sexta-feira, 22 de novembro de 2019

#Efemérides | 1979 - Vitória da Mocidade consolida "trio de penetras" na festa


Por Leonardo Antan

O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. 

Depois de uma década de 1960 com enormes e profundas transformações no universo das escolas de sambas, a mudança seguiu de modo crescente durantes os anos seguintes, com transformações dignas de plost-twist de final de série estadunidense. Se o Salgueiro havia surgido como grande potência, conquistando o público crescente dos desfiles com apresentações espetaculares e inovadores, o caminho trilhado iria ser aberto para que novas agremiações ascendessem na folia. Se até então existiam quatro grandes agremiações invictas e protagonistas absolutas, o cenário começaria a mudar. 

As 4 grandes: as matriarcas da festa


A Portela sempre se afirmou como sua tradição e se consolidou com uma vitoriosa nata. A Mangueira seguia vencendo nas brechas, conquistando títulos com sua potência e força. Já o Império Serrano contou com o talento de Silas de Oliveira e seus grandes compositores para também se destacar. E, por último, o Salgueiro se juntou ao grupo através da visão de seus grandes artistas, como Nelson de Andrade, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Assim, cada uma com a sua personalidade, pode-se fazer uma analogia entre as agremiações e uma espécie de Vingadores das escolas de sambas. O time ficou conhecido como "Quatro Grandes" e se revezavam nas primeiras posições durante bons anos. Uma das raras exceções foi em 1967, quando a Vila Isabel conquistou a quarta posição e jogou para sexto lugar ninguém menos que a Portela. Anos depois, em 1972, a Imperatriz Leopoldinense também abocanhou seu quarto lugar, dessa vez tirando o Salgueiro do grupo com um complicado desfile sobre a Mangueira. Dessa forma, a década de 70 consolidaria um "trio de penetras" para invadir essa festa.

Tudo começou dentro dos conformes, com as soberanas se revezando nas primeiras décadas de 1970, sem exceção. A Portela foi a primeira, em 1970, com Lendas e Mistérios da Amazônia. Depois, o Salgueiro, com Festa do Rei Negro. Em 1972, o Império Serrano lançou Fernando Pinto e se consagrou campeão com uma homenagem a Carmem Miranda. E em 1973, a Mangueira completou o time das campeãs. E foi então que em 1974 tudo começou a mudar. Após se consagrar graças a atuação de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, a dupla deixou o Salgueiro nas mãos de seus discípulos. Em 73, Maria Augusta e Joãosinho Trinta seguiram o legado de seus mestres com um tributo a escritora e jornalista Eneida de Moraes. Mas, para o ano seguinte, Arlindo Rodrigues aceitou o convite e se transferiu para a Mocidade Independente de Padre Miguel, e Joãosinho estrearia como artista solo na Academia vermelho e branco. 

Em meio a isso, as escolas de samba se consolidavam como uma manifestação para lá de popular e comercial. Os sambas-enredos eram lançados em discos que logo se tornaram sucesso de venda, sendo regravados por grandes cantores e cantoras da época, como Elis Regina, Nara Leão e Clara Nunes. As transmissões da TV exibiam os cortejos para todo o país, enquanto as arquibancadas ficavam maiores e mais lotadas a cada ano. 

A paradinha de outros carnavais, sei que ninguém pode esquecer jamais!


A estrela da zona oeste não era escola completamente desconhecida do público, apesar de nunca ter ultrapassado da barreira da quinta posição. Graças ao talento do lendário Mestre André, a alviverde se consolidou pelas graças de sua bateria, as paradinhas, e o talento de seu corpo de ritmistas. Tal feito fez o público batizar a Mocidade de modo maldoso como "a bateria como uma escola em volta", fazendo com que a agremiação quisesse mudar essa percepção. Como investimento do bicheiro Castor de Andrade, a agremiação contratou Arlindo Rodrigues, consolidando uma espécie de profissionalização da festa.

O lendário Mestre André no desfile de 1979.

Citando a profissão, os bicheiros foram personagens controversos e fundamentais para tantas mudanças. Os contraventores buscariam a festa como espaço de afirmação social, patrocinando pequenas escolas e as transformando em potência. O folclórico Castor de Andrade se aproximou da Mocidade Independente, a família Abrãao David, de Nilópolis, e Luizinho Drummond, da Imperatriz Leopoldinense. E assim, balizados pela força e pelo talento de grandes artistas da festa, o trio formado pela Estrela Guia de Padre Miguel, a Deusa da Passarela e a Rainha de Ramos colocou o fim definitivo na soberania das quatro matriarcas da folia. 

As transformações da folia...


Em 1963, Arlindo Rodrigues definiu as bases do carnaval contemporâneo em Xica da Silva, seu formato de um desfile unificado e espetacular seria ressignificado por seu discípulo Joãosinho Trinta. O baixinho maranhense tomaria a narrativa pra si e deixaria a apresentação das agremiações ainda mais espetaculares e grandiosos. Alegorias gigantes, destaques luxuosos, materiais inovadores e narrativas oníricas marcariam o estilo inconfundível do artista. E depois de conquistar um bicampeonato no Salgueiro com desfiles arrebatadores, ele seguiu até a pouco expressiva Beija-Flor de Nilópolis. De pequena coadjuvante, a azul e branco virou protagonista da festa e não só se tornou campeã como conquistou um histórico tricampeonato. Em 1979, então, o terreno estava pronto para que outras agremiações também brilhassem.

O visual luxuoso e barroco da apresentação da Mocidade em 1979.

Se Joãosinho conquistou cinco títulos seguidos, afirmando sua exuberância criativa, Arlindo Rodrigues não ficou atrás. Na Mocidade, permaneceu atento às transformações promovidas pelo artista que lançou e seguiu a pista rumo a espetáculos cada vez mais grandiosos que eram admirados pelas enormes arquibancadas e pela transmissão da TV. O desejo de Arlindo parecia a unificação do desfile, amarrando um espetáculo com uma verdadeira ópera bem concebida. Foi assim que substitui a entrega do "risco" de produção das roupas para um protótipo da fantasia a ser reproduzida por cada ala, tentando aumentar o controle sobre as fantasias que iriam pra avenida conversassem entre si. O modelo funciona até hoje. Apostou também em materiais brilhantes, introduzindo na folia os metaloides e acetatos. 

Arlindo não se manteve obsoleto de modo algum; atento às narrativas mirabolantes de Joãosinho que conquistaram os jurados e o público, resolveu recriar um enredo que já havia feito com novos olhares. Em 1962, ele estreou sozinho no Salgueiro em "O descobrimento do Brasil", inspirado na ópera de Heitor Villa-Lobos que encenou no Municipal. Dezessete anos atrás, revistou um tema com uma influência mágica. Saindo um pouco da rigidez histórica da narrativa, misturou as navegações portuguesas com o deus Netuno, afirmando que o soberano dos mares tinha dado uma ajudinha, soprando os navios para que desembarcassem em terras portuguesas. 

Com as bençãos do divino aconteceu o Descobrimento do Brasil


A Mocidade estava mais pronta do que nunca. Já havia feito grandes carnavais aliando a potência de sua bateria e o apuro estético de seu carnavalesco. Desde "Festa do Divino" e "Mãe meninha do Gantois" havia feito desfiles lindíssimos e que ficaram no quase por uma nota de um julgado ou outro. Com esse retrospecto, pisou na Avenida em 1979 com um requinte de Arlindo visto logo na comissão de frente, que trazia belos figurinos de navegantes portugueses, seguindo à risca a representação de figurinos históricos.

A comissão de Frente da Mocidade. 

