segunda-feira, 10 de junho de 2019

SINOPSE | Beija-Flor de Nilópolis: "Se essa rua fosse minha..."

A nossa história é uma estrada percorrida e, certamente, imensurável, pela qual ainda temos tanto a caminhar…
Desde que o homem se pôs de pé, ereto sobre a terra, ele iniciou a sua extensa jornada migratória em eras imemoriais, quando os glaciares serviam de ponte, unindo os continentes. Sua natureza nômade o fez se lançar ao desconhecido, numa peregrinação, inventar trilhas na mira do horizonte e se espalhar, seguindo adiante, pelo mundo afora.
Desde as tribos andarilhas até o apogeu da civilização, com a invenção da roda, assim viajou a humanidade. Encurtou distâncias, traçou rotas, desbravou a terra, delimitou fronteiras ao vencer obstáculos. Arriscou-se, de forma aventureira, nas encruzilhadas do tempo e enfrentou os desvios do destino, estando à sorte na vastidão de incertezas, de abismos e labirintos, de caminhos e descaminhos, a percorrer as vias da vida do por vir, nas idas e vindas dessa história, estrada sem fim.

A Beija-Flor de Nilópolis, no decorrer de sua trajetória, ao enveredar por inúmeras viagens a lugares mágicos, em voos lúdicos nos sonhos de carnaval, escreveu o seu caminho, a sua linda história de esplendor e conquistas, de alegrias e lágrimas, deixando, assim, um legado de glórias.
Hoje, a “Deusa da Passarela” vem passear pela jornada épica da humanidade, ela que todo ano toma para si uma Rua, a Marquês de Sapucaí, como se fosse sua, para encantar e contar uma história, traçando nela o seu plano de voo sambista para mais uma vez nos deslumbrar, “ao ecoar o som de um tambor” e fazer derramar, outra vez, “um festival de prata em plena pista”.
SINOPSE DO ENREDO
“SE ESSA RUA FOSSE MINHA…”.
Sob o véu da noite que nos envolve agora, céu e chão num turbilhão de estrelas, firma meu samba nessa encruzilhada, o seu ponto de partida, a esquina onde dobram sonhos de tantas vidas, onde os destinos são traçados na mágica Rua, na Rua do Marquês, que também é minha, é sua. Na hora em que a avenida se ilumina, a Lua, despida, torna-se vazia e então, para brincar o carnaval, põe-se a vestir-se de fantasia.
Laroyê! Peço licença às entidades, bênçãos e passagem aos que nos regem do além e peço que nos iluminem com seu rastro de luz, nos guiem e nos façam brilhar também.
Hoje, meu “Pássaro Encantado” vem beijar o chão que pisa, ele, que é tão bem acostumado, vem contar mais histórias de rumos, rotas, trajetórias, caminhos e estradas por onde a humanidade passou.
Pelas vias riscadas na terra, minha gente por elas atravessou. Ainda sem fronteiras, conheceu reinos de Âmbar, de Prata, de Ouro e de Seda, seguindo os passos dos aventureiros viajantes com que o vasto mundo interligou.
No balanço das ondas, bravos navegantes nos caminhos do mar aberto, ao sabor do vento, com o saber dos astros que apontam para o oriente, partiram, pois navegar foi preciso rumo ao Cabo das Tormentas, destino impreciso que, por sua vez, acalma o oceano e conduz os viajantes ao Novo Mundo. Mundo por tantas lendas afamado, com tantos sonhos acalentados, de impérios longínquos, de tesouros escondidos, de estradas esculpidas no topo do mundo, de um mágico reino chamado Eldorado.

Eis que nova terra então se revela. No facão que fere a mata verdejante e impunha a bandeira donatária, ao desbravar a trilha dos índios, se faz Estrada Real, da Vila Rica, em chagas abertas no chão de onde brotaram ouro e diamantes, para a Corte de Portugal. E a nobre cidade sagrada, à São Sebastião, cobriu o barro de seus becos e vielas de pedras assentadas, pisadas por pés de moleques.
Ruas que assim também se fizeram rumos de devoção, estradas de passos peregrinos, “Paços” de milagres, andanças de louvação, vias dolorosas de flagelos e martírios, caminhos de pedidos e promessas, de graças e de perdão, no andar com fé em procissões e romarias, que seguem andores e altares, de Josés e Marias, no fervor das tochas e velas que acendem almas e corações.
Ruas sem fim que contam histórias. Ruas que conhecemos sem sequer passar por elas. Ruas do mundo afora que são cartões-postais, ou que simplesmente são lembradas por quem nelas moram. Ruas de desejos, de saudades, de lembranças de seus recantos e encantos. Ruas de todo canto, sejam elas as mais belas ou aquelas que nos atraem, simplesmente pelo seu vem e vai. Sejam elas a avenida elegante de Paris ou de Nova York, sei lá, talvez uma mão inversa de Londres ou “El Caminito”, em Buenos Aires, para “un tango bailar”; ou, melhor ainda, aquelas onde a brisa sopra de um “eterno cantor” em suasondas ao quebrar, que espalham beleza e calor, nas calçadas famosas onde se declara amor à “Princesinha do Mar”.
Mas, afinal, são estradas fantásticas, lendárias, de se ouvir falar, ou, melhor, são elas talvez frutos que só a imaginação alcança, tão impossíveis de se chegar. Para que isso aconteça, basta querer e sonhar. E por que não deixar se levar nessa viagem que a mente pode criar, seja pela Via Láctea passear, ou a Torre de Babel alçar, e a morada de Deus visitar. Ou, quem sabe, desafiar a mitologia e, no Labirinto do Minotauro, a tão desejada saída encontrar; ou, talvez, num passe de mágica, na estrada de tijolos de ouro, no final do arco-íris, poder chegar.   
Enfim, são tantos caminhos a percorrer, tantas estradas que se mostram naturais, virtuais ou do destino, estradas da vida de cada um de nós. Mas eis que chega ao fim essa viagem. É aqui o caminho do sonhar, na Rua das Ruas, a razão desse meu caminhar, onde mora nossa missão de vida, onde o samba escolheu habitar e de onde o meu povo chega de seu próprio caminho vindo do seu lugar. É a Rua de todos no seu momento de por aqui passar. Mas, agora, é a minha hora, a minha vez de lhes mostrar que essa Rua, nesse instante, é só minha e, como o sonho me permite, essa Rua eu vou ladrilhar com pedrinhas de brilhantes para o meu Beija-Flor voar.


