quarta-feira, 17 de maio de 2017

"Será que já raiou a liberdade?": Belos sambas sobre a horror da escravidão

por Leonardo Antan e Beatriz Freire















O Brasil é uma país construído nas sombras dos grilhões, testemunhou os horrores da escravidão por mais de três séculos. Os povos africanos escravizados foram fundamentais no processo da nossa formação cultural deixando heranças dos seus ancestrais, desde as relações sociais, passando pelas religiões e chegando até a música que nos presenteou com ritmos, batuques e danças, que mais tarde dariam origem ao nosso samba. O tráfico negreiro gerou inúmeros lucros ao senhores da Casa Grande, mas começou a se desgastar a partir do século XIX em todo o mundo. O Brasil foi o último país no ocidente a extinguir a escravidão no lendário dia 13 de maio de 1888, quando foi assinada a Lei Áurea pela Princesa Isabel. As correntes se soltaram, mas o questionamento pertinente é: será que a liberdade havia raiado de fato para todos?

A partir do recém aniversário de 129 anos da assinatura da histórica lei e no lançamento do enredo da Paraíso da Tuiuti para 2018, que versará sobre tema, o Carnavalize listou oito sambas que cantaram na Avenida o sofrimento, as heranças, a libertação e a vida de alforriado dos cativos afrobrasileiros. 


Nenê de Vila Matilde 1956



Pioneira nos enredos de temática negra no carnaval nacional, muito antes da dita Revolução Salgueirense nos anos 60, a Nenê de Vila Matilde cantou as dores da escravidão em seu desfile de 1956. Através da obra do sociólogo Gilberto Freyre, o seminal "Casa Grande e Senzala", a azul e branco de São Paulo lidou com um dura versão da escravidão pelo viés das diferenças culturais e sociais da separação entre brancos e negros, como nos lindos versos que mostram um claro contraste entre os dois: "Na casa grande, tudo é festança / Na senzala, nego chora." O outro dado importante para a compreensão da obra é a repetição da frase "É banzo que nego tem", que funciona como um refrão único. Banzo é uma expressão de origem africana que dá nome ao sentimento de tristeza em relação a saudade à sua terra natal, no período da escravidão. Usada também como prática comum de resistência à escravidão.

Unidos da Tijuca 1961



A Unidos da Tijuca atual, pouco provavelmente, frequentaria esta lista. Mas há mais de 50 anos, numa outra realidade, a agremiação do Borel levou para a Avenida o enredo "Leilão de Escravos", em 1961. Utilizado como boa fonte histórica, o samba composto por Mauro Affonso, Urgel de Castro e Cici cantou o processo da venda e do trabalho dos cativos vindos da África. Os castigos físicos e o trabalho compulsório, além da vida miserável, foram pontos de partida para as fugas e rebeliões, que se cruzam por diversas vezes com personagens quilombolas de nossa história, também apresentados no carnaval. Além disso, há o contraste da vida na senzala e na Casa Grande ilustrado nos versos "e na senzala o contraste se fazia/Enquanto o negro apanhava, a mãe preta embalava o filho branco do senhor que adormecia". Em um período difícil de sua história, a Tijuca conquistou apenas o 7º lugar do segundo grupo. 


Unidos de Lucas 1968



A Unidos de Lucas de Clóvis Bornay, em 1968, desfilou um samba antológico e dos mais bonitos de todo o carnaval, com o enredo "História do Negro no Brasil", ou "Sublime Pergaminho", como se tornou mais conhecido. O enredo foi importantíssimo para uma época em que começava a afirmação das temáticas negras no carnaval carioca. No entanto, apesar de mostrar o sofrimento e a união dos negros em seus festejos e lutas, o samba confere o papel triunfal à Princesa Isabel ao assinar a Lei Áurea, em uma visão tipicamente embranquecida. Retrata, também, em seus últimos versos, a cena do jornalista negro José do Patrocínio beijando a mão da herdeira de Pedro ll, e posteriormente a frase exclamada que ficou conhecida: "Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão". A escola conseguiu manter-se no grupo especial após a conquista do 5º lugar e teve o samba imortalizado no Museu da Imagem e do Som, além de ter sido gravado posteriormente por Martinho da Vila, Nara Leão, Mestre Marçal, Neguinho da Beija-Flor, Emílio Santiago e muitos outros.


