberrões respeitados e era difícil acompanhá-los. A festa poderia durar vários dias, enquanto houvesse bebida, porque disposição para consumi-la não faltaria.
 
... E todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado. Então veio castigo...
 
Um Rio teve que acabar para que outro pudesse surgir. Como poderia ter sido se tivéssemos respeitado a diversidade étnico-cultural? Enterrados no esquecimento perdemos o elo com nossa ancestralidade primal, perderam eles, perdemos nós, absurdamente privados dessa experiência!
 
 
GUAJUPIÁ, O QUE FIZEMOS DE TI?
 
Essa coisa do azul sobre o azul
Da calma sobre a calma
Às vezes me cansa
Às vezes me acalma
Eu paro no sinal vermelho
Uns pedem dinheiro
Uns sacam o revólver
Um outro expõe a própria dor
Segue o asfalto
Metálico fluxo
Saudade é um retrovisor
 
Há que se fiar no sol
E cultivar a luz
Purificar o pus
Deus
 
Assisto a vitória do bronco, do bruto
Do sínico e da servidão
Segue o espetáculo
No estádio, na tela
Parlamentam sobre a escrotidão
Mas quando a tribo invadir a floresta
Subindo até o Sumaré
E deslinkar a torre, o Brasil
Meu mano então como é que é?
 
Há que se firmar na terra
O teto, o viaduto
Proliferar o fruto
Deus
(em memória - letra da música "Palas Superficiais", de Marco Jabu)
 
 
"Cavam em busca de uma coisa
Que se sente estar profunda
Mas que foge e se esquiva
Quando chega à superfície
Uma coisa que está ali
Numa terra de mistério". 
(Poema de Joaquim Cardozo)                                                                                 
                                                                         


Autores: Renato Lage e Márcia Lage
 
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
- O RIO ANTES DO RIO
Autor: Rafael Freitas da Silva
Editora: Babilônia
 
- O POVO BRASILEIRO
Autor: Darcy Ribeiro
Editora: Companhia de Bolso
 
- DUAS VIAGENS AO BRASIL
Autor: Hans Staden
Editora: L&PM Pocket Descobertas
 
- Documentário Guerras do Brasil.doc – episódio 1 (NETFLIX)
Criação: Luiz Bolognesi

SINOPSE | Estácio de Sá: "Pedra"



A pedra, para o ser humano, representa a permanência do tempo. A camada externa e dura da Terra, a rocha.

A beleza sólida desse material é a essência de nosso planeta. E foi essa beleza sólida que nossos ancestrais usaram como caminho para registrar suas passagens pelo mundo.

Descobriu-se a beleza dos diamantes, de tantas pedras preciosas ou semipreciosas e do ouro. Foi esta uma das primeiras atividades de exploração dos homens no Brasil, mais precisamente em Minas Gerais, no século XVIII. A partir de 1771, criou-se a Real Extração, sob o controle da Coroa portuguesa, decreto que durou até mesmo depois da Proclamação da Independência. Foram as primeiras pedras que trilhamos no nosso caminho.

E vamos seguir pela estrada de Minas, pedregosa…

O poeta Carlos Drummond de Andrade nasceu e cresceu em Itabira, em Minas. Da janela de seu quarto, costumava observar o perfil montanhoso cujo destaque era o pico do Cauê. ‘’Chego à sacada e vejo minha serra, a serra de meu pai e meu avô, a serra que não passa … Essa manhã acordo e não a encontro britada em bilhões de lascas…”

Fora-se a Pedra, engolida pelo enorme trem, fora-se a pedra do poeta.

Outro escritor mineiro, Guimarães Rosa, enfocou “a biodiversidade do cerrado e o relevo constituído pelo calcário, rocha maleável e moldável pela ação das águas. O Morro da Garça só emite recados porque é uma pirâmide no meio de Minas e de uma história imemorial do garimpo, da pecuária, dos boiadeiros viajantes e da surda vidência sertaneja.”

Outra pedra que faz parte do nosso caminho é a Serra dos Carajás. Recebeu o nome de seus antigos moradores – os índios Carajás. Segundo suas crenças, eles nasciam do interior do solo – solo rico e pedregoso, repleto de grutas. Quando nasciam, saíam desse mundo subterrâneo para ir habitar a superfície.

A região é uma pedra enorme toda feita de ferro, e em seu entorno nascem pequenas cidades. Segundo uma artesã do Centro Mulheres de Barro, na cidade de Parauapebas, surgiram muitos conflitos por aquele rico pedaço de chão.

A própria cidade é um amálgama de pessoas vindas de todos os cantos do Brasil. Vêm do norte e do nordeste, do sul e do sudeste, vêm do centro e vêm do leste. Todas sonhando em extrair daquela terra as muitas riquezas que ela guarda. E acabam também formando uma amostra da variedade do povo brasileiro.

A rocha mais antiga que conhecemos uma lasca com pouco mais de dois centímetros, foi coletada na Lua pelos astronautas da nave Apollo. Tem quatro bilhões de anos.

A nossa Terra, vista da Lua, ainda é linda, azulzinha… Até quando?





Rosa Magalhães

Bibliografia consultada:
Cosmologia e Sociedade Karaja - André Amaral de Toral - Universidade Federal do Rio de Janeiro
Museu Nacional - 1992 - pags 145 a 162.
Pedra – O Universo Escondido – Denise Milan – S. Paulo – Bei Comunicação – 2018.
Maquinação do Mundo – Drummond e a mineração - Wisnik, José Miguel – 1a. edição-S. Paulo
– Companhia das Letras- 2018
Mitos e Lendas Karajás - Peret , João Américo - Rio de Janeiro 1979.
A margem do projeto ferro carajas - uma pequena contribuição a história social e cultural de Parauopebas  Rocha, Avon Jose Araujo - 1980 – 2009
A história de Parauopebas Força e Trabalho em Carajá - Miguel Angelo Braga Reis - 2016

sábado, 3 de agosto de 2019

De cabo a rabo: os 14 enredos do carnaval de São Paulo


Por Juliana Yamamoto e Luiz Felipe de Souza
Chegou a hora de conhecer os 14 enredos que as escolas de samba do Grupo Especial levarão para o Anhembi no próximo carnaval! Com uma atenção particular à pertinência cultural, é possível perceber o esforço das escolas para fugir de temas subjetivos e que, por algum tempo, marcaram a festa paulistana, aliando narrativas de cunho histórico a mensagens de tolerância e de diversidade.