ALEXANDRE LOUZADA E CID CARVALHO

Carnavalescos

domingo, 9 de junho de 2019

SINOPSE | Mocidade Independente: "Elza Deusa Soares"



Elza Deusa Soares

A menina magricela nascida no distante bairro de Padre Miguel, menos de 40 quilos de pura insistência em sobreviver, desembarca no badalado programa de calouros de Ary Barroso. Equilibrava bom punhado de alfinetes para conter os panos todos do conjunto que sobrava e sambava no corpo. O sonho de ser a moça bonita do rádio determinava as cantorias da pequena – lata d’água na cabeça – cuja infância havia sido subtraída pelo suor de sol a sol dos afazeres domésticos. Já em posição debutante no palco transmitido em ondas aos ouvintes, as lembranças de pueris duetos com o som do louva-a-deus e as espiadelas no pai violeiro garantiam relativa técnica. Mas a força para transcender o destino foi a autêntica locomotiva. O autor de “Aquarela do Brasil” fez as honras sem nenhum pingo de honra quando mirou o pedacinho de gente posicionado bem na boca de cena da História: “de que planeta você veio, minha filha?”. Gargalhadas histéricas na plateia, só que por breves segundos. Na aquarela de Ary, não havia destaque para a cor da resposta visceral, raio cósmico, cortina do passado dilacerada ante a metamorfose de uma divindade em flor: “eu vim do planeta fome”. Desvario. Apoteose. A primeira.

Com o pedestal voltado à glória, soltou o talento até raspar o fundo do tacho d’alma para, ao fim, desabar nos braços daquele gênio letrado bem menos sabedor desse chão do que a sua humanidade supunha. Ora, o apresentador jamais imaginaria negra e pobre a arte-final esquecida pelo maior clássico que compusera. Próxima ao gongo em silêncio, e mergulhada na letra de “Lama”, estava, possivelmente, a imagem de Deus. Deusa – corrijamos – de joelhos e em adoração. Mulher. Que irrompeu a pergunta insensível, o direito que tinham para humilhá-la, as dificuldades do berço, o preconceito castrador e invasor do íntimo feminino, o racismo. A partir dali, nasceu uma estrela. Voz das vozes abafadas. Microfone de potente rouquidão rascante para os ais dos humildes. Água santa a revalidar existências e também as reminiscências ligadas à mãe lavadeira, ofício da roupa batida que faz marcar o ritmo de um futuro quase sempre estéril.

Curiosa a sina de se inserir e a outras carnes pretas no mapa oligarca branco forjado na marra e na régua. Numa só frase, desvelou o fogo de realidade que intelectuais com canudos enrolados nas grandes universidades mal conseguiram reconhecer brasa. Sua música se tornou trono matriarcal para denunciar as contradições da gigante “mátria” pouco gentil. Obrigada a trocar alianças quando a companhia eram as bonecas, deu à luz muito cedo, mas leite também aos que não pariu: holofote sobre os brasis ancestralmente invisíveis. E foi, justamente, da ordem do invisível, ou etéreo, certa passagem marcante e definidora – ainda nos tempos da dureza primordial. Prestes a ser atacada por uma vaca que pastava no entorno de casa, tratou de encarar o bicho bravo olho no olho. A coragem intuitiva reconfigurou a quase tragédia: recebeu uma inacreditável lambida do queixo à testa, passeio lingual com o aparente tamanho da eternidade.

Afogada na saliva e surpresa por esta viva, entendeu o banho viscoso como a unção protetora que a conduziria adiante. Seguiu. Limite? O céu, é claro. Pitoresco batismo em religião própria, cuja tábua de mandamento único ostentava a interpretação pessoal dos segredos de cima, lá onde mora o Guerreiro. Bruxa, mandingueira, sacerdotisa de poderes e sentimentos indomados. Fada canção. Feiticeira a macerar folhas de inspiração e fé no eu iluminado. Unguento, incenso, veneno. Movimento. O real e a quimera em qualquer batuque - do terreiro ao bar, do culto ao cabaré, da intimidade do chatô ao infinito da nação profunda. Suingue de credo, cruz ou cura.

