quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Processos da criação: Jorge Caribé - A resiliência artística no acesso carioca


Por Redação Carnavalize


Após entrevistar o carnavalesco Leandro Viera, da Estação Primeira de Mangueira, e após entrevistar João Vitor Araújo, da Unidos de Padre Miguel, o Carnavalize dá continuidade a essa temporada da série Processos da Criação com Jorge Caribé.

Caribé assinará pelo segundo ano consecutivo o carnaval do Império da Tijuca. Com uma vasta experiência nos desfiles das escolas de samba em diversos grupos e cidades, o carnavalesco é popularmente conhecido por sua capacidade de reaproveitamento de materiais e sua associação aos temas “afro”!

Então se liga aí e leia a conversa que a gente bateu com o carnavalesco no barracão do Império sobre seus caminhos e escolhas de concepção carnavalesca!


Carnavalize: Como você vê a questão da reciclagem no carnaval? Como é o processo criativo em cima dessas obras já finalizadas que chegam até você?

Jorge Caribé: Minha inspiração vem da minha religião. Minha fé e minha crença vêm dos meus orixás. Sou nascido e criado dentro do candomblé; pode acontecer o que for, eu vou morrer com eles. Minha formação vem daí porque no candomblé tradicional, do qual eu faço parte, que não é esse candomblé inventivo de hoje, eu sou filho carnal de um pai de santo. Então desde criança eu vi costura de roupas, as coroas, a bordagem – antigamente não tinha coroa – e tive a sorte de meu pai ter sido o primeiro destaque masculino da Unidos de Vila Isabel. Meu pai desfilou de 1976 até 1988, então cresci o vendo fazer fantasia. Ele tinha uma ala chamada “chamego do painho”. Eu saía da escola correndo e ficava louco vendo aquele monte de mulheres costurando e colando, então já tinha essa vontade. Resumo: comecei a desfilar na Unidos de Vila Isabel também, no carnaval de 1980, e nunca mais parei, fui até 2002. Eu fui comissão de frente mirim, destaque de chão, depois fui para ala, virei presidente de ala, fui composição, destaque, carnavalesco no carnaval de 2001…. Enfim, minha formação vem de dentro de casa com essa história da Unidos de Vila Isabel. Eu sempre quis virar carnavalesco, então para responder a essa pergunta…


C: Vamos aproveitar então o gancho dessa história antes que você responda. Como foi essa transição de folião a carnavalesco e esse universo visual já que você cresceu dentro de um terreiro?

JC: Eu já lidava com os lamês, com os panos das roupas dos santos, não tinha aljofre – se chamava strass japonês –, a gente enfiava canutilho, bolinha e miçanga um a um, esse foi meu início, meu “pré-carnaval”. Com essa história da ala do meu pai e da fantasia dele sendo feita dentro de casa, eu já lidava com esse universo desde os 9 anos, colando, fazendo pingentinho…

"É uma coisa que me dá prazer falar do negro, da cultura negra, religião de matriz africana, fé, orixá e alma do negro" 

C: Quando você chega ao posto de carnavalesco você já traz essa questão africana. Os enredos afro permeiam sua carreira inteira e você já fez dos mais diversos tipos…

JC: É isso aí, porque na verdade eu tive a sorte de poder frequentar o barracão da Unidos de Vila Isabel. Eu era um componente bem doente de carnaval e não faltava a nada na Vila e passei a ir para o barracão olhar. O carnavalesco que me deu a oportunidade, na época, foi Max (Lopes). Ele teve uma amizade com meu pai muito particular; quem desenhava para o Max era o Mauro Quintaes, então iam para casa do meu pai jantar e na mesa desenhavam o que meu pai queria, porque ele sempre vinha no abre-alas, e aí eu passei a ver o que era carnaval ao vivo. Ia para lá (barracão) ajudar a fazer florzinha de lisolene e tudo mais. Max também me deu todas as oportunidades. Depois teve Jorge Freitas, que hoje é o rei de São Paulo, também foi muito meu amigo e fez três carnavais pela Unidos de Vila Isabel que foram muito bacanas. Também tive a oportunidade de trabalhar para o Oswaldo Jardim, que era um mestre…. Enfim, com tudo isso eu consegui uma prática involuntariamente com aqueles momentos em que se fazia carnavais deslumbrantes.
Quando eu decidi e disse “agora eu vou”, por coincidência, quase todos os enredos que eu desenvolvi, sendo meus ou não, levavam para temática negra. Eu estreei na Lins Imperial, no carnaval do ano 2000. Quando eu cheguei na escola, a presidente me perguntou se eu tinha alguma proposta e eu respondi: “um monte” (risos), já tinha mais de cinquenta ideias de enredos na minha cabeça. E ela me disse que a escola tinha uma dívida de gratidão com o Pai Santana, que foi o primeiro massagista negro do Vasco da Gama e rei congá do carnaval. Acabei traçando um enredo sobre a história dele e a viagem ao Egito e fiz um carnaval em um ano difícil, em que caíam quatro agremiações, e ficamos em terceiro lugar. Fiquei na Lins Imperial cinco anos seguidos, depois voltei e fiz mais um ano. Ali passei por Clara Nunes, falei sobre o cucumbi, até que fomos campeões com Aroldo Melodia. Subi a Lins e fiz uma homenagem aos 75 anos da Mangueira, então já estava bem delineado o meu tipo de carnaval, que era homenagear o negro. De lá para cá, passando por diversas escolas, além de ter sido campeão com a Lins, ganhei com a Inocentes de Belford Roxo, Arranco, Curicica, Em Cima da Hora e sempre falando de negros e orixás das mais diversas formas. Quando cheguei na Portela (para o carnaval de 2009), foi um marco na minha vida e falei sobre o amor, tudo baseado em Oxum. No ano seguinte fiz “Mangueira é Música do Brasil” e veio toda a parte negra musical. Aí, retornei e vim para União de Jacarepaguá de novo com negros, plantas e folhas. Fui para a Renascer…. Não precisa nem lembrar, né? Fiz Candeia sem um centavo, sem qualquer metro de pano novo. Foi muito difícil, mas me valorizou porque eu sabia que podia fazer. Agora estou aqui. Com meu trabalho fiquei seis anos fazendo carnaval na Argentina e desenvolvi carnavais maravilhosos; não foram mais porque acabou. Fui pra Vitória também. Cheguei em Vitória, fiz Angola e fui campeão. É uma coisa que me dá prazer falar do negro, da cultura negra, religião de matriz africana, fé, orixá e alma do negro; estou aqui por causa disso, fazendo esse enredo porque tem negro.

Em 2018, Caribé assinou "Olubajé, um banquete para o rei" junto a Sandro Gomes no mesmo Império da Tijuca

C: E como funciona o processo de pesquisa para achar esses temas? Quais são as origens?

JC: Quando está falando sobre orixás e religião eu tenho, particularmente, um conhecimento bem grande porque vivo isso todo dia por causa da minha religião. Além de carnavalesco, eu sou babalorixá, tenho uma casa de candomblé com quatrocentos filhos de santo. Eu vejo todo dia Iansã, Ogum, Iemanjá, Xangô, Omolum, nem preciso pesquisar. Quando o enredo é temático, como o desse ano, a gente tem que cair para dentro (da pesquisa). Aqui tive a sorte de já ter feito em 2013, na União de Jacarepaguá, um enredo sobre Vassouras. A ideia é a mesma mas não custa dar uma lida, alguém sempre dá uma ideia nova e vamos ao lugar, muda-se alguma coisa, mas não encontrei muita dificuldade. No Especial é outro universo: você tem gente para ler, gente para escrever, desenhar…. É gente para tudo. Eu não sou medroso, não sou inseguro, nunca tive muita dificuldade. Não tenho isso de botar um boneco em algum lugar e depois mudar para outro; se é ali que eu quero, assim será e lá permanecerá. São 19 anos, esse é o meu vigésimo desfile, e houve anos em que assinei três carnavais, então acho que já tenho noção e experiência de barracão. E o principal: ao invés de ir melhorando, só piora a cada ano que passa, então lá atrás eu achei que quando chegasse ao Especial ia me acabar. Quando cheguei não pude fazer tudo, fiz o carnaval com o que tinha. Fui pra Mangueira e o presidente me deu dois contêineres com um monte de coisa do Japão. Quando falam comigo sobre crise e reaproveitamento não é novidade porque sempre tem crise. Quando tem, a gente faz, e quando não tem, a gente faz também. A sorte é você estar numa escola e poder fazer uma escultura, um complemento…. Vem mulher, vira home. Vem cavalo, vira unicórnio. Você transforma tudo, muda de cor, troca rosto, isso é reciclagem. Eu me preocupo com isso tudo porque se você pensar na quantidade de escolas de samba que existem e se todas elas pegam isso tudo e jogam fora, o planeta vai acabar. Toda vez que eu pego um tecido ou um boneco para ser reaproveitado, eu estou contribuindo para o meu país. A reciclagem faz parte do carnaval e eu acho que todos os carnavalescos fazem, inclusive os do Grupo Especial. Não sei se eles vão assumir, mas todo mundo recicla. Eu não tenho medo de falar disso, eu reaproveito, sim, acho que é muito mais difícil do que fazer uma escultura nova. Antes, a gente ia na casa do irmão rico lá na Cidade do Samba e eles abriam as portas; agora, tem que pagar, já vem tudo com precinho. Agora é irmão pobre e irmão miserável. É muito mais gostoso você dar uma cara nova a algo que já vem pronto e as pessoas se surpreenderem com a transformação.


