segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

100 anos de Dona Dodô - porta-bandeira e baluarte da Portela

Por Leonardo Antan e Beatriz Freire



Apesar de portelense, Maria das Dores Alves Rodrigues viveu toda a vida bem longe de Oswaldo Cruz e Madureira. Nascida em Barra Mansa, mudou-se para o Rio aos 3 anos, onde viveu no Morro da Previdência. A casa de Dodô é um ponto turístico famoso da primeira favela do Brasil.



Já aos 14 anos, começou a trabalhar como empacadora em uma fábrica. Com as amigas de trabalho começou a demonstrar seu talento como porta-bandeira durante o horário de almoço, quando deu seus primeiros passos treinando com uma vassoura e pano de chão. No trabalho, Dodô conheceu Dora, moradora do bairro de Oswaldo Cruz, rainha da Portela (à época, ainda Vai Como Pode), cargo conquistado através do livro de ouro. No intervalo do trabalho, Dodô, Dora e as outras amigas dançavam e cantavam sambas e músicas de carnaval. Indicada por Dora, a jovem estreou no cargo em 1935, com apenas 15 anos, em um lugar tradicionalmente ocupado por mulheres mais velhas. Paulo da Portela pediu que o mestre-sala Antônio a avaliasse.



Apesar da pouca idade, Dodô se destacou logo de cara pela elegância e graça. Ainda falando sobre Paulo da Portela, se o “professor” é o grande patriarca da escola azul e branco e simboliza toda a tradição e elegância da águia de Madureira e Oswaldo Cruz, Dona Dodô é a representante feminina e matriarca da identidade da agremiação. O casamento entre a porta-bandeira e a azul e branco foi um dos mais longos da folia. Nos mais de 20 anos que atuou na agremiação como primeira porta-bandeira, Dodô foi 11 vezes campeã, símbolo da relação mais vitoriosa entre a defensora de um pavilhão e sua escola. Dona de um perfil forte, ela não deixava que ninguém fizesse suas fantasias. Ela mesma bordava suas roupas, fazendo os vestidos a seu gosto: formais, sem decotes, com o luxo devido à função.

Mesmo depois que Vilma Nascimento assumiu o posto de primeira porta-bandeira em 1956, Dodô seguiu como segunda e terceira defensora do pavilhão por mais dez anos, até 1966. Selou a marca de mais de trinta anos de atuação no mesmo cargo em uma escola, um recorde absoluto. Já fora do posto, Dodô seguiu atuando na Majestade do Samba. Um outro marco atribuído a ela é a criação da Ala das Damas, símbolo da elegância e pompa portelense, que já faturou o Estandarte de Ouro de melhor ala em 1991 e em 2014.



Por falar na principal premiação da folia, Dodô é uma das raras personalidades do Carnaval a ostentar dois prêmios em categorias especiais do Estandarte de Ouro. O primeiro em 1986, como Destaque Feminino, e o segundo em 2004, como Personalidade. O prêmio de 2004 não foi à toa. Na reedição do clássico “Lendas e Mistérios da Amazonas”, a Portela escolheu ninguém menos que Dodô para atuar à frente dos ritmistas da Tabajara. A baluarte reinou soberana aos 84 anos como Madrinha de Bateria da azul e branco. Outra bonita homenagem da Portela aconteceu em 2000, no carnaval que marcou os 500 anos do Brasil. A eterna porta-bandeira voltou a desfilar ostentando o pavilhão azul e branco em uma bela homenagem. Na ocasião, Rute e Marcelinho compunham o primeiro casal da escola.



Dona de uma elegância ímpar, seguiu orientando as portas-bandeiras que passavam pela azul e branco de Madureira. Dodô era firme quanto ao uso obrigatório de anáguas, e não shorts, por debaixo das saias das porta-bandeiras que a sucederam na Portela. Lucinha Nobre lembra que o primeiro gesto feito por tia Dodô foi levantar sua saia para conferir a anágua quando assumiu o cargo na Portela, em 2010. Dodô também não tinha costume de frequentar as feijoadas da escola, mas fez questão de ir à apresentação de Lucinha e anunciá-la no microfone. Desde 2018, Lucinha desfila com a ponteira de Dodô, encontrada na quadra e restaurada. A relíquia ganhou um banho de ouro.


Dodô faleceu dias depois de alcançar 95 anos. Em 2015, primeiro carnaval da história da Portela sem ela, Dodô foi homenageada pela porta-bandeira Danielle Nascimento. Seu rosto apareceu no telão da comissão de frente coreografada por Ghislane Cavalcanti. Católica fervorosa, era Dodô quem cuidava das cerimônias religiosas na quadra da agremiação. Após sua morte, um antigo desejo foi realizado em sua homenagem: uma capela com os padroeiros da agremiação, Nossa Senhora da Conceição e São Sebastião, inaugurada em 2015.



Se a função de porta-bandeira tem toda a sua etiqueta e elegância, Dona Dodô foi uma das percussoras deste legado. Afinal, carregar o pavilhão de uma escola é uma responsabilidade única. Elegância, etiqueta, pompa, suavidade sem perder a força. Dona Dodô foi não só uma das maiores porta-bandeiras do carnaval, mas seguiu numa atuação como baluarte fundamental da Portela. É figura feminina ímpar da história da folia nacional.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A preparação dos casais de mestre-sala e porta-bandeira no carnavais de Rio de Janeiro e São Paulo


Por Juliana Yamamoto
Os casais de mestre-sala e porta-bandeira encantam com sua dança e fantasia, defendendo o principal símbolo de uma escola de samba com muita nobreza. Porém, antes de chegarem na pista esbanjando talento e força, são meses de preparo e trabalho por trás do grande dia. Treinamentos exaustivos, criação de coreografia e repetições, tudo para beirar à perfeição e alcançar a nota máxima.

Tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, o trabalho dos casais de mestre-sala e porta-bandeira se inicia cedo. Considerados atletas, as duplas recebem todo o suporte de profissionais para ajudá-los em pontos importantes e cruciais para o desenvolvimento na avenida: resistência física, coreografia e movimentos obrigatórios da dança. Nas duas cidades, há três figuras importantes que ajudam inúmeros casais, sendo pilares que contribuem para a nota dez: Bruno Germano, do Rio de Janeiro e Ednei Pedro e Daniela Renzo, de São Paulo.

Foto: Alex Nunes
Bruno Germano é conhecido por ser um dos principais preparadores físicos de casais do Rio de Janeiro. Iniciou seu trabalho no final de 2013, a pedido do mestre-sala Sidclei, e nunca mais parou. Para Bruno, a preparação física dos casais é muito importante para uma boa evolução e apresentação na avenida. Segundo o preparador, os casais são atletas. As apresentações são de alto nível de intensidade, há muito peso sobre o corpo devido à fantasia, o calor envolvido e a grande responsabilidade, assim como nos casos de atletas profissionais. Por isso, a preparação precisa ser a mesma.

