segunda-feira, 15 de outubro de 2018

#SérieSambas: 7 sambas antológicos do carnaval paulistano

Por Alisson Valério e Leonardo Antan

A #SérieSambas faz um passeio pelo universo do gênero que embala os desfiles das escolas, desdes os clássicos, passando pelos grandes intérpretes e compositores. Os textos saem sempre as segundas e quintas de outubro. Fique ligado!



Voltar no tempo e recordar grandes sambas que marcaram a história no samba paulistano é sempre um prazer, mas pode ser também uma nova oportunidade para conhecer e se apaixonar por canções que você talvez nunca tenha ouvido ou não saiba da existência, mas não ficam devendo em nada em poesia e beleza. O interesse pelo carnaval de São Paulo cresce a cada ano, mas pouco se conhece ainda sobre a história dos desfiles da Terra da Garoa, suas apresentações e sambas mais marcantes antes da virada do século XXI. 

Como a gente espera que todo mundo já tenha aprendido que São Paulo faz samba também, e muito bem, a gente separou uma lista de sambas clássicos e belíssimos da folia desde antes do Anhembi. Vamos passear por sambas de diferentes escolas, anos, enredos, estilos e muito mais. E aí, será que você conhece todos os sambas desse texto?  Se não conhece, venha em São Paulo para ver...

Colorado do Brás 1988 – Quilombo Catopés do Milho Verde

"Me abraça e faz as peles mais unidas 
Que beleza
Não criou raça, 
Deus apenas criou vidas"



"Quilombo espalhou suas raízes, e fez sua semente germinar, em ricas terras mineiras, do milho verde vem o canto pelo ar..." Se no Rio de Janeiro, o centenário da suposta "abolição da escravatura" rendeu obras também inesquecíveis, em São Paulo não foi diferente. Se por si só, enredos sobre a história do povo africano já apresentam uma força peculiar por toda a história vivida por eles, imagine num ano especial como esse. 

A trajetória de luta por liberdade e sofrimento pelo simples fato de ser diferente do que se julgava ser normal na época (e infelizmente até nos dias de hoje) é uma mancha na história desse país, mas se tem algo que esse samba conseguiu imprimir é a felicidade do povo negro em forma de letra e melodia. Porque sim, apesar de todo sofrimento vivido eles, nunca perderam essa essência de ser felizes, de cantar, dançar e de manter viva a esperança de dias melhores. A letra dessa obra composta por Dom Marcos, Edinho, Rona Gonzaguinha e Xixa passeia de maneira emocionante pelo movimento da diáspora, trazendo o cotidiano dos escravos na plantação e sua resistência através das manifestações culturais, fazendo por fim um clamor pelo fim do preconceito.


Rosas de Ouro 1992 - "Non Ducor Duco", qual é a minha cara?

"Meu sabiá, ô ô ô ô 
Soltou o trinar, cantou, cantou
Deu um show na passarela
Levantou a galera
Bateu asas e voou..."



"Bom é recordar, bom demais." Assim se inicia um dos sambas mais especiais e tradicionais da Sociedade Rosas de Ouro em sua história no carnaval paulistano. O enredo em homenagem a São Paulo, especialidade da casa nessa época, embalou um dos principais e mais lembrados títulos da agremiação. O samba tem toda uma cadência especial ao falar da capital, contando o enredo em forma de uma declaração de amor ao seu lugar, relembrando a nostalgia de coisas que se perderam no processo de evolução da cidade, de pequeno vilarejo a uma das maiores cidades do país.

A letre, composta por João do Violão e Miltinho, passeia ainda pelos principais logadouros do lugar, tendo tom crítico ao já avisar da poluição que atingia a metrópole, tanto no verso "o ar, cadê meu ar?" e idealizando um futuro melhor para o famoso rio da cidade: "Tietê, quero um dia beber você". Toda a bela poesia foi entoada por uma performance marcante de Royce do Cavaco, o sabiá da Roseira. O sabiá deu um show na passarela, levantou a galera, bateu asas e voou para um lugar especial na memória do sambista....    

Gaviões da Fiel 1995 - Coisa boa é para sempre

"Me dê a mão, me abraça
Viaja comigo pro céu 
Sou gavião, levanto a taça
Com muito orgulho pra delírio da Fiel"


Você achou que São Paulo não tinha o seu "Ita"? No melhor estilo de animação e empolgação do lendário hino salgueirense, lhes apresentamos um dos maiores sucessos do carnaval de São Paulo.  É um daqueles sambas que caíram no gosto popular de cara, se tornando famoso antes mesmo do carnaval, sendo cantado pela arquibancada antes, durante e depois do desfile - e até os dias de hoje nos estádios de futebol. 

A letra, composta por Grego, além de leve, divertida e festiva, te leva a relembrar e viajar pelo universo infantil, dos tempos de criança, não deixando de lembrar os antigos carnavais e a celebrar a Gaviões da Fiel que celebraria 25 anos no carnaval daquele ano. A canção fez tanto sucesso que rompeu as barreiras do Anhembi e foi regravada pelo mestre Jamelão, num belo gesto de valorização do carnaval paulistano por um dos maiores intérpretes do país. E como diz o mesmo: o que é bom pra sempre fica guardado na memória....  

Leandro de Itaquera 1989 – Babalotim: a História dos Afoxés

"Ô, ô,ô... Eu vim de longe, cruzei mares, quem diria
Ô, ô, ô... Sou afoxé irradiando energia"



Este é aquele samba clássico da história do samba paulistano, se você ainda não conhece essa obra-prima, agora é uma ótima oportunidade. Um samba-enredo irresistível de ponta a ponta, com refrães deliciosos e que te convidam a cantar e sambar. A letra é de beleza e poesia ímpares, o que engrandece ainda mais a obra. Brilhantemente interpretado por Eliana de Lima, o hino fez muito sucesso antes mesmo do desfile e na hora da apresentação oficial mobilizou as massas presentes, comandado não só pelos vocais marcantes da lendária interprete paulistana, mas pelo público presente na Avenida. 

A obra composta por Thiago Lee, Grupo Relíquia, Sandrinha e Clarice é mais uma a contar a história da diáspora africana da maneira mais valente e poética possíveis, sendo coroada por um dos refrões mais inesquecíveis da folia paulistana, o que fez toda diferente a ajudar em eternizar essa canção. O marco de Babalotim foi tão forte na história da Leandro de Itaquera e do carnaval paulistano que foi recentemente reeditado pela agremiação. Axé, Babalotim!


Vai-Vai 1998 – Banzai Vai-Vai

"Me beija na boca, amor 
Me faz um chamego eu quero sentir
Balançando a massa, é Vai-Vai que passa 
Sacudindo o Anhembi"



Achou que ia faltar a escola mais tradicional e conhecida do carnaval de São Paulo? Achou errado! E pra isso, apresentamos mais um grande sucesso popular e que literalmente "sacudiu o Anhembi". É bem verdade que o Vai-Vai, como a escola popular e vitoriosa que é, coleciona uma discografia das mais revelantes e marcantes do carnaval brasileiro como um todo. Mas essa composição de 1998 tem sua força especial por vários motivos. É aquele samba com a essência do componente do Bixiga, com aquele jeito Vai-Vai de ser. 

A letra composta por Zeca, Zé Carlinhos e Afonsinho é um xodó da agremiação da Bela Vista, sendo o samba entoado em todos os ensaios e em todas as apresentações nas quadras das coirmãs. E como todo samba antológico que se preze, teve um intérprete que emprestou a força necessária aos versos da obra para eternizá-los, e nesse caso foi o inesquecível Thobias da Vai-Vai. A obra relatou com perfeição o enredo que levou o Criolé, mascote da escola, numa viagem pelo Japão, desenvolvido pelo carnavalesco Chico Spinoza, que fez história na alvinegra. 


Cabeções da Vila Prudente 1981 - Do Iorubá ao reino de Oyó

"Xangô Ô Ô Ô Ô
Valei-me meu pai, valei-me Xangô"


Esse talvez seja o samba menos comentado da lista, de uma escola menos conhecida ainda, mas não por isso menos belo e marcantes ao ouvir a primeira vez. A Cabeções de Vila Prudente teve uma trajetória curta e com apenas duas passagens no Grupo Especial até agora, mas em 1981 deixou sua marca no samba paulistano, mesmo amargando um décimo lugar no grupo principal daquele ano. A escola que recentemente voltou à ativa após enrolar a bandeira nos brindou com esse hino da folia nacional e que se tornou um clássico.

Sambas de enredo sobre orixás são sempre especiais pela sua força ancestral, e com esse não poderia ser diferente ao contar a história de Xangô, o rei africano que se tornou divindade nas religiões afro-brasileiras. Apesar de curta para os padrões atuais, a letra composta por Dom Marcos não deixa faltar beleza e força em seus versos, cumprindo muito bem sua função de emocionar e inspirar. Valei-me meu pai, kaô!  