C: Nesse processo de reciclagem, você já olha o desfile de algumas escolas pensando nos determinados materiais que podem ser bons para reaproveitar?

JC: Não funciona bem assim. Como todo carnavalesco e todo sambista a gente olha e diz: “ah, queria ter uma escultura dessa”. Quando acaba o carnaval, todo mundo fica em um tédio que quase vira depressão. Aí você faz o quê? Vai ver vídeo no YouTube. Você não quer ver Sessão da Tarde, não quer ver Globo, não quer ver Corujão, então dana a ver desfile até cansar. Geralmente as escolas já têm uma amizade, uma parceria com A ou B. Se uma escola resolve falar do circo e tem palhaço, tem foca e mais não sei o quê, você já sabe que aquilo tem em tal lugar. Se me perguntam, eu digo: “olha, nosso enredo é cavalo alado. Não tem, mas você pega aquelas zebras ou burros que a gente faz virar” e começa a nossa matemática. Depois a gente vai às compras. Quando vai em alguma escola que não é parceira, a gente vai e tenta pechinchar para tentar pegar também. O que acontece muito, talvez por já ser carnavalesco há vinte anos, é que as pessoas já até procuram e dizem para eu ver algo que de repente possa aproveitar. Eu tenho essa sorte. Acho que tenho entrada em todas as escolas do Grupo Especial, ninguém tem raiva de mim nem fala nada contra. Funciona assim: tira uma pedra daqui e utiliza ali.

"Toda vez que eu pego um tecido ou um boneco para ser reaproveitado, eu estou contribuindo para o meu país. A reciclagem faz parte do carnaval e eu acho que todos os carnavalescos fazem..."

C: Em alguns vídeos e entrevistas nota-se que você carrega nos adereços muitos produtos não tão usuais, como a garrafa pet, bombril…

JC: Tem as garrafas pets, estou fazendo cabelo de boneca com bombril, faço pingente com lata de cerveja…. A quadra fica cheia de lata, então mando vir três mil latinhas e fazemos pingentes para pendurar no carro. Trabalho com tudo que você possa imaginar, inclusive macarrão de piscina; olho para o lixo e penso “aquilo ali vai, aquilo ali sai”.


C: Parece que seu processo de criação é bem mais voltado para o barracão do que pro desenho. 

JC: Eu gosto mais do barracão. Eu desenho para mim, é feio meu desenho, nunca desenvolvi esse dom e era algo que me preocupava. Eu tenho que falar isso, mas depois que descobri que Max não desenha, nem Joãosinho Trinta desenhava, e hoje que os carnavalescos famosos que desenham não se dão esse luxo porque têm equipe de figurinista, fiquei mais leve. Eu tenho figurinista e desenho para ele, faço rabiscos e o garoto vem com o dom que é dele e desenha o figurino. Hoje, eu não tenho vergonha de dizer que não desenho. Os desenhos não viram verdade, na hora a reprodução vira outra coisa. Eu me garanto mesmo em alegorias e adereços, que eu adoro. Ala não curto fazer porque não tenho paciência de fazer oito mil broches iguais. Eu deixo eles bem à vontade, entrego o projeto e quando eles montam o protótipo me chamam e eu opino o que tem de mais e de menos. Eu boto cadeira do lado e fico sentado para ver a montagem dos carros.


C: Você já fez uma parceria com o Sandro Gomes. Como era a divisão do trabalho?

JC: Automaticamente, as coisas vão se delineando. Como eu disse, eu gosto dos carros, então tomei conta dessa parte e ele foi cuidar de outras coisas. Uma coisa é fato: é muito difícil trabalhar com duas ou três pessoas. As ideias uma hora batem de frente e você tem que ter muita afinidade e cuidado para não estragar a amizade fora da escola de samba. Se tem uma coisa que já decidi na minha vida e que eu não permito é trabalhar com duas ou três pessoas. Se der certo, parabéns para mim e para equipe; se der errado, faz parte. Por isso que estou no Império da Tijuca em carreira solo, só tem eu de carnavalesco, não tenho assessores, não tenho ninguém para falar nas minhas costas porque estou aqui todos os dias. E eu não deixo dúvidas de que sou a pessoa que diz: vamos fazer o carro, o queijo, o boneco…. Faço uma coisa de cada, sempre do lado, e deixo a equipe seguir com o trabalho. Peço muito a Deus e aos orixás para que daqui pra frente, enquanto eu trabalhar, siga como carnavalesco, porque dois não dá. É muita vaidade. Hoje também tem aquele problema: uma aderecista cola paetê e daqui a pouco diz que a criação é dele e não é…. Cada um no seu quadrado. É um meio de vaidade muito grande, então não quero mais.


C: Quais histórias curiosas desse processo criativo foram interferidas pela sua experiência religiosa e ligação com os orixás? Já colocou determinado material no carro por saber que precisava daquilo para contar a história, por exemplo?

JC: Uso a minha religião como referência e livro-chave, como ano passado com Olubajé. Eu faço Olubajé na minha casa todo ano, então é uma coisa que influencia muito e fica mais fácil de realizar. Se você quer fazer uma escultura e o profissional não está entendendo, traz uma peça de casa e mostra o que quer. Mas eu sou terrivelmente contra vulgarizar. Eu faço enredo de orixá superficialmente, não boto nada que revele algum segredo, não aceito fazer macumba em carro alegórico, botar comidinha pra Exú…. Eu acho que Exú é Exú lá, ele recebe presentes lá. Se eu estiver de bem e em comunhão com todos eles, a energia que vai emanar de lá vai abençoar o meu trabalho aqui. Não gosto que misture, que tenha macumba, que bote fita amarrada em carro alegórico, faz defumador, mata cabrito…. Não é isso em um desfile de escola de samba. Quando eu falo da minha religião, eu quero provar para quem é leigo que não é essas coisas que eles falam de satanás e tudo mais. Quem conhece fica feliz e quem não conhece aprende e passa a admirar. Eu gosto de falar de coisas que eu acredito e usar o veículo do carnaval para propagar o lado bom da coisa. Essa é minha finalidade: tem gente que usa carnaval para falar de política, fazer crítica…. Eu uso para render homenagens à minha crença, que também é a crença da escola de samba. Para quem tem um pouco de noção, sabe-se que escola de samba é diferente de carnaval. Carnaval é uma manifestação e escola de samba é escola de samba; ela existe independentemente de ser carnaval ou não. O samba nasceu no terreiro da Tia Ciata, que era filha de santo, feita de Oxum, e que na prática das casas religiosas daquela época o candomblé era a noite inteira porque era proibido fazer de dia. Quando ele terminava às 5h da manhã, existia uma coisa chamada samba de caboclo. Hoje você vê candomblé no meio da rua, mas naquela época era nos fundos da casa. Enchiam de crianças brincando para despistar a polícia. E quando acabava o candomblé começava no próprio tambor um samba de caboclo, que se chama samba de terreiro, em que as filhas de santo sambavam com aquelas saias, rebolavam com aquelas anáguas todas e ali surgiu a primeira escola de samba. Então para mim desfile de escola de samba é sagrado, tem ritual, tem abertura, tem o motivo de saudar a porta-bandeira, o canto da quadra…. E o que eu acho mais bonito de tudo isso: por que nós temos ala de baiana? A baiana ela vem dessa tradição nagô. E por que ela usa essas fitas, laços, saias, bordados e babados tal como a vestimenta das filhas de santo do candomblé? Porque quando as negras escravizadas vieram ao Brasil chegaram nuas e quando foram vendidas e foram para as senzalas, algumas eram escolhidas para migrar da senzala para casa grande, ou por interesse do sinhôzinho ou porque eram boas para cuidar de criança. E com isso a mulher do cara, louca de ciúmes, pegavam as vestimentas de origem portuguesa, inglesa e espanhola e davam para as negras se vestirem - roupas essas que eram blusas com mangas, saias, babados e laços de fita. Só que à noite, quando iam dormir, a negrinha lá de dentro voltava para senzala para macumba, porque o culto deles era de noite. Então elas rodavam, aí a Oxum e Iemanjá vinham com saias, laços e babados, e tornou-se a vestimenta do candomblé tipicamente brasileiro. Não há candomblé na África. Essas negras introduziram essas vestimentas que elas utilizavam e surgiram os santos do candomblé, e de manhã iam rodar nas escolas de samba. Olha a importância do que é uma escola de samba, uma ala de baianas e por quê ela existe; não conta ponto, mas ela é obrigatória, ali está o fundamento de uma escola de samba. Dá um enredo, hein!

"Você vê que são pessoas despreparadas, mas não me assustam porque minha religião é de resistência."

C: Você falou do carnaval enquanto esse simulacro que não é a festa religiosa em si, mas no momento em que se leva o candomblé para o carnaval também acaba sendo político pelo momento de intolerância que vivemos, pelo gestor da cidade que temos. Como você enxerga isso?