Bruno cria um repertório de treinos e exercícios específicos para cada casal, pois cada um tem uma necessidade específica. Seja de resistência, agilidade, coordenação motora... Além disso, o profissional trabalha também em cima da coreografia para o cortejo. Em 2020, Germano está trabalhando com os casais de Salgueiro (Sidclei e Marcella), Grande Rio (Daniel e Taciana), Unidos de Padre Miguel (Vinicius e Jéssica) e Viradouro (neste caso, apenas Rute é treinada pelo profissional). 

Foto: Arquivo pessoal/Bruno Germano
A preparação dos casais com Bruno inicia-se em outubro, indo até o dia do desfile. Para o preparador, é extremamente importante iniciar os trabalhos no período correto, para que o casal, junto ao profissional, consiga cuidar de todos os pontos necessários. Ele ainda sonha em ver um casal envolvido em todos os aspectos de um atleta, com fisioterapia, nutrição e psicologia do esporte.


Foto: Camila Abade
Ednei Pedro iniciou sua trajetória como preparador técnico em 1998, no Barroca Zona Sul, ainda ocupando a posição de mestre-sala. Entretanto, seus trabalhos começaram oficialmente a partir de 2005. 

Ednei se considera como orientador técnico, analisando a dança do casal. É através de sua observação que trabalha nos principais pontos a serem melhorados por cada dupla. Assim como Bruno Germano, o trabalho é diferente para cada casal. Para o Ednei, a dança de mestre-sala e porta-bandeira pode ser comparada a uma ginástica artística; todos precisam apresentar o mesmo movimento, mas cada corpo fará da sua maneira, quem atingir a perfeição conseguirá a nota máxima. O profissional trabalha em cima da dança que os casais já possuem, tentando melhorar o que os jurados estão exigindo no quesito.

Quanto ao início da preparação, quando um casal é novo, é necessário realizar o entrosamento entre os dois, num período de um a dois meses. Quando já é um casal formado, Ednei apenas trabalha na limpeza da coreografia, focado nos ensaios técnicos do Anhembi. Além de cuidar da técnica e correção da dança, ele também auxilia na criação da coreografia com os mesmos, dando a eles a liberdade de sugerir passos, mas também orientando-os para que se alcance o objetivo do casal. 

Foto: Arquivo pessoal/Miriam Acedo
O profissional tem contato direto com os ateliês que fazem as fantasias dos casais. Segundo ele, isso influencia também na dança, pois a coreografia criada precisa funcionar junto ao figurino, para que o mesmo não atrapalha os movimentos e a evolução da dupla. 

Apesar de tudo, Edinei não se considera um preparador físico. O foco do profissional é a dança, além do suporte de uma nutricionista caso haja necessidade. Para o carnaval 2020, Ednei está trabalhando com diversos casais tanto do Grupo Especial paulistano, como dos Acessos I e II, alguns deles são: Unidos de Vila Maria (Brunno e Tatiana), Águia de Ouro (João Carlos e Ana Reis), X-9 Paulistana (Marquinhos e Lyssandra), Vai-Vai (Pingo e Paulinha), Dom Bosco (Leonardo e Mariana) Amizade da Zona Leste (João Lucas e Jacque Silva).


Foto: Arquivo pessoal/Daniela Renzo
Daniela Renzo iniciou seus trabalhos como preparadora de casais no ano de 2004, quando integrou o curso da AMESPBEESP. Com seus primeiros casais, o trabalho começou logo após encerrar a carreira como porta-bandeira em 2009, no Morro da Casa Verde.

A preparadora possui um projeto intitulado “A nobre arte”, em que foca seu trabalho nas seguintes áreas: técnica (passos tradicionais de mestre-sala e porta-bandeira e o critério de julgamento), estratégia (desenho de pista, estudo da condição do casal e também os outros casais dos quadro e o que a escola procura) e força (busca outros fatores internos para motivar o casal. A dança por si só não basta, é preciso buscar outros estímulos e ferramentas para que a dança flua. A dupla precisa estar motivada e empoderada).

A preparação se inicia logo após o término do carnaval. Com alguns casais, são analisados os resultados e as notas junto às justificativas. A preparação física com as duplas se inicia em maio. Assim como Ednei, Daniela também ajuda na criação das coreografias. Seja partindo do princípio ou apenas ajustando um bailado já criado pelo próprio casal. Além disso, a preparadora acompanha a confecção dos figurinos, analisando o material que está sendo utilizado, o peso, se a roupa está confortável para os dois e se a mesma permite a realização dos movimentos coreográficos. 

Foto: Arquivo pessoal/Daniela Renzo
Seus trabalhos em São Paulo ganharam tanta força e notoriedade que Daniela atravessou a ponte aérea e também começou a trabalhar com alguns casais no Rio de Janeiro. O trabalho é o mesmo, o que muda são alguns pontos técnicos que são diferentes em relação à folia paulistana. 

Para o carnaval 2020, Daniela está cuidando de vários casais visando a nota máxima, são eles Tom Maior (Jairo e Simone), Mancha Verde (Marcelo e Adriana), Acadêmicos do Tatuapé (Diego e Jussara), Camisa Verde e Branco (Gabriel e Joice), Tradição Albertinense (Diego e Erica), Acadêmicos do Tucuruvi (Luan e Waleska) e Unidos do Peruche (Kawe e Nathalia). 

Waleska Gomes, que já vai para o seu quarto ano no Zaca, afirmou a importância de uma pessoa como a Daniela na sua preparação para o desfile: “o trabalho da Daniela é essencial e primordial, porque ela funciona como os olhos do casal. O que a gente não vê, ela vê. Sem ela é difícil, praticamente impossível”. O papel da preparadora é ser um terceiro olho sobre a dança do casal, trabalhando com a limpeza e a defesa dos critérios de julgamento, com finalidade de deixar a dança mais bonita, imponente e atraente.

Os casais de mestre-sala e porta-bandeira, para abrilhantar ainda mais a passarela do samba, contam com o apoio e o suporte de preparadores físicos e técnicos. Com eles, o trabalho é intenso e dura meses, tudo em prol do pavilhão que estão defendendo. Atrás dessa dupla, há uma equipe que também não mede esforços para ajudá-los a alcançar a nota máxima. Eles são extremamente essenciais para o sucesso do casal.

domingo, 15 de dezembro de 2019

QUASE UMA REPÓRTER: Aquiles da Vila e suas composições no carnaval paulistano


Por Juliana Yamamoto

O quadro “Quase uma repórter” está de volta ao Carnavalize. O carnaval 2020 já está batendo na porta e para esquentarmos os tamborins, o entrevistado de hoje é um dos grandes compositores do carnaval de São Paulo: Aquiles da Vila.