O desfile apontou primeiro no branco, apresentando um visual monocromático inovador. As fantasias usavam de materiais ricos e tinham sido feitas com muito esmero. As alegorias completavam o visual de uma narrativa bem alinhada e que dava continuidade ao que era mostrado nas alas. O verde apareceu mais ao final da apresentação, coroando um desfile com assinatura inconfundível de Arlindo Rodrigues. Mas nada parecia tão fácil. A Beija-Flor tinha feito uma boa apresentação no delirante enredo "Paraíso da Loucura" e a Portela afirmava mais do que nunca sua tradição e grandiosidade com "Incrível, fantástico e extraordinário", assinado pelo brilhante Viriato Ferreira. Quem levaria a melhor?


A apuração reservou surpresas. E o pacote completo da Mocidade Independente foi quem conquistou jurados e público, fazendo a verde e branco finalmente conquistar seu primeiro título. E nas mãos do traço barroco de Arlindo Rodrigues, a escola da Zona Oeste se tornou definitivamente uma das grandes da história da folia. A Beija-Flor conquistou o segundo lugar e a Portela o terceiro.

Apesar do título, Arlindo não permaneceu na escola e pegou um trem com destino a Ramos. Mas a história de certa Imperatriz a gente volta a contar no próximo texto... Pois dez anos depois, a verde e branco da Leopoldina brilharia em duelo que marcou não só o carnaval, mas a história da cultura e da arte brasileira.


Referências bibliográficas:
Livro "As três irmãs - como um trio de penetras arrombou a festa", de Alan Diniz, Alexandre Medeiros e Fábio Fabato.
Livro "Estrela que me faz sonhar: histórias da Mocidade", de Bárbara Pereira.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

#Efemérides | 1969 - A explosão da Bahia salgueirense x O grito revolucionário imperiano

Por Leonardo Antan


O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!

Há cinquenta anos: o fim de uma década marcante


A década de 1960 foi uma das mais importantes da história das escolas de samba, representando um marco do momento em que as agremiações se tornaram grandes expoentes do carnaval carioca para o mundo inteiro. Os desfiles começaram a lotar a Presidente Vargas com arquibancadas montadas especialmente para eles. Os jornais e revistas dedicavam grandes páginas para falar dos enredos, sambas e celebridades que participavam do cortejos. 

Há cinquenta anos, em 1969, duas escolas protagonizaram momentos importantes. O Salgueiro se consolidava como a grande agremiação da década, conquistando seu quarto título em apenas dezessete anos de fundação. Do outro, o Império Serrano cantou os “Heróis da Liberdade” num gesto corajoso que marcou a história do carnaval. Mas antes de chegar lá, vamos relembrar o que aconteceu antes de tudo…

"Exaltando o negro pro mundo inteiro cantar"


Em 1959, o Salgueiro tinha começado a revolucionar os desfiles da escolas de samba ao passar na Avenida com "Debret". O enredo assinado por Nelson de Andrade e com identidade visual dos artistas Marie Louise e Dirceu Nery começou a implantar uma dinâmica espetacular em meio a transformação das escolas de samba como o principal produto do carnaval carioca. Em 1960, Fernando Pamplona desembarcou na escola vermelha e branca para desenvolver "Quilombo dos Palmares" e a história mudou de vez: uma escola de samba cantava um enredo que trazia o negro como herói, com uma estética afirmativa e cheia de elementos surpreendentes. 

Em 1963, o desfile "Xica da Silva" foi um marco na transformação das escolas de samba.

Já em 1963, a história mudou definitivamente. Com o enredo Xica da Silva, assinado por Arlindo Rodrigues, a vermelho e branco brilhou no primeiro desfile realizado com a montagem arquibancadas na altura da Candelária, na Presidente Vargas. A personagem-título foi encarnada por Isabel Valença e uma ala coreografada por Mercedes Baptista trazia doze casais dançando o minueto, tornando-se uma das grandes imagens daquela apresentação. Era um tema negro, engajado e também com elementos espetaculares, que dialogavam com o teatro e ópera, conquistando o público que se interessava cada dia mais pelas escolas de samba. (Saiba mais sobre esse desfile aqui)

O Salgueiro se tornou a escola-símbolo daquela época, dialogando tanto com a intelectualidade que se preocupava com os rumos das escolas quanto com o público que lotava as apresentações. Assim, desfilou tanto temas negros e politizados, como fez desfiles cheios de elementos visuais requintados, fantasias luxuosas e muito samba no pé. 

Outra escola que correu atrás também de conquistar os jurados mais uma vez foi a Portela. A azul e branco trouxe da Academia o presidente Nelson de Andrade, em 1962, que depois das transformações no Salgueiro, seguiu fazendo inovações na Majestade. Ainda assim, não teve para ninguém. O Salgueiro foi campeão com Xica da Silva, em 1963, e depois, em 1965, com História do Carnaval Carioca. 


"Bahia, meus olhos ainda estão brilhando..."




Desde do título em 1965, o Salgueiro seguiu sem vencer. Para aquele ano de 1969, a escolha do tema não foi fácil. Diziam que cantar a Bahia não dava sorte, nenhuma escola havia ganhado um carnaval cantando um enredo sobre o estado. Para piorar, a Academia não enfrentava uma boa fase financeira. Foi assim que surgiu a icônica frase de Fernando Pamplona, "tem que se tirar da cabeça o que não tem no bolso". Para driblar a crise, o carnavalesco, ao lado de Arlindo Rodrigues, resolveu usar uma reciclagem para lá de bem bolada. Responsáveis pela decoração do baile de carnaval do Copacabana Palace, os dois desenharam várias peças em vermelho e branco que saíram direito da festa luxuosa do hotel no sábado de carnaval para o desfile na Presidente Vargas, no dia seguinte. 

A destaque Isabel Valença com uma fantasia de baiana luxuosa.

Muitos fatos marcantes se eternizaram naquela apresentação. Vários desfilantes incorporaram orixás, comandados pela bailarina Mercedes Baptista. O professor Júlio Machado veio de Xangô, o que lhe originou o apelido que o eternizaria: o Xangô do Salgueiro. Isabel Valença foi uma luxuosa baiana, mas quem roubou a cena foi a jovem Narcisa. A passista fez a plateia delirar, e se acabou tanto que até perdeu o sapato e não parou de desfilar mesmo sem o calçado e com o asfalto quente. O samba-enredo tinha uma letra animada e empolgante, quebrando com a tradição dos chamadas sambas-lençóis. O hino foi cantado por ninguém menos do que Elza Soares. 

"Yemanjá enriquecendo o visual"


Um dos marcos dos desfiles foi a primeira grande alegoria a ficar gravada na memória dos sambistas: nada mais, nada menos que a representação de Iemanjá, a orixá das águas salgadas. A escultura de pouco mais de três metros era formada por uma cascata de espelhos, material usado até então nunca utilizado nos desfiles. A idealização foi do mestre Arlindo Rodrigues, enquanto Joãosinho Trinta, na época Joãosinho das Alegorias, realizou. Outra figura que participou da produção do desfile foi da então futura carnavalesca Maria Augusta, que até hoje relata o encantamento que a alegoria causou na concentração daquele desfile. O relato dela sobre a presença da escultura de papel machê é impressionante. 

Uma dos raros registros da alegoria. 

"Já era dia claro quando os componentes esperavam cansados o início do desfile, sob um calor de rachar. Até que o Fernando Pamplona resolveu mudar a armação da escola. A alegoria da Iemanjá, que viria lá atrás do desfile, foi parar na frente. À medida que ela passava, a escola ia literalmente levantando. Foi uma emoção indescritível ver aquela imagem tão linda passeando pela concentração. Dali pra frente o astral da escola mudou e entramos com tudo", conta a artista. 