E aí não tardou, monumento vocal velozmente consagrado, para brilhar mundo afora e país adentro. Ergueu-se samba sincopado de trejeito característico, o jazz agridoce banhado na pimenta da terra que tudo dá, nosso divã social, espelho e síntese no mesmo metro e meio de entidade. Bossa nossa. Sobre o palco de asfalto da folia, encontrou outra estrela, de milhares em cortejo e também filha de Padre Miguel – a Mocidade –, tão independente quanto ela. E mergulhou na bênção mística da percussão, que alforria os corpos domesticados e faz do festival do couro a alegria de uma cidade ao celebrar a dádiva do pertencimento. Mas foi a obsessão por cantar o amor sem pudores a sua forma categórica de pertencer. Amor à arte, às escolhas, à distância. Ao guri. Ao malandro. Ao Mané. Amou e foi amada. Sem medo e sem vergonha. Sem limites. Ou quase: apesar da vocação para inspirar gentes no embalo da natureza passional, pagou o preço ao escolher decolar no torrão que censura as asas dos filhos. Tombou. Cadente estrela. Solitária.

Bailarina equilibrista que sempre teceu a vida a partir do fio da liberdade, experimentou o da navalha quando os malabares com os quais distribuiu encanto viraram pedras contra si. A redentora passou a algoz no picadeiro moral dos supostos bons costumes. Sentiu o tapa, a ferida, o esquecimento. E pedaços arrancados. De novo. Porém, o trapézio que lança ao Olimpo, e vê desabar se as mãos deslizam no voo em cego dos mistérios de existir, tem no final do abismo uma rede de proteção fraternal. Dura na queda, conseguiu ser devolvida do fosso da orquestra. Mais forte. Tal qual a língua – aqui, a humana – que roça a nuca e reacende o arrepio. Diva sensorial a nos ensinar sobre a delícia de cultuar a própria carne mal taxada e o espírito, na cruzada em desafio aos intolerantes. Pele e osso que sentem lava escorrer e exclamam política transgressora, para inferno e desnudar dos caretas. Cóccix, peito, nervos, coração, pescoço. Garganta.

Ela, então, coloca desordem na preconceituosa ordem vigente, dando ré no apocalipse com o dito planeta fome completamente desgovernado. Pula o muro, alastra-se no proibido e perfuma a missão – herdada desde o show seminal – de fazer multidão frenética os carimbados como minoria. Eis a incendiária porta-estandarte de quem inclui, desafia, abraça, respeita, desatina, desata, transforma e se transforma. Do protagonismo feminino radicalmente contrário à mão levantada para a mulher. Dos amantes que, na embriaguez libertária, gozam sensualmente o afeto sem mordaça e constelam aflição pelo beijo ardente. O ato de transmutação do fazer artístico em grito dos incontroláveis por todos os milênios.

No altar do samba brasileiro, a Mocidade encontra o elo fundamental perdido e celebra a apoteose de uma estrela da canção ao reinventar o agora. O seu nome é agora – menina, senhora, doutora do tempo. A mensagem que deixamos para o próximo carnaval pinta o Black e tem o Power, traz a revolução de um abalo sísmico, a urgência explosiva de um novo Big Bang, põe Exu nas rodas, nas escolas, na prosa, é rua, nua e crua:

Deus é mesmo mulher. Deus é negra.

Ouçam a sua palavra que nos invade.

Salve a Mulher do Fim do Mundo.

Salve Elza Deusa Soares.


Carnavalesco: Jack Vasconcelos

Sinopse: Fábio Fabato

Pesquisa e Colaboração: André Luís Junior

Referências (além da discografia de nossa Elza Deusa Soares):

CAMARGO, Zeca. Elza. Rio de Janeiro: Leya Casa da Palavra, 2018

CASTRO, Rui. Estrela solitária – um brasileiro chamado Garrincha. Rio de Janeiro: Cia das Letras, 1995.

DINIZ, Alan; FABATO, Fábio; MEDEIROS, Alexandre. As três irmãs: como um trio de penetras “arrombou a festa”. Rio de Janeiro: NovaTerra, 2012, Família do Carnaval.

LOUZEIRO, José. Elza Soares: Cantando para não enlouquecer. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2010.

PEREIRA, Bárbara. Estrela que me faz sonhar. Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2013, Cadernos de Samba.

SUARES, Gerson. De pernas para o ar: minhas memórias com Garrincha. Rio de Janeiro: Oficina Raquel.

terça-feira, 14 de maio de 2019

SINOPSE | Paraíso do Tuiuti: "O Santo e o Rei: Encantarias de Sebastião"




“Oh, meu rei de fantástica memória
Passo a vida a rezar tua história.
Tão verdadeira e sobrenatural…
Eu rezo a tua infância aventureira
Tua morte num trágico areal.
Rezo a tua existência transcendente
Numa ilha de névoa, ao Sol nascente,
Encantada nos longes da Natura…
E rezo tua vinda anunciada,
Dentre as brumas daquela madrugada
Que virá dissipar a noite escura”

Oração Sebastianista (Teixeira de Pascoaes)


I – O SANTO VENERÁVEL E O REI DESEJADO

Que venha Sebastião, O DESEJADO, assim nomeado por ser a esperança de sucessão da dinastia que guiou o reino lusitano ao apogeu.
Que venha o divino rei-menino de Portugal, futuro regente do Império Mundial Cristão!
MAJESTOSO, GUERREIRO, PUJANTE!
Que venha Sebastião, ornado de FESTAS DO POVO e de JÚBILO DOS DEUSES. Cumpram-se todas as profecias, abram-se os livros da boa aventurança.
O REI NASCEU! O REI NASCEU!
Na data mística de 20 de janeiro, Sebastião foi ENCANTADO pelo espírito de coragem e fé do venerável Santo que lhe deu o nome.
Assim traçaram-se as flechas de bom e mau auguro sobre DOM SEBASTIÃO.
O jovem Rei cresceu ouvindo as histórias de bravura e martírio em nome da reconquista da Península Ibérica.
Um dia, conduziu seu exército rumo à última cruzada.
Marrocos era o destino. Vencer os mouros, uma obsessão.

