domingo, 30 de abril de 2017

Carnavalizadores de Primeira: O samba de pé de passistas históricas

por Leonardo Antan e Beatriz Freire.





As alas de passistas do carnaval são a representação do verdadeiro samba no pé. O papel dessas componentes vai muito além da imagem vendida de mulatas com biquínis pequenos e corpos bonitos, que movimentam suas pernas e quadris ao longo da melodia. Atrás de sorrisos, requebrados e muito samba, há, sobretudo, histórias de mulheres fortes, independentes, donas de suas próprias escolhas, de diferentes jeitos, que amam suas escolas e são exemplos de força, superação, coragem e pioneirismo.
Hoje, em uma matéria pra lá de especial e no clima do Prêmio Passista Samba no Pé, o Carnavalize convida a conhecer as histórias de dez grandes, inesquecíveis e fortes mulheres que gravaram seus nomes em nossas memórias e corações, riscando o chão da Avenida. 

Maria Lata D'Água



Lá vai Maria! Um das primeiras passistas a fazer sucesso nacional, se tornando símbolo da folia carioca, a Maria Mercedes ficou conhecida por se requebrar equilibrando uma grande lata d'água. Nascida em Diamantina (MG), foi morar no Rio de Janeiro antes de completar 13 anos. Começou a se apresentar em circo e boates, fazendo show com outros artistas. No carnaval, ela começou sua trajetória no Salgueiro, mas não a permitiram sambar equilibrando a lata. O visual característico só encantou a passarela em sua estreia na Portela. Foram 45 anos de desfiles, com passagem por inúmeras escolas, entre elas Salgueiro, Portela, Estácio de Sá, Mocidade e Beija-Flor. A mulata começou a fazer sucesso na década de 1950, quando passou a frequentar o programa do Chacrinha e fazer shows na Rádio Nacional, onde ganhou a marchinha em sua homenagem composta por Luís Antonio e Jota Júnior, imortalizada pela cantora Marlene. Hoje, com 83 anos, a eterna passista se converteu à religião católica e lançou uma autobiografia contando sua história. 

Paula do Salgueiro


Responsável pelo surgimento do termo passista, os requebros sedutores de Paula da Silva Campos conquistaram todo o Brasil de maneira tão avassaladora que se tornou necessário um nome para batizar a dança da mulata salgueirense. A forma de Paula de dançar era tão característica e envolvente, que os jornalistas inicialmente passaram a chamá-la de malabarista. Até surgir o nome "passista", que daria nome aos dançarinos do samba. Paula desfilou na escola que a batizou para o mundo desde o primeiro ano da vermelho e branco, em 1954. Mas foi em Niterói, na década de 40, que ela iniciou sua carreira na pequena "Combinado do Amor". Empregada doméstica, Paula encontrou no carnaval uma nova forma de sustento, passou a ser figurante no teatro e virou dançarina de companhias como a de Mercedes Baptista, com quem viajou o mundo. Atravessou a avenida até o final da década de 1980, quando participou da fundação da Tradição.

Pinah



Mineira, Pinah mudou-se de Muriaé para o Rio de Janeiro com os pais aos dois anos de idade. Tempos depois, a modelo e contadora foi apresentada ao mundo do samba. Foi no Salgueiro da década de 70 que Pinah conheceu Joãosinho Trinta, de quem virou amiga. Por lá viu os títulos de 74 e 75 e permaneceu por mais um ano, até 76, sua despedida, quando finalmente aceitou o convite do amigo Joãosinho para ir para a Beija-Flor de Nilópolis. Onde colocou seu nome na história, em 78, quando participava de um festejo com a escola nilopolitana para mais de 400 convidados no Rio de Janeiro e ficou mundialmente conhecida por ter dançado com Príncipe Charles, que estava de visita na cidade; o protocolo não permitia a aproximação ao Príncipe e por isso a Cinderela Negra, como ficou conhecida, jura que apenas no dia seguinte descobriu quem era o homem pela proporção que a cena tomou. Em 1983, foi homenageada ao lado de outros grandes artistas negros pela azul-e-branca de Nilópolis, ganhando versos do samba com seu nome. O ano de 1989 marcou a despedida de Pinah da Avenida, no histórico desfile "Ratos e Urubus, larguem minha fantasia". Apesar de morar em São Paulo, até hoje ela desfila pela escola com a camisa da diretoria. Mesmo não tendo sido propriamente uma passista mas, sim, um destaque de chão e posteriormente de alegorias, Pinah marcou seu nome na história do carnaval e em muitos corações através de seu samba no pé.

Narcisa da Salgueiro



Na Academia do Samba, outra bela cabrocha fez história com sua ginga encantadora. Nascida praticamente dentro da quadra do Salgueiro, Narcisa frequentava os ensaios da escola desde nova pois sua mãe tinha uma barraquinha que vendias quitutes no "terreiro", como se chamava quadra naquela época. Em 1954, primeiro desfile da Academia, a menina não ficava quieta nos braços da mãe, que cansada, a colocou no chão. Com apenas 5 anos, Narcisa mostrou que o samba estava no seu sangue e deu um verdadeiro show. Na década seguinte, estreou aos dez anos no extinto posto de Mascote de bateria, uma prévia do que seria as rainhas de agora. Protagonizou um episódio histórico, em 1969, quando perdeu as sandálias e sambou descalça no asfalto sob o sol quente. Foi no antológico "Bahia de Todos os Deus" e seus pés ficaram em carne viva depois do desfile. Narcisa se apresentou como passista no Salgueiro até a década de 80 e hoje é ela quem tem um quiosque na quadra da Academia. 