Portela 1972



Sem grande tradição nos ditos enredos "afros", como outras agremiações, a Portela, em uma das suas raras abordagens sobre o tema, brindou o carnaval com uma das mais belas obras sobre as dores da diáspora africana. Sem caráter tão denso, como é comumente usado, a obra composta por Cabana e Norival Reis assume tom mais celebratório. A expressão em yorubá que significa "Terra da Vida" faz uma referência à terra natal dos africanos. Mostrando a dor e ao mesmo tempo a resistência dos escravizados, o samba termina com a belíssima passagem que resume a importância negra na história brasileira: "Negro é sensacional / É toda festa de um povo / E dono do carnaval." O samba ficou conhecido nacionalmente através da regravação da eterna Clara Nunes. 


Paulistano da Glória 1974



Além de sambas-lamentos contando a saga negra, também ficariam famosos no carnaval uma outra forma de narrar a escravidão: através de micro-histórias de personagens marcantes desse período, que tiveram uma vida de luta marcante contra a opressão. Muito nomes escondidas dentro da História oficial foram revelados pelas escolas, exemplos mais famosos são Zumbi dos Palmares, Xica da Silva e Chico Rei. Nesse sentido, São Paulo também realizou um processo de arqueologia através de uma obra do histórico compositor Geraldo Filme, um dos mais importantes da folia paulista. Sua obra de 1974 para a extinta Paulistano da Glória narra a curiosa história do negro Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas, que conseguiu a alforria devido ao seu notável conhecimento na construção civil no século XVIII, quando ajudou a construir a Igreja da Sé e a canalização de esgotos da região. Seu apelido viraria sinônimo de algum especialista em algo na linguagem dos escravos do século XIX, o que fez Geraldo investigar a origem da expressão e encontrar a suposta origem sobre ela.

Camisa Verde e Branco 1982



De forma muito poética, o Camisa Verde e Branco desfilou em 1982 o enredo "Negros Maravilhosos, Mutuo Mundo Kitoko". O belíssimo samba composto por Talismã e cantado por Ataíde contava os sofrimentos dos negros enquanto cativos e mostrava seu sofrimento no pós-abolição, marcado pela exclusão social. O samba representava a prisão em versos muitos bonitos, que ilustram a figura de um cativo referindo-se a um osso de canela preso em uma bola de ferro. Também trabalha o mínimo de empatia em relação ao escravo, imaginando sua trajetória árdua vindo de um outro continente, pela condição em que viveu e, por fim, chega ao reconhecimento da cidadania e afirmação dos direitos dos negros; o questionamento mais real para conectar o ocorrido aos dias atuais está no verso "por que só no triduo de Momo que o negro é genial?". Com um bom desfile, a escola conquistou como resultado o terceiro lugar do Grupo Especial naquele ano.


