segunda-feira, 29 de maio de 2017

SINOPSE | Acadêmicos do Salgueiro: "Senhoras do Ventre do Mundo"


“Eu sou o ventre principal, a Terra-Negra, a grande Mãe Universal, a primeira que gera e nutre o mundo, Grande Ya vermelha, cor símbolo da vida, fonte de energia e poder sobrenatural. (…) Fértil, me uno no ritual com o branco, a outra metade da cabaça, formando o Par Vital.”


ARGUMENTO

Há cinquenta e cinco anos, sob o manto vermelho e branco, a Acadêmicos do Salgueiro celebrou a desconhecida história de uma negra mulher… O desfile sobre aquela que se tornou “De escravizada à rainha”, marcou para sempre a agremiação e o carnaval brasileiro.

Outras heroínas irão salgueirar. Algumas famosas, outras anônimas, mas todas carregam no gênero e na cor, suas conquistas. Suas histórias serão (re)contadas, num longo espaço de tempo, que vai do alvorecer da espécie humana, até os dias atuais.


SINOPSE

Ela… brotou do ventre negro da África, seu povo a deu o nome de Dinikinesh (*), seu fóssil de milhões de anos era, aos olhos da ciência, a Eva Africana, que deu à luz a humanidade. A partir daí, a história segue seus passos…

Ela… é bíblica soberana de Sabá, dona do coração de Salomão. Ela… é negra rainha. Regente na Etiópia, construiu palácios, cimentou a cultura e a arte. Contra-atacou os invasores. Foi general da Núbia, liderando exércitos.

Ela… é, no Vale do Nilo, a personificação da autoridade divina, fonte do poder. Guardiã da linhagem real. Como Hórus, lança fogo contra seus inimigos.

Ela… É esposa e Mãe do Egito – a Deusa Ísis – amamentando o divino filho, Hórus, inspiração para a imagem da santíssima mãe nos primeiros santuários Cristãos. É também Neith, a Deusa mais velha, que fala com a voz atemporal “Eu sou tudo o que foi ou será.” E Hathor, autogerada, doadora da vida, protetora dos mortos, deusa dos sentidos.

Ela… é mestre Hypátia de Alexandria, “a última grande cientista mulher da antiguidade”.

Ela é Merit Pitah a mulher que cria a medicina e a primeira ideia de casas de maternidade na história da humanidade.

Ela… é guerreira, é Nzingha de Angola, na luta contra o imperialismo português, e que insistia em ser chamada de rei, ao marchar para o campo de batalha com roupa de varão. É Yaa Asantewa dos Ashanti. A Rainha Mãe de Ejisu, em Gana, que lutou contra os britânicos, e ao seu povo declarou: “Se os homens de Ashanti não irão para frente, então vamos todos nós. Nós, as mulheres, iremos…” Do lado de cá, é a conselheira Acotirene de Palmares, a sagrada mulher que empossou Ganga Zumba. É Teresa do Quariterê. É Maria Felipa, Luiza Mahin, e muitas outras…

1* Significa “você é maravilhosa” na língua Amharic (semiótica Afro asiática – etiope). O achado arqueológico ficou internacionalmente conhecido como fóssil Lucy, aleatoriamente escolhido pelos arqueólogos europeus.

Ela… é a matriarca nestes cafundós coloniais e imperiais. Neste lado do Atlântico, formou novos laços familiares, irmandades negras, sociedades secretas que deram origem a diversas religiões de matriz africana. É a mãe preta, “ama de leite”, que amamentava o sinhozinho, que estava com dengo e só queria um xodó. É quem trança as madeixas fazendo cafuné, enquanto canta quadras e conta histórias para ninar. Cantigas cantadas em língua nativa, que citavam itans africanos, perpetuados entre nós.

Criou as feiras livres, nas praças e esquinas. Vendedoras de frutas e legumes, equilibrando seus tabuleiros, cestos sobre a cabeça, as primeiras empreendedoras do Brasil. São as filhas de Oya, que pregoam: Ê e abará! Que descendo a alameda da cidade com seus encantos, de saia rodada, sandália bordada, coberta de contas e balangandãs pisando nas pontas, sabe encantar. A “negra forra”, que faturava alguns mil réis, para a compra da carta de alforria das suas irmãs cativas. Doceira, quituteira, quitandeira.

Ela… que alimenta, no seu tabuleiro tem… Vatapá, Caruru, Mungunzá. Põe na gamela o tempero, machuca a pimenta da costa e mais uma pitadinha de sal, põe farofa de dendê e veja só no que dá. Tem angu e aluá. Também tem Bobó, Acarajé e Efó. E depois o quindim e doce de leite com amendoim…

Quem… dá fé aos saberes das folhas. uma doutora ou curandeira. Ervas pra curar, ervas pra benzer. Mas se é canjerê, ela “corta” quebranto, invoca o seu santo para lhe proteger. No axé, ela é Yamin, Preta Velha, Agbá, Mametu, Nochê… Mãe que prepara o ebó para o Oboró e para a Yapeabá. E cultua no Gèlèdè que reverencia e apazigua as Mães Primeiras, as “Senhoras dos Pássaros da Noite”, as energias geradoras da vida, e controladoras da morte. Para assegurar o equilíbrio do mundo. Sabe que para o povo africano: “tudo aquilo que o homem vier a conseguir na terra, o será através da mão da mulher”.

Ela… que seguindo os mestres e griôs, na tradição oral africana, fortaleceu as lutas de libertação. E através da palavra escrita, eternizou sua história.

Ela… autora negra, guardiã dos valores ancestrais, desde Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista do Brasil à Carolina Maria de Jesus, que registrava o cotidiano da comunidade, ao comparar a favela e seus cafofos, ao quarto de despejo de uma cidade. Estas e demais escritoras, superaram imposições sociais ao figurarem o seleto meio literário do país.

Ela… é memória do mundo; deusa; rainha; guerreira; sacerdotisa; feiticeira, a matriarca, que trabalha e sustenta a prole sozinha, seu nome é resiliência. Mãe, irmã, amante e companheira. Velha guarda, baiana, passista, porta bandeira.

Ela… cheia de graça, bendita mulher e seu ventre, com seus formosos pássaros, do alto dos ceús, olhai por nós!

Alex de Souza, carnavalesco.

Pesquisa Coordenador Dr. Júlio Tavares

Pesquisadoras: Kaká Portilho, Marina Miranda e alunos do curso de História Geral da África – Instituto Hoju


ROTEIRO PARA OS COMPOSITORES


ABERTURA

A Terra-Negra, a grande “Mãe Universal”. As forças ancestrais que geram e nutrem o mundo. O ventre africano, que deu à luz à humanidade.

1º SETOR

A linhagem das rainhas negras, que consolidaram a cultura e a arte e lideraram exércitos.

2º SETOR

A personificação da autoridade divina, fonte do poder no Vale do Nilo. Esposas e soberanas; deusas mães de Kemet (Egito)

3º SETOR

Guerreiras na luta contra o imperialismo europeu no campo de batalha africano. As heroínas quilombolas e as líderes das rebeliões históricas.

4º SETOR

As matriarcas que formaram novos laços familiares: As irmandades negras. As “mães pretas” que acalentam. As primeiras empreendedoras do Brasil: doceira, quituteira, quitandeira.