JC: Eu não visualizo hoje esse terror que se transformou porque nunca foi diferente, porque estou há quarenta e oito anos militando dentro do candomblé e nunca foi diferente. Pode ter tido um governo ou outro melhor, mas sempre houve preconceito, inclusive do vizinho, porque você bate macumba até dez horas da noite e ele quer reclamar. Tem preconceito por parte dos familiares das pessoas que frequentam. Eu sei disso porque tem uma mulher que quer fazer o santo na minha casa e o marido não quer. Tem gente que faz o santo e me diz: pai, e agora? Como vou voltar para o meu emprego? Você hoje faz o santo da pessoa e ela sai de lá sem nada. Na rua você corre risco de ser agredido, apedrejado e até de tirarem as coisas do teu corpo. Infelizmente, com os gestores que temos no país, e aqui no Rio temos prefeito, governador e presidente completamente ignorantes, poderiam ser budistas, hare krishnas e o cacete que eles quisessem, mas eles estão gerindo um Estado que deveria ser laico. A doença já começa na cabeça deles. Você vê que são pessoas despreparadas, mas não me assustam porque minha religião é de resistência. Você vai na igreja evangélica, assiste três cultos e vê que dá dinheiro e começa a botar uma cortina vermelha na sua garagem e louvar a Deus gritando igual a um louco. Com isso, em dois minutos você arranca dinheiro de todo mundo porque as pessoas andam muito fragilizadas e em busca de algo desconhecido, e assim vão andando por várias religiões. Tua igreja daqui a três meses é um palácio porque daqui a pouco vem um dos mandas-chuvas daquelas igrejas enormes e levanta tua igreja para você dividir o lucro. O candomblé não é assim, ele sempre foi e vai ser uma religião de luta. Você começa com tudo pequenininho, até porque os orixás não admitem esses castelos e luxos, gostam de coisas muito simples, limpas, organizadas e é uma religião de matriz africana. Você não pode fazer uma casa pra Omolu e encher de brilho, pisca-pisca, porque é um orixá que não pega isso. É uma religião mais sacrificada. Quando vem o enredo da escola de samba, eu acho que serve para esclarecimento do leigo. 

A União de Jacarepaguá, assinada por Jorge Caribé em 2013, trouxe Vassouras para a Sapucaí (Foto: Raphael David/RioTur)

C: Falando sobre o carnaval de 2019, como esse enredo chega para você e o que pode ser dito desse processo?

JC: Como eu disse, já havia feito esse enredo, em 2013, um ano em que a escola (União de Jacarepaguá) era favorita ao descenso. O favoritismo não aconteceu, o que foi uma grata surpresa. Aqui, a ideia veio de um diretor e inicialmente seria sobre Vassouras, mas foi estendido a outros quinze municípios. Resumindo, a história é muito bacana, e a gente divide em quatro partes - porque só pode haver quatro carros na Avenida. Primeiro, com a chegada do negro. Para minha surpresa, a maior contingência de escravizados veio aqui pra Vassouras, coisa que eu não sabia. Você pensa em Bahia, mas trezentos mil negros vieram para fazer parte da lavoura do café. Pronto, já me interessou. O Vale do Café é terra desses barões e dos negros escravizados, então estamos fazendo esse enredo porque sem os negros não haveria barões. A gente abre o desfile enaltecendo a força, o suor e o sangue do negro que alimenta a semente do café e até dizemos que a semente é vermelha. Será um abre-alas de cinquenta e dois metros de comprimento com dois chassis acoplados e mais um tripé, onde fazemos uma aldeia africana em terras brasileiras para mostrar que o negro não veio só acorrentado para plantar, mas que nas horas vagas eles iam enaltecer os orixás deles. O abre-alas é um grande Império do Café. A coincidência do enredo é que o Morro da Formiga também era um grande vale de café, ainda tem lá até hoje. Quando eu olho a bandeira da escola, é uma coroa com dois ramos de café. Dali, começamos a misturar os negros com os barões, na abertura do segundo setor, e trazemos o requinte do tomar o café, as xícaras de porcelana e os bailes da corte. Misturamos a nobreza ao café do negro. O segundo carro é uma homenagem à Nossa Senhora da Conceição, a santa padroeira do Império da Tijuca, que foi fundado em oito de dezembro. No sincretismo - que eu sou contra - ela simboliza Oxum, que nasceu três mil anos antes dela, e poderia ser sua mãe, na verdade. Após as missas da igreja em que o negro era obrigado a se converter ao catolicismo, surgem as festas, os folguedos e o folclore que são justamente a relação do negro com as festas da igreja católica, a festa do divino, a folia de reis…. E no Morro da Formiga tem três folias de reis que ainda desfilam e estarão no nosso carnaval. Aí vem o carro dos diabos, da carrocinha, das xícaras e bules e passamos para o legado que o Vale deixou. Hoje não se vive mais de café, mas do turismo, de fazendas com criação de (cavalos) mangalargas, de indústrias automobilísticas e também da Universidade de Vassouras, uma das melhores do país. O Cazuza se formou lá. Tem mineração, cervejaria…. A gente tem uma última alegoria que é exatamente uma estação ferroviária, o ponto de partida e de chegada, onde traremos a mãe do Cazuza, a velha guarda, os jovens da universidade uniformizados e todos que são parte desse legado. A última ala do desfile traz o café no morro. É uma história paralela; o Vale e a Tijuca.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Processos da criação: João Vitor Araújo - A loteria chamada carnaval


Por Redação Carnavalize

Dando continuidade à nossa série Processos da Criação, o Carnavalize entrevista João Vitor Araújo, responsável pela parte artística do desfile da Unidos de Padre Miguel por dois anos consecutivos. 

O jovem carnavalesco vem de dois excelentes desfiles recentes na Série A e conta para o site detalhes de sua trajetória, da realidade vivida na concepção dos desfiles no grupo e no cenário contemporâneo, além da maneira como desenvolve e encara seu trabalho. 

Então se liga e confere o bate papo do site com um dos nomes de maior destaque da nova geração de carnavalescos da nossa folia!


Carnavalize: Como foi seu início no carnaval? Você era aderecista e chegou a trabalhar com desataques de luxo. Como foi essa trajetória de assistente até chegar ao posto carnavalesco? 

João Vitor: Na verdade, eu não tinha grandes pretensões no carnaval. Eu sempre fui bom, muito habilidoso com fantasias, peças menores, delicadas…. Tudo bem que eu não comecei fazendo fantasia, eu comecei na bancada. Só que eu sempre fui apaixonado por isso, sempre gostei de desenhar, mas via a carreira de carnavalesco como algo muito distante. Era tanta gente boa no mercado na época, tanto os que estavam no auge quanto os que estavam chegando. Eu pensei “até eu conseguir alguma coisa, já terei quarenta, cinquenta, sessenta anos de idade”, então a minha pretensão de fato era abrir um ateliê e trabalhar com confecção de fantasias, que era uma coisa que eu gostava; tinha muita habilidade e, de certa forma, é um setor do carnaval bem rentável. Só que a coisa foi mudando de figura e a cada ano eu fui ganhando mais responsabilidade dentro dos barracões com os carnavalescos que eu trabalhei anteriormente e eu comecei de fato a aprender a fazer de tudo um pouco. Eu posso dizer a vocês que eu já fiz de tudo nessa vida de barracão, já passei por todos os setores. Então ninguém me passa a perna no barracão de escola de samba (risos). Ferreiro não me engana, carpinteiro também não, aderecista, chapeleiro, costureiro…. De tudo eu já fui, então sei como acontece esse processo.

C: E houve alguma dificuldade maior nesse processo?

A grande prova de fogo para mim foi a Viradouro, quando cheguei como diretor artístico em 2012 para produzir o carnaval de 2013, mas anteriormente eu já tinha fechado contrato com uma escola do Espírito Santo, a Independente de São Torquato, como carnavalesco oficial. Não deu certo. Digo abertamente porque foi uma escola que não me deu um real e no final até passagens eu comprava com o meu dinheiro para poder trabalhar e achei aquilo um absurdo; realmente larguei o trabalho no meio do caminho porque aquilo foi algo surreal. 

Fiquei triste porque deixei enredo e projeto bacanas na escola, mas nem tudo foi em vão. Foi a partir desse trabalho que conheci o Gusttavo Clarão, que era presidente da Viradouro, e me deu a oportunidade de ingressar na agremiação como carnavalesco. Foi preciso que eu saísse das minhas origens, do Rio de Janeiro e passar por outro estado para ganhar essa oportunidade na minha cidade.

"O que conta para muitos é você saber desenhar, mas isso é um detalhe só que todo mundo coloca lá no topo."

C: Você falou sobre esse olhar apurado que ganhou por já ter passado por todos os setores de uma escola de samba, algo de grande importância para um carnavalesco. Como foi esse processo de transitar por todos os setores e como isso é uma ajuda para o seu papel atual? 

JV: Em determinados anos eu tive que trabalhar em escolas bem pobres e quando você trabalha em uma escola pobre precisa botar a mão na massa, entende que precisa ajudar os outros profissionais, e por isso eu comecei a observar como aquilo tudo era feito. Claro que eu não sou um expert, que eu não tenho a capacidade de erguer um carro alegórico na máquina de solda sozinho, eu não sou dessa área, mas eu entendo. Não vou pegar uma tico-tico para serrar madeira para erguer uma alegoria toda na carpintaria porque eu não sou marceneiro, entende? Mas eu conheço o trabalho, eu sei mais ou menos como funciona. 