Em ordem dos desfiles que cruzarão a sexta e o sábado de carnaval pela pista, o Carnavalize preparou um resuminho sobre o que cada escola de São Paulo defenderá no primeiro ano da próxima década, de 2020! Se liga aí e não deixe de carnavalizar com a gente:

Vice-colocada do Acesso 1 em 2019, a Barroca Zona Sul abrirá o carnaval com o enredo “Benguela... A Barroca clama a ti, Tereza!” em homenagem à trajetória de resistência de Tereza de Benguela, importante líder na história negra do Brasil, no quilombo do Quariterê. O tema é assinado pela comissão formada por Rodrigo Meiners, Rogério Sapo e Yuri Aguiar. A escola optou por não realizar uma disputa e encomendou um samba de boa qualidade. Confira aqui:


A Tom Maior também levará uma ode à negritude para a avenida com "É coisa de preto". Segunda agremiação a desfilar na sexta-feira, a escola busca trazer à tona nomes de grandes brasileiros negros e remover o estigma que associa  'coisa de preto' a algo negativo. A partir de personalidades de diversos setores, André Marins projeta a coroação da figura negra por meio daquilo que é essencial: respeito.

Mais feliz do que nunca, a Dragões da Real, comandada por Mauro Quintaes, trará “A revolução do riso: a arte de subverter o mundo pelo divino poder da alegria”. A escola quer cativar novamente o Anhembi, com um tom leve e descontraído, em busca do tão sonhado título e em perpetuar a mensagem de que a alegria e o riso curam.

Diferentemente da Dragões, com uma pegada mais reflexiva e existencial, a Mancha levará para o Anhembi o enredo "Pai! Perdoai, eles não sabem o que fazem!”, aproveitando o complexo contexto contemporâneo de intolerância e violência. Assinado por Jorge Freitas, o tema reconstrói a história da humanidade e reflete sobre as atitudes do homem. Ao reforçar a função social da festa, a Mancha politiza sua mensagem e clama pela autorreflexão em seu desfile. A escola já definiu seu samba. Ouça abaixo:


Já na onda dos enredos CEP (cidades, estados ou países), depois de dois títulos e um inesperado 7º lugar, a Acadêmicos do Tatuapé viajará para Atibaia no enredo “O ponteio da viola encanta... Sou fruto da terra, raiz desse chão... Canto Atibaia do meu coração”. A ideia do carnavalesco Wagner Santos é, as do som do instrumento tradicional do interior, fazer um tour pela cidade e por seus principais pontos turísticos, atividades e aspectos culturais, exibindo a riqueza do povo atibaiense.

O avião sai do município de Atibaia e voa internacionalmente até o Oriente Médio: “Marhaba, Lubñan” é o enredo da Império de Casa Verde! Para contar a história do país do cedros milenares, o Líbano, o carnavalesco Flávio Campello terá o desafio de transpor sete mil anos de história em 65 minutos no Anhembi. Em um tema que, segundo ele, emocionará o público, a escola pretende contar a história do país com todos seus elementos típicos e suas particularidades culturais.

Encerrando a primeira noite de desfiles, a X-9 Paulistana misturará os batuques brasileiros no enredo “Batuques para um rei coroado”. Rendendo homenagem às mais diversas manifestações rítmicas e artísticas do país, a X-9 de Pedro Magoo quer se apropriar da miscigenação do nosso povo e contar a história de como foram formados os principais ritmos que influenciam o samba-enredo. Pelo segundo ano consecutivo a escola encomendou seu samba, e você já pode conferir o resultado aqui:


Campeão do Grupo de Acesso 1 e retornando ao Especial depois de 4 anos, o Pérola Negra abrirá os desfiles de sábado com o enredo “Bartali Tcheran - A estrela cigana brilha no Pérola Negra”. A escola da Vila Madalena contará a história dos ciganos, com um grande tributo a este povo que surgiu há milhares de anos no norte da Índia e que foi brutalmente discriminado e driblador de diversas crueldades. O tema é assinado pelo carnavalesco Anselmo Brito, rumo ao seu quarto ano na agremiação.

Já nas bandas europeias e católicas, “Que rei sou eu?” é o título do enredo que a Colorado do Brás levará para avenida em 2020. Após sua estreia no Grupo Especial, a vermelho e branco sonha agora em alçar voos maiores com a história de Dom Sebastião, um dos personagens mais enigmáticos da humanidade. Uma vida marcada por mistérios, lutas, crenças e sabedoria será mostrada no Anhembi e Leonardo Catta Preta assinará o desfile da agremiação, que já possui o seu samba-enredo:


Sob a batuta da dupla estreante em territórios paulistanos, Paulo Barros e Paulo Menezes, os Gaviões da Fiel terão o amor como enredo. O enigmático título “Um não sei que, que nasce não sei onde, vem não sei como e explode não sei porquê" não revela muita coisa, mas, diante do seu aniversário de 50 anos, a agremiação lembrará de grandes histórias de amor - inclusive a paixão que rege seus torcedores.

“Dos cantos das Yabás, renasce uma nova Morada”, por sua vez, é o título do enredo que a Mocidade Alegre levará para o Anhembi em 2020. A escola do bairro do Limão promete mostrar um canto de esperança para que a humanidade melhore e retome sua conexão com Olorum – segundo a tradição iorubá, o criador do mundo – e, com isso, para que a terra volte a ser um paraíso. O enredo transmitirá a mensagem de que é fundamental reconhecer a sabedoria, a força e o poder feminino, por meio das Yabás, as orixás femininas. O carnavalesco Edson Pereira integrará a comissão de carnaval da Morada do Samba e fará sua estreia pela escola.

O Águia de Ouro, após retornar ao Grupo Especial e terminar na sexta posição no último ranking, reinicia a sua trajetória em busca do primeiro título. “O poder do saber. Se saber é poder... Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” é o título do enredo da agremiação da Pompeia que trará como tema o poder da sabedoria no mundo, por intermédio de suas invenções e os efeitos da falta desse importante elemento na sociedade. Será a estreia do carnavalesco Sidnei França na azul e branco.

