sexta-feira, 28 de julho de 2017

7x1 Carnavalize: Sambas afro nem tão conhecidos assim

por Beatriz Freire


De volta com as listas temáticas, o Carnavalize embarca em mais um 7x1 para mostrar sambas afro pouco conhecidos pelo grande público. O conceito de tempo é relativo e, com certeza, nem todas as obras são totalmente desconhecidas, sobretudo pelos bambas que caminham há mais tempo que nós na estrada da folia. O importante, no entanto, é permitir que conheçamos sambas bonitos e que foram esquecidos, ou talvez nunca lembrados, pelos foliões ao longo de tantos anos. Assim, nossas duas e até três gerações podem sentar juntas e apertar o play para relembrar, descobrir e se apaixonar pelos hinos de escolas que cantaram temáticas negras em nosso carnaval. Apertem os cintos porque nossa viagem ao passado começa agora.


A visita do Oni de Ifé ao Obá de Oyó 
Unidos do Cabuçu (1983)


A Unidos do Cabuçu, do fim da década de 70 até os primeiros anos de 80, ficou conhecida como uma escola extremamente competente por fazer lindos sambas com a temática africana. Como a lista abrange apenas 7 faixas, a prioridade será dada à variedade de escolas. Cabe, no entanto, louvar o samba de 1981 da agremiação, "De Daomé a São Luis, a pureza mina jêje'', que carrega beleza singular e seria facilmente encaixado ao lado do que será apresentado. Fato é que o Cabuçu, em 1983, levou ao público momesco o enredo "A visita do Oni de Ifé ao Obá de Oyó" para o seu desfile, à época pelo grupo 1B. O samba de enredo composto por Grajaú e Jacob é um dos mais bonitos da história da escola e talvez até mesmo do Acesso carioca. Pode ser que não tenha alçado voos mais altos – e conquistado seu lugar num imaginário popular ao lado dos outros hinos antológicos – por conta da pouca visibilidade que se perpetua, principalmente dos antigos carnavais, aos grupos mais baixos das divisões do carnaval. De toda forma, o samba conduzido por Di Miguel, intérprete da agremiação, conquistou o coração de muitos sambistas e torcedores da escola, carregado de muita história a respeito dos reinos iorubás de Ifé e Oyó. Sob o talento dos carnavalescos Gustavo Coutinho e Ronaldo Marins, a escola do Lins conseguiu um confortável 4º lugar – posição que lhe deu estabilidade para o campeonato no carnaval seguinte – naquele ano carregado de axé.


Orun-Ayê 
Boi da Ilha (2001)


O Boi da Ilha pode não ser um conhecido do grande público que acompanha o carnaval quando fevereiro se aproxima. É, porém, uma escola que há alguns anos conta com a simpatia dos sambistas fiéis ao festejo. Sem nunca ter alcançado os holofotes do Grupo Especial, a agremiação teve seus melhores momentos em passagens pelo Grupo A. A primeira delas acontece justamente em 2001, o que torna tudo melhor, ainda mais pelo enredo a ser apresentado naquele ano; "Orun-Ayê" foi a temática escolhida pelo carnavalesco Guilherme Alexandre para o desfile da escola da Freguesia da Ilha do Governador. O enredo contava o mito da criação e a coexistência de Orun, palavra iorubá que se refere ao mundo espiritual, e do Ayê, que está ligado ao mundo físico. A história desenvolvida rendeu um lindo samba, composto por Aloisio Villar, Paulo Travassos, Silvana da Ilha e Clodoaldo Silva. O microfone, por sua vez, foi comandado pela bela voz de Ronaldo Yllê, e o lindo conjunto de letra e melodia rendeu à agremiação a premiação do Estandarte de Ouro de melhor samba. Com ventos mais do que favoráveis, a escola insulana conquistou um satisfatório quinto lugar pelo Grupo A, melhor resultado nesses seus quase 30 anos de vida.

Geledés, o retrato da alma
Arranco (2006)


Contando a história das máscaras e da personalidade humana por meio delas, da África antiga ao momento à época, o Arranco também presenteou o mundo do samba com uma belíssima obra. O ano era 2006 e a escola estava de volta ao Grupo A, após um período de quase 10 anos em uma divisão mais baixa. Jorge Caribé, carnavalesco conhecido pelo seu competente trabalho de enredos afro, foi o profissional que assumiu a agremiação do Engenho de Dentro e teve que driblar os problemas financeiros e a falta de recursos para montar o carnaval daquele ano. Com o papel e o lápis na mão, os consagrados compositores Sylvio Paulo e Juan Espanhol se uniram a Fernando, Bira Só Pagode e Bola para dar ao carnaval um dos sambas mais bonitos de 2006. Zé Paulo Sierra, que fez sua estreia como intérprete oficial, comandou o canto com pouco menos da experiência que era necessária, é verdade, mas conseguiu dar voz ao hino que ganharia prêmios de melhor samba-enredo; Estandarte de Ouro, o troféu S@mba-net, Jorge Lanfond e Tribuna da Imprensa foram as premiações concedidas. O resultado da quarta de cinzas garantiu a permanência no Grupo A para 2007, a partir de um 7º lugar.

As três mulheres do rei 
Império da Tijuca (1979)


Não é de hoje que o primeiro Império da corte do samba faz enredos africanos que trazem novos e bons ventos. Desde os anos 50, a escola já mostrava como contar uma boa história vinda lá da Mãe África. Nos anos 70, fez uma aposta firme na temática e especificamente para o ano de 1979 apresentou o enredo "As três mulheres do rei", desenvolvido pelo carnavalesco Mário Barcelos. A história girava em torno de Xangô e suas três esposas: Obá, Oxum e Oyá. O samba que embalou o desfile do Imperinho foi composto e cantado por Marinho da Muda, figura do bairro e da própria escola. A beleza, além da letra singela, objetiva e bem costurada, fica justamente pelo tom melódico do samba e da própria voz de Marinho. O resultado foi um campeonato que coroou mais uma vez a comunidade do Morro da Formiga.



Ganga Zumba, raiz da liberdade 
Engenho da Rainha (1986)



Tradicional escola de samba do Rio de Janeiro, o Engenho da Rainha também entrou na nossa lista, e com muito louvor. A escola apresentou, em 1986, um lindo samba que cantava o enredo de Elson Mendes sobre Ganga Zumba, o primeiro líder de Palmares, e a passagem da opressão, do sofrimento e da dor ao anseio e luta por liberdade, através da simbólica resistência do Quilombo dos Palmares. Ciganerey, que ainda era conhecido como Paulinho Poesia, cantou os lindos e melodiosos versos escritos pelas mãos de Jacy Inspiração, Bizil, De Minas e Guará. Felizmente reconhecido, o samba faturou o prêmio do Estandarte de Ouro e, injustamente, a escola amargou um satisfatório 4º lugar, que garantiria pelo menos a permanência da escola no Grupo 1B.

