sexta-feira, 22 de junho de 2018

SINOPSE: Estação Primeira de Mangueira | "História pra ninar gente grande"


Com intuito de divulgar um enredo de conteúdo tão relevante a direção da Mangueira decidiu apresentar juntamente com o enredo, sua sinopse oficial, já para que o publico, os torcedores, e os compositores possam ter um primeiro contato com o tema. Em breve será divulgado um encontro entre os compositores e o carnavalesco Leandro Vieira para que ele possa apresentar sua ideia e eventuais dúvidas possam ser sanadas. (Na imagem, a logo oficial, obra do Design Igor Matos)


HISTÓRIA PRA NINAR GENTE GRANDE é um olhar possível para a história do Brasil. Uma narrativa baseada nas “páginas ausentes”. Se a história oficial é uma sucessão de versões dos fatos, o enredo que proponho é uma “outra versão”. Com um povo chegado a novelas, romances, mocinhos, bandidos, reis, descobridores e princesas, a história do Brasil foi transformada em uma espécie de partida de futebol na qual preferimos “torcer” para quem “ganhou”. Esquecemos, porém, que na torcida pelo vitorioso, os vencidos fomos nós.

Ao dizer que o Brasil foi descoberto e não dominado e saqueado; ao dar contorno heroico aos feitos que, na realidade, roubaram o protagonismo do povo brasileiro; ao selecionar heróis “dignos” de serem eternizados em forma de estátuas; ao propagar o mito do povo pacífico, ensinando que as conquistas são fruto da concessão de uma “princesa” e não do resultado de muitas lutas, conta-se uma história na qual as páginas escolhidas o ninam na infância para que, quando gente grande, você continue em sono profundo.

De forma geral, a predominância das versões históricas mais bem-sucedidas está associada à consagração de versões elitizadas, no geral, escrita pelos detentores do prestígio econômico, político, militar e educacional – valendo lembrar que o domínio da escrita durante período considerável foi quase que uma exclusividade das elites – e, por consequência natural, é esta a versão que determina no imaginário nacional a memória coletiva dos fatos.

Não à toa o termo “DESCOBRIMENTO” ainda é recorrente quando, na verdade, a chegada de Cabral às terras brasileiras representou o início de uma “CONQUISTA”. E, ao ser ensinado que foi “descoberto” e não “conquistado”, o senso coletivo da “nação” jamais foi capaz de se interessar ou dar o devido valor à cultura indígena, associando-a “a programas de gosto duvidoso” ou comportamentos inadequados vistos como “vergonhosos”.

Comemoramos 500 anos de Brasil sem refazermos as contas que apontam para os mais de 11.000 anos de ocupação amazônica, para os mais de 8.000 anos da cerâmica mais antiga do continente, ou ainda, sem olhar para a civilização marajoara datada do início da era Cristã. Somos brasileiros há cerca de 12.000 anos, mas insistimos em ter pouco mais de 500, crendo que o índio, derrotado em suas guerras, é o sinônimo de um país atrasado, refletindo o descaso com que é tratada a história e as questões indígenas do Brasil. Não fizeram de CUNHAMBEMBE – a liderança tupinambá responsável pela organização da resistência dos Tamoios – um monumento de bronze. Os índios CARIRIS que se organizaram em uma CONFEDERAÇÃO foram chamados de BÁRBAROS. Os nomes dos CABOCLOS que lutaram no DOIS DE JULHO foram esquecidos. Os Índios, no Brasil da narrativa histórica que é transmitida ainda hoje, deixaram como “legado” cinco ou seis lendas, a mandioca, o balanço da rede, o tal do “caju”, do “tatu” e a “peteca”.

Levando em conta apenas pouco mais de 500 anos, a narrativa tradicional escolheu seus heróis, selecionou os feitos bravios, ergueu monumentos, batizou ruas e avenidas, e assim, entre o “quem ganhou e quem perdeu”, ficamos com quem “ganhou.” Índios, negros, mulatos e pobres não viraram estátua. Seus nomes não estão nas provas escolares. Não são opções para marcar “x” nas questões de múltiplas escolhas.

Deram vez a outros. Outros que, por certo, já caíram nas suas “provas”. Você aprendeu que os “BANDEIRANTES” – assassinos e saqueadores – eram os “bravos desbravadores que expandiram as fronteiras do território nacional”. DOM PEDRO, o primeiro, você “decorou” que era o “herói” da Independência, sem que as páginas dos livros contassem a “camaradagem” de um “negócio de família” tão bem traduzido pela frase do PAI do Imperador, que a ele orientou: “ponha a coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça”. Convém esclarecer aqui que os “aventureiros” citados por DOM JOÃO éramos nós, brasileiros, e que a “independência” proclamada – ou programada – foi para evitar que tivéssemos aqui “aventureiros” como Bolivar ou San Martin, patriarcas bem-sucedidos das “independências” que não queriam por aqui.

Como “CABRAL”, o “ladrão”, que roubou o Brasil lá pelas bandas de mil e quinhentos, ou PEDRO I, que através de um acordo “mudou duas ou três coisas para que tudo ficasse da mesma forma”, tem também o Marechal, o DEODORO DA FONSECA, homem de convicções monarquistas – amigo pessoal do Imperador PEDRO II – autor da proclamação de uma República continuísta – sem participação popular – traduzida em golpe e que, na ausência de líderes, mandou “pintar” um retrato do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o TIRADENTES, na tentativa de produzir “um personagem pra chamar de seu”.

Se a República foi “golpe”, conclui-se que “golpe” no Brasil não é novidade. Nem é novidade que a natureza dos “golpes” ainda estejam mal contadas. A rodovia CASTELO BRANCO “corta” São Paulo com “nome de batismo” em homenagem ao primeiro general “do GOLPE DE 1964”. Para cruzar a Baía da Guanabara em direção a Niterói, lá está a ponte PRESIDENTE COSTA E SILVA, o mesmo que fechou o Congresso Nacional e aditou o AI-5 suspendendo todas as liberdades democráticas e direitos constitucionais. Em Sergipe, em dias de jogos, a bola rola no estádio PRESIDENTE MÉDICI, o general dos “ANOS DE CHUMBO”, do uso sistemático da tortura e dos violentos assassinatos. Nas ruas – por terem lido um livro que “ninou” e não “ensinou” falando da suspensão dos direitos humanos, da corrupção e dos assassinatos cometidos no período – aparecem faixas para pedir “intervenção militar”, décadas depois da redemocratização.

Sem saber quem somos, vamos a “toque de gado” esperando “alguém pra fazer a história no nosso lugar”, quiçá uma “princesa”, como a ISABEL, a redentora, que levou a “glória” de colocar fim ao mais tardio término de escravidão das Américas. Nunca esperaremos ser salvos pelos tipos populares que não foram para os livros. Se “heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referências, fulcros de identificação” a construção de uma narrativa histórica elitista e eurocêntrica jamais concederia a líderes populares negros uma participação definitiva na abolição oficial. Bem mais “exemplar” a princesa conceder a liberdade do que incluir nos livros escolares o nome de uma “realeza” na qual ZUMBI, DANDARA, LUIZA MAHIN, MARIA FELIPA assumissem seu real papel na história da liberdade no Brasil.

O fato é que a atuação de “gente comum”, ou mesmo a incansável luta negra organizada em quilombos, em fugas, no esforço pessoal ou coletivo na compra de alforrias e em revoltas ou conspirações, já enfraqueciam o sistema escravocrata àquela altura. Entretanto, ensinar na escola o nome de “CHICO DA MATILDE”, jangadeiro, mulato pobre do Ceará (líder da greve que colocou fim ao embarque de escravos no estado nordestino, levando-o à abolição da escravatura quatro anos antes da princesa ganhar sua “fama” abolicionista) não serviria à manutenção da premissa de que as conquistas sociais resultam de concessões vindas “do alto” e não das lutas. A história de CHICO DA MATILDE era inspiradora demais para o povo. Não à toa, seu nome não está nos livros.

