quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Carnavalizadores de Primeira | Arlindo Rodrigues: História e requinte em cena

por Leonardo Antan




Com a divulgação do enredo do Salgueiro veio uma surpresa maravilhosa, o desfile que trará a obra “Divina Comédia” para o universo carnavalesco homenageará no final a santíssima trindade da Academia, formada por Fernando Pamplona, Joãosinho Trinta e Arlindo Rodrigues. Pamplona e Joãosinho são dois nomes recorrentes ao citarmos carnavalescos que fizeram história, mas o mesmo não acontece com o Arlindo. Por isso, hoje ele é o destaque na estreia do "Carnavalizadores de Primeira", que relembrará um pouco a importância de grandes nomes da nossa folia que devem ser mais valorizados. 

Nome fundamental na Revolução Salgueirense da década de 1960 (que já falamos um pouquinho aqui), Arlindo foi braço direito do todo poderoso Pamplona. Os dois trabalharam juntos no Theatro Municipal e o professor de Belas Artes levou o parceiro já no seu primeiro desfile na Academia, quando Arlindo assinou os figurinos femininos do histórico “Quilombo do Palmares” de 1960, primeiro enredo a exaltar um herói negro da história. A parceria se repetiria no ano seguinte na apresentação sobre a Aleijadinho. Mas em 62, o mestre saí de cena e deixa Arlindo sozinho no comando do Salgueiro, que dá sequência aos desfiles cheios de inovações estéticas e desenvolve então uma das obras mais seminais da revolução alvirrubra: a inesquecível Xica da Silva. A história da mulata que era escrava e sentiu grande transformação fez até Pamplona torcer o nariz a princípio, mas Arlindo seguiu firme e levou para o desfile uma linguagem teatral e uma sequência narrativa com “início, meio e fim”. Em parceria com Mercedes Batista, a primeira bailarina negra do Municipal, eles foram pioneiros na chamada “ala de passo marcado”, ou coreografada, com o famoso minueto da corte da Xica da Silva. Foi um desfile tão seminal que podemos dizer que ele é a pedra fundamental do carnaval contemporâneo, por sua estrutura narrativa e requinte plástico. 

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Considerado o pai barroco do carnaval, Arlindo tinha nos temas históricos sua maior paixão, dizia que não precisava de invencionice, a história do Brasil já dava todo o material que se precisava para um belo enredo. Na plástica, foi o introdutor de muitos matérias hoje imprescritíveis como a ráfia, as placas de acetato e fitas metaloide. Segundo o pesquisador Felipe Ferreira: "Arlindo marca um período importante das escolas de samba, quando elas deixam de ser vistas como manifestações “folclorizadas” e passam a ser encaradas como entidades culturais abertas à participação de toda a população. A partir de então, as escolas de samba ampliam seu público e passam a organizar seus desfiles de forma a serem facilmente compreendidos. Os enredos se estruturam de forma mais didática, com começo, meio e fim."*

Na vermelho e branco, o artista seguiu comandando o grupo que mudaria os rumos do carnaval até 1972. Indo então para a inexpressiva Mocidade Independente de Padre Miguel, conhecida como a "bateria com uma escola em volta". O mestre barroco ajudou a colocar a representante da zona oeste nas primeiras posições com enredos mais folclóricos , como “Festa do Divino” e “Mãe Menininha do Gantois”. Na sua passagem por lá, mais uma inovação, ele criou a ideia de “protótipo” substituindo a reprodução apenas pelo desenho, dando assim um maior controle a reprodução das fantasias. Com uma rápida passagem na Vila Isabel em 1977, ele volta a Mocidade dando a escola seu primeiro título com “Descobrimento do Brasil”, tornando a agremiação a segunda, depois da Beija-Flor, a romper a barreira das "quatro grandes", formada por Império, Portela, Salgueiro e Mangueira que dividam os títulos na época.

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Mesmo com o título de campeão, Arlindo se despede da escola e parte rumo a outra verde e branco. Na Imperatriz, ele encontra sua maior parceira de carnavais, de alma barroca e histórica como ele. Já na estreia garante o título para a agremiação com o inesquecível “O que é que a Bahia tem?” e logo depois o bi com “Teu cabelo não nega”, homenagem ao compositor Lamartine Barbo. Dois desfiles que impressionaram pela grandiosidade e esmero visual, para sua época como mostram as imagens abaixo:

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Na escola de Ramos, assina mais quatro carnavais na década de 80 entre idas e vindas. Retorna ao Salgueiro em 1984 com “Skindô, skindô” e faz uma improvável bem sucedida passagem pela União da Ilha em 1986, no enredo “Assombrações”. Este grande artista uniu seu tradicional bom gosto ao estilo leve e colorido da escola insulana. Apresentando um desfile bem humorado que trazia referências a situação social da época. 

Entrevista com Arlindo Rodrigues a partir dos 7 min, no que seria seu último desfile:


Em 1987, volta a agremiação da zona da Leopoldina e assina seu último carnaval, em homenagem a cantora Dalva de Oliveira. Nos deixa logo depois da folia daquele ano, após ter contraído HIV. Já são quase trinta anos sem seu traço barroco, requintado e histórico do mestre autodidata, que diferente de Pamplona, nunca frequentou a academia. Seu legado é inestimável e está presente no carnaval a cada desfile. Um nome seminal da nossa festa que receberá uma justa homenagem do Salgueiro em 2017.


Em 2002, Arlindo foi homenageado pelo carnavalesco Paulo Menezes, fã declarado do mestre, na Paraíso do Tuiuti com um belíssimo samba:



*declaração retirada do link: http://extra.globo.com/noticias/carnaval/carnaval-historico/arlindo-rodrigues-genio-barroco-que-aprendeu-tudo-no-salgueiro-7201516.html
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