Catopês do Milho Verde, de escravo a rei da festa 
Colorado do Brás (1988)


O Colorado de Brás, no centenário da Lei Áurea, levou a afrobrasilidade para o público e nos presenteou com um dos sambas mais bonitos da folia paulista. O enredo "Catopês do Milho verde, de escravo a rei da festa" fazia referência a Chico Rei e ao catopê, tipo de dança do congado, uma tradição encontrada em Minas Gerais a partir da figura do príncipe-escravo que conseguiu sua liberdade. O festejo tem ligações religiosas com Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, exatamente o que foi cantado pela escola num samba escrito por Dom Marcos, Edinho, Xixa, Minho e Roná Gonzaguinha. Apesar da fama na Terra da Garoa, as novas gerações pouco conhecem o hino que foi cantado pelo próprio Dom Marcos e, mais tarde, por Freddy Vianna em uma reedição da própria escola. Chico Rei coroou, assim, o Colorado com o 9º lugar do Grupo Especial de SP.

Do Iorubá ao Reino de Oyó 
Cabeções da Vila Prudente (1981)


Finalizando nosso 7x1, a escola da Vila Prudente pede passagem para seu maior samba. Como dito anteriormente, não é totalmente desconhecido – é, na verdade, bem elogiado pelos bambas e cantado até em rodas do Rio de Janeiro – mas ainda é um samba desconhecido por muitos. O microfone foi assumido por Dom Marcos, também compositor, e mais tarde regravado por Leandro Lehart, quando ganhou maior destaque. Fez, também, uma ponte aérea RJ-SP e foi parar na Sapucaí com a Unidos de Padre Miguel, em 2013, sendo usado como esquenta da escola da Zona Oeste. Aos apaixonados de pouca idade ou aos que por alguma razão desconhecem o samba, fica a oportunidade de escutar e aprender uma das maiores joias do querido carnaval paulista, que, apesar da beleza, embalou um desfile que garantiu um 10º lugar no Grupo Especial naquele ano.

A temática africana no carnaval não é novidade para ninguém; apesar disso, a lista mostra como o assunto rende histórias muitas vezes não contadas e sambas lindos, que nem sempre permanecem na memória do grande público. Mais uma vez, repetimos que há uma lista interminável de faixas que poderíamos citar, como o belíssimo samba de 1979 da Imperadores do Samba (ouça abaixo), escola de Porto Alegre. De toda forma, a dica de quem vos escreve é que se deliciem e aprendam muito com estes verdadeiros hinos e que busquem outros novos para que possamos dividir e repassar às novas gerações aquilo que formou o nosso carnaval atual. Até a próxima!




quarta-feira, 26 de julho de 2017

Carnavanálise: Que enredo é esse? - Série A 2018

Por Equipe Carnavalize

Estamos cantando parabéns para este site maravilhoso, chamado Carnavalize. Sim, nós mesmos, e com  nosso jeitinho engraçado e divertido, voltamos para o que deu pontapé inicial deste siteco: nossas queridas análises de enredos - as Carnavanálises. Voltamos, nos achando os próprios especialistas e prontos para dar alguns pitacos e pontos de vista com a zoeira de sempre. 





A Série A abre os trabalhos da folia carioca e abrirá também as nossas análises. Como todas as escolas do acesso carioca já sabem os temas, que levarão à avenida, viemos fazer aquele resumão para você. Já adiantamos que a crise fez muito bem e, com patrocínios escassos, os carnavalescos ficaram livres pra criar; Tirando da cabeça o que não se tem no bolso - saudoso Pamplona! Assim, surgiram enredos das mais variadas vertentes, das mais diferentes qualidades. Um luxo só! Apertem os cintos e se segurem no "Santo Antônio" (aquele negócio de segurar destaque), que a alegoria vai fazer a curva.

Sexta


1- "A Travessia da Calunga Grande e a Nobreza Negra no Brasil"
Unidos de Bangu

"Calunga cruzou o mar, nobreza a desembarcar na Bahia..." 
Não, pera! Samba errado.


O que é?
Abrindo os trabalhos em 2018, a Unidos de Bangu volta ao Grupo de Acesso depois do leve vexame de 2015. "Vem sentir meu calor, cheguei pra ficar". Ops, foi mal, mas não rolou. Agora, porém, pode rolar, tanto que a agremiação reforçou o time com nomes de peso. O destaque vai para o experiente carnavalesco Cid Carvalho (ler com a voz dele "tá em moda falar em ecologia"), que está de volta à Sapucaí depois de um ano trabalhando na Intendente Magalhães e no carnaval de Vitória. Por sinal, já estamos à espera das camisas customizadas com muito strass e pedraria... RYCA!


O que esperamos?
Uma pitada de Beija-Flor 2007, um navio negreiro, correntes, muitas correntes, orixás, muita Bahia, muito axé, muitos negros... Rápido, fácil, sem mistérios. Escravidão, "salve a negrura, salve a bravura", uma temática que já vimos passar algumas várias vezes e todo ano um pouco mais. O leve diferencial ficou por conta do tom de protagonismo desses negros guerreiros em suas e em nossa própria história. A figura de Calunga Grande vem somar e trazer uma aura um pouco diferenciada. É um feijão com arroz requentado, mas, se bem servido e bem temperado com o Sazon vermelho e branco banguense,  poderá render um pratão daqueles. Louvar a negritude tem tudo para abrir os melhores caminhos nessa difícil missão de se manter no grupo. No mais, nosso axé, Bangu! 


De 1 a 3 Cids o quanto ele vai fazer sua própria versão de Áfricas da Beija 2007, com muita pluma de pavão e pedraria:




2- "Olubajé – Um Banquete Para o Rei"
Império da Tijuca

O que é?
Depois de dois anos em coma, induzido (ou não), o Império da Tijuca quer se levantar e voltar a comer o asfalto da Sapucaí, como fez no início da década com belos enredos afros. E, para isso, depois de uma longa temporada na escola, Junior Pernambucano saiu para a chegada de Jorge Caribé e Sandro Gomes, dois nomes super experientes da folia e com especialização em temas africanos.

O que esperamos?
O enredo vem cumprindo a cota "orixá" do ano, então não há mistério. Pegue suas guias, seu atabaque, bata cabeça e abra a roda que vai ter muito "xirê, ogãs e alabês". Não, pera, esse era outro orixá. É tanta divindade que a gente fica perdido... Aliás, que não seja só sucessão de orixás ala atrás de ala. Mais do que só fazer aquela macumba – convenhamos, a gente adora – tem de levar conteúdo. Se o morro da Formiga, como é sintetizado também Omolu em algumas vertentes da religião, quer resgatar suas raízes recentes (vamos esquecer 2016 e 17), nada melhor que escolher o senhor das terras africanas... então, é só incorporar e tomar cuidado para não se perder nos reduzidos setores do acesso. Atotô!