II – O REI ENCOBERTO

Em súplicas, Sebastião, o Rei, rogou proteção ao padroeiro.
Sebastião, o Santo, concedeu-lhe coragem para prosseguir: “Tua glória correrá muito além da própria vida. Irá se espalhar por mundos e eras que nunca sonhaste”.
Fez-se então ungido com os paramentos banhados pelas glórias dos antepassados.
E assim foi mapeada a incerta campanha. Era hora de partir com a sua esquadra rumo a ALCÁCER QUIBIR.
Deu-se a sangrenta batalha no deserto do Norte africano contra o exército do Sultão.
Destemidos, Santo e Rei empunharam a cruz contra a cimitarra.
Postas frente a frente, tropas ergueram o pavilhão da ordem de Cristo contra a bandeira da crescente lua e brilhante estrela.
Cavalarias avançaram-se em mortal conflito. Armas ao céu, o rei se lançou à glória derradeira.
Nas areias do Marrocos, Dom Sebastião desapareceu…
E veio o nevoeiro. Com ele, a esperança de que um dia o Rei iria regressar para reviver o apogeu do seu povo.
“Ele há de voltar! Ele há de voltar…”

III – O REI SUBMERSO

E o Rei fez morada no mar…
Navegou em triunfo a bordo da nau mística com a tropa que, com seu líder, sumiu no areal marroquino.
Aportou nas águas do Maranhão, em imponente cortejo arrebatado.
Ergueu seus domínios na costa do Atlântico, indo tomar lugar na corte dos encantados.
Com barbatanas bordadas de escamas cintilantes, ascendeu ao régio trono marinho.
No suntuoso PALÁCIO DE CRISTAL, suas joias reais eram cravejadas de pérolas, conchas e búzios.
Seu paraíso marinho era cercado de majestosos seres encantados que habitavam o fundo do oceano.
A lenda do Rei submerso inundou o imaginário do povo que vivia na beira do mar.
Na busca pelo Encoberto, foi o povo que se encantou em névoa de maré…

IV – O REI ENCANTADO

Nas torrentes das águas sagradas, a lenda sobre o Rei se espalhou.
Entre batuques vindos dos terreiros de mina se dizia que, em noite de lua cheia, andava pela praia um TOURO NEGRO. E esse touro era Dom Sebastião.
O bravo que se atrevesse a fincar uma espada reluzente na testa do animal desfaria o encanto, cumprindo a profecia:
“REI / É REI DOM SEBASTIÃO / QUEM DESENCANTAR LENÇÓIS / BOTA ABAIXO O MARANHÃO”
Mas o desfazimento do encanto era em si outro encanto.
Assim, na crença, na magia e nos cânticos, o Rei foi coroado no couro do tambor.
Dançou com os deuses, macerou as ervas e bebeu dos segredos das matas. Incorporou-se aos cultos afro-ameríndios.
Entranhou-se, em alumbramento, na alma dos cantadores e poetas populares.
Da sua capa real, ornada de brilho e sonho, veio a inspiração para tecerem as vestes do bumba-meu-boi.
Encantado, Dom Sebastião se fez o espírito que o povo desejava para conduzi-lo por novas cruzadas…

V – O REI DOS FLAGELADOS

Nos areais do sertão nordestino, o Rei Encoberto regressou com o encanto de um monarca restaurador.
O povo, roto nas batalhas de existir, nada esperava dos homens. Confiava tudo a um milagre de Deus.
Na busca pelo paraíso terreal, a crença dos sertanejos esculpiu o espírito do Rei em alma de santo.
Na Serra do Rodeador, em Pernambuco, a insurreição se deu. Mas foi esmagada pelo poder implacável da Coroa.
Anos mais tarde, na localidade da Pedra Bonita, em São José do Belmonte, o beato João Antônio ocultou-se no alto da montanha com seu séquito de flagelados.
Acreditavam que Dom Sebastião iria ressurgir das fendas das pedras para restaurar a justiça social sempre prometida e nunca alcançada.
Mas para isso era preciso lavar as rochas com sangue para desencantar o Rei.
Houve nova batalha. O terror se espalhou no lajedo. Morreu-se para não matar.
O Rei não veio. Ressurgiu n’outro arraial.
Em Canudos, Antônio Conselheiro liderou seu povo que o seguia no limite entre a fé e o delírio messiânico, evocando a volta do monarca.
“O SERTÃO VAI VIRAR MAR E HAVERÁ UMA GRANDE CHUVA DE ESTRELAS”
Canudos, Pedra Bonita, Rodeador… tudo sucumbiu. Mas não a glória do Santo-Rei Sebastião, que renasce ao poder do encanto de quem nele acreditar.