Formada de espelhos redondos recortados e presos por fios de náilon, que formavam cascatas de luz refletindo os raios de sol, o efeito foi tão grande que a tecnologia da época não deu conta. As fotografias da alegorias não retratam com fidelidade a beleza da alegoria, já que a forte luz estourava as fotografias. 

Ao longe, soldados e tambores...


Se foi o Salgueiro quem se consagrou campeão, outra escola ficaria na história também aquele ano. Trata-se de um dos poucos casos de censura da história do samba-enredo. Fundada por estivadores e sindicalistas, o Império Serrano tem nas suas entranhas as lutas sociais. E em meio a ditadura civil-militar e o anúncio do AI-5, os "anos de chumbo" marcavam o período mais difícil do regime. Se em 1967, o Salgueiro já havia contado "A história da liberdade no Brasil", o desfile do Império era ainda mais claro na crítica. 

O samba-enredo Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira clamava pela Liberdade e recrutava todo o povo para lutar contra a "chama que o ódio não apaga". A letra não agradou os censores da época e os compositores foram chamados pelo secretário de Segurança da Guanabara, general França. A palavra “revolução” teve que ser trocada por “evolução”. 

Uma alegoria do desfile trazia Tiradentes.

E não só isso, dizem vários integrantes da escola que uma série de fatos estranhos que aconteceram durante o desfile, como voos rasantes de aeronaves da FAB, que acabariam por prejudicar a apresentação da verde e branco. Apesar da incerteza, o Império apresentou um desfile de plástica simples e conquistou um quarto lugar. A força revolucionário do Império permaneceu na memória popular e o samba-enredo se tornou um dos grandes clássicos do gênero, sendo até apontado por alguns especialistas como um dos maiores da história. 


E assim acabava mais uma década...


O final da década de 1960 marcava o fim de um período transformador das escolas de sambas que havia se iniciado exatamente dez anos antes. As escolas de samba se transformaram na principal atração turística e popular do carnaval, lançados como símbolo cultural da cidade. Com a aproximação dos artistas do Teatro Municipal e da Escola de Belas Artes, novos padrões nos quesitos narrativos e visuais foram estabelecidos, aumentando o lado artístico da festa. A vitória do Salgueiro de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues em 1969 reafirmava a soberania e liderança da vermelho e branco no período, transformando-se numa das mais tradicionais agremiações do carnaval carioca.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

#Efemérides | 1959 - O Debret do Salgueiro: a gênese de uma revolução

Por Leonardo Antan

O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!

60 anos do "Debret" do Salgueiro!


Se muitos dizem que a chamada "revolução salgueirense" começou em 1960, com a chegada de Fernando Pamplona à vermelho e branco da Tijuca, há uma perspectiva mais adequada para tratar dessa história. (Saiba mais sobre a Revolução Salgueirense aqui) A verdadeira gênese das transformações discursivas e estéticas que fariam o GRES Acadêmicos do Salgueiro se consagrar com uma das maiores agremiações do país já começaria a estar presente em seus desfiles em 1959. E antes de falar do carnavalesco com voz de trovão, professor da Escola de Belas Artes e cenógrafo do Municipal, precisamos lembrar de outra figura com o pensamento à frente de seu tempo: Nelson de Andrade. 

Comerciante da Tijuca, ele tinha ajudado o Salgueiro algumas vezes com contribuições para seu livro de ouro. Mas logo se enturmando com nomes da escola como Jô Calça Larga e Djalma Sabiá, Nelson foi convidado a ser presidente da agremiação por sua competência de liderança. Determinado, tinha o sonho de não só fazer a escola fundada em 1953 romper a barreira da quarta posição, como também conquistar o título de campeã do carnaval. E como fazer isso? A resposta só podia estar em um lugar: inovação! 

Já em seus primeiros anos como presidente, entre 1957 e 1958, Nelson tentou trazer algumas novidades para o desfile do Salgueiro. Naquela época, as escolas de samba ainda refletiam os ecos da vitória da Portela em 1939, que consolidou um carnaval tradicional, clássico e nacionalista - como você pode ler no primeiro texto da série #Efemérides. Com o fim da Praça Onze para as obras da avenida Presidente Vargas, as escolas passaram a desfilar no novo endereço, mas foi em 1957 que conquistaram o inimaginável prestígio de se apresentar no principal logradouro da cidade: a Avenida Rio Branco. A partir daí, as agremiações começariam a assumir, finalmente, o posto de principal manifestação cultural do período carnavalesco, desbancando as sociedades e os ranchos na predileção da população do Rio de Janeiro. 

 

"E quando foi julgador, o desfile atrasou seu coração salgueirou..."



Já passava das oito da noite quando o corpo de jurados daquele carnaval de 1959 chegou ao palanque construído na altura da Biblioteca Nacional. O espetacular desfile das escolas de samba estava marcado para começar às sete horas, só que desde sempre o atraso foi uma das maiores características da cultura carioca. O time de julgadores era formado por Fernando Pamplona, responsável pelo quesito “Escultura e Riqueza”, o grande folclorista e pesquisador Edison Carneiro, julgando “Enredo”, a escritora e jornalista Eneida de Morais, julgando “Letra do Samba”. Completariam o júri Belá Paes Leme (fantasia); Lúcio Rangel (bateria) e Brasil Easton (mestre-sala e porta-bandeira). 

Para aquele ano, Nelson decidiu que precisava arriscar mais do que nunca. Até então, os carnavais da escola já eram liderados artisticamente por Hildebrando Moura, funcionário da Casa da Moeda, que assinou enredos como “Romaria à Bahia”, “Brasil, fonte das artes” e “Navio negreiro”, entre 1954 e 1958. Para 1959, o presidente tinha feito um gesto ambicioso, indo atrás de dois grandes nomes da cultura brasileira, um casal “excêntrico” da Zona Sul carioca que colecionava itens do folclore brasileiro, chamados Dirceu e Marie Louise Nery. Quando encontrou o pernambucano e a suíça, a afinidade foi imediata e, depois de um papo ou outro, os dois estudiosos, que já tinham trabalhado no Museu de Etnografia da Suíça, concordaram em assinar o desfile do Salgueiro. Assim surgiu a homenagem ao artista Jean Baptiste Debret, famoso pintor por integrar a Missão Artística Francesa.

No domingo de carnaval de 1959, na Rio Branco, já passava das dez da noite e nenhum surdo ainda fazia marcação, somando horas de atrasos. A pista dos desfiles permanecia repleta de foliões e as cordas que deveriam separar plateia e palco estavam para lá de indefinidas. Com sua truculência histórica, os policiais montados tentavam retirar as pessoas da pista a cacetadas. A reportagem do Correio da Manhã (22/01/1959) comenta o uso descontrolado da Polícia Especial e da Polícia Militar, “que como sempre, voltaram a praticar violências contra o povo que se aglomerava ao longo da Av. Rio Branco para assistir o que há de mais belo no carnaval carioca”. 

Para complicar ainda mais, a Unidos de Bangu, a primeira escola que devia se apresentar, quebrou o eixo de um dos seus carros, recusando-se a iniciar os cortejos. Tentaram então passar para a segunda agremiação da ordem, a Aprendizes de Lucas, que não quis desfilar até a primeira se apresentar. Sem solução no horizonte, formou-se um quiproquó entre as quatro primeiras agremiações a se apresentar, o secretário do Turismo e a polícia. Em meio à discussão, o presidente salgueirense resolveu se manifestar. Ele decidiu que o Salgueiro poderia começar, mas desde que sua passagem fosse livre das cordas, para que o público e os desfilantes pudessem interagir de forma mais livre. 