De uma escala de 1 a 3 Ito Melodia o quanto queremos incorporar com o desfile



3- "Ritualis"
Acadêmicos do Sossego

O que é?
A Sossego cumpriu a árdua tarefa e permaneceu na Série A com folga e louvor. Saiu de campo o carnavalesco Marcos Puluker e em seu lugar,chegou Petterson Alves, experiente nome da folia capixaba. Com o time todo renovado, a Sossego quer fazer um ritual de amor e sonhar ainda mais no grupo com um enredo que abordará os diferentes rituais da história da humanidade.

O que esperamos?
A gente pega uma palavra, joga no Google. Vê os resultados. Vai juntando um, vai juntando outro. Volta lá na Pré-História, Grécia, Idade Média, Renascimento, Modernidade... Ah, Egito! Não pode esquecer o Egito (obrigado por nos lembrar, Beija-Flor). É isso! A proposta de se falar de rituais traz uma ideia muito ampla. Então, apesar do tema bacanérrimo, sem um fio condutor bem demarcado ou o aparo das arestas, o enredo pode se perder em condensar tantas informações em apenas quatro setores. Será que vai faltar alas, alegorias ou setores? Não dá para saber... De início, só sabemos que se a Sossego mandar nos chamar, nós vamos! 

De 1 a 3 Filósofos o quanto vai ter Sossego Ritual de Amor tour

 


4- "Rainhas do Rádio – Nas Ondas da Emoção, o Tigre Coroa as Divas da Canção!"
Unidos do Porto da Pedra

O que é?
Depois de brincar na Sapucaí com Carequinha e desfilar ao som de deliciosas marchinhas, a Porto da Pedra segue com a linha de enredos leves e nostálgicos que o carnavalesco Jaime Cezário vem tocando na escola. É a construção de uma nova identidade para a escola de São Gonçalo, que tem dado muito certo. Uma mistura de União da Ilha com Caprichosos, amamos!

O que esperamos?
Nostalgia, leveza, bom humor, uma pegada popular e de fácil reconhecimento do público. Todos esses ingredientes que fizeram sucesso nos dois últimos carnavais da Porto devem se repetir nesse enredo, que tem um recorte simples, como os outros, mas super objetivo e correto. Muita dor de cotovelo, muito samba-canção, bolero, muitos laquês e penteados pomposos. O Tigrão de São Gonçalo tem tudo para fazer um desfile que conquistará o público mais uma vez. Agora, resta saber se os jurados sentirão o impacto...
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De 1 a 3 divas do Rádio, o quanto queremos muito bolero e samba canção

  


5- "Renascer de Flechas e de Lobos"
Renascer de Jacarepaguá

O que é?
Depois de uma apresentação super digna no carnaval passado, a Renascer lidou com a situação lamentável de um incêndio que atingiu seu barracão, deixando a escola desorientada para o próximo desfile. Porém, o fato deve servir para motivar a agremiação, que precisa buscar melhores resultados, num enredo com muito diz mata, eu digo verde.

O que esperamos?
Villa-Lobos é prova de brasilidade. Com uma pitada de Mocidade 1999 e mais uma porção de Lendas e Mistérios da Amazônia, a Renascer conta com um enredo riquíssimo, com imagens que a gente já conhece mas que serão mostradas através de um fio condutor bem bolado e requintado; ou seja, com o sambão já garantido, fica fácil de se fazer um desfile babado daqueles.

De 1 a 3 sambões da Renascer nos últimos anos o quanto queremos ver a escola renascer das cinzas




6- "No Pregão da Folia sou Comerciante da Alegria e com a Estácio Boto Banca na Avenida"
Estácio de Sá

"É artigo de primeira, peça rara, coisa fina..."
Opa, não é esse?!

O que é?
Depois de fazer a egípcia no enredo sobre Singapura, a Estácio se restruturou para 2018. Saiu Chico Spinoza e ficou apenas Tarcísio Zanon, que, depois de dois carnavais, assinará sozinho pela primeira vez. Após dar as caras no Especial, o Leão se firmou como uma das grandes da Série A e está sempre na disputa pelo título. Entra, UPM.

O que esperamos?
Na minha mão é + barato! Não é!? Sabe quando a gente pega aquela roupa, faz uma mudança ou outra e acha que ninguém vai reparar que não é nova? Pode ter certeza: tem gente que repara. Risos. Enfim, mudando de assunto... A Estácio é meio Portela, né? Fez uns 10 enredos seguidos sobre o Rio, e, sempre que pode, mete ela mesma dentro das histórias. Afinal, a Estácio de Sá conduz a primeira parte do enredo da escola e esse negócio de ego inflado é mesmo coisa de leonino - RAWR! O que podemos dizer sobre a temática que também já apresentaram em outros momentos? Fizeram e fizeram bem, com direito à estrelinha e "parabéns" da professora. Apesar de ser uma alternativa mais econômica e que permite o uso livre da imaginação do carnavalesco,  o Leão vai ter de ser muito o Berço do Samba para conseguir sair de um desfile apoiado no que já se espera e já passou em enredos parecidos. Esperamos que o morro de São Carlos não precise chegar na hora da xepa e, muito menos, ficar pechinchando por um boa posição.


De 1 a 3 Caprichosos 2015 para mostrar que na mão da Estácio será mais barato:


 


Sábado

1- "Bravos Malês! A Saga de Luiza Mahin"
Alegria da Zona Sul

O que é?

Depois de uma injusta posição em 2017, a Alegria vem mordida. Ainda sob o comando do carnavalesco Marco Antônio Falleiros, que viajou fundo na história brasileira, a alvirrubra do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho trará para a Sapucaí a Revolta dos Malês. A escola, que quer voltar a brilhar na Série A, precisará esquentar muito bem o sábado de carnaval, para iniciar com todos os pés direitos possíveis a segunda noite do carnaval carioca e espantar essa história de que abrir é furada.

O que esperamos?
Mulher, negra, guerreira. Podia ser o enredo do Imperinho em 2013 - e é tão bom quanto, mas não é. Se um dos papéis dos carnaval é trazer para nós, espectadores, personagens e histórias pouco conhecidas do imaginário comum, falar de Luiza Mahin é mostrar que a Alegria cumpre muito bem seu papel como escola de samba Esperamos que, apesar de um período e uma parte da história pouco desbravada, seja um desfile que fuja dos afro densos, cheios de palha, como já cansamos de ver. É essa a parte que nos emociona, afinal, a educação também é bandeira fundamental do samba. Ouviu, Crivella? 