VI – O SANTO PADROEIRO E O POVO-REI LIBERTADOR

A cada episódio de luta e dor, eis a certeza de que o espírito sebastianista continua a guiar o povo na eterna busca pelo seu próprio rumo.
Dizem que o Rei vive adormecido nos domínios encantados de São Sebastião, terra emergida a flecha e fogo.
A muy-heroica cidade fundada durante o reinado de Sebastião, o Desejado.
Na data mística de 20 de janeiro, o nobre Estácio de Sá foi flechado em batalha com os índios.
Conta a lenda que São Sebastião lutava ao seu lado.
O bravo guerreiro lusitano se encantou junto com sua cidade, que um dia se partiu. E hoje se retalhou…
Recanto ferido, que precisa se regenerar.
Mas um dia há de vir o verdadeiro Rei.
Que das brumas da memória se levanta e se ergue
MAJESTOSO, GUERREIRO, PUJANTE!
É o POVO, senhor de si, enfim desencantado
Que na bravura do Rei por ele mesmo despertado,
Arrancará as flechas do peito do padroeiro
E Sebastião, enfim, há de restaurar o que lhe é devido:
O trono do Rei e o altar do Santo.
E a paz enfim triunfará
Na cidade cansada de tantas batalhas…
Mas nunca da luta!
(Ele há de vir. Ele há de vir…)

Carnavalesco: João Vitor Araújo
Texto: João Gustavo Melo

Inspirado no poema “O Rei que Mora no Mar”, de Ferreira Gullar e nas encantarias e brasilidades de Luiz Antônio Simas.

SINOPSE | Unidos do Porto da Pedra: “O que é que a baiana tem? Do Bonfim à Sapucaí”



1º SETOR: DAS “NEGRAS DE GANHO” QUITUTEIRAS ÀS BAIANAS

Embalados pela poesia, vamos embarcar numa viagem de amor e sedução, rumo à Bahia, terra de encantos mil, onde o coqueiro dá coco, e o sol brilha mais forte.

Viajando nas malhas do tempo, à Bahia colonial, onde no porto de Salvador atracavam os tumbeiros, trazendo negros e negras das Áfricas, para em terras da América Portuguesa servirem como escravos.

Pelas ruas daquela cidade de outrora, formadas por becos e vielas, e pelo casario de sobrados, onde moravam sinhô e sinhá com seus escravos, necessários às atividades braçais.

Os donos de escravos, entretanto, não os utilizavam apenas no serviço doméstico. Para aumentar seus rendimentos, os empregavam como “negros de ganho”. Eles trabalhavam nas ruas, e vendiam de porta em porta todo tipo de mercadoria: aves, verduras, legumes, doces, licores, etc; outros armavam seus tabuleiros em esquinas movimentadas, nas escadarias das igrejas e nas praças, oferecendo aos gritos os artigos à venda.

Foi nesse tempo passado que as mulheres – escravas ou libertas – preparavam o acarajé e, à noite, com cestos ou tabuleiros na cabeça, saíam a vendê-lo nas ruas da cidade. Ouvia-se o grito apregoado: “acará, acará ajé, acarajé”.

Herdeiras dos “ganhos”, as baianas de tabuleiro, baianas de rua, baianas de acarajé ou simplesmente baianas, segundo o costume regional, preservam receituários ancestrais africanos. As baianas de acarajé tornam públicos cardápios sagrados, geralmente desenvolvidos nos terreiros. No universo do candomblé, o acarajé é comida sagrada e ritual, ofertada aos orixás, principalmente a Xangô (Alafin, rei de Oyó) e a sua mulher, a rainha Oiá (Iansã), mas também a Obá e aos Erês, nos cultos daquela religião.

E o que que tem no tabuleiro? Tem abará, vatapá, bolinho-de-estudante, cocada preta, cocada branca, mingau, passarinha (baço bovino frito), pé-de-moleque, doce de tamarindo, lelê (bolo de milho), queijada e o acarajé. É o que a baiana tem!

De saias rodadas, batas de algodão, panos da costa, turbantes, fios de contas e outros adereços como colares com as cores dos seus orixás, pulseiras e balangandãs, lá estão as Baianas de Tabuleiro pelos “cantos” da cidade de Salvador vendendo seus quitutes, sob a proteção de Santa Bárbara.

E, lá estão as nossas quituteiras nas festas de largo, festas religiosas que se constituem de atividades rituais que articulam e relacionam universos simbólicos do catolicismo oficial e do candomblé. Exemplo maior a da Igreja do Senhor Bom Jesus do Bonfim. Novenas, celebração de missa, procissão pelas ruas da capital baiana, barraquinhas, brincadeiras, música, danças, comidas e bebidas, e pela lavagem das escadarias. A tradicional lavagem das escadarias reúne cerca de duzentas baianas para esfregar os degraus com vassouras de palha e derramar sobre eles um líquido perfumado.

2º SETOR: A DIÁSPORA BAIANA E A “PEQUENA ÁFRICA” DO RIO DE JANEIRO

Da Bahia, espaço vivo dessa mistura de tradições culturais, da confluência da cultura branca com a negra, saiu, já na segunda metade do século XIX, uma leva de baianos que foram tentar a vida no Rio de Janeiro. A Abolição incrementaria ainda mais o fluxo migratório, fundando-se praticamente uma pequena diáspora baiana na capital do país. Assim, sob a proteção da bandeira branca de Oxalá, chegavam ao porto carioca, nos porões dos navios, negros baianos livres, que vinham buscar um lugar para morar, uma forma de trabalho, e cultuar os orixás.

Surge, então, na zona portuária, mais precisamente nos bairros da Gamboa e Saúde, a “Pequena África”, nome criado por Heitor dos Prazeres para designar o trecho da cidade compreendido entre a área do cais do porto e a Cidade Nova, em torno da Praça Onze.