Gigi da Mangueira



Regina Helena Esberard, carinhosamente apelidada de Gigi, sempre foi moradora de Ipanema, era a menina dos olhos verdes e da pele branca; o típico retrato da Zona Sul carioca. Mas Gigi trocava Ipanema pela Estação Primeira de Mangueira em ensaios e desfiles. Ganhava outro formato com o fervoroso requebro de seus quadris e, assim, estreou na escola aos 16 anos incompletos em 1961. Sua dedicação e amor à Mangueira fez com que ela não desfilasse apenas no ano de 1968, pelo nascimento de seu segundo filho. Mesmo no ano anterior, em seu primeiro parto, desfilou 15 dias após o nascimento do filho Rubem. Em 1983, Gigi despediu-se dos desfiles antes mesmo de pisar na Sapucaí, que seria construída no ano seguinte, mas eternizou seu nome no chão sagrado da verde-e-rosa e seguiu a vida para cuidar de uma linha de confecções. 

Adele Fátima



Adele, filha de um alemão com uma carioca, nasceu e foi criada na Urca, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Conhecida como garota-propaganda da Sardinha 88 na década de 70, Adele também participou do histórico show de mulatas de Oswaldo Sargentelli e fez sucesso. Adele ficou conhecida no mundo do samba na Mocidade Independente de Padre Miguel, onde começou, em 1974. Sete anos depois, foi ela a mulata que inspirou Oscar Niemeyer com suas curvas desfilando à frente da bateria Independente. Foi considerada por muitos a primeira rainha de bateria da Sapucaí, contrariando algumas versões que conferem o título à Monique Evans, sua sucessora. A mulata continuou na escola ainda em 1982, quando desfilou grávida de 6 meses, em 1983 e se despediu em 1984.

Nega Pelé



Marisa Marcelino de Almeida é cria de Olaria, na zona da Leopoldina, chegou a sair na Lins Imperial, mas foi em Oswaldo Cruz e Madureira que ela ficou famosa pelo seu gingado. No final dos anos 60, ela já seduzia malandros na histórica festa de Nossa Senhora da Penha. Com um jeito de sambar único, que envolviam muitos truques e piruetas, ela ganhou o apelido em referência ao rei do futebol pelo desenho com as pernas parecido que ela fazia com o jogador na hora de sambar. Na década de 70, quando Marisa se tornou Nega Pelé, sua fama a levou para Europa. Atualmente, o grande passista Valci Pelé, coordenador da aula da Majestade do Samba, carrega o apelido em homenagem a Marisa, por ter sido descoberto por ela anos atrás. 

Nãnãna da Mangueira



Nãnãna é nome conhecido no mundo do samba. Mãe de Vânia, Rose e Ivo Meirelles, é representante feminina nos microfones das rodas de samba e shows; o gosto pela música sempre existiu e está presente até hoje em uma brilhante carreira. Seus pés que já riscaram a Avenida mostram, porém, o outro lado da sambista: uma passista de mão cheia. O "da Mangueira" é, claramente, adquirido do lugar de onde veio; em 1958, estreou como passista pela verde-e-rosa e em 1973 reinou à frente da bateria da Mocidade Alegre, em São Paulo, lançando moda ao desfilar sambando e tocando tamborim ao mesmo tempo. Nãnãna mostrou e ainda mostra, felizmente, as várias faces de uma mulher de sucesso e que faz jus ao carinhoso apelido de "Dama do Samba", seja cantando, compondo, ou dizendo no pé com seu gingado. 

Soninha Capeta



Cria da Beija-Flor , Sônia Maria Regina da Silva ganhou o Capeta no nome pela forma acelerada que sambava. Mexendo os quadris de formas tão rápida que pareciam um verdadeiro liquidificador. Moradora de Nilópolis, a mulata reinou a frente da bateria da Beija-Flor por quase duas décadas e agradece a tudo que conquistou graças a grande "família" que é a escola de Nilópolis. Dona de uma história forte de superação, Soninha já passou dificuldades e chegou a morar na rua durante um tempo. Perdeu o filho cedo, quando ela tinha 21 anos. Deixou o posto de Rainha de Bateria em 2003, após uma longa trajetória para dar lugar a Raíssa, mas segue desfilando na Deusa da Passarela como destaque. 

Nilce Fran



Falar em samba no pé é falar em passistas. E falar em passistas, principalmente nos últimos anos, é falar em Nilce Fran. Portelense desde os 10 anos de idade, já foi porta-bandeira mirim, passista mirim e chegou ao almejado posto de rainha de bateria. Hoje, 36 anos após sua chegada, ela é desde 2005 coordenadora de uma das mais elogiadas e premiadas alas de passistas do carnaval, revelando também novos talentos. Bianca Monteiro, atual rainha de bateria da Portela, passou pelas mãos de Nilce e seu parceiro de trabalho, Valci, até reinar à frente da Tabajara do Samba. Consagrada e renomada pela sua habilidade e elegância, Nilce se tornou referência e em 2018 estará pronta pra assumir, além da Portela, mais um desafio ao lado do amigo: a ala de passistas da Viradouro.