De 1 a 3 Negras Pérolas Mulher o quanto queremos Alegria deixando de fazer figuração na parte de baixo da tabela



2- "No Voo Mágico da 'Esperança', Quem Acredita, Sempre Alcança"

Acadêmicos de Santa Cruz


O que é?
A Santa Cruz, que parece ter se acostumado com a parte de baixo da tabela, se tornando a famosa hora do lanche. Não vamos falar Bob's porque não estamos aqui para fazer propaganda. É um momento bom de levar seu travesseiro e recuperar as energias. Com tantos carnavais regulares e de baixo desempenho, é melhor que  a escola se ligue porque até o Balança cai... se é que vocês nos entendem.

O que esperamos?
O tempo que o tempo tem? Diz mata! Eu digo verde? Literatura infantil... Se pegarmos várias coisas e jogarmos num caldeirão, é só torcer - e rezar muito - para dar certo. Mas... E aí!? Será que vai dar? O enredo tem a cara da Santa Cruz dos últimos anos – infelizmente –, um toque de história requentada, contando várias coisas que todo mundo já sabe... Vale lembrar que a escola terá o experiente e consagrado Quinho dividindo o microfone principal com Roninho, do time de canto da Mocidade. A gente só faz um alerta: Misturar Max Lopes com ciganos nem sempre dá certo, mas se ele insiste... #superaMax ¯\_(ツ)_/¯


De 1 a 3 criadores do universo o quanto vamos ali e já voltamos na hora da Santa Cruz





3- "Vira a Cabeça, Pira o Coração. Loucos Gênios da Criação"

Unidos do Viradouro

"Eu canto, eu pinto, eu bordo. Sapucaí é a tela, Porto da Pedra enlouquece a passarela..." 
ERROOOOOOU

O que é?
Renovada e sempre favorita, a Viradouro foi esperta e abocanhou um dos principais carnavalescos do grupo: Edson Pereira, que saiu de uma longa, brilhante e vitoriosa carreira na UPM, e cruzou a Ponte Rio-Niterói para tentar alcançar o tão sonhado Grupo Especial. Com a sorte de poder escolher a posição de desfile, as atenções estarão voltadas para a vermelha e branca. Será que vai pirar o coração dos jurados!? Criatividade tá acabando gente, perdão :(

O que esperamos?
Já podem fazer suas apostas das quatros esculturas que decorarão as alegorias da Viradouro para 2018. Não tem mistério: pegue cientistas, artistas, carnavalescos (ei, "só" carnavalescos não! Joãosinho Trinta, mané!), uma xícara de Porto da Pedra 2009 com uma pitada generosa do mesmo vizinho Tigre em 1997... e tenha a receita prontinha. Não é nada novo, apesar de não ser mais do mesmo, mas conta com possibilidades de gerar um grande carnaval, principalmente na questão estética, cuidada pelo talento do querido Edson.

De 1 a 3 grandes esculturas o quanto apostamos que a campeã vai ser vermelha e branca (Entra UPM, entra Berço do Samba)





4- "Madeira Matriz"
Acadêmicos da Rocinha

O que é?
Desde "Corações Mamulengos", na Curicica, em 2016, Marcus Ferreira deu uma virada na carreira e vem brincando com carnavais que bebem na fonte da cultura popular. Foi assim no carnaval do Império Serrano campeão em 2017 e pode se repetir na Rocinha, que vem embalada de uma grande apresentação em homenagem à Viriato Ferreira. 

O que esperamos?
Simples, bonito, artístico, popular... É um enredo de poucas, mas boas palavras. Mas não venha nos empurrar a comissão de frente da Vila Isabel 2014, hein... é muito mais! É singelo, não ata nós e nos permite abrir os olhos para algo que possa ser um história desconhecida por muitos. Voa, Borboleta Encantada! 

De 1 a 3 desfiles surpreendentes quanto queremos ver segurar a Rocinha de novo




5- "O Rei que bordou o mundo"
Acadêmicos do Cubango

"Tão louco quanto o Bispo do Rosário, fez um mundo invetado para doar ao criador.."
Mas gente, Porto da Pedra 1997 de novo? Pessoal de Niterói implicou com o Tigre, foi?

O que é?
Depois de ser campeã com a Sossego em 2016, a dupla de novatos-agora-não-tão-novatos-assim, Leonardo Bora e Gabriel Haddad finalmente fará sua estreia na Sapucaí, prometendo registrar nome na nova geração de artistas da festa. Promessas de novos Leandros Vieiras Tour. Ao escolherem o enredo para 2018, em uma safra de enredos robustos e interessantes, nossos meninos talentosos não deixaram por menos. 

O que esperamos?
A gente adora uma aula, né!? E a Cubango promete nos dar isso, com um enredo de cunho social, histórico e, principalmente, artístico. A sinopse é uma das mais belas dos últimos tempos; poética, lírica, mas que embasa a história rica do Bispo do Rosário que bordou o mundo. Rosa Magalhães assinaria fácil. Amém. O único ponto de observação está na parte sobre os festejos folclóricos nordestinos, o que não parece fluir na história, ao menos na escrita... Vamos ver na prática. 


De 1 a 3 novos carnavalescos talentosos o quanto queremos "cantar, pintar e bordar" a Sapucaí é a tela com a Cubango

 


6- "Mojú, Magé, Mojubá – Sinfonias e Batuques"
Inocentes de Belford Roxo

O que é?
Depois de três anos desfilando na mesma posição, a Inocentes subiu algumas casas e pegou um lugar mais nobre. Assim, a escola pode usar a ordem a seu favor para deixar de ser uma simples figurante de meio de tabela e buscar resultados mais expressivos, saindo do grupo intermediário da Série A, que não é elenco de novela, mas só serve pra figuração.

O que esperamos?
Enredo CEP? Afro? Inocentes juntou tudo e fez uma coisa só, numa pegada africana ao contar a história do município de Magé, no RJ. O enredo será conduzido a partir da narrativa do pintor Heitor dos Prazeres, um tempero diferente para imagens já batidas, e com a garantia de um grande samba, assinado por Cláudio Russo e André Diniz. Será que a maldade que não tiveram os vilões ano passado agora vem? Amém, Nazaré Tedesco. 

De 1 a 3 Neguinhos o que ele acha sobre desfiles para ficar na "meiuca" da tabela







7- "O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Parintintin"

Unidos de Padre Miguel


O que é?
Mordida e sempre favorita, a Unidos de Padre Miguel vem em uma posição excelente e quer rasgar o chão para mostrar que já não cabe mais na Série A há alguns anos. Beija-Flor da zona oeste define. A contratação do talentosíssimo João Vitor Araújo tem tudo pra dar certo... quero ver segurar... Calma, esse samba era na outra escola. Se ele já fez a Rocinha sem grana daquele jeito, imagina o estrago que não faz numa escola rica e babadeira dessas!