5º SETOR

As que deram origem à diversas religiões de matriz africana. Donas dos saberes das ervas. Doutoras e curandeiras. No axé cultuam, reverencia, e apazigua, as “Mães Primeiras”, as “Senhoras dos Pássaros da Noite”.

6º SETOR

As escritoras, que perpetuam os valores culturais, registrando em livros suas lutas e dura realidade.

sábado, 27 de maio de 2017

7x1 Carnavalize: Os lugares mais inusitados que já viraram enredo

por Léo Antan e Beatriz Freire





Logo no início do pré-carnaval, a Estácio de Sá anunciou um enredo curioso sobre Cingapura, um país asiático que também tem o leão como o símbolo. A promessa de patrocínio não foi firmada, então, a escola resolveu voltar atrás com a escolha. Com a crise, os enredos patrocinados deram um leve desaparecimento do cenário carnavalesco nos últimos tempos. O boom dos enredos CEPS foi na virada dos anos 90 para os 2000, desde então as escolas de samba passaram a cantar as belezas dos quatro cantos do Brasil, e do mundo. Das cidades mais famosas e as principais capitais, chegando até aos mais pequenos vilarejos e mais distantes países, alguns casos curiosos já foram contados em verso e prosa. 

Todo lugar dar um bom carnaval? Velho debate. Dos lugares mais inusitados e menos prováveis de serem enredos, alguns têm um bom desenvolvimento, mostrando lugares importantes e poucos conhecidos. A receita varia pouco no desenvolvimento dos enredos, mas uma das missão das escolas é realmente mostrar esses fatos inusitados e trazer novidade para o grande público, não é? Gerando bons desfiles ou não, listamos os enredos CEP mais inusitados dos últimos anos. Apertem os cintos que a viagem vai começar


7) Paracambi - Cubango 2007



Em 2007, a Acadêmicos do Cubango desfilou um enredo em homenagem à simpática Paracambi, cidade do centro-sul fluminense. A responsabilidade do desenvolvimento do carnaval ficou por conta de uma comissão de carnaval, que tinha Annik Salmon e Alexandre Louzada como integrantes. O enredo seguiu todas as premissas de um roteiro CEP tradicional, com a presença indígena, a chegada portuguesa e dos escravos, e posteriormente a dos imigrantes, terminando com um presente industrial com a presença da primeira indústria têxtil do lugar. O samba, por sua vez, foi embalado por Tiãozinho Cruz, de uma linda letra e melodia das mãos de Arthur Bernardes, Sardinha, Junior Duarte, Carlinhos da Penha e Edson Carvalho. Após a quarta de cinzas, a escola de Niterói terminou com o sétimo lugar do Grupo de Acesso A, uma posição acima do resultado do ano anterior, que muito desagradou a escola e principalmente o presidente Pelé. 


6) Coreia do Sul - Vila Maria e Inocentes 2013



Meu oriente é você! Na rota internacional, indo além das grandes potências culturais, a Coreia do Sul já virou tema de desfiles duplamente em 2013, quando se comemorou os 50 anos da imigração do país no Brasil. No Rio de Janeiro, a Inocentes de Belford Roxo fazia sua estreia no grupo especial depois de uma ascensão muito contestada. A tricolor anunciou a nação como tema na promessa do patrocínio, sendo desenvolvido pelo carnavalesco Wagner Gonçalves. No enredo chamado de "As Sete Confluências do Rio Han", a Coreia do Sul se fez carnaval através de seu mais importante rio. O desfile não foi nenhum destrate, mas oscilou entre bons e maus momentos. 



Em São Paulo, onde a presença asiática bem é mais forte, as belezas e a cultura do país asiático foram cantadas pela Unidos de Vila Maria, com desfile assinado pelo experiente Chico Spinoza. "Made in Korea" fez uma viagem através do elementos da natureza atrelados a história do lugar. Tanto no samba como no desfile, a agremiação paulistana deixou bastante a desejar. Vale lembrar, aliás, que a promessa de patrocínio não veio para as duas escolas e ambas acabaram rebaixadas, deixando uma relação nada simpática da nação com a folia. 


5) Paulínia - Vai Vai 2014



No ano seguinte, Chico Spinoza rumaria a outro destino pouco usual, de volta à Vai Vai depois do seu último carnaval em 2009, a escola do Bixiga levou ao Anhembi uma homenagem ao município paulista com o enredo "Nas chamas do Vai-Vai, 50 anos de Paulínia". Chiquinho surpreendeu ao conseguir desenvolver bem a história da cidade, o que parecia a sua tarefa mais difícil, e o desfile teve fortes pontos, como seu abre-alas de mais de 70 metros representada por uma estrada de ferro e um carro com mais de 10 metros de altura. A abordagem passou pelo cinema, pelo petróleo, poluição, bocha e indústria,  e surpreendentemente da cultura grega. (?) No microfone, Márcio Alexandre manteve o bom andamento do samba composto por Vagner, Mineiro, Loirinho, Marcinho Z. Sul e Edinho Gomes e a bateria da Escola do Povo cumpriu bem seu papel. Logo após o desfile, muitos acreditavam em bons resultados pra alvinegra , mas a terça da apuração trouxe apenas um nono lugar, uma das colocações mais baixas da agremiação em dez anos. 

4) Maricá - Grande Rio 2014



Em 2014, a Grande Rio levou para a Sapucaí a vida dessa grande cantora. Perdão, não podíamos deixar passar. Cidade do litoral fluminense entre a capital e a Região dos Lagos, Maricá surpreendeu ao virar enredo de escola do grupo especial, não menos que a badalada Grande Rio. Foi a estreia do carnavalesco Fábio Ricardo na agremiação de Caxias, assumindo a estadia após a saída do carnavalesco Cahê Rodrigues. Fábio contou com a ajuda de Leandro Vieira para desenvolver as alegorias e fantasias, que contaram a história da cidade atrelada a vida da cantora Maysa, que tinha uma casa de veraneio no município. Com o generoso patrocínio, a escola fez um belo trabalho nos quesitos plásticos, entretanto a história pouco rica da cidade ficou evidente no desenvolvimento do enredo que, apesar do fio-condutor, não fugiu das citações de um CEP mais tradicional. 


3) Avenida Brasil - Mocidade 1994



Enredo CEP não é só país e cidade, uma rua pode dar enredo. E deu. No auge da era Renato Lage na Mocidade, um dos principais logradouros do Rio de Janeiro se transformou em tema em 1994. Cortando o Rio da região Central à Zona Oeste, a avenida batizado pelo nome do nosso país é uma das maiores e mais importantes artérias da nossa cidade, passando por uma grande área e sendo atravessada por milhões de pessoas diariamente. Para o desfile, Renato Lage inovou na estética, apostando num visual bem urbano, abusando dos pneus, cones e faixas de trânsitos. O que poderia ser um desastre, como já havia sido no Império Serrano em 1991, deu muito certo com o estilo High-Tech que ele construía em Padre Miguel. A inovação não foi bem vista pelos jurados e com alguns problemas de pista, a agremiação acabou em oitavo lugar. 