A polícia se manifestou contrariamente a ideia do presidente, alegando que a medida aumentaria a desorganização. Com o atraso se arrastando há horas e o público inquieto, no entanto, o júri autorizou a entrada do Salgueiro - que seria apenas a quinta a se apresentar pela ordem original estipulada. Após tanta confusão, a solução parecia ter dado a graça. Eram pouco mais de 22 horas e 45 minutos quando a multidão alvirrubra finalmente iniciou os cortejos daquele histórico ano de 1959. 

"Viajei com Debret pelo Brasil..."



Dois grandes negros de um metro e noventa encabeçavam o corpo de componentes. Trajados de escravos, traziam o estandarte com o título “Viagem pitoresca através do Brasil”. Os figurinos reproduziam as famosas gravuras de Debret. Cestarias, vendedores de frutas e galinhas e a corte brasileira surgiram em encarnado e branco. O desfile tentava levar os foliões de volta ao Brasil do século XIX, tanto que os figurinos eram rigorosamente históricos como os mostrados pelo artista em suas gravuras. Nada de peruca tipo Luís XV ou fantasias de nobre pouco ligadas ao enredo. O tema tinha início, meio e fim, contando uma história ligada integralmente com o que era visto na pista. Além de grande presidente, Nelson de Andrade foi também um excelente "enredista", mostrando sua preocupação em desenvolver uma história bem amarrada na Avenida.

Os grandes e cenográficos adereços de mão serviram para ladear a apresentação, substituindo as criticadas alegorias de então, já que desde 1954, como sinalizou uma reportagem do jornal O Globo, as alegorias eram consideradas "fracas e toscas", um crime ao "singelo" espetáculo das escolas. Grandes lampiões a gás carregados pelos desfilantes iluminavam a Avenida e formavam um cortejo, mais do que nunca, teatralizado. Paula do Salgueiro surgiu levantando a plateia, dando um show na pista. Paula da Silva Campos se tornaria uma espécie de celebridade dos universos das escolas de sambas do período e intimamente ligada à identidade da vermelho e branco, desfilando na agremiação desde sua fundação. Virou uma atração à parte com seu gingado e carisma, mesmo sem nunca ter propriamente sambado, costumando usar fantasias de baianas estilizadas em composição popularizada por Carmen Miranda. 

Assim como ela, era comum um componente famoso ou identificado com a escola ser considerado uma "atração" dentro do desfile, uma pessoa geralmente animada que se comunicava com o público, famosa ou não. Este processo, possivelmente, originou o termo “passista”. Paula do Salgueiro seria um dos melhores exemplos dessa noção: ela era descrita como grande atração da vermelho e branco nos períodos da época, consolidando-se como uma “celebridade” do samba. Este desfile de 1959 marcou também a estreia das “irmãs Marinho” no Salgueiro, três dançarinas trazidas por Nelson do universo da Zona Sul carioca que se tornariam celebridades carnavalescas.

Desse jeito, com um desfile animado, bonito e que construía verdadeiras cenas aos olhos dos espectadores, o Salgueiro saiu da pista com uma das grandes favoritas, enquanto as escolas de samba começavam a se transformar nas queridinhas do público, da imprensa e do turismo, como um espetáculo vibrante, belo e típico da cultura carioca. Outro marco que ajuda a entender a "massificação" das escolas são os desfiles patrocinados pela Coca-Cola. Semanas antes do carnaval, as agremiações se apresentavam com sambas e fantasias inspiradas na marca de refrigerantes como forma de propaganda. Lá era dado um troféu para a principal agremiação, e naquele ano a grande campeã do Tamborim de Ouro foi exatamente o Salgueiro. 

Na cabine dos jurados, depois das apresentações, Fernando Pamplona tinha ficado dividido com as suas avaliações. Nos riscos a lápis, deu uma nota maior para o Salgueiro, mas mesmo com um tema sem empatia, a Portela havia feito uma excelente apresentação, apesar da pouca inovação, comparada ao desfile da vermelho e branco. Com "Brasil, pantheon de heróis", a azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira foi campeã mais uma vez, já com o status de a maior agremiação da época. A escola seguia apostando em um estilo patriótico e clássico, como fez em 1939. De qualquer forma, se naquele ano ainda não havia conquistado o título, o Salgueiro começou a incomodar as coirmãs com um inédito vice-campeonato. 

Depois do desfile, Nelson de Andrade foi procurar o jurado que tinha dado uma nota maior para o Salgueiro do que para a campeão do carnaval. Da afinidade imediata com Fernando Pamplona nasceria uma parceria que mudaria para sempre o carnaval e seus destinos. Seguindo as inovações do presidente para transformar os desfiles em algo mais dinâmico e teatral, Pamplona chamaria o reforço de seu parceiro de Municipal Arlindo Rodrigues para dar sequência a ideia de desfiles com enredos bem amarrados, com figurinos fieis ao seu tempo histórico, trazendo elementos que ajudariam a compor cenas dentro da apresentação além de apostar em passistas e celebridades para conquistar o público. 

Assim, nasceria uma revolução em vermelho e branco que modificaria para sempre o carnaval das escolas de samba e que ainda encontraria ecos dez anos depois, em 1969, quando o Salgueiro já era mais a escola azarada e conquistaria seu terceiro título - história para outro texto. 

Não perca a série #Efemérides! Texto toda segunda e quinta.







terça-feira, 5 de novembro de 2019

A promoção e aposta em novos casais de mestre-sala e porta-bandeira para o carnaval 2020


Por Juliana Yamamoto
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira tem a responsabilidade de defender o maior símbolo de uma escola de samba, o pavilhão, e trazer a nota máxima, ajudando-a no tão sonhado título. Esse quesito que exala arte, parceria e dança é composto por apenas dois integrantes, e são eles que se dedicam em constantes ensaios em prol do pavilhão e da sua enorme comunidade que está sendo carregada pela porta-bandeira em giros e minuetos e na proteção e cortejo do mestre-sala. Juntos, transmitem dedicação e amor. 

Para o carnaval paulistano de 2020, houve a promoção e a aposta em novos casais de mestre-sala e porta-bandeira nos grupos Especial e Acesso I. Muitos farão sua estreia como primeiro mestre-sala ou primeira porta-bandeira. Está cada vez mais evidente um novo ciclo no quesito embalado pelo surgimento de novas estrelas.


Foto: André Murrer
Abrindo os desfiles do Grupo Especial, o Barroca Zona Sul irá apostar num jovem mestre-sala para o carnaval 2020, Igor Sena. 

Igor possui 10 anos no carnaval, sendo 7 como mestre-sala. Já teve passagem pelo Águia de Ouro, escola pela qual dançou por 3 anos. Ganhou ainda mais destaque na Dragões da Real, ficando por 2 anos como segundo mestre-sala. Para 2020, fará sua estreia ao lado da porta-bandeira Lenita Magrini, que já teve passagens pela Independente Tricolor e no próprio Barroca em anos anteriores.


Foto: Felipe Araújo
A primeira escola a adentrar a pista do Anhembi no sábado de carnaval é a Pérola Negra. A agremiação da Vila Madalena também aposta numa jovem promessa com muita experiência no quesito, Arthur Santos.

Arthur tem 19 anos e começou a sua trajetória cedo, aprendendo essa nobre arte desde criança. Sua história na dança de mestre-sala e porta-bandeira se iniciou na Nenê de Vila Matilde, mais especificamente na Nenê do Amanhã, escola-mirim da águia paulistana.

Em 2019, ao lado da porta-bandeira Beatriz Teixeira, estreou como primeiro mestre-sala na escola. Com seu talento e se destacando cada vez mais na dança, Arthur estreará como primeiro mestre-sala na elite do carnaval ao lado da porta-bandeira Eliana, que está desde o carnaval de 2018 na escola.