C: Seu olhar como artista foi moldado para olhar o barracão do carnaval como um todo… 

JV: Sim, como um todo, porque isso é importante, é muito necessário. O que conta para muitos é você saber desenhar, mas isso é um detalhe só que todo mundo coloca lá no topo. Na verdade, não é, porque basta você ter boas ideias. O Joãosinho Trinta não desenhava, mas ele sabia o que queria; isso é muito mais importante do que desenhar rosto bonito com feições quase reais, que é o que menos importa. O que vale é ter boas ideias e ter uma pessoa de confiança para desenhar para você, para elaborar um texto, criar um figurino…. O essencial é saber o que você quer. 


C: O carnavalesco é muito mais o profissional que organiza todas as funções, que orquestra tudo isso… 

JV: Sim, ele é o diretor de arte. Exatamente como os grandes estilistas aí fora fazem. Você sabe bem que a Stella McCartney não desenha nada há muito tempo, assim como a Donatela e tantos outros, entende? É dessa forma que acontece no carnaval. Até hoje, eu consigo tocar meu projeto sozinho, desenho, mas quanto maior a responsabilidade menos tempo você começa a ter com esse tipo de atividade porque você precisa dar atenção. Por exemplo: hoje eu trabalho com quatro carros alegóricos; se eu chego no Especial, já são seis, sete, oito alegorias para desenhar. Então você tem um tempo muito curto para trabalhar naquele projeto o tempo inteiro. Daí já surge a necessidade de ter um assistente de figurino, projetista, etc., e por aí vai. Acontece e não é demérito nenhum. 

As fantasias do desfile da Portela de 2016 foram criadas por João Vitor.

"Eu direi do Paulo o que levei comigo. Não que eu não fosse uma pessoa séria, mas fiquei muito mais depois de trabalhar com ele; mais pé no chão, muito mais profissional em todos os sentidos."

C: Você já passou exatamente por esses dois lados: já foi assistente, inclusive desenhou para o Paulo Barros no meio do processo em que você já tinha assinado carnavais solos. Como funciona estar submetido à ideia de uma pessoa enquanto assistente e ter o seu próprio processo criativo, no seu barracão e com seus profissionais? O que você tirou de lição dessas experiências? 

JV: Foi uma lição muito boa. O engraçado é que muita gente me perguntou sobre isso, sobre como é ser carnavalesco um ano e depois ser assistente. Eu falo a verdade: eu precisava de dinheiro, precisava trabalhar e me sustentar; o carnaval anterior tinha sido muito complicado, eu não recebi o combinado como todo mundo já sabe e saí praticamente com uma mão na frente e outra atrás. Eu não tenho vergonha nenhuma de dizer, precisava trabalhar com quem fosse, pagar minhas contas atrasadas, pelo menos viver de forma digna e com a cabeça fria. E foi uma experiência incrível porque existe o João Vitor Araújo antes da Portela e o João Vitor Araújo depois dela. O mais interessante é que já trabalhei com tantos carnavalescos, mas o que importa é você trabalhar com eles, atender as necessidades deles e ainda assim conseguir deixar aquela empreitada para seguir o seu rumo com a sua personalidade. 


C: Falando sobre essa tal personalidade, você se preocupava em passar alguma característica sua mesmo como assistente? 

JV: Eu direi do Paulo o que levei comigo. Não que eu não fosse uma pessoa séria, mas fiquei muito mais depois de trabalhar com ele; mais pé no chão, muito mais profissional em todos os sentidos. Ele é o carnavalesco top, o mais famoso da atualidade, e eu o vi passando por perrengues que às vezes nem eu havia passado, mas ele agia de forma muito natural e objetiva sobre tal problema. Aí eu paro para pensar: se ele, que é o Paulo Barros, está passando por isso, eu vou passar por muito mais. Eu passei a observar como ele tratava aqueles problemas, como ele reagia àquelas dificuldades e o carnaval que ele fazia não ficava para trás pela existência delas. Isso me deu gás, fôlego, energia e experiência e sempre me perguntam por que o carnaval da Rocinha no ano seguinte foi tão bem-sucedido…. Foi experiência, organização, matemática, tudo isso que aprendi por um ano inteiro na Portela me serviu. Parecia que eu estava realmente aprendendo dentro de uma sala de aula e a prova aconteceu no ano seguinte. 


C: Aquele foi um carnaval que definiu a sua carreira, né? 

JV: Exatamente. Eu renasci naquele carnaval. 


C: Dentre esses profissionais que fazem parte da construção de um desfile, sempre chamou atenção você trabalhar com um enredista. Agora você está com o João Gustavo Melo. Como é essa troca de criação? 

JV: Eu acho um barato porque chega um determinado momento que fica impossível trabalhar sozinho. Eu sou muito proativo, me disponho a fazer muitas coisas. Tem carnavalescos que contratam uma equipe para fazer protótipo, para fazer desenho…. Eu não tenho isso porque gosto de fazer as minhas coisas, então tudo acontece ao mesmo tempo. Com isso, eu não consigo dar conta de tudo, e aí é a hora que eu me reúno com uma pessoa de confiança – hoje eu trabalho com o Gustavo, que é um amigo de muitos anos que eu sempre quis trabalhar – e enquanto ele trabalha de um lado, eu trabalho de outro. Eu gosto muito do trabalho dele porque tem uma visão de carnaval de quem é expert, trabalhou muitos anos no Salgueiro, na Viradouro, em São Paulo e olho para ele e questiono se aquilo está bom ou não e ele dará a opinião dele se sim ou não. É muito bom trabalhar com pessoas que conduzem o projeto dessa forma e foi uma delícia porque apresentei a eles o enredo e as possibilidades e viemos montando esses pilares. 


C: E esse processo de escolha de enredo? Parece ser sempre um ponto de partida seu, correto? 

JV: Sim, é muito de acordo com a escola. Quando fiz o Viriato na Rocinha, todo mundo dizia que ele seria caro, que a escola não tinha grana. “Quem disse que Viriato é caro? Viriato era caro quando estava com Joãosinho Trinta. Mas seus carnavais solo eram simples e de bom gosto, era uma boa modelagem, paleta de cores”, eu respondi. Isso foi me ajudando a montar aquele carnaval e equilibrá-lo de forma elegante. Deu certo lá. Quando cheguei na UPM, fui buscar no histórico da escola tudo que ela já havia apresentado nos anos mais bem-sucedidos para que eu pudesse seguir uma linha. No primeiro ano é complicado mudar o estilo; eu tinha várias ideias mas eu não posso fazer uma mudança muito brusca na escola por conta do costume do público, do desfile, e cheguei à conclusão do enredo indígena com o Eldorado Submerso. Esse ano, já mais à vontade com a escola, a história do Dias Gomes, sendo muito cultural e rica, me permite viajar por uma estética menos cara, com mais mensagem. Podem dizer que foge ao que a apresenta a UPM, mas aí é que entra o ponto de que é preciso imprimir um estilo, uma personalidade na escola, e a escolha agradou de certa forma. É muito de acordo com o momento, com a comunidade e envolve sentimento e energia. Eu tinha mil possibilidades para o carnaval de 2019 e Dias Gomes, de fato, era o melhor, era o que a escola precisava no momento. 


C: Já que você desenha suas próprias fantasias, de onde vêm as referências para elas diante de cada enredo? São de dentro ou de fora do carnaval? 

JV: É de fora do carnaval. Eu sou muito ligado à moda, então eu tenho os estilistas favoritos, aqueles que me inspiram. Também gosto de ópera. Hoje eu tenho pouquíssimos livros aqui (no barracão) por conta do problema com chuva, tenho pavor que meus livros fiquem danificados, mas estou sempre comprando livros de óperas, de concertos, musicais e são eles que me inspiram. Claro que sempre adequo ao tema proposto e assisto desfiles antigos. Tenho referência de Rosa, de João (Trinta), do Viriato Ferreira, mas procuro trazer um pouco dessa característica do que eu gosto, do que eu curto, que é a moda.




C: Falando da famigerada crise, como esse momento de escassez interfere diretamente no seu trabalho? 

JV: Eu já sabia que seria assim mas não que seria tão agressiva. Duzentos e cinquenta mil reais para uma escola da Série A é covardia. Exigem da gente - da UPM e de todo o grupo - um padrão elevado, e é impossível fazer essa comparação de dizer que a Série A é o novo Grupo Especial. Não é. Não temos estrutura alguma para esse tipo de comparação. Parte desse valor já estava prometido como carta de crédito, a sorte é que eu tinha um almoxarifado “rico” de carnavais anteriores, a escola tinha um acervo muito bom de casais de mestre-sala e porta bandeira também. Ano passado, quando eu fiz o Eldorado, eu ergui uma estrutura para que ela fosse reaproveitada e, modéstia à parte, eu sei me virar muito bem. 


C: O fato de ter sido um carnaval muito caro gerou muitas possibilidades? 

JV: Sim, sim. Nós vendemos muita coisa, arranjamos um dinheiro legal e o que restou eu consegui extrair bastante coisa. 


C: Você acha que esse cotidiano interfere no seu processo final, então? Parte de uma ideia inicial mas você não tem medo de mudar esse projeto durante um tempo? 