Esses nomes não serviram para eles. Para nós, eles servem. Para nós, sentinelas dos “ais” do Brasil, heróis de lutas sem glórias ainda deixados “de tanga” ou preso aos “grilhões”, eles são as ideias que usaremos para “gestar” o que virá. “Engravidados” de novas ideias, jorrará leite novo para “amamentar” os guris que virão. Sabendo outra versão de quem é o Brasil, – não a que nos “ninou” para quando fôssemos adultos – sabendo que CABRAL “invadiu” e que, ao invés de quinhentos e dezenove anos, somos brasileiros há quase doze mil anos. Conhecendo CUNHAMBEBE, a CONFEDERAÇÃO DOS CARIRIS, cientes da participação dos CABOCLOS na luta do 02 DE JULHO NA BAHIA, e sabendo que os índios lutaram e resistiram por mais de meio século de dominação, talvez se orgulhem da porção de sangue que faz de TODOS NÓS, sem exceção, índios. Sabendo que a “bondosa” princesa Isabel deu vez a “Chico da Matilde”, “Luiza Mahin” e “Maria Felipa”, é possível que reconheçam em si a bravura que vive à espreita da hora de despertar e aí, talvez, o “gigante desperte sem ser para se distrair com a TV”.

Cientes de que nossa história é de luta, teremos orgulho do Brasil. Alimentados de leite novo e bom, varreremos de nossos “porões” o complexo de “vira-latas” que fomenta nossa crença de inferioridade. Veremos tanta beleza na escultura de ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA quanto no quadro que eterniza o sorriso da Monalisa. Nos orgulharemos do “tupi” que falamos – mesmo sem saber. Daremos mais cartaz ao saci do que à “bruxa”. Brincaremos mais de BUMBA MEU BOI, CIRANDA E REISADO. Nossas crianças enxergarão tanta coragem no CANGACEIRO quanto no “cowboy”. Vibraremos quando SUASSUNA estrear em “ROLIÚDE” sem tradução para o SOTAQUE de João Grilo e Chicó. Não estranharemos caso o Mickey suba a ESTAÇÃO PRIMEIRA, troque “my love” por “minha nêga” e mande pintar o “parquinho” da Disney com o VERDE E O ROSA DA MANGUEIRA.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

#SérieCarnavalescos: O jardim tropical e multicolorido de Oswaldo

Por Leonardo Antan e Thiago Avis



Continuando a lembrar nomes menos valorizados da festa, mas que construíram também um estilo marcante, voltamos hoje aos anos 90 para falar de um carnavalesco que desenvolveu grandes desfiles da década. Entretanto ofuscado pelo histórico embate entre Rosa Magalhães e Renato Lage pelas primeiras posições, que marcou o período. Mais abaixo da tabela, o que não significa que eram ou melhores ou piores, artistas como Oswaldo Jardim construíram belos carnavais na contra-mão das linguagens dominantes, com personalidade própria. 

Conhecido mais genericamente como o "Rei da Espuma", por consequência do material de mais destaque ao longo de seus carnavais, Oswaldo construiu um jardim de ideias inteligentes em sua trajetória, marcado por soluções particulares, que marcaram bem sua personalidade artística. Desde do uso do multicolorido tropical e uma estética menos acadêmica, voltada a referências populares e da cultura de massa, como as histórias em quadrinhos e desenhos animados. Contrariando um estilo de carnaval que chamamos "barroco", abusando de linhas e formatos simples que desenhavam curvas e movimentos retilíneos.

Desfile do Império Serrano em 1989.

Em sua breve passagem pelo Império Serrano, em 1989, conduzindo o enredo "Jorge Amado Axé Brasil", apresentou uma estética bem próxima do que ele havia feito lá pelas bandas do Estácio de Sá anos antes quando estreou como carnavalesco principal. Na bela homenagem ao escritor, já deu indícios de como marcaria sua personalidade ao utilizar a linguagem das escolas de samba a seu modo, destacando-se pelo uso de colorido limpo e vibrante, com cores fortes, em qual cada ala formava um “blocão” de um tom cromático. As fantasias já teriam a assinatura marcante do carnavalesco, que se repetiria depois em diversos outros cortejos. Figurinos leves e balançantes, que se opunham ao estilo mais carregado de alguns outros profissionais. Grandes volumes formados de franjas, ráfias e tiras cortadas davam um tom corpuloso, mas leve, que servia bem aos componentes para pularem e se movimentarem com fluidez pela Sapucaí. Mesmo com tantas qualidades, a apresentação da Serrinha, infelizmente, foi esquecida historicamente, muito também por ter vindo logo depois do antológico "Ratos e Urubus" da Beija-Flor.

Na década de 1990, Oswaldo desenvolveria seus carnavais mais significativos e que repercutem até hoje em basicamente três agremiações vizinhas. Primeiro, na Unidos da Tijuca, sua grande parceria, onde assinou cinco carnavais, entre 1991 e 1999, dando uma personalidade jovem à escola, que ganharia novos contornos com a chegada de Paulo Barros anos antes. Outra passagem memorável de sua carreira foi na Vila Isabel, em 1993 e 1994, numa época em que a escola de Noel não teve tanto destaque como protagonista do carnaval. Sendo assim, a Vila teve nos desfiles assinados por Jardim suas apresentações mais marcantes naquela década.

Foto de Júlio Cesar Guimarães (O Globo)

Como no belíssimo, "Gbala, viagem ao tempo de criação", que apostou mais uma vez na sua estética colorida tropical e de alegorias marcantes, com o uso de esculturas cartunescas. Um desfile arrebatador e cheio de formas diferenciadas, embalado pelo belo samba de Martinho da Vila. De inesquecível, ficou uma alegoria com um assinatura bem ao estilo do artista, os carros monocromáticos, como o que falava da criação do homem pelo barro e tinha componentes em sintonia com as cores terrosas. Estética depois apropriada pela Unidos da Tijuca, em dois momentos, na homenagem ao Mestre Vitalino de 2012, e no abre-alas de 2016, marcando como Oswaldo deixou legado e ainda hoje é referenciado por suas criações originais.

Outra característica marcante das alegorias de Jardim foram os usos de materiais alternativos e poucos usuais na confecção dos desfiles à época. Não só as famosas esculturas de espuma, que se tornaram sua marca absoluta, a forragem de esculturas com diferentes materialidades apareceu em algumas apresentações assinadas por ele, como o uso do chamado "papel água", de aspecto furta-cor, que tinha sua tonalidade alterada pela luz, e leve. Nas esculturas, se destacavam o tom cartunesco de suas criações já citados aqui também, inspirados em desenhos e quadrinhos.

A inspiração popular é inclusive destacada por Fátima Bernardes ao apresentar o desfile de 1994 da Vila Isabel, que contava a história do bairro sede da agremiação. A jornalista destaca o interesse do artista em contar o enredo com toque de animação e HQs, seja pelas curvas e traços mais finos, seja pelo multicolorido simples e vibrante, que podia não representar a fidelidade histórica dos figurinos, mas os traziam para um universo mais lúdico.

Mangueira em 1996 (Foto de Widger Frota)
O último casamento marcante de Oswaldo nessa década foi com a verde e rosa do morro de Mangueira, durando dois anos. Primeiro, em 1996, com "Os tambores da Mangueira na terra da encantaria", sobre as lendas do Maranhão, que ganharam outro enfoque e visual nas mãos do artista, transformando o tema em um lindo desfile a luz do sol, com alegorias elaboradas e ao mesmo tempo leves por conta da espuma empregada. Destacando-se mais uma vez pelo uso de materiais diferenciados e os desenhos das alegorias muito singulares naquele período. As alegorias desse desfile são uma beleza à parte, como a marcante alegoria do sapo literalmente verde-e-rosa do segundo setor. Outro ponto interessente foi o uso inteligente do verde e rosa, de maneira menos carregada e extremamente bem resolvido cromaticamente. Com a força da comunidade mangueirense, a escola conquistou um honroso quarto lugar. 

Já no ano seguinte, em 1997, Jardim provou que o "Olimpo é verde e rosa" numa homenagem à trajetória dos Jogos Olímpicos e apelo ao sonho brasileiro de sediar as competições em 2004. Mas uma vez, destacou-se o bom gosto no desenvolvimento plástico, gerado pelas imagens como o olimpo de cores alaranjadas da segunda alegoria da escola, bem ao estilo monocrático que o artista gostava de empregar.

Abre-alas da Tijuca em 1999.
Falando em cores únicas que formavam alas e setores inteiros, é impossível esquecer a apresentação de 1999, no histórico "O Dono da Terra", na Unidos da Tijuca. Aliado ao antológico samba-enredo e uma comunidade aguerrida, que literalmente pulou na avenida, a apresentação foi um das memoráveis do grupo de acesso até hoje. A qualidade de escola era digna de um desfile no grupo especial, pelo uso de diversas características já citadas do artista, que se reforçaram em um dos seus melhores trabalhos.