2) Mangaratiba - São Clemente 2003



Mais um destino inesperado foi o cenário da Sapucaí em 2003: por Lane Santana, Mangaratiba foi o palco da São Clemente. A cidade do litoral fluminense foi a homenageada da vez, e começou o seu desfile com uma comissão de frente que representava os índios antropofágicos do Brasil colonial. No abre-alas, vinha Tupã com seu trovão todo iluminado em neon; mais atrás, um carro que reluzia na Avenida representava as pedras preciosas e num outro o tráfico negreiro teatralizado. O samba embalado por Anderson Paz gabaritou o quesito, assim como todos os outros segmentos, fazendo da São Clemente a campeã do Grupo de Acesso A. O resultado, no entanto, foi muito contestado pelas demais escolas e considerado sem emoção suficiente para alcançar a primeira classificação.

1) Suíça - Unidos da Tijuca 2015



Suiçaaaaaaaaa em sua história a inspiração. Rainha dos enredos CEP nos últimos anos, a Unidos da Tijuca apostou no país do chocolate, do paraíso fiscal e destino preferido dos políticos brasileiros, a Suíça, contada a partir do olhar do saudoso carnavalesco Clóvis Bornay, filho de pai suíço. A escola que fez seu primeiro desfile sem Paulo Barros depois de seus três campeonatos em 5 carnavais, contou com uma comissão de carnaval para contar a história do país na Sapucaí. Com chocolates, flocos de neve, dragões, castelos e relógios, a escola tijucana manteve-se compacta como sempre, uma verdadeira máquina de desfiles com muito destaque para sua evolução e harmonia, além de ótimas fantasias e boas alegorias. Como esperado, o enredo rendeu um samba fraco, conduzido pelo ótimo intérprete Tinga, mas que cumpriu, como de costume, seu papel de empolgar a arquibancada apesar da qualidade. O desfile quebrou o gelo e não apresentou grandes problemas, gerando um excelente quarto lugar para a escola na apuração, ficando, porém, à frente da Mocidade, escola à época comandada pelo ex-carnavalesco da Tijuca, Paulo Barros, que amargou um sétimo lugar.



Do Oiapoque ao chui, do oriente ao ocidente, é sempre bom lembrar que é ótimo embarcar para os mais distantes lugares com as nossas escolas. E não cabem restrições, com um bom desenvolvimento e criatividade, muitas coisas podem dar sambar. Da Suíça à Paracambi, seguindo pela Avenida Brasil, podemos chegar com o samba à Mangaratiba. E até á Lua! 






quarta-feira, 24 de maio de 2017

Carnavanálise: Encomendar ou não? Eis a questão

por Equipe Carnavalize




A encomenda de samba é uma realidade no mundo das escolas de samba cariocas. Se antes era um modelo possível em um caso isolado na Renascer de Jacarepaguá, agora chegou a outras agremiações da Série A e ao Especial. Além da escola da zona oeste, até agora, mais três escolas anunciaram que não promoverão o modelo tradicional da disputa de samba. No especial, a Paraíso do Tuiuti. Na série A, além de Jacarepaguá, Inocentes e Sossego também vão seguir essa nova tendência. 

Se na Renascer, que há quatro anos adota a encomenda com garantia de excelentes sambas, a medida já dividia opiniões, a exportação do modelo para outras escolas abriu um cenário acalorado sobre o tema. Com isso, a gente preparou uma grande análise do tema, com prós e contras desse novo momento para o samba-enredo nas escolas. Ouvimos alguns membros do site, mais compositores e figuras do carnaval para darem suas opiniões. 

Até então o único caso no Grupo Especial para o próximo carnaval, a Paraíso da Tuiuti optou por encomendar o samba com três compositores já da escola e mais dois nomes renomados do carnaval; a obra será assinada por Zezé, Jurandir, Aníbal, Claudio Russo e Moacyr Luz. Segundo o presidente Renato Thor, a encomenda veio para garantir pontos no quesito samba-enredo, no qual a escola foi muito despontuada no último carnaval e que ele considera "ser 50% de um desfile".

Em uma situação bem oposta, a Acadêmicos do Sossego optou pela encomenda de samba por questão de economia e problemas de local. Com dificuldades que envolvem sua quadra, a disputa de sambas foi inviabilizada e a escola resolveu optar por encomendar seu hino oficial para 2018 com Felipe Filósofo, campeão das últimas duas disputas da agremiação. Pelo mesmo motivo a Inocentes de Belford Roxo encomendou seu samba com André Diniz e também Claudio Russo, nomes consagrados do mundo do samba. Ao lado da Sossego e de mais duas escolas da Série A, a agremiação também não poderá contar com sua quadra ainda este ano, o que dificulta muito a realização das disputas. 

O modelo tem dado certo, resultando em sambas lindíssimos e garantindo boas notas nos quesitos para as escolas. O questionamento que se faz é: até quando isso irá acontecer em alguns casos? Como será a partir do momento em que as obras encomendadas começarem a perder qualidade? Compensa anular uma ala de compositores inteira de uma agremiação em troca de um bom hino na Avenida?

Quadra da G.R.E.S.E.P Mangueira em dia de disputa de samba (Fonte; site da escola)

Comparando a folia paulista, é bom entender que encomenda nem sempre é garantia de qualidade. A tradicional Águia de Ouro negocia seus sambas direto com sua ala de compositores desde 2010, tendo grandes obras no currículo como 2013 e 2014, mas também o criticado samba deste ano sobre a proteção dos animais. Além dela, há outros casos isolados do modelo nos últimos anos, como a Independente e a obra campeã da Império de Casa Verde em 2016.

Consagrado compositor paulista, Aquiles da Vila já teve seus sambas cantados por escolas importantes como Rosas de Ouro, Mancha Verde e Império de Casa Verde. Sua visão sobre assunto é conciliadora, apontando prós e contras: "Como quase todas as decisões que tomamos nesse vida, arcamos com o ônus e bônus. A tradicional eliminatória de sambas de enredo talvez seja o momento mais caloroso e democrático de uma escola, pois é nessa fase onde existe o maior envolvimento da comunidade e seus setores - a escolha do samba através de apresentações na sua própria quadra." Ele admite que o modelo tem perdido espaço, por conta dos custos para o compositor sendo desgastante para todos, mas acredita ter lados positivos também: "Indo um pouco mais além, também vejo como um momento onde a escola tem a possibilidade de agregar novos componentes, ampliando assim, os simpatizantes e foliões à sua comunidade. Como exemplo, tenho amigos que nunca tinham "pisado" em uma escola de samba, mas aceitaram o desafio de torcerem por mim, e assim se apaixonaram e até hoje desfilam na agremiação."

Por fim, Aquiles concluí: "O formato "samba encomendado", elimina automaticamente todo esse processo citado acima. O compositor é "contratado" para fazer o samba e ponto final! Mais importante do que o próprio formato, é a escolha coerente e correta. É um dos poucos quesitos que a agremiação têm chance de escolher antes de pisar na avenida e garantir a nota máxima."

No Rio de Janeiro, desde a criação da Série A em 2013, além da Renascer, a medida pelo modelo foi usado também pela União de Jacarepaguá e a Rocinha em 2014, quando ambas foram rebaixadas. Dos três sambas, a obra da Renascer sobre o cartunista Lan se destacou positivamente, o da Rocinha negativamente, enquanto o da União apresentou uma qualidade bacana. 