Aquiles iniciou sua trajetória como compositor em 2002, na X-9 Paulistana. Depois disso, nunca mais parou, e assim começou a colecionar vitórias na ‘terra da garoa’, principalmente na Rosas de Ouro.

Nessa entrevista pode-se conhecer um pouco de sua história no carnaval, seus sambas favoritos, entender como um samba é composto, bem como sua opinião acerca da nova forma de eliminatórias e a polêmica encomenda de samba-enredo. Confira abaixo:


Carnavalize: Gostaria que você contasse um pouco da sua história no carnaval. Onde começou e como surgiu o interesse em compor sambas de enredo?

Aquiles da Vila: Nasci na Vila Sá Barbosa, uma vila residencial próxima à Avenida Tiradentes, que naquela época era o palco dos desfiles de carnaval. Toda aquela atmosfera fazia parte da minha vida e, assim, foram dados os primeiros passos, como platéia. Na adolescência, comecei a me interessar por música em geral, sobretudo o gênero samba e pelas escolas de samba. Em paralelo, fui assíduo frequentador dos tradicionais bailes de carnaval, o que também contribui com minha formação como sambista. Logo, procurei me aproximar das escolas de samba, e a convite de um amigo, em 2001, fui torcer para o samba dele que concorria na X-9 Paulistana. No ano seguinte, 2002, já migrei para a parceria e concorri na minha primeira eliminatória. Eram 32 sambas e ficamos em sexto lugar.


Carnavalize: Você é um compositor muito famoso na cidade de São Paulo, com vários sambas campeões na trajetória. Existe uma “fórmula” para o sucesso em escrever um samba-enredo?

Aquiles: Eu aprendi com o tempo que um bom samba-enredo é aquele que vai além da sinopse criada pela carnavalesco. Ir além significa propor novos insumos para o desfile. A música - letra e melodia - deve se sobrepor, surpreendendo a plástica da escola, uma vez que o carnaval é audiovisual.


Carnavalize: Para o carnaval 2020, teremos dois sambas seus na Avenida, Dragões da Real e Rosas de Ouro. Como foram as disputas nessas escolas e o que esses sambas representam para você?

Aquiles: Estamos falando de duas escolas que estão sempre brigando pelo título do carnaval. Dessa forma, fica explícita a dificuldade de vencer um samba-enredo. Quanto ao sambas, são temas completamente diferentes, mas ambos possuem um fio condutor que é o ser humano. O enredo da Rosas de Ouro, apesar de parecer tecnológico, é extremamente humano, uma vez que um pequeno robô questiona o futuro da humanidade. Já a Dragões, aborda a cura através do sorriso. São sambas emotivos, mas com pitadas de irreverência onde os enredos pedem. 


Carnavalize: Agora, vamos falar um pouco sobre o processo de composição de samba-enredo. Poderia explicar melhor como funciona a composição de um samba? Desde a explanação do sinopse do enredo pelo carnavalesco, até o momento das reuniões entre o grupo de compositores, a gravação e as eliminatórias?

Aquiles: O carnaval está pronto no papel, feito um projeto de arquitetura, desde abril, maio... É feita uma sinopse que somada a explanação do carnavalesco dá aos compositores insumos para o desenvolvimento. Eu costumo ler a sinopse inúmeras vezes, e depois deixo-a de lado. Com o tempo, tudo aquilo começa a brotar dentro de mim… Muitas vezes parto de letra, sem melodia alguma. Outras, já existe uma melodia que julgamos interessante para o trecho do enredo, e aí há o mágico trabalho de encaixar a letra. Assim seguimos e quando o samba está pronto, partimos para o estúdio, onde gravamos o samba com todas as ferramentas possíveis, para mostrarmos nossa obra da melhor forma.

Aquiles da Vila, desfilando pela Unidos de Vila Maria em 2019


Carnavalize: Qual a sua opinião sobre o novo formato que algumas escolas estão adotando para as eliminatórias de samba-enredo visando diminuir os custos para os compositores?

Aquiles: Para o compositor, com relação a custos, o formato de CD (trata-se de disputa fechada, com audição pelo CD entregue pelas parcerias), de fato é menos oneroso. Para a escola, creio que perde-se financeiramente e em relação à participação da comunidade na escolha do samba propriamente. De qualquer forma, o importante é a escola escolher o que é melhor para o projeto daquele ano. Para isso, se faz necessário uma comissão julgadora capacitada.



Carnavalize: Pra você, qual é o modelo ideal para as eliminatórias de samba-enredo que ajudam os compositores e também as escolas?

Aquiles: O modelo ideal é aquele que respeita o compositor, e sobretudo trata a música com carinho. Samba-enredo é o quesito mais democrático da escola, por isso deve ser escolhido com muita categoria e responsabilidade.


Carnavalize: O que você acha de algumas agremiações encomendarem seus sambas para um grupo de compositores específicos? Você é a favor ou contra a encomenda de sambas-enredos?

Aquiles: Acho super válido, desde que a escola tenha competência e sabedoria para escolher. Não importa o formato da escolha. Como eu sempre digo, as safras, via de regra, são muito boas. Difícil mesmo é a colheita


Carnavalize: Você possui o costume de acompanhar as escolas onde seu samba se consagra campeão, nos ensaios e eventos? Como costuma ser sua relação com elas?

Aquiles: Sempre! Vou aos ensaios e até no barracão. Nesse, costumo inclusive colaborar com um lanchinho e refrigerantes. Acho que isso faz toda a diferença, afinal sou parte interessada no projeto.


Carnavalize: De tantos sambas que compôs, tem algum que é mais especial pra você, que possui lembranças marcantes? (Não precisa ser necessariamente um samba que venceu).

Aquiles: X-9 Paulistana 2006 e Mocidade Alegre 2016. Perdi, mas são sambas que até hoje são muito comentados e lamentados. O de 2006 me colocou no cenário. O de 2016 ganhou um corpo além, devido ao fato de ser um samba muito diferente ao que estava acostumado a fazer. Esse nos colocou em outro patamar de composição. E também Rosas de Ouro 2017, um dos sambas com mais efeitos positivos de desfile, sobretudo pelas dificuldades que a escola vinha passando. O samba já vinha se mostrando forte desde as eliminatórias, mas no dia do desfile tomou uma proporção muito grande.


Carnavalize: Para finalizar Aquiles, qual samba-enredo de 2020 (tirando os seus) te encanta mais e por quê?

Aquiles: Tenho um carinho especial por dois sambas cariocas: Unidos da Tijuca, pela delicadeza da letra e a inovadora melodia. Essa samba me emociona; Estação Primeira de Mangueira, pelo ousado tema e pela forma como os compositores o abordaram. É mais que um samba. É uma causa!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Os destaques do lançamento do CD do Carnaval SP 2020

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
Por Juliana Yamamoto
As escolas de samba fizeram um grande show na Fábrica do Samba e mostraram sua garra e potencial, rumo ao carnaval 2020.