Nas alegorias e fantasias, penas de pato e, novamente, a espuma deram a tônica. Os figurinos, mais uma vez, apostaram em grandes volumes feitos de matérias leves, com franjas e tiras cortadas, contemplando o aspecto volumétrico, mas sem pesar no ombro dos componentes. A segunda alegoria, o Tatu, era revestido de lama e plantas, que ornavam o carro com galhos de árvores naturais, um visual impactante para os padrões da época. Além disso, o abre-alas que trazia um pavão camuflado em meio a uma explosão vibrante de amarelo. Outros destaques foram a ala de baianas e o último carro, que abusavam das cores da bandeira nacional num bonito jogo cromático. 

Assinando ainda o desfile da Vila Isabel em 2000, o carnavalesco encerrou a carreira precocemente. No âmbito pessoal, Oswaldo teve uma vida conturbada e que acabou tirando esse grande artista cedo da festa, falecendo em 2003, sem o reconhecimento que merecia. Fora da avenida, Jardim apresentava os saudosos concursos de destaques do Hotel Glória, transmitidos pela extinta Rede Manchete de televisão, além de ter trabalhado também como cenógrafo.

Oswaldo no desfile de 1999 (Foto de Widger Frota)

Mesmo não tendo sido consagrado campeão e seu estilo estético ser aclamado como grande referência, Oswaldo Jardim aparece ainda hoje nas avenidas do Brasil, mostrando seu legado e poder criativo de um estilo bem definido e criado com apuro e personalidade seja na simplicidade das fantasia e no uso da espuma, seja das formas cartunescas, no uso das cores e tantas outras de suas características. 

Hoje e sempre, viva Oswaldo e seu jardim tropical.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

SINOPSE: Vila Isabel | "Em nome do Pai, do Filho e dos Santos, vem a Vila celebrar a Cidade de Pedro"





"Quem pensa que é feliz em outra terra
é porque
ainda não viveu aqui.
(Hino de Petrópolis)

Que rufem os bumbos! No repicar dos tamborins, pede passagem a Branco e Azul cuja força provém do samba, eterna nossa tradição! É a comunidade que vem resgatar o império da Coroa do nosso pavilhão, herança da Isabel princesa, marca da nossa história gloriosa de emoção! Bate forte a bateria para marcar o tempo, o tempo novo da majestade Vila Isabel, o tempo de exaltar a nossa Coroa, na festa do povo, celebrando os corações do bairro de Noel, encontrando-se com outra Coroa, a da Casa Real, destinada a criar uma Cidade Imperial.

Vibra uma Vila que se reencontra com as origens, com a sua negritude, com a sua raça! São através dos pés aguerridos das negras e negros que sambam e honram a história que vem a Vila louvar os louros de sonhos de outrora e dos de agora, mostrando a toda essa gente que samba de verdade é tradição do nosso sangue rubro e, em um gingado incomparável, quente. “Sou da Vila não tem jeito;
comigo eu quero respeito!”.

Portanto, encantem-se com a história que vamos contar, pois ela começa com Pedros, dos céus à terra, para criar uma cidade em uma serra.

O Santo. São Pedro que, desde o primeiro desfile da Branco e Azul, costuma lavar nossa alma e lustrar com seu sagrado encanto a Coroa da Escola, símbolo da força da gente que dá o sangue na avenida. O Santo que deu nome a tantos outros santos e homens!

O Padroeiro do Brasil e da futura cidade. Santo Pedro de Alcântara, em adoração ao Altíssimo, homônimo do primeiro e inspiração para nomear os senhores do Reino.

O Pai Pedro de Alcântara, Rei Soldado Dom Pedro I, quem sonhou com a cidade no alto.

E o Filho Pedro de Alcântara, Magnânimo Dom Pedro II, que realizou o legado.

E são os batuques da Vila que contarão a estória, com o fervor da seiva das suas raízes. Em nome do Pai, do Filho e dos Santos, vem a Vila celebrar a Cidade de Pedro e sua glória.

Lá, onde o céu toca a terra, acharam o crepúsculo de um mundo habitado pelos astros e seus donos: na Serra da Estrela, seus reis, os Índios Coroados, e um paredão, a ponte com o firmamento que transformava o fogo em relento.

Lá, os mistérios atraíam os olhares castigados do calor que nem o mar aliviava, e as bocas secas que encontrariam as águas cristalinas que talhavam a dura rocha, a água pura dos mistérios da Estrela Serra.

Avançando os anos, a ocupação lenta de uma serra a ser desbravada e, enfim, trilhas para as Minas, ouro para a Casa. Depois que a Coroa se instalou, subindo as tais trilhas tortuosas, outros caminhos pelos arcanos da serra passaram a encantar o Império à beira-mar. Partiu então o Pai para viajar e, lá, ao pernoitar, ao esquecer o sol inclemente, sonhou com ares mais amenos para corpos ainda não acostumados com o calor da vida que fervilha cá embaixo, ardente. Veio, após o peregrinar da carruagem, o sonho – uma cidade nunca vista nas terras quentes! Uma cidade que brilharia do cume daquela Estrela: do que esta, ainda mais imponente.

Mas quis a vida que o Filho realizasse o sonho-desejo. Pai morto, Filho imperador, e a Cidade de Pedro a ser erguida. Nos projetos, com o incentivo do mordomo e com o plano do major, foram idealizados, primeiro, um palácio e uma igreja para o Padroeiro: reinava a santidade da cidade a ser imperial, que começava a crescer, maravilhando os olhos acalorados do povo suado do litoral.

Nascia e vivia Petrópolis, com os exuberantes ares que, do alto, iluminaram todo um Império. Uma cidade moldada pelas mãos dos imigrantes, uma das primeiras planejadas. Destinada, pelos sonhos e vontades de Pai e Filho, a ser muito! Casa de Veraneio, um império no Império Brasileiro, uma Versalhes de refúgio abrasileirada, na verdade quase sempre ocupada – passou, o Filho, ali, quarenta verões, na cidade encantada. Para toda a gente da Corte, a vida embalada no colo de uma Estrela, onde Princesa Isabel, a filha Redentora, não se cansava de descansar para, mais tarde, ser a inspiração do nosso sambar, dando-nos a Coroa para embelezar a realeza do Escola de Noel, aqui perto do mar.

Mas Petrópolis encontrava-se com a história e com o tempo e, balançando no fiar do fado, um Barão iniciou o guino: estradas de ferro e novas rotas. O progresso! Com a pulsação dos avanços, o projeto de um trem a subir uma montanha! Nessa leva, outros gênios, e uma das estradas levou o nome do seu tino: União e Indústria, a primeira macadamizada, o futuro promissor. E além dos avanços, com o tempo que não para, o prenúncio de novas eras. Um baile de cristal que comungava e anunciava o futuro sem o terror da escravidão – dali a pouco, liberdade, e, após muita luta, abolição como canção!

Passou o Império, mas nunca a imperialidade. E, aguerrida, até uma capital Petrópolis se tornou quando, com a Armada, a então jovem República cambaleou. Brilhariam para sempre os palácios, mas, também, o triunfo de uma polis que progredia, soberana, namorando a abóboda celeste. Dos encantos de Petrópolis, convenções internacionais e um Brasil que se ampliava: veio o Acre, que passou a ser mais um aposento da nossa casa. Avançava e eis o novo símbolo da cidade: um Hotel-Cassino, de onde o mundo pôde admirar a Cidade Imperial na sua plenitude de norte a sul, de leste a oeste. Reina, ontem e hoje, a natural beleza das acolhedoras terras frias e das águas puras e límpidas, cujos encantos competiram apenas com os das musas que passaram pelos festivais, enchendo-nos de alegria!

Sempre em frente, caminha. Dobra-se o mundo que se encanta com sua real e avançada realidade. Luxo das vestimentas, delícias da cevada e frutífera imponência, pois, do passado ao presente, eis o Laboratório Nacional de Computação Científica: tecnologia e ciência. E futuro não lhe falta enquanto, daqui de baixo, a Vila lhe presta, enfim, esta respeitosa reverência.

Assim, São Pedro, que sempre abençoa nossa realeza e os tambores da Swingueira de Noel… E Santo Pedro de Alcântara, padroeiro do nosso chão e que não deixa na mão quem Lhe é fiel… Façam, através desta história, brilhar o ouro da tradição da Vila, da nossa negritude e da nossa Coroa Real, enquanto cantamos a plenos pulmões, admirados (e, com seus fantasmas, assustados!), outra Coroa, a de Petrópolis, a Cidade Imperial."

