segunda-feira, 10 de julho de 2017

"Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco": Leandro Vieira fala sobre o enredo da Mangueira de 2018

Por Equipe Carnavalize



Carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira conseguiu, em pouco tempo de carreira, um sucesso meteórico. Criativo e com grande capacidade de improviso, ele logo se firmou como um dos grandes nomes da folia carioca. Em meio à repercussão de "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco", enredo da verde e rosa para 2018, o Carnavalize conversou com o campeão de 2016 para conhecer mais sobre a proposta por trás do tema escolhido.

De cunho contestador e fortemente irônico, enredo servirá como forma de protesto à decisão do prefeito Marcelo Crivella, que decidiu cortar pela metade a subvenção dada pelo município às escolas. Na entrevista abaixo, o carnavalesco abre o jogo e dá pistas daquilo que quer mostrar na avenida em 2018. Confira:

1 - Para começar, faça uma explanação básica do que é o enredo para 2018:

L.V.: O  enredo de 2018 é uma tentativa de realinhar o discurso de um desfile de escola de samba com os anseios atuais. É tentar sair da lógica do escapismo e do discurso de conteúdo subjetivo para o que está na boca das pessoas, dos sambistas, da sociedade. Quando algum assunto da atualidade é posto como tema, a chance do discurso ser debatido dá visibilidade e pertinência. Dentro dessa lógica, o enredo da Mangueira lança luz no avanço da implementação de ideias de conservadorismo sombrio, tais como a vilanização do desfiles em discurso demagógico que tende a levantar a tal política "dos lado opostos", ou decretos de claro conteúdo cerceador, bem como no modelo de desfile, pautado no comercialismo exacerbado que "fecha" a avenida de desfile.

A marchinha que dá título ao enredo da Mangueira.

2- Qual é o papel do carnavalesco em um momento de crise financeira e do próprio carnaval? A partir disso, qual contribuição pode ser dada por um carnavalesco, principalmente em termos estéticos, para a renovação da festa?

L.V.: Aos meus olhos, a menor contribuição que posso dar ao desfile é o caráter plástico. Na minha cabeça, o carnavalesco "pensa." Busco ser o carnavalesco que está mais associado a pertinência daquilo que propõe do que ser o carnavalesco que vai fazer "bonito" ou "feio." Na minha cabeça, desfile de escola de samba é cultura popular. Tem ligações com lutas,  e aquilo que proponho todo ano é uma luta. A luta de construir a possibilidade de mostrar que só na valorização daquilo que temos de original - não entendendo a designação "original" como algo ligado ao genuíno, mas sim, ligado ao sentido de singularidade da cultura brasileira - podemos, de fato, construir a visão de soberania de nossa cultura.

3- A ideia de cultura marginal surgiu exatamente à margem do sistema estrutural da Ditadura Militar. Hoje, guardadas as devidas proporções, vivemos uma situação semelhante. Como você acha que os ventos da cultura marginal dos anos 60 e 70 pode te influenciar no presente? Como essa questão dialoga nesses dois momentos políticos e pode nos ajudar no momento atual?


Obra de Hélio Oiticica símbolo da cultura marginal brasileira.

L.V.: Como disse anteriormente, pra mim, desfile de escola de samba é cultura popular. No Brasil, incrivelmente, a cultura popular trava uma luta para "sobreviver." Cultura popular no Brasil é resistência. De um modo geral, são, por si só, culturas marginais. O número de folia de reis diminui de forma vertiginosa. Os bois do Maranhão sofrem um processo de esvaziamento. No Rio de janeiro atual há o avanço da tentativa de cercear a espontaneidade das ruas. De um modo geral, o Brasil vive de ciclos de negação da sua cultura singular. Quando éramos "portugueses", queríamos negar que éramos indígenas também. Depois o Brasil quis negar que era "negro." Num momento, não queríamos mais ser "indígenas", "negros", nem "portugueses" para sermos "franceses." Recentemente, não queremos mais nada para sermos um "pastiche" da cultura americana. Não é a crise financeira que nos faz menor. O que nos diminui é essa crise de identidade. Meu trabalho avança na contestação disso. Talvez o enredo de 2018 tenha deixado isso mais explícito. Mas a Caprichosos de Pilares de 2015 (enredo sobre os comércios populares), a Bethânia e seu Brasil guardado na voz em 2016, e os santos celebrados à luz dos saberes populares de 2017 já apontavam para isso. Todo carnaval que valoriza a cultura popular e busca se distanciar de padrões internacionalizados, dialoga com a cultura de resistência. Ir nessa lógica, por si só, já faz desses discursos, um discurso de contestação. Negar que um padrão internacional, "ultra, mega, business" e difundido de forma massificada na sociedade como superior é tão bom ou, por vezes inferior, do que qualquer teatrinho de mamulengos ou qualquer ciranda, é uma luta marginal.