Camisa Verde e Branco 1982 - "Negros maravilhosos, Mutuo Mundo Kitoko"

"Ôô, ôô, a nossa escola
Enaltece a negra gente
Que nunca ficou chorando 
Sempre viveu cantando, fingindo contente"




"Achei uma bola de ferro, presa a ela uma corrente, tinha um osso de canela, deu tristeza em minha mente..." O que esperar de um samba que já começa dessa forma? É uma baita de uma pedrada na alma. Ao contar a dor da diáspora, o samba-enredo da Camisa Verde e Branco de 1982 evoca belas imagens da dor e sofrimento do trânsito entre África e Brasil. Chegando até os dias de hoje, o samba faz um verdadeiro clamor por igualdade racial, além de uma justa exaltação ao povo negro. 

A obra composta por Ataíde tem um refrão principal duplo, que dá um toque muito singular ao samba, sem falar que ele em sua totalidade é bastante valente em forma de letra e melodia. Exaltando a importância da negra raça também na contemporaneidade, a marcante canção deixa uma pergunta que até hoje ecoa na nossa sociedade: "Não nos leve a mal / Por que só no triduo de Momo/ Que o negro é genial?." Afinal, "negro paga imposto, negro vai a guerra, negro ajudou a construir a nossa terra..."

1970 - Desfile de carnaval no Vale do Anhangabaú.

Relembrar sambas antológicos do Carnaval é sempre um passaporte para uma viagem no tempo, seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Listá-los é sempre tarefa árdua e que presume uma seleção, que com certeza não agradará a todos. Entretanto, são diversos os sambas que poderiam também estar presentes nessa lista, obras como: Gaviões da Fiel 1994, Mocidade Alegre 1980, Vai-Vai 1982, Nenê de Vila Matilde 2002 e muitos outros. 

Seja exaltando a beleza e a importância do povo negro, seja passeando pelos velhos tempos e por continentes distantes, o samba paulistano tem sua riqueza e importância na cultura nacional. Afinal, seu carnaval é também patrimônio da nossa gente. Esperamos que tenham curtido os sambas, que tenham descoberto novos hinos favoritos e que se aventurem a pesquisar e conhecer mais sobre a história do Carnaval de São Paulo. Até a próxima!   

domingo, 14 de outubro de 2018

"Enquanto há a possibilidade de democracia e fascismo, a Mangueira fez sua escolha" por Felipe Tinoco

A Estação Primeira de Mangueira é tão grande que nem cabe explicação. O portelense Paulinho da Viola sintetizou bem a dimensão que a instituição cultural verde e rosa tem para si, diante de sua relevância para o carnaval e para o Rio de Janeiro. Cabe abrir, porém, exceções e tentar compreender e explicar as envergaduras da escola e da escolha de seu hino para o carnaval de 2019, definido sob quadra lotada na madrugada do último domingo, já dia 14 de outubro.

(Crédito: arte do logo oficial da escola adaptado para a capa desta matéria)


“História para ninar gente grande” é o tema autoral do carnavalesco Leandro Vieira para o desfile do ano que vem, propondo-se a exaltar outra faceta do país senão aquelas contadas nos livros de educação convencional, senão uma história que é majoritariamente branca, europeia, caucasiana, masculina, machista e normativa. Assim, uma história que demonstra a possibilidade de se conhecer Dandara e Luísa Mahin, mulheres negras fundamentais à luta abolicionista e contra a escravidão. História que revela os Malês, escravos negros de ascendência islâmica que proporcionaram uma revolta decisiva para o Brasil. Que exalta os índios Tamoios. Uma parte do país que enaltece os Cablocos de julho, símbolos da guerra tramada pela independência do país à nação lusitana, e os que resistiram aos anos de ferro como chumbos de tão fortes. E Marielle Franco, a personificação da luta pelos Direitos Humanos e por uma sociedade igualitária e emancipatória, vereadora negra, da favela, executada em 14 de março, com uma investigação que até hoje não achou quem mandou matá-la, nem quem matou Anderson e a vereadora.

Luiz Antônio Simas é historiador e escritor sobre o país, o Rio, o cotidiano, o samba, as macumbas e a folia - e tudo isso junto. Por isso, compartilha da visão e do discurso do Brasil que a Mangueira se dispõe a conceber e realizar. Para ele, a escolha da agremiação foi acertada:

“A vitória desse samba é uma prova que escola de samba é uma instituição que, ao mesmo tempo que negocia, resiste. Foi um samba que fugiu ao controle da própria Mangueira porque ele ultrapassou o limite da escola, ganhou as redes sociais, ganhou os fãs de samba-enredo e os fãs de MPB”, comenta.

Simas explana a ideia de que a excelência da obra não passa apenas por sua perspectiva social e política, mas também por sua riqueza como samba de enredo, denominando-o como brilhante. Lembra, também, das questões da torcida:

“Foi uma torcida espontânea. Nesse sentido, ele era um samba tão melhor que acabou se impondo à própria lógica das disputas. Tomara que ele seja uma referência. Nós temos hoje um grande samba, e esse samba é o pulo de virada para o carnaval 2019”, observa.

Perguntado sobre sua influência na temática da escola, Simas comenta que é amigo do Leandro e que dialogam, mas que o enredo e a perspectiva são do carnavalesco, descrito por Simas como um “intelectual do Rio de Janeiro e do Brasil da maior relevância”.

Leandro, à frente da Mangueira nos três últimos carnavais, é o responsável pela criação da sinopse e de toda estética da agremiação. Para o carnavalesco, o enredo tem muito a dizer, também, sobre a conjuntura do país:

“Se houver Brasil depois das eleições do segundo turno, o enredo da Mangueira é um enredo que dialoga com esse cenário. Ele seria o contrário do que chega ao poder”. E acrescenta: “Um país que não conhece sua história, ou ele repetirá a história ou ele não encontrará representatividade nunca na história que é contada. O enredo da Mangueira é um enredo de representatividade, um enredo que quer eleger pessoas, que quer eleger heróis populares, quer dar representatividade a alguma lutas, principalmente a lutas individuais”.

Leandro também exalta que o tom de tristeza não está presente no seu enredo, embora boa parte dos heróis homenageados tenham sido assassinados:

“É um olhar apaixonado para isso, é um protesto com alegria, não é um protesto triste”, diz. O artista conclui falando que o enredo “quer mostrar que a luta vale a pena, quer mostrar um Brasil que vale a pena, um Brasil que se orgulhe do Brasil. E um Brasil que possa lutar, um Brasil que possa resistir. A importância do enredo da Mangueira para esse cenário é mostrar que lutou, independente se a luta tenha dado certo ou não. Mas que houve alguém que tenha lutado”.

Enquanto o discurso de Luiz Antônio Simas é comprometido em exaltar outra faceta do país e enquanto Leandro Vieira criou “História para ninar gente grande”, Deivid Domênico é um dos autores da obra que tanto chamou atenção à verde e rosa. O compositor também observa a importância do posicionamento da Mangueira no olhar histórico:

“Em 1988, a Mangueira já falava sobre a realidade ou a ilusão sobre a escravidão. O Leandro propôs um enredo muito pertinente pro momento do país, que vive um momento muito odioso. E a gente sabia que a gente precisava ter muito cuidado para fazer esse samba porque a gente precisava falar de coisas sérias, de verdades que não foram ditas. Alertar que a História se repete, e que se a gente não tomar cuidado ela se repetirá, mas de uma maneira delicada, fraterna”, revela.

Além disso, acerca da necessidade de disseminar consciência de classes entre a sociedade, Domênico diz que “o samba, como instituição, é resistência, e precisa alertar isso; é a função dos artistas, é a função dos sambistas, é a função do carnavalesco Leandro Vieira, que é, pra mim, o maior inspirador disso tudo que está acontecendo”.

Mais do que a narrativa adotada nos discursos de Simas, mais do que a criação do enredo e do samba por Leandro e Domênico, o maior recado da noite de ontem está na escolha do samba pela Mangueira. Movida por apoio de formiga, de torcedor a torcedor, pelo reconhecimento de identidade por parte dos corpos que estavam ali presentes e dos avatares que disseminaram a mensagem e a qualidade do samba pelas redes sociais - em tempos que avatares propagam fakenews, correntes e boatos para tentar favorecer candidatos e mudar os rumos das eleições. Os corpos e os avatares fizeram a Mangueira escolher o samba que cita nominalmente as figuras que serão exaltadas, o samba de uma parceria não-hegemônica, o samba que pode ser fortemente adaptado à situação em que se colocam o país e o estado do Rio de Janeiro. O povo de lá clama, assim, que os corpos e os avatares escolham o ziringuidum da democracia no segundo turno. Sabem o retrato que quer ver no Brasil e nas urnas. 

E a agremiação faz ecoar, também, Marielle. Presente. Eternizada na história verde e rosa e na história da verde e rosa, no enredo da Mangueira. Hoje e sempre.

Ouça a gravação da parceria vencedora:

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

#SérieSambas: Perderam, mas levaram: sambas marcantes que não venceram as disputas

Por Alisson Valério, Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieSambas faz um passeio pelo universo do gênero que embala os desfiles das escolas, desdes os clássicos, passando pelos grandes intérpretes e compositores. Os textos saem sempre as segundas e quintas de outubro. Fique ligado!