Autores: Edson Pereira, Clark Mangabeira e Victor Marques

terça-feira, 19 de junho de 2018

SINOPSE: Império da Tijuca | "Império do Café, o Vale da Esperança"






Após longa travessia pelos oceanos, centenas de milhares de Africanos desembarcam nos Portos do Rio de Janeiro, Paraty, Mangaratiba e Cabo Frio. Seu destino, o Vale do Café Sul Fluminense. A pé, enfrentando todas as intempéries climáticas, marcham sobre sol e chuva, pés descalços e com fome, rumo ao grande Vale de terras férteis, verdes matas, mas também de dor e escravidão; lar de seus lamentos, sua labuta e saudade. Assim o negro chega ao Vale do Paraíba, posteriormente conhecido como o Vale do Café. Esse plantado e colhido por mãos escravas.

 “O Nêgo tá cansado de trabaiá... Trabaia... Trabaia Nêgo...” 

Graças a sua chegada e ao ouro negro por eles cultivado, nasce uma áurea e aristocrática sociedade escravagista com toda pompa, luxo e alta cultura, como deveria ser uma próspera sociedade nobiliárquica rural.

O Vale é tomado por arte em forma de concertos, óperas, poesias, festas, ourivesaria, valsas, polcas, saraus... Corte; oriundos do escorrer do sangue vermelho/negro a banhar cafezal. Mas, assim como esta sociedade branca escravocrata introduzia em seus costumes a cultura europeia, o negro africano miscigenava sua herança cultural com a da nova terra... 

"Foi na beira do rio, Aonde Oxum chorou... Chora iê iê ô, Chora os filhos seus..." (Ponto de Oxum)

 Assim brota a pluralidade que encontramos hoje em nosso Vale com ritmos sincopados em seus lundús, maxixes, jongos, figurinos multicores. Exú, Obaluaiyê, Ogum, Oxumarê, Iroko, Iansã, Xangô, Obá, Oxóssi, Logun Edé, Ossain, Oxalá, Oxum, Yemanjá, Nanã, Ybeji, coloridas e poderosas divindades da natureza e a crença em ervas, rezas e benzedeiras, força da raça que não se deixou intimidar com a chibata algoz de seus senhores.

 "Na hora em que a terra dorme, 
enroladas em frios véus, 
eu ouço uma reza enorme 
enchendo o abismo dos céus..." 
 (Castro Alves) 

O Vale se transformou... O cafezal virou cidade, a história e o turismo e a dor de outrora, poeira ao vento. A cultura se expande sobre a influência de imigrantes que vieram atrás do sonho dourado nas terras Sul Fluminense, pisando em chão negro e magicamente gerar filhos genuínos brasileiros, resultantes da mistura de raças. 

Nasce o novo dono do Vale... 

Sua arte é múltipla! Nela destacam-se o jongo, calango, maculelê, caninha verde, capoeira, sociedades musicais, Folias de Reis, viola sertaneja, choro, serestas, orquestras, balé, canto lírico, artes plásticas e o samba onde sua origem se dá nos Quilombos das Serras Fluminenses e cantado por sua filha maior, Clementina de Jesus. 

"Não cadeia Clementina... Fui feita pra vadiá..." ( Clementina de Jesus) 

 O artesanato e a culinária somados a todas essas manifestações artísticas e folclóricas atraem turistas do mundo inteiro, gerando renda e progresso. 

Na religiosidade encontramos as quermesses e novenas dedicadas aos Padroeiros de cada Altar Matriz com seus belíssimos jardins aos pés. N. S. da Conceição, N. S. da Guia, N. S. da Glória, São Sebastião, N. S. da Piedade, Santa Teresa D'Ávila, Santana, N. S. da Soledade, São Pedro e São Paulo, Santo Antônio e Santa Cruz, formam a Ciranda de fé que cada cidade ostenta como seus protetores. No entorno desses altares em ouro com seus anjos barrocos, os terreiros de Umbanda e Candomblé com seus pés descalços e o ocultismo místico, curam, rezam e Benzem ao som de atabaques e pontos mágicos; herança negra com seu sincretismo cultural. 

"A Treze de Maio, Na Cova da Iria, No Céu Aparece, A Virgem Maria..." (Hino Católico)
  
Hoje o Vale é pecuário, agronegócio. Festa de Peão e rodeio. Muito do que consumimos nas grandes cidades foram sementes e embriões enraizados em pastagens que outrora, foram antigos cafezais. 

A indústria de minério, têxtil, automobilística, o comércio em grande escala fazem do Vale hoje, uma máquina próspera e de grande renda que emprega seus filhos e cria oportunidades de crescimento sócio urbano.

A educação é presente nas redes Municipais e Estaduais com ensino público de qualidade, assim como uma infinidade de escolas particulares com propostas educativas de grande relevância. Universidade e Faculdades são um capítulo à parte devido a infinidade de cursos oferecidos. No Vale encontramos o grande Hospital Escola Severino Sombra que atende toda a população não só da região como de vários municípios do Grande Rio.

O Vale possui a sua rede de TV própria que reflete ao mundo a beleza do Vale do Café, gerando notícias e programas que mostram o seu povo com toda a sua diversidade cultural. A TV Rio Sul como grande agente divulgador da cultura do Vale do Paraíba Sul Fluminense e Sul do Estado do Rio de Janeiro. 

Passando todos esses anos desde a chegada do negro em nossa região, a Império da Tijuca traz para a Avenida Marquês de Sapucaí esse lindo rosário de pérolas em que cada município do Vale do Café, colore sua conta com o que seu povo tem de mais puro e belo, o AMOR! 

Fernando A. Portugal – Diretor Cultural 
Jorge Caribé - Carnavalesco 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

#SérieCarnavalescos: O estilo arrojado dos carnavais de Mauro Quintaes

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan




Mesmo longe dos holofotes e da mídia, alguns carnavalescos conseguem delinear sua carreira com personalidade através dos desfiles que assinam. É o caso de Mauro Quintaes, que apesar de atuar há mais de vinte anos na festa tem seu estilo e trabalho pouco reconhecidos, em passagens marcantes nos grupos especial e de acesso, entre o Rio e São Paulo.

Quintaes começou a carreira trabalhando como assistente de Max Lopes, na Vila Isabel, na década de 80, seguindo como auxiliar do "Mago das Cores" até o início dos anos 90, quando juntos foram responsáveis pelos carnavais que levaram a Viradouro para o grupo especial, onde lá escola permaneceu. Em 94, com a chegada de Joãosinho Trinta a vermelho e branco de Niterói, Mauro continuou na agremiação, auxiliando o lendário artista maranhense. No ano seguinte, colaborou com outra escola do lado de lá da Baía de Guanabara, quando foi um dos agentes importantes para a ascensão da Porto da Pedra, estreando como artista principal.

Destacando-se como revelação logo em seus primeiros carnavais, garantiu boas posições em três casamentos seguidos com escolas alvirrubras. Caracterizando-se pelo estilo arrojado, alegorias modernosas e cenográficas, em um estilo de carnaval mais limpo, inspirado pelo High-Tech de Renato Lage, Mauro construiu um requinte marcante na passagem para o século XXI. Apesar de importante até os meados do início dos anos 2000, o artista patinou por posições medianas durante a última década e, sem espaço na folia do especial carioca, oscilou entre os grupos de acesso, tendo sua importância menos reconhecida.

Por isso, vamos relembrar agora os grandes carnavais desse artista e entender um pouco de como o carnavalesco desenvolveu sua identidade estética nas principais escolas por onde passou. Vem com a gente! 


Porto da Pedra 1995-98


A abertura da Porto da Pedra em 1996 (Foto Widger Frota)

Inspirada no sucesso da Viradouro, a Porto da Pedra deixou o carnaval do outro lado da ponte e veio tentar a sorte em terras cariocas. Com a força da comunidade de São Gonçalo e muito bem estruturada, a vermelho e branco teve no talento de Mauro Quintaes, em início de carreira, um de seus principais trunfos para se firmar na folia da Sapucaí. Dividindo o expediente em sua estreia como carnavalesco principal, Mauro foi responsável, em 1995, pelo carnaval da Caprichosos, no grupo especial, e deu a vitória ao Tigre no mesmo ano, no acesso. 

Para a estreia do Tigre no grupo principal, o enredo fez uma viagem pelos principais carnavais do globo em "A folia no mundo - Um carnaval dos carnavais". Apesar do tema muito explorado, a narrativa trouxe o frescor e a simpatia de um samba animado, muito bem defendido por Wantuir. Com uma entrada que apostou nas cores da escola, Quintaes começou a desenvolver seu estilo cenográfico, apostando em carros de formas limpas e bem desenhadas, aliado a um excelente acabamento. Contrapondo ao estilo clean das alegorias, as fantasias apostaram na volumetria e nos enormes esplendores, que fizeram a escola ganhar "mais corpo".