O que esperamos?
Um quê de Joãosinho Trinta com Fernando Pinto, um enredo super original e atraente, que mistura diversos elementos em várias camadas. Tanta referência que a gente até se perdeu um pouco no texto, que é um pouco longo, diga-se de passagem.  Mas é uma história super rica e que merece ser contada. Amamos. E, baseados no chutômetro de pseudo-entendedores-analistas-dos-analistas-de-enredo, achamos que pode estar chegando o dia na tribo da Vila Vintém, com um aninho de atraso, mas, né... Agora vai, UPM? 

De 1 a 3 desfiles que mereciam ter sido campeões o quanto a UPM não cabe mais na Série A 







E isso é tudo, pessoal! Esperamos que tenham curtido nossas análises super carnavalizadas. Lembrando que nossa missão é sempre trazer mais humor pro mundo carnavalesco, mas sempre com seriedade e respeito com as escolas. Com a benção de Rosa Magalhães e a força dos orixás de Laíla, vamos ficando por aqui. Saravá, axé, amém, salamaleico e namastê!




segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sem rima, sem verbo e com diálogo: a Sossego e a inovação na criação dos sambas

Por Felipe de Souza e Beatriz Freire
Atravessamos a Ponte Rio-Niterói para desembarcar no Largo da Batalha, lar da Acadêmicos do Sossego, escola que desenvolveu uma certa peculiaridade na maneira de fazer sambas de enredo. Vamos desbravar, juntamente com o compositor Felipe Filósofo, os motivos pelos quais a Sossego vem inovando desde 2016. De lá para cá são três sambas (2016, 2017 e 2018) assinados pela parceria do Filósofo, todos com alguma particularidade que desperta a curiosidade dos sambistas.

Iniciando a loucura
Para entender o porquê da quebra com a fórmula padrão dos sambas, é necessário voltar para o carnaval 2015, quando a Acadêmicos do Sossego ainda se apresentava na Estrada Intendente Magalhães, pelo grupo B. O samba assinado por Felipe Filósofo e seus parceiros recebe a nota 9,7 do jurado Alípio Pereira. Alípio, nas observações gerais, comenta a safra, deixando o seguinte recado: "Os sambas não fogem da fórmula de dois refrãos. O desfile do Acesso B tem apenas 40 minutos. Seria um bom espaço para experimentação. Falta ousadia e criatividade para utilizar novos formatos". Segundo Filósofo, o recado do jurado é a chama que dá início à loucura de sua parceria pela inovação.

Para o carnaval de 2016, a azul-e-branco de Niterói apresentou uma homenagem ao trabalho de Manoel de Barros, poeta matogrossense. O enredo "O Circo do Menino Passarinho" foi a primeira oportunidade de ousar na composição. Para tanto, a parceria decidiu que, assim como Manoel em suas poesias, escreveria um samba sem rimas. Entretanto, aquela não seria a primeira vez que uma escola desfilaria um samba-enredo sem o uso do efeito estilístico. A Vila Isabel, em 1987, foi a precursora, num samba de Martinho da Vila para o enredo "Raízes". Em quase 30 anos, não houve relatos de outro samba sem rimas. 
(foto: site Carnavalesco | edição: Carnavalize)
Felipe Filósofo ainda cita o princípio da não-contradição, usado na Filosofia para datar que existe apenas o ser ou não ser, mas que, na arte, a composição não deve ser comandada pelo racionalismo e sim pela imaginação criadora. Com isso, segundo ele, seria um cárcere da razão utilizar-se de fórmulas de samba pré-fabricadas, com 2 refrãos de 4 versos e 2 estrofes com 10 versos, propondo uma quebra com a lógica.

"Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer, a poesia acaba. Eu sei, sobre o nada eu tenho profundidades." - Manoel de Barros

Para a disputa de sambas na Sossego em 2016, o compositor explicita que era um momento em que não havia medo de perder, mas tinha, sim, a vontade de criar algo diferente do que vinha sendo feito e de delirar poeticamente, aderindo à frase "a arte não é para os covardes". E não é que deu samba?! Com a coragem da escola ao aceitar a ideia do samba-enredo e um belo desfile, a Sossego conquistou o título do grupo B e ascendeu à Série A, desfilando pela primeira vez em sua história na Marquês de Sapucaí no ano de 2017.

A loucura continua!
Para fazer sua estreia no Sambódromo, a Acadêmicos do Sossego escolheu contar a vida de Zezé Motta, no enredo "Zezé Motta: A Deusa do Ébano", assinado pelo carnavalesco Marcio Puluker. Para abrir os festejos da Série A em 2017, a parceria de Felipe Filósofo pensou na composição de um samba pequeno, bem-resolvido melodicamente e de fácil assimilação, conta ele. Com o mesmo pensamento de 2016, sem medo de perder a disputa e buscando ousar ainda mais na confecção, nasceu o primeiro samba-enredo em forma diálogo.
O casal Cherry e Naninha, na estreia da Sossego na Sapucaí (foto: Jornal OGlobo)
Para desenvolver o samba, embasou-se na música "Amigo É Pra Essas Coisas", composição de Chico Buarque, também conhecida por ser em conversa; a verdadeira deixa para compor o hino daquele ano na forma de conversação. E ora, ora, o enredo não era Zezé Motta? Zezé é famosa por atuações marcantes no teatro, formulado em diálogo. Por que não tornar o samba da Sossego para 2017 uma grande conversa entre a homenageada e a escola?

Durante a disputa de sambas e o pré-carnaval, a composição da parceria de Filósofo foi uma das mais comentadas, sofrendo até mesmo o questionamento se a forma utilizada atrapalharia o canto da comunidade. No desfile oficial, provou-se o contrário. A homenagem foi tão bem confeccionada que, na gravação oficial, Zezé Motta colaborou cantando suas falas no samba, juntamente ao ex-intérprete da escola, Leandro Santos.

E não é que deu certo de novo? O primeiro samba-enredo em diálogo da história do carnaval manteve a Acadêmicos do Sossego na Série A e esquentou muito bem, obrigado! A arquibancada, ficando à frente de escolas como Renascer de Jacarepaguá e Alegria da Zona Sul, que já tem um longo histórico na Série A.


E para 2018...
Depois da parceria de Felipe Filósofo conquistar seu quinto campeonato em disputas de samba (2012, 2013, 2015, 2016 e 2017) pela Acadêmicos do Sossego, decidiu-se que, em meio à crise que assola o país e o mundo do carnaval, a escola faria uma encomenda para o ano de 2018. E não poderia ser outro grupo o responsável por compôr o hino da escola do Largo da Batalha, certo? "A honra é gigante, mas a responsabilidade aumenta também", diz Filósofo.