“China: o sonho de um povo embala o samba e faz a Vila sonhar” é o último CEP do ano, título do enredo da Unidos de Vila Maria para o próximo carnaval, em que a Vila Mais Famosa exaltará suas tradições milenares, as importantes invenções para o mundo contemporâneo e também o grande poder que o país possui nos dias de hoje. Em 2019, contando a história da nação peruana, a agremiação terminou na quarta posição e agora, para 2020, sonha em alcançar o lugar mais alto com essa viagem asiática.

A responsabilidade em encerrar os desfiles do carnaval de 2020 será da Rosas de Ouro, preenchendo a avenida com os “Tempos Modernos”. Com início na Revolução Industrial e inspirada no histórico e monumental filme de Charles Chaplin, a azul e rosa abordará os avanços tecnológicos do mundo nos últimos séculos mediante uma viagem com o robô ROXP4. O enredo é assinado pelo carnavalesco André Machado, completando seu quarto carnaval na Roseira.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

SINOPSE | Estação Primeira de Mangueira: "A verdade vos fará livre"



“Vou pedir que me levem lá pro céu

Que cada dia chega mais perto do morro

E onde já viram Deus compondo

Um samba para escola desfilar”

(SAMBA de Hermínio Bello de Carvalho e Maurício Tapajós)


A VERDADE VOS FARÁ LIVRE

Nasceu pobre e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular. Sem posses e mais retinto do que lhe foi apresentado, andou ao lado daqueles que a sociedade virou as costas oferecendo-lhes sua face mais amorosa e desprovida de intolerância. Sábio, separou o joio do trigo, semeou terrenos férteis e jamais deixou uma ovelha sequer para trás.

Exaltou os humildes e condenou o acúmulo de riqueza. Insurgiu-se contra o comércio da fé e desafiou a hipocrisia dos líderes religiosos de seu tempo. Questionou o poder do império romano e condenou a opressão. Seu comportamento pacifista e suas ideias revolucionárias inflamaram o discurso dos algozes que passaram a excitar o estado a decretar sua sentença. O fim todos sabemos: Foi torturado, padeceu e morreu.

Séculos depois, sua trajetória ainda anda na boca dos homens e em seu nome, para o mal dito “de bem” – e com rígido contorno de moralidade - muito já foi realizado de forma estanque ao  sentido mais completo do AMOR por ele difundido. O amor incondicional, irrestrito e ágape.

Por isso, quando preso à cruz, ele não pode ser apresentado como um. Ser um, exclui os demais. Preso à cruz, ele é a extensão de tantos, inclusive daqueles que a escolha pelo modelo “oficial” quis esconder.  Sendo assim, sua imagem humana não pode ser apenas branca e masculina. Na cruz, ele é homem e é também mulher. Ele é o corpo indígena nu que a igreja viu tanto pecado e nenhuma humanidade. Ele é a ialorixá que professa a fé apedrejada e vilipendiada. Ele é corpo franzino e sujo do menor que você teme no momento em que ele lhe estende a mão nas calçadas. Na cruz, ele é também a pele preta de cabelo crespo. Queiram ou não queiram, o corpo andrógino que te causa estranheza, também é a extensão de seu corpo.

Sem anunciar o inferno, ele prometeu que voltaria. Acredito que, se ele voltasse à terra por uma encosta que toca o céu - para nascer da mesma forma: pobre e mais retinto, criado por pai e mãe humilde, para viver ao lado dos oprimidos e dar-lhes acolhimento - ele desceria pela parte mais íngreme de uma  favela qualquer dessa cidade. Talvez na Vila Miséria*, região mais alta e habitada do Morro de Mangueira. Ali, uma estrela iluminaria a sala sem emboço onde ele nasceria menino outra vez. Então, ele cresceria entre os becos da Travessa Saião Lobato*, correria junto das crianças da Candelária*, espalharia suas palavras no Chalé* e no "Pindura" Saia*. Impediria que atirassem pedras contra os que vivem nas quebradas e nos becos do Buraco Quente*. Estaria do lado dos sem eira e nem beira estranhando ver sua imagem erguida para a foto postal tão distante, dando as costas para aqueles onde seu abraço é tão necessário.

Se sobrevivesse às estatísticas destinadas aos pobres que nascem em comunidades, chegaria aos 33 anos para morrer da mesma forma. Teria a morte incentivada pelas velhas ideias que ainda habitam os homens. O amor irrestrito ainda assusta. A diferença jamais foi entendida. Estender a mão ao oprimido ainda causa estranheza. Seria torturado com base nas mesmas ideias.

Morto, ressuscitaria mais uma vez e, por ter voltado em Mangueira, saudaríamos a possibilidade de vermos seu sorriso amoroso novamente com o que aqui fazemos de melhor. Louvaríamos sua presença afetuosa com samba e batucada. Vestiríamos todos nossa roupa mais cara. Aquela de paetês e purpurina. De cetim com joias falsas. Desfilaríamos diante dele e, em seu louvor, instauraríamos a lei que rege nossos três dias de folia. Sem pecado, irmanados e em pleno estado de graça.

Explicaríamos nessa ocasião que a cruz pesada que carregamos como fardo ao longo do ano nos é tirada das costas no carnaval. Por ter vencido a morte e sem ter o peso de sua cruz nas costas, ele sorri para a baiana que desce para se apresentar. Ele acena com a mão direita para a passista que amarra a sandália, enquanto a mão esquerda dá a benção para o ritmista que rompe o silencio com a levada de seu tamborim.

Fitando o céu, ele parece ver algo ou alguém acima da linha do horizonte . Sorri, como se pego em meio a brincadeira e se soubesse humano também.  Entendendo que ali ele é rebento e que todos, sem exceção, são seu rebanho; ciente de que o pecado, por vezes, é invenção para garantir medo e servidão, ele pede para que toda essa gente que brinca anuncie enquanto canta sorrindo: A VERDADE VOS FARÁ LIVRE.