Outubro é a época final das esperadas disputas de samba do grupo especial, tempo em que a maioria dos hinos que desfilarão na Sapucaí estão escolhidos e prontos para a gravação do CD. Como bons apaixonados e foliões que contam os dias para a folia, durante o processo é praticamente impossível não ser identificar com aquela ou outra parceria concorrente que laça nossos corações e nem sempre ganham, deixando um gostinho de quero mais. Afinal, não existe em outro lugar do mundo, um festival de música que acontece todo ano e produz milhares de obras em disputa para várias deles serem esquecidos logo depois... Já parou pra pensar?

A sorte é que algumas dessas obras acabam encantando os foliões e permanecendo no imaginário momesco. Quem disse que amor de carnaval acaba se engana, pois o Carnavalize selecionou alguns queridinhos de diversas disputas do Rio e também de São Paulo que perderam a taça mas ganharam um espacinho em nossas vidas. Destacamos que respeitamos ao máximo todas as parcerias que saíram vitoriosas dos anos citados e saudamos os compositores. A intenção é exaltar a nossa variedade e relembrar compositores que escreveram bem seus nomes nas histórias de suas próprias escolas, afinal, todos já são vitoriosos. 


 Vila Isabel 1974 (Martinho da Vila)

"E o índio cantou
O seu canto de guerra
Não se escravizou
Mas está sumido da face da terra"



Conhecida pelo seu natural engajamento à esquerda, a Vila Isabel de Martinho da Vila sempre deu um jeito de mostrar sua melhor face subversiva durante a ditadura civil militar brasileira. O samba em questão, do próprio Martinho, ficou marcado não só pela qualidade, mas pela sabotagem que sofreu durante o processo de escolha da disputa, já que foi cortado por pressão de censores. Por eles, também, a linhagem do enredo sofreu alteração e teve que exaltar os feitos do regime. Anos depois, Martinho contou a história em seu livro e o cantou em diversas entrevistas televisionadas, inclusive ao apresentador Jô Soares, resgatando assim a obra, com versos fortes e de fato engajados para o auge do limite militar. 


Império Serrano 1975 (Acyr Pimentel e Cardoso)

"Um trem de luxo parte
Para exaltar a sua arte
Que encantou Madureira
Mesmo com o palco apagado
Apoteose é o infinito"



Outro samba que se eternizaria fora das avenidas viria de Madureira. O Império Serrano teve uma escolha de samba histórica para escolher a obra que representaria o enredo sobre a vedete Zaquia Jorge, desenvolvido por Fernando Pinto. Entre perdedor e vencedor da disputa, o samba não escolhido se tornaria histórico por ser mais conhecido do grande público que o vencedor. Se a obra vencedora não se tornou um clássico do repertório imperiano e não sobrevivei muito além dos dias de folia, a canção de Acyr Pimentel e Cardoso se tornaria um clássico do samba. Se o samba levado par a Avenida, composto por Avarese, era marcado pela alegria e o ritmo acelerado, a parceria de Acyr Pimentel e Cardoso tinha outras características. Batizado de "Estrela de Madureira", a canção ganhou o país ao ser gravado por Roberto Ribeiro. E depois regravado por Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, entre outros. Sendo de vez imortalizado no imaginário popular.

 Imperatriz 2000 (Parceria de Eduardo Medrado)

"O povo e a Imperatriz / Ao som de cavaco e pandeiro / 
Ah! Todo mês de fevereiro / Descobrindo um Brasil mais brasileiro”



Na expectativa da virada para o ano 2000, as escolas de samba definiram como temática comum os 500 anos do descobrimento – ou conquista – do Brasil. A Rainha de Ramos, famosa pelos enredos de linha história que desenvolveu com a professora Rosa Magalhães intitulou seu carnaval de “Quem descobriu o Brasil foi Seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval”. A condução do enredo partiu da ordem do Rei de Portugal à época, Dom Manoel, aos expedicionários responsáveis pela busca de um caminho alternativo que conduzisse à rota das especiarias, tendo como destino final a Índia, mas que conduziu à terra brasilis. 

A disputa de samba foi animada, e todo o processo de desenvolvimento do carnaval ganhou registro no documentário “A Imperatriz do Samba”, que acompanhou justamente o processo de composição da parceria de Eduardo Medrado, campeã do inesquecível samba de 1995. A obra do grupo cantava de forma didática, além de bela, os passos dos lusitanos para o desembarque em Porto Seguro. A expectativa da final causou fervor e arrastou uma torcida animada, mas o resultado final consagrou o samba de Marquinhos Lessa e seus companheiros como campeão, que viria a somar no título que a escola conquistaria no carnaval daquele próximo ano. Conhecido até hoje pelos foliões mais antigos da festa, o samba da parceria de Eduardo Medrado é uma verdadeira aula de história, letra e melodia. 


Salgueiro 2009 (Parceria de Simas e Mussa)

"Menina, quem foi teu mestre?
Um batuqueiro que arrastava o povo do Salgueiro"



O tambor é conhecido desde os primórdios da humanidade. De troncos ocos aos couros dos animais, o Salgueiro contou a história deste indispensável instrumento para o samba e, por que não?, para a construção cultural e civilizatória de muitas sociedades em seus ritos e festejos. A super parceria de Simas, Edgar Filho, Beto Mussa, Bené do Salgueiro e Gari Sorriso alavancou uma multidão de salgueirenses para cantar em versos um pouco da tradução do que o próprio Luiz Antonio intitula de “gramática dos tambores”, que estabelece diálogos, provoca respostas de corpos e expressa sentimentos. Se por um lado o campeão propôs facilidade e animação de fácil letra, a composição da referida parceria era uma espécie de sofisticação popular, muito lúdico e belissimamente abrilhantado pela interpretação do inesquecível Rixxah. Basta puxar “menina, quem foi teu mestre?” e rapidamente alguém completará a letra se ao universo dos bambas pertencer. 


Salgueiro 2016 (Parceira de Antônio Gonzaga)

"Doi, doi, doi, doi, doi
Um amor faz sofrer
Dois amor faz chorar”



As disputas no Salgueiro não deixam faltar emoção, ainda mais quando o bom enredo inspira os compositores. Em 2016, a escola desenvolveu “A Ópera dos Malandros”, mais uma das propostas do departamento cultural da escola que homenageou o Rei da Ginga e toda a sua relação com a vida, com as ruas e, claro, com o samba. O enredo imprimiu-se de forma muito identificada com a escola e, atendendo à máxima de que até parado o Salgueiro é favorita, a agremiação foi uma das mais comentadas durante todo o pré-carnaval. Reflexo esse de uma disputa que rendeu ótima safra e boa aderência da comunidade, como aconteceu com a obra da turma de Xande de Pilares. Foi um rapaz jovem, que chegou de mansinho na ala pouco tempo antes, mas muito apaixonado pelo Salgueiro, que mostrou-se grande e surpreendeu positivamente. A parceria de Antônio Gonzaga trazia o famoso ponto da pomba-gira e o samba de letra muito fácil e pra cima tomou conta do público e virou pedida certa nas rodas de samba, chegando a final com grande favoritismo, mas acabou sendo derrotado pela parceria liderada por Marcelo Motta, que eternizou a expressão "malando batuqueiro".


Tom Maior 2018  (Parceira de Elymar Santos)

"Brilha a minha coroa na Tom Maior 
Dois pavilhões num só
Em verso e prosa eis minha vida
Carolina Josefa Leopoldina" 



Quando a Tom Maior anunciou o seu enredo sobre as duas Imperatrizes do Brasil gerou-se uma expectativa perante a sua safra de sambas e também sobre quem iria colocar samba na disputa. Quando surgiu a parceria de Elymar Santos (compositor campeão e torcedor da Imperatriz) com Samir Trindade (multi-campeão na Beija-Flor e na Portela), o interesse foi instantâneo e não tinha como ser diferente. O samba foi interpretado por Preto Joia, interprete que tem a sua história no carnaval marcada pela sua passagem pela Imperatriz Leopoldinense, formando uma combinação imbatível e emocionante. A obra contou com uma letra muito inspirada e bastante poética, retratando a história da Leopoldina com louvor e a mesclando com uma bela homenagem a Imperatriz Leopoldinense. A melodia apresentou uma levada deliciosa e que nos levava para os desfiles dos anos 2000 e 1990, e talvez tenha sido a sua falta de adequação a um padrão incomum do carnaval paulistano que o fez não vencer a disputa, infelizmente, mas como a letra do samba diz que “eu sei que o tempo passou, mas a história ficou”, assim como essa grande obra.    


Porto da Pedra 2019 (Parceria de Altay Velloso e PC Feital)

“Meu Porto da Pedra
O luar que beija esse chão
Ilumina o ceba de cá
Vem ver, meu irmão
Antonio Pitanga chorar
De tanta emoção
A São Gonçalo toda a minha gratidão



Esse samba mal perdeu e já deixou saudades. Queridinha de São Gonçalo, há alguns carnavais a Porto da Pedra vinha trazendo enredos nostálgicos e populares ao grande público. Mudando a pegada, em 2019 a escola fará uma grande homenagem em vida ao ator Antônio Pitanga na Sapucaí. “Um negro em movimento”, nome do enredo, proporcionou uma disputa quente na escola do tigre e a parceria badalada de Altay Velloso e PC Feital encantou a todos pela beleza do samba, como a dupla já vinha fazendo há algum tempo na Mocidade Independente de Padre Miguel e também na Unidos do Viradouro, em 2016. Impulsionado pelo “disse-me-disse” dos grupos de carnaval e das redes sociais, o samba ganhou destaque rapidamente e também a torcida dos internautas, mas não foi suficiente para barrar a força dos componentes da agremiação, que abraçaram o samba campeão, da parceria de Bira. E como às vezes variar é preciso, curtiremos muito o hino oficial da Porto mas não esqueceremos tão cedo desta obra que vai deixar aquela saudade, né? Saravá pra tanto amor! 