JV: Não, porque faz parte. Na verdade, o carnaval do Eldorado foi o meu segundo projeto na íntegra. O da Rocinha foi o primeiro porque foi exatamente aquilo que eu havia planejado dentro das possibilidades da escola. Anteriormente, eu desenhava seis índios e levava dois, fazia três piratas e não ia nenhum, então não tenho do que reclamar (risos). Mas faz parte da materialização do projeto de todo artista; tem que dar um jeito. 

"Se não houver uma mudança, eu não sei se o carnaval vai existir daqui a cinco ou dez anos. É tanta violência que nossa festa vem sofrendo que se torna quase impossível fazer uma previsão do que eu estarei fazendo daqui a alguns anos."

C: Você falou sobre as referências de moda e transparece a nós o seu apego pelo figurino. Você guarda suas melhores ideias para as alas? 

JV: Eu tenho apego pelo figurino. É engraçado, todo mundo fala disso, geralmente as fantasias, pelo fato de serem em grande quantidade, vira uma coisa maçante e fica um pouco impossível manter a qualidade visual em quarenta, cinquenta fantasias. Eu tenho realmente um apego muito grande, eu gosto de me vestir, gosto de modelar, gosto de ter aquele carinho e contato com o tecido, com a textura e realmente eu tenho carinho e facilidade para tal. Às vezes chegam e dizem “que figurino lindo!”, e falam em João Vitor Araújo porque eu abraço cada um deles, abraço todos, mas sem perder o foco das minhas alegorias. Eu sou apaixonado por isso aqui.



C: Você está indo para o quinto carnaval, e apesar de ser um número relativamente pequeno, já mostra um imaginário dos seus carnavais. Como você enxerga a identidade que está criando? 

JV: É bacana porque são cinco carnavais marcantes, para o melhor e para o pior. No primeiro eu consegui o título de cara, no seguinte a escola foi rebaixada, no terceiro foi um sucesso – a escola não ganhou, mas a repercussão foi boa e jamais imaginada por mim - e na UPM idem ano passado. Tenho certeza que mesmo com toda dificuldade nós conseguiremos levar um carnaval de excelência para a Avenida. E eu digo de coração: eu não sei definir meu estilo. Isso eu deixo para vocês (risos). Eu não sei te dizer, porque ano passado fiz uma temática amazonense, nesse é literário, um outro ano foi carnavalesca de fato, literalmente falando…. Então eu não sei. Trabalhei com Paulo em um estilo futurista, logo acho que mesmo como assistente já transitei um pouquinho por todas as características. 


C: Mas você confirma que sua principal característica é o requinte? 

JV: Ah, eu gosto. Quem não gosta? Eu adoro acabamento, um espelho, um galão a mais. Eu gosto do requinte, da coisa boa, mas o trabalho não é caro; ele é bem feito. Só que eu não gosto daquela coisa entulhada. Mesmo bem requintado, ele é limpo, tem uma mensagem atrás daquela estética visual. Não é porque eu tenho dez esculturas boas e um carro vazio que vou botar as dez ali para impressionar. Impressionar quem? 


C: Para encerrar, você tem em longo prazo sonhos e projetos para realizar na carreira? 

JV: Olha, eu vou ser muito sincero, eu quero ganhar na Mega Sena da Virada e largar o carnaval (risos). Eu digo isso todo ano, meus planos de 2019 foram todos virados para o prêmio da Mega Sena. É uma profissão maravilhosa, só que o carnaval está sofrendo muito, levando uma surra ano após ano. Se não houver uma mudança, eu não sei se o carnaval vai existir daqui a cinco ou dez anos. É tanta violência que nossa festa vem sofrendo que se torna quase impossível fazer uma previsão do que eu estarei fazendo daqui a alguns anos. Eu amo isso aqui e espero que as coisas melhorem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Processos da criação: Leandro Vieira - Da ideia de Brasil ao 'desprojeto' de carnaval



Por Redação Carnavalize

A menos de quarenta dias do início dos desfiles das escolas de samba, o Carnavalize prepara uma série de entrevistas com profissionais da maior folia do mundo!

O “Processos da criação” é movido pela curiosidade em compreender como se dão as maneiras de conceber a arte do carnaval pelos trabalhadores do maior espetáculo do mundo! Para isso, conversaremos com os profissionais sobre suas identidades, o cotidiano de suas funções, as suas perspectivas acerca de seus ofícios e o que mais envolve o processo criativo!

Para começar, apresentamos a vocês o bate-papo do Carnavalize com Leandro Vieira, o talentoso carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira. Simbora!

Carnavalize: Começando pela escolha do enredo, de que maneira a decisão da história escolhida dá o tom visual do desfile? Ela é um ponto de partida da maneira que você ajustará a estética para o desfile? De onde você tira as referências?

Leandro: Ele é fundamental. Eu tiro as referências da minha memória afetiva e dos livros de História, das imagens que ilustraram os livros que eu estudei; dos contornos mais populares que existem em torno dos contornos feitos pelo Victor Meirelles, pelo Pedro Américo, estátuas do Museu Nacional de Belas Artes, das pinturas épicas, da Batalha do Avaí, o grito do Ipiranga, um índio tamoio, a estátua equestre de Dom Pedro, que tem aqueles índios lindos na Praça Tiradentes.... É uma seleção afetiva.


C: O enredo é pautado sobre outros personagens; você tira esses atores da História oficial e coloca no centro outros subalternizados. De que maneira você consegue retratá-los esteticamente?

L: Eu utilizo da estética épica para dar contorno épico a esses personagens que não tiveram isso. É uma tradução simbólica dotada de heroísmo. Algo importante de se falar é que os que são apresentados com contorno épico na narrativa oficial vêm de forma chargista, mais ligada à caricatura e à anedótica. Os que não são exaltados ganham o contorno épico.

Fantasias divulgadas para o carnaval 2019.

C: Sobre as referências das quais estamos falando, sabemos que você retira muitas ideias das pinturas das artes canônica, erudita e popular. Mas o cotidiano da cidade também é uma presença sua, certo?

L: Eu sempre digo isso: eu tenho uma seleção afetiva, ela é da minha memória. Tudo que eu escolho é o que me emociona, é o que de alguma forma fica cristalizado na minha memória. Eu sou um artista que valoriza a questão estética indígena, eu gosto de artistas plásticos, populares ou não, que se debruçaram na construção de signos da cultura afro. Então é a minha seleção, é o meu repertório.

 "Só que hoje em dia existe uma necessidade absurda do rótulo, e estou muito longe de ser o artista que posso vir ou não a ser, sou apenas o rascunho do que posso me tornar."

C: Já que estamos falando mais uma vez de Brasil, você está indo para o quarto enredo na Mangueira. De que forma você acha que eles dialogam entre si? É por ter o país e a cultura brasileira como guia? Você acha que eles podem ser entendidos como um conjunto narrativo?

L: O grande conjunto narrativo disso é o fato de ser desenvolvido por mim porque todos eles são baseados no meu repertório de Brasil e isso já dá uma unidade. Mas de alguma forma, também, eu acho que tem muito do meu pensamento crítico. Então desde 2016, para falar sobre a Mangueira - mas posso afirmar que desde 2015, na Caprichosos -, eu sigo falando do Brasil que eu acredito. Em alguns momentos exaltando. E a escolha do tema que o exalta reflete, para mim, um pensamento crítico. Em outros momentos, me colocando, colocando a minha arte, meu trabalho e meu carnaval em defesa desse conteúdo artístico popular do Brasil, que é o que eu acho que fica mais evidente nos últimos dois anos (2018 e 2019). Isso no sentido de colocar o meu trabalho em defesa do Brasil e da cultura popular, mas que também já estavam presentes em 2016 e 2017, já eram impregnados disso.


C: Partindo para a estética, seu trabalho ficou muito marcado pelo uso de certos materiais e cores com as famosas plumas de acetato. Por mais que haja discordância, as pessoas reproduzem esse tipo de discurso a seu respeito. Em uma formatação estética de desfile de carnaval que já é tão consolidada, era sua intenção criar o tipo de uma linguagem própria ou isso se deu naturalmente?

L: Eu discordo totalmente disso porque eu tenho quatro carnavais – sem contar o próximo – e com quatro carnavais você não é nada, você não é ninguém. Não é o suficiente para você desenvolver uma linha estética, para tomar conhecimento do artista que você é. Não é nada. “Quatro carnavais” é uma condição numérica que só me permite fazer experiências, nada mais que isso. Só que hoje em dia existe uma necessidade absurda do rótulo, e estou muito longe de ser o artista que posso vir ou não a ser, sou apenas o rascunho do que posso me tornar. “Ficou marcado pelo uso das penas de acetato” é reduzir demais. Ano passado eu não usei as tais penas de acetato em nenhum esplendor. Mas será que porque em 2016 e em 2017 eu usei esse recurso, que dialogava para mim com aquele universo que eu estava trabalhando, é uma previsão de que daqui a dois anos estarei usando? A única coisa que eu sei a respeito do artista que eu sou agora, e eu gostaria de seguir com algumas coisas dele, é que eu tenho interesse de continuar falando daquilo que eu acredito. O “verde-água e rosa-bebê” fazia sentido para mim no ano passado, mas esse ano não faz.


C: Mas esses rótulos chegam ao seu conhecimento? Eles te influenciam de alguma maneira?