Exemplos de força e superação, as passistas carregam consigo os fundamentos que fazem do samba não só um ritmo musical, mas um ritmo de dança. Sempre jogadas a segundo plano ou tratadas como meros símbolos sexuais, a ginga dessas bailarinas da nossa folia deve ser valorizada e não viver escondida atrás do carros de shows, servindo apenas para tapar buraco quando a bateria entra no recuo. A força e dedicação de meninas e meninos que ainda hoje fazem do samba sua vida e sua escola. E ganharam um prêmio em reconhecimento à ela. Verdadeiras "Passistas Samba no Pé". 




sexta-feira, 28 de abril de 2017

7x1 Carnavalize: 7 sambas sobre direitos e lutas sociais


por Léo Antan e Beatriz Freire



Os tempos políticos são difíceis, cansativos e polarizados. A cada dia, notícias de corrupção e escândalos de política se proliferam nos meios de comunicação. Justamente por tanta complicação, é mais do que nunca momento de se mobilizar. E várias discussões acaloradas têm surgido nos ringues das redes sociais. Carnaval também é reivindicação, tem uma história de luta e conquista, mas, acima de tudo, de negociação com os poderes estabelecidos. 

Sendo assim, separamos 7 sambas que retrataram na Avenida as lutas pelos direitos sociais do nosso país, em épocas de exclusão, cerceamento de direitos e liberdades, repressão, crise, e desemprego. Qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência. Ou não. O samba-enredo foi e ainda é, de várias formas, resistência. "Silenciar jamais" é o lema. 


1- Império Serrano 1969 - Heróis da Liberdade

"Já raiou a liberdade / A liberdade já raiou / Esta brisa que a juventude afaga / Esta chama que o ódio não apaga pelo Universo / É a (r)evolução em sua legítima razão."



Nascida através de um sindicato de estivadores do Rio de Janeiro, o Império Serrano sempre gostou de se alimentar da fama de ser uma escola engajada na luta social. Um dos marcos dessa luta imperiana se tornou um dos grandes clássicos da escola e do carnaval. Composto pelo imortal Silas de Oliveira, o samba que embalou o desfile de 1969 contava as dores da escravidão e da luta pela independência terminando de maneira poética, clamando as massas pela revolução e diria que a liberdade iria raiar. Em plena ditadura, a mensagem tinha ficado explícita demais fazendo a composição do samba de Silas ser um dos poucos da história a sofrer censura do governo militar. A palavra "revolução" teve que ser substituída por "evolução". No momento do desfile, barulhentas aeronaves militares sobrevoaram a Presidente Vargas atrapalhando o som da escola. Coincidência?



2- Vila Isabel 1989 - Direito é Direito

"Hoje, a Vila se faz tão bonita / E se apresenta destemida / Unida pelos mesmos ideais / Lutando com a maior sabedoria / Contra os preconceitos sociais"



Azul e branca por for mas vermelhinha por dentro, como diz o imaginário carnavalesco, a Vila Isabel sempre esteve afiada às pautas reivindicadoras e levou para a Sapucaí alguns enredos de cunho político e de protesto. Um desses marcos foi o desfile de 1989, logo após o seu histórico desfile campeão sobre a luta do movimento negro em Kizomba, a agremiação de Noel fez um apelo pelo respeito a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Um dos marcos do desfile foi a presença de grávidas de verdade na Comissão de Frente, uma bela imagem que ajudou a garantir um honroso quarto lugar num dos anos mais polêmicos e agitados da história carnavalesca. O samba não se tornou um grande clássico do repertório da escola, mas tem uma letra forte e belíssima. Dê o play:



3- Caprichosos de Pilares 1985 - E Por Falar em Saudade

"Diretamente... povo escolhia o presidente (oba!) / Se comia mais feijão / Vovó botava a poupança no colchão / Hoje está tudo mudado, tem muita gente no lugar errado..."


Na década de 1980, a Ditadura, enfim, dava seus suspiros finais e o povo nas ruas clamava pela redemocratização. Nesse período, as escolas se politizaram e trouxeram para a avenida os gritos que a ecoava nas passeatas. Um dos marcos desse processo foi o desfile de 1985 da Caprichosos. Através do trabalho do revolucionário carnavalesco Luiz Fernando Reis, a agremiação de Pilares ganhou fama de irreverente e politizada ao clamar pelas "Diretas". A saudade do tempo que o povo escolhia o presidente foi um marco na história carnavalesca ao tratar a luta política de forma jocosa e indo de encontro a vontade popular. O samba bem-humorado acompanhou o espírito e embalou o melhor desfile da história da azul e branca, ganhador do Estandarte de Ouro de Melhor Desfile. Confira a gravação antológica imortalizada pela sensacional atuação de Carlinhos de Pilares:



4 - São Clemente 1985 - Quem Casa Quer Casa 

"Veja, nesta terra, tudo é forma de aluguel / O meu salário é uma cascata / Eu não vou poder pagar..."