O abre-alas mesclou vermelho ao rosa. 

Embalada pelo inesquecível refrão "endiablado, eu tô", a comunidade de São Gonçalo comeu o asfalto da Sapucaí e aliou a beleza plástica à força necessária de uma agremiação que queria se firmar no grupo. Elogiada na transmissão da TV, a escola recebeu um inesquecível comentário de Fernando Pamplona, com seu estilo sempre perspicaz, que ao tratar da bela apresentação, resumiu: "ninguém é vermelho e branco impunemente", fazendo referência ao seu Salgueiro. A Porto da Pedra não só garantiu a permanência entre as grandes, mas faturou um honroso nono lugar.

"Doido para ganhar o carnaval", a Porto "mostrou as garras na avenida" com ainda mais força no ano seguinte, realizando o que seria um dos maiores desfiles da história da escola até hoje. Iniciando o que pretendia ser uma trilogia sobre grupos marginalizados pela sociedade, o enredo passeou por grandes personalidades e personagens da ficção considerados "loucos". Batizada de "No reino da folia, cada louco com sua mania", a apresentação repetiu a fórmula de um desfile com força nos quesitos de chão e um samba valente e animado, em consonância a bela plástica de Quintaes.



Assim como no ano anterior, o carnavalesco sobre trabalhar as cores da escolas nos primeiros setores para depois explodir em tons mais diversos. Com uma linda abertura, o abre-alas trouxe um delirante hospício, tendo um grande tigre em destaque e um letreiro que apresentava a agremiação. O conjunto alegórico foi dos melhores do ano, destacando-se por diferentes estilos de carros que seriam típicos do carnavalesco em seus carnavais seguintes, marcados pela arquitetura sempre definida e pelo bom aspecto de cenário, como no setor que lembrava "O Fantasma da Ópera". Sem exagerar na volumetria, as alegorias começavam, geralmente, com uma base bem desenhada e baixa que ia crescendo e formando diferentes palcos, com uma boa utilização dos "queijos" dos destaques para dar um aspecto arrojado, de formas vazadas, que fugiam de um estilo mais entulhado tradicional da estética chamada "barroca".

Foto: O Globo.

Ainda em 97, o samba-enredo conduziu bem a apresentação dando um toque mais leve ao tema e apresentando de maneira inteligente os personagens contados no enredo, que ousou mesclar nomes de fácil comunicação, como Raul Seixas e o Menino Maluquinho, à personagens menos conhecidos, como o bailarino russo Nijinsky e Bispo do Rosário, que começava a ser reconhecida no mundo das artes. A apresentação marcante e simpática alcançou um inesquecível quinto lugar, garantindo a volta da escola nas campeãs um ano após ascender, sendo o melhor posição conquistada pela escola alvirrubra até hoje na folia carioca. 

Depois dos "loucos", foi a vez dos "ladrões". Mergulhando em uma linha bem humorada e crítica, "Samba no pé e mãos ao alto, isto é um assalto!" lembrou grandes assaltos e marginais da história mundial. Novamente, a abertura foi um dos pontos altos da apresentação, trazendo uma divertida comissão de frente "aprisionada". Depois do hospício do cortejo anterior, o abre-alas representou uma lúdica prisão, trazendo outra vez um enorme e afirmativo tigre, num cenário moderno e traçado.

Foto: Hipolito Pereira (O Globo)

O primeiro setor apostou, mais uma vez, na mescla dos tons vermelhos com rosa e lilás, assim como as fantasias, que seguiram grandiosas, com enormes golas e esplendores volumosos. Já os carros alegóricos não tiveram o mesmo nível do ano anterior. De todo modo, um dos destaques positivos do conjunto foi o reforço de um estilo de alegoria pouco utilizada no geral, mas marcante: a de formas assimétricas. Quase sempre, todo desfile até ali e nos anos seguintes, Mauro apostou num carro que se destacava do conjunto por dois lados díspares, fugindo as formas mais harmônicas. Em 95, foi no setor que trazia a folia de Trindade; no ano seguinte, o que lembrou "O Fantasma da Ópera"; e naquela ocasião, o setor abordava o sedutor Casanova, ladrão de corações no enredo.

O desfilou contou ainda com passagens divertidas, apostando na criação de cenas através de alas coreografadas, que traziam um aspecto crítico ao abordar o tema. A última alegoria clamou pela justiça e pelo fim da impunidade aos criminosos, e se destacou pelo aspecto moderno formado por diferentes níveis, além de uma forte iluminação neon. Sem dúvidas, uma assinatura inconfundível do artista. 

Detalhe do abre-alas (Foto Widger Frota)

Na pista, em relação aos outros anos, a obra musical sofreu queda de qualidade, ainda que fosse simpática e animada, apostando em versos polêmicos que brincavam com os jurados do carnaval. Com menos força e ainda querendo alfinetar a liga, a emergente Porto da Pedra saiu da posição de destaque para um rebaixamento injusto, dando fim ao casamento entre a escola e o carnavalesco. Com isso, a trilogia dos marginalizados, que se encerraria com um desfile sobre as prostitutas, não foi concluída.


Salgueiro 1999-2002


Depois da passagem pela Porto da Pedra, que recebeu o jovem carnavalesco para sua estreia, foi outra alvirrubra a casa de Mauro. Em 1999, o carnavalesco começou uma bem sucedida parceria com a Academia do Samba em uma homenagem aos 400 anos da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Batizado de “O Salgueiro é sol e sal nos quatrocentos anos de Natal”, o enredo de Mauro teve auxilio de Luis Fernando Abreu para desenvolver o tema sobre a capital nordestina.


Abre-alas do desfile de 1999 (Foto: Widger Frota)

Na quarta escola a desfilar no domingo de carnaval, o artista deu um salto no que vinha desenvolvendo até então. Continuando "em casa" com o uso dos tons quentes, as fantasias grandiosas formaram um lindo tapete, aproveitando de maneira intensa as cores da agremiação. O abre-alas iniciou o cortejo de maneira impactante, com destaques para o letreiro trazendo o nome da escola. O uso desse artifício seria outra aposta corriqueira de Quintaes, em diferentes passagens de sua trajetória. Depois de alegorias mais compactas, o carnavalesco apostou em carro maiores e mais encorpados.

Apesar da boa plástica, problemas de evolução causados por um enorme contingente atrapalharam uma melhor apresentação da escola, que desfilou no melhor estilo "São Silveste", como conhecemos bem. Apesar disso, a quarta de cinzas trouxe um quinto lugar honroso, que estendeu o início deste casamento por mais um ano.

Abertura do desfile de 2000.

Em 2000, com a obrigatoriedade de contar os 500 anos do descobrimento da Terra Brasilis, coube por sorteio à agremiação passear pela transferência da corte portuguesa em “Sou rei, sou Salgueiro, meu reinado é brasileiro”. Numa apresentação cercada de expectativa, o carnavalesco deu conta mais uma vez do recado, apostando em um bom conjunto alegórico, como já era característico.

Os carros chamaram atenção não só pela beleza, mas por marcarem a sequência de uma proposta mais grandiosa do carnavalesco, sem perder sua assinatura clean. Como já havia acontecido, um dos destaques foi o carro assimétrico do conjunto daquele ano, que representava a Missão Artística Francesa de maneira impactante. Outra marca do artista apareceu na última alegoria que, assim como em outros anos, apostou no neon e uma inspiração "high-tech", para representar uma futurista caravela.


A nave futurista que encerrou o desfile de 2000. (Foto: Widger Frota)

Nas fantasias, muitas plumas foram vistas, em uma bela paleta de cores, mas sem trazer dificuldades de evolução pelo peso das vestes. Apesar das qualidades plásticas, a escola, novamente muito inchada, desfilou com o incrível número de 5.500 componentes e teve que apertar o passo para cruzar o fim da Marquês a tempo. Apesar de aclamado pelo público ao fim da boa apresentação, o Salgueiro conquistou uma modesta sexta colocação. 

Para 2001, uma ajudinha de cerca de R$ 1 milhão do Mato Grosso do Sul foi bem-vinda em outro passeio geográfico dessa parceria. Com "Salgueiro no Mar de Xarayés, é Pantanal, é Carnaval", a ideia do carnavalesco foi tentar sair do lugar comum de mostrar apenas a natureza local e abordar também a cultura do Centro-Oeste. A divisão do desfile começou com a representação do mar de Xarayés do título, que nada mais era o nome pelos quais os índios chamavam a região, passando depois pelos guaicurus e incas, pelo folclore e o artesanato.