Mangueira 1988



No ano do centenário da Lei Áurea, a Estação Primeira de Mangueira propôs a seguinte reflexão: será que, de fato, a liberdade já havia raiado? Depois do assassinato de seu presidente poucos meses antes do carnaval a Mangueira pisou na pista com um samba antológico e, em um desfile lindíssimo, retratou a vida do negro após a libertação. Legalmente, a escravidão estava abolida, mas, sem uma política de inclusão social, os negros continuaram marginalizados pela nação que prioritariamente já tinha o desejo do “embranquecimento”. A escola mostrou, no desfile assinado por Julio Mattos que, apesar da quebra dos grilhões físicos, os metafóricos ainda estavam e estão presentes numa sociedade que testemunha todos os dias casos do racismo velado e estrutural que a obra da escravidão nos deixou, e o papel assinado da libertação tornou-se parcialmente eficaz A comissão de frente trouxe grandes nomes que se destacaram em diversos setores, como Carlos Cachaça, Ruth de Souza, Glória Maria, Grande Otelo, Jair Rodrigues e muitos outros. Esse mesmo quesito, mais tarde, tiraria o campeonato da escola. A Mangueira passeou pela chegada dos africanos ao Brasil e suas atividades, por Zumbi dos Palmares em seu Quilombo e finalmente à Lei Áurea. A Sapucaí testemunhou Jamelão entoando a letra de Helinho Turco, Jurandir e Alvinho que ajudou a Mangueira a conquistar o segundo lugar, perdendo apenas para o também histórico "Kizomba, a Festa da Raça", da Vila Isabel. Apesar disso, a escola marcou em suas páginas um dos desfiles mais lindos e importantes da sua história, não apenas pela estética e por seu comovente samba, mas pelo teor social que trouxe para ilustrar, em seu papel educativo, um passado paradoxalmente muito presente.

Beija-Flor 2001



Outra micro-história que nos faz refletir sobre o horror da diáspora africana é a saga de Maria Mineira Naê. A Rainha Agotime que era soberana de Daomé, atual Benin. Após a morte do marido, o enteado de Agotime toma o poder e como a rainha era uma poderosa conhecedora do culto aos vodun acabou sendo aprisionada e vendida como escrava. No triste processo da escravatura, Agotime se torna Maria Mineira ao chegar ao Brasil. Desembarca primeiro na Bahia até "seguir o seu destino para o seu povo encontrar". Após conseguir sua alforria, ela segue rumo ao Maranhão onde encontra "seu povo", ao iniciar um novo reinado, o de líder da Casa da Mina, terreiro pioneiro do culto aos voduns, que existe até hoje no Maranhão. A então desconhecida história da rainha africana foi contada com um samba e um desfile de força impressionantes, com a famosa garra da comunidade Nilopolitana. Força que impressionou até a jornalista Glória Maria, que não escondeu seus elogios na transmissão pela Rede Globo. Apesar da histórica apresentação com momentos marcantes como a Ala dos pretos velhos e a Comissão de Frente que encenava a transformação de Agotime numa pantera, a Beija-Flor ficou apenas em segundo lugar.

Rosas de Ouro 2006



Além do histórico hino sobre o processo racista de apagamento histórico do povo negro da Mangueira em 1988, a Roseira quase vinte anos depois levou para o Anhembi um grito semelhante contra o preconceito racial em seu histórico "A Diáspora Africana. Um Crime Contra Raça Humana", belíssimo samba sobre o processo do tráfico negreiro, abordado de maneira dura e crítica. Questionando a assinatura da Lei Auréa e processo de negação de direitos ao povo descendente dos escravizados e das "riqueza que ele não usufruiu" nos versos de Marcelo Dias, Silas Augusto, Marcio Bueno, Ricardinho e Baqueta. Além da força do samba, a Rosas de Ouro apresentou um belo trabalho do carnavalesco Fábio Borges nos quesitos plásticos mas que terminou injustamente num quinto lugar, meio ponto atrás da campeã. 


Imagem do desfile histórico da Beija-Flor em 2001 (Blog Ouro de Tolo)

A trajetória da diáspora negra já cruzou muitas vezes o Anhembi e a Sapucaí através das mais diversas visões, abordagens e recortes. Seja em tons mais dolentes, relembrando o sofrimento de outros tempos, tanto em tons mais celebratórios, abordando a herança cultural, é sempre importante lembrar esse processo histórico que manchou a história mundial. Nós sempre deveremos o perdão a quem sangrou pela História, as escolas como herdeiras desse povo devem, e podem, usar sua voz para fazer esse perdão ecoar. 




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