Intérprete da Renascer, um dos autores do samba da escola este ano, com histórico de grandes obras levadas para a Sapucaí com sua assinatura, Diego Nicolau destaca a responsabilidade dos sambistas que assumem a missão: "Eu, como compositor sambista, acredito que a disputa é realmente saudável à ala de compositores das agremiações contudo existem contextos que acabam por justificar essa escolha de algumas agremiações. Acredito que a responsabilidade da parceria escolhida seja triplicada pois a cobrança é ainda maior por um samba de muita qualidade", disse o sambista para o nosso site. 


Diego Nicolau e Cláudio Russo, autores do samba da Renascer em 2017.

Também compositor, Samir Trindade tem visão bem mais pessimista sobre a questão: "Cada agremiação faz o que considera melhor para si. Mas minha opinião é que a disputa é saudável, movimenta a agremiação; a disputa tem que existir. A ala de compositores é um alicerce de uma escola de samba. Houve, nos últimos anos, uma reversão: os compositores são desvalorizados. Os grandes fundadores das escolas de samba, das grandes escolas foram compositores.", disse Samir Trindade em entrevista ao SRZD sobre esse tema. Um dos principais compositores do cenário atual, Samir emplaca anualmente várias obras em diversas escolas entre especial e acesso. Ele continuou explicando na declaração para o portal o que chamou de terceirização da figura do compositor: "As escolas entendem que o compositor é um prestador de serviço, uma figura terceirizada. Que faz o samba para a escola, tem um retorno financeiro e, após o Carnaval, o vínculo termina ali. O compositor é o corpo da escola, é alma da escola de samba, é a essência disso tudo. Estão colocando a figura do compositor à margem. Não existe escola de samba sem samba. É preciso que as agremiações movimentem o ano inteiro suas alas de compositores."

Em declaração exclusiva para o Carnavalize, o historiador Luiz Antônio Simas, autor de obras sobre a história do samba-enredo e também compositor, vai de encontro a opinião negativa de Samir Trindade, ressaltando os problemas do modelo em longo prazo: "A encomenda de sambas-enredo é, ao mesmo tempo, uma das causas e consequência do esfacelamento das alas de compositores. Acho particularmente um desastre, já que inibe o surgimento de novos compositores e limita a um pequeno grupo a função de fazer o samba. Em larga medida, isso é resultado das distorções absurdas que passaram a marcar as disputas de samba; caríssimas e viciadas."

Além de compositores, ouvimos também sambistas e membros da imprensa carnavalesca, como o radialista Carlos Alberto que comanda o Carnaval Show, na Rádio Show do Esporte, ele entende o cenário e os motivos que levam as encomendas mas é contra as encomendas: "Penso que quanto mais ela for adotada, menos compositores novos vão surgir, as disputas ficaram cada vez mais escassas e desleais, e a banca dos chamados escritórios ficarão mais fortes até a situação beirar o irreversível". Ele cita dois casos diferentes como bem sucedidos, o recente da Renascer e outro, mais antigo, da Tradição de 1985-89 que contava com obras assinadas por João Nogueira e Paulo César Pinheiro. E finalizando pedindo um debate maior dos dirigentes sobre o assunto repensando os rumos da festa: "Numa década em que o gênero samba-enredo renasceu, é hora dos novos talentos que batucam na mesa do bar e na caixinha de fósforo terem vez e voz e colaborarem com este gênero tão rico e valioso, mas enquanto a "banca forte" por trás das encomendas de samba continuar sendo fortalecida ao longo dos próximos carnavais, o "escritório de samba quebrando a firma" cantado pela Caprichosos em 2015 fará cada vez mais sentido.", concluí Carlos Alberto assertivo. 

Numa discussão interna entre os membros da nossa equipe, a questão também divide opiniões. Nossa repórter, Juliana Yamamoto acha que há duas vertentes: é a favor das encomendas quando as escolas não têm como bancar as eliminatórias ou quando recebem poucos sambas concorrentes. Para essas escolas, as eliminatórias geram mais gastos que lucros. Já  no caso das escolas médias ou grandes que recebem muitos sambas concorrentes e que conseguem lucrar - como é o caso da Tuiuti - ela diz que discorda pelo fato de tirar a oportunidade de vários compositores mostrarem seu trabalho. Ainda pontua que muitas vezes os compositores perdem a vontade de escrever porque sempre será aquele grupo "seleto" que fará o samba. Editor-chefe, Felipe de Souza concorda com Juliana e acrescenta o adendo há o enfraquecimento da produção musical num contexto geral do carnaval, além das encomendas se tornarem mais viáveis, visto que muitas disputas se inflacionaram a ponto de apenas grandes parcerias - com sambas nem sempre bons - concorrerem.

Finalizando a discussão, o diretor de conteúdo do site, Leonardo Antan concluí entendendo que não é de hoje que se fala do modelo desgastado de disputa de sambas nas agremiações. É de conhecimento de todo o mundo do samba os altos custos e os problemas do formato. Porém,  poucas opções surgem para repensar o modelo que conhecemos. A encomenda não parece uma solução definitiva do assunto, mas uma outra via disponível, também passível de vários lados positivos e negativos.

O debate é extenso e não deve acabar tão cedo. Bom ou mau, não cabe juízos de valores tão assertivos. Um terceira via é sempre o preferível. E as escolas sabem, ao menos esperamos, conduzir suas escolhas da melhor maneira.

E para você? Qual sua opinião sobre a polêmica? Concorda ou discorda das declarações? Deixe seu comentário aqui ou em nossas redes sociais. Queremos todos no debate para o melhor do carnaval.

Surgindo uma polêmica, um assunto a ser debatido no mundo carnavalesco, nós estaremos aqui para fazer nossa "Carnavanálise" do assunto, ouvindo especialistas do assuntos com as mais diversas opiniões. Aguardem novos debates!

terça-feira, 23 de maio de 2017

SINOPSE | Grande Rio: "Vai Para o Trono ou Não Vai?"


… Aquela buzina pioneira de Caruaru foi atraindo outras, assim como fazem os passarinhos com suas cantorias…


Foi no caminhão verde de meu pai, qual o dragāo do meu Sāo Jorge Guerreiro, a quem sou devoto e devo todas às minhas conquistas e proteção, que a buzina tocava sem parar…
Aquele era o som! O som que eu nunca mais havia de esquecer…

– Terezinhaaa, u,uuuu!!!!!

– Grande Riooo, u,uuuuuu!!!
– VAI PARA O TRONO OU NĀO VAI?
– Eu não vim para explicar, mas para confundirrrr!!!!!
– QUEM NĀO SE COMUNICA SE TRUMBICA!…

Hoje me consideram um fenômeno, eu disse: um FE-NÔ-ME-NO da comunicação!

Comigo não tem roteiro, não tem texto, nem ponto eletrônico, direção de palco, de áudio ou de imagens. Tudo é na base da surpresa. Eu mesmo produzo, dirijo e apresento. Sacou a minha sacada, rapaziada?
Desconcertei as convenções, avacalhei o posudo e o empostado. Dei valor ao mambembe e ao artista genial de sempre.