Ficou muito conhecida no Rio de Janeiro a casa da “tia” Ciata, um verdadeiro centro cultural. Lá aconteciam rodas de samba, música, capoeira, rezas, rituais, almoços e muitas festas. As festas dos orixás e os batuques do samba ecoavam livremente.

Ciata compunha o grupo das tias baianas que eram os esteios da comunidade negra, rainhas negras da “Pequena África”. Ela tinha sólidos conhecimentos religiosos e culinários. Doceira, começara a trabalhar em casa e a vender nas ruas, sempre paramentada com suas roupas de baiana. Ela, junto com outras tias baianas da sua geração, faz parte da tradição “carioca” das baianas quituteiras, que após colocar os doces no altar de acordo com o orixá homenageado no dia, seguiam para os seus pontos de venda.

Foi na casa da “tia” Ciata que nasceu “Pelo Telefone”, composição de Donga, considerada o nosso primeiro samba, gravado em 1917.

Mas a cultura negra não ficou só restrita à casa da “tia” Ciata. Eram comuns as festas das igrejas, notadamente a Festa da Penha. Quando começou, essa festa era liderada pelos portugueses, e essencialmente religiosa. Mas, com o passar do tempo, os negros baianos foram chegando. Começaram a surgir barracas de comida das baianas onde se vendia vatapá, acarajé, caruru. Nessas barracas, as rodas de samba e capoeira eram outro atrativo. O concurso das músicas carnavalescas acontecia li mesmo, de viva voz, na Festa da Penha.

3º SETOR: AS TAIEIRAS E AS PROCISSÕES RELIGIOSAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Para além dessa forte tradição negra na cidade do Rio de Janeiro, as procissões católicas sempre enriqueceram o imaginário popular.

A carnavalização das procissões religiosas no Rio de Janeiro é um fato. Nas procissões de Corpus Christi, de São Benedito e na do Santíssimo Sacramento, puxavam o cortejo, mulheres negras com trajes alvíssimos e colares de prata, as chamadas taieiras. Elas tinham uma dança específica que consistia num leve movimento com braços arcados e pés marcando o ritmo, saíam à frente do andor de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e do pálio onde o bispo conduzia o Santíssimo Sacramento.

Nas festas no terreiro, as taieiras cantavam. Já na igreja, a seguir a missa, antes de formar a procissão, a dança era geral no adro da igreja e, ali, junto ao movimento dos braços e a batida dos pés, se juntava um balançar de ancas que o padre fingia não ver.

O posicionamento das taieiras na organização do cortejo, em qualquer procissão, visto com os olhos de hoje, era como se fosse a ala de baianas de uma escola de samba. Não só pela elegância e o ar majestoso das integrantes, como pela presença hierática, própria da ascendência nobre.

4º SETOR: AS ALAS DE BAIANAS DAS ESCOLAS DE SAMBA E A LAVAGEM DA MARQUÊS DE SAPUCAÍ

Quando as escolas de samba foram fundadas, no fim da década de vinte do século XX, as baianas também foram incorporadas às novas organizações. Elas formavam os coros de vozes e influíam na escolha dos melhores sambas cantados nas quadras de ensaios.

No princípio, os homens saíam fantasiados de baianas nas escolas de samba. As baianas vinham formadas nas laterais e tinham a incumbência de defender a agremiação das violências que sofriam. Quando deixaram de sair nas laterais das escolas, formaram uma ala e continuaram participando rotineiramente dos desfiles. A ala das baianas hoje é exclusivamente feminina.

A roupa clássica da ala das baianas de uma escola de samba compõe-se de torso, bata, pano da costa e saia rodada. Contudo, a capacidade criativa dos carnavalescos é ilimitada. Na Marquês de Sapucai, já vimos baianas com as mais inusitadas fantasias como borboletas, estátuas da liberdade, chinesas, entre outras.

Na semana que antecede o desfile das Escolas de Samba, acontece a tradicional lavagem da Marquês de Sapucaí, abrindo os caminhos para os desfiles oficiais. As baianas de todas as agremiações são convidadas a participar do ritual. Muita água de cheiro, arruda, aroeira, flores e defumador para espantar o mau agouro e fazer com que tudo corra bem. O cortejo passa com a participação de baianas, casais de mestre-sala e porta-bandeira, velha guarda, destaques e representantes das escolas de samba mirins.

E, seguindo o caminho do ato da lavagem, numa festa que mistura todas as religiões, raças e costumes, o Tigre, símbolo maior da Unidos do Porto da Pedra, se auto-proclama o arauto dessa homenagem. E, num ato de amor, convoca a todas as baianas das diversas agremiações cariocas para juntos darem as mãos, empenhar suas bandeiras, e celebrarem as “mães” do samba. È um ato de luta contra qualquer manifestação de intolerância.

Alex Varela (historiador)

SINOPSE | São Clemente: "O Conto do Vigário"



O Conto do Vigário

“A regra é clara”: nesta terra inventada, é certo o desacerto.

Frase forte. Porém, é mais forte ainda o histórico de malandragem que assola Pindorama. O tempo passa e fica cada vez mais difícil enxergar uma luz no fim do túnel. A capacidade da malandragem de se reinventar encontrou sombra e água fresca no Brasil: já faz tempo que tem gente tirando proveito da gente, ficando com a fatia maior do bolo. A inocência e esperteza travam um duelo secular por essas bandas. Do peixe pequeno ao espadaúdo, a arte de se dar bem sem muito esforço se proliferou em nossa nação sem noção. O engano é oficial: e isso vem de longe...