Foto: Sergio Cruz
Já os alvinegros dos Gaviões da Fiel resolveram apostar em uma prata da casa para o quesito, marca registrada da escola. 

Gabriela Mondijan foi promovida para primeira porta-bandeira e dançará ao lado de Wagner Lima, que já era da escola e tinha uma parceria de sucesso com a Adriana Mondijan, a Drika. 

Nascida e crescida nos Gaviões, a nova primeira porta-bandeira já dança há 11 anos e iniciou a sua trajetória na própria escola em 2011, quando assumiu o quarto pavilhão. Adriana, antiga primeira porta-bandeira, sua maior inspiração, irá acompanhar todo o processo da transição ao lado do mestre-sala Wagner. 


Foto: Henrique Barbosa
Após a saída de Emerson Ramires, a Mocidade Alegre decidiu promover um de seus mestres-sala, Uilian Cesário, antigo quarto mestre-sala da agremiação. O novato no posto estreará no Anhembi ao lado de Karina Zamparolli, primeira porta-bandeira da Morada desde 2013.

Com 24 anos, Uilian iniciou sua trajetória na Mocidade Alegre após o carnaval de 2015, com uma parceria ao lado de Natália Lago. Antes, fazia parte do Acadêmicos do Tatuapé, escola em que se destacou por seu elegante bailado. O mestre-sala também se mostrava muito empenhado e dedicado, sempre aprimorando a arte através de cursos. 

Na Morada do Samba, Uilian Cesário cresceu e ganhou seu espaço, adquirindo a admiração da comunidade. Em 2020, terá a grande honra e responsabilidade de defender o tradicional pavilhão vermelho, verde e branco ao lado de Karina.


Foto: Paulo Sadão
Após a saída do primeiro casal da escola, a Unidos de Vila Maria decidiu investir numa nova dupla para o quesito. Brunno Mathias e Tatiana dos Santos formarão o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Vila Mais Famosa para o carnaval de 2020.

Com uma trajetória extensa, iniciada em 1999, Brunno, de 31 anos chegou à escola em 2010 como quinto mestre-sala, e de lá nunca mais saiu. Foi ganhando espaço e admiração pela comunidade através do riscado característico e por sua evolução na dança. A cada ano, o menino de Jundiaí crescia na arte e com seu talento ganhou maior notoriedade. Em 2018 desfilou como primeiro mestre-sala do Morro da Casa Verde. No mesmo ano, na Vila Maria, precisou assumir o pavilhão oficial ao lado da porta-bandeira Jéssica Passos, demonstrando muita responsabilidade e força. Para 2020, Brunno terá um dos maiores desafios de sua vida.

Já sua porta-bandeira, Tatiana dos Santos, é experiente, possuindo passagem em várias agremiações, como Leandro de Itaquera, X-9 Paulistana e Morro de Casa Verde, já tendo ocupado o posto de primeira porta-bandeira. No último carnaval, desfilou com o segundo pavilhão da Nenê de Vila Matilde. Muitos não sabem, mas Tatiana já participou do quadro de casais da Vila Maria, de 2006 a 2009, sendo terceira porta-bandeira. Agora retorna à verde, azul e branco como primeira, estreando nessa função no Grupo Especial, e também com um novo parceiro na dança.


Foto: Anju Fotografia
No Grupo de Acesso I, também teremos novos nomes no Sambódromo do Anhembi. A Nenê de Vila Matilde decidiu apostar em uma porta-bandeira já muito conhecida no carnaval paulistano e que fará a sua estreia como primeira no grupo da Liga das Escolas de Samba de São Paulo: Monalisa Carmo Bueno.

Monalisa tem 28 anos e começou a dançar aos 7, como porta-bandeira mirim do Barroca Zona Sul. No mesmo ano, recebeu o convite para participar do quadro de casais do Vai-Vai. Em 2000, estreou como porta-bandeira nas duas agremiações. Seu currículo é de peso, com passagens por Imperador do Ipiranga, Tradição Albertinense e Dragões da Real. Em 2007, foi porta-bandeira oficial do GRES Quilombo e no mesmo ano retornou ao Vai-Vai, ganhando maior notoriedade através do seu bailado e talento. Para 2020, atravessará a passarela do samba como primeira porta-bandeira da Nenê, ao lado do mestre-sala Cley Ferreira, que possui passagens pelo Barroca e Independente Tricolor.


Foto: Acadêmicos do Tucuruvi
O Acadêmicos do Tucuruvi anunciou no último sábado (2) seu novo primeiro mestre-sala após o desligamento de Kawan Alcides. O novo parceiro de Waleska Gomes será Luan Caliel!

Luan tem 20 anos e ganhou notoriedade no Águia de Ouro, desfilando como terceiro mestre-sala até o carnaval de 2019. Através do seu riscado característico, ganhou destaque. O jovem teve aulas com a sua própria porta-bandeira no curso da Amespbeesp nos anos de 2018 e 2019. Para 2020, fará sua estreia como mestre-sala oficial ao lado da experiente Waleska.


Foto: Felipe Araújo
Dedicação, empenho, ensaios e muito amor ao pavilhão não faltarão aos novos casais de mestre-sala e porta-bandeira que se formaram para o carnaval 2020. Novas estrelas estão surgindo para abrilhantar o Anhembi e encantar com seu bailado. Que venham os desfiles!

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

#Efemérides | 1939 - A inovação da Vizinha Faladeira x a tradição da Portela


Por Leonardo Antan


O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!


1939 - A inovação da Vizinha Faladeira e a Tradição da Portela


Há 80 anos, dois desfiles emblemáticos aconteciam na Praça Onze, o grande berço do samba carioca. As escolas de samba davam seus primeiros passos, conquistando o povo e os intelectuais da época. Nos primeiros desfiles, a dúvida era cristalina: o que queriam as escolas de samba em meio ao movimentado carnaval do Rio de Janeiro? Dividindo atenção com luxuosas e aristocráticas Grandes Sociedades e os populares e divertidos Ranchos, cabia nas escolas um carnaval espetacular e cheio de requinte visual? Ou valia mais a simplicidade de temas patrióticos que agradassem aos governantes e fizessem os heróis nacionais caírem no samba? 

Essa tensão pode ser vista em duas apresentações que marcaram o último ano daquela primeira década de competição. De um lado, a Vizinha Faladeira deu o que falar ao tentar fazer o primeira tema internacional ao contar a história de "Branca de Neve e os sete anões", baseado no filme animado de Walt Disney. Na briga contra o "estrangeirismo", a Portela deu as bases de um carnaval educacional e politicamente correto com "Teste ao Samba". Era a (hoje conhecida) disputa entre tradição e inovação que já ecoava na festa. Vamos lembrar mais a fundo para saber quem levou a melhor nessa história.  


"Praça Onze, berço das nossas fantasias..."



Os primeiros desfiles das escolas de sambas em nada lembram o espetáculo audiovisual que as mesmas agremiações apresentam hoje no Sambódromo. Quando a primeira disputa oficial realizada entre os grupos foi promovida pelo Jornal Mundo Sportivo, em 1932, os sambistas dos morros e subúrbios se apresentaram para o júri subindo em um pequeno palanque após circular pelo espaço da Praça Onze. Não existiam ainda o cortejo e a pista reta que caracterizaram os desfiles tempos depois; era tudo muito mais improvisado e espontâneo. Assim, não se pode esperar também que houvesse uma unidade entre o apresentado pelos intérpretes e ritmistas, que improvisavam versos, e as fantasias simples de baianas, cabrochas e malandros.