– Alô Alaor, ligue o televisorrrr!!! Que vai começar mais um programa, da TV GRANDE RIO!
Gosto de inventar coisas que não passam pela cabeça de ninguém. Coisas como um disco telefônico sobre uma roupa de jóquei. Eu me visto de bailarina, anjo, palhaço, Napoleão ou Zorro.

– Para o Chacrinha não tem figurino, Seu Nicolino! Tudo cabe e tudo pode acontecer. E aconteceu na roda viva do tempo. As novidades vinham chegando, novas vozes mudaram o panorama da música popular brasileira. E eu captava tudo, foi assim com a Jovem Guarda:

– Vocês querem a cueca do Roberto Carlos?????
…Dizem que sou louco por pensar assim

Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz…”- (Os Mutantes)

– Sou o pioneiro da loucura!

O papa da Tropicália. Com a minha visão e faro, percebi que eu já era um tropicalista antes mesmo de o movimento surgir. Juntando Iracema e Ipanema, guitarra elétrica e Vicente Celestino. Eu já sabia daquilo e assinei embaixo. “Alegria, Alegria!!!” Era um bordão que eu bolei e o Caetano aproveitando o lance, fez a canção.

– Alô, ê! Alô, ê!
…Chacrinha continua balançando a pança

E buzinando a moça e comandando a massa
E continua dando as ordens no terreiro…

Nos meus programas havia espaço, liberdade cênica e incomodava os conformistas e os conservadores. Viva a Tropicália, Superbacana, o Domingo no Parque e os Mutantes. Viva o Rock e A Seresta, o Coração de Luto e os discos voadores! O Brasil arcaico e o moderno! Viva as bananas ao vento e o iê-iê-iê, o colar africano e a roupa de plástico. O estampado indiano e o espelho na testa.

Viva a geleia geral brasileira! E aquele abraço pra quem fica…
Que eu vou em frente como o velho do pastoril pernambucano, fazendo pilhéria, buzinando a moça e comandando a massa na Buzina do Chacrinha. Viva a vaia, seu Maia! E o calouro que pisa atordoado atrás do microfone que mudava de lugar a todo instante, enquanto a chacrete, com seu colante cavadão faz um show sensual ao som do tema da Pantera Cor de Rosa. É demais!…

– Mas como vai, vai bem? Veio a pé ou veio de trem?
E eu repito Dona Maria: nem tudo na vida é poesia. Enquanto o Chacrinha dorme, o Abelardo perde o sono com o fantasma do Ibope! Eu não sabia nada sobre boletins, planilhas, índices de audiência das classes A, B, C, D e Z. Eu era uma zebra, ó inocente, mas como de bobo não tenho nada, meu camarada, finalllmente, finalllmente eu aprendi como funciona o negócio.

E é ai que entra Dona Florinda, a espiã que me amava. Ela espionava tudo para mim, enquanto eu me concentrava nos mais de dez programas que eu produzia por semana para a rádio e TV. Dona Florinda anotava, gravava, lia e me informava sobre tudo o que estava acontecendo pela mídia e de quebra criticava o Chacrinha quando o programa ia mal e elogiava quando tudo corria bem.

– Vocês querem abacaxi? Vocês querem o Orlando Silva? Ou a calcinha da Wanderleia?
Cheguei com a cara e a coragem, um mero desconhecido, quase sem dinheiro, e agora seu Zé? Tinha que me virar no Rio de Janeiro. Mas como dizia Dona Luzia, “tudo melhora um dia…”

E melhorou.
Isso é pouco? Eu não sou cachorro não!
Apenas criei uma grande confusão nas ondas do rádio e nos canais de televisão.

Comunicação pra mim é juntar, ligar e virar tudo de cabeça pra baixo. Mas rrreallmente, rrrealmente tudo começou no rádio. O tímido Abelardo Barbosa, de voz anasalada e péssima dicção, ganhou sua outra metade, o velho palhaço Chacrinha, graças ao Cassino, meu programa radiofônico que se irradiava de uma pequena Chácara, uma Chacrinha em Niterói. E que foi ganhando audiência em outros estados e até fora do Brasil.
-Eu disse do Brasil varonillll, ouviuuu!
No “Cassino da Chacrinha” éramos eu e um contra-regra. Ali eu criava o ambiente de um cassino imaginário, com roletas, fichas, música tocando, panelas, apitos, grã-finos chegando e artistas dando a pinta. Eu descrevia as roupas que estavam usando, tudo muito estapafúrdio e absurdo para a época. Até o cheiro dos perfumes que invadiam o cassino. O ouvinte via, sentia e sonhava nas noites quentes e frias quando o rádio unia as pessoas e quebrava as solidões noturnas.

“Não, não é sopa não, seu Antão!”

– Roda e avisa! Quem vai pro trono? É o abacaxi? É o bonitão? É o fanho? O gago? A perua? A dondoca? A patroa? A empregada? É a voz afinada ou a cana rachada?

Eu quero tudo na mais perfeita confusão, enquanto a plateia aplaude ou vaia o cachorro mais pulguento, a comerciária mais simpática, a criança mais bonita, todos do Brasil em seus poucos minutos de fama. E a Buzina é uma loucura, celebrando a vida, as datas e os eventos. Salve São Cosme e Damião! Salve o coelhinho da Páscoa! Salve o Sete de Setembro! O Dia dos Pais e das Mães! Salve você também, Seu Araquém!

– E Viva o Carnaval! Porque afinal, ninguém é de ferro!!!
Estou a caminho de meu camarim e enquanto vou deixando o Chacrinha para trás…

– Que rei sou eu?
– O rei está nu, completamente nu, no programa que acaba quando termina…

Sou nordestino de Surubim. Trabalhei no armarinho do meu pai e na pensão da minha mãe em Recife. Fiz três anos de medicina e não segui. Viajei de navio para a Europa como baterista de Jazz e a Grande Guerra me trouxe de volta.

Vejo ainda brilhar a luz derradeira de minha querida Recife, onde tudo me inspirou.
E vou seguindo, ouvindo o belo frevo cantado por Alceu Valença…

Roda, roda, roda e avisa

Que a alegria explodiu no ar
O velho guerreiro sorrindo
Subindo, subindo foi pro céu brincar
Roda, roda, roda que a vida
É um sonho que vai terminar
O bom palhaço não chora
E vai embora sem explicar (BIS)…” (Alceu Valença)

– Ô Maré!
Renato e Márcia Lage

sábado, 20 de maio de 2017

10 vezes que a Rosa foi a deusa barroca do carnaval

por Leonardo Antan e Beatriz Freire




Uma deusa, uma louca, um feiticeira. Amada não só por imperianos, estacianos, salgueirenses, gresilenses, vilistas, clementianos, mangueirenses e, agora, portelenses. Ao longo de mais de 35 anos de carreira assinando desfiles e mais de 40 vivendo o mundo da folia, Rosa Magalhães traçou uma trajetória única. Figura feminina rara (infelizmente) entre os carnavalescos, se colocou dentro da linhagem por Fernando Pamplona, que a trouxe da faculdade de Belas Artes da UFRJ para os desfiles.