Para o enredo "Ritualis", do carnavalesco Petterson Alves, não era possível retornar à fórmula antiga. A loucura já estava instaurada. Foi necessário achar alguma deixa para "delirar" e continuar a quebra com a razão. Uma das inspirações para os compositores foram os conceitos do filósofo Friederich Nietzsche em "O Nascimento da Tragédia", na obra, o autor fala da tensão entre o apolíneo e o dionisíaco, como os impulsos vitais da arte, um marcado pela forma e beleza, e outro pelas emoções intensas e a intuição. Para Filósofo, os sambas estão "harmônicos demais", mais apolíneos, quando deviam emocionar e inflamar as pessoas, sendo mais dionisíacos.

Além disso, há o ponto alto da composição, o desuso de verbos. Felipe Filósofo explica que, ao entrar num ritual, há a quebra do Princípio da Individuação, onde o ser humano encontra-se em transe e o espírito se conecta ao todo do universo. Quando, no princípio, há a individuação, existem comumente as individualidades, entretanto, com o rompimento, não existe a figura do sujeito e da pessoa verbal, datando também o apagamento dos verbos. Há somente a existência de imagens, configuradas pela plenitude do espírito. Essa relação do êxtase, do transcendental, é algo extremamente ligado ao conceito dionisíaco de Nietzsche, oriundo exatamente ao nascimento do teatro nas festas em louvor ao deus grego Dionísio. De onde surgiu um dos principais rituais ocidentais: o teatro. 

Porém, não há só a questão estilística ou filosófica. A falta de verbos não prejudica e não deve atrapalhar o canto da escola, mas deve alimentar a discussão quanto à forma e estética do samba. Há também a atenção conforme o desenho melódico, conforme a construção de imagens, onde o som carrega a construção figurativa; a música é uma pintura dos acordes, como cita Felipe.

Evoé!

Confira o samba da Acadêmicos do Sossego para 2018: 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

"Como será?": Coreógrafos de Comissão de Frente comentam a preparação para 2018




O Carnavalize compareceu à Carnavália Sambacon e ficou levemente perdido em meio a tantas celebridades e figuras importantes do samba. A feira, nas suas últimas edições, se firmou como ponto de encontro de quem faz a festa nos mais diversos segmentos, num ambiente descontraído, fora da tensão dos desfiles oficiais. Aproveitando isso, fizemos uma série de entrevistas com diferentes segmentos das escolas e as dividimos em grupos. Para finalizar a série, saiba mais sobre a trajetória e o que estão preparando grandes coreógrafos de Comissões de Frente.

Primeiro, a renomada dupla Priscilla Motta e Rodrigo Negri revela um pouco do impacto do corte de verba no seu trabalho e comenta sobre a sua trajetória e fixação como grandes nomes da festa no quesito de abertura nos últimos anos. Logo depois, o também renomado Marcelo Misailidis se posiciona a partir do corte de verba e como isso afeta seu quesito.

Priscilla e Rodrigo fizeram história na Tijuca e estão há três carnavais na Grande Rio.

CARNAVALIZE: Vocês foram os responsáveis pela Comissão de Frente que revolucionou o quesito, em 2010, na Unidos da Tijuca. A partir daí, as aberturas dos desfiles viraram um verdadeiro show. Como o corte de verba acerta diretamente o espetáculo, o trabalho de vocês, para o próximo carnaval?

- PRISCILLA MOTTA: Realmente, o quesito cresceu, dentro do carnaval, com certeza, foi o quesito que mais evoluiu. O que temos que fazer é usar a criatividade e pensar o que ela pode nos proporcionar com o recurso financeiro ou não. Claro que com o orçamento menor somos obrigados a dar um passo atrás, mas ainda temos que fazer um adaptação para manter o nível técnico. 

- RODRIGO NEGRI: Eu acho que o principal é a questão da valorização do profissional. Inclusive, os nossos bailarinos são remunerados; para a gente exigir, a gente precisa retribuir. Então, a parte da remuneração dos nossos bailarinos é uma parte que fica complicada. Temos que nos adaptar, é claro que o projeto não pode ser comprometido, mas precisamos apertar, de repente, o número de ensaios, a carga horária...  tudo ajusto à nossa realidade. 

- CARNAVALIZE: vocês trabalham sempre com grupos grandes, que envolvem cerca de 30 pessoas que se revezam e fazem trocas nas apresentações. Acaba sendo um setor da escola muito autônomo e as pessoas muitas vezes não sabem da antecedência que vocês têm em relação ao início e rotina de ensaios. Vocês ficaram um pouco à sombra do Paulo Barros, mas, mesmo depois da saída da Tijuca, ainda mostraram a autonomia, criatividade e competência que têm no trabalho. Gostaríamos que falassem um pouco sobre a profissionalização dessa área. 

- PRISCILLA: Normalmente, a comissão de frente é atrelada ao desfile como um todo; ela é um segmento do desfile, tem a ver com o enredo e a gente busca muito isso. Nossas comissões são de leitura fácil e diretamente ligadas ao que será apresentado no enredo. É muito bom quando temos o carnavalesco ao nosso lado, e esse ano faremos nosso primeiro trabalho ao lado do casal Lage e estamos recebendo um apoio super bacana. Cada carnavalesco gosta de trabalhar de uma maneira e, realmente, na Grande Rio conseguimos uma liberdade muito bacana; a gente pôde levar na íntegra os nossos projetos e isso foi muito bom pra gente. Quando o carnavalesco vem pra somar com o nosso trabalho o resultado é excepcional. 

- RODRIGO: Com relação aos ensaios, normalmente definimos o projeto e lá para outubro ou novembro começamos a ensaiar com os bailarinos cerca de três vezes na semana até dezembro. Em janeiro e fevereiro, são todos os dias, de segunda a sexta e vai dependendo da necessidade do projeto. Às vezes, precisamos trabalhar de 5 a 6 horas dentro dos horários malucos da madrugada para proteger e guardar o segredo, para que no momento da Avenida consigamos explodir e contagiar o público. 

As comissões da dupla são famosas pelos truques de mágica e surpresas inesperadas.

- CARNAVALIZE: Como funciona essa pesquisa de referências a respeito do que será apresentado? Vocês se inspiram em show de mágica, espetáculos ou algo do tipo? De onde vocês tiram o coelho da cartola? 

- PRISCILLA: É curioso porque cada ano é um projeto e no ano do segredo todo mundo falou "ah, eles fazem mágica!", e estávamos fazendo mágica, mas naquele ano específico. Depois, ficamos atrelados a essa etiqueta do ilusionismo, mas, na verdade, somos artistas, viajamos, vamos a museus, assistimos peças, musicais, e claro que isso tem uma influência. Mas o que a gente busca mesmo é criar algo em cima do enredo proposto; não é que a gente pegue uma ideia e tente encaixar naquilo a ser apresentado, normalmente não é assim que funciona. Mas é bom quando temos uma referência e podemos usar no carnaval, sabendo que é um fator complicador, porque é a céu aberto; pode chover, pode ventar, as pessoas veem de todos os ângulos, de longe, de perto, de cima, de baixo, é um espetáculo televisionado. A gente se preocupa muito com isso e, claro, não para de trabalhar. 