L: Chegam, as pessoas escrevem nas minhas redes sociais. Eu acho que é uma opinião. Vou dar um exemplo: em 2016, meu carnaval não tinha tons ditos “bebês”. Eu não acho que meu desfile daquele ano foi um desfile em tons pastéis; tinha tons metálicos, terrosos e ficava colorido no final. Claro que algumas combinações com rosa-bebê tinham. Em 2017, o ano do santo, eu acho que tinha um setor rosa, com nuances de rosa. Os outros eram brancos, o último era muito colorido, vermelho com amarelo, azul royal…. O meu carnaval mais bebê foi o último e de alguma forma as pessoas padronizaram meu trabalho assim. Elas tomam uma coisa pelo todo. Mas quando eu fiz 2016 e 2017 eu ouvi que eu era um carnavalesco que só fazia carnavais religiosos. Eu só fiz dois carnavais, mas disseram: “ele só faz carnavais religiosos”. Agora, por 2018 e 2019, eu sou o que só faz enredos críticos (risos) e no fim das contas eu sou o mesmo. É igual o cara que diz que a Rosa é barroca e o Renato é high tech.

"Quem faz o meu trabalho nunca viu um desenho, só no primeiro ano porque eu tinha que apresentar."

C: Falando sobre cor assim, ela parece um elemento fundamental para o seu o processo criativo.

L: Eu sou pintor!


C: Você parte da cor para pensar o todo? Você tem essa noção da primeira ala até a última ala, você faz um desenho de cores ou é de cada momento?

L: Cara, isso é um negócio muito doido, porque a minha construção artística é muito doida. Primeiro, ela não resulta da cartela cromática, não resulta mesmo. Eu fui assistente de carnavalesco durante muito tempo, então eu fiz. Alguns carnavalescos fazem isso; pegam azul, azul escuro, verde água, amarelo…. E desenvolvem tipo a escala cromática da escola e decidem a partir disso o que vão realizar. Eu não consigo fazer isso porque nas minhas escolhas eu estou muito mais preocupado em me agradar do que atender recursos estéticos. E aí, para eu me agradar, eu tenho algumas ferramentas. Uma ferramenta é a forma, outra ferramenta é a cor e outra ferramenta é a escolha dos signos do desfile. E as minhas escolhas todas são em cima disso: a forma, a cor e os signos.



Tudo é particular, mas os signos ganham um contorno mais particular. Por exemplo, em 2016, eu usei o rosto da minha ex-mulher como referência para construção das orixás do carro. Em 2017, eu usei como referência para construção do cristo-oxalá a obra de um artista que eu ganhei de presente no dia em que uma mãe de santo disse qual era o meu orixá de cabeça. Então as escolhas partem de eu olhar e me identificar. Aquilo registra quando eu quero fazer, por exemplo, o setor da umbanda de 2017, que são as escolhas das cores que eu vi e são cores muito longe das imagens que todo mundo tem a respeito de umbanda e candomblé. A cor é importante porque ela tem a capacidade de dar um simbolismo muito grande. O carnavalesco dos tons pastéis de 2018 era o carnavalesco, a pessoa, o humano que tem um entendimento romântico a respeito do carnaval.  E a escolha daquela cartela traduzia a minha interpretação de um carnaval nostálgico.


C: E como uma foto, ela era meio desbotada. De onde vieram esses tons?

L: Isso, que é como eu enxergo o carnaval. E eu sou uma pessoa que se emociona com o carnaval. O de escola de samba me emociona menos, mas o de rua me emociona muito e eu sou folião do carnaval de rua. Uma coisa engraçada a respeito disso é que ano passado eu queria fazer um encerramento apoteótico no desfile de 2018. Todo mundo quer encerrar de forma apoteótica e eu queria. Fiz o que eu achava que era apoteótico a partir das minhas escolhas. Aí eu encontrei, meses depois do carnaval, o Ricardo Lourenço e ele falou para mim: “olha, seu carnaval foi incrível, eu fiquei extasiado com o desfile da Mangueira, mas o final foi triste. Aquilo foi a coisa mais linda que passou naquela noite, mas era de uma melancolia… Era uma melancolia linda mas faltou o arrebatamento”. Eu fiquei com isso na cabeça. Fiquei pensando como a ideia de arrebatamento é diferente. Àquele final, eu fui buscar dentro de mim o que era a apoteose de um carnaval quanto à minha experiência, e a apoteose do meu carnaval sempre foi a Banda de Ipanema na porta da Igreja Nossa Senhora da Paz. Quando ela interrompe a sequência de marchas animadas e toca a sequência de marcha-rancho, porque o Pixinguinha morreu dentro da igreja, eles tocam “Carinhoso”. A partir de “Carinhoso” eles engrenam na sequência de marcha-rancho, como “Máscara negra”, “Bandeira branca”…. Aquilo para mim é apoteótico por causa da ideia da dualidade do próprio carnaval. Isso é inevitavelmente melancólico, mas em mim nunca soou como a melancolia da tristeza, sim como a apoteose da grandeza dos sentimentos. Eu acabei fazendo um encerramento com sabor de marcha-rancho, que era lindo, mas algumas pessoas não entenderam da forma que eu entendo. Se eu errei, eu não sei, mas é a minha verdade e eu prefiro prevalecer com a minha verdade.



C: Seu cotidiano influencia diretamente seu processo criativo… De que maneira você tem esse entendimento?

L: Total. A primeira coisa que eu resolvi foi abolir o projeto. Eu tenho um esboço do que eu vou fazer, mas nenhum funcionário meu trabalha com projeto. Hoje, cada vez mais, isso existe menos. Primeiro porque durante muito tempo eu fui refém do desenho e isso é horrível. Quem faz o meu trabalho nunca viu um desenho, só no primeiro ano porque eu tinha que apresentar. Todos os anos eu faço, mas eles não veem porque eu não dou a eles a oportunidade de interpretar porque quando você entrega um projeto – e o figurino é um projeto –, o modelista, o aderecista, o chapeleiro, o ferreiro…. Eles têm uma experiência vivida e eles costumam interpretar isso a partir dessas suas experiências. Quando eles não sabem o que é, eles estão reféns de mim, entendeu? Eles estão reféns da minha proporção, da minha escolha de material, de onde eu acho que a calça tem que apertar ou não, do tamanho da manga e da gola de arame que eu acho que tem que ter, da minha colocação de plumas…. Eles são reféns. Agora, a alegoria é na base do vai fazer. “Forra isso de verde, agora pinta”. A pessoa não sabe o que vai ter.


C: É uma forma de controlar todo esse processo…

L: Sim, é. Talvez seja por conta disso que se diga que eu consegui desenvolver uma assinatura em quatro anos, porque é meu mesmo, porque literalmente não passa na mão de ninguém.


C: Você consegue ter esse controle até sobre as fantasias que são feitas fora daqui?

L: Todas são feitas a partir do meu protótipo, como casal. Destaque menos, eu não sou chegado a destaque, embora eu ache que os meus são excelentes. Talvez eu não goste de destaque porque eles têm a condição de interpretar. Mas casal não, inclusive em 2017, a duas semanas do desfile, mandei tingir as penas todas de novo porque eu queria que a roupa fosse rosa bebê e ela estava fotografando salmão.


C: Qual é a importância disso? É centralizar? O que tem por baixo desse processo?

L: É me descobrir, eu preciso saber o artista que sou, o que sou capaz de fazer, o que é que eu sei fazer….


C: Isso tem a ver com o fato de você ter passado quase dez anos desenhando, porque de certa forma você não tinha controle sobre aquilo….

L: Nenhum controle, meu desenho estava submetido à interpretação do carnavalesco e aí não tinha a minha cara. Uma ou outra tem mais: Zico, Pará.


C: Falando agora sobre outro assunto que talvez more no seu processo. Você é um carnavalesco dito “da escassez”. Muita gente gosta de falar que você é um carnavalesco “barato”.

L: É, sou. Primeiro porque enxergo a atividade do carnavalesco como isso. Se for diferente disso é cinema, vai fazer cenografia de filme. Eu não faço isso, eu busco sempre olhar para o meu carnaval da maneira que eu fazia e faço ainda a roupa para ir brincar no Bola Preta. É a mesma coisa, para mim não tem diferença nenhuma. Se eu me distanciar muito disso, eu tô fazendo outra coisa. Essa interpretação, essa característica mambembe, do mal-ajambrado…. Eu acho meu carnaval de 2018 o meu melhor carnaval, mal-ajambrado, tudo remendado, eu acho lindo. Esse último carnaval que passou é o carnaval onde eu estou mais presente e que eu mais me diverti. Aquele último setor com fantasia de gorila, só com sobra de tecido do barracão, usar toalha, cortina, sabe? Era o que eu fazia para arrumar minhas roupas para brincar carnaval. Só que, claro, eu não peguei toalha; eu escolhi o tecido toalha, eu escolhi o tecido toalha de banho, o tecido toalha de mesa, escolhi caneca…


C: Falando dessa questão financeira, sempre temos essa frase: “não consegui fazer 80% do meu projeto inicial”.

L: Eu acho que essa é a pior frase que um carnavalesco pode falar. Eu lamento um carnavalesco falar isso porque eu sempre atinjo a totalidade do meu projeto pelo fato de que meu projeto não existe. Se eu tivesse um figurino com duzentas plumas e eu conseguisse fazer dez, eu talvez ficasse um pouco frustrado com isso, mas se eu não tiver pluma, também não tinha no projeto.