 Vila Miséria* Travessa Saião Lobato* Candelária* Chalé* Pindura Saia* Buraco Quente* - Todos os nomes referem-se a localidades ocupadas pela comunidade do Morro da Mangueira.

Rio de Janeiro, Julho de 2019.

PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E TEXTO: LEANDRO VIEIRA

domingo, 14 de julho de 2019

SINOPSE | Unidos de Vila Isabel: "Gigante pela própria natureza: Jaçanã e um índio chamado Brasil"


CARNAVAL 2020 - GIGANTE PELA PRÓPRIA NATUREZA:
JAÇANÃ E UM ÍNDIO CHAMADO BRASIL

SINOPSE DE ENREDO

Abriram-se as margens do rio ao sol nascente,
que esverdeava ainda mais a mata e azulava o céu incandescente,
para desvendar uma lenda indígena
que falaria a um pequeno índio-menino sobre uma relíquia.
E com o menino começamos a caminhada...
Perto do rio, o curumim levantou-se cedo – a pesca o esperava!
Animado na alma com a vida na mata,
bebeu escondido aluá e fartou-se com a pupunha da sua mãe que sempre o alimentava.
Beijou-a e sozinho, fingindo ser o homem que ainda não era,
pulou em sua canoa sem destino
rumo à peripécia que, os grandes, espera.
Pelo rio, com riso nos lábios e vontade de alegria na pescaria e na jornada,
o curumim gritava alto às águas para espantar Boiúna, ou tudo, ou nada:

“Eu sou Brasil! Tenha medo de mim!
Aqui quem fala é um pequeno gigante
que já pesca com vontade danada de gente grande!”

A canoa em frente, a flecha armada,
curumim pescava e brincava baixinho para conseguir pegar a jatuarana sem espantá-la.
Com o sol forte da manhã, entretanto,
Brasil resolveu descansar do seu gracejo.
O pequeno deitou-se na canoa embalada pelo banzeiro
e adormeceu para sonhar o sonho dado ao miúdo bravo guerreiro...
A canoa, no mundo da fantasia, transformou-se em Jaçanã e partiu...
Levantou voo do rio e Brasil a tudo assistiu:

“Pequeno menino, quero lhe contar sobre a sua irmã tão mais nova que é quase filha!
Será forte e esperançosa, um ponto de luz no universo que nascerá em abril.
Sabe-se que ela terá muito a dar aos homens e mulheres de boa vontade na terra,
e que será grande, gigante, reta, moderna,
só podendo ser entendida se soubermos sobre sua pátria-família,
a verdadeira mãe e geradora da sua irmã nessa cantiga”.

A Jaçanã, montada pelo menino e com asas batendo forte,
foi primeiro para baixo cruzando serras no céu anil.
Mostrou ao pequeno Brasil um pampa aberto sob as estrelas, enorme!
Lá, irmãos brancos de cabeças amarelas montavam seres mágicos
e galopavam amarrando com laços outros bichos encantados.
Tomavam bebida quente em cuias e, Brasil, espantado, ouviu deles o recado:

“Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
tomba: é a chuva que cai e que, o Paranoá, rega;
e a cada gota, ali, cada gérmen se apega
fecundando, a minar modernamente, toda a terra”.

Jaçanã levantou-se de novo voando para longe
dando adeus aos cabeças-amarelas que apontavam para outro fronte.
Brasil desconfiado não entendia o sonho: seria um delírio?
“Não, pequeno menino meu...” – disse Jaçanã. “É uma profecia!”.
Chegando em outro pedaço daquele mundão, Brasil viu irmãos orando e rodando
pedindo clemência pela dança a Deuses que o índio desconhecia.
O povo preto clamava igualdade e liberdade,
e na dor sofria
sem esquecer nunca a força ancestral que para sempre na resistência lhe caberia.
O povo preto um beijo deu na Jaçanã e ao Brasil declamou um pouco de crença
afinando a profecia:

“são duas asas unidas
de dois pajés construtores nascidas.
Talvez do mesmo arrebol,
vivendo toda a gente no mesmo chão arado e concretado,
da mesma gota de orvalho,
do mesmo raio de sol”.

O menino ainda não entendia... O que era essa tal profecia?
Jaçanã com pressa, pois sonhos têm prazo certo,
decolou e ali perto encontraram outro pedaço de terra
que misturava areia, água salgada e pedra.
A gente irmã suada do litoral também apontava para outro local
e embebida nas cantorias e Novas Bossas suas sinas,
misturando-as com palavras das Minas,
profetizou o futuro do seu passado para o menino:

“‘No princípio era o ermo
eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
no princípio era o agreste:
o céu azul, a terra vermelho-pungente
e o verde triste do cerrado.
Eram antigas solidões banhadas
de mansos rios inocentes
por entre as matas recortadas.
Não havia ninguém. A solidão
mais parecia um povo inexistente
dizendo coisas sobre nada’.
Mas...
‘Para cantar, pelas Duas Asas, de amor tenros cuidados,
Tomem entre vós, do mineiro cacique, a vontade e o instrumento;
Ouvi pois, dos Candangos, o fúnebre lamento;
Se é que de compaixão sois animados’”...

Jaçanã enfim pronunciou:

“Está vendo, menino Brasil, o que essa gente toda conta?
Querem amor e união em uma nova casa pronta!
Modelada por dois pajés, realizada pelo cacique e feita por nobres sofredores Candangos,
com a ajuda e a idealização de tantos outros de agora e de outrora,
será o projeto moderno centro desse chão!
Nova pindorama de árvores retorcidas nascida porque filha dos filhos dessa terra em confraternização!”.

Voou então a ave para outro rincão
para mostrar uma família que tanto padecia
no sol lascado braseiro de testas, Vidas Secas e Severina!
Pés marcados no chão rachado e as mãos apertadas sem brecha,
todos da família oravam de joelhos pedindo esperança e bom agouro,
alguns dos futuros Candangos esses cabras-da-peste.
Quando viram Jaçanã e o menino Brasil, logo correram e apontaram para o Oeste:

“Ave Musa incandescente
do deserto do Sertão!
Forje, no Sol do meu Sangue,
o Trono do meu clarão:
cante as Pedras encantadas
e a Catedral Soterrada,
Castelo deste meu Chão!”.