No dia 7 (sábado), foi realizada na Fábrica do Samba a festa de lançamento do CD de samba-enredo do Grupo Especial, Acesso I e Acesso II. Com uma grande estrutura e transmissão ao vivo no Facebook, a Liga Das Escolas de Samba de São Paulo apostou novamente no evento que é um grande espetáculo e atrativo de muitos foliões.


No Grupo de Acesso, quatro escolas se destacaram em suas apresentações: Mocidade Unida da Mooca, Acadêmicos do Tucuruvi, Camisa Verde e Branco e Vai-Vai.

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
A Mocidade Unida da Mooca, que vem para o seu segundo ano no Grupo de Acesso, usou a força do seu samba-enredo e da sua comunidade para brilhar na Fábrica. Com uma apresentação forte e constante do início ao fim, a escola mostrou que quer alçar voos maiores e chegar no Grupo Especial. Antes de iniciar, a agremiação entrou com uma enorme placa com a escrita “Vidas Negras importam”, causando um forte impacto nos que estavam presentes.

Os principais destaques durante a apresentação foram a sua dupla de intérpretes Clayton Reis e Gui Cruz, que mostrou muito entrosamento e interagiu fortemente com a comunidade. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Jeff e Janny, evidenciou porque são uns dos melhores casais de São Paulo, com um bailado elegante e uma dança harmônica. A comunidade também fez sua parte cantando o samba com muita força.

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
O Acadêmicos do Tucuruvi irá fazer uma homenagem a Chico Anysio no carnaval 2020 e sonha em retornar ao Especial. Sua apresentação na Fábrica do Samba mostrou uma escola organizada e empenhada em voltar ao principal Grupo.

Um dos principais destaques foi o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Luan e Waleska. Luan irá estrear na escola ao lado da porta-bandeira e apesar de poucas semanas juntos, já mostraram muita elegância e sincronia na sua dança. Outro ponto positivo foi a bateria do Zaca que abrilhantou o andamento do samba-enredo.

A comissão de frente fantasiada com os principais personagens vividos pelo artista Chico Anysio foi outro ponto alto. Pode-se ver uma escola leve e muito feliz para o carnaval 2020.

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
O Camisa Verde e Branco fará uma homenagem ao artista Carlinhos Brown e mostrou que apesar dos resultados negativos em 2018 e 2019, não se abalou e vem forte para o próximo carnaval. Com uma apresentação constante, pode-se enxergar uma comunidade contente e que cantava o samba com muita empolgação.

Um dos destaques foi a Furiosa, comandada pelo Mestre Marcão, que ousou nas bossas durante a sua apresentação. Além disso, o bom rendimento do samba-enredo ajudou no canto e evolução do Trevo da Barra Funda.

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
A maior campeã do carnaval de São Paulo encerrou as apresentações do Grupo de Acesso na festa mostrando a força e grandeza da sua comunidade. Os principais destaques do Vai-Vai foram o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Pingo e Paulinha, que esbanjou elegância e muito amor ao pavilhão. A bateria Pegada de Macaco comandada pelo Mestre Tadeu mostrou um bom andamento e ajudou no rendimento do samba-enredo, esse que teve o canto forte de seus componentes para alavancá-lo.


Já no Grupo Especial, viu-se uma regularidade entre as apresentações, mostrando que será um ano bastante disputado.

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
A vice-campeã Dragões da Real levou um grande contingente para a Fábrica e mostrou porque é uma das escolas em constante crescimento. O samba-enredo, composto por Aquiles da Vila e parceria, foi um dos pontos altos da apresentação. O refrão principal, fácil de cantar, caiu na boca dos foliões em poucos minutos. O canto da comunidade era evidente e muito forte. Além disso, os componentes pulavam e se divertiam.

Outro ponto positivo foi a bateria que ousou em bossas e contribuiu para o bom andamento do samba-enredo. O apelido “comunidade de gente feliz” fez jus à apresentação da agremiação da Vila Anastácio, que vem forte para o seu primeiro título.

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
Mancha Verde, a atual campeã do carnaval de São Paulo, exibiu sua força na disputa pelo bicampeonato. Com um grande contingente e todos os componentes fantasiados, a agremiação se destacou pelo forte canto da comunidade do início ao fim.

A Puro Balanço, comandada pelo mestre Guma, que irá para o seu primeiro ano na verde e branco, apresentou um bom entrosamento e andamento. Outro ponto positivo foi o carro de som liderado pelo intérprete Fredy Vianna, que a cada carnaval cria uma identificação cada vez maior com a Mancha Verde, sempre procurando tirar o melhor de cada samba-enredo.

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
O Acadêmicos do Tatuapé, que para o carnaval de 2020 levará a história da cidade de Atibaia, mostrou que está trilhando com sabedoria os caminhos em busca do seu terceiro título. Com um grande contingente, a agremiação novamente mostrou um dos seus maiores pilares: a força da sua comunidade. O canto era constante e muito forte.

O carro de som comandado por Celsinho Mody mostrou muita harmonia e entrosamento entre os cantores e também com a bateria. Apesar do sétimo lugar, a escola da Zona Leste vem para brigar mais um ano.

Foto: Felipe Araújo/LigaSP
Com um dos melhores sambas-enredos da safra, a Mocidade Alegre fez uma grandiosa apresentação na Fábrica do Samba. A comunidade novamente deu o tom com seu canto forte.

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Uilian e Karina mostraram garbo e elegância em sua dança, sendo um dos principais destaques. Uilian estreará defendendo o primeiro pavilhão ao lado de Karina. A bateria Ritmo Puro brincou com bossas e ajudou no andamento do samba que foi bem conduzido pelo intérprete Igor Sorriso e o seu time do carro de som.

A festa de lançamento do CD de samba-enredo foi e é um grande espetáculo no carnaval paulistano. Ela marca o início dos preparativos para os ensaios técnicos que começam em Janeiro no Sambódromo do Anhembi. A grade dos ensaios pode ser conferida no aqui.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

#Efemérides | 1979 - Vitória da Mocidade consolida "trio de penetras" na festa


Por Leonardo Antan

O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. 

Depois de uma década de 1960 com enormes e profundas transformações no universo das escolas de sambas, a mudança seguiu de modo crescente durantes os anos seguintes, com transformações dignas de plost-twist de final de série estadunidense. Se o Salgueiro havia surgido como grande potência, conquistando o público crescente dos desfiles com apresentações espetaculares e inovadores, o caminho trilhado iria ser aberto para que novas agremiações ascendessem na folia. Se até então existiam quatro grandes agremiações invictas e protagonistas absolutas, o cenário começaria a mudar. 

