terça-feira, 30 de agosto de 2016

Que enredo é esse? - Chega junto, Sampa! - Parte 1





Amados carnavalizadores ambulantes, cheguei nessa bagaça! O Carnavalize vem apresentando uma série de “análises” grandes analises carnavalescas sobre os enredos para 2017. O Grupo Especial e a Série A do Rio já deram as caras e agora chegou a hora do Grupo Especial paulistano encarnar Anitta e mandar um "vocês pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje?", chegando com tudo para sua estreia em nosso site. Vem que hoje é dia de carnavanálise, bebê!




"Elba Ramalho canta em oração o folclore do Nordeste. Toque sanfoneiro: forró, frevo e xaxado..."
Tom Maior

A Tom Maior voltará à elite do carnaval paulistano no ano que vem depois de ser rebaixada quando mexeu com a adrenalina do povo de uma forma bem desagradável em 2015. Para ficar na casinha em que morava há um bom tempo antes de dar uma saída, Cláudio Cebola é o nome de quem assina o desfile. O Carnavalize torce para que não aconteça nenhum acidente - tipo um atropelamento por um carro alegórico e tals. Tâmo puxando um pai nosso aqui, Cebola! #SomosTodosCebola


Falando no enredo, Cebola acertou em cheio. Escolheu Elba Ramalho já que ele quase não gosta de homenagem  para cruzar o Anhembi como a grande estrela do enredo. A bossa do tema é que não vai ser algo biográfico, mas sim a maravilhosa Elba cantando o folclore nordestino, coisa que fez - e faz - durante toda sua carreira. Arrasou!





"A vitória vem da luta, a luta vem da força, e a força, da união"
Mocidade Alegre



Já a maior potência do carnaval paulistano CALMA TORCEDOR DO VAI-VAI na atualidade, a Mocidade Alegre, se f*deu no sorteio e amargou a segunda posição de desfile. Acho que cabe à Solandiva Bichara conversar com sua migs Angelina para pedir umas dicas de como ser vice ano que vem, pois é bem capaz que isso seja o máximo que a Morada consiga. AH, PERA! É a Mocidade, cara, dane-se a posição. Até porque Solanjão da massa foi buscar um reforço DAQUELES no Rio para substituir Sidnei França (pausa para o torcedor da Mocidade chorar). Trata-se de ninguém menos que Leandro muso Vieira, atual campeão do Grupo Especial carioca com a Mangueira, ou seja, é uma baita contratação. Aliás, a contratação é ainda mais competente quando ao invés de o deixar sozinho comandando o carnaval das duas escolas, Soberange o colocou numa comissão de carnaval cheia de gente já conhecida por bons trabalhos no carnaval de Sampa. Logo, o rapaz não ficará tão sobrecarregado. É difícil ganhar, mas nunca que podemos tirar a queridona da briga.

O enredo da escola fará uma homenagem a si mesma, que completará 50 anos em 2017. Mas confunde-se quem pensa que o enredo é sobre a história da escola. Não, não é. Deixa que titio Driguérrimo aqui explica. O enredo usa a famosa frase de Rainha Bichara para seu desenvolvimento e explicará que para chegar à vitória precisa-se de luta, para haver luta precisa-se de força e para a força existir é preciso união. Além disso, no final a Morada aproveita para falar de suas conquistas e mostrar para geral que sabe bem o que tem que fazer pra chegar à tal vitória. Baita enredo!


*Em tempo de olimpíadas/paraolimpíadas, fica registrada minha capacidade de misturar Solange Bichara + adjetivos várias vezes. Com certeza é um recorde.





"Aparecida - A Rainha do Brasil. 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro"
Vila Maria



Depois de passar uma que já abriu várias vezes as perninhas portas de sua quadra para receber a taça, vem uma das virjonas de SP. E, mesmo não sendo a Mangueira, a Vila Maria vai na vibe "só com a ajuda do santo". #agoravai Da santa, na verdade, pois seu enredo é sobre Nossa Senhora Aparecida. Como disse antes, Sidnei França saiu da Mocidade e foi na Vila Maria que encontrou uma oportunidade de ganhar mais renovar-se. Ele disse pra gente em uma entrevista que tá sendo tranquilo trabalhar com uma figura muito sagrada da Igreja Católica, coisa que historicamente causa problemas no carnaval. Com certeza essa tranquilidade torna o enredo ainda mais forte. Enredaço! 









"Mãe África conta a sua história: do berço sagrado da humanidade à abençoada terra do grande Zimbábue"
Tatuapé


Saindo de uma virgem sessentona pra outra, a Tatuapé será a 4ª escola da sexta-feira de carnaval em São Paulo. 