E, rápida, para o longínquo Centro-Oeste,
onde outros Candangos de lá já aguardavam,
Jaçanã levou o pequeno Brasil.
Pousou no meio daquele cerrado e ela mesma, antes de sumir, sorriu:

“Brasil, no futuro essa profecia se revelará a um Padre-Santo
em outro sonho para se realizar em moderno Piloto Plano!
O que os cabeças-amarelas, os pretos,
os filhos do mar, das Minas e os futuros Candangos recitavam e apontavam
será aqui: sua irmã, o lugar de fé que unirá aquela gente, aquele povo todo,
para o mundo jorrando leite e mel com gosto...
A terra mística no alto desse Planalto
que se levantará tentando nos dar ‘sessenta’ anos em cinco de avanço sem percalço
com tanta gente junta que se esparramarão para além das Asas da casa,
deitando-se até em seu entorno
com as cores das suas culturas servindo de reboco!
Vem, menino Brasil, anime-se! Sua irmã Brasília será ave que voa e rodopia!”.

Deitou-se então no seu jazigo e, abrindo as duas asas,
Jaçanã ao chão se fundiu, o corpo inteiro tornando-se asfalto e magia.
Um pássaro que viraria casa para o Brasil, quem diria?!...
Daí a queda! A volta! Um clarão!
Uma marola sacudiu a canoa e acordou o bravo menino de supetão!
Brasil navegou ligeiro de volta não mais à toa
deixando as jatuaranas animadas na água boa.
Pé na margem, foi correndo contar para sua mãe o sonho da canoa!
“Mamãe, Mamãe! Sonhei com uma profecia!”.
A mãe no chão, sisuda de terra, ouvia...
Pediu calma ao menino, pois também tinha uma linda notícia,
e sorria:

“Filho meu, Brasil pequenino...
Descobri hoje com o xamã que você terá uma irmã!
Em sua homenagem se chamará Brasília!
Uma menina-Brasília que será gigante pela própria natureza!”.

Alma cheia d´água, o menino pressentiu:
sabia que cedo ou tarde sua irmã seria grande como aquele rio
e no futuro a filha da profecia!
Pensou na Jaçanã e feliz decidiu ir brincar:
quem sabe se o destino de todo mundo não é sempre para uma casa voltar? 
Mas, se tudo isso é estória,
fato mais bonito (re)inventado do sonho de um curumim lendário talhado na memória,
a realidade é outra coisa...
Contudo, pede-se licença para imaginar contos de límpida felicidade no Carnaval
para nesses dias acalmar o sofrimento incessante do doloroso real.
Assim, Vila Isabel, canta essa Brasília irmã com o pequeno Brasil e sua Jaçanã,
a doce morada nos dada de encomenda
pelas bênçãos do céu azulado orvalhando o cerrado!
Bênçãos da Aparecida Nossa Senhora,
Padroeira dos filhos do Brasil e da nossa Brasília, desejosas de igualdade generosa!
Livrai-nos, Santa, da dor e do mal,
cravando nas retas da cidade as curvas do coração
desse povo bravo, heroico, sofrido,
estopim da chama da cidade candente de migração...
Ah, Brasília! Pois honrando tua inspiração
que caibam no teu seio muitos Brasis forjados pela oração!
Recebe-nos, Irmã, com lágrimas de misericórdia então
e cuida, enfim, dos gemidos da nação em oferenda,
pois na Sapucaí, só por hoje, saibam todos,
o resto tudo é tudo lenda...

Autores: Edson Pereira, Clark Mangabeira, Victor Marques
Texto e pesquisa: Clark Mangabeira e Victor Marques

terça-feira, 9 de julho de 2019

Do Setor 1 à Apoteose: Tupinicópolis - Mocidade Independente 1987

Acompanhe toda terça-feira um novo texto da série Do Setor 1 à apoteose, com todos bastidores de um desfile.





Após vencer o campeonato de 1985 com icônico enredo "Ziriguidum 2001 - O carnaval nas estrelas", o carnavalesco Fernando Pinto despediu-se da Mocidade por algumas desavenças com a diretoria da verde e branca. Entretanto, após o fracasso da apresentação de 1986, com o estranho enredo "Bruxarias e histórias do arco da velha", o artista tropicalista marcou seu reencontro com Padre Miguel. Para tentar alçar um voo de proporção ainda maior que a viagem sideral de outrora, Fernando criou um enredo ainda mais ousado e delirante. Nascia, assim, a metrópole retrô-futurista, símbolo do Tupi Power: a grande Tupinicópolis.

Fernando Pinto voltaria à temática indígena quatro anos após tê-la abordado de maneira pioneira, num grito de preservação ecológica em "Como Era Verde Meu Xingu", e de maneira idílica em "Viagem Encantada Pindorama Adentro", em 1973, no Império Serrano. Dessa vez, a ideia era ilustrar uma cidade comum, semelhante a qualquer outra brasileira, exceto fato de ser dominada por índios. Todos os elementos de uma grande metrópole foram representados nas alegorias e alas, aliando ícones da nossa cultura com a temática indígena. Assim, nascia a lendária cidade do terceiro milênio. 

Com cocar na cabeça e patins nos pés, venha passear por esse mundo incrível a partir de agora, na descrição do desfile de ponta a ponta.


"Vejam quanta a alegria vem aí, é uma cidade a sorrir"





A ironia festiva que marcaria o desfile já dava  o ar de sua graça na Comissão de Frente, em que enormes caciques de terno, óculos escuros e malas de couro saudavam o público. A junção de símbolos tão díspares, num misto de crítica social e celebração, pautariam um desfile dúbio e com forte herança do movimento tropicalista, que marcou a arte brasileira nos anos de 1960. O abre-alas marcaria uma grande inovação, apostando numa abertura monumental, já que cinco chassis diferentes formavam uma grande alegoria acoplada e que trazia a primeira visão geral da Taba de Pedra. Depois de inventar o acoplamento na inesquecível Nave Mãe, de 1985, o carnavalesco voltaria a investir na grandiosidade de seus carros. 