Nossa história começa cercada pelas Minas Gerais. Na Minas dourada, barroca, ao som de sinos nas torres de igrejas e carroças rangendo pelas vielas e ladeiras - lá pelos idos do século XVIII, mais precisamente na rica Ouro Preto. Uma terra de tanta fartura mineral que despertou a atenção de pessoas dispostas a desfrutar de tamanha prosperidade sem muito esforço. Mas digo que o ponto inicial de nossa saga não começa com a cobiça pelo ouro. Nosso marco inicial é pitoresco e envolve os personagens mais improváveis: uma santa, um burro e um vigário.

Naquela ocasião, duas igrejas disputavam uma imagem de Nossa Senhora. A animada querela era entre as paróquias do Pilar e da Conceição. Para resolver a questão, um dos dois vigários – o da igreja do Pilar – propôs uma forma no mínimo criativa de solucionar o problema: “Amarrem a santa num burrico. Coloquem-na entre as duas paróquias. Deus guiará o inocente animal até a casa que deverá abrigar a Santa Imagem!”

Assim foi feito. Lá vai o burrico pelas ladeiras de Ouro Preto, carregando no lombo a imagem da Mãe de Deus e a fé da boa gente do lugar. No entanto, o povo não contava com a astúcia do vigário: era esperto o santo homem! O pároco que teve a ideia fez a proposta com tudo já planejado, uma vez que já era seu o burro apostado! O bichinho só seguiu o caminho de casa! Muitas outras versões existem para esse caso, mas para nós fica esse como o registro mais válido, já que é por causa disso que toda vez que alguém é por uma boa história enganado, diz a pessoa ter caído no “conto do Vigário”.

O episódio acima ilustra de maneira bem jocosa o espirito da coisa. Essa malandragem encontrou terreno fértil na colônia controversa, sem rumo e sem lei, onde essa vigarice criou raiz. Desde que os portugueses aqui chegaram, sempre teve alguém dando um jeito de se dar bem em cima da inocência alheia. Do mais humilde ao mais poderoso, sempre surge uma história bem contada, de alguém querendo levar vantagem. Sem orgulho, carregamos essa chaga da enganação, é verdade. Sempre surge um novo malandro reinventando a malandragem - e foi com o crescimento das grandes cidades, cheias de novas oportunidades, que os vigaristas encontraram terreno fértil para aplicar seus golpes sobre os incautos. Do “bilhete premiado” à “máquina de fazer dinheiro”, a criatividade dos enganadores em aplicar golpes em nosso país desafia o bom senso. Até quando o homem pisou na Lua teve gente dobrando o povo no papo, anunciando a corretagem: “não perca essa chance! Vende-se um terreno na Lua! Na minha mão é mais barato!” Seria cômico, se não fosse trágico. É fato contado e documentado. Os folhetins do século passado registraram os feitos em manchetes, como aqueles datados de julho de 1969 que, enquanto a Apollo 11 tocava o solo lunar, um sergipano chegou a fechar negócio com dois fazendeiros de Minas Gerais, que ficaram animados com a possibilidade de ter a posse de ótimos logradouros vizinhos a São Jorge. Olhai por nós, oh pai!

E por falar no Gerente Celeste, nessa jornada é preciso ter fé. E como tem gente fazendo uso da boa-fé do brasileiro. O papel do interlocutor com o Divino profissionalizou-se, capitalizou-se e burocratizou-se. Tá cheio de esperto, se dizendo santo, cobrando taxa e sobretaxa por um lugar no céu: verdadeiros lobos em pele de cordeiro. O milagre tem seu preço! No mercado da fé, ganha mais quem vender mais promessas. O povo, coitado, sofrido e sem opção, é isca fácil para aqueles que fazem de ofício a oração. “Trago a pessoa amada em três dias!” Mas não seja por isso: “Ele” está vendo tudo com atenção. Um dia a Casa Celeste cai!

No Brasil, a malandragem é institucional, carimbada, registrada e homologada em 10 vias no cartório. Este rincão não é para amadores: de dois em dois anos o povo tem que escolher a melhor promessa. Toda vez a esperança se renova, até a primeira curva torta: depois de eleito, o malandro deixa o povo à deriva. Pelo voto, se vende as maiores ilusões. E como sabem contar histórias esses candidatos a “malandro oficial”. Antes de ter seu voto, prometem mundos e fundos; depois de eleitos, cada um vai cuidar dos seus próprios interesses. Já o povo, por sua vez, insiste em trocar seu voto por dentadura.
Passa o tempo, mas não passa a vigarice do malandro. Ele se adapta, se “atualiza”, viraliza, cai na rede. E o povo vai na onda. Compra gato por lebre, perde o sustento suado, é feito de gato e sapato. A modernidade não assusta a malandragem: o vigarista se adapta! Vende inverdades à rodo, sem temer o amanhã. Vende o produto que nunca se viu: “Fake News”! “Fake News”! “Fake News”!

O papo é reto, direto e franco: abra o olho brasileiro. Já dizia o saudoso Bezerra da Silva que “malandro é malandro e mané é mané”. Nesta terra inventada, é certo o desacerto, mas cabe a nós dar um freio. O certo é o certo; fora disso, é alheio."

SINOPSE | Acadêmicos do Salgueiro: "O Rei Negro do Picadeiro"



"Nasci livre!

Sou filho do “Negro Malaquias”, sujeito danado de brabo, que caçava os “fujão”da fazenda do sinhô e da sinhá, que até eram “bão”; e minha mãe, Leandra, era cativa de estimação.