Olha só, além de fazer humor à lá Praça É Nossa, a gente aqui do Carnavalize prega por muita sinceridade, e sendo sincero, é meio difícil entender até hoje o vice-campeonato da Tatu em 2016 - onde ela homenageou a Deusa da Passarela, Beija-Flor. Obviamente Neguitão sentiu o cheirinho de "crorofila" pelo ar...


Mas isso é com os jurados e a Tatuapé não tem nada a ver com o assunto. A escola vai até aproveitar o bom momento para vir repaginada em 2017: um novo carnavalesco e um enredo bem diferente do que vinha mostrando para nós nos últimos anos. Sim, Xuxa saiu da Tatu e foi pra record Imperador do Ipiranga. Desejamos #xuxessos para ele. A missão de substituí-lo é de Flávio Campello, que esteve na comissão de carnaval da Dragões nos últimos dois carnavais. E o enredo? Afro. Zimbábue foi a escolha da Tatuzona pra tentar continuar no topo. 

Pra não ficar naquele famigerado CEP, o carnavalesco optou por focar bastante no povo Banto, uma etnia africana. Concordamos que um afro bem feito é sempre perigoso para os adversários, não é? Pode dar trabalho sim, até porque...




"Com as mãos e a garra de um povo sonhador, surge o contraste de uma nova metrópole - Sampa, lugar de sonhos, oportunidades e esperança"
Gaviões da Fiel


Já a Gaviões sabe o que é ganhar, mas já tá quase esquecendo de como se consegue isso, já que seu último título foi em 2003. E pra tentar sentir esse gostinho de novo ela resolveu fazer uma receitinha saborosíssima. Confira:


Brincadeiras à parte, a Fiel trará os migrantes que ajudaram e ajudam a construir São Paulo e enxergam na cidade a chance de se dar bem na vida. O enredo será assinado por Zilkson Reis novamente e talvez seja o mais parecido com a escola dentre os últimos que ela apresentou. A gente só não sabe onde vão enfiar o Corinthians aí, mas sempre dão um jeito. Bacaninha!


"Eu sou a arte: Meu palco é a rua"
Tucuruvi


Após os gaviões passarem, a passarela receberá o gafanhoto verde da Cantareira. Outra virgem, né? É desfile de escola de samba ou encontro de jogadores de LOL? Enfim, a Tucuruvi, escola que tem o presidente mais fofo do universo - SEU JAMIL <3 - vem meio tristinha depois de amargar a décima colocação em 2016, pior resultado desde aquele sorvete azedo de 2008. Para voltar a figurar na parte de cima da tabela - ou até vencer, porque não? - o maravilhoso Wagner Santos, carnavalesco da escola, teve a super ideia de homenagear os artistas de rua. Uma super sacada, até porque São Paulo nos dias de hoje é uma grande referência para a arte urbana. Com certeza um dos melhores enredos do ano em SP - tentem acreditar que a última frase foi imparcial. Seriedade, por favor!




"Amor com amor se paga. Uma história animal!"
Águia de Ouro





E pra fechar... Outra virgem! PQP A Águia de Ouro vai encerrar o primeiro dia da folia paulistana. A escola vem mordida pelo 8º lugar de 2016 e quer morder todo mundo. Isso porque o enredo da escola é sobre o melhor amigo do homem, o cachorro. Na verdade, o enfoque maior é na proteção aos animais, então vários animais irão dialogar com os cães no desfile. Vai ser uma bicharada ui daquelas. Como a gente não brinca em serviço, conseguimos com exclusividade uma imagem da comissão de frente da Águia de 2017.

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O enredo é de autoria do carnavalesco da agremiação, o talentosíssimo Amarildo de Melo, que continuará assinando o carnaval da escola da Pompéia no próximo ano. O tema já vem dividindo opiniões: enquanto uns detestam, outros adoram a ideia. Bem, é um tanto quanto fofo, mas com a escola sendo a última a desfilar na primeira noite, será que o enredo tem a força necessária pra segurar o povão na arquibancada?

Além da renovação do carnavalesco, Douglinhas continuará sendo o intérprete da Águia de Ouro. Com isso, lançamos a nossa campanha #Cãoglinhas2017 - SÉRIO, A GENTE PRECISA DO DOUGLINHAS VESTIDO DE CACHORRINHO NESSE DESFILE. Deixarei um aperitivo para vocês:




Bem, fico por aqui. Na próxima semana eu falo sobre os enredos do segundo dia de desfiles do carnaval paulistano. Não percam, viu? Beijão, amados!