As 4 grandes: as matriarcas da festa


A Portela sempre se afirmou como sua tradição e se consolidou com uma vitoriosa nata. A Mangueira seguia vencendo nas brechas, conquistando títulos com sua potência e força. Já o Império Serrano contou com o talento de Silas de Oliveira e seus grandes compositores para também se destacar. E, por último, o Salgueiro se juntou ao grupo através da visão de seus grandes artistas, como Nelson de Andrade, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Assim, cada uma com a sua personalidade, pode-se fazer uma analogia entre as agremiações e uma espécie de Vingadores das escolas de sambas. O time ficou conhecido como "Quatro Grandes" e se revezavam nas primeiras posições durante bons anos. Uma das raras exceções foi em 1967, quando a Vila Isabel conquistou a quarta posição e jogou para sexto lugar ninguém menos que a Portela. Anos depois, em 1972, a Imperatriz Leopoldinense também abocanhou seu quarto lugar, dessa vez tirando o Salgueiro do grupo com um complicado desfile sobre a Mangueira. Dessa forma, a década de 70 consolidaria um "trio de penetras" para invadir essa festa.

Tudo começou dentro dos conformes, com as soberanas se revezando nas primeiras décadas de 1970, sem exceção. A Portela foi a primeira, em 1970, com Lendas e Mistérios da Amazônia. Depois, o Salgueiro, com Festa do Rei Negro. Em 1972, o Império Serrano lançou Fernando Pinto e se consagrou campeão com uma homenagem a Carmem Miranda. E em 1973, a Mangueira completou o time das campeãs. E foi então que em 1974 tudo começou a mudar. Após se consagrar graças a atuação de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, a dupla deixou o Salgueiro nas mãos de seus discípulos. Em 73, Maria Augusta e Joãosinho Trinta seguiram o legado de seus mestres com um tributo a escritora e jornalista Eneida de Moraes. Mas, para o ano seguinte, Arlindo Rodrigues aceitou o convite e se transferiu para a Mocidade Independente de Padre Miguel, e Joãosinho estrearia como artista solo na Academia vermelho e branco. 

Em meio a isso, as escolas de samba se consolidavam como uma manifestação para lá de popular e comercial. Os sambas-enredos eram lançados em discos que logo se tornaram sucesso de venda, sendo regravados por grandes cantores e cantoras da época, como Elis Regina, Nara Leão e Clara Nunes. As transmissões da TV exibiam os cortejos para todo o país, enquanto as arquibancadas ficavam maiores e mais lotadas a cada ano. 

A paradinha de outros carnavais, sei que ninguém pode esquecer jamais!


A estrela da zona oeste não era escola completamente desconhecida do público, apesar de nunca ter ultrapassado da barreira da quinta posição. Graças ao talento do lendário Mestre André, a alviverde se consolidou pelas graças de sua bateria, as paradinhas, e o talento de seu corpo de ritmistas. Tal feito fez o público batizar a Mocidade de modo maldoso como "a bateria como uma escola em volta", fazendo com que a agremiação quisesse mudar essa percepção. Como investimento do bicheiro Castor de Andrade, a agremiação contratou Arlindo Rodrigues, consolidando uma espécie de profissionalização da festa.

O lendário Mestre André no desfile de 1979.

Citando a profissão, os bicheiros foram personagens controversos e fundamentais para tantas mudanças. Os contraventores buscariam a festa como espaço de afirmação social, patrocinando pequenas escolas e as transformando em potência. O folclórico Castor de Andrade se aproximou da Mocidade Independente, a família Abrãao David, de Nilópolis, e Luizinho Drummond, da Imperatriz Leopoldinense. E assim, balizados pela força e pelo talento de grandes artistas da festa, o trio formado pela Estrela Guia de Padre Miguel, a Deusa da Passarela e a Rainha de Ramos colocou o fim definitivo na soberania das quatro matriarcas da folia. 

As transformações da folia...


Em 1963, Arlindo Rodrigues definiu as bases do carnaval contemporâneo em Xica da Silva, seu formato de um desfile unificado e espetacular seria ressignificado por seu discípulo Joãosinho Trinta. O baixinho maranhense tomaria a narrativa pra si e deixaria a apresentação das agremiações ainda mais espetaculares e grandiosos. Alegorias gigantes, destaques luxuosos, materiais inovadores e narrativas oníricas marcariam o estilo inconfundível do artista. E depois de conquistar um bicampeonato no Salgueiro com desfiles arrebatadores, ele seguiu até a pouco expressiva Beija-Flor de Nilópolis. De pequena coadjuvante, a azul e branco virou protagonista da festa e não só se tornou campeã como conquistou um histórico tricampeonato. Em 1979, então, o terreno estava pronto para que outras agremiações também brilhassem.

O visual luxuoso e barroco da apresentação da Mocidade em 1979.

Se Joãosinho conquistou cinco títulos seguidos, afirmando sua exuberância criativa, Arlindo Rodrigues não ficou atrás. Na Mocidade, permaneceu atento às transformações promovidas pelo artista que lançou e seguiu a pista rumo a espetáculos cada vez mais grandiosos que eram admirados pelas enormes arquibancadas e pela transmissão da TV. O desejo de Arlindo parecia a unificação do desfile, amarrando um espetáculo com uma verdadeira ópera bem concebida. Foi assim que substitui a entrega do "risco" de produção das roupas para um protótipo da fantasia a ser reproduzida por cada ala, tentando aumentar o controle sobre as fantasias que iriam pra avenida conversassem entre si. O modelo funciona até hoje. Apostou também em materiais brilhantes, introduzindo na folia os metaloides e acetatos. 

Arlindo não se manteve obsoleto de modo algum; atento às narrativas mirabolantes de Joãosinho que conquistaram os jurados e o público, resolveu recriar um enredo que já havia feito com novos olhares. Em 1962, ele estreou sozinho no Salgueiro em "O descobrimento do Brasil", inspirado na ópera de Heitor Villa-Lobos que encenou no Municipal. Dezessete anos atrás, revistou um tema com uma influência mágica. Saindo um pouco da rigidez histórica da narrativa, misturou as navegações portuguesas com o deus Netuno, afirmando que o soberano dos mares tinha dado uma ajudinha, soprando os navios para que desembarcassem em terras portuguesas. 

Com as bençãos do divino aconteceu o Descobrimento do Brasil


A Mocidade estava mais pronta do que nunca. Já havia feito grandes carnavais aliando a potência de sua bateria e o apuro estético de seu carnavalesco. Desde "Festa do Divino" e "Mãe meninha do Gantois" havia feito desfiles lindíssimos e que ficaram no quase por uma nota de um julgado ou outro. Com esse retrospecto, pisou na Avenida em 1979 com um requinte de Arlindo visto logo na comissão de frente, que trazia belos figurinos de navegantes portugueses, seguindo à risca a representação de figurinos históricos.

A comissão de Frente da Mocidade. 