Num processo narrativo simples mas cheio de camadas, a cidade indígena passava diante dos olhos do espectador numa série de fragmentos e imagens que parecem ilusórias e alucinógenas. Placas de trânsitos, operários, trabalhadores, caipiras e esportistas; tinha todo tipo de gente em Tupinicópolis. Nas alas, a aposta foi em grandes esplendores de fácil leitura para facilitar a comunicação de tamanha multiplicidade cultural. 


"E a oca virou taba, a taba virou metrópole, eis aqui a grande Tupinicópolis"



Alguns dos maiores destaques do desfile seriam as divertidas marcas locais criadas por Fernando Pinto, abusando de sua irreverência, com nomes de elementos culturais indígenas associados a outras referências dos mais diversos tipos. Nesse processo de justaposição de significados, sugiram as mais inusitadas misturas, como o Supermercado Casas da Onça, em referência a Casas da Banha; o Shopping Boitatá, que representou uma das alegorias mais bonitas daquele desfile, repletos de eletrodomésticos, e produtos divertidos como o xampu Jurema Maracujá. Um grande chafariz de verdade chamava atenção no meio da alegria que apresentava o consumo agressivo e contraditório. Outra febre de consumo era a Farmácia Raoni, repleta de chás para diversas doenças e de várias pajelanças, foi representada em uma das várias alegorias. A ala dos tupiterapeutas, uma mistura de médico e pajé, veio na sequência.

Para fazer tantas compras, a cidade tinha sua própria moeda! No momento seguinte do desfile, o Banco Tupinicopolitano foi mostrado. A moeda vigente no Brasil, então, foi colocada lado a lado do Guarani usado na cidade futurista, onde 500 cruzados valeriam apenas uma unidade da moeda indígena, numa crítica a inflação  que começava a assombrar os brasileiros. A bateria se apresentou belamente vestida de fraques e cocares, com destaque, mais uma vez, para a inesquecível Monique Evans, representando Iracema II, como rainha dos ritmistas. Bira, Jorjão e Léo comandaram a Bateria Nota 10 (assim era chamada naquele tempo), que foi mais uma vez impecável, e Ney Vianna conduziu muito bem samba ao lado de David do Pandeiro. 

"Boate Saci, Shopping Boitatá, Chá do Raoni e Pó de Guaraná..."



Como boa cidade globalizada, Tupinicópolis também tinha seu lazer e muitas foram as alegorias que marcaram o divertimento no lugar. O primeiro a passar na avenida foi o Tupinambá Esporte Clube, que veio representado em verde e amarelo, com bandeiras e uma réplica da taça Jules Rimet, símbolo do futebol. As figuras das Olimpíadas e da miss de Tupinicópolis também foram criações de Fernando. Grandes letreiros luminosos tomaram conta da paisagem do desfile, como de filmes de ficção científica e que começavam a tomar conta das metrópoles, neles se via representado locais como o Cine Marajoara (em cartaz, Iracema II), o Teatro Jacuí, Motel Karajás, as Saunas Amazonas, Gambá Drink’s, Boate Karajás e do Hotel Pirarucu, todos representando a agitada vida noturna da cidade.



Os prazeres da noite de Tupinicópolis trouxeram, ainda, o carro da Discoteca do Saci, com uma pista de patinação quadriculada, efeitos de fumaça, utilizada por índios-punks de patins, óculos escuros e cabelos espetados. O carro tinha um cenário vazado com grandes pistas de danças num formato pouco usado no carnaval carioca. A estrutura modernosa e a imagem síntese de nativos patinando como punks foi um dos grandes marcos do desfile. Depois, a ala do cassino abriu passagem para o carro do luxuosíssimo Cassino Eldorado, com jogos de azar, roleta, dados, cartas e espetáculos com shows de revista. O carro do Bordel da Uiara, o mais procurado pelos endinheirados, veio repleto de índias de topless, rodando bolsinha, com perucas coloridas, meia arrastão, plumas, óculos escuros e uma piranha na cabeça. Outra imagem irônica e multi-cultural que deu o tom da apresentação. 


"Até o lixo é o luxo quando é real, Tupi Cacique, poder geral"


Na sequência dos prazeres e do entretenimento, a força bélica e social da cidade desfile em alas e alegorias. A Prisão Jurupari trouxe prisioneiros com a inscrição 171 no uniforme. Nesse setor, esteve presente o casal de mestre-sala e porta-bandeira Roxinho e Irinéa, que acabou desfilando sem chapéu, o que foi levantado por Fernando Pamplona na transmissão da TV Manchete, fato que poderia custar pontos preciosos.



O pequeno setor que representava a força bélica do lugar começou com um grande letreiro apresentando a Tapioca dos Poderes, de onde surgiram as forças armadas de Tupinicópolis, representadas pelos carros do tatu guerreiro (exército), marreco bélico (marinha) e gaviavião (aeronáutica).



Uma das mais enigmáticas e emblemáticas alegorias do desfile surgiria logo depois. Um teclado de computador e uma tela com o busto de um Cacique representariam a soberania e sabedoria da cidade, programadores do grande cérebro tupiniquim (a Tupi informática). A ideia era mostrar que a grande força da cidade era, na verdade, um sistema operacional, ou seja, os computadores mandavam na cidade. Assim como a mais rebuscada das ficções científicas que faziam muito sucesso na década de 1980.



A ala seguinte trouxe a feijoada tupi na cabeça. Enquanto, as crianças passaram de garis com vassouras na mão. O último carro da escola, Tupilurb, o Lixo do Luxo, representando a limpeza da cidade, trouxe sucata de carros, tevês, geladeiras, escombros e uma réplica de pontos turísticos brasileiros de outrora, como o Cristo Redentor, Elevador Lacerda e Monumento aos Pracinhas; era o lixo do velho mundo. A última alegoria marcava um grande "plot-twister" da narrativa do desfile, mostrando que Tupinicópolis se passava séculos a frente do tempo atual. Na ficção inventada, os indígenas expulsavam os brancos do país e formaram seu próprio lugar.