                   

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

12 alegorias inesquecíveis de Renato Lage

por Leonardo Antan




Sinônimo de High Tech, Renato Lage soube se manter atual e revolucionário desde que assinou seu primeiro trabalho, lá pros idos de 1980. Discípulo da grande escola de carnavalescos de Fernando Pamplona, começou a carreira como tantos outros na equipe do meste. Cenógrafo de formação, suas alegorias chamam atenção pela limpeza e a forma. 

De uma simplicidade e objetividade absurdas sem perder o lúdico carnavalesco. Com mutias vitórias e passagens emblemáticas por grandes escolas, a carreira de Lage também é marcada por suas esposas. As duas os auxiliaram em momentos diferentes e, cada uma a seu modo, contribuindo para a assinatura de seus carnavais. A primeira delas, Lílian Rabello, o acompanhou em suas passagens pelo Império Serrano, Caprichosos e Mocidade. E mais recentemente, a partir da virada pro século XXI, entrou em cena Márcia Lávia, atual Lage, com quem dividiu a autoria dos desfiles em toda sua trajetória no Salgueiro. 

Numa homenagem ao rei da forma, nós separamos 12 alegorias que entraram para história do carnaval com a assinatura desse grande artista. São tantas esculturas, desenhos, personagens inesquecíveis, que foi um verdadeiro desafio escolher apenas doze. Tentamos então abranger o máximo de agremiações diferentes por onde Renato passou fazendo uma cronologia quase completa de seu estilo, confira:


1 - Macobeba, o que dá pra rir dá pra chorar - Tijuca 1981



Em seu primeiro carnaval no grupo especial, Renato já nos brindou com o que seria uma das apresentações mais marcantes da história da Unidos da Tijuca. A escola que não tinha a força que tem hoje, brigava pelas últimas posições. Renato fez um enredo baseado num livro que contava a história de caipira contra o monstro do capitalismo Macobeba. A personificação da fera ficou emblemática pela forma que ganhou. A escultura foi feita por copos de plásticos e os olhos por dois aparelhos de televisão. 

2 - Mãe Baiana Mãe - Império 1983



Com a difícil missão de assumir o Império Serrano após o histórico título de 1982, Renato Lage teve que reinventar a Bahia no desfile com enredo do mestre Pamplona. A missão era difícil, já que o estado mais negro do país que já havia dado o título dois anos antes para a Imperatriz de Arlindo Rodrigues. O desafio foi cumprido e a apresentação da Serrinha entrou pra história. 

4 - Luz, câmera e ação - Caprichosos 1988 



Depois da passagem pela coroa imperial, o artista recebeu outro pepino nas mãos, assumiu a querida Caprichosos de Pilares, no seu primeiro carnaval sem o carnavalesco Luiz Fernando Reis que fez história com seus desfiles irreverentes. Renato então deu adeus a personalidade crítica criando um enredo sobre o cinema, com um trabalho plástico requintado. 


5 - Chué, chuá, as águas vão rolar - Mocidade 1991 


Após a estadia rápida pela escola de Pilares, Lage recebeu mais um desafio, assumir a vitoriosa Mocidade que vivia o luto da perda de seu grande carnavalesco, Fernando Pinto. Marrento, ele fingiu não ligar pra responsabilidade e foi campeão já no primeiro ano. Em 1991, quando foi bi, encantou a Sapucaí com um feto dentro de um globo terrestre, que passava a mensagem ecológica do enredo sobre águas. Um primor. 

6 -  Marraio, feridô sou rei - Mocidade 1993



O desfile de 1993 da verde e branco passou despercebido no ano do Ita do Salgueiro, o enredo falava sobre jogos e brincadeiras infantis. Mas uma escultura entrou pra história por sua singeleza e colorido. O menino jogando joystick marcou gerações de crianças que sonhavam usar aquele boné e os óculos tecnológicos. 

7 - Criador e Criatura - Mocidade 1996



A década de 1990 foi marcada pela rivalidade entre a barroca Imperatriz de Rosa Magalhães e a moderna Mocidade de Renato Lage. Muito além de rótulos, os dois artistas que dividiam o pódio mostraram versatilidade e criatividade em seus trabalhos. Num ano de título para Padre Miguel, ficou no inconsciente coletivo as mãos do criador que moldavam a formação dos planetas, uma beleza singular. 


8 - De corpo e alma na avenida - Mocidade 1997



Falando sobre o corpo e a alma humana, o mago High Tech reinventou a escultura de carnaval ao levar para a avenida o coração mecânico no desfile daquele ano. O órgão feito de material translúcido e com uma estética de máquina fez pulsar mais fortes os independentes com tanta originalidade. 