O desfile apontou primeiro no branco, apresentando um visual monocromático inovador. As fantasias usavam de materiais ricos e tinham sido feitas com muito esmero. As alegorias completavam o visual de uma narrativa bem alinhada e que dava continuidade ao que era mostrado nas alas. O verde apareceu mais ao final da apresentação, coroando um desfile com assinatura inconfundível de Arlindo Rodrigues. Mas nada parecia tão fácil. A Beija-Flor tinha feito uma boa apresentação no delirante enredo "Paraíso da Loucura" e a Portela afirmava mais do que nunca sua tradição e grandiosidade com "Incrível, fantástico e extraordinário", assinado pelo brilhante Viriato Ferreira. Quem levaria a melhor?


A apuração reservou surpresas. E o pacote completo da Mocidade Independente foi quem conquistou jurados e público, fazendo a verde e branco finalmente conquistar seu primeiro título. E nas mãos do traço barroco de Arlindo Rodrigues, a escola da Zona Oeste se tornou definitivamente uma das grandes da história da folia. A Beija-Flor conquistou o segundo lugar e a Portela o terceiro.

Apesar do título, Arlindo não permaneceu na escola e pegou um trem com destino a Ramos. Mas a história de certa Imperatriz a gente volta a contar no próximo texto... Pois dez anos depois, a verde e branco da Leopoldina brilharia em duelo que marcou não só o carnaval, mas a história da cultura e da arte brasileira.


Referências bibliográficas:
Livro "As três irmãs - como um trio de penetras arrombou a festa", de Alan Diniz, Alexandre Medeiros e Fábio Fabato.
Livro "Estrela que me faz sonhar: histórias da Mocidade", de Bárbara Pereira.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

#Efemérides | 1969 - A explosão da Bahia salgueirense x O grito revolucionário imperiano

Por Leonardo Antan


O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!

Há cinquenta anos: o fim de uma década marcante


A década de 1960 foi uma das mais importantes da história das escolas de samba, representando um marco do momento em que as agremiações se tornaram grandes expoentes do carnaval carioca para o mundo inteiro. Os desfiles começaram a lotar a Presidente Vargas com arquibancadas montadas especialmente para eles. Os jornais e revistas dedicavam grandes páginas para falar dos enredos, sambas e celebridades que participavam do cortejos. 

Há cinquenta anos, em 1969, duas escolas protagonizaram momentos importantes. O Salgueiro se consolidava como a grande agremiação da década, conquistando seu quarto título em apenas dezessete anos de fundação. Do outro, o Império Serrano cantou os “Heróis da Liberdade” num gesto corajoso que marcou a história do carnaval. Mas antes de chegar lá, vamos relembrar o que aconteceu antes de tudo…

"Exaltando o negro pro mundo inteiro cantar"


Em 1959, o Salgueiro tinha começado a revolucionar os desfiles da escolas de samba ao passar na Avenida com "Debret". O enredo assinado por Nelson de Andrade e com identidade visual dos artistas Marie Louise e Dirceu Nery começou a implantar uma dinâmica espetacular em meio a transformação das escolas de samba como o principal produto do carnaval carioca. Em 1960, Fernando Pamplona desembarcou na escola vermelha e branca para desenvolver "Quilombo dos Palmares" e a história mudou de vez: uma escola de samba cantava um enredo que trazia o negro como herói, com uma estética afirmativa e cheia de elementos surpreendentes. 

Em 1963, o desfile "Xica da Silva" foi um marco na transformação das escolas de samba.

Já em 1963, a história mudou definitivamente. Com o enredo Xica da Silva, assinado por Arlindo Rodrigues, a vermelho e branco brilhou no primeiro desfile realizado com a montagem arquibancadas na altura da Candelária, na Presidente Vargas. A personagem-título foi encarnada por Isabel Valença e uma ala coreografada por Mercedes Baptista trazia doze casais dançando o minueto, tornando-se uma das grandes imagens daquela apresentação. Era um tema negro, engajado e também com elementos espetaculares, que dialogavam com o teatro e ópera, conquistando o público que se interessava cada dia mais pelas escolas de samba. (Saiba mais sobre esse desfile aqui)

O Salgueiro se tornou a escola-símbolo daquela época, dialogando tanto com a intelectualidade que se preocupava com os rumos das escolas quanto com o público que lotava as apresentações. Assim, desfilou tanto temas negros e politizados, como fez desfiles cheios de elementos visuais requintados, fantasias luxuosas e muito samba no pé. 

Outra escola que correu atrás também de conquistar os jurados mais uma vez foi a Portela. A azul e branco trouxe da Academia o presidente Nelson de Andrade, em 1962, que depois das transformações no Salgueiro, seguiu fazendo inovações na Majestade. Ainda assim, não teve para ninguém. O Salgueiro foi campeão com Xica da Silva, em 1963, e depois, em 1965, com História do Carnaval Carioca. 


"Bahia, meus olhos ainda estão brilhando..."




Desde do título em 1965, o Salgueiro seguiu sem vencer. Para aquele ano de 1969, a escolha do tema não foi fácil. Diziam que cantar a Bahia não dava sorte, nenhuma escola havia ganhado um carnaval cantando um enredo sobre o estado. Para piorar, a Academia não enfrentava uma boa fase financeira. Foi assim que surgiu a icônica frase de Fernando Pamplona, "tem que se tirar da cabeça o que não tem no bolso". Para driblar a crise, o carnavalesco, ao lado de Arlindo Rodrigues, resolveu usar uma reciclagem para lá de bem bolada. Responsáveis pela decoração do baile de carnaval do Copacabana Palace, os dois desenharam várias peças em vermelho e branco que saíram direito da festa luxuosa do hotel no sábado de carnaval para o desfile na Presidente Vargas, no dia seguinte. 

A destaque Isabel Valença com uma fantasia de baiana luxuosa.

Muitos fatos marcantes se eternizaram naquela apresentação. Vários desfilantes incorporaram orixás, comandados pela bailarina Mercedes Baptista. O professor Júlio Machado veio de Xangô, o que lhe originou o apelido que o eternizaria: o Xangô do Salgueiro. Isabel Valença foi uma luxuosa baiana, mas quem roubou a cena foi a jovem Narcisa. A passista fez a plateia delirar, e se acabou tanto que até perdeu o sapato e não parou de desfilar mesmo sem o calçado e com o asfalto quente. O samba-enredo tinha uma letra animada e empolgante, quebrando com a tradição dos chamadas sambas-lençóis. O hino foi cantado por ninguém menos do que Elza Soares. 

"Yemanjá enriquecendo o visual"


Um dos marcos dos desfiles foi a primeira grande alegoria a ficar gravada na memória dos sambistas: nada mais, nada menos que a representação de Iemanjá, a orixá das águas salgadas. A escultura de pouco mais de três metros era formada por uma cascata de espelhos, material usado até então nunca utilizado nos desfiles. A idealização foi do mestre Arlindo Rodrigues, enquanto Joãosinho Trinta, na época Joãosinho das Alegorias, realizou. Outra figura que participou da produção do desfile foi da então futura carnavalesca Maria Augusta, que até hoje relata o encantamento que a alegoria causou na concentração daquele desfile. O relato dela sobre a presença da escultura de papel machê é impressionante. 