"Comissão de frente não é um quesito ligado a mim, eu faço questão de me distanciar porque eu acho que à frente dele tem um artista como eu, que tem liberdade e identidade."

C: O interessante dessa inexistência de projeto é poder sobrepor ideias ao longo do tempo, como daqui até o carnaval transformar algo….

L: Isso para mim é fundamental, se eu fechar o projeto perde a graça rápido. Eu mantenho meu projeto aberto.


C: Teve algum elemento de suas criações que só pensou às vésperas dos desfiles e que fez a diferença no seu carnaval?

L: O judas, no último desfile. Para esse carnaval agora, de 2019, eu mudei e mexi em muitas coisas. Passei por algumas situações pessoais e quis impregnar meu carnaval nessas situações. Pensei: “se eu olhar, vou lembrar, isso aqui foi por causa disso”.


C: Você diria que sua relação no barracão com os profissionais é o que define seu trabalho?

L: Eu tenho que estar (no barracão). Eles brincam que se eu não estiver aqui não tem trabalho. Falo “vamos resolver isso, agora faça dez desse aqui, agora esse...”.



C: Pensando no seu carnaval, a comissão de frente pode estar ou não ligada ao carnavalesco e ela foi o calcanhar de Aquiles dos últimos carnavais da Mangueira. Com a chegada do Rodrigo e da Priscilla, que são o grande gabarito desde 2010, cria-se a expectativa de “como será?”, por eles terem vindo de projetos espetaculosos. Como você acha que seus trabalhos se encaixarão?

L: No meu carnaval a comissão de frente não está ligada ao carnavalesco. Eu acho que a Priscilla e o Rodrigo são artistas contemporâneos, e o meu trabalho é todo em cima do universo contemporâneo também, eu não vejo essa distância. Talvez o processo seja diferente; eles estão acostumados com projetos juntos a outros artistas, não só o Paulo Barros. Comissão de frente não é um quesito ligado a mim, eu faço questão de me distanciar porque eu acho que à frente dele tem um artista como eu, que tem liberdade e identidade. Mas claro que sempre é feito em acordo comigo, tanto é que as comissões dialogam com meu trabalho, existe uma pertinência estética. Em alguns anos eu me meti mais, noutros menos…. Acho que esse ano estaremos bem.


C: Mudando de assunto, de que maneira você acha que o sucesso de seu trabalho está relacionado a uma crise identitária das escolas de samba?

L: Eu só sou o carnavalesco da Mangueira porque as escolas passam por uma crise de identidade. Ninguém nunca vai conseguir me enganar dizendo que eu só me tornei o carnavalesco da escola em 2016 porque meu trabalho era maravilhoso. Eu me tornei porque o carnaval passa por uma crise, os profissionais estão caros e eu era o carnavalesco mais barato disponível naquele momento. Foi a crise que me revelou e continua me revelando. A dificuldade que as pessoas dizem ter de fazer carnaval sem dinheiro existe para quem experimentou um dia fazer carnaval com dinheiro.


C: Você acha então que seus enredos são um tipo de resposta a esse momento em que as escolas estão esvaziadas simbolicamente?

L: É uma preocupação minha não para as escolas de samba, mas para o que elas são e o que devem permanecer sendo.  Eu acho que a escola de samba deve fazer escolhas para assumir a identidade popular mesmo, falar do Brasil. Não o Brasil genérico, mas daquele que acredito; regional, original.


C: O que é o Brasil para você a partir de uma imagem?

L: O Brasil é o povo do Morro da Mangueira. O Brasil é o funk, o samba, a mulher negra, o homem negro, a criança, o idoso, o evangélico. É o umbandista e o candomblecista de lá, é o povo da Mangueira.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

#10YearsChallenge - Desafio dos 10 anos do carnaval do Rio


A internet se movimentou nas últimas horas para fazer o desafio dos 10 anos. Relembrar como você era 10 anos atrás e comparar com quem você é hoje é uma provocação que pode ser difícil para muitas pessoas. 

Alguns famosos caíram na brincadeira, que viralizou com as fotos antigas - geralmente bem vergonhosas - e as atuais do pessoal. O Carnavalize não queria deixar as escolas de samba fora dessa e fez um comparativo entre as agremiações do Grupo Especial do Rio de Janeiro no ano de 2009 e com as projeções e realidades para o carnaval de 2019.

Como será que estavam as escolas 10 anos atrás? Quem vivia bons e quem vivia maus momentos? Confiram!


1- Beija-Flor de Nilópolis



Em 2009, a azul e branca nilopolitana celebrava um vice-campeonato - por pouco não foi tricampeã - com um enredo sobre os banhos. Além de cheiro, de arruda e de gato, a agremiação também teve banho de notas 10 nesse carnaval e nos subsequentes. Há 10 anos, a Beija-Flor tinha nomes que até hoje estão na agremiação, como Neguinho e Selminha e Claudinho. 

Já em 2019, assim como em 2009, a agremiação também desfilará no posto de campeã do carnaval, agora com um enredo homenageando seus 70 anos de história! Além disso, não conta mais com o diretor de carnaval Laíla, e nem com nomes como Fran-Sérgio para a comissão de carnaval. Marcelo Misailidis e Cid Carvalho encabeçam a parte artística da agremiação. 


2- Paraíso do Tuiuti



Paraíso do Tuiuti é, sem dúvidas, a escola que mais variou nesse comparativo! Dez anos atrás, a azul e amarelo de São Cristóvão estava no Grupo A, então organizado pela extinta Lesga, e cantava o famoso Cassino da Urca, local onde já se apresentaram diversos artistas, como Carmem Miranda, Grande Otelo e Emilinha. O local também já foi sede da TV Tupi e de hotéis e hoje abriga o IED (Istituto Europeo di Design) - no qual Maria Augusta e Leandro Vieira já deram cursos relacionados à arte carnavalesca. A agremiação terminou em sétimo lugar, preparando o terreno para seu rebaixamento no ano seguinte. O presidente Thor já estava à frente da escola, que era assinada pelo carnavalesco Eduardo Gonçalves.

Para o carnaval que se aproxima, o panorama é completamente diferente. Tuiuti pisa na pista como atual vice-campeã da elite carioca, após um desfile histórico, e promete mexer com o povo por meio de um ótimo samba-enredo. O carnaval é assinado mais uma vez por Jack Vasconcelos, que se propõe a contar a história do Bode Ioiô, eleito vereador em Fortaleza, em um enredo instigante. 

3- Acadêmicos do Salgueiro



Há 10 anos atrás, o Salgueiro ganhava seu nono campeonato com o marcante desfile “Tambor”. Ao adentrar na história da percussão e do instrumento, a tijucana conquistou o coração do público, da crítica e do júri e teve um justíssimo campeonato capitaneado pela originalidade de Renato Lage. Foi o primeiro título da agremiação desde o famoso “Explode coração” - "Peguei um Ita no Norte" -, de 1993, e o primeiro desfile com Regina Celi na função de presidente.

Dez anos depois, o Salgueiro traz mais um grande enredo - Xangô -, conta com um ótimo samba, mas apresenta uma instabilidade jurídica que, dizem, pode voltar a mexer com as estruturas da agremiação. Até então, Regina Celi não é mais a presidente da escola. Além disso, Hélio e Beth Bejani e Renato e Márcia Lage, que ficaram na agremiação durante um grande intervalo de tempo e estavam à frente dela no campeonato de 10 anos atrás, não estão mais nos comandos da comissão e da estética do Salgueiro. Agora, Sérgio Lobato e Alex de Souza, respectivamente, assumem essas responsabilidades. Será que a escola demorará os mesmos 16 anos para levantar novamente a taça e só se consagrará campeã em 2025? 

4- Portela



A azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira teve uma grande ascensão de 2009 para 2019. No último ano da década passada, ao cantar na avenida um samba sobre o amor, a Portela até terminou o desfile, assinado por Lane Santana e Jorge Caribé, em uma honrosa terceira colocação. Não possuía, no entanto, grande destaque entre as coirmãs, e estava em um período com um histórico de sambas e enredos tímidos. Além disso, o controverso Nilo Figueiredo era o então presidente da Águia altaneira. 

Para o carnaval de 2019, a agremiação vem com uma confiança muito maior do que de dez anos atrás, por conta de seus ótimos sambas e enredos recentes e do título finalmente reconquistado em 2017, após décadas sem faturar o ponto mais alto do pódio. Agora sob comando de Luis Carlos Magalhães na diretoria e sob responsabilidade artística da professora Rosa Magalhães, a Portela se prepara para homenagear um de seus ícones: Clara Nunes. O enredo é desejado há anos por seus integrantes, que prometem cantarolar com força seu bom samba. 


5- Estação Primeira de Mangueira



A Estação Primeira terminou o carnaval de 2009 com o Estandarte de Ouro de melhor samba-enredo, com uma comunidade pulsante e com um dos mais importantes casais de mestre-sala e porta-bandeira da época, Marquinhos e Giovanna, coroado pelo júri. No entanto, seu desfile em homenagem à formação do povo brasileiro, do polonês Roberto Szaniecki, foi marcado por dificuldades financeiras altíssimas, sendo terminado às curvas da Marquês de Sapucaí. No carro de som da verde e rosa, Luizito - falecido em 2015 - dava voz ao guerreiro samba.