9 - Villa-Lobos e a apoteose brasileira - Mocidade 1999



Provavelmente a mais icônica e bela criação do artista, o pierrô do enredo sobre o maestro Villa-Lobos encantou a Sapucaí. Com beleza e grandeza, a escultura marcou mais uma vez o uso de matérias de alternativos, uma caraterística de Renato. A gola e o gorro eram feitos de copinhos de plástico trazendo a leveza do personagem eternizado na história carnavalesca. 

10 -  Tambor - Salgueiro 2009



"Vem no tambor da academia...", depois uma longa e vitoriosa passagem pela Mocidade, o mestre da forma saiu de Padre Miguel com destino a vermelho e branco da Tijuca. Num casamento que já dura mais de treze carnavais, Renato e sua parceira Márcia reinventaram a assinatura contemporânea do artista. O título de 2009 marcou o retorno das grandes obras alegóricas de sua carreira, os animais que formavam o couro do instrumento título marcou por sua originalidade e objetividade narrativa. 

11 - Salgueiro apresenta: o Rio no cinema - Salgueiro 2011



Num dos seus melhores trabalhos plásticos recentes, Renato pirou em cima da temática cinematográfica que embalou um desfile de tirar o fôlego só não sendo campeão por problemas técnicos e o atraso da escola. Alegorias lindas como o abre-alas que lembrava um cinema antigo da Cinelândia e a mão de Netuno do tesouro de Atlântida foram os pontos altos da apresentação, mas o genial High Kong no relógio da Central foi a imagem eternizada da apresentação.  

12 - Do Fundo do Quintal, Saberes e Sabores na Sapucaí - Salgueiro 2015



Surpreendendo a Sapucaí mais uma vez, Renato se reinventou no desfile sobre a cozinha mineira. Com alegorias impressionantes e criativas, o Salgueiro levantou as arquibancadas com seu samba morno abrindo muitas bocas quando a alegoria que falava sobre o clico do ouro passou. Num raro momento, a obra-prima que trazia escravos toda feita em material dourado reluziu como poucas outras já vistas.











sábado, 27 de agosto de 2016

Carnavápolis | O que é que as baianas têm?



A ala das baianas é sempre um momento especial de uma escola na avenida, atualmente elas sempre encarnam figuras importantes do enredo, desfilando com as mais diferentes indumentárias. A nossa cidade do carnaval hoje será tomada um mar de saias rendadas, torços, panos da costa e muitos balangandãs. Pegue seu turbante e suas pulseiras e venha conhecer a história desse ícone hoje.


Já no primeiro desfile oficial das escolas em 1935, organizado pela UES, dois itens do regulamento causam estranhamento vistos hoje. A proibição dos instrumentos de sopro e a obrigatoriedade das alas das baianas. Por que as escolas recém criadas, com seu primeiro desfile três anos antes, teriam escolhidos tais itens?

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A figura da baiana como quituteira e sua roupa volumosa eram uma das marcas do Rio de Janeiro, fazendo com que a baiana seja uma invenção carioca. Aqui elas eram diferenciadas e assim chamadas, na Bahia, eram apenas mulheres quituteiras. Desde o século XIX, com as escravas de ganho, a figura circulava pela cidade com seu tabuleiro sendo retratada por diversos artistas viajantes, como o icônico Debret. Já no início do século XX, a baiana já era vista com um dos símbolos cariocas, seja por seus dotes culinários ou religiosos. Foi na barra de uma delas que o samba nasceu, no terreiro da imortal Ciata. Dentre outras mães de santos que habitavam a região conhecida como Pequena África, atual zona portuária. 




A figura de torso e pano da costa é exemplo fundamental para entendermos a consolidação do samba e do carnaval como símbolos nacionais, pois está marcada por uma série de tensões e negociações. Primeiro pois sua figura é mais complexa do que imaginamos. Apesar de ser lida como uma figura negra, a sua típica indumentária com rendas e anáguas é tipicamente branca e europeia. Internacionalizada, pela "portuguesa mais carioca" que o mundo já viu. Carmen Miranda é parte fundamental dessa história, pois deglutiu as baianas negras e as transformou num ícone de brasilidade a ser vendido para os outros países, numa época em que o Brasil procurava constituir sua imagem como nação perante o mundo. A icônica "O que é que a baiana tem?" do imortal Dorival Caymmi se consolida como um verdeiro check list do que categoriza uma baiana legítima. 