- RODRIGO: A gente pensa sempre em trazer uma novidade, de alguma forma, se comunicar diretamente com o público. E é um trabalho que a gente termina e já emenda no outro, é só questão de esperar a escola anunciar o enredo e a gente já começa a pensar de uma forma bem tranquila. Conversamos com carnavalesco, vamos pegando ideias e referências e outubro é o limite para fecharmos o projeto. 

- CARNAVALIZE: Para encerrar, como foi trabalhar com a Ivete num 'casamento' de coreógrafos tão renomados com uma artista e homenageada tão conhecida e aclamada pelo público?

- PRISCILLA: nos demos muito bem, porque ela é louca, insana por trabalho, assim como nós (risos). A gente se deu muito bem, logo de cara, e a primeira coisa que ela fez foi chamar a gente para ir na casa dela. Aí nosso primeiro ensaio foi com a família toda dela assistindo, tomamos um chá da tarde e ficamos até dez da noite conversando. Quando pensamos que íamos pro hotel descansar, ela jogou a gente numa van e fomos parar num show dela, então foi incrível. Ficamos amigos, nos falamos até hoje e estamos com projetos para o futuro. 




Marcelo Misailidis se destacou em suas coreografias nos últimos anos, o profissional deu expediente na Vila Isabel no começo dessa década, sendo responsável pelas belas aberturas dos desfiles de 2012 e 2013 da azul e branco de Noel. Nos últimos anos, ele se transferiu para Nilópolis e vem realizando mais belos trabalhos na soberana, como as comissões de 2016 e 2017. 

- CARNAVALIZE: Você foi um dos primeiros nomes do mundo do samba que manifestaram o descontentamento com o prefeito a partir da notícia da redução da subvenção. Essa é uma medida, claramente, que afeta o carnaval como um todo em sua questão cultural, mas, dentro dos setores de uma escola de samba, como esse corte afeta diretamente o seu trabalho enquanto coreógrafo?

- MARCELO: O carnaval como um todo vem se tornando cada vez mais caro, naturalmente, pela questão inflacionária, pela questão da profissionalização de diversos setores das escolas e a subvenção, há anos e mais anos, permanece sempre a mesma. Naturalmente, já sofríamos uma perda no sentido da possibilidade da queda da quantia subsidiada; o corte afeta a questão de uma forma mais aguda. A questão, agora, é planejamento, elaborar como vai contornar a situação tendo que manter a qualidade do espetáculo mediante ao potencial do investimento. O maior perigo é que o potencial da qualidade do que vai ser apresentado cai. 

- CARNAVALIZE: Por fim, há algo que possa adiantar a respeito do enredo da Beija-Flor e do que você vai preparar com a comissão para 2018? Já há algo fechado?

- MARCELO: Ainda não sabemos de nada. A situação fica complicada até mesmo por conta desse corte, e estamos esperando o máximo possível para que talvez consigamos uma ajuda financeira para o ano que vem. 


A Beija-Flor de Nilópolis anunciou que o seu enredo será lançado no próximo dia 30, domingo.

terça-feira, 18 de julho de 2017

"Como Será?": Carnavalescos revelam o que estão preparando para 2018

por Equipe Carnavalize

O Carnavalize compareceu à Carnavália Sambacon e ficou levemente perdido em meio a tantas celebridades e figuras importantes do samba. A feira, nas suas últimas edições, se firmou como ponto de encontro de quem faz a festa nos mais diversos segmentos, num ambiente descontraído, fora da tensão dos desfiles oficiais. Aproveitando isso, fizemos uma série de entrevistas com diferentes segmentos das escolas e as dividimos em grupos. Os relatos de hoje ficam por conta dos carnavalescos. Lembrando que ainda teremos uma matéria especial com coreógrafos das Comissões de Frente, fique ligado!

Após assinar três desfiles na Tijuca, Quintaes ruma o carnaval paulista (foto: Michele Iassanori)
Escolhemos três figuras do carnaval; O primeiro é Mauro Quintaes, carnavalesco com passagens por Salgueiro, Gaviões da Fiel e Unidos da Tijuca. Após ser dispensado da Tijuca, no final do carnaval 2017, foi convidado pela Unidos do Peruche, do Grupo Especial de São Paulo, para contar a história de Martinho da Vila no enredo "Peruche celebra Marinho - 80 anos do Dikamba da Vila", com colaboração do pesquisador e jornalista João Gustavo Melo (confira a sinopse aqui)

- CARNAVALIZE: Como funciona seu trabalho no que se trata do resgate dos enredos bibliográficos, principalmente no carnaval contemporâneo?
- QUINTAES: A grande vantagem para o carnavalesco é que a vida do homenageado já está aberta, mas a dificuldade é fazer com aquilo se torne palatável para um desfile. Assim como conta o João [João Vitor Araújo, sobre o enredo de Viriato Ferreira] sobre muitos desconhecerem a figura de alguns homenageados, acredito que essa é a função do carnaval, apresentar novas figuras ao grande público, seja por meio de uma sinopse, seja decorando um samba-enredo. E a pessoa que se interessar, vai buscar ainda mais sobre o homenageado. Nosso legado é trazer a tona a cultura que não está disponível para o público. 
- CARNAVALIZE: Qual é a diferença ou facilidade, além da história pronta do homenageado que você citou, no caso do Martinho, sua ligação com a Vila Isabel, além de ser intelectual, sambista? 
- QUINTAES: Quando fiz Bibi, tinha coisa que não conseguia colocar no enredo, pois ela trabalhou em diversos segmentos artísticos. Isso ocorre também com Martinho. Ele é escritor, cantor, tem projetos sociais em Angola. Quanto mais o artista te dá, mais você consegue escolher os pontos principais. Há também o desafio de escolher aquilo que te dê um retorno plástico, o resultado final do desfile é plástico, visual, é você precisa descobrir aquele ponto que seja culturalmente falando mas que dê um retorno plástico bacana.
- CARNAVALIZE: Durante a sua carreira, por anos você fez carnavais maravilhosos no Rio, mas também consolidou sua carreira também São Paulo. Conte mais um pouco sobre sua experiência nessa ponte aérea.
- QUINTAES: Para mim, o processo é bastante parecido. Fixo minha casa lá por oito meses, altera-se um pouco o processo familiar. Agora também não cometo mais o mesmo erro que cometi na primeira vez, nos Gaviões, quando não conhecia integralmente o carnaval paulista. Naquela oportunidade, pude descobrir que existem diversos modelos de carnavais pelo Brasil, até em termos de arquitetura em São Paulo. É necessário pensar num carnaval diferente.