Entre centenas de obras produzidas anualmente pelos compositores das nossas escolas de samba, vale relembrar algumas canções que se eternizaram para além das disputas. Não que as obras selecionadas não tenham sido justas, a proposta da lista não é questionar o resultado das disputadas citadas, nem desvalorizar os sambas vencedores, mas apenas relembrar grandes sambas que merecem serem ouvidos de novo e permanecer no universo carnavalesco. 


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

#SérieSambas: As transformações do samba-enredo nessa década


A #SérieSambas vai trazer todo o universo do gênero que comanda a nossa festa, desde os grandes clássicos, passando por seus compositores e intérpretes. Sempre às segundas e quintas-feiras de outubro. Fiquem ligados!



Apesar dos discursos pessimistas e com tom nostálgico, o samba-enredo segue se renovando e se mantendo vivo através de décadas. Dizem que "o samba agoniza mas não morre", porém, desde que as escolas de samba surgiram, elas negociam e brincam com os conceitos de tradição e modernidade. É verdade que desde sempre o espírito "na minha época era melhor" assombrou as escolas e, nos dias atuais, as vozes se potencializam e esse discurso se intensificou. No entanto, apesar das agremiações atravessarem uma crise que dialoga com o momento social e político do país e, principalmente, da cidade do Rio de Janeiro, os sambas-enredos vivem uma fase de renovação, transformação e intensa discussão, desde o início dessa década. 

No meio de tantas tensões e contingências, o samba resiste e se mantém vivo entre as polêmicas discussões sobre o assunto; o encarecimento das disputas, as problemáticas políticas que são envolvidas nas escolhas dos sambas, a encomenda de obras, os escritórios.... Todas essas questões agitam as falas sobre samba-enredo e fazem relevantes todos os debates sobre as obras musicais de nossas escolas. 

Imersos nesse contexto, é possível perceber que a estrutura de melodia e letra que esteve estagnada por mais de vinte anos começou a dar alguns respiros nos últimos carnavais, com obras que testam novos formatos e métricas para os desenhos dos sambas. Passeando pelas composições mais relevantes da última década, a gente propôs uma análise das transformações musicais recentes do nosso gênero musical favorito! Vem com a gente! 

Madureira sobre o Pelô e a Vila faz sua festa no arraiá


Se a década começou com um desfile marcante nos quesitos estéticos, o mesmo não se pode dizer dos sambas de então. Nas safras dos dois primeiros anos da década presente, poucas obras se destacaram por trazer algum tipo de inovação em meio ao formato tradicional. Vale destacar, entretanto, nesses dois anos, as composições da Imperatriz Leopoldinense, que chamaram atenção pela melodia forte e letra cheia de boas passagens. Com os enredos "O Brasil de todos os deuses" e "A Imperatriz Adverte: sambar faz bem a saúde", ambos assinados pelo carnavalesco Max Lopes, a verde e branco foi bicampeã do Estandarte de Ouro do quesito com as obras compostas pela parceria encabeçada por Gil Branco, Guga, Jeferson Lima e Me Leva, entre outros nomes que oscilaram nos dois anos.



Foi depois, entretanto, que marcos definitivos podem ser estabelecidos no deflagrar de todas as transformações e novidades dessa década. A obra símbolo de todo esse processo veio da Portela, em 2012, com a escolha de um samba-enredo histórico e que se destacou desde seu surgimento na disputa da escola por suas características até então pouco valorizadas. A força da composição de Luiz Carlos Máximo, Naldo, Toninho Nascimento e Wanderley Monteiro levantou a competição na quadra da Rua Clara Nunes, ganhando repercussão na internet e nos comentários da mídia especializada. 



A letra construiu belas imagens ao contar o enredo sobre as festas e religiões associadas ao estado da Bahia, enquanto a cadência lembrava sambas-enredos antigos, fora da aceleração reinante, que dominava, à época, o andamento dos desfiles. A letra era coroada ainda pelo marcante refrão que fazia Madureira subir o Pelô e rolar o toque de Olodum, tornando-se um clássico instantâneo. A obra também trouxe uma inovação na estrutura, saindo da fórmula de dois refrões e duas partes de versos agrupados. Ela acrescentou uma nova sequência a ser repetida e dividiu os versos em um novo conjunto. Mesmo com um desfile com equívocos visuais, em um período de forte crise institucional, a Portela chegou à sexta posição daquele carnaval, motivada por seu grande samba, exaltando a importância de uma obra musical em meio à imposição do visual.

No mesmo ano, uma semente transformadora também nasceu em Vila Isabel. A parceria formada por André Diniz, Arlindo Cruz, Artur das Ferragens, Evandro Bocão e Leonel se sagrou campeã na agremiação e também inovou ao introduzir uma espécie de "contra canto" em sua estrutura. No fim da segunda passagem, um jogo de palavras trouxe sentenças que deveriam ser completadas em um jogo de resposta entre os componentes em cortejo, com uma criativa solução. A força da obra que falou da ligação entre o Brasil e Angola se aliou ao trabalho plástico da mestra Rosa Magalhães e consolidou um desfile memorável. 



No ano seguinte, na mesma azul e branca de Noel, o samba-enredo voltou a ser protagonista como não se via há muito tempo. Arlindo Cruz seguiu na liderança da parceria, que se sagraria campeã novamente, com destaque para a chegada ao grupo de Martinho da Vila, um dos mais importantes compositores do país. Para cantar a narrativa sobre a agricultura e o homem do campo, a composição se utilizou de imagens poéticas e singelas como pedia o tema. Com um refrão em duas versões, em que a palavra "plantar" e "colher" eram revezadas, a música fez sucesso entre os sambistas e repercutiu fortemente no pré-carnaval. No desfile, a expectativa se cumpriu e a grande obra musical foi o guia máximo a conduzir a escola para o terceiro título de sua história.

Nas bandas de Oswaldo Cruz e Madureira, após o sucesso da composição sobre a Bahia, a parceria de Toninho Nascimento, Luiz Carlos Máximo e Wanderley Monteiro obteve algumas modificações em seu corpo, mas seguiria campeã na Águia por mais dois anos, reforçando um novo estilo de fazer samba, com melodia, candência particular e a marcante estrutura de três refrões que possibilitava uma ginga aos ouvintes. Em 2013, o enredo sobre a história do bairro de Madureira teve um valente refrão com o verso "abre a roda, chegou Madureira". Em 2014, na narrativa sobre a história da Avenida Rio Branco e seu entorno, a escola, guiada por outra diretoria, brilhou com o inesquecível "vou de mar a mar". 

E a coisa reverberou


Ainda em 2014, o Salgueiro se destacou nas rodas de discussão pela obra composta por Betinho de Pilares, Dudu Botelho, Jassa, Miudinho, Rodrigo Raposo e Xande de Pilares, na primeira vez que o cantor do Grupo Revelação foi campeão na disputa da agremiação, quando passou a integrar o carro de som da Academia. O samba conduziu uma boa apresentação e seria vencedor do Estandarte de Ouro daquele ano, mas o desfile foi derrotado na apuração pela apresentação controversa da Unidos da Tijuca em homenagem a Ayrton Senna, embalado por um problemático e pouco inspirado samba-enredo. 



Já no grupo de acesso, recém transformado em Série A pela junção dos dois antigos contingentes que desfilavam na Sapucaí, iniciou-se uma alternativa ao criticado e problemático modelo atual de disputa de sambas. Com dificuldade em sua quadra, a Renascer de Jacarepaguá resolveu encomendar sua obra musical e não promover disputa. Sem as amarras que normalmente limitam os compositores nas disputas de samba, os renomados Cláudio Russo e Moacyr Luz foram convidados a compor a obra em homenagem ao cartunista Lan, que fugiu dos moldes comerciais e poucos criativos. Desde então, a agremiação alvirrubra segue não realizando disputas, em medida que gerou uma série de discussões e foi replicada em diversas escolas. 

Já são seis obras encomendadas que sempre tiveram Russo e Moacyr como autores, com poucas variações. Entre 2015 e 2016, a cantora Teresa Cristina participou das criações, nos enredos sobre Candeia e São Cosme e Damião. Já em 2017, o intérprete Diego Nicolau entrou no grupo e vem assinando. Na história do carnaval recente, é rara e notável a sequência de bons sambas que a Renascer apresentou com essa medida. Apesar de variarem ligeiramente em espécie de "régua de qualidade", todas as obras assinadas desde então são excelentes. Destaca-se o samba de 2017, que rendeu belos e duros versos sobre a negritude, inspirado no enredo "O Papel e o Mar", ao propor um encontro ficcional entre a escritora Maria Carolina de Jesus e o marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata.