A obrigatoriedade da ala nos primeiros desfiles afirmava a tradição das recém criadas instituições carnavalescas. A figura africana remetia a ancestralidade do samba e das escolas, virando rapidamente uma das marcas dos grupos que se apresentavam na Praça XI.  Juntos a baianas, os malandros e as passistas virariam três figurais fundamentais do carnaval, retratados nas pinturas modernistas do período. Artistas como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Goeldi e Cândido Portinari buscavam dar cores a essa ideia de Brasil que vinha se formando. A terra do samba e pandeiro. 



No mundo dos confetes e serpentinas, a mais tradicional ala vem sendo desde sempre ressignificada e ganhando novas características com a mudança dos desfiles ao longo da história. Diferentes carnavalescos usaram a longa saia para reinventar o conceito de baiana e nos brindar com belíssimas fantasias. O barroco Arlindo Rodrigues marcou sua passagem na Imperatriz com baianas inesquecíveis no campeonato de 1980 sobre a Bahia. Esculturas de grandes negras foram um dos pontos altos daquela apresentação e a ala desfilou duas vezes, uma com seus quitutes e panos da costa verdes e outra mais barroca, com elementos dourados.

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O irreverente Fernando Pinto usou e abusou das senhoras de Padre Miguel para levar para avenida as mais divertidas e tropicalistas baianas que a Sapucaí já viu. Seja com perucas coloridas, saias de oncinha ou seres siderais. Trazendo muitas inovações no formato da roupa que fizeram alguns tradicionalistas torcer o nariz, mas trouxeram ainda mais modernidade e beleza para as herdeiras de Ciata.

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Outra que sempre aproveitou a roupa volumosa e fez verdadeiras joias foi a Deusa Rosa Magalhães. A versátil carnavalesca já apresentou as mais diversas fantasias. Em 1987 no Tititi da Estácio, suas “baianas da liberdade” foram criticadas pela ousadia de trazer uma saia em três camadas, invés de uma só. Na sua longa paisagem pela Imperatriz, as senhoras assumiram as mais variadas formas, de borboletas a azulejos portugueses. Já no seu título mais recente, ela trouxe a beleza de belas joaninhas para a Vila Isabel.

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Se alguns tem nas baianas o ponto alto de sua carreira, outros tentam ousar e reinventar a roupa mas acabam pecando em excesso. Se nas alegorias, as ousadias de Paulo Barros são sempre recebidas com aplausos, na tradicional ala o mesmo não acontece. Seus figurinos nos últimos anos são exemplo de gosto duvidoso e até certo desrespeito com a ala. Inovações são sempre bem vindas, mas na medida certa. 


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Fora isso, as verdadeiras herdeiras de Tia Ciata também já se apresentaram ultimamente com formatos que fugiam do tradicional: ou com saias vazadas, colocando as pernas de fora, ou em formatos não convencionais na saia. Em 2007, a Porto da Pedra apresentou, o que pode ser considerada, a maior ala de baianas da história que cobria um setor inteiro com uma roupa em três cores branco, cinza e preto. Assinadas pelo apoteótico Milton Cunha. 
  
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Em 2014, um fato curioso aconteceu. As escolas Imperatriz e União da Ilha apresentaram fantasias muito parecidas, com a saia em formato de bola de futebol. Uma feliz coincidência. Algo parecido também aconteceu em 2006 e 07. A Viradouro desfilou com baianas bem parecidas com que a Mocidade havia apresentado um ano antes. 


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Recentemente uma grande polêmica tomou conta do mundo do samba com o anúncio feito pelo Laíla dizendo que a ala das senhoras viria com os seis nus na fantasia que contaria o enredo sobre Iracema. O mundo do samba se dividiu entre os que aprovaram ou não a ideia. Longe de polêmicas, nossas mães da folia são um dos saberes essências da festa. Uma homenagem as raízes da folia. Com ou sem pano da costa, com ou sem sutiã, sempre serão um dos maiores ícones e a representação máxima da folia brasileira. 

As baianas ainda não sei o que elas têm, que as deixam tão esplendorosas. Mas se as escolas de samba são o que são, é porque baianas elas têm. 



*Foram usados como base pra esse texto o artigo e dissertação "Yes, nós temos baianas: o processo de construção da figura da baiana de escola de samba do século XX" de Vãnia Araújo Mourão e os artigos sobre o tema de Roberto Conduru encontrados no livro "Pérolas Negras".






Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro. Atualmente, cursa História da Arte na UERJ onde pesquisa também sobre o tema.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Carnavalizadores de Primeira | Júlio Mattos: um artista verde-e-rosa

por Leonardo Antan



A segunda maior campeã do carnaval, com títulos em todas as décadas de desfile, vencedora do primeiro concurso entre as escolas 1932... Adjetivos e qualidades não faltam para uma das maiores escolas da nossa folia, que disputa o lugar de mais tradicional agremiação com a Portela. Mas além de Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Dona Zica, Neuma... Houve um artista que fez deu a sua cara a verde-e-rosa e vice-versa. Seu nome é Julinho Mattos, ou Julinho da Mangueira, que assinou carnavais nas décadas de 1960, 70 e 80. Sendo responsável por cinco dos dezoito títulos da Estação Primeira.


Júlio Mattos no barracão da Mangueira na década de 1980 (Foto: Tantos Carnavais\Globo)

Morador de uma favela próxima ao morro dos barrocões de zinco, Júlio foi um artista autodidata com incrível talento artesanal. Nunca frequentou a academia e nem chegou a concluir o antigo ginasial, mas foi louvado pelo Pai de Todos, Fernando Pamplona: “Julinho é um artista puro, simples e ingênuo: sem estrela na testa ou gás néon no chapéu. Artista do povo que não escolhe local nem tempo para trabalhar, que goza e vive o que faz. Tenho inveja dele, gostaria de ser ele.” Outra que também teceu elogios, foi a carnavalesca Maria Augusta que o coloca com uma das bases da estética do carnaval dos anos 60 e 80, responsável pelo o que ela chama de “barroco carioca”.


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O artista do povo chegou na velha Manga em 1963 já causando polêmica ao escolher o enredo “Exaltação à Bahia”, numa época em que temas nordestinos e, principalmente, ligados ao estado mais negro do Brasil eram vistos com desconfiança e considerados azarados. Mas ele quebrou o tabu e conseguiu um segundo lugar, atrás apenas da imortal Xica da Silva do Salgueiro. Paralelo a revolução negra salgueirense, levou pra avenida o enredo afro “Memórias de um preto velho” em 64. Três anos depois, veio o primeiro título com o inesquecível “O mundo encantado de Monteiro Lobato”, que é tido como o primeiro samba-enredo a ter sucesso nacional. No ano seguinte, se sagrou bicampeão com “Samba, festa de um povo”.



Paralelo a verde-e-rosa, Júlio também dava expediente na azul e amarelo do morro vizinho. Em 1954, ajudou a fundar a “Paraíso do Tuiuti”, fruto da fusão entre as escolas “Paraíso das baianas” e “Unidos do Tuiuti”. Assinou carnavais na escola desde a sua fundação até 1990, poucos antes de falecer, um casamento interrompido poucas vezes, como no começo da década de 1980, quando Maria Augusta assinou três desfiles na agremiação.

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Na Estação Primeira teve idas e vindas. A primeira passagem que se iniciou em 1963 só acabou mais de dez anos depois em 1974. Com três títulos (67,68 e 73) e quatro vices (63, 66, 69, 72). Uma segunda de 1977 a 1979 com um vice em 78. E a última e vitoriosa parceria de 1986 a 1989, sendo responsável por mais um bi com os inesquecíveis desfiles sobre Dorival Caymmi e Carlos Drummond de Andrade. Em 88, o vice com sabor de vitória com o inesquecível (e atual) “Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão?”, protagonista do eterno e polêmico duelo com a imortal Kizomba da Vila. Por fim, veio o fatídico “Trinca dos Reis”, em 1989, que terminou num desastroso décimo primeiro lugar. Dando fim a um dos mais bem sucedidos casamentos do carnaval.

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Se faz parte da identidade da Mangueira homenagear grandes nomes da música e da cultura brasileira, Júlio foi um dos responsáveis por imprimir tal marcar à escola. Sua estética simples mas ao mesmo tempo bela e sofisticada, trazia a leveza necessária para as componentes “dizerem no pé” e fazerem da atual campeã a mais dionisíaca das escolas. Ficou famoso também por sua capacidade reutilizar e reciclar material de anos anteriores e transforma-los em novas peças. Foi, sem dúvida, um artista completo e dos mais brilhantes que o carnaval já teve. Saiu de cena de maneira discreta na década de 1990, mais especificamente em 94, após sofrer de um câncer.




quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Que enredo é esse? - Série A parte 2





Estamos de volta pra seguir com nossos pitacos sobre os enredos da série A. No sábado, as homenagens continuam sem fim. E nossa Bethânia vai aparecer para contabilizar todas elas. Mas apesar do efeito "Mangueira", muitas delas falam de nomes super relevantes pra nossa cultura. Além das biografias, temos muitos outros enredos que prometem arrasar. A Série A não deixará barato em 2017, venha conferir:



1 - Rocinha - No saçarico da Marquês tem mais um freguês: Viriato Ferreira






Resumão:
Depois de mergulhar (pescaram a referência?) na missão de auxiliar Paulo Barros em 2016, o novato João Vitor Araújo voltará a assinar um carnaval sozinho. E surpreendeu positivamente na escolha do enredo. Uma homenagem ao grandioso, mas quase nunca lembrado, carnavalesco Viriato Ferreira, um daqueles nomes que têm grande contribuição na história do carnaval, mas não está no imaginário dos foliões. Viriato foi figurinista durantes muitos anos e assinou poucos - mas belíssimos - carnavais... Que a Rocinha se inspire no "seu eterno freguês" e faça, de fato, um enorme saçarico na Marquês.




O que esperamos:
Em seu dois trabalhos na Viradouro, João mostrou um gosto requintado nas criações de fantasias, nada mais justo, considerando quem se está homenageando. A Rocinha que escapou por pouco do rebaixamento esse ano, por tese, terá de suar a camisa (ou fantasia) para mostra que, na prática, a teoria será diferente. A homenagem, em si, é super pertinente e a sinopse bem trabalhada. Então, não há nada mais para se esperar que não um lacre da Borboleta Encantada!


De 1 a 3 Rosa Magalhães, o quanto esperamos cair no saçarico da Rocinha:



2 - Cubango - "Versando Nogueira nos 100 anos do ritmo que é nó na madeira"



Resumão:
Depois de uma reedição sem grife de "Chué chuá", Cid Carvalho segue na Cubango para tentar tirar a virgindade da maior escola verde e branca de Niterói que nunca passou pelo Especial. "Grande Rio curtiu isso". O desfile desse ano foi bem "marromenos" e Cid, apesar de experiente, dá umas bobeadas às vezes. Resta saber se será um ano sim do grande Cid, ou mais um ano não.


                                                      O que esperamos:
A sinopse foi escrita pela muso Fábio Fabato e faz uma viagem que promete fugir de um simples biografia, Bethânia emocionada. A história do samba e de João serão entrelaçadas por quatro temáticas características do ritmo e do compositor que se cruzam. Uma proposta bacanérrima. Torcemos para que Cid vá "Além do espelho" nessa e use de todo seu "Poder da criação"! 

De 1 a 3 selos o quanto curtimos:


                                                     


3 - Inocentes - "Vilões - O verso do reverso"


Resumão:
É o terceiro ano seguido da Inocentes desfilando na mesma posição, reparam nisso também? A representante de Belford Roxo vem se acostumando a desfilar só por desfilar, satisfazendo-se apenas em permanecer lá na meiuca do Acesso. A escola aposta no retorno de Wagner Gonçalves que foi o carnavalesco da escola quando ela fez sua "graça" no Especial. A aposta é num diferente: Os Vilões, num sentido bem amplo e fora desse senso comum que esperamos.

O que esperamos:
A sinopse começa pagando de cult ao citar o grande poeta tropicalista Torquato Netto, mas derrapa em muitos sentidos. Primeiro no bom português mesmo, depois num amontoado de coisas que parecem não se encaixar nesse grande quebra-cabeças que é o enredo. A proposta é bastante interessante, os vilões da cultura pop exercem muito fascínio sobre o público. A coisa boa é que surgiu da obviedade de só citar um vilão atrás do outro, mas não apresentou um sarapatel bem temperado ao público. Uma pena.



De 1 a 3 vilãs icônicas o quanto queremos ver muita maldade na Inocentes:





4 - Império Serrano - "Meu quintal maior que o mundo"



"Em meu quintal maior que o mundo... Sonhou azul Sossego, brincou de carnaval..."

Resumão:
Amargando uma temporada interminável (por sinal, quesito jejum acirrado lá por Madureira) na Série A, o glorioso Império causou certo "disse me disse" na escolha do enredo desse ano. Primeiro com o fato da escola comemorar 70 anos em 2017, Severo Luzardo tinha prometido uma trilogia de enredos que terminaria justamente com a comemoração da data, mas o carnavalesco saiu deixando a dúvida no ar. A Serrinha então foi atrás de Marcus Ferreira, que de jovem promessa não tem nada. O carnavalesco dá expediente na folia desde 2011 e apresentou trabalhos bem irregulares diga-se de passagem. A segunda polêmica veio então com o tema em homenagem ao poeta Manoel de Barros, que foi enredo este ano da campeã Sossego, numa apresentação impecável da dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad (chutados depois de subirem com a escola). 