Um dia o circo chegou lá na Vila, eu levava broa de milho para vender na entrada; tinha uns doze anos e resolvi fugir. O picadeiro representava liberdade, sonho e fantasia. Antes que me esqueça, meu nome é Benjamim Chaves, mas meu pai me chamada de “Beijo”, “Moleque Beijo”.

Parti no Circo Sotero, Lá, a obrigação da meninada, era aprender desde cedo todas as tarefas. Mesmo eu, que era um agregado, aprendi debaixo de castigo, a cuidar dos animais, todas acrobacias e outras coisas mais…

“A mãe da arte de todos os números é o salto” e eu dei um salto na vida. Tem que aprender a cair, pra saber levantar.

Aprendi muito com o “Mestre Severino” e adotei seu sobrenome, agora pode me chamar de Benjamin de Oliveira. Mas entre sonho e realidade, vida de “beijo” é difícil, é difícil como o quê… E de tanto apanhar, fugi de novo. Meu destino era fugir, destino de negro…

Fui atrás de uma caravana de ciganos, mas “quá”, “num” é que os “ladino” queriam me trocar por cavalo?

Fui e fui pego por um fazendeiro, provei que era circense e ele me deixou seguir viagem.

E de circo em circo, substituí o palhaço principal, que estava doente, no Circo frutuoso, começando aí minha história.

A noite começava a fervilhar nas cidades grandes, eram novos tempos, teatros, café-concerto, a elite buscava o teatro sério e o “Zé Povo”, o que fosse mais ligeiro, encontrava no circo o divertimento que queriam. “Todo artista tem de ir aonde o povo está!”

Minha popularidade crescia, uma vez até o presidente, o marechal de ferro, Floriano Peixoto, por eu cantar e dançar chulas foi lá me cumprimentar.

Na Spinelli lancei a forma de teatro combinado com circo que chamariam de pavilhão. Comédias, paródias e a arte de representar por gestos, sem palavras. Fizemos clássicos, como Otello, farsas, melodramas, operetas como A Viúva Alegre, até uma paródia de O Guarani, que acabou projetado nas telas, o cinema surgia na bela época. O primeiro Momo, que seria mais tarde, a representação do “Rei na Folia”, foi pela primeira vez, representado por mim, na minha opereta fantástica O Cupido do Oriente. Assim como inúmeras peças, de minha autoria.

Fui ator, diretor, autor, produtor, dançarino, compositor, cantor (até gravei discos), e palhaço sim senhor! O PRIMEIRO PALHAÇO NEGRO DO BRASIL! E o palhaço o que é? E o que fui? Uai?! Acima de tudo: um artista brasileiro!!!

Abram as cortinas, acendam as luzes, que o show tem que continuar! Respeitável público, minhas senhoras e meus senhores, nessa passarela/picadeiro, o meu querido Salgueiro vai apresentar: Novos Benjamins do circo, teatro, cinema e televisão, com o aplauso “d'ocês”!

Despeço-me com um “Beijo” do “Moleque” e o meu muito obrigado!!!"

Alex de Souza
Carnavalesco

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Nove escolas de samba da Série A se filiam a nova liga



O retorno do presidente Renato Thor à presidência da Lierj criou um novo contexto dentro da administração das escolas de samba do grupo de acesso carioca. Foi viabilizada a criação do novo grupo, com nove escolas, chamado LIGA-RJ. Confira a nota:  

No início da noite desta quarta-feira (17), os representantes legais de 09 (nove) agremiações filiadas à Série A do Carnaval do Rio de Janeiro assinaram a documentação se filiando a uma nova liga para gerir a divisão de acesso na Marquês de Sapucai a partir de 2020. A entidade leva o nome de LIGA-RJ (Liga Independente do Grupo A do Rio de Janeiro), que tem como Presidente Administrativo o senhor Wallace Palhares, Fábio Montibelo é o Vice-Presidente Administrativo e Cícero Costa o Diretor de Carnaval.

Em meio à enorme insegurança jurídica em que a Série A do Carnaval do Rio de Janeiro atravessa, inclusive com uma falta de resposta e posicionamento da antiga Liga sobre as questões como prestação de contas e outras, a proposta da LIGA-RJ e de suas agremiações filiadas é transmitir às comunidades e ao mundo do samba uma maior transparência e credibilidade.

As agremiações Acadêmicos da Rocinha, Acadêmicos de Santa Cruz, Acadêmicos de Vigário Geral, Acadêmicos do Sossego, Inocentes de Belford Roxo, Unidos da Ponte, Unidos de Bangu, Unidos de Padre Miguel e Unidos do Porto da Pedra protocolaram a documentação se filiando à nova liga. As escolas não reconhecem os senhores Renato Marins e Antônio Marcos Teles como representantes legais da Lierj, inclusive continuarão cobrando da instituição a prestação de contas entre os anos de 2012 e 2019.

As escolas filiadas à LIGA-RJ entendem o quão difícil é o processo de se colocar o carnaval do grupo de acesso na avenida com verbas limitadas e com o advento da crise que assola o Rio de Janeiro. Por tais motivos, a nova Liga se compromete com a comunidade do samba a lutar com todas as forças para o resgate de um carnaval digno, honesto e transparente.

Além da luta pelo crescimento do carnaval do Grupo de Acesso, a LIGA-RJ vai buscar os melhores meios para que saia do papel a construção da Cidade do Samba 2, sonho de todos os amantes do Maior Espetáculo da Terra.