Retornando a discussão à elite carnavalesca, veio da Leopoldina, de uma agremiação com uma discografia invejável, o protagonismo dos aspectos musicais entre 2015 e 2016. Com disputas de samba de alto nível e diversas obras de qualidade à disposição, a Imperatriz coroou a importância do maior compositor de sua história nestes dois anos. A parceria liderada por Zé Katimba compôs lindas pérolas do gênero, que se destacaram pela inovação melódica e na construção da letra, tanto ao contar o continente africano quanto ao homenagear a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano. No aspecto estrutural, a composição sobre o enredo "Axé Nkenda" surpreendeu ao trazer apenas um refrão a ser repetido, e o resto da letra foi dividido em três partes, com destaque ao bloco do meio, de melodia marcante e cíclica, ainda que a letra não se repetisse. Bem interpretada pelo cantor Negô, a música foi a vencedora da categoria no Estandarte de Ouro. 



Voltando à Majestade do Samba, a parceria que emplacou três sambas seguidos na azul branco acabou se desfazendo e, em uma disputada final para a escolha da obra a ser defendida no carnaval de 2015, quem se saiu campeão foi o grupo liderado pelo baluarte Noca da Portela. A escolha deu sequência à personalidade dos sambas anteriores de Toninho, Máximo e Wanderley, demonstrando a importância daquele formato concebido para o carnaval de 2012. Também em 2015 e também sobre compositores importantes para a história de uma escola, a Beija-Flor foi campeã do carnaval com uma bela obra afro que exaltou a Guiné Equatorial. Samir Trindade encabeçou a parceria, e após grandes sambas compostos para a escola nilopolitana, transferiu-se para Portela no ano seguinte, quando seria campeão após mais uma acirrada disputa na Águia de Oswaldo Cruz e Madureira.



O ano de 2015 também é lembrado por uma medida inédita que apontou os novos processos e tensões acerca dos sambas de enredo, e pela volta da Viradouro ao Grupo Especial. Presidida pelo compositor Gustavo Clarão, a vermelho e branco optou por não realizar disputa de samba, mas fazer uma junção de duas obras do repertório de Luiz Carlos da Vila, compositor fundamental para a história do samba, um dos autores de "Kizomba, Festa da Raça". Apesar de não terem nascido como sambas de enredo propriamente, as duas obras tinham cadência e aspectos estilísticos próximos ao gênero dos sambas das escolas, além de serem bem resolvidas musicalmente em sua adaptação a ser cantada. Apesar de levantar debates e gerar um samba elogiado, a medida passou de maneira discreta na discussão pós-desfile, talvez motivada por uma apresentação pouco emocionante da alvirrubra, afetada por uma forte chuva. 

O ano do renascimento


Após esta série de composições que mapeamos, o ano de 2016 foi uma espécie de ápice das transformações das obras musicais das agremiações, sintetizando uma leve revalorização do aspecto musical em tempos espetaculares. Tudo começou com uma boa sequência de enredos das escolas, que gerou uma das melhores safras de sambas do século XXI. No Grupo Especial, das doze agremiações, significativa parte escolheu boas obras para a Avenida. Com uma grande variação de estilo e características, não se viu uma safra tão homogênea como de costume, mas plural no aspecto musical e dialogando com a personalidade das escolas. 

E tudo começou no pré-carnaval, com disputas de sambas acirradas e polêmicas, repletas de repercussão nas redes sociais. A do Salgueiro foi uma dessas, que se dividiu entre as parcerias do jovem Antônio Gonzaga e do consagrado Marcelo Motta. Entre o "dói, dó, dói” e o "malandro batuqueiro", a comunidade da escola da Tijuca escolheu a obra com uma estrutura menos ousada, mas com a força de um refrão inesquecível e uma letra que versava com a tradição de versos leves e marcantes da Academia. No pré-carnaval, o samba explodiu e chegou com força no ensaio técnico da vermelho e branco, o que se consolidou no desfile, apesar do desempenho abaixo do esperado nos quesitos plásticos. 



Outras disputadas escolhas de samba aconteceram, novamente, em Ramos e Madureira. Como já apresentado, Zé Katimba se firmava como um dos grandes compositores do carnaval ao transformar o controverso enredo sobre uma dupla de sertanejo em um samba-enredo de melodia marcante e bela letra. Na Portela, a chegada imponente de Samir Trindade, após uma atuação vitoriosa em Nilópolis, arrebatou a disputa ao mexer com a vaidade portelense por meio de um refrão que fazia todos bater no peito e dizer "eu sou a Águia". Com um desfile inflamado, a harmonia treinada da escola ajudou a obra a ganhar o Estandarte de Ouro daquele ano. 



Fora da tradição de grandes competições de sambas, a Unidos da Tijuca foi uma surpresa naquele ano após uma sequência de obras musicais pouco inspiradas. Diante de grandes parcerias que brigaram entre si, saiu campeão o grupo de autores liderados por Dudu Nobre, com uma letra poética ao falar da agricultura e da relação do homem com a terra. 

Mas, na pista de 2016, foram duas outras canções protagonistas na sedução de público e arquibancada. Primeiro, a Vila Isabel voltou a trazer uma obra de qualidade, após dois anos mais discutíveis no aspecto musical. Nomes da parceria vitoriosa de "Festa no Arraiá", como Martinho da Vila, André Diniz, Arlindo Cruz e Leonel, retornaram a compor para a azul e branco, e foram responsáveis pela música sobre a importância do político Miguel Arraes no estado de Pernambuco. 

Por fim, não pode se esquecer da campeã Mangueira ao recuperar sua tradição de grandes homenagens a nomes da música e a sacudir a Sapucaí ao saudar Maria Bethânia. A Estação Primeira também conquistou uma das melhores safras de sua história, com várias composições que dariam um excelente tom ao desfile. Apesar do samba-enredo vencedor não trazer grandes inovações estéticas, a obra composta por Alemão do Cavaco, Almyr, Cadu, Lacyr D'Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão cumpriu seu papel de conduzir muito bem o desfile da verde e rosa. A agremiação, aliás, é uma das escolas mais regulares no quesito da nossa série, e dificilmente não leva para avenida composições que não toquem o coração dos espectadores.

Passeando novamente aos grupos de acesso, outras obras se destacaram em um ano tão frutífero para o aspecto musical das agremiações carnavalescas. Na Viradouro, um samba com melodia e letra marcantes se tornou protagonista na briga por contar a história do "Alabê de Jerusálem" na Avenida. A agremiação implorou por tolerância e respeito numa emocionante obra encabeçada por Paulo César Feital, importante nome da MPB, e Felipe Filósofo. Além da Viradouro, Felipe também foi um dos responsáveis pela obra da Acadêmicos do Sossego, na Série B. A agremiação, ao contar o enredo sobre a obra de Manoel de Barros, confeccionou um samba-enredo sem rimas, até então só produzido por Martinho da Vila em 1987, na Vila Isabel. 



Com o campeonato da azul e branco do Largo da Batalha e sua ascensão ao grupo A, o compositor seguiu sendo o ousado artista por trás da composição de obras musicais da agremiação, e lideraria uma sequência de letras que pensariam novas estruturas e soluções para o gênero. Após a obra sem rimas, Filósofo e a escola apostaram em uma obra em formato de diálogo no enredo sobre a atriz Zezé Motta e uma sem a presença de verbos, ao exaltar os diversos rituais da humanidade. Ambas foram novas tentativas de soluções para o formato exaurido das composições carnavalescas. 

O Céu de Sherazade e o canto do Juremê


Após o importante carnaval de 2016, o ano seguinte guardou uma série de surpresas para as escolas de samba em seus diversos aspectos. Mas se restringindo ao tema samba-enredo, duas obras despontaram em agremiações que ainda não haviam se destacado no quesito durante a década, polarizando assim as discussões a respeito das transformações do gênero. De um lado, a Beija-Flor começou sua escolha de samba com um fator decisivo para o nascimento de uma grande composição: uma disputa acirrada. Um samba-enredo com uma série de elementos inusitados chamou a atenção nas redes sociais a partir da produção de um videoclipe com status de superprodução, com direito a atores e encenação do enredo sobre Iracema.  



Quem diria que um samba com um refrão principal de improváveis oito versões, um refrão do meio com apenas uma frase repetida quatro vezes e que trouxe ainda a repetição da palavra "amor" no mesmo verso poderia dar tão certo? Contrariando todas as verdades pré-estabelecidas, a obra de Claudemir, Maurição, Ronaldo Barcellos, Bruno Ribas, Fábio Alemão, Wilson Tatá, Alan Vinicius e Betinho Santos se alastrou feito pólvora no universo carnavalesco, fazendo todo mundo cantar "juremê" e "pegar no aremê". Cantado por Neguinho da Beija-Flor e aliado à garra de toda a comunidade de Nilópolis, a obra deu o Estandarte de Ouro da categoria para a azul e branco após uma década sem realizar a conquista. 