Uma dos raros registros da alegoria. 

"Já era dia claro quando os componentes esperavam cansados o início do desfile, sob um calor de rachar. Até que o Fernando Pamplona resolveu mudar a armação da escola. A alegoria da Iemanjá, que viria lá atrás do desfile, foi parar na frente. À medida que ela passava, a escola ia literalmente levantando. Foi uma emoção indescritível ver aquela imagem tão linda passeando pela concentração. Dali pra frente o astral da escola mudou e entramos com tudo", conta a artista. 

Formada de espelhos redondos recortados e presos por fios de náilon, que formavam cascatas de luz refletindo os raios de sol, o efeito foi tão grande que a tecnologia da época não deu conta. As fotografias da alegorias não retratam com fidelidade a beleza da alegoria, já que a forte luz estourava as fotografias. 

Ao longe, soldados e tambores...


Se foi o Salgueiro quem se consagrou campeão, outra escola ficaria na história também aquele ano. Trata-se de um dos poucos casos de censura da história do samba-enredo. Fundada por estivadores e sindicalistas, o Império Serrano tem nas suas entranhas as lutas sociais. E em meio a ditadura civil-militar e o anúncio do AI-5, os "anos de chumbo" marcavam o período mais difícil do regime. Se em 1967, o Salgueiro já havia contado "A história da liberdade no Brasil", o desfile do Império era ainda mais claro na crítica. 

O samba-enredo Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira clamava pela Liberdade e recrutava todo o povo para lutar contra a "chama que o ódio não apaga". A letra não agradou os censores da época e os compositores foram chamados pelo secretário de Segurança da Guanabara, general França. A palavra “revolução” teve que ser trocada por “evolução”. 

Uma alegoria do desfile trazia Tiradentes.

E não só isso, dizem vários integrantes da escola que uma série de fatos estranhos que aconteceram durante o desfile, como voos rasantes de aeronaves da FAB, que acabariam por prejudicar a apresentação da verde e branco. Apesar da incerteza, o Império apresentou um desfile de plástica simples e conquistou um quarto lugar. A força revolucionário do Império permaneceu na memória popular e o samba-enredo se tornou um dos grandes clássicos do gênero, sendo até apontado por alguns especialistas como um dos maiores da história. 


E assim acabava mais uma década...


O final da década de 1960 marcava o fim de um período transformador das escolas de sambas que havia se iniciado exatamente dez anos antes. As escolas de samba se transformaram na principal atração turística e popular do carnaval, lançados como símbolo cultural da cidade. Com a aproximação dos artistas do Teatro Municipal e da Escola de Belas Artes, novos padrões nos quesitos narrativos e visuais foram estabelecidos, aumentando o lado artístico da festa. A vitória do Salgueiro de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues em 1969 reafirmava a soberania e liderança da vermelho e branco no período, transformando-se numa das mais tradicionais agremiações do carnaval carioca.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

#Efemérides | 1959 - O Debret do Salgueiro: a gênese de uma revolução

Por Leonardo Antan

O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!

60 anos do "Debret" do Salgueiro!


Se muitos dizem que a chamada "revolução salgueirense" começou em 1960, com a chegada de Fernando Pamplona à vermelho e branco da Tijuca, há uma perspectiva mais adequada para tratar dessa história. (Saiba mais sobre a Revolução Salgueirense aqui) A verdadeira gênese das transformações discursivas e estéticas que fariam o GRES Acadêmicos do Salgueiro se consagrar com uma das maiores agremiações do país já começaria a estar presente em seus desfiles em 1959. E antes de falar do carnavalesco com voz de trovão, professor da Escola de Belas Artes e cenógrafo do Municipal, precisamos lembrar de outra figura com o pensamento à frente de seu tempo: Nelson de Andrade. 

Comerciante da Tijuca, ele tinha ajudado o Salgueiro algumas vezes com contribuições para seu livro de ouro. Mas logo se enturmando com nomes da escola como Jô Calça Larga e Djalma Sabiá, Nelson foi convidado a ser presidente da agremiação por sua competência de liderança. Determinado, tinha o sonho de não só fazer a escola fundada em 1953 romper a barreira da quarta posição, como também conquistar o título de campeã do carnaval. E como fazer isso? A resposta só podia estar em um lugar: inovação! 

Já em seus primeiros anos como presidente, entre 1957 e 1958, Nelson tentou trazer algumas novidades para o desfile do Salgueiro. Naquela época, as escolas de samba ainda refletiam os ecos da vitória da Portela em 1939, que consolidou um carnaval tradicional, clássico e nacionalista - como você pode ler no primeiro texto da série #Efemérides. Com o fim da Praça Onze para as obras da avenida Presidente Vargas, as escolas passaram a desfilar no novo endereço, mas foi em 1957 que conquistaram o inimaginável prestígio de se apresentar no principal logradouro da cidade: a Avenida Rio Branco. A partir daí, as agremiações começariam a assumir, finalmente, o posto de principal manifestação cultural do período carnavalesco, desbancando as sociedades e os ranchos na predileção da população do Rio de Janeiro. 

 

"E quando foi julgador, o desfile atrasou seu coração salgueirou..."



Já passava das oito da noite quando o corpo de jurados daquele carnaval de 1959 chegou ao palanque construído na altura da Biblioteca Nacional. O espetacular desfile das escolas de samba estava marcado para começar às sete horas, só que desde sempre o atraso foi uma das maiores características da cultura carioca. O time de julgadores era formado por Fernando Pamplona, responsável pelo quesito “Escultura e Riqueza”, o grande folclorista e pesquisador Edison Carneiro, julgando “Enredo”, a escritora e jornalista Eneida de Morais, julgando “Letra do Samba”. Completariam o júri Belá Paes Leme (fantasia); Lúcio Rangel (bateria) e Brasil Easton (mestre-sala e porta-bandeira). 

Para aquele ano, Nelson decidiu que precisava arriscar mais do que nunca. Até então, os carnavais da escola já eram liderados artisticamente por Hildebrando Moura, funcionário da Casa da Moeda, que assinou enredos como “Romaria à Bahia”, “Brasil, fonte das artes” e “Navio negreiro”, entre 1954 e 1958. Para 1959, o presidente tinha feito um gesto ambicioso, indo atrás de dois grandes nomes da cultura brasileira, um casal “excêntrico” da Zona Sul carioca que colecionava itens do folclore brasileiro, chamados Dirceu e Marie Louise Nery. Quando encontrou o pernambucano e a suíça, a afinidade foi imediata e, depois de um papo ou outro, os dois estudiosos, que já tinham trabalhado no Museu de Etnografia da Suíça, concordaram em assinar o desfile do Salgueiro. Assim surgiu a homenagem ao artista Jean Baptiste Debret, famoso pintor por integrar a Missão Artística Francesa.