De lá pra cá, Rosa vem fixando como a grande artista da festa através de um estilo clássico mas ao mesmo tempo contemporâneo em sua linguagem. Ao mesmo tempo que seu rótulo de barroca e rococó são usados em tom genérico, a obra da professora se aproxima de fatos dos processos conceituais e estéticos desse movimento artístico, que já se tornou uma forma de pensar o mundo na atualidade. A opulência, as formas curvas, o exagero e o excesso de informação; tudo isso com uma visão particular do Brasil, com afinidades com o movimento romântico, fazem da Rosa uma artista complexa e querida. 

1 - "Ligo pra livraria e mando trazerem todos os livros sobre aquele assunto"




Como boa artista, Rosa tem uma curiosidade aguçada de pesquisadora, explorando muito bem seus enredos em abordagens diferenciadas e muito bem embasadas. Ela não mede esforços quando o assunto é pesquisar minuciosa e detalhadamente todas as possibilidades para o melhor desenvolvimento possível de seus desfiles. De consultas bibliotecárias a relatos pessoais, conversas com especialistas, palestras, viagens e documentos raros, Rosa só leva pra Avenida um enredo a partir de um excelente material que garanta o bom entendimento da história a ser contada, tarefa cumprida sempre com sucesso. Talvez seja por isso que suas histórias, por menos conhecidas que sejam, garantam uma leitura objetiva do público presente.

2 - Múltiplas referências artísticas


      




Toda essa pesquisa resulta numa riqueza de informações que é muito bem administrada pela professora em seus carnavais. Formada pela Escola de Belas Artes e criada numa família de intelectuais, ela faz questão de carregar consigo toda sua bagagem artística adquirida através de todos esses anos. Nas fotos, vemos à direita um figurino do pintor Pablo Picasso para uma ópera e, na esquerda, a fantasia de Rosa para  desfile da União da Ilha, em 2010. Em seus desfiles, é perceptível a presença de inúmeras referências artísticas de diversos universos diferentes, tanto na arte chamada "erudita", inspiradas nos azulejos de Adriana Varejão ou nas pinturas de Picasso, quanto aos elementos da cultura dita "popular", o folclore, o próprio samba e ainda signos da cultura de massa e de entretenimento. Nesse caldeirão, Tarsila do Amaral, Goya e Gaudí convivem com palhaços, super-homens, Chacrinhas e Quixotes. Assim, Rosa faz de seus desfiles verdadeiras galerias de arte com inúmeras referências dos mais distintos meios, mas sempre sem perder sua identidade e a originalidade de sua assinatura.

3 - Uma delirante confusão fabulística


Detalhe da alegoria de 2005

Um do marcos da produção de Rosa Magalhães são seus maravilhosos enredos que já renderam milhões de prêmios no quesito. A construção da narrativa da Rosa é uma das mais complexas e bem estruturadas da nossa historia carnavalesca, mas ao mesmo tempo dotada de grande simplicidade. Ao contrário do que se pensa, as sinopses da carnavalesca são sempre curtas e tratam os assuntos de maneira bem superficial, com uma narrativa super simplificada. Um das principais características do trabalho da professora é a mistura de elementos, tudo isso se dá através de relações muitos simples e objetivas. Ao contar sobre seus causos, ela quase sempre opta por um tom de fábula, de suspensão da realidade, criando assim um tom distante mais que diz para os espectadores de maneira muito clara e nada hermética. 

4 - Jegues escondidos na História

Alegoria de 1995 (Fonte: Blog Ouro de Tolo)


A deusa barroca também surpreende com enredos que trazem ao público, por diversas vezes, histórias reais e pouco conhecidas, mesmo que os personagens sejam figuras importantes, desde um rei francês a um carnavalesco tido como revolucionário. A já dita curiosidade de Rosa é fundamental na busca por narrativas ainda não contadas, com abordagens diferenciadas acerca de determinados assuntos; mais do que colírio para os olhos e exemplo do apuro estético e sabedoria, é uma verdadeira aula, e a professora faz jus ao apelido, exercendo com maestria o papel educativo que as escolas de samba desempenham com seus desfiles. Rosa articula elementos da História oficial, histórias pessoais e micro-histórias além de causos e pequenos relatos, juntando todos sem hierarquias. 


5 - Um pouco de Brasil nessa mistura

Alegoria de 1994  (Fonte: Tantas Carnavais)

Em todo esse processo de criação dos enredos, um aspecto que se fortalece nos carnavais de Rosa é mesclar referências e histórias estrangeiras com elementos tipicamente brasileiros. Com uma extensa bagagem cultural, não é difícil para a carnavalesca achar um ponto de interseção entre histórias separadas por milhares de quilômetros, fazendo da Sapucaí um ponto de suspensão do tempo e do espaço, promovendo um encontro entre elas. A visualização dessa mistura fica muito clara em desfiles em que pega, por exemplo, contos do dinamarquês Hans Christian Andersen, em 2005 na Imperatriz, e mistura com personagens de Monteiro Lobato; ou mesmo quando une Miguel de Cervantes a Ziraldo, como em 2010, na União da Ilha. Ou ainda, ao unir Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas com a história real de Giuseppe Garibaldi, em 2006. Fato é que a querida professora não poupa esforços para dar sempre um tempero brasileiro bem especial e exaltar as diversas riquezas de nossa terra em seus trabalhos.

6 - No encontro, a origem da nação

Imperatriz Leopoldinense - 2000 (Fonte: Wigder Frota)

O elemento da brasilidade é fundamental no imaginário de Rosa, tanto quanto na presença visual desses elementos quanto no sentindo amplo. O pensar na formação mestiça do povo brasileiro é uma de suas marcas, refletindo sobre a nossa construção enquanto nação. O índio é figura central, ao mesmo tempo que figura como ideal romântico, do bom selvagem e dono da terra, também é articulado dentro de sua contribuição para a formação brasileira: "a construção de um conceito de identidade brasileira passa pela valorização das tribos e comunidades tradicionais", disse a mestre em uma entrevista. Esse ideal romântico e uma visão positivista da formação do povo brasileiro através do mito da mestiçagem cordial estabelece Rosa num limite e um olhar tradicional da História Oficial.

7 - A corte e os índios

Croqui de Rosa Magalhães - Ala das baianas, Imperatriz Leopoldinense 2002 (Fonte: livro Inverso das Origens)

Além dos aspectos literários, toda esse pensamento sobre o nosso país e seus signos reflete também nos quesitos plásticos. No quesito das fantasias, muito além da opulência, do luxo, o uso de plumas e esses clichês do senso comum, Rosa em seus desfiles construiu fases diferentes da sua carreira. Na Imperatriz, sua face mais luxuosa foi mostrada, a mestra abusou das roupas típicas das cortes europeias, mas não pura e simplesmente nobre. Em vários desfiles como 92, 94, 96 e 99, a artista mistura essas peças do vestuário europeu de diferentes períodos com símbolos tropicais referidos no enredo, como a indumentária indígena, frutas, aves e outros signos tropicais. Num processo tropicalista de celebração irônica. Na São Clemente, Rosa mostrou um perfil mais simples, mas com o mesmo brilhantismo e o trabalho de cor que só ela tem, os figurinos de poucos elementos ganhavam destaque pela composição total das alas. 