Apesar de bem quisto pela maioria arrasadora dos sambistas naquele ano, a disputa de melhor samba do ano era grande e vinha de Padre Miguel o concorrente da Soberana. Após mais de uma década sem apresentar sambas com expressão, a Mocidade Independente teve em sua obra musical o guia para voltar a ser protagonista. Apesar do carnaval sobre o Marrocos começar desacreditado e com uma sinopse confusa, uma obra liderada por Altay Veloso e Paulo César Feital subverteu o texto base e criou suas próprias imagens sobre o trânsito cultural entre Marrocos e Brasil, promovendo o encontro entre Alá e Xangô. Surpreendendo ainda ao rimar Mocidade não com "cidade ou comunidade", mas com o Sherazade, e com belas imagens e soluções de letra que fugiam aos clichês usuais, o samba tinha ainda uma melodia marcante e cadenciada. 


O trânsito cultural e a homenagem a um país de cultura distante a nossa seguiu no melhor estilo Glória Perez para o ano seguinte na verde e branco, e a parceria de grandes nomes da MPB seguiu vitoriosa com uma obra ainda mais bonita e que reforçou as características do ano anterior, fazendo roncar a pele do tambor da eternidade, brindando o pública com mais uma linda melodia.

E o agora, e o amanhã?


Cinco anos após ter dado início às transformações no formato do samba-enredo, a Portela foi campeã com uma das obras com menos qualidades do que dos anos anteriores. Ao contar o enredo sobre os rios, os compositores liderados por Samir Trindade aliaram à narrativa personagens da história da escola, o que gerou uma série de críticas, apesar da ferramenta reforçar uma característica narcisista da azul e branco, presente em outros sambas antológicos da Águia, como "Contos de Areia" e "Tributo a Vaidade".

Em meio às transformações do gênero, crises das agremiações, falta de verbas e inviabilidades no formato das disputas e sua alta necessidade financeira, a alternativa da Renascer de Jacarepaguá e o sucesso de suas obras fez o recurso da encomenda se espalhar em outras agremiações chegando até o Grupo Especial. Após um criticado samba de 2017 para defender o ótimo enredo acerca do movimento tropicalista, a Paraíso do Tuiuti resolveu encomendar sua obra a grandes compositores da agremiação e nomes consagrados do mundo do samba, como Cláudio Russo e Moacyr Luz. Mais uma vez, deu resultado: a obra embalou um desfile apoteótico sobre os 130 anos da abolição da escravidão, que levou a escola para um surpreendente vice-campeonato, inédito na história da azul e amarela. 



Já na Série A, o grupo de obras escolhidas sem as tradicionais disputa de composições cresceu vertiginosamente. Além da Renascer, as escolas Rocinha, Alegria da Zona Sul, Sossego e Inocentes escolheram os autores de seus sambas e delegaram a eles a missão de compor suas obras. Apesar de polêmicas, todas as obras encomendadas apresentaram uma boa qualidade musical, deflagrando uma discussão necessária sobre a medida. Para o bem ou para o mal, a encomenda não pode ser relativizada como causa da perda de protagonismo das escolas de samba, o avanço dos ditos escritórios de compositores e a perda de força das alas de músicos dentro das agremiações, mas sim como sintoma de todo esse processo iniciado há décadas. 

Para 2019, a ausência de disputa na Série A não só segue com força; mas se disseminou também no Especial causando desdobramentos e polêmicas. Em meio a tantos processos, o Império Serrano apostou em uma medida inédita ao levar uma obra musical já composta e fora da métrica do samba-enredo para a Avenida. A canção "O quê é, o que é", de Gonzaguinha, será interpretada pelo cantor Leléu e iniciou uma série de discussões sobre os rumos dos sambas de enredo. Será que o corpo de uma escola em cortejo terá ritmo para dar voz ao clássico da MPB e levantar as arquibancadas?

No meio de várias tensões, essa e diversas questões surge. Uma delas clama por sabedoria às diretorias e aos compositores das escolas: será que a salvação para a perpetuação da festa, diante do contexto de graves crises política e social em que se encontram as agremiações, passa pela força das obras musicais levadas para a avenida?



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

É HOJE! Começam nesta sexta-feira os desfiles do grupo de acesso do Carnaval Virtual


O povo do samba mandou avisar...

HOJE TEM CARNAVAL VIRTUAL!!!

Mas espera aí, você ainda não conhece o Carnaval Virtual?

Há mais de 15 anos vários fanáticos por samba se reúnem pra realizar uma grande disputa de desfile de escolas de samba... na internet! 

Os desfiles das escolas de samba acontecem uma vez por ano, por volta de fevereiro. Viciados nesse universo do carnaval, vários amigos que não aguentam esperar o ano inteiro para rever suas escolas na avenida criaram e realizam todo ano, na segunda metade do ano, o desfile das escolas virtuais.

Tem comissão de frente, fantasias, alegorias, mas principalmente, muito samba e diversão, e o melhor, você pode acompanhar tudo isso direto da sua casa, ou de qualquer lugar, através da internet. 

Hoje, a partir das 22h, já entram na Passarela Virtual as primeiras escolas do Grupo de Acesso, 

Assista aos desfiles no site: www.carnavalvirtual.com.br

Mais informações: https://www.facebook.com/carnavalvirtualoficial/


ORDEM DOS DESFILES

SEXTA-FEIRA (14/09) - 22h 
Imperatriz Itaocarense
Unidos de Franco da Rocha
Bambas de Ouro
Império do Samba
Ungidas
Estrela Guia
Curral das Éguas
Independentes
Império de Niterói


SÁBADO (15/09) - 21h
Filhos do Tigre
Império da Praça XI
Unidos de Vila Betânia
Império da Carlota
Simpatia Real
Deixa de Truque
Arautos do Cerrado
Nobreza da Baixada
Sociedade Águai Real
Império da Fênix

#CarnavalVirtual
#GrupodeAcesso
#Carnavalize

terça-feira, 28 de agosto de 2018

#MinhaIdentidade: o raio X do Vai Vai, a escola do povo

por Alisson Valério



Revelando um pouco da construção da identidade das principais escolas brasileiras, hoje fazemos uma parada no Bixiga para lembrar a história de uma das mais importantes agremiações carnavalescas do país. Surgido como cordão e depois tornado escola de samba propriamente, o Vai Vai construiu uma história de luta e raça, sempre ligado ao povo, sendo o maior campeão da folia paulistana. 

Em meio a críticas sociais e homenagens musicais, a escola construiu um perfil popular e aguerrido que é abraçado por torcedores pelo Brasil a fora, conquistando cada dia mais novos apaixonados. Por isso, relembramos agora os desfiles mais marcantes da escola do povo. Vem ver o samba amanhecer com a gente! 

"Vem novamente a disputa, meu povo à luta!"


Tudo começou no início do século passado: por volta de 1928, Livinho, Benedito Sardinha e um grupo de amigos animavam os jogos e as festas organizadas do time de futebol e grupo carnavalesco chamado de Cai-Cai no bairro do Bixiga. Mas eles não eram bem vistos pela galera do Cai-Cai não, viu? Longe disso; o grupo de amigos era visto como um bando de penetras e arruaceiros, foram até jocosamente apelidados de "a turma do Vae-Vae". Não demorou muito e eles foram expulsos do Cai-Cai, mas não deixaram por isso mesmo e criaram o "Bloco dos Esfarrapados" e também o Cordão Carnavalesco e Esportivo Vae-Vae, este sendo oficializado em 1930, o resto é história.... 

O cordão escolheu as cores preto e branco, que eram as cores do Cai-Cai invertidas como forma de ironizar o cordão, honrando assim a fama de arruaceiros. O símbolo que até hoje faz parte do pavilhão da escola tem como objeto central uma coroa, com dois ramos de café e abaixo o nome e a data de fundação. A escolha dos ramos de café foi pelo motivo do produto ser, na época, uma das grandes fontes de riqueza do Brasil, com a coroa simbolizando a realeza e a magnitude da raça negra, em forma de homenagem aos que vieram para o Brasil como escravos e eram reis e rainhas na sua terra. Era comum naquela época os negros se tratarem por “oi, meu rei", "oi, minha rainha”.


Outra curiosidade é o apelido "Saracura". O nome veio do rio que margeava a Bela-Vista. Apesar de ser um apelido que é motivo de orgulho hoje ele foi dado de forma pejorativa, mas graças ao sucesso e aos títulos da escola, virou motivo de orgulho para a toda a sua comunidade.  

Desfilando como cordão foram quatro títulos e três vice-campeonatos. A escola estreou como Escola de Samba no Grupo Especial em 1972, já garantindo o segundo lugar com o enredo "Passeando pelo Brasil o samba mostra o que é seu". De 1972 até 2018 foram 15 títulos, tornando-a a maior campeã do Carnaval de São Paulo na atualidade.
  

O começo de tudo – (1978, 1981 e 1982)




A escola que estreou no Grupo Especial no ano de 1972 sendo vice-campeã não demorou muito para conquistar o seu primeiro título no grupo: o título veio no ano de 1978, com o enredo “Na Arca de Noel quem entrou não saiu mais”, assinado por uma comissão de carnaval. "Noel, Noel, Noel, esta linda noite é sua, o Vai-Vai está em festa neste carnaval de rua..."