Longe do sucesso que têm hoje, as agremiações ainda disputavam atenção com outras formas de brincar muito mais populares, como os ranchos, blocos, cordões e as Grandes Sociedades. Apesar disso, logo foram aceitas pela sociedade e já em 1935 ganharam um órgão oficial responsável pela administração dos desfiles e as escolas passaram a receber verba pública da Secretaria do Turismo. Ao usarem o ritmo, que fazia sucesso fonográfico na folia, as agremiações surgiram em um contexto de valorização e popularização do samba não só como música típica do Brasil, mas também aliando elementos que já existiam nessas outras manifestações, tentando buscar aceitação social. A estratégia foi muito bem vista pelo governo populista de Getúlio Vargas e os intelectuais modernistas que buscavam criar uma identidade nacional a ser exportada. Nesse jogo de negociações, as escolas de samba souberam ecoar sua gramática dos tambores surgidas na diáspora e valorizar a cultura ancestral negra, enquanto ainda agradavam os políticos e artistas eruditos. Seria essa capacidade de negociação o grande trunfo para perpetuar a longevidade dessas instituições. Foi assim que elas já surgiram verdadeiramente "tradicionais", reafirmando sua ancestralidade negra, trazendo baianas e proibindo os instrumentos de sopro, expurgando qualquer herança estrangeira e se tornando um produto da nossa brasilidade. 


Um vizinha muito exibida



É inegável que todo esse projeto deu certo, mas ele fica ainda mais claro quando pesquisadores resgatam a história da Vizinha Faladeira. Fundada em 1932, na Zona Portuária, trata-se de uma escola inovadora naquela década de 30, trazendo elementos que não eram imaginados no contexto e causaram rebuliço. Já em 1933, no concurso organizado pelo jornal O Globo, a agremiação das cores azul e branco cometeu a ousadia de trazer um automóvel para seu desfile. Com desfiles espetaculosos, apostou em componentes montados a cavalos, automóveis decorados, fantasias de tecidos caros e até iluminação especial. Tanta novidade dividia opiniões dos jurados, público e imprensa. Será que era aquele caminho que queriam as escolas?

A repercussão das inovações da Vizinha faria a União das Escolas de Samba proibir os carros e carretas nos desfiles, alegando que a brincadeira estava se descaracterizando. Veja bem: uma forma de brincar que ainda estava surgindo e mal tinha se entendido direito. Outra proibição que chama atenção foi a impossibilidade de desfilar  histórias internacionais em sonho ou imaginação, marcando a preferência por temas brasileiros. Mesmo assim, ninguém conseguiu parar a escola que se sagrou campeã em 1937, com um desfile feito pelos cenógrafos Irmãos Garrido,  com luxuosas fantasias. Apesar do campeonato, a comissão julgadora destacou em relatório enviado à Diretoria de Turismo que a Portela fora “a única que se apresentou conservando todas as tradições de uma verdadeira escola de samba, enquanto as outras se desviavam, consideravelmente, dessa finalidade”.


Portela: a guardiã da tradição!



Enquanto a Vizinha Faladeira era duramente criticada por importar um modelo muito espetacular para as "singelas" escolas de sambas, uma certa escola azul e branco de Oswaldo Cruz tentava defender toda a "tradição" das recém surgidas agremiações. Cantando sempre temas nacionais e idílicos, ela era liderada por um dos grandes intelectuais cariocas da primeira metade do século XX: Paulo da Portela. O sambista nascido na Zona Portuária, mas que logo se mudou para o subúrbio de Oswaldo Cruz, foi o responsável por tentar colocar fim na discriminação contra os sambistas. A sua arma? A elegância! 

“Pés e pescoços cobertos!” era o que ele dizia, defendendo a ideia de que sambista devia permanecer com uma beca impecável para combater o racismo institucional que marcava o Rio de Janeiro desde a escravidão. Não é à toa que a Portela se tornaria a Majestade do Samba, famosa por sua pompa e bom trato, herdando o estilo inconfundível de seu fundador. Ao contrário da Vizinha Faladeira, a azul e branco investiu em grandes sambas e apresentações sem tantas pirotecnias. Foi assim que conquistou seu primeiro título, em 1935, mas ainda tentava marcar seu território contra escolas como a Mangueira e Unidos da Tijuca. 

1939: o grande duelo! 


O duelo da tradição ancestral da Portela e as inovações da Vizinha Faladeira marcou definitivamente o ano de 1939. Afinal, qual escola definiria os rumos do carnaval dali pra frente? 

Mostrando que a falta de organização também era uma "tradição" das escolas já naquele tempo, o pré-carnaval teve momentos conturbados que não deixaram evidente qual seria o regulamento a ser usado naquele ano, após uma série de discussões na entidade organizadora da festa. O impasse fez o regulamento de 1938 ser reutilizado. Com isso, foram reafirmadas as proibições de instrumentos de sopro, carros alegóricos ou temas estrangeiros, itens que tinham sido explicitamente proibidos no regulamento anterior. Para completar o sarapatel, a divulgação das regras do concurso foi feita apenas 17 dias antes do desfile, restando menos de um mês para as escolas se prepararem para a disputa. Tal falta de organização faria com que algumas escolas decidissem ousar, desfilando com carros alegóricos, fantasias luxuosas e outras novidades.

Foi nessa confusão generalizada que a Vizinha Faladeira tentou inovar com um tema inédito: "Branca de Neve e os sete anões" abordava o filme lançando pelo estúdio Walt Disney como primeiro longa-metragem de animação do mundo. Surpreendendo a todos, a escola arrancou aplausos ao desfilar com 400 integrantes, comissão de frente trajando terno de flanela e polainas, bateria fantasiada, carro alegórico com luzes e anões em volta da Branca de Neve. 

Interessados em valorizar as escolas de samba, os jornais destacavam seu caráter nacionalista, descrevendo-as como “núcleos de cultivadores da nossa música típica, no que ela tem de mais histórico e básico da civilização brasileira” ou como “simpáticas manifestações do folclore nacional”. Comandada por Paulo da Portela, a azul e branco de Madureira preparou para aquele ano o "Teste ao samba", unindo visual e música pela primeira vez. Contra o estrangeirismo, a agremiação também fez uma apresentação com elementos ousados e pouco usuais na época. Aproveitando-se de outras inovações da Vizinha, mas dando a elas aspectos mais líricos. Paulo se transformou no professor e entregou diplomas para os foliões vestidos com becas de estudantes, enquanto o samba também composto por ele cantava "vou começar a aula perante a comissão". 

Arrematando a cena, uma pequena alegoria representando um quadro-negro trazia a simbólica frase: "Prestigiar o samba, música típica e original do Brasil e incentivar o povo". O caráter uniforme e disciplinado da escola em uma apresentação coesa que remetia o militarismo e bons costumes, agradou a todos. Com um show de educação singelo, a Portela se mostrou a escola mais afinada ao projeto de transformar a escolas de samba em produto típico nacional e símbolo da identidade cultural do Brasil. Até hoje, este é considerado o primeiro "samba-enredo" da História. Afirmando o imaginário da azul e branco como uma escola pioneira.

E a grande campeã... foi?


A disputa pelo título começou antes do julgamento. A Portela pediu a desclassificação imediata da Vizinha Faladeira por desfilar com um tema estrangeiro, se valendo das proibições dos regulamentos anteriores. O pedido não só foi aceito, com a Majestade do Samba se tornou a grande campeã, consolidando seu desfile "tradicional" e patriótico. Revoltada, a Vizinha Faladeira não se calou para o ano seguinte e resolveu cutucar com o tema batizado de “Carnaval para o povo”. Assim, no carnaval de 1940, a escola fez um grande protesto, se virando contra o corpo de jurados na hora de sua apresentação. Após passar por trás da cabine, se virou ao povo exibindo uma enorme faixa com os dizeres “Devido às marmeladas, adeus carnaval. Um dia voltaremos”. 