8 - Caixotinhos e Anjinhos Barrocos

Imperatriz Leopoldinense - 2008

Muito além das fantasias, as alegorias da deusa barroca se construíram como um capítulo a parte de sua criação artística. Pontuadas injustamente esse ano, ela sempre optou por uma volumetria singela contra o crescimento exagerado das alegorias. Os populares caixotinhos da Rosa são, na verdade, escolhas estéticas muito claras. São alegorias pensadas como cenários teatrais, construídas como uma caixa cênica de um palco, com suas laterais e visuais frontais. Um cena cuidadosamente pensada na seu caráter composicional. Como já citados, são diferentes elementos retirados das mais diversas referências de cultura distintas. São grandes fragmentos que se unem dando uma unicidade visual opulento mais bem elaborada e se destacando na sutileza.

9 - Leques, sombrinhas e savanas


Comissão de Frente da Imperatriz Leopoldinense - 1994 (Fonte: Página Tantos Carnavais)

Apesar de ser uma parte independente do total controle e criação de Rosa, os enredos da professora dão base aos coreógrafos para excelentes comissões de frente. Sua troca com os profissionais resultam em trabalhos memoráveis. Fábio de Mello, sem dúvidas, foi um dos grandes nomes que fizeram uma comissão de frente a altura do excelente trabalho de Rosa; são inesquecíveis os leques do desfile de 1994, os guarda-sóis de 1995, o piano de 1997 num enredo sobre Chiquinha Gonzaga, a caravela humana de 2000 e o bicho papão de 2002. Recentemente, as comissões da Vila Isabel em anos que Rosa assinou os desfiles da escola também chamaram atenção do público: em 2012, Marcelo Misailidis fez uma verdadeira savana africana, com a presença de feras e animais que lá vivem, e a formação de um rinoceronte gigante. Em 2013, o elemento alegórico era um caixote, e sobre ele os bailarinos da comissão de frente traziam uma verdadeira quadrilha de festa junina e o surgimento da vida a partir da terra, também planejada por Misailidis.

10 - Visão do paraíso

Imperatriz Leopoldinense - 2001 (Fonte: Wigder Frota)

Toda essa junção, entre alegorias, fantasias, comissão e enredo através dessas diferentes associações e dos mais diferentes universos, vai gerar um visual único dos desfile da professora. Ao mesmo tempo em que ela reforça a construção do censo comum de um carnaval opulento e luxuoso, definindo por Arlindo Rodrigues e depois reverberado por Joãosinho Trinta, Rosa Magalhães coloca em jogo elementos muito próprios e suas preferências estéticas. Muito além de um visual opulento, o referencial teórico dos enredos da artista ajudam a entender sua formação estética, desse jeito ela elabora cenas barrocas na estética e na temática. O barroco dessa fábula que Rosa costura habilmente, resultado de uma de formas, imagens e cores. Frutos da “mestiçagem”, das diversas influências da cultura popular no cotidiano do país; exemplificado no fervilhamento elaborado por cores, crinolinas e bom humor. Uma verdadeira aula. 


Comissão de Frente, Imperatriz Leopoldinense - 1997


Não por acaso, Rosa merece e honra todos os apelidos que recebe. Seja professora, mestra ou nossa deusa barroca, a carnavalesca foi grande nome dos carnavais dos anos 90 e ainda é responsável pelo brilho de tantos olhares quando seus desfiles tomam conta da Sapucaí. Rosa mostra que tem talento e conhecimento de sobra, além de contrariar a necessidade da grandiosidade que as alegorias da última década e meia atingiram, sendo a representação clara de que o maior nem sempre é o melhor. Seus trabalhos carregam sempre a essência de seu nome, uma verdadeira flor, com delicadeza e imponência de uma verdadeira artista, consagrada por seu suor e dedicação.



quinta-feira, 18 de maio de 2017

5x Caprichosos: A irreverência de Pilares

por Beatriz Freire e Leonardo Antan



Os dois rebaixamentos da Caprichosos de Pilares preocuparam e entristeceram todos os foliões. Com uma trajetória marcante e que ajuda a contar um período da história dos nossos desfiles, a azul e branco do subúrbio se tornou querida do grande público pelo seu estilo irreverente e crítico em seus desfiles na década de 1980. No momento da abertura política, que a sociedade clamava pelas "Diretas Já" na fase final da ditadura, a Caprichosos levou o grito das ruas para a Sapucaí, se firmando no imaginário através de seus carnavais de muita alegria e leveza.



1982 - "Moça Bonita não paga"


"Tem zoeira, tem zoeira / Hora de xepa é final de feira"



Pilares já contava com uma trajetória de 33 anos desde sua fundação, mas a agremiação apenas cumpria tabela nos grupos inferiores da folia. Em rápidas passagens na elite da festa nos anos 50 e depois em 1961, já eram quase vinte anos longe de desfilar com as protagonistas, fazendo enredos chapa-branca louvando figuras tradicionais da História brasileira. Essa primeira fase da trajetória da azul e branco ficaria para trás com a chegada do carnavalesco Luiz Fernando Reis que assinaria seu primeiro carnaval solo. O professor de matemática vivia o mundo do samba já tinha algum tempo, com passagens pela Santa Cruz e Cabuçu. Ele tiraria da cartola um enredo que havia sido rejeitado na escolas por onde passou: a feira livre.



Inspirado nos carnavais de Maria Augusta na União da Ilha anos antes, marcados pela leveza e colorido, o artista faria um grande ode a feira com um passeio pelo lugar através da personagem Lili, que era apenas citada na sinopse e se tornou protagonista a partir do samba composto por Ratinho. A obra foi a primeira na discografia dos sambas-enredo a citar a inflação que começava a tirar o sossego dos brasileiros. Sob um sol a pino, a escola fez um desfile antológico que contagiou as massas. Os carros eram decorados com frutas e verduras de verdade e momento de catarse entre público e a escola foi tão grande, que os alimentos foram distribuídos para as arquibancadas. O resultado não podia ter sido outro: o acesso ao especial após tanto tempo.


1985 - "E por falar em saudade"

"Diretamente, o povo escolhia o presidente / Se comia mais feijão / Vovó botava a poupança no colchão / Hoje está tudo mudado / Tem muita gente no lugar errado"



Após sua ascensão ao grupo especial, a agremiação de Pilares se fixaria como protagonista de fato no emblemático ano de 1985. Um ano antes, na inauguração do Sambodrómo, a escola ia surpreender pelo desfile alegre e colorido em homenagem a Chico Anísio, garantido uma vaga inédita para os desfiles da campeãs e, consequentemente, chegando ao sexto lugar no supercampeonato daquele ano realizado no sábado pós-carnaval. Para 1985, as expectativas eram grandes e através da sinergia entre o trabalho do politizado Luiz Fernando Reis, em parceria com o figurinista Flávio Tavares, junto com o antológico samba composto por Almir de Araújo, Balinha, Marquinho Lessa, Hércules e Carlinhos de Pilares colariam definitivamente a azul e branco no hall das agremiações históricas da nossa folia.