O que esperamos:

Muitos podem desconversar dizendo que uma mesma personalidade pode dá diferentes abordagens e pode mesmo. Mas coincidentemente o enredo da Coroa Imperial segue uma linha bem parecido com o último enredo campeão da série B, que também trabalhou em cima das paisagens e da fauna que a obra do poeta apresenta. Confusões a parte, esperamos que com essa grande oportunidade, o carnavalesco Marcus Ferreira finalmente diga a que veio na folia e leve de volta ao lugar que o Império merece. 


De 1 a 3 compositores icônicos o quanto queremos o Império de volta ao especial
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5 - Padre Miguel - "Ossain, o poder da cura"







Resumão:

Uma escola que já não cabe mais na Série A, a Unidos de Padre Miguel fez desfiles arrebatadores nos últimos anos, mas o título infelizmente não veio ainda. Pro ano que vem, resolveu colocar pra foder (by: Renato Lage) apostando suas fichas na força de um enredo afro. O carnavalesco continua o talentoso Edson Pereira que consegue driblar as dificuldades e apresentar uma plástica babado, sobretudo em alegorias. Muita macumba, ervas, folhas e "Fala, meus orixás" pra ver se finalmente a UPM consegue concretizar a vitória que já vem merecendo.


O que esperamos:

Tem orixá. Tem Àfrica. Tem batuque. Ou seja, o sambão já está garantido. O enredo não tem mistério, contará a história do orixá Ossain, ligado as matas e aos saberes curativos que só o sincretismo africano tem a capacidade de contar numa temática tão fascinante. Como carnaval e tambor é um casamento quase perfeito, não tem como esperar a não ser show do povo de Padre Miguel.

De 1 a 3 Laílas, o quanto esperamos que a UPM faça todo mundo girar no terreiro:



6 - Renascer - "O papel e o mar"


Resumão:
A Renascer que vem de apresentações agradáveis dos últimos anos com sambões encomendados segue apostando nessa linha. O enredo é de responsabilidade de uma comissão, liderada por Luiz Carlos Bruno, que estreou na Tijuca em 2007 fazendo uma bela passagem no Borel e depois divertiu o público com apresentações irreverentes na Rocinha. Nós adoramos o carnavalesco e ficamos felizes com sua volta ao cargo. 




O que esperamos:
O enredo tem uma ideia pra lá de interessante juntar duas personalidades negras super importantes da nossa história, o marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata, e a poetiza Maria Carolina de Jesus. Infelizmente, a sinopse não foi divulgada e sabemos pouco de como será o desenvolvimento. Mais a ideia é original e bem interessante. O samba segue na mão de Claudio Russo, Moacyr Luz e Teresa Cristina então só podemos esperar mais uma hino daqueles para riscarmos o chão da Marquês de tanto sambar e perder a voz até a quarta de cinzas.


De 1 a 3 selos o quanto curtimos:






7 - Porto da Pedra - "Ô abre-alas que as marchinhas vão passar! Porto da Pedra é quem vai ganhar... Seu coração!"






Resumão:

Depois de uma apresentação surpreendente, a Porto da Pedra ao que parece não respira mais com a ajuda de aparelhos e muito menos continuar mergulhada em iogurte numa maré de azar. O carnavalesco Jayme Cezário responsável pelo belo desfile desse ano continua e promete uma apresentação tão leve e empolgante quanto a homenagem ao Carequinha. Numa posição nobre de desfile, a Porta tem tudo pra beliscar as primeiras posições - senão a taça. 


O que esperamos:

O enredo vai fazer um passeio pelo universo musical das marchinhas carnavalescas, tema que já foi abordado em São Paulo há alguns anos pela simpática Acadêmicos do Tucuruvi. A divisão foi feita em quatro setores, dividindo as canções por tema, deixando a coisa bem interessante. Não poderia haver um universo, que pode gerar uma plástica leve e colorida melhor, e mais contextualizado para fechar os dias de desfiles do Acesso carioca. O Tigrão de São Gonçalo tem tudo para rugir alto pela Sapucaí. 


De 1 a 3 selos o quanto queremos nos jogar com a Porto:





E isso é tudo pessoal! Esperamos que tenham curtido nossas análises super carnavalizadas. Lembrando que nossa missão é sempre trazer mais humor pro mundo carnavalesco, mas respeitando as escolas. Com a benção de Rosa Magalhães e a força dos orixás de Laíla, vamos ficando por aqui. Saravá, axé, amém, salamaleico, namastê.

Confira a parte 1 com as escolas de sexta, clicando aqui.