4- Como você vê a produção do carnaval dos anos 80, momento único da história dos desfiles, que realmente marcou um período contestador das escolas? Como trabalhos dos carnavalescos Luiz Fernando Reis e Fernando Pinto influenciam a sua produção?

L.V: O carnaval e os desfiles vivem de ciclos. Os carnavais dos anos oitenta estão embalados por um momento politizado. Quer dizer, nem todos. Porque escola de samba, de um modo geral, é chapa branca. Luiz Fernando e Fernando Pinto foram a exceção de uma quase regra. Ambos, em aspectos conceituais, me inspiram.

Os carnavalescos Luiz Fernando Reis e Fernando Pinto ficaram famosos por enredos críticos.

5- Os seus enredos já traziam uma visão de carnaval diferente do que está sendo mostrado, com foco na valorização daquilo que é popular, brasileiro e cotidiano. Explique como esse enredo surge como uma resposta às demandas sociais e como o cenário atual impacta o seu trabalho.

L.V.: O enredo de 2018 segue a linha dos meus três carnavais anteriores. Sigo propondo uma interação que se dê em função da apresentação de um legado cultural que de alguma forma está presente na memória de todo mundo. Uma espécie de "cotidiano da memória" que nos define enquanto brasileiros. O enredo de agora vai justamente ao encontro disso. Não é só uma crítica a um prefeito e menos ainda é uma crítica a um corte de verba. É uma crítica também a um modelo falido de desfile, de exibição de escola de samba, de visão comercial "predadora." Olho para o carnaval como um todo e vejo que as escolas de samba estão perdendo. Podem estar ganhando dinheiro e tal. Mas o modelo de exibição e gestão está perdendo pertinência junto ao povo. E manifestação cultural que perde a pertinência junto ao povo vai para "o saco." Isso influencia diretamente o meu trabalho. As dificuldades são muitas, mas é preciso seguir. E se eu puder seguir dando voz a isso, dou voz aos meus anseios particulares. Isso é arte. Ao menos, a arte que eu acredito ser "arte".

O tripé "Cristo-Oxalá" símbolo da miscigenação e sincretismo brasileiro.

6- Com esse tema-enredo, você mostra que não abre mão, em nenhuma hipótese, de suas convicções. Visto que as escolas ao longo de suas histórias são marcadas pela negociação, é possível enxergar, no contexto atual, a Marquês de Sapucaí como espaço de luta?

L.V.: Sou um carnavalesco de três carnavais. Isso não faz de mim coisa alguma. Não me coloca em lugar nenhum. Quando aceitei ser carnavalesco da Mangueira, nem quem me contratou, nem eu que fui contratado, tínhamos grandes planos ou ambições. Digo isso pra expor que eu tenho muito pouco a perder e ter pouco a perder faz com que você tenha coragem. Aceitar ser o carnavalesco da Mangueira no cenário de dois anos atrás foi uma loucura. Mas a loucura deu certo e eu estou indo para um terceiro carnaval na verde e rosa considerando que os dois anteriores foram vitoriosos. Vitorioso no sentido de que ambos reforçaram minhas convicções pessoais e artísticas, recolocaram a Mangueira numa condição de "briga", e retomaram o orgulho do mangueirense. Se levarmos em consideração que meus últimos carnavais dialogam com a manutenção de um modelo que olha mais para o carnaval enquanto cultura popular do que como festa, espetáculo, ou show, a Sapucaí, pra mim, continua sendo espaço para luta. Luta cultural, ideológica, filosófica e afirmativa da cultura popular desse país.

7- Qual recado você mandaria para os políticos brasileiros, em especial para o prefeito do Rio de Janeiro?

L.V.: Atualmente, falar de política no Brasil é algo que nos entristece. Tem-se a sensação de que somos saqueados diariamente. Temos a sensação de que estamos em lado opostos; que há o interesse deles e o nosso. Não mando recado para político, mando para o povo, que manda recado através do voto: em breve teremos eleições! É a hora! Sobre o prefeito, estou igual ao Chico Buarque de Holanda: "Tô me guardando pra quando o carnaval chegar."





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