Abertura da apresentação de 2001 (Foto LIESA)

Mesmo imaginando-se que as cores típicas da natureza predominariam, Mauro soube combiná-las muito bem ao vermelho e branco da Academia. Mais uma vez, se destacou o abre-alas projetado pelo profissional, com um grande tuiuiú, evidenciado por uma iluminação intensa e de formas vazadas. Para completar, lindos infláveis formavam as "costas" do carro. Mesmo com uma apresentação menos explosiva da comunidade, a Academia foi bem na apuração e conquistou o quarto do grupo especial, seu melhor resultado nos último anos e a melhor marca da carreira de Mauro desde sua estreia. 

Voando rumo a posições mais ambiciosas, em 2002, mais uma patrocínio generoso chegou para a agremiação, desta vez da TAM, para o desenvolvimento de "Asas de um sonho. Viajando com o Salgueiro, o orgulho de ser brasileiro", sobre a relação do homem com o desejo de voar. O desfile contaria a história dos pioneiros da aviação e seria uma homenagem ao comandante Rolim Amaro, que falecera pouco tempo antes.

(Foto: Widger Frota)

O enredo marcaria a estreia da parceria do artista com João Gustavo Melo, enredista que assinaria a maioria das narrativas de Quintaes a partir dali e daria personalidade aos temas do artista. Diferentemente de outros nomes, Mauro se caracteriza por ser um carnavalesco menos ligado ao desenvolvimento do enredo e sua importância narrativa, mas soube aglutinar um profissional importante que cumpriu essa função.

Voltando ao desfile, o abre-alas gigante também chamou atenção, como de costume, mas sem o brilho de antes. O conjunto alegórico e a paleta de cores passaram muito bem novamente, abusando mais uma vez no neon no carro da "Odisseia Espacial".

A alegoria sobre a navegação especial. (Foto: Widger Frota)

Aliado a estética, menos inspirada que os anos anteriores, o samba-enredo também não empolgou e o passo acelerado dos componentes, que já havia virado tradição, prejudicaram o cortejo de maneira considerável. Correta, mas sem brilho, a apresentação conquistou um justo sexto lugar, marcando a despedida de Mauro da Academia do Samba. 


Viradouro 2003-2005



Não abandonado o vermelho e branco, Mauro atravessou a Ponte Rio-Niterói para assinar a terceira alvirrubra seguida em sua carreira. Voltando como artista principal para a escola que ajudou a trazer para o Especial década antes, o artista apostou num enredo que cairia como um luva para um carnavalesco marcado pelos carros cenográficos: o teatro.

(Foto: Widger Frota)

A arte da atuação foi celebrada por uma de suas mais ilustres figuras: Bibi Ferreira. O enredo atravessou a grande carreira da atriz, lembrando seus papéis mais marcantes até uma homenagem a Procópio Ferreira, importante figura da cena teatral e pai da homenageada. Com experiência avançada em aliar o vermelho e branco, Quintaes mais uma vez brincou com a combinação no tapete da escola.

Abusando da pegada teatral, os carros voltaram a investir em um tamanho mais compacto e com aspecto cênico, dentro do enredo. Sempre apostando na abertura como um grande momento, o luxuoso abre-alas dourado representou o musical “O Avarento”, que apesar do barroco, não perdeu a limpeza sem excessos, característica do traço do artista nas alegorias. A alegoria em si marca uma boa síntese do estilo desenvolvido por Mauro nesse momento da festa, que ainda vivia os ecos do embate entre Rosa Magalhães e Renato Lage nos anos 90, onde os estilos batizados genericamente de "rococó" e "high-tech" se enfrentavam. Nessa dicotomia posta, Mauro foi um dos grandes nomes a misturar as duas vertentes de maneira inteligente, mesmo que às vezes ficasse uma nítida afinidade maior ao estilo do ex-carnavalesco da Mocidade. Quintaes sabia dosar um estética mais barroca quando o enredo pedia, sem perder a mão, como foi no caso do carro que abriu a apresentação daquele ano. 

A  alegoria que encerrou o desfile da Viradouro. (Foto: Andrei S)

Foi exatamente essa capacidade de mesclar os dois artistas mais importante da década passada que fez de Mauro um dos principais carnavalescos em atividade naquela início de século, se mantendo atualíssimo e original. Além disso, a Viradouro ainda contava com um super time, formado pelo grande Dominguinhos do Estácio, que defendeu muito bem o belo e poético samba daquele ano, e a bateria excelente de Mestre Ciça, já se destacando pelas bossas originais. Com tantos atributos, a Viradouro fez uma das grandes e memoráveis apresentações do ano, merecendo bem mais que o sexto lugar conquistado no resultado final.

O círio de Nazaré de 2004. (Foto: Widger Frota)

No ano seguinte, a sequência de bons carnavais continuou ao prestar uma homenagem ao Círio de Nazaré. A ideia original era fazer um novo samba-enredo sobre uma das maiores manifestações religiosas do mundo, mas a disputa musical foi cancelada em plena atividade. Com a liberação da LIESA para as reedições, a Viradouro foi um das agremiações a apostar na medida, trazendo de volta a obra de Dário Marciano, Nilo Mendes e Aderbal Moreira, apresentada pela Unidos de São Carlos, em 1976. Assim, o desfile ampliou a obra musical, abordando além da romaria, as lendas e a cultura paraense em "Pedi pra Pará Parou, com a Viradouro eu vou pro Círio de Nazaré".

O desfile começou já emocionante com uma abertura de efeito, em que se destacou a belíssima coreografia de Déborah Colker para a comissão de frente, que trouxe elementos tradicionais como a famosa "corda" de maneira ressignificada. Logo depois, uma ala trouxe um grande contingente simulando uma enorme procissão de maneira singela, arrancando aplausos da Sapucaí. O talento de Mauro em aliar o barroco e o moderno, mais uma vez, se destacou, como no segundo carro da escola, que trouxe a Catedral da Sé em uma cenografia de escadas que trazia o esplendor barroco dourado da igreja através de uma luz neon amarela.


A moderna alegoria que lembrava uma igreja barroca. 

Num dos melhores conjunto alegóricos de sua carreira, o artista apresentou suas características já tradicionais em outras lindíssimas alegorias. Um dos destaques foi a representação do Arraial, que não trouxe os tradicionais "queijos" para as composições, mas uma arquitetura bem traçada, abusando da iluminação. O carnavalesco soube, ainda, driblar muito muito bem a proibição do uso de imagens sacras que havia na época. Finalizando o conjunto plástico, as fantasias de muito bom gosto apostaram em formas volumosas e grandes golas. Credenciado ao título, o desfile marcou o ápice do casamento entre escola e carnavalesco, conquistando um quarto lugar.

Após duas excelentes apresentações, a relação entre a agremiação de Niterói e o profissional se encerrou em 2005, com um desfile complicado e marcado por falhas, contrariando o enredo "A Viradouro é Sorriso". A apresentação sobre o sorriso teve como o ponto alto, novamente, a abertura, com a excelente comissão de frente assinada por Colker, e um grande sapato de palhaço alegórico, que completava a "cabeça da escola" no lindo abre-alas.

A abertura da Viradouro em 2005. (Foto: Widger Frota)

O letreiro característico de Mauro veio, nesse ano, em uma boa e original solução, formado por composições à frente da primeira alegoria. Infelizmente, falhas mecânicas impediram o segundo carro de adentrar a pista, desfalcando a apresentação. Apesar de bem vestida e com alegorias divertidas, como a que trazia o sorriso de Monalisa em diversos estilos artísticos, a escola não foi bem, já que a falha técnica acabou influenciando vários quesitos, fazendo a escola da Cidade Sorriso conquistar apenar um oitavo lugar, bem abaixo das expectativas do pré-carnaval.

São Clemente 2008-2010


Depois de breves passagens pela Mocidade e Rocinha, Mauro vestiu as cores da escola da Zona Sul para comemorar os 200 anos da chegada da Família Real portuguesa ao Rio de Janeiro, se juntando aos carnavalescos Milton Cunha e Fábio Santos na missão de fazer a São Clemente permanecer na elite após a vitória no acesso. O enredo "O Clemente João VI no Rio: a redescoberta do Brasil…" contou os feitos do monarca em terras cariocas a partir da visão de Dona Maria I, a Louca, de maneira irreverente e bem humorada.