"Minha cidade, minha vida, minha nação, que faz mais verde meu coração"


Se no aspecto plástico e narrativa, Fernando Pinto havia criado um obra-prima pouco vezes vista na história do carnaval. O quesito de samba-enredo foi um dos mais discutidos daquela apresentação. Tudo começou já em uma disputa acirrada. A obra vencedora desbancou o favoritismo da parceria de Tiãozinho Mocidade, que havia composto o hino campeão de 1985. Optou-se uma canção mais descritiva, que embora alegre e com boa leitura sobre o enredo, deixava a desejar em riqueza melódica. Na apuração disputada, a verde e branco perdeu para a Mangueira por um ponto, num resultado controverso e discutido até hoje. Alguns apontam o samba como fator preponderante.



O segundo lugar ajudou a fixar a apresentação na memória afetiva de torcedores independentes e amantes do carnaval em geral. Até porque, ele seria o último preparado totalmente em vida pelo genial carnavalesco de cabelos cacheados. Em novembro daquele ano, na preparação para o desfile, Fernando Pinto morreria num acidente de carro na Avenida Brasil, voltando da quadra da Mocidade. Para se ter ideia de como a apresentação marcou diferentes estilos e gerações de carnavalescos, ele seria o favorito de artistas como Rosa Magalhães, Jorge Silveira e Paulo Barros. Ganhando ainda diversas releituras e referências no carnaval, como em desfiles na Renascer de Jacarepaguá, em 2010, e na Mocidade Independente, em 2014.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Do setor 1 à Apoteose: Goitacazes, tupy or not Tupy, in a South American Way! - Imperatriz Leopoldinense 2002

Durante julho, toda terça tem texto novo da coluna "Do Setor 1 à Apoteose", não perca!





O ano é 2001, início do século XXI. A Imperatriz se consolidava como a maior vitoriosa da era Sambódromo até então, com nada menos que seis títulos. Destes, apenas um não tinha sido conquistado na estadia de Rosa Magalhães, que ia para sua décima primeira apresentação pela verde e branco de Ramos. A conta é simples: eram cinco títulos em dez dos primeiros carnavais do que seria um dos mais duradouros casamentos da folia carioca. 

Depois de um polêmico tricampeonato na virada entre os séculos, discutido de modo acalorado até hoje, a Rainha de Ramos se afirmava como dona do estilo dos "desfiles técnicos". Organização, competência e a briga pelo quesito a quesito eram a joia da coroa, em uma era na qual o carnaval se mostrava mais espetacular do que nunca e lógica empresarial se permeava nas idealizações dos desfiles. Noves fora, eram indiscutíveis o talento e a genialidade de Rosa Magalhães, em meio às posições contestadas por outras agremiações. A artista, revelada pelo grupo de Fernando Pamplona na década de 1970, consolidou-se como uma das principais potências da festa, aliando pesquisa histórica, bom gosto em cada detalhe e seu marcante estilo barroco. 


"Campos, terra dos índios Goitacazes"


O abre-alas A Grande Comilança. Foto: Wigder Frota

Algo hoje cada vez mais raro em meio às crises contemporâneas, os patrocínios de quantias milionárias ditavam as regras naqueles início dos anos 2000, por isso, as escolas corriam atrás deles com seus pires na mão. Naquele ano, não foi diferente para a Imperatriz, que arrumou as malas para embarcar em uma viagem pelo nordeste do estado fluminense. A cidade de Campos dos Goitacazes vivia um boom econômico, que motivou um gordo cheque para que a verde e branco contasse a sua história. Enganou-se, porém, quem achou que as belezas da arte, da culinária e da cultura popular do lugar desfilassem em cortejo com um enredo previsível e convencional aos chamados temas CEPs. Afinal, estamos falando da mente brilhante de uma artista lendária brasileira. 

Na sua extensa pesquisa para desenvolver o tema, Rosa Magalhães encontrou uma palavra no próprio nome da cidade que levaria a narrativa para lugares inimagináveis. Ao ler uma ata da Câmara Municipal, algo despertou a atenção da carnavalesca. Era uma discussão para lá de acalorada sobre o nome da cidade, alguns vereadores queriam manter o Goitacazes no título, outros preferiam apenas "Campos". Mas, enfim, quem eram os Goitazacazes?

O nome vinha de uma tribo indígena que habitava a região, só que um pequeno detalhe chamava a atenção: não parecia uma tribo qualquer, o grupo era famosos por ser canibal. Foi daí que Rosa partiu para um rumo inesperado em seu enredo. A antropofagia e a cultura indígena eram temas recorrentes na cultura brasileira através dos séculos. Será que não dariam um bom carnaval?


"Na Europa, a notícia rolava: índio come gente! Quem diria?"


A comissão de frente trazia os Bichos Papões (Foto: Wigder Frota)


Sempre aguardada, após apresentações memoráveis, a Comissão de Frente da Imperatriz mais uma vez brilhou naquele ano. Incorporando o enredo, o grupo se vestiu de Bicho-Papão e desfilou de maneira irreverente e apetitosa na Sapucaí. Os bichinhos formavam, junto com o abre-alas, uma aposta cromática escura e pouco vista nas aberturas de Rosa Magalhães. Depois de muitos anjinhos barrocos e globos giratórios, a primeira alegoria apostava em um visual propositalmente mal-acabado e repugnante. A história por trás dessa criação era a mais inusitada possível. Um incêndio de pequenas proporções havia acometido o barracão meses antes e equipe de criação se aproveitou dos itens queimados para incorporar na alegoria, dando um resultado que foi mal compreendido à época, apesar de sua ousadia. 

Os dois setores seguintes da apresentação seguiriam apostando em bocas abertas, dentes afiados e índios gulosos. A ideia era mostrar a vida dos indígenas goitacás. Depois do negro da abertura, o vermelho e verde deram o tom do segundo setor até chegar ao azul da terceira alegoria, intitulada "A pescaria com os tubarões". Com enormes animais marítimos ferozes, a alegoria impressionou pelo apuro estético, indicando a assinatura inconfundível da professora.


"Peri beijou Ceci ao som do Guarani, um gesto de brasilidade"


Após o início tribal, Rosa Magalhães expandiria seu enredo para muito além do perímetro urbano da cidade patrocinadora. Mergulhando no romantismo brasileiro, a narrativa prestaria uma homenagem à história do "Guarani", o clássico livro de José de Alencar, que falava do amor entre um índio e a donzela Ceci. Não por coincidência, o lendário Peri era justamente um índio da tribo goitacá. E apesar do romance não se passar em Campos, o elo entre os setores estava realizado com maestria e genialidade. Para arrematar, a famosa ópera de Carlos Gomes sobre a história romântica seria ilustrada na alegoria daquele setor.