Para o carnaval que chega, a Mangueira se encontra em outra fase. Não só um grupo assumiu a responsabilidade de gerir a escola e pagar suas dívidas, como também Leandro Vieira desponta, sendo um dos nomes mais marcantes da narrativa e da plástica mangueirense. O carnavalesco, pelo quarto ano consecutivo, promete um desfile cativante, agora exaltando as histórias que a História não conta, as figuras marginalizadas pelos livros e pelo ensino convencionais. Na comissão de frente, será a primeira vez que os talentosos Priscilla Mota e Rodrigo Negri participam da agremiação. Assim como em 2009, a escola conta com um fortíssimo samba e um casal de mestre-sala e porta-bandeira de raiz mangueirense; Squel Jorgea e Matheus Olivério, respectivamente neta e filho de Xangô da Mangueira. 

6- Mocidade Independente de Padre Miguel



A Mocidade é outra agremiação que vivia uma época muito diferente em 2009. Com um péssimo desfile inspirado nos gênios da literatura brasileira Guimarães Rosa e Machado de Assis, a escola estava sob comando do polêmico presidente Paulo Vianna. O desfile, criado por Cláudio Cebola, contou com pontos positivos, mas sofreu com a forte crise financeira e administrativa que percorria a agremiação. A estrela-guia de Padre Miguel terminou em penúltimo lugar e por pouco não foi rebaixada. 

Agora sob comando de outros profissionais e diretores, a agremiação enfrenta uma fase mais tranquila e estável, de dois bons carnavais consecutivos - um deles campeão - que tiveram dois ótimos sambas. Em 2019, conta com mais uma boa composição e com Alexandre Louzada concebendo seus desfiles, além de Jorge Teixeira e Saulo Finelon responsáveis pela comissão de frente e Wander Pires pelo carro de som. 

7- Unidos da Tijuca



Em 2009, a Tijuca fez um enredo sobre o espaço e o que se passava acima das cabeças da humanidade. De deuses e ET’s às Jornadas nas Estrelas, o criativo desfile teve Lucinha e Rogerinho como casal de mestre-sala e porta-bandeira e foi assinado por Luiz Carlos Bruno, também diretor de carnaval, logrando à escola a nona colocação daquele carnaval. 

Já em 2019, Fernando Horta continua à frente da agremiação, que agora é tetracampeã. Pela primeira vez, Laíla assume a direção de carnaval da agremiação, e também compõe a comissão de carnaval, ao lado de Annik Salmon, Marcus Paulo, Hélcio Paim e Fran-Sérgio. Assim como Fran e Laíla, Jardel Lemos é estreante no pavão e é responsável por sua comissão de frente. Nos microfones, o experiente Wantuir retorna à escola do Borel após alguns carnavais afastado. Ele cantará o samba-enredo que exalta o pão como forma primordial de alimentação. 

8- Imperatriz Leopoldinense 



Há dez anos atrás, a Imperatriz entrava na avenida com o último carnaval da professora Rosa Magalhães na agremiação. Aproveitando a proximidade de seu cinquentenário, a agremiação mostrou que Ramos também faz samba cantando a história da Imperatriz e de entidades como Fundo de Quintal e Cacique de Ramos. O desfile terminou no sétimo lugar. 

A agremiação continua frequentando zonas medianas na tabela. Agora com Mário e Kaká Monteiro como carnavalescos, a diretoria da escola e a diretoria de carnaval se mantêm as mesmas, sob comando de Luiz Pacheco Drumond e Wagner Araújo. Para 2019, propõe outra pegada de carnaval, mais descontraída e ácida, com o enredo “Me dá um dinheiro aí”. 

9- Vila Isabel



No carnaval de 2009, a Vila Isabel celebrava o centenário do Theatro Municipal em um imponente desfile assinado por Alex de Souza, com participação de Paulo Barros - que somou à equipe já durante o processo de criação do desfile. O ótimo carnaval da agremiação tinha samba assinada por André Diniz - em parceria com Serginho 20, Artur das Ferragens e Leonel - e cantado por Tinga. 

Para 2019, a escola retorna a nobreza de seus temas ao homenagear a cidade de Petrópolis, em busca de conseguir novamente patamares mais altos. Tinga também estará cantando pela agremiação após um período afastado e André Diniz também participa da autoria do samba-enredo. Com outra diretoria, Edson Pereira é o carnavalesco da agremiação após uma premiada temporada assinando desfiles na Série A. Na comissão de frente, Patrick Carvalho volta a agremiação, realizando seu segundo trabalho. Além disso, a porta-bandeira Denadir assume o pavilhão da agremiação do bairro de Noel.


10- União da Ilha



Em 2009, a União da Ilha desfilava no então Grupo A e tinha como carnavalesco Jack Vasconcelos, que realizou um carnaval sobre viagens. Pegando carona no tema, com passagem só de ida ao Grupo Especial, a escola foi campeã do acesso há 10 anos e desde então se mantém na elite. O presidente da agremiação, na época, era Ney Filardi.

Agora dirigida por Djalma Falcão, a agremiação mantém Ito Melodia como intérprete. Para 2019, conta novamente com o renomado figurinista televisivo Severo Luzardo para realizar um enredo em homenagem ao estado do Ceará, a partir das obras de Rachel de Queiroz e José de Alencar. Com um samba não tão festejado, a Ilha tenta garantir o retorno ao sábado das campeãs - que não ocorre desde 2014. 

11- São Clemente



Outra escola que estava no acesso há dez anos atrás, a São Clemente tinha como carnavalesco Mauro Quintaes, e Leonardo Bessa como intérprete. O divertido enredo homenageava um dos principais artistas e nomes do circo brasileiro: Benjamin de Oliveira. A preto e amarelo terminou aquele carnaval em quarto lugar, preparando-se para ser campeã do grupo no ano seguinte e ascender ao Grupo Especial.

Para o carnaval que se aproxima, a São Clemente continua sob a chefia da família Almeida Gomes, e apostando em uma reedição de um de seus carnavais mais festejados! “E o samba sambou” traz de volta uma crítica ao destino que as próprias escolas de samba estão contextualizadas, agora atualizada sob a perspectiva do carnavalesco Jorge Silveira. A televisão, os diretores, o troca-troca, os camarotes; tudo será alfinetado. O microfone está sob responsabilidade de Leozinho Nunes, Bruno Ribas e Larissa Luz, e a expectativa para o retorno da porta-bandeira Giovanna para o carnaval - agora ao lado de Fabrício - é grande. 


12- Acadêmicos do Grande Rio



Em 2009, a Grande Rio tinha a estreia de Cahê Rodrigues como carnavalesco da caxiense em um enredo em homenagem à França. Repleta de luxo e de expressões francesas - merci beaucoup, Carnavalizé! -, a tricolor faturou o quinto lugar com microfones nas mãos de Wantuir, e pavilhão sob responsabilidade de Squel e Sidclei.

Dez anos se passaram e a agremiação continua com os mesmos nomes à frente de sua diretoria - Perácio, Helinho e Jaider Soares - e se mantém como grande frequentadora do sábado das campeãs, mas ainda não conquistou seu sonhado caneco. Agora com Renato e Márcia Lage, a agremiação traz um enredo intitulado “Quem nunca...? Que atire a primeira pedra”, após uma polêmica virada de mesa que capitaneou após ser rebaixada no carnaval do ano passado. Evandro Malandro estreia como voz principal do carro de som e Daniel Werneck e Taciana Couto estreiam como primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Grande Rio. 


13- Império Serrano



Após faturar o caneco do Grupo A em 2008, o Império festejava seu retorno ao Grupo Especial em 2009, com uma reedição do histórico “A lenda das sereias e os mistérios do mar”, então assinado pela carnavalesca Márcia Lage. A agremiação não conseguiu se firmar entre as doze do grupo e acabou retornando para o Acesso. 

Em 2019, a escola também abrirá os desfiles de domingo e continua no grupo após a virada de mesa já descrita, que também privilegiou o Império. Com o objetivo de não sofrer do mal do rebaixamento como há 10 anos atrás, a agremiação aposta na transformação da famosa canção de Gonzaguinha “O que é, o que é?” em samba-enredo para trilhar seus caminhos. A ideia surgiu do carnavalesco Paulo Menezes, responsável pelo desfile da agremiação. 


14- Unidos do Viradouro



No carnaval de 2009, a Viradouro tinha o enredo “Vira-Bahia, pura energia”, de Milton Cunha, como chave para defender suas cores no Grupo Especial, onde já se encontrava desde 1991. O enredo cantava entidades, orixás, ingredientes de comidas típicas, combustíveis e demais elementos associados à cultura baiana. A agremiação de Niterói conquistou a oitava colocação naquele ano. 

Dez anos se passaram e a Viradouro procura a estabilidade de seus desfiles e de seu posicionamento na elite da folia, entre idas e vindas. Agora com Paulo Barros, a agremiação traz o imaginativo tema “ViraViradouro” para a Sapucaí, e está investindo fortemente em seu carnaval. Com Zé Paulo Sierra no microfone e Alex Fab e Dudu Falcão como diretores de carnaval, as expectativas são fortes para a agremiação que acabou de subir da Série A, ainda reforçada pelo casal Ruth e Julinho e o coreógrafo Alex Neoral.