Olha a São Clemente aí! Olha a crítica! A outra escola que teve papel importante nesse momento de politização foi a São Clemente. Através do trabalho dos carnavalescos Carlinhos Andrade e Roberto Costa que trouxeram discussões políticas e muitas reivindicações para a Avenida. Diferente da Caprichosos, a São Clemente fazia abordagens mais duras e menos bem-humoradas, tocando o dedo na ferida. Dentre enredos sobre a saúde, a corrupção e menores abandonadas, um dos mais famosos foi o de 1985. Num samba composto por Izaías de Paula, Rodrigo e Helinho 107, a preto-e-amarela criticou o problema financeiro e habitacional que assolava o país. A Comissão de Frente foi digna de um Estandarte de Ouro e trazia componentes com vestimentas de um lado trajadas por um terno preto masculino, e do outro por um vestido de noiva. Apesar disso, a escola da zona sul terminou rebaixada. Confira o samba:



5 - Império Serrano 1986 - Eu Quero

"Quero nosso povo bem nutrido / O país desenvolvido / Quero paz e moradia / Chega de ganhar tão pouco / Chega de sufoco e de covardia." 



Mais uma vez engajada, o Império não poderia deixar de marcar sua posição pelo fim do governo autoritário. Em 1986, primeiro carnaval após o fim oficial do regime e também na sequência do desfile bem repercutido da Caprichosos, muitas escolas colocaram a política em pauta nos seus sambas. Até as mais tradicionais como a Portela. A Serrinha, então, trouxe um dos que se tornaria os hinos desse carnaval da redemocratização. "Eu quero" que tem entre os seus compositores Aluísio Machado falava das ambições e desejos do povo brasileiro no novo período política. A letra tinha espírito esperançoso e otimista. O desfile foi assinado por Renato Lage e Lilian Rabello e garantiu um honroso terceiro lugar para o Reizinho de Madureira. Escute abaixo:

6 - Vila Isabel 1972 - Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade

"Cirandeiro, cirandeiro, sua hora é chegada / Vem cantar esta ciranda / Pois a roda está formada."


A escola do bairro de Noel também cantou de forma valente e fez seu barulho com um belo samba de Martinho da Vila, no auge dos Anos de Chumbo da Ditadura Civil Militar. No Brasil de censuras, governado pelo Presidente Médici, a Vila Isabel, corajosamente, contou a trajetória da liberdade e seus movimentos ao longo dos anos, desde os indígenas, passando pela abolição e finalmente chegando à época em que a liberdade já não era exatamente uma realidade da população brasileira, principalmente após o decreto do AI-5. O conteúdo político é expresso no conteúdo histórico do samba, um belo exemplo de discurso velado que buscava driblar a censura. A azul-e-branca da Zona Norte conseguiu um confortável 6º lugar e deixou na história o lindo samba que já regravado algumas vezes. Dê o play e ouça na voz do negro rei Martinho:


7 - Império Serrano 1996 - E Verás Que Um Filho Teu Não Foge à Luta

"Quem é pobre tá com fome / Quem é rico tá com medo / Vou dizer... Quem tem muito,
 quer ter mais / Tanto faz se estragar



A Serrinha decidiu para o ano de 1996 homenagear um dos grandes nomes que o Brasil conheceu: o sociólogo Herbert de Souza, o saudoso Betinho. A homenagem é, no entanto, mais ligada aos trabalhos realizados por Betinho do que propriamente sobre a história de sua vida, destacando a sua firme luta pela liberdade e pelos direitos durante a Ditadura além da sua campanha contra a fome num país de 30 milhões de pessoas com carências alimentares. Com pouquíssimo dinheiro, mas com muito esforço, o desfile da verde-e-branco de Madureira encantou e emocionou o público presente na Sapucaí. O samba ficou por conta de Aluísio Machado, Lula, Beto Pernada, Arlindo Cruz e Índio do Império; o microfone era de Jorginho do Império, que pela escola chegou a cantar de graça, ajudando o Império Serrano a conquistar um merecido 6º lugar. Ouça abaixo:






Infelizmente, atualmente sambas como o das lista seriam difíceis de serem levados para a Avenida. Nos últimos anos, as escolas voltaram e aderir uma posição mais "chapa branca". Enredos políticos e engajados são raros desde o início do século XXI, salvo raros suspiros. É uma pena. Pois como manifestação artístico-cultural, as escolas ocupam um papel importante e poderiam usar sua voz para trazer temas atuais e relevantes. 




quarta-feira, 26 de abril de 2017

Samba in Rio - Monarco, a Majestade da Portela

por Beatriz Freire, Felipe de Souza e Leonardo Antan.

Hildemar Diniz, portelense, 83 anos. Você o conhece? Sim, você o conhece. Autor de canções como "Coração em Desalinho", "Vai Vadiar" e "Vivência no Morro", o popularmente conhecido como Monarco é o primeiro a ter sua história contada pelo "Samba in Rio". O cantor e compositor, líder da Velha Guarda mais campeã do carnaval, é um dos artistas a se apresentar no "Viva o Samba", espetáculo em reconhecimento da importância do ritmo no Rock in Rio, em setembro.

"Juro que não posso me lembrar
Se for falar da Portela
Hoje eu não vou terminar"
Passado de Glória (Monarco)

O apelido Monarco surgiu pelas bandas da Baixada Fluminense - na época, Monaco, ganhou o "r" pelas ruas de Oswaldo Cruz, bairro onde viveu na infância. Lá, se apaixonou pela azul e branca e, ainda na adolescência, fugiu diversas vezes para a primeira quadra da escola, ainda na Estrada do Portela. Aos 17 anos, aquele o qual o apelido remete a reis, ingressou na ala de compositores da escola, onde décadas depois se tornaria presidente de honra. 