O casal Maria Helena e Chiquinho e pavilhão da Imperatriz (Foto: Wigder Frota)

Absorvendo a beleza natural brasileira, o icônico casal de mestre-sala e porta-bandeira Maria Helena e Chiquinho brilharam com uma roupa nas cores da bandeira nacional, repletas de folhagens, frutas e estampas de onças. O casal já defendia o pavilhão gresilense há mais de dez anos e se firmava por seu estilo inconfundível. Logo depois, a bateria de mestre Beto inovava ao trazer bossas bem marcadas e criativas ao samba-enredo, como destacou Ivo Meirelles na transmissão da Rede Globo. 

A composição de Marquinhos Lessa, Guga e Toninho Professor foi interpretada por Paulinho Mocidade em seu terceiro ano consecutivo na agremiação e logo após ter recebido o Estandarte de Ouro na sua categoria no ano anterior. Depois de disputada acirrada, como é tradição na Imperatriz, o samba mais descritivo, e que dava conta do complexo enredo, tinha grandes momentos em sua letra. O refrão para cima e valente tentava aproximar o público da escola, até então mal vista pelos torcedores concorrentes diante das vitórias consecutivas. Se a arquibancada não empolgou, a comunidade da Zona da Leopoldina mostrou sua força técnica, com uma boa apresentação de canto. Na evolução, entretanto, a agremiação não foi tão perfeita assim e abriu pequenos clarões na pista, com um problema em uma das alegorias.

A bateria incorporava a onça do livro "Guarani" (Foto: Wigder Frota)

Buscando se aproximar do público, a direção da I distribuiu a letra do samba e bandeirinhas verdes e brancas ao Setor 1, mas o tiro acabou saindo pela culatra. Os objetos foram "devolvidos" pela arquibancada, em um episódio controverso de falta de educação. 


"E deu tupy or not tupy, eis a visão do artista"


Após a história indianista em letra e música, Rosa mergulhou ainda mais na História da Arte Brasileira. Depois da antropofagia física e real, a filosofia modernista deu o tom do desfile. Baseada no texto de Oswald de Andrade de 1928, o setor mostrou toda a antropofagia como método poético brasileiro. Para materializar essa filosofia, a obra plástica de Tarsila do Amaral foi escolhida.

As fantasias que se inspiravam nas obras de Tarsila do Amaral (Foto: Wigder Frota)

Das telas da famosa pintora brasileira, Rosa Magalhães e seu figurinista Mauro Leite tiraram a inspiração para criar fantasias que bebiam da fonte de quadros famosos como "A cuca" e "Mamoeiro". O tom verde vibrante e o traço geométrico da artista paulista foram representados com vigor em alas e na alegoria que encerrou aquele quadro. O quadro "Antropofagia", que mistura as célebres figuras de "A negra" e "O Abaporu", foi materializado de maneira impecável. 

Seguindo uma narrativa propositalmente fragmentada. Depois do modernismo, foi a vez do Tropicalismo invadir a Sapucaí. O movimento cultural iniciado na música por Gil e Caetano foi lembrado por resgatar a antropofagia modernista e dar a ela novo significado. Cafona, exagerada e festiva, a Tropicália celebrava um Brasil profundo e sem preconceitos, unindo o brega e o internacional. Alguns marcos do movimento foram lembrados em alas e a montagem teatral de "O Rei da Vela", de Oswald de Andrade, foi escolhida para ilustrar a sexta alegoria, em que o cenário de Hélio Eichbauer, da montagem do Teatro Oficina, foi usado como referência.

O carro "Rei da Vela" encerra o primeiro setor tropicalista do desfile (Foto: Wigder Frota)

O tom alegre da Tropicália seguiu no setor que homenageou Carmem Miranda, a cantora luso-brasileira, que internacionalizou a figura da baiana e foi resgatada como ícone cultural pelo movimento brasileiro ao dissipar toda sua brasilidade em fantasias coloridas e cheias de frutas. Partindo do imaginário dos índios canibais, Rosa mergulhou em um caldeirão vibrante da nossa cultura na qual revelou todo seu repertório e apresentou um enredo tanto quanto inusitado para a folia. 


"Hoje o couro vai comer, auê!"


Não acertou quem achou que o belo olé que a professora havia dado no tema patrocinado passaria em branco. A prefeitura de Campos não ficaria nada satisfeita com o enredo pouco tradicional sobre os costumes do lugar e acabaria processando a escola de Ramos por quebra de contrato. Problema judiciais à parte, a beleza e a técnica da apresentação da verde e branco também não repercutiriam bem na imprensa da época. 

O último carro apostava numa estética multicolorida ao falar de Carmem Miranda (Foto: Wigder Frota)

Os jurados, semelhantemente, não pouparam críticas ao desfile, guardando comentários negativos para o abre-alas e a última alegoria, acusando a carnavalesca de não atingir o "nível máximo de requinte e criatividade de anos anteriores". Mesmo com alguns 9,8 e 9,7 no caminho, a Imperatriz não saiu muito atrás no resultado final em uma apuração para lá de acirrada e, apesar de não conseguir um sonhado tetracampeonato, conquistou um honroso terceiro lugar, atrás apenas da campeã Mangueira e da vice Beija-Flor. 

Mesmo não lembrado em grandes coletâneas sobre as maiores apresentações do século XXI, o desfile de 2002 seria uma verdadeira aula de Artes de Rosa Magalhães. Ao dar uma volta no tema patrocinado de forma tão singular, a artista afirmou sua genialidade por meio de uma narrativa complexa e bem estruturada em fragmentos nos quais constavam a história indígena brasileira de modo alegórico e festivo. Na pista, a Imperatriz fez, mais uma vez, um cortejo técnico e defendeu bem seus quesitos, mostrando o porquê de ter firmado seu nome na história do carnaval carioca.

Rosa Magalhães no desfile. (Foto: Wigder Frota)




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