domingo, 26 de fevereiro de 2017

História, música e turismo: as facetas do Grupo Especial

Depois de muito tempo, a São Clemente conseguiu se firmar na primeira divisão e é uma das atrações da festa. (Foto: Wigder Frota) 
Entre domingo e segunda de carnaval, todos os olhos estarão voltados para a Marquês de Sapucaí. Doze agremiações desfilarão na passarela do samba almejando o título mais nobre da festa: o de campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Para 2017, duas mudanças prometem acirrar ainda mais a briga: a diminuição do tempo máximo de apresentação, que caiu de 82 para 75 minutos, e a criação da “cabine dupla” de julgadores. Segundo a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA), essa segunda medida tem como objetivo dar mais fluidez ao espetáculo.

DOMINGO
A ingrata missão de abrir os desfiles da primeira divisão vai ser, mais uma vez, da escola que ascendeu do grupo de acesso. Neste ano, a tarefa fica a cargo do Paraíso do Tuiuti, que entra na pista com um claro propósito: evitar o último lugar, e consequentemente, o rebaixamento. Buscando quebrar uma escrita que aponta sucessivos descensos das agremiações que vêm da Série A, o Tuiuti aposta em nomes de peso, como o consagrado casal de mestre-sala e porta bandeira Marquinhos e Giovanna. Além deles, a simpática agremiação de São Cristóvão contratou o experiente cantor Wantuir para comandar o carro de som, que vai cantar um animado samba que trata dos 50 anos da Tropicália.

Logo depois, chega a Grande Rio, com um badalado enredo sobre a cantora Ivete Sangalo. Apostando no carisma da baiana, a escola caxiense quer ficar entre as seis primeiras colocadas, que garantem vaga no desfile das campeãs. Além de Ivete, o grande trunfo da Grande Rio é o entrosamento entre o competente cantor Emerson Dias e a Bateria Invocada, do mestre Thiago Diogo. A terceira escola do dia é a Imperatriz Leopoldinense, que contará “Xingu - o clamor que vem da floresta”. O tema abordará a história, os hábitos e os costumes dos índios xinguanos, ótica que despertou ira em setores do agronegócio. Interpretado pelo estreante Arthur Franco, o samba-enredo da Imperatriz se utiliza do termo “belo monstro”, numa clara referência à usina de Belo Monte e seu impacto na vida dos nativos da região. Assim como a Grande Rio, o grande objetivo da Rainha de Ramos é conseguir uma vaga no G-6.

Essa também é a expectativa da Vila Isabel, que desfila após a Imperatriz e optou por um enredo musical. “O som da cor” vai mostrar a influência dos negros nos ritmos musicais populares na América. Com um bom samba, a escola da terra de Noel Rosa dá continuidade ao seu processo de reconstrução, iniciado depois do tumultuado desfile de 2014. A penúltima apresentação do dia é por conta do Acadêmicos do Salgueiro. O sempre competente casal de carnavalescos Márcia e Renato Lage optou por contar na pista “A Divina Comédia do Carnaval”. Se manter seu costumeiro nível, a tendência é que o Salgueiro brigue pela taça. Ademais, só um desastre pode tirar a alvirrubra do sábado das campeãs

Dando fim ao primeiro dia, está a Beija-Flor, que chega mordida pelo quinto lugar de 2016. Embalada por um grande samba — o melhor do grupo, a soberana de Nilópolis vai relembrar o clássico romance “Iracema”, de José de Alencar. Apontada por muitos como a grande favorita ao campeonato, a escola tem no intérprete Neguinho da Beija-Flor a sua maior estrela.



Apostando na força de sua comunidade, a Beija-Flor encerra o domingo pensando somente no título. (Foto: Wigder Frota)
SEGUNDA-FEIRA
Penúltima colocada no ano passado, a União da Ilha do Governador é a primeira a desfilar no segundo dia do Grupo Especial. Apresentando “Nzara Ndembu — Glória ao senhor tempo”, a Ilha vai mostrar a relação do homem com o tempo, se valendo do candomblé banto. A agremiação insulana trocou quase toda a sua equipe, e contratou profissionais tarimbados, como Carlinhos de Jesus, que ficará responsável pela comissão de frente. O excelente samba, conduzido pelo sempre empolgado Ito Melodia é o combustível que pode afastar a Ilha da briga na parte de baixo.

Quem também deve ficar pelo meio da tabela é a São Clemente, da icônica carnavalesca Rosa Magalhães. Contando um caso de corrupção ocorrido na França de Luis XVI. Buscando se consolidar ainda mais no grupo, a amarelo e preto de Botafogo aposta na boa bateria, comandada pelos mestres Gil e Caliquinho. O carisma do promissor intérprete Leozinho Nunes pode ser outro diferencial. Da França, os espectadores partem para o Marrocos, enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel. Mesmo com um bom samba, cantado pelo prata da casa Wander Pires, que retornou à escola após dez anos, é quase impossível enxergar a Mocidade fora das últimas posições.

Outra postulante ao título é a Unidos da Tijuca, vice-campeã do último carnaval. A escola do Borel vai falar sobre o processo de formação da música estadunidense, usando como fio condutor um encontro de 1957 entre Pixinguinha e Louis Armstrong. Apesar de não ser tão brilhante como outros, o samba da Tijuca deve crescer bastante ao vivo, sobretudo por conta de seu refrão do meio. A penúltima escola é a Portela, que tem o seu enredo sobre famosos rios de todo o mundo assinado pelo famoso carnavalesco Paulo Barros. Almejando sair de uma interminável fila, a Portela conta com a força de seu samba, capaz de emocionar qualquer torcedor da escola.

Encerrando a maratona de desfiles, está a Estação Primeira de Mangueira, campeã de 2016. Embalada pelo surpreendente título, a verde e rosa trará um tema religioso “Só com a ajuda do santo”, idealizado pelo jovem Leandro Vieira. O aguerrido intérprete Ciganerey é garantia de emoção e garra, dando um toque valente ao samba-enredo mangueirense. Assim como ocorre com Portela, Salgueiro, Tijuca e Beija-Flor, só um fato extraordinário pode tirar a Estação Primeira do pelotão de cima.
A entrega da porta-bandeira Squel, que utilizou um truque para aparecer careca no desfile da Mangueira, é a imagem do título de 2016. (Foto: Wigder Frota)

Do primeiro rufo da bateria do Tuiuti, ao fechamento dos portões para a Mangueira, a passarela estará embebida por um grande “banho de cultura”. Depois dele, as incontáveis especulações sobre a classificação, que só findarão na tarde da quarta-feira de cinzas, quando a festa atinge sua apoteose.
Reações:

0 comentários:

Postar um comentário