No domingo de carnaval de 1959, na Rio Branco, já passava das dez da noite e nenhum surdo ainda fazia marcação, somando horas de atrasos. A pista dos desfiles permanecia repleta de foliões e as cordas que deveriam separar plateia e palco estavam para lá de indefinidas. Com sua truculência histórica, os policiais montados tentavam retirar as pessoas da pista a cacetadas. A reportagem do Correio da Manhã (22/01/1959) comenta o uso descontrolado da Polícia Especial e da Polícia Militar, “que como sempre, voltaram a praticar violências contra o povo que se aglomerava ao longo da Av. Rio Branco para assistir o que há de mais belo no carnaval carioca”. 

Para complicar ainda mais, a Unidos de Bangu, a primeira escola que devia se apresentar, quebrou o eixo de um dos seus carros, recusando-se a iniciar os cortejos. Tentaram então passar para a segunda agremiação da ordem, a Aprendizes de Lucas, que não quis desfilar até a primeira se apresentar. Sem solução no horizonte, formou-se um quiproquó entre as quatro primeiras agremiações a se apresentar, o secretário do Turismo e a polícia. Em meio à discussão, o presidente salgueirense resolveu se manifestar. Ele decidiu que o Salgueiro poderia começar, mas desde que sua passagem fosse livre das cordas, para que o público e os desfilantes pudessem interagir de forma mais livre. 

A polícia se manifestou contrariamente a ideia do presidente, alegando que a medida aumentaria a desorganização. Com o atraso se arrastando há horas e o público inquieto, no entanto, o júri autorizou a entrada do Salgueiro - que seria apenas a quinta a se apresentar pela ordem original estipulada. Após tanta confusão, a solução parecia ter dado a graça. Eram pouco mais de 22 horas e 45 minutos quando a multidão alvirrubra finalmente iniciou os cortejos daquele histórico ano de 1959. 

"Viajei com Debret pelo Brasil..."



Dois grandes negros de um metro e noventa encabeçavam o corpo de componentes. Trajados de escravos, traziam o estandarte com o título “Viagem pitoresca através do Brasil”. Os figurinos reproduziam as famosas gravuras de Debret. Cestarias, vendedores de frutas e galinhas e a corte brasileira surgiram em encarnado e branco. O desfile tentava levar os foliões de volta ao Brasil do século XIX, tanto que os figurinos eram rigorosamente históricos como os mostrados pelo artista em suas gravuras. Nada de peruca tipo Luís XV ou fantasias de nobre pouco ligadas ao enredo. O tema tinha início, meio e fim, contando uma história ligada integralmente com o que era visto na pista. Além de grande presidente, Nelson de Andrade foi também um excelente "enredista", mostrando sua preocupação em desenvolver uma história bem amarrada na Avenida.

Os grandes e cenográficos adereços de mão serviram para ladear a apresentação, substituindo as criticadas alegorias de então, já que desde 1954, como sinalizou uma reportagem do jornal O Globo, as alegorias eram consideradas "fracas e toscas", um crime ao "singelo" espetáculo das escolas. Grandes lampiões a gás carregados pelos desfilantes iluminavam a Avenida e formavam um cortejo, mais do que nunca, teatralizado. Paula do Salgueiro surgiu levantando a plateia, dando um show na pista. Paula da Silva Campos se tornaria uma espécie de celebridade dos universos das escolas de sambas do período e intimamente ligada à identidade da vermelho e branco, desfilando na agremiação desde sua fundação. Virou uma atração à parte com seu gingado e carisma, mesmo sem nunca ter propriamente sambado, costumando usar fantasias de baianas estilizadas em composição popularizada por Carmen Miranda. 

Assim como ela, era comum um componente famoso ou identificado com a escola ser considerado uma "atração" dentro do desfile, uma pessoa geralmente animada que se comunicava com o público, famosa ou não. Este processo, possivelmente, originou o termo “passista”. Paula do Salgueiro seria um dos melhores exemplos dessa noção: ela era descrita como grande atração da vermelho e branco nos períodos da época, consolidando-se como uma “celebridade” do samba. Este desfile de 1959 marcou também a estreia das “irmãs Marinho” no Salgueiro, três dançarinas trazidas por Nelson do universo da Zona Sul carioca que se tornariam celebridades carnavalescas.

Desse jeito, com um desfile animado, bonito e que construía verdadeiras cenas aos olhos dos espectadores, o Salgueiro saiu da pista com uma das grandes favoritas, enquanto as escolas de samba começavam a se transformar nas queridinhas do público, da imprensa e do turismo, como um espetáculo vibrante, belo e típico da cultura carioca. Outro marco que ajuda a entender a "massificação" das escolas são os desfiles patrocinados pela Coca-Cola. Semanas antes do carnaval, as agremiações se apresentavam com sambas e fantasias inspiradas na marca de refrigerantes como forma de propaganda. Lá era dado um troféu para a principal agremiação, e naquele ano a grande campeã do Tamborim de Ouro foi exatamente o Salgueiro. 

Na cabine dos jurados, depois das apresentações, Fernando Pamplona tinha ficado dividido com as suas avaliações. Nos riscos a lápis, deu uma nota maior para o Salgueiro, mas mesmo com um tema sem empatia, a Portela havia feito uma excelente apresentação, apesar da pouca inovação, comparada ao desfile da vermelho e branco. Com "Brasil, pantheon de heróis", a azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira foi campeã mais uma vez, já com o status de a maior agremiação da época. A escola seguia apostando em um estilo patriótico e clássico, como fez em 1939. De qualquer forma, se naquele ano ainda não havia conquistado o título, o Salgueiro começou a incomodar as coirmãs com um inédito vice-campeonato. 

Depois do desfile, Nelson de Andrade foi procurar o jurado que tinha dado uma nota maior para o Salgueiro do que para a campeão do carnaval. Da afinidade imediata com Fernando Pamplona nasceria uma parceria que mudaria para sempre o carnaval e seus destinos. Seguindo as inovações do presidente para transformar os desfiles em algo mais dinâmico e teatral, Pamplona chamaria o reforço de seu parceiro de Municipal Arlindo Rodrigues para dar sequência a ideia de desfiles com enredos bem amarrados, com figurinos fieis ao seu tempo histórico, trazendo elementos que ajudariam a compor cenas dentro da apresentação além de apostar em passistas e celebridades para conquistar o público. 

Assim, nasceria uma revolução em vermelho e branco que modificaria para sempre o carnaval das escolas de samba e que ainda encontraria ecos dez anos depois, em 1969, quando o Salgueiro já era mais a escola azarada e conquistaria seu terceiro título - história para outro texto. 

Não perca a série #Efemérides! Texto toda segunda e quinta.