"Acredite se quiser no sonho mais lindo que eu não sonhei..." E três anos depois viria o primeiro bicampeonato da escola, com os enredos “Acredite se quiser” e “Orun Aiyê - O Eterno Amanhecer”, os dois assinados por uma comissão de carnaval. Ambos os desfiles foram embalados por dois sambaços que estão eternizados na coletânea do Vai Vai. "Olorum, canta meu povo em harmonia, Olorum, Vai-Vai na apoteose da alegria..."



O tricampeonato – (1986, 1987 e 1988)


"Raiou e o sol brilhou, ao romper de um novo dia, o Vai-Vai chegou..." Depois de conseguir seu bicampeonato em 81 e 82, foi a vez de conquistar o seu primeiro tricampeonato no Grupo Especial paulistano, com títulos de 86 a 88. O enredo “Do jeito que a gente gosta”, assinado pelo carnavalesco Andrés Wilches, marcou também o início da era de Thobias da Vai-Vai como interprete da escola. Enredos com teor critico como esse seriam frequentes na história da escola no Carnaval de São Paulo. "Quero ver pulso firme contra a corrupção, e um salário justo para toda nação..."  



"A paz virá, neste momento de alegria, vou desfilar, irradiando energia, aos povos sem exceção..." Com o enredo “A volta ao Mundo em 80 Minutos”, assinado por Ciro Nascimento, a escola entrou na avenida no amanhecer do dia rumo ao seu bicampeonato. No pouco que se pode ver do desfile, dá para notar o mascote da escola, o Criolé, no seu abre-alas que nos levaria a uma viagem pelo mundo. A leveza do desfile e a energia dos componentes junto a arquibancada deram o tom, além do show da bateria do Mestre Tadeu, embalando assim mais um campeonato para a escola do Bixiga. "Eu quero é mais que sedução, brotar o amor no coração, a liberdade, um ideal, Vai-Vai na avenida é carnaval..." 



"Jorge Amado... Mestre na literatura, fez da epopeia de um povo, a sua arte em romance de ternura..." Com o seu desfile baseado em obras de Jorge Amado, intitulado de “Amado Jorge, a História de uma Raça Brasileira”, assinado por Ulysses Cruz, a escola da Saracura vinha em busca do seu tricampeonato. A intenção do carnavalesco era fugir do tradicional de época e fazer um carnaval bem teatral no Vai-Vai, transformando a avenida em um verdadeiro palco. E conseguiu! O samba, que era pura poesia, embalou mais um grande desfile da escola do Bixiga rumo a conquista do seu terceiro título consecutivo. "Bahia... o seu nome principia, com o canto e a magia, que o negro sopra pelo ar, cantando... sua terra, sua gente, seu passado, seu presente, o futuro só Deus dirá..."   




A rainha que reluz é ouro – (1993 e 1996)


Foto: YouTube

"A Bela Vista vem de novo aí, com muito brilho pra te alucinar, reluz feliz e não é ouro, o meu maior tesouro, é ver o povo delirar..." O período que marcou o início da era dos desfiles no Sambódromo do Anhembi rendeu dois títulos ao Vai-Vai, nenhum deles consecutivos, mas nem por isso foram menos marcantes. O primeiro deles foi com o enredo “Nem tudo que reluz é ouro”, assinado pelo trio de carnavalescos Fábio Brando, Luís Rossi e Renato Teobaldo. A intenção era mostrar a saga do homem através da riqueza e dele se perdendo na ganancia, tendo o intuito de ensinar que a maior riqueza na nossa vida são justamente as coisas que não estão à venda. 

Sempre que o Vai Vai abraça enredos com crítica e exerce a sua voz como 'Escola do Povo', o sucesso é quase garantido e dessa vez não foi diferente. Mais um show na avenida no amanhecer do dia para delírio do público que não arredou o pé do Anhembi até o final do desfile campeão da Saracura.  "Leva meu samba, um canto de reflexão, que o tesouro, é a água, é a terra (é o nosso ar), tá na liberdade, na felicidade eterna, tá no sangue, vem da alma e do amor, tá no coração dos homens, está na paz, está na flor..."

Foto: Ouro de Tolo

"Clareou, clareou geral, alô galera, alô bateria, alô povão, de preto e branco vem a Saracura, ninguém segura essa overdose de emoção..." Em busca do seu segundo título do Anhembi, o Vai Vai teve pela primeira vez em sua história um carnavalesco carioca, Sidinho Ramos, que assinou o enredo “A rainha, a noite tudo transforma” que cantaria a noite que transforma em realidade, fantasias do consumo e em conjunto realizaria o sonho de uma mulher que fez da noite o palco para o seu sucesso, a dona de casas noturnas paulistana, Lilian Gonçalves. Um desfile inesquecível que começou a noite e foi iluminado pela luz do dia. E a noite que tudo transforma transformou o sonho do título em realidade para a festa de toda a comunidade da Saracura. "Hoje Lilian Gonçalves na verdade, o sonho fez realidade, nas mil e uma noites da canção, agora a Cinderela é rainha, vou sonhar a festa é minha, Vai-Vai um novo dia clareou, clareou..."

O tetracampeonato (1998 - 2001)

Foto: SPTuris

"Me beija na boca, amor, me faz um chamego, eu quero sentir, balançando a massa, é Vai-Vai que passa, sacudindo o Anhembi..." No ano de 1998, o Vai Vai decidiu falar sobre os 90 anos da imigração japonesa no Brasil, mas eles resolveram contar essa história de uma forma um pouco diferente, tornando o enredo mais a cara da escola. O carnavalesco, Chico Spinoza, resolveu inserir o mascote da escola, o Criolé, no enredo o transformando na figura que contaria a história. No enredo, o personagem sonha que é o imperador do Japão antigo, conhece as belezas e as tradições da terra do sol nascente e no meio dessa viagem ele acorda na avenida no desfile de carnaval guiando o público por essa viagem recheada de beleza e cultura. Uma sacada genial do carnavalesco! O desfile ainda teve como grande trunfo a estética japonesa que deu um toque todo especial ao visual da escola. Em um dos grandes sacodes do Anhembi, embalado por um dos sambas inesquecíveis da história do carnaval paulistano, o título não poderia ir para outro lugar além do bairro do Bixiga. "Aí fiquei maluco com o desfile da Vai-Vai, sacode povão, Banzai!" 

Fonte: Youtube
"Na virada do milênio, a paz renascerá, ô clareia deixa clarear..." Rumo ao bicampeonato, o Vai Vai do carnavalesco Chico Spinoza resolveu contar a história e as profecias de Nostradamus. Um tema polêmico, que gerou de certa forma olhares estranhos até o dia do desfile... Porém, quando o mesmo começou, foi arrebatador em sua essência! Num cortejo harmonioso do início ao fim, desde o seu início de cores mais escuras até o seu final cheio de esperança e de tons mais claros, a escola deu um verdadeiro show no Anhembi para coroar seu bicampeonato. "Na transformação, surge um clarão é um novo ser, Saracura vem anunciar (que o Vai-Vai), chegou para explodir o Anhembi..." 


"Eu sou Bixiga, sou amor, amor, fazendo o samba amanhecer (vem ver), a Saracura é a razão do meu viver..." Na rota do tricampeonato, com o enredo “Vai-Vai Brasil”, assinado pelo carnavalesco Flávio Tavares, no ano em que eram celebrados os 500 anos do Brasil, a escola contou a época mais contemporânea do país, passando por vários fatos históricos que aconteceram entre 1984 e os anos 2000. Acontecimentos históricos como as Diretas Já, o Plano Cruzado, Sarney, Collor e Real, o ídolo Ayrton Senna e, claro, uma homenagem aos 70 anos da própria escola. Um desfile de tom crítico, mas ao mesmo tempo divertidíssimo, com aquele espirito arruaceiro, essência da escola. Pode colocar mais um tricampeonato na conta da escola do povo! "Eu elegi um presidente, Collorido e diferente, me dei mal, com garra e emoção, pintei toda nação, aí eu caí no Real..." 

 Vania Vargas/Folha Imagem

"Na transformação, surge um clarão é um novo ser, Saracura vem anunciar (que o Vai-Vai), chegou para explodir o Anhembi..." Sonhando com o inédito tetracampeonato no Grupo Especial do carnaval paulistano, o Vai Vai trouxe o enredo “O Caminho da Luz, a Paz Universal”, de assinatura do carnavalesco Ilvamar Magalhães. A proposta do carnavalesco era um convite a reflexão, tocando em vários pontos que regem a humanidade como a vida, a razão, a inspiração, a esperança e o amor. Foi um verdadeiro show do Vai Vai no Anhembi. Tendo ao seu favor mais um samba 'arrasa quarteirão' e a sua comunidade sempre fazendo jus a sua essência aguerrida, o sonho do tetracampeonato inédito virou realidade para a Saracura. "Me dê a mão, somos irmãos, vamos caminhar, buscar na luz celestial, a paz universal..."