João Vitor Araújo e Daniel Targueta são a dupla responsável pelo enredo da UPM (foto: site/UPM)
Depois de fazermos a ponte aérea, conversamos com um dos destaques da Série A 2017, João Vitor Araújo, que junto com Daniel Targueta, assina o enredo da Unidos de Padre Miguel, escola que vem sendo destaque no Acesso carioca. Ele conta na entrevista como é o trabalho na UPM após a saída da Rocinha e um pouco mais sobre o tema da escola para 2018, "O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Parintintin", que narra uma das lendas amazônidas, desaguando no Festival de Parintins sob a figura do Pajé (confira a sinopse aqui)

- CARNAVALIZE: primeiramente, queremos saber da pergunta mais óbvia: como foi esse processo de sair da Rocinha para a Unidos de Padre Miguel e quais são as facilidades e dificuldades que você tem encontrado por trás de todo esse processo de criação?
- JVA: Foi tudo bem natural. Eu não tinha contrato com a Rocinha, foi um carnaval por temporada e já existia o interesse da Unidos de Padre Miguel no meu trabalho; até porque eles já imaginavam que o Edson não continuaria na escola e eu aceitei o convite. Me senti muito abraçado, é como se eu estivesse trabalhando ali há anos, é impressionante. Embora seja uma escola grande, é uma responsabilidade enorme manter a qualidade do trabalho que já vinha sendo apresentado nos anos anteriores, mas eles me abraçam, eles me dão força, eles me dão apoio... e a nossa maior dificuldade é essa crise que pega todo mundo. Esse corte de verba ainda não chegou na Série A mas a gente sabe que vai chegar e é mais delicado. No Grupo Especial, ok, está cortando um milhão, as escolas vão ter pelo menos sete. Na Série A, 1% já faz diferença, já faz um rombo danado. Qual é a saída para isso? Trabalhar com materiais alternativos, algo que eu já vinha fazendo nos trabalhos anteriores, o que não significa pobreza. Os nossos protótipos estão prontos, e, se vocês tiverem a oportunidade de ver quando eu publicar, notarão que são materiais extremamente baratos mas que eu fiz com que reluzissem feito ouro. Essa é a nossa saída; fantasias bem mais em conta do que as do ano anterior, mas a qualidade é a mesma. 
- CARNAVALIZE: o imaginário do Amazonas e de Parintins passou pouco na Sapucaí. Qual é o seu desafio, também em questões estéticas, de criar um enredo a partir disso? 
- JVA: Esse delírio me dá uma liberdade muito maior para fazer, digamos assim, o que eu quiser. Então é uma temática amazônica, baseada numa lenda, e o mais interessante disso tudo é que não é um enredo verde. Esqueçam (risos), não tem verde, não tem 'salve a floresta', não tem índio. Melhor, o protagonista dessa história é um pajé, e para não dizer que não tenho índio, tenho um manoa, que era um sentinela que tomava conta da cidade encantada do fundo do rio, e o parantintin no final que é o índio nativo ali da região da ilha tupinambarana, que é Parintins; somente. Tenho duas fantasias apenas em tons de verde, e, mesmo assim, de forma bem tímida, que representam o beija-flor e o vagalume, mas nada ligado à preservação da natureza. Não que isso seja não seja válido, mas não é a minha intenção neste enredo. É bem interessante, uma história bem bacana e bem gostosa. 
- CARNAVALIZE: a UPM vem marcada por um trabalho do Edson, com esculturas gigantes. Como vai ser essa negociação de impor a sua linguagem e ao mesmo tempo se sobressair? 
- JVA: É bem interessante esse trabalho, claro que eu tive que fazer algumas alterações, até porque tenho que ter a minha personalidade, a minha característica e a escola me abraçou. Quando eu digo em dar continuidade ao que vinha sendo feito, falo em grandiosidade. Mas, em questão de estética, de textura, é uma outra história. Eu estou super ansioso.

Mesmo estando em seu segundo ano no Especial, Severo já assinou grandes escolas no RJ (foto: Flickr/Valéria del Cueto)
Claro que o Grupo Especial não ficaria de fora, certo? Representando a elite do carnaval carioca, Severo Luzardo, da União da Ilha contou um pouco mais sobre o enredo, acrescendo que não há problemas em lado de concentração, seja Balança ou Correios. Severo tratou também da reciclagem de materiais e contou um pouco mais sobre o enredo da Ilha para 2018, "Brasil Bom de Boca" (confira a sinopse aqui).

- CARNAVALIZE: Gostaríamos que você comentasse um pouco sobre o enredo do ano que vem, do que vai aprontar; o que você pode revelar pra gente? Será apenas culinária? O texto dá a entender que tem mais coisas por trás, certo?
- SEVERO: Vamos falar sobre culinária brasileira. Acho que temos cores e sabores que só têm no Brasil. Vai ser muita irreverência. Vamos falar do que veio de fora, o que os negros e botaram e a partir daí vamos ver como é a mesa do brasileiro, hoje, enquanto sociedade. O que somos, como comemos? Tem a questão do comer com as mãos, do 'se lambuzar'. É muito leve. É a cara da Ilha. E tem coisas que só tem no Brasil: a caipirinha só tem aqui; o brigadeiro só tem aqui; a coxinha de galinha só tem aqui. No olhar do dia a dia, a gente não se dá conta de tanta diversidade. Quando a gente se afasta é que a gente se dá conta do quanto somos pitorescos, e isso fascina muito. Belém do Pará ganhou o título de paraíso dos sabores, o que é incrível. Vamos passar com um grande banquete, e cada um degusta e come o que quer. 
- CARNAVALIZE: você ficou conhecido pela sua capacidade de reciclagem e reaproveitamento dos materiais. Agora que o carnaval enfrenta um momento de crise e um orçamento mais enxuto, como você acha que essa sua capacidade vai se refletir? 
- SEVERO: No ano passado não reciclei porque eu não tinha o que reciclar. Cheguei numa Ilha em que os carros tinham sido zerados, então eu tinha que fazer crescer tudo. Mas eu nunca achei feio reciclar, acho que é muito babaca você jogar um carnaval todo fora. Você não pode oferecer um espetáculo velho, porque as pessoas pagam seus ingressos, elas querem um espetáculo novo e aquele momento ali é para elas se divertirem. Agora, aproveitar coisas, reciclar, transformar, tem que ser feito. Não temos dinheiro para jogar fora. Eu acho que essa é, hoje, uma responsabilidade de todas as escolas. 
- CARNAVALIZE: a ordem do desfile e o lado de entrada na Avenida importam? 
- SEVERO: Eu não me preocupo muito com isso. Meu carnaval já está desenhado e tudo está adaptado, então não tenho preocupação. Meu único cuidado é com a mecânica dos carros, para que nenhum trave mais (risos). Mas é tudo de aplicação, tudo de montagem fácil.