Depois do sucesso que conquistou na primeira década de desfile, a Vizinha Faladeira virou história e enrolou sua bandeira, voltando a ativa somente recentemente. O fracasso da escola estava diretamente ligado a vitória da Portela, ainda mais com a vitória da "tradição" das recém-fundadas instituições contra as inovações e o luxo. Apesar de parecer uma dicotomia, foi a capacidade de reinvenção e adaptação que garantiu o sucesso da Portela, que incorporou o uso de uma alegoria, mas a transformou num objeto de patriotismo, cumprindo diversos interesses. E foi entre essas negociações e trocas que a Majestade se tornou uma das maiores escolas do carnaval brasileiro. 

Símbolo máximo do carnaval, as escolas são fruto da capacidade de reinventar constantemente suas tradições adaptando-as aos interesses da intelectualidade sem perder de vista seus próprios objetivos. 


Que saber mais sobre a história do carnaval? Não perca nossos próximos textos, na quinta vamos direto à folia de 1959.

Referências bibliográficas:
O artigo "Incômoda Vizinhança", de Gabriel Turano e Felipe Ferreira.
A tese "Que carnaval é esse?", de Gabriel Turano.
O livro "Pra tudo começar na quinta-feira", de Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

SINOPSE | Unidos da Tijuca: "Onde moram os sonhos"

Resultado de imagem para tijuca arquitetura e urbanismo 


RESUMO
A Unidos da Tijuca escolheu, como tema para o enredo de 2020, a Arquitetura e o Urbanismo. Cenário do Carnaval carioca, que é um dos maiores espetáculos a céu aberto do planeta, o Rio de Janeiro é Patrimônio Cultural Mundial, na categoria paisagem urbana, desde 2012. A cidade recebeu, ainda, recentemente, o título de primeira Capital Mundial da Arquitetura, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pela União Internacional dos Arquitetos (UIA). No ano em que o Rio será a sede de importantes eventos internacionais, como o 27º Congresso Mundial de Arquitetos e o Fórum Mundial de Cidades, além de exposições e concursos públicos, a Tijuca projetou seu desfile para explorar o passado, entender o presente e arquitetar o futuro. O enredo vai mostrar a incrível capacidade do homem de criar espaços que possam servir de abrigo para diferentes atividades. Ao realizar o seu trabalho, os arquitetos deixam registros que nos ajudam a compreender a nossa história. Templos, castelos, monumentos, casas, prédios, conjuntos habitacionais, parques, praças, ruas e avenidas revelam a contribuição de uma das mais antigas profissões. Das edificações da Antiguidade às cidades modernas, cada espaço ensina a cultura de seu tempo. Mas muitos são os desafios. É preciso conservar o patrimônio cultural da humanidade, além de resolver os problemas gerados pelo crescimento desordenado, que se agrava nos centros urbanos. Arquitetar a vida é assegurar o testemunho do passado, intervir no presente e traçar para o futuro uma cidade sustentável a que todos tenham direito…


Abertura

O que move homens e mulheres que se dedicam a pensar na arte de viver, projetar, organizar e produzir o lugar da moradia, do trabalho, da diversão, do lazer e da religião?

A sensibilidade do artista procura e encontra soluções, ao erguer palácios, igrejas, casas, vilas, cidadelas e metrópoles que desafiem o tempo e o espaço. Esse é um processo que acontece há milênios, todos os dias.

Tijuca percorre a Avenida da Capital Mundial da Arquitetura apresentando algumas de suas grandes realizações do passado até chegar às modernas metrópoles da atualidade. E convida a todos para participar do projeto de um futuro em que haja qualidade de vida e justiça social para todos. Que venham os arquitetos do mundo! Vamos planejar o amanhã… Porque os sonhos vivem dentro de nós e é possível torná-los realidade, se trabalharmos juntos.


Setor 1 – Em busca da eternidade…

Na Antiguidade, os que governaram as primeiras civilizações construíram edifícios monumentais para cultuar suas divindades, abrigar seus sarcófagos, proteger suas cidades, divertir seus povos. Maravilhas arquitetônicas do Mundo Antigo resistiram há milhares de anos, para que suas ruínas nos revelassem histórias perdidas no tempo, onde faraós e imperadores homenageavam os deuses e construíam templos que são testemunhos da avançada cultura das sociedades daquele período. O refinado conhecimento dos povos antigos, com suas construções simétricas e harmoniosas, foi resgatado de suas ruínas e inspira, até hoje, a arquitetura mundial.


Setor 2 – Arquitetando a história

Cada edifício da história guarda os registros do trabalho de seus arquitetos. A vida das cortes medievais pode ser conhecida em seus castelos, verdadeiras fortificações, com grossas paredes de pedra e poucas janelas, levantadas para defender os feudos dos ataques dos inimigos externos e, mesmo, das guerras civis e revoltas populares dentro dos próprios reinos. E as obras de igrejas? Algumas levam séculos para serem concluídas! Em torno delas, crescem as grandes cidades e seus projetos diferenciados de poder. Alguns artistas da era moderna retomam a simplicidade das primeiras soluções influenciadas pelas formas contidas na natureza e nos surpreendem com obras singulares e inconfundíveis. A leveza do traço do genial arquiteto brasileiro, que projetou o Brasil para o mundo inteiro, pousou a capital no centro do país. E, no deserto tão distante de nós, são erguidas cidades inteiras de desenho arrojado e impetuoso, com seus arranha-céus futuristas.


Setor 3 – O sonho que se perde todos os dias

No entanto, com o passar do tempo, crescem as populações das grandes cidades, de forma desordenada, e, com isso, surgem os problemas que afetam a maioria das metrópoles. O desmatamento avança, sem nenhum controle, provocando o esgotamento dos solos, o desaparecimento das águas e o desequilíbrio climático, com graves consequências para todo o planeta. A enorme quantidade de lixo, originado pelo consumo desenfreado, afeta os rios, os mares e a terra. São toneladas diárias de detritos contaminando tudo ao redor. Morrem os pássaros e os peixes atingidos por vazamentos de petróleo e resíduos das indústrias. Enchentes e falta de saneamento atingem, principalmente, as comunidades de baixa renda. O trânsito caótico imobiliza as pessoas, os milhares de automóveis poluem o ar, a violência se espalha e a desigualdade social ameaça a vida. Nas cidades de hoje, esquecemos o futuro todos os dias.


Setor 4 – A cidade que pode ser maravilhosa

Pense em uma cidade onde é possível abrir as janelas para contemplar o verde, passear nos parques, circular nas ruas, sentir a brisa quente que vem das praias e traz o cheiro da maresia… Respire o ar puro da floresta. Imagine um lugar onde os rios correm livremente para o mar e é possível mergulhar na baía e nadar na lagoa. Em que casas seguras e confortáveis, construídas em suas colinas, contemplam a paisagem e repousam tranquilas. Aqui, se pode acordar mais tarde e chegar do trabalho mais cedo, porque o trânsito flui e o transporte é acessível. O ar é puro, a vida é boa. Tem escola, universidade, teatro, cinema, hospital e moradia para todos. Essa cidade existe e está nos sonhos de milhares de pessoas. Ela também vem sendo construída no trabalho cotidiano de quem dedica sua existência a buscar soluções para criar uma cidade sustentável. Mas é preciso conquistá-la, alimentar os sonhos todos os dias. A Tijuca quer arquitetar o futuro na Avenida do Samba, provocando o encontro com aqueles que sabem que ele é possível. Conhecer o passado, reagir ao presente e tramar o futuro nos traz a certeza de que não devemos retroceder. Porque o sonho que se sonha junto é realidade e a cidade maravilhosa ainda precisa ser conquistada!