Apesar do grande talento escrevendo sambas, nosso homenageado jamais ganhou uma disputa de sambas de enredo. Seria pouco para ele? Jamais, pois é um dos destaques na composição de grandes sambas de quadra, ou exaltação, como preferir. Seu maior sucesso é "Passado de Glórias", que trata de seu maior amor, escola que deu seu nome para o batismo, a Portela.
Monarco, segundo da esquerda para a direita, com a Velha Guarda da Portela nos anos 80 (foto retirada de Lyrical Brazil)

Para as escolas de samba e o carnaval, Monarco representa muito. Sua presença na Velha Guarda da águia fez crescer o movimento pela comercialização musical deste segmento nas outras escolas. A constituição da noção de Velha Guarda como grupo musical, que faz shows e grava discos, foi conferida a partir do CD produzido por Paulinho da Viola lançado em 1970. Apesar de sempre estar presente no conjunto, apenas mais recentemente Monarco toma a liderança do grupo e se torna a principal figura masculina, ao lado de Surica que ocupa o protagonismo feminino. Essa conquista de uma participação mais efetiva dentro do segmento acontece logo após o lançamento do LP "Monarco e a Velha Guarda da Portela", exatamente no ano de 1980. Assim, Monarco dá início à conquista gradual de seu lugar ao sol, à época, ainda junto a Manicéia e Chico Santana.

Outro marco mais recente no processo de consolidação da liderança de Monarco e da Velha Guarda como instituição ativa da escola foi a partir da ideia de Marquinhos de Oswaldo Cruz, em 2003, de promover a Feijoada da Família Portelense. Os eventos na quadra passaram a reunir os mais diversos segmentos e convidados, com muito feijão e, é claro, muito samba embalado pelo grupo musical dos bambas portelenses. Foi a partir daí, então, que nosso personagem torna-se figura indispensável e um líder para a azul e branca.
Monarco com Paulinho da Viola na comemoração de seus 80 anos (foto: Ricardo Almeida)
"Eu não me esqueço daquele momento feliz
Eu sou Portela, sou do tempo da raiz"
Escolas em Desfile (Monarco)

Monarco teve em suas mãos o prazer de lapidar muitos talentos, como a respeitada e também portelense Teresa Cristina, nome importante e mais recente na atual divulgação das músicas dos discos da Velha Guarda portelense; Cristina Buarque cumpriu esse papel de divulgação nos anos 80, Marisa Monte nos anos 90 e Zeca Pagodinho a partir de 2000. No aniversário de 80 anos do baluarte, Teresa declamou a seguinte frase "A vaidade que acredito que o Monarco sinta é pelo trabalho dele e pela escola que ele pertence". E isso já diz tudo. Monarco faz samba sem agrotóxico, o "puro suco", e mostra para nós que o samba não morrerá tão fácil.

Falar de Monarco é falar de Velha Guarda e da própria Portela. A presença do segmento representa, além de tudo, o respeito e a gratidão por aqueles que ajudaram a escrever tantas páginas da história da escola de Oswaldo Cruz e Madureira. É, também, fundamental para o estabelecimento dela como patrimônio cultural e musical. Assim, suas tradições, ponto pelo qual a escola muito preza, continuam vivas e eternizadas na presença e nos ensinamentos de tantos bambas da águia altaneira.

Além de Monarco, Martinho da Vila, Alcione, Mart'nália, Roberta Sá, Jorge Aragão e Criolo também se apresentam no Rock in Rio 2017. O espetáculo contará também com participação do Jongo da Serrinha. É samba no rock, bebê!


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Carnavalizadores de Primeira - Novos talentos: O traço requintado de Leandro Vieira

por Leonardo Antan.



São apenas três carnavais solos no currículo, mas que somam um título e um quarto lugar no Grupo Especial. A carreira meteórica de Leandro Vieira é algo raro na história carnavalesca, e, quiçá, sem precedentes. Em um número tão pequeno de trabalhos, poucos conseguiram alcançar tanto prestígio e premiações como o atual carnavalesco da Mangueira. Para entender um pouco mais sobre o requintado traço desse artista "erudito-popular", confira abaixo os momentos mais importantes dos três desfiles assinados por ele que ajudam a traçar um perfil completo de sua carreira até aqui. Vem, que vai ter aula!

Leandro posa com detalhes do abre-alas de 2016 com ifás típicos da cultura iorubá.


Formado pela Escolas de Belas Artes da UFRJ, Leandro começou sua trajetória na folia há mais de dez anos, quando integrou o time de Cahê Rodrigues na Portela para o desfile de 2007. De lá até 2014, atuou como figurinista e, mais tarde, enredista de Cahê, tendo atuação nas passagens do carnavalesco por Portela, Grande Rio e Imperatriz. Além dele, Leandro também já bateu ponto para Fábio Ricardo, em suas passagens na São Clemente e Grande Rio. Antes de ser contratado em 2015 pela Caprichosos, Vieira teve grande responsabilidade nos belos trabalhos das escolas de Caixas e da Leopoldina em 2014. que trataram, respectivamente, sobre Maricá e Zico. Coincidentemente, após a saída de Leandro para Pilares, as duas escolas pecaram nos quesitos práticos nas apresentações seguintes. 

Caprichosos apresentou o enredo "Na minha mão é + barato" em 2015.