O visual poluído e multi-colorido do desfile de 85 (Fonte: O Globo)

A sintonia com o momento politico do país, a estética simples e comunicação direta, com a irreverência e crítica dos "velhos tempos que não voltam mais". Novamente sob o sol escaldante, a comunicação direta entre público e a escola foi ainda mais presente fazendo os foliões na arquibancada evoluírem de um lado por outro. A escola amargaria apenas a quinta colação aquele ano, injustamente, mas ganharia o Estandarte de Ouro de Melhor Escola, o único da sua trajetória. 

1989 - "O que é bom todo mundo gosta"


"Todos gostam do que é bom / Tira a mão do meu país / Se liga no que a história diz"



Após o marcante ano de 85, o trabalho de Luiz Fernando perderia sua sintonia com o público e amargaria posições cada vez piores. A busca por melhores colocações através de uma estética mais "sofisticada" faria o artista irreverente romper de vez com escola em 1987. Para o seu lugar, a dupla Renato Lage e Lílian Rabello assumiria, vindo de bons desfiles pelo Império Serrano. Com uma estreia simpática em 88, numa apresentação sobre a história do cinema, a azul e branco voltaria a apostar um enredo com a sua identidade, bastante irreverente e ao mesmo tempo crítico: "O que é bom, todo mundo gosta".

Detalhe da alegoria sobre o Descobrimento do Brasil (Fonte: Página Tantos Carnavais)

O desfile propôs contar ao público sobre todas as riquezas que foram exportadas e exploradas no Brasil desde os tempos em que Cabral pisava neste solo verde e amarelo. O samba composto por Wanderlei Novidade, Paulinho Rocha, Vanico do Beco, Walter Pardal e Jorge 101, em seu tom satírico e bem humorado, denunciava os múltiplos interesses dos diversos países e empresários que tanto extraíram produtos do país, citando até mesmo paraísos fiscais que eram e ainda são destinos de um dinheiro provido do bolso do povo. Quanto às alegorias e desenvolvimento do desfile, a dupla de carnavalescos muito agradou com um abre-alas que retratava a perda de todas as riquezas do Brasil em um cais, desde o pau-brasil, da época colonial. Um outro carro também colocou o dedo na ferida do cenário político: a alegoria representava o Congresso Nacional invadido por ratos que o roíam, em um momento muito recente à redemocratização do país. O samba não contagiou como esperado a evolução da Caprichosos enfrentou alguns problemas. Assim, a escola terminou com o décimo segundo lugar do Grupo Especial.


2005 - "Carnaval, Doce Ilusão. A Gente Se Encontra Aqui, No Meio da Multidão. 20 Anos de Liga"



"É carnaval, é samba a noite inteira / Mulata, cachaça, tem muita zoeira / Vem cá meu bem, me dê seu coração / E não a bolsa, o relógio e o cordão"



Após apostar na volta de Luiz Fernando Reis na década de 1990 sem o sucesso de outrora e patinar no especial e sofrer até um rebaixamento em 1996, a Caprichosos permaneceria um período sem mostrar sua identidade apostando em outras fórmulas na busca de garantir melhores posições. Nos anos 2000, entretanto, a veia irreverente viria à tona sob o comando do carnavalesco Chico Spinoza, quando a escola de Pilares desfilou com o enredo "Carnaval, doce ilusão. A gente se vê aqui no meio da multidão: 20 anos de Liga", homenageando a segunda década da Liga Independente das Escolas de Samba. O samba de J.L. Froes, Danoninho, Edmar, Jorge 101, Fernando Lima, R. França e Lee Santana relembrou vários outros sambas de desfiles marcantes que passaram na Avenida. Em seus versos, a letra fazia uma viagem do Sapoti da Estácio de Sá ao Ita salgueirense, passando pela própria Caprichosos da Cabrocha Lili e da saudade, pela Kizomba do Povo de Noel. O único erro do desfile foi a citação aos desfiles da própria Caprichosos em 1982, e o do Império Serrano com Bumbum Paticumbum Prugurudun, acontecido anos antes da criação da Liga.

Alegoria sobre os grandes desfiles da Caprichosos em 2005 (Print do Youtuber)

As atenções do desfile foram direcionadas, principalmente, para o grupo que trazia homens como porta-bandeiras e uma mulher no papel de mestre-sala. Uma alegoria de mais de 40m de comprimento representando a arquibancada da Marquês também foi destaque, composta por mais de 300 pessoas. O resultado, no entanto, não foi dos melhores e trouxe o 11º lugar para a escola, que ainda conseguiu se manter no Grupo Especial. Outro destaque foi a alegoria representando os icônicos carnavais da azul e branco sob a batuta de Luiz Fernando Reis que ganhou até uma escultura representando.

2015 - "Na minha mão é + barato"


"Tem escritório de samba quebrando a firma! / Quem dá mais no mestre-sala?
Quanto vale a tradição? / É mais barato aqui na minha mão"




Após o rebaixamento em 2006, a Caprichosos não voltaria para o especial até hoje. Em 2011 viveria um outro momento crítico como o atual. Após um desfile desastroso assinado por Amauri Santos em 2011 sobre a vida no subúrbio e consequentemente um rebaixamento para o terceiro grupo, a Caprichosos louvaria sua própria história sacudindo a poeira e dando a volta por cima em 2012 quando fez uma homenagem a si mesma. A junção dos grupos A e B que geraria a atual Série A seria benéfica para a azul e branco, mantendo-a numa situação relativamente confortável. O ponto fora da curva viria em 2015, quando o então desconhecido Leandro Vieira foi chamada para assinar seu primeiro desfile solo. 



Com carreira já extensa nos bastidores da festa, Leandro surpreenderia à todos com seu talento artístico. Ao contar a história do mercado informal no Brasil, ele aliaria um tema mais histórico contado à maneira divertida da Caprichosos, com direito a crítica a capitalização dos desfile no momento final. A comissão de frente trouxe uma brincadeira acerca dos camelôs do centro do Rio e do famoso "rapa", alerta de quando os guardas chegam para levar as mercadorias.  O samba, apesar de não ser nenhuma obra-prima, cumpriria bem seu papel, levando à escola a fazer a sua última grande apresentação até aqui. O refrão do samba composto por Lee Santana, Geraldo Rodrigues, Marcelo Schimidt, Anderson Rodrigues, Queilo e Fernando de Lima criticava o valor do carnaval em seu refrão principal, e um questionamento do mesmo teor veio no último carro da escola: "quanto vale o respeito ao samba". Com novos ares de um jovem e talentoso carnavalesco, a Caprichosos conquistou um confortável 7º lugar na série A.

A alegoria ironiza a política e clamava pelas diretas no ano de 1984.


Marcada por sua identidade dada por um dos grandes artistas da nossa folia, a Caprichosos é personagem do fundamental da trajetória dos desfiles. É pela sua irreverência e alegria que sempre lembraremos com carinho da agremiação, seja em seus tempos áureos ou em momentos de mais dificuldade. Ao longo de sua trajetória, a Caprichosos, desde então, alternou entre momentos bons e ruins, sempre se asfaltando e se aproximando do estilo que a tornou famosa. A escola em 2018 desfilará pela Série C, já que não passa por um momento tão favorável, com direito a fortes brigas políticas. Homenageamos a escola  na esperança da chegada de dias melhores, que trarão esta agremiação tão querida de volta à Sapucaí, com sua identidade única que jamais deve ser perdida. E faz falta nos tempos atuais.