O desfile da São Clemente de 2008. (Foto: Widger Frota)

O casamento de Quintaes com outros artistas resultou em alegorias mais carregadas e com uma volumetria maior do que o tradicional traço arrojado do artista. O desfile contou com altos e baixos e, apesar do rebaixamento, Mauro seguiu nas bandas de Botafogo para 2009, para uma homenagem a Benjamin de Oliveira, primeiro palhaço negro. A escola entrou atrasada na Avenida, mas conseguiu se apresentar bem. E mesmo no acesso, o estilo cênico de Quintaes se destacou numa apresentação leve e bem desenvolvida plasticamente, que aliou as cores tradicionais da agremiação a tons de vermelho, laranja e até mesmo o dourado, que coloriram elementos circenses.

O desfile da São Clemente em 2009. (Foto: Widger Frota)

No ano seguinte, o enredo "Choque de Ordem na Folia" trouxe de volta os marcantes ares críticos da agremiação, lembrando o inesquecível "E o samba sambou..." ao apontar o dedo para tanta "desordem" no carnaval. Atualíssimo à época, o enredo usou como mote o programa que marcou o mandato de Eduardo Paes, como prefeito do Rio de Janeiro. Com um samba muito agradável, a escola começou numa crítica social e de costumes, até chegar aos rumos que a folia carioca tomava.

Foto: O Globo

Do conjunto, a segunda alegoria com um simpático gato, que fazia referência a gíria que significa roubo de energia, se destacou. Com um desfile simples, cênico e bem humorado, a escola fez uma grande apresentação. No final da quarta-feira de cinzas, apenas um envelope reservou uma nota diferente de dez e a escola retornou ao grupo especial, onde se mantém até hoje. Ali, chegava ao fim mais um casamento, e Mauro, com uma grande oportunidade, rumaria para a Zona Norte para representar outra escola tradicionalíssima: a Mangueira.

Unidos da Tijuca 2015-2017


Depois de três carnavais fora da elite carioca, com passagens por Império Serrano e a União do Parque Curicica, o carnavalesco chegou à Unidos da Tijuca integrando a comissão de carnaval que tinha a difícil missão de substituir Paulo Barros após três títulos na azul e amarelo. Mauro foi o único nome "de fora" da agremiação a formar o time, que promoveu profissionais que já trabalhavam nos barracões tijucanos, como o ferreiro Hélcio Paim, a desenhista Annik Salmon e o aderecista Marcus Paulo.

A abertura do enredo sobre a Suíça.

Com o time definido, a escola optou por um enredo CEP sobre a Suíça, onde Clóvis Bornay conduziria os foliões por uma viagem encantada a partir das histórias que seu pai, nascido no país, contava. A narrativa passeou pelo chocolate, dragões, o relógio e os gelados alpes. Dando nova personalidade, a comissão soube incorporar o estilo de Barros com alegorias humanas e coreográficas, somadas a fantasias criativas e bem acabadas. O destaque ficou por conta das belas baianas, que representavam a neve, todas de branco e prateado. Na apuração, a escola conseguiu um quarto lugar, se mantendo à frente da Mocidade, escola de Paulo Barros à época, que terminou em sétimo. 

Letreiros: uma das marcas dos abre-alas de Quintaes. (Foto: Widger Frota)

Ainda brincando com o atlas, Mauro e a Unidos da Tijuca seguiram viagem novamente, agora mais perto, no interior do Mato Grosso, para contar a história de Sorriso, capital do agronegócio. Com um samba inspirado, a escola cantou a lida sertaneja, o solo que trazia a fertilidade e a prosperidade do homem do campo. O desfile começou impactante, num bem resolvido abre-alas que apostou em tons terrosos, relacionando o surgimento da vida com o barro. As alegorias apresentaram o enredo de maneira leve e as fantasias cumpriram bem seu papel. Impecável nos quesitos de pista, a azul e amarela terminou brindada com um vice-campeonato, melhor resultado da carreira de Mauro.

Foto: O Globo.
Com um bom momento depois do vice-campeonato, a Unidos da Tijuca resolveu homenagear a música norte-americana a partir da comemoração dos cinquenta anos do encontro de Pixinguinha e Louis Armstrong, no enredo "Música na alma, inspiração de uma nação". Os dois músicos seriam os condutores do enredo que passaria dos cantos dos lamentos dos cativos antes da libertação até o jazz e os fenômenos atuais da música estadunidense.

Entretanto, a agremiação, por um triste infortúnio, se viu protagonista de uma das mais lamentáveis cenas do carnaval carioca em todos os seus anos: uma alegoria desabou em plena Avenida e alguns desfilantes ficaram machucados. O desfile, inexplicavelmente, continuou depois da prestação de socorro e a escola se viu desnorteada. O que se decidiu na quarta de cinzas foi que o rebaixamento estava cancelado e, mesmo se não estivesse, a escola terminaria em décimo primeiro lugar. Em uma situação desgastante com tantos trâmites e investigações após o acidente, a escola se viu abalada e teve de buscar se reestruturar, o que custou a permanência de alguns profissionais, inclusive a de Quintaes, que encerraria ali a sua passagem pela escola do Borel.



(Foto: Widger Frota)


Afastado do grupo especial carioca desde então, Mauro Quintaes encontrou espaço para expressar sua arte do lado de lá da ponte aérea. Construindo uma carreira no Anhembi, com passagens por Gaviões da Fiel, Tom Maior e Unidos do Peruche. Para 2019, inicia uma parceria com a Dragões da Real, escola em ascensão que busca seu primeiro título. O enredo escolhido é "A invenção do tempo. Uma odisseia em 65 minutos".


De estilo próprio e bem marcado, o carnavalesco desenhou uma trajetória importante para a folia brasileira, ao aliar bom gosto e modernidade. Destacado pela personalidade arrojada de suas alegorias, Quintaes fugiu do barroco exagerado convencional, se tornando nome importante da festa até meados do anos 2000. Mesmo que tenha perdido a força em apresentações medianas, vale a reverência a este grande nome na nossa série.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

#SérieCarnavalescos: Luiz Fernando Reis e a estética dos carnavais críticos

Por Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos segue valorizando nomes poucos reconhecidos da festa, com textos novos às segundas e quintas.




Poucos carnavalescos são tão ligados a história de uma agremiação como Luiz Fernando Reis à Caprichosos de Pilares. O imaginário irreverente da agremiação da Zona Norte tem no professor de Matemática e carnavalesco seu grande idealizador. Alinhado ao processo de redemocratização da década de 1980, o artista criou enredos críticos que iam de encontros ao anseios populares, abusando do humor e dos objetos cotidianos. Carnavais que entraram em sintonia com o público e sua época, tornando a Caprichosos e o estilo de Luiz Fernando dos mais importantes capítulos dos desfiles àquela década, deixando na história os carnavais mais marcantes da trajetória de ambos.


Em apenas seis desfiles na azul e branca de Pilares, entre 1982 e 1987, o carnavalesco, que tem formação em Matemática, “saudadeou” o que sumiu do dia a dia, mostrou Brasis e “Brazis” e exaltou nobres sem coroas e feirantes que maldiziam a inflação. Reis abusou do retrato de um país em processo de busca por uma nova democracia, escrevendo crônicas sociais e criticando a política nacional, focando sua produção em temáticas absolutamente corriqueiras, explorando o real, apropriando-se de objetos e memórias cotidianas para causar a reflexão do público, além de abusar ainda da linguagem escrita, preocupando-se com a mensagem final, e não com a forma.

A alegoria com frutas e verduras de verdade em 1982.

Deixando de lados os enredos mirabolantes e históricos, Reis se inspirou na leveza dos desfiles assinados por Maria Augusta na União da Ilha. Fã confesso da precursora do luxo da cor, o carnavalesco deu sequência a linha de temáticas ordinárias, acrescentando o que seria o seu diferencial: a crítica social e política. Em 82, quando estreou como artista principal em Pilares, ainda no grupo de acesso, faturou o título ao cantar as belezas singelas da Feira Livre, pela cozinheira Lili, alçada a protagonista pelo samba de Ratinho. Nesse passeio, coube ainda uma inovação e o samba criticou abertamente a inflação.

A sinergia entre o público e os desfilantes na apresentação, que aconteceu já com o dia claro, foi um dos diferencias do cortejo. Essa catarse promovida pela atualidade dos temas e pelo diálogo direto de Reis com a massa popular seria o que faria a Caprichosos ter a força popular que ocupa até hoje no imaginário dos foliões, diferente de outras parceiras de crítica na época, como a São Clemente, que apresentava desfiles mais sisudos.