Na sua estreia pela Caprichosos, o artista formado pela EBA soube respeitar o estilo irreverente e crítico da agremiação de Pilares, dado pelo primoroso trabalho de Luiz Fernando Reis. Misturando um lado histórico, informal e descontraído, como pedia o enredo sobre o "comércio popular", Leandro surpreendeu a todos com a boa qualidade das fantasias e alegorias, apesar da situação financeira complicada da escola. Que após o fim da apuração, conquistou um honroso sétimo lugar na Série A. 


À direita, as máscaras geledés, na esquerdas as alas e alegoria de Leandro.

No segundo setor de "Na minha mão é + barato", chamou atenção a estética africana proposta por Leandro nas representações dos "escravos de ganho", comuns na época colonial. Além da clara inspiração das gravuras de Debret, reproduzida na alegoria que fechava o setor, um detalhe curioso era notado na concepção de todas as "cabeças" das fantasias: eram as "máscaras geledés", que representavam antigos rituais iorubás. Usadas para a invocação de entidades femininas, as tais máscaras puderam ser vistas também no ano seguinte, pois foram reutilizadas no enredo mangueirense sobre Maria Bethânia. No desfile campeão de 2016, elas estavam presentes nas fantasias que representavam os orixás, além de este ano terem aparecido em versão maximizada na última alegoria da "Velha Manga", que representava o cultos aos orixás dentro do tema sobre religiosidade.

Na extrema esquerda, a escultura de Mestre Didi percebida no detalhe multi-colorido da alegoria. E abaixo, as esculturas de Rubens Valetim reproduzidas fielmente em escala maior.

Este último carro, "Luz dos Orixás", talvez tenha sido um dos mais criticados do belo desfile da Estação Primeira, se comparado ao conjunto. Sua decoração toda em espelhos acabou não dando o resultado esperado na concepção. Entretanto, além da grande máscara geledé puxando a alegoria, estavam lá duas outras referências importantes para o entendimento do universo artístico onde Leandro se posiciona. Invés de optar pelas representações humanas das divindades africanas, o artista preferiu fazer uma homenagem ao artista plástico Rubens Valetim, que através de seu construtivismo afro-brasileiro traduziu os orixás em formas geométricas. Outra referência, essa mais detalhada, estava na decoração do carro contornando todas as suas formas. O estilo tubular e multicolorido trazia consigo a ancestralidade da escultura de mestre Didi, babalorixá brasileiro e artista famoso internacionalmente.


A careca e a pintura corporal que marcaram Squel podem ser vistas também na obra de Verger.

Dos baianos Valetim e Didi, permanecemos nas terras de Salvador para falar de outra clara referência de Vieira para um dos marcos de sua carreira. Falamos de 2016, quando ele colocou sua esposa Squel como protagonista do desfile, junto da homenageada Bethânia. A representação da porta-bandeira através das pinturas corporais branca das iaôs, é referência clara não só a linguagem do candomblé com um todo, mas em especial ao trabalho do franco-brasileiro Pierre Verger, famoso por suas fotografias do rito afro-brasileiro. 


O sincrestismo foi bem traduzido esteticamente na imagem símbolo do desfile de 2017.

Ainda no imaginário baiano, veio de lá uma das imagens símbolos da apresentação deste ano. O Cristo-Oxalá, censurado de voltar nas campeãs, teria tido como inspiração uma similar escultura em menor escala do artista plástico Leandro Barra, conforme comentou Fátima Bernardes na transmissão da Rede Globo. Essa passagem de Verger para Barra, marca outra fundamental característica do trabalho de Leandro, que dialoga com referências ditas "populares" e "eruditas" ao mesmo tempo. 


De sagrado ao profano, muitas são as referências cotidianas presente na estética de Leandro Vieira. 

Nas representações sobre santidades e divindades, este ano e na "Menina de Oyá", convergiram elementos da arte institucionalizada e popular. Além de Verger, Valetim e Didi, os saquinhos de São Cosme e Damião nas baianas de 2017; os populares "santinhos de papel" e os balangandãs de baianas agigantados nos tripés de 2016; as esculturas de santo de vestir (roca) para procissões junto à bonecos de barro na segunda alegoria de 2017; os altares de "santos" na divulgação dos protótipos deste ano; além da arte urbana de Toz no tripé sobre Zé Pelintra. Um verdadeiro sarapatel, onde as categorias "bem delimitadas" (não para Leandro) da cultura convivem harmoniosamente e niveladas, sem quaisquer outras hierarquias. Uma prova do reconhecimento da dinâmica popular e fluida em que se dá um desfile de escola de samba. 


Parte do conjunto de fantasias criado para 2016: plumas artificias, dobraduras, fitas, vimes, babados.









Além das escolhas artísticas, que sozinhas não dariam conta da tradução de tantos signos, as escolhas plásticas, narrativas e estéticas do carnavalesco traduzem suas intenções enquanto artista estabelecido no trânsito entre o erudito e o popular. O colorido leve se junta a materiais de menor custo, mas de efeitos eficientes, valorizando a pintura de arte e as plumas sintéticas de grande proporções, ainda que repetidas excessivamente esse ano e punidas corretamente pela jurada Helenice Nascimento. Além disso, nota-se as golas dos costeiros sempre finalizadas com delicadas dobraduras do tecido, ou ainda a substituição de plumas por hastes de vime (tubinhos de madeiras), que dão aspecto mais rústico. Não por último, mas principalmente, a maquiagem clara de aspecto lúdico que a maioria dos componentes utilizam no vestuário, como bufões que pintam a cara de branco, num processo da anulação da persona e desnudamento da alma, o símbolo da máscara evocada no teatro grego.