15 vezes campeã – (2008, 2011, e 2015)


Foto EFE

"Eu sou guerreiro de fé, meu samba é no pé, sou Vai-Vai, se quero axé meu manto traz, no branco a paz, no preto amor, sou brasileiro e tenho meu valor..." Depois de alguns anos sem saber o que era comemorar um título no carnaval, o Vai Vai voltou a sua origem crítica ao lado de Chico Spinoza, naquele que seria um dos maiores desfiles da sua história. Intitulado de “Vai-Vai acorda Brasil, a saída é ter esperança”, inspirada na peça de Antônio Ermírio de Moraes, que conta a história de um incêndio na comunidade de Heliópolis em 1996. A história de superação contada na avenida mostrando a força que a educação tem de mudar o futuro de uma nação ganhou uma linda descrição durante o desfile da escola. Um cortejo inesquecível para muitos, é com certeza um dos maiores desfiles da escola no carnaval paulistano. O título, claro, veio, mas de forma sofrida, apenas na última nota do último quesito. Campeonato mais do que merecido pelo o que foi apresentado pela escola do Bixiga. "Alô Brasil, o nosso povo quer mais educação pra ser feliz, com união, vencer a corrupção, passar a limpo este país..."

Foto: Fernando Donasci/UOL
"Feliz da vida lá vem o Bexiga, exemplo de comunidade, a música venceu, o dom é luz que vem de Deus, da emoção, Vai-Vai resplandeceu..." Em busca da sua 14ª estrela, o Vai Vai trouxe para o Anhembi uma das histórias mais lindas da história da música do nosso país: a vida e a superação do maestro João Carlos Martins. “A música venceu” foi assinado pelo carnavalesco Alexandre Louzada. O enredo passeou por toda a vida do maestro, começando na sua infância na comissão de frente e terminando com ele regendo uma orquestra no último carro. O desfile foi arrebatador do começo ao fim! A história de luta do homenageado encantou e emocionou a todos os presentes no sambódromo. O samba em si é uma obra-prima da história do Vai Vai. A sensação ao final da apresentação é que o título tinha sido arrebatado e a confirmação veio na terça-feira de carnaval. A décima quarta estrela do pavilhão do Vai Vai havia sido conquistada em 2011. "Na sua fé, resistiu, e a dor da adversidade, suplantou, com muita garra e amor..." 


"Reluziu, seu canto ecoou, no meu Brasil cantora igual jamais se ouviu, Saracura a cantar bem mais feliz, simplesmente Elis..." Vai Vai e música é uma combinação que dá ótimos frutos e quando se trata de uma homenagem, as chances de sucesso são maiores ainda. O tributo a Elis Regina virou realidade no Carnaval de 2015 e o Vai-Vai abraçou a oportunidade com unhas e dentes. O enredo “Simplesmente Elis. A Fábula de uma Voz na Transversal do Tempo” assinado pelos carnavalescos Alexandre Louzada, Eduardo Caetano e André Marins foi contado através das suas músicas na avenida de forma leve e emocionante. Nesse texto, a palavra sacode foi citada algumas vezes, mas esse desfile talvez tenha sido o maior sacode proporcionado na avenida pelo alvinegro em sua história. Foi de arrepiar do começo ao fim. Elis Regina e Vai-Vai com uma combinação pra lá de apimentada, que abocanhou o título do Carnaval de 2015. A cantar a dor, o amor, o bêbado e a equilibrista, a voz do povo diz que o show de todo artista, tem que continuar...


Baluartes do Vai Vai

 Thobias da Vai-Vai – Presidente de Honra

Foto: Revista Paulista
Thobias na sua carreira de intérprete foi uma voz marcante e inesquecível no Vai-Vai e agora continua sendo uma voz forte dentro da agremiação, só que dessa vez como presidente de honra. Thobias já foi interprete, presidente, vice-presidente e agora é presidente de honra da escola. Já fez e faz de tudo pelo Bixiga. Ele que chegou a escola em 86, e obviamente continua até os dias de hoje, fez parte de 11 dos 15 títulos da história do Vai-Vai no Grupo Especial. Como intérprete, ele embalou o título de Banzai em 1998, com presidente o título Acorda, Brasil em 2008 e como presidente de honra o desfile em homenagem a Elis Regina em 2015. Uma história na escola repleta de momentos memoráveis. Impossível falar do Vai-Vai e não falar de Thobias e vice-versa. É um nome que ficará marcado para sempre na história da escola.

Mestre Tadeu – Mestre de Bateria


Foto: Christian von Ameln/Folhapress
Antônio Carlos Tadeu chegou ao Vai-Vai no final da década de 1960 e permanece até os dias de hoje na escola. Ele assumiu o posto de Mestre de Bateria em 1973 e não sendo fã desse negócio de paradinha, ficou e não saiu mais. Mestre Tadeu participou de todos os 15 títulos do Vai-Vai no Grupo Especial de São Paulo. E não é só troféu que ele coleciona não, recordes também. Os recordes de maior vencedor do Carnaval de São Paulo e o de maior tempo comandando a mesma bateria no Brasil são dele. Da bateria do Mestre Tadeu saíram grandes mestres e diretores de bateria, nomes como o do Mestre Tornado que atualmente é um dos grandes mestres de bateria do carnaval.  Antes mesmo do Vai-Vai ser uma escola de samba Tadeu já estava por lá, lugar que ele faz história até hoje. A história do Antônio Carlos e do Vai-Vai se misturam de tal forma que quase se tornam uma só. Mestre Tadeu é um patrimônio do carnaval paulistano e uma lenda viva da história do carnaval do Brasil. Vida longa ao Mestre!

Paulinha e Pingo - Mestre-sala e Porta-bandeira

Foto: Liga SP
Eles estrearam como primeiro casal do Vai-Vai em 2006, não só como primeiro casal do Vai-Vai, mas como primeiro casal no Carnaval. Paulinha era a segunda porta-bandeira da escola, onde desfilava desde os seus 7 anos de idade, Pingo chegou a escola em 2001 e era o terceiro mestre-sala. Se estamos falando sobre eles agora nem é preciso dizer que a parceira deu certo, aliás não só deu certo como foi um golaço da escola. O casal foi nota 10 já em sua estreia, história que se repetiu várias vezes em todos os seus carnavais dançando juntos pelo Anhembi. A primeira fantasia usada pelos dois representava o "Orgulho de ser Vai-Vai" e se tem uma certeza quando se fala desse casal é o orgulho de todos os torcedores da escola em tê-los defendendo ano pós ano o pavilhão da escola do Bixiga. Pingo e Paulinha serão eternizados como um dos grandes casais não só do Vai-Vai, mas da história do Carnaval de São Paulo.

Chico Spinoza - Carnavalesco

Chico Spinoza é um dos grandes carnavalescos do Brasil e no Vai-Vai fez boa parte da sua história no Carnaval. Ele chegou a escola por escolha do próprio Chico, ainda quando trabalhava como figurinista da Rede Globo um diretor da emissora pediu para ele fazer um carnaval em São Paulo, citou duas escolas e ele acabou escolhendo o Vai-Vai e o resto é história. Foram 8 anos, 3 títulos e 2 vice-campeonatos conquistados. Na sua passagem pela escola foram vários desfiles inesquecíveis, mas obviamente que os títulos com Banzai em 1998 e Acorda Brasil em 2008 encabeçam a lista dos melhores desfiles de Spinoza no Bixiga. Em sua carreira como carnavalesco foi campeão por 4 oportunidades, três com o Vai-Vai em São Paulo e uma vez com a Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Chico Spinoza é o carnavalesco que mais vezes foi campeão assinando sozinho o carnaval na escola do Bixiga, marcando assim o seu nome na história da agremiação paulistana.

Camila Silva – Rainha de Bateria


Foto: Fashionando
No carnaval de 2018, Camila Silva completou 10 anos de reinado a frente da bateria Pegada de Macaco do Vai-Vai. Não precisa nem dizer que ficar 10 anos à frente de uma bateria, um cargo tão disputado e constantemente vendido no carnaval, o que não é o caso do Vai-Vai, é um tempo muito significativo para mostrar a força da natureza que Camila Silva é e continua sendo no Vai-Vai. Ela tem todos os requisitos que uma rainha precisa: samba no pé, beleza, carisma e o mais importante deles que é o comprometimento. Ser rainha de bateria é muito mais que um posto, é um estado de espirito e Camila Silva é uma rainha de bateria em seu pleno estado de espirito. Vida longa à rainha!  

"É tradição e o samba continua!"


Falar do Vai-Vai é passear pela história do Carnaval de São Paulo, contar dos seus títulos é relembrar vários momentos marcantes e inesquecíveis da história do samba paulistano. Desde a sua essência arruaceira, dos seus sambas antológicos, do seu povo aguerrido.... ah, o seu povo, diversas vezes em sua história quando o Vai-Vai abraçou a sua faceta de Escola do Povo, de falar dos problemas do seu povo, o sucesso era inevitável, a sua vertente crítica é uma das suas maiores qualidades pois é puramente de sua essência falar do povo e ser o povo cantando na avenida as suas dores e os seus amores... E uma dica: se nunca viu o samba amanhecer vai no Bixiga pra ver, vai no Bixiga pra ver.... 

Playlist no Youtube com todos os sambas dos campeonatos do Vai-Vai:
https://www.youtube.com/playlist?list=PL9xrNWhRQAwMK6k8BE9haZKQU1LL2SYuE