Em desfiles como "E por falar em Saudade...", ao trazer o cotidiano de tempos antigos, Luiz Fernando Reis se aproximava do popular, dialogando com elementos banais e da dita cultura de massa. O carnavalesco perpassou desde o bonde, o amolador de facas, o leite sem água até a feira livre, até o humorista Chico Anysio, transformado em rei do humor e saudado por grandes nomes da comédia nacional, trajados como duques e barões. Uma divertida inversão.

Se nos respiros finais da ditadura civil-militar, algumas escolas começavam a ter de maneira velada alguma crítica ao governo vigente, Luiz Fernando foi um dos primeiros carnavalescos a fazer uma crítica direta ao regime, com o inesquecível carro alegórico de 1984, que trazia um muro grafitado clamando pelas "Diretas" em meio a caricaturas de políticos da época. Na frente, ainda havia um bobo da corte satirizando Salim Maluf, transformado em “Milas Fulam” na narrativa. O desfile da inauguração do sambódromo é um dos mais importantes da carreira do profissional, pois consagra sua ascensão na Caprichosos de Pilares e no imaginário carnavalesco, quando a dupla conquista uma ótima colocação com um desfile leve, descontraído e político, num gesto artístico de dessacralizar os desfiles com temas que se ligavam ao cotidiano de maneira tão objetiva.

Imagens do carnaval de 1984.
A mensagem política de Reis em seus desfiles se destaca por ideias claras e nada simbólicas. Em diversos desfiles seus, marcam-se a afinidade com a palavra e a necessidade da linguagem escrita para reforçar e criar certas legendas. Neste contexto, sugiram os "estandartes alegóricos", que se tornam verdadeiros cartazes de passeatas e manifestações, presentes na maioria dos desfiles de Reis como "palavras de ordem", que descreviam o que era mostrado e ajudavam no entendimento do que era narrado.

Essas pequenas alegorias marcariam outra característica importante da linguagem dos desfiles do "carnavalesco caprichoso", a estética do precário e do esculhambado. Ao contrário do luxo comum, Luiz Fernando Reis se interessaria em construir um estilo na contramão. Essa falta de apuro estético pode ser entendida como parte de uma proposta, na qual, o foco não é o alcance visual das formas e volumes a serem percebidos pelos espectadores. Ao contrário, as palavras de ordem acrescentadas nesse visual poluído e quase “sujo” reforçam seu caráter político.

Na mídia, escrita e falada, surgiriam comparações dos desfiles da Caprichosos de Pilares com um “bloco”. Esse caráter coletivo e “de massa” é reforçado através do desejo de Luiz Fernando em se comunicar com o povo, de massa (corpo de componentes da escola) para massa (público espectador), um dos fatores do sucesso da inesquecível apresentação de 1985, que faturou o Estandarte de Ouro de Melhor Escola daquele ano. Apesar de perder para a futurista Mocidade, o elogiado desfile da azul e branco de Pilares se sagrou como principal influência para o ano seguinte..

Visão geral do desfile de 1985 (Foto: O Globo)

Com "um novo sol a brilhar", as escolas fizeram em 1986 seu primeiro carnaval após o fim completo do regime ditatorial e, com o apelo popular de tempos políticos agitados, garantiram um dos anos mais "conscientizados" da história, quando várias agremiações investiram no tema social, até mesmo as mais tradicionais, como a Portela, marcando uma espécie de auge dos enredos críticos, destacando a importância e influência de Luiz Fernando, que adiantou a tendência. Apesar disso, este ano tão fundamental marcou uma apresentação frustrante da Caprichosos após a repercussão do desfile anterior. "Brazil com Z não seremos jamais, ou seremos?" mergulhou muito profundamente numa crítica exagerada e feroz ao americanismo e a industria cultural capitalista.

Mesmo com uma grande aceitação e repercussão de suas apresentações na Caprichosos, a trajetória da escola com Luiz Fernando Reis não seria marcada exatamente por bons resultados na classificação geral. O sucesso popular e midiático da agremiação faria crescer um desejo por melhores colocações, o que resultaria uma cobrança com a produção do carnavalesco, intimado a fazer um desfile “sério”, já que seu estilo era visto como algo menor e “engraçadinho”, não uma proposição artística como a dos nomes consagrados da folia. 

O abre-alas de 1987 na concentração.

Essa tensão ficaria evidente após o carnaval de 1987, que marcaria o afastamento do profissional da escola que lhe deu fama. Nas matérias publicadas nos jornais O Globo e Jornal do Brasil, a expressão “beija-florização” presente nos títulos das reportagens sintetizaria essa busca por se adequar à linguagem estética luxuosa, simbolizada pela Beija-Flor de Joãosinho Trinta. Na busca por melhores resultados, a escola preferiu apostar na lógica dominante ao invés de firmar sua identidade recém-construída.

Após a saída de Pilares, Reis patinaria sem rumo na folia. Primeiro, tentaria impor seu carnaval anárquico numa escola de personalidade oposta. O enredo "Conta outra que essa foi boa", sobre piadas e anedotas, fez a Imperatriz Leopoldinense não se reconhecer na avenida e amargar um último lugar. Logo depois, acabou negociado, atingindo um estilo mais clássico ao exaltar a negritude no Salgueiro. O resultado foi um bom e elogiado desfile, exaltando personagens revelados pela Academia anos antes, bebendo na fonte da estética revolucionária de Pamplona e Arlindo e abusando do vermelho. O único senão foi que a boa apresentação acabou sendo abafada pela histórica briga entre Imperatriz e Beija-Flor, em um dos anos mais conturbados da história da folia, 1989.

Os desfiles da Imperatriz (88), Salgueiro (89), Tijuca (90) e Ilha (92)

Na sequência, Luiz Fernando passaria por Tijuca e Ilha, em apresentações sem brilho e repletas de defeitos. Nem mesmo a volta à amada Caprichosos, em 1993, traria-o de volta ao protagonismo. Com o cenário político estabelecido, uma estética do luxo reafirmada pela vitória de "Liberdade, Liberdade" e o bicampeonato da Mocidade, Reis ainda tentou passear por temáticas mais cotidianas, como um passeio divertido pelo subúrbio e uma visão alegre da história da Rio Branco, mas sem o brilhantismo e a urgência de seus carnavais passados.

No especial, o carnavalesco assinaria, por fim, na São Clemente, parceira da Caprichosos na área crítica dos anos 80, o enredo “O que é, o que é, que não é mas será?”, falando do sonho de crescimento do país, em busca da estabilidade econômica. Como os tempos haviam mudado, a crítica se transformou em apoio, a escola acabou rebaixada.

Num cenário de início da década de 1990, que tinha Renato Lage campeão pela Mocidade com desfiles tecnológicos, a contestação perdia o sentindo. O trabalho de Reis se encontrava num meio do caminho problemático, pois já não tinha a estética simples e comunicativa de antes, nem se encontrava em pé de igualdade das escolas que disputavam as primeiras posições. Ao procurar então se adaptar à voz dominante, o carnavalesco se estagnou em um entre-lugar problemático, acarretando um fim de carreira esquecível, no qual passeou pelos últimos lugares, contribuindo para seu esquecimento.

As apresentações da Caprichosos de 1993 e 1994.

O fim pouco expressivo de sua carreira, contrariando a explosão inicial, marca a dificuldade do carnaval de absorver outras formas de desfiles, além dos luxuosos e barrocos tradicionais. Se o julgamento funciona como a legitimação de um trabalho, o júri não reforçou as qualidades artísticas de Reis, fazendo-o ser visto como uma produção menor e com menos qualidades do que os desfiles que alcançaram as primeiras posições.

Cobrado pelas agremiações em busca de bons resultados, o carnavalesco não soube se adaptar às necessidades do sistema sem perder suas principais qualidades, reforçando o caráter original de sua produção nos anos 80. É no terreno da apropriação de objetos, do uso da linguagem escrita e da estética do precário, que a produção de Luiz Fernando se firmaria pela singularidade, nos anos de 1980, nas escolas de samba, aproximando-se da vida e ruindo com a ideia categórica e sistematizada do carnaval capitalista.

Em 2018, com a urgente volta dos enredos críticos e sua revalorização na festa, é necessário louvar o pai de tudo isso, já que o seu legado, como artista protagonista dos desfiles criou um dos estilos mais relevantes e originais dos últimos tempos. Afinal, mesmo sem posições expressivas, sua herança permanece no imaginário, ainda sendo urgente para o carnaval.