O belíssima abre-alas de "A menina dos olhos de oyá", campeão de 2016.

São fantasias de lindo apelo estético, bem resolvidas e concebidas com apuro que preservam o caráter tradicional barroco fundando no carnaval por artistas como Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta e Rosa Magalhães. Um limiar entre tradição e contemporaneidade. Limiar este que é tão tênue a ponto de quase ter gerado problemas na tradicional Mangueira pelo apagamento da icônica combinação do verde e rosa. Em 2016, Vieira optou por uma abertura em tons terrosos no abre-alas sobre as divindades africanas das quais Bethânia descendia. A alegoria era ornada de bambus feitos de canos de PVC, cores escuras e esculturas femininas que tinham como modelo a cara de Squel, numa romântica homenagem. A combinação pouco usual para a Velha Manga deu problemas no pré-carnaval, fazendo Leandro "enganar" os mais tradicionalistas que visitavam o barracão dizendo que o último carro, onde viria Bethânia, com mais tons de verde e rosa, seria o abre-alas. Apesar do cuidado e da controvérsia, poucas vezes se viu um verde-e-rosa tão bem combinados na avenida, abusando de tons mais claros (quase bebês), Leandro então optou pela inserção de uma terceira cor, para quebrar o choque do rosa com verde, como o azul ou o vermelho em fantasias e alegorias. 


A alegoria que trazia a Betânia, em 2016, e o tripé sobre as cavalhadas, 2017, têm estéticas parecidas.



O já citado imaginário barroco na obra de Leandro, vai além do que se convencionou chamar de "barroco carnavalesco", indo de encontro ao movimento artístico real dos séculos XVII e XVIII. As igrejas barrocas brasileiras e seus elementos exagerados, como as colunas curvas, os signos sinuosos e curvilíneos estavam na escolha da abertura de "Só com a ajuda do santo", que trazia em si a própria igreja barroca e seus signos representados: colunas, oratórios, ex-votos, raios, curvas, e afins. Além dela, a segunda alegoria que trazia o Bom Jesus Menino, em 16, e a homenagem a São Jorge, em 17.

No centro, e na extrema esquerda, fotos de igreja barrocas, aproximadas de alegorias que beberam neste estilo artístico.

O barroco, assim como o carnaval, veio importado da Europa, mas foi realizado aqui no Brasil pelas mãos de mestiços e negros, como um de seus maiores símbolos: Aleijadinho. Ou Joãosinho Trinta. Dois ícones fundamentais para a compreensão da arte miscigenada e tropical feita no Brasil através dos séculos. Juntos, barroco e carnaval, são símbolos também para entender o trabalho artístico delicado de Leandro Vieira, que ao traduzir esse barroco em forma e conteúdo se colocou no terreno fluído entre as formas de artes que o carnaval transita, na linhagem de grandes mestres da arte brasileira, os já citados: Arlindo, João, Didi, Valetim, Aleijadinho e Rosa. E agora, Leandro. 












domingo, 23 de abril de 2017

SALVE JORGE! 5X O maior guerreiro de todos

por Vitor Melo e Leonardo Antan.


Salve Jorge!
Ogunhê Ogum!

23 de abril. Dia marcado pela devoção ao Santo Guerreiro, comemorado em todo Brasil, principalmente, na Cidade Maravilhosa, mesmo que essa tenha como padroeiro São Sebastião (Oxóssi, no sincretismo). É inegável dizer que o guerreiro da Capadócia se tornou o santo mais venerado e popular aqui pelas bandas da Baía de Guanabara. E, no samba não é diferente, já que este tem ligação desde sua origem com as religiões de matrizes africanas. Muitas das nossas escolas que veneramos hoje em dia, têm na lança de São Jorge sua proteção. Beija-Flor, União da Ilha, Império Serrano e Estácio de Sá são algumas das agremiações protegidas pelo padroeiro. E nesse dia tão especial para muitos cariocas e para nós, sambistas, resolvemos listar cinco grandes sambas que homenagearam não só o Santo Guerreiro, mas também o orixá da forja, o grande deus da guerra africano: Ogum. 


                      Império da Tijuca - 2007              

"Eu te sinto pelo ar/Eu te vejo no luar/O Morro da Formiga em procissão/Faz a sua homenagem ao santo de devoção"



Um samba que permaneceu no imaginário dos sambistas por conseguir sintetizar a força do Guerreiro foi o primeira da nossa folia a abordar a história do santo católico em todo o seu desenvolvimento. Falando de Jorge através de sua trajetória, seus festejos e seu sincretismo com os cultos afro-brasileiros. A obra musical valente tinha uma letra forte com um enredo claro e bem desenvolvido.

Na hora da apresentação da escola da Tijuca, entretanto, o canto da escola deixou um pouco a desejar. A plástica assinada pelo carnavalesco Sandro Gomes foi competente e rendeu bons momentos que ajudaram a conquistar a escola um honroso quinto lugar. Ligue o play para relembrar o belíssimo samba composto por Bola:




Tatuapé - 2014

"Eu amanheço nos braços da fé/Vim do clarão da lua, sou Tatuapé/Canto forte em oração/Meus inimigos não me alcançarão"




Em São Paulo, a homenagem ao mais popular dos santos veio pelas mãos da Tatuapé em 2014. A escola é uma das agremiações paulistas, junto com a Gaviões, que tem Jorge como seu padroeiro. A ligação com Jorge é tanta que a escola da zona leste sempre divulga seu enredo no dia de festa ao seu protetor. 