 Paulo Barros, Isabel Azevedo, Ana Paula Trindade e Simone Martins.

Carnavalescos: Paulo Barros, Marcus Paulo e Helcio Paim


sábado, 10 de agosto de 2019

SINOPSE | Portela: "Guajupiá, Terra Sem Males"




IRIN-MAGÉ, PAJÉ DO MEL, POVOADOR DA TERRA...
 
Todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes, desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado. 
 
Então veio castigo. O fogo desceu do céu e destruiu tudo sobre a terra. Apenas um homem considerado digno, foi poupado desse castigo. Seu nome era Irin-Magé.
 
Levado para o céu ele, aos prantos, diz à Monã, que seria difícil viver sem pares nesse imenso vazio. Comovido, Monã reverte a situação, e fez com que caísse um dilúvio sobre a terra. Dessa água surgiram os oceanos, os rios e tudo frutificou.

Monã então deu a Irin-Magé uma mulher e o mandou de volta à terra para que ele a repovoasse de homens melhores. Dentre os muitos de seus filhos, nasce um em especial que se tornaria o grande guru, o grande karaíba, "o profeta transformador", chamado Maíramûana. 
 
Familiar de Monã, Maíramûana aprendera a arte de transformar tudo o que quisesse de acordo com sua vontade nas mais diversas formas; de animais, pássaros, peixes e para punir os homens podia transformá-los também ao seu bel-prazer. 
 
É esse profeta-guru, dotado de poderes e conhecimentos "sobrenaturais" e misteriosos, quem ensinará todas as práticas sagradas, todos os costumes e regras da organização social das tribos tupinambás.
 
 
BAÍA DA GUANABARA, NOSSO GUAJUPIÁ
 
Na beleza do azul sobre o azul, da calma sobre a calma, um curso d'água serpenteia num vale de árvores verdes e frondosas. Em todas as direções a floresta é vívida. Há que se fiar no Sol, a luz é cultivada e tudo deve ser puro.
 
O rio é o caminho, é sagrado, tem peixe, tem marisco. As aves voam livres, colorindo o céu. Temos tudo ao alcance das mãos, água de beber, de lavar e de se banhar. Vivemos a vida em profunda gratidão.
 
Mas além de pescar e caçar, somos também bravos guerreiros. Só aqueles que enfrentam a morte, sem medo, conseguem encontrar o Guajupiá. Os tupinambás representavam esse paraíso como um lugar idílico, recoberto de flores e regado por um maravilhoso rio, em cujas margens viam-se enormes árvores. 
 
E nenhum lugar poderia ser tão igual ao imaginado Guajupiá eterno do que um Rio de Janeiro ainda virgem.
 
 
 
NASCE UM KARIÓKA
Chemembuira rakuritim, chemebuira rakuritim (eu já vou parir, eu já vou parir)
 
Nasce um tupinambá. Ritos e tradições serão seguidos, para assegurar bons presságios. Unhas de onça e garras de águia, ornarão o berço-rede, para garantir que nada de mal lhe aconteça.
 
Pai, mãe, filhos, avós, tios, tias, primos e primas, se juntam, está formada a maloca, a casa coletiva da tribo. Cercando o okara (grande quintal) se construía uma taba. Karióka, a lendária taba tupinambá, surge majestosa à esquerda da paradisíaca baía de kûánãpará. 
 
O homem roçava a terra, plantava, fabricava canoas, arcos, flechas, tacapes, adornos de penas multicoloridas. Eram eles os responsáveis pela segurança das tabas.  E sua função primordial era a de ensinar a arte da guerra.
 
Às mulheres eram imputadas as rígidas tradições e responsabilidades tribais, cuidavam da horta, participavam da pesca, fiavam algodão, teciam redes, fitas para amarrar nos cabelos e faixas para amarrar as crianças, trançavam cestos em junco e vime, manuseavam o barro para produzir panelas, vasilhas e potes, e mantinham acesos os dois fogos junto a rede do chefe da família. Eram o sustentáculo para o "esforço de guerra" tão cultivado pelo tupinambás.
 
Aos mais velhos cabiam repassar oralmente as histórias, o saber, e as orientações do que deveriam fazer, aos ainda jovens, em cada fase de sua vida.
 
Os tupinambás acreditavam que o homem tinha duas substâncias essenciais: uma eterna e outra transitória e ambas, o corpo e a alma, estavam ligadas.
 
 
 
KAÛÍ, A BEBIDA "DOS DEUSES"
 
Ó vinho, ó bom vinho! Jamais existiu outro igual!
Ó vinho, ó bom vinho! Vamos beber à vontade.
Ó vinho, ó bom vinho! Ó bebida que não dá preguiça!
 
Peguem as canoas! Passem pelas tabas: Yabebira – a aldeia maracanã, a do Peixe Pirá, de Eiraiá – atual Irajá - e sigam em direção a Guirá Guaçu, a aldeia com nome de águia, porque a festa vai começar!
 
Ao som dos marakás, chocalhos, flautas, tambores, pífanos e apitos, cantamos e dançamos. Tem que ter Kaûi ou Cauim, o licor sagrado que tanto adoramos.
 
A bebida era feita de raízes e frutos. As propriedades inebriantes do cauim eram feitas pela mastigação, e esse processo era considerado místico. Só mulheres, as mais lindas e puras, podiam participar da fabricação do "vinho". Os tupinambás eram beberrões respeitados e era difícil acompanhá-los. A festa poderia durar vários dias, enquanto houvesse bebida, porque disposição para consumi-la não faltaria.
 
... E todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado. Então veio castigo...
 
Um Rio teve que acabar para que outro pudesse surgir. Como poderia ter sido se tivéssemos respeitado a diversidade étnico-cultural? Enterrados no esquecimento perdemos o elo com nossa ancestralidade primal, perderam eles, perdemos nós, absurdamente privados dessa experiência!
 
 
GUAJUPIÁ, O QUE FIZEMOS DE TI?
 
Essa coisa do azul sobre o azul
Da calma sobre a calma
Às vezes me cansa
Às vezes me acalma
Eu paro no sinal vermelho
Uns pedem dinheiro
Uns sacam o revólver
Um outro expõe a própria dor
Segue o asfalto
Metálico fluxo
Saudade é um retrovisor
 
Há que se fiar no sol
E cultivar a luz
Purificar o pus
Deus
 
Assisto a vitória do bronco, do bruto
Do sínico e da servidão
Segue o espetáculo
No estádio, na tela
Parlamentam sobre a escrotidão
Mas quando a tribo invadir a floresta
Subindo até o Sumaré
E deslinkar a torre, o Brasil
Meu mano então como é que é?
 
Há que se firmar na terra
O teto, o viaduto
Proliferar o fruto
Deus
(em memória - letra da música "Palas Superficiais", de Marco Jabu)
 
 
"Cavam em busca de uma coisa
Que se sente estar profunda
Mas que foge e se esquiva
Quando chega à superfície
Uma coisa que está ali
Numa terra de mistério". 
(Poema de Joaquim Cardozo)                                                                                 
                                                                         


Autores: Renato Lage e Márcia Lage
 
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
- O RIO ANTES DO RIO
Autor: Rafael Freitas da Silva
Editora: Babilônia
 
- O POVO BRASILEIRO
Autor: Darcy Ribeiro
Editora: Companhia de Bolso
 
- DUAS VIAGENS AO BRASIL
Autor: Hans Staden
Editora: L&PM Pocket Descobertas
 
- Documentário Guerras do Brasil.doc – episódio 1 (NETFLIX)
Criação: Luiz Bolognesi