O enredo "Poder, fé e devoção. São Jorge Guerreiro" foi desenvolvido pelo carnavalesco Mauro Xuxa e garantiu o sexto lugar para a agremiação. A boa posição foi alcançada através da força do samba e da excelente harmonia da escola que conseguiu minimizar os problemas estéticas e de desenvolvimento no tema, que deixaram a desejar, mas não tiraram a força da linda homenagem ao Guerreiro. Marcado na memória dos paulistas pela força e emoção do desfile. Dê o play para ouvir a obra composta por Márcio André, Márcio André Filho e Vaguinho:



Cova da Onça - 2015


"Salve São Jorge guerreiro/Meu protetor/Que conduz a minha vida/Me faz vencedor"



Diretamente de Uruguaiana, um samba muito bonito e pouco conhecido no imaginário momesco. A octacampeã Cova da Onça levou à Passarela do Samba o enredo "Ogum Iê! Da Capadócia ao Alto do Bronze, Cova da Onça Festeja Seu Padroeiro". Embora com sotaque gaúcho, o samba continha grife carioca, conhecidíssima lá pelos lados da azul e branco de Noel, pois foi assinado por Evandro Bocão, André Diniz, Gláucio Guterres e o saudoso Leonel, sendo defendido ainda pelo insulano Ito Melodia. 

A escola do Alto do Bronze contou com alguns problemas técnicos no som do sambódromo e desfilaram por um bom tempo sem o áudio oficial do desfile. No entanto, adversidades nunca foram problemas ao Santo Guerreiro e as arquibancadas contemplaram o espetáculo com o teor emocional que o enredo pedia, levando o desfile e a escola apenas com a força das vozes do público presente. Ouça o samba completo no link abaixo:




Alegria da Zona Sul - 2016

"Ogum é Jorge, é religião/E a Alegria canta em sua fé/O cavaleiro forte e destemido/Conduz a Zona Sul ao infinito"

(Foto de Widger Frota)

Com os caminhos guardados por Exu, a Alegria da Zona Sul levou à Marquês de Sapucaí um belo samba para seu desfile da Série A em 2016, valente como pedia a homenagem ao orixá dos metais e da guerra, Ogum. O carnaval assinado por Marco Antônio Falleiros optou por narrar a história mitológica do divindade afro-brasileiro finalizando com a homenagem à São Jorge em seu último setor. 

Embora tenha passado por alguns problemas na sua apresentação, algo comum para as escolas que transitam na "meiuca" do grupo de acesso do carnaval, a vermelha e branco da zona sul não obteve maiores problemas para permanecer na Série A. Com os ritmistas da bateria Show de Ritmo da Alegria vestidos de Ogum, já se sabia, quando toca o adarrum, é batuque pra Ogum! Dê o play para conferir o samba composto por Pixulé, Thiago Meiners, Rafael Tubino, James Bernardes, Alex Bagé, André K, Gilson, José Mario, Júnior e Victor Alves:



Estácio de Sá - 2016

"Estou vestido com as armas de Jorge/Meus inimigos não vão me alcançar/Tu és bondade pelo mundo inteiro/Santo padroeiro igual não há"



Vestido com as armas de Jorge, o morro do São Carlos desceu pra louvar seu padroeiro em sua volta ao grupo especial no ano passado. Rogando seus milagres em devoção, a Estácio desfilou toda a sua fé durante quase 80 minutos. Com uma belíssima comissão de frente assinada por Márcio Moura, na qual um São Jorge todo articulado levantava o público e acabou se tornando um dos pontos altos do desfile. Vale destacar também o show que deu a bateria Medalha de Ouro da Estácio e orquestrou, durante todo o cortejo, o inspirado samba da agremiação. 

Empunhando a lança do Santo Guerreiro, a vermelha e branco embora não tenho prolongado sua estadia no Grupo Especial do carnaval carioca, fez um desfile à altura do homenageado. Por ser tratar de um desenvolvimento estritamente católico, o desfile foi apoiado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, fazendo o sincretismo aparecer de forma tímida no enredo, sendo escolhido um viés descritivo pela trajetória de vida do santo guerreiro. Confira no vídeo, a bela obra composta por Adilson Alves, André Felix, Edson Marinho, JB, Jorge Xavier, Salviano e interpretada por Wander Pires:



Alegoria louvando o Santo Guerreiro no desfile do Império Serrano de 2006 que falava de fé.


Brasileiro, carioca, sambista, Jorge da Capadócia e do Brasil. Apesar de ter origem na atual Turquia, São Jorge se tornou o mais brasileiro de todos os santos, movimentando todos os anos uma legião de fieis nas alvoradas, procissões e nos rituais dentro de muitos terreiros. Milhões de guerreiros diários que também matam seu dragão por dia, mas olhando sempre pra cima, confiando na lança e na proteção do santo guerreiro. Salve Jorge. Salve Ogum. Salve o povo brasileiro. Amém pra quem e de amém, axé pra quem é de axé - e até mesmo para quem não tem religião.