segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sem rima, sem verbo e com diálogo: a Sossego e a inovação na criação dos sambas

Por Felipe de Souza e Beatriz Freire
Atravessamos a Ponte Rio-Niterói para desembarcar no Largo da Batalha, lar da Acadêmicos do Sossego, escola que desenvolveu uma certa peculiaridade na maneira de fazer sambas de enredo. Vamos desbravar, juntamente com o compositor Felipe Filósofo, os motivos pelos quais a Sossego vem inovando desde 2016. De lá para cá são três sambas (2016, 2017 e 2018) assinados pela parceria do Filósofo, todos com alguma particularidade que desperta a curiosidade dos sambistas.

Iniciando a loucura
Para entender o porquê da quebra com a fórmula padrão dos sambas, é necessário voltar para o carnaval 2015, quando a Acadêmicos do Sossego ainda se apresentava na Estrada Intendente Magalhães, pelo grupo B. O samba assinado por Felipe Filósofo e seus parceiros recebe a nota 9,7 do jurado Alípio Pereira. Alípio, nas observações gerais, comenta a safra, deixando o seguinte recado: "Os sambas não fogem da fórmula de dois refrãos. O desfile do Acesso B tem apenas 40 minutos. Seria um bom espaço para experimentação. Falta ousadia e criatividade para utilizar novos formatos". Segundo Filósofo, o recado do jurado é a chama que dá início à loucura de sua parceria pela inovação.

Para o carnaval de 2016, a azul-e-branco de Niterói apresentou uma homenagem ao trabalho de Manoel de Barros, poeta matogrossense. O enredo "O Circo do Menino Passarinho" foi a primeira oportunidade de ousar na composição. Para tanto, a parceria decidiu que, assim como Manoel em suas poesias, escreveria um samba sem rimas. Entretanto, aquela não seria a primeira vez que uma escola desfilaria um samba-enredo sem o uso do efeito estilístico. A Vila Isabel, em 1987, foi a precursora, num samba de Martinho da Vila para o enredo "Raízes". Em quase 30 anos, não houve relatos de outro samba sem rimas. 
(foto: site Carnavalesco | edição: Carnavalize)
Felipe Filósofo ainda cita o princípio da não-contradição, usado na Filosofia para datar que existe apenas o ser ou não ser, mas que, na arte, a composição não deve ser comandada pelo racionalismo e sim pela imaginação criadora. Com isso, segundo ele, seria um cárcere da razão utilizar-se de fórmulas de samba pré-fabricadas, com 2 refrãos de 4 versos e 2 estrofes com 10 versos, propondo uma quebra com a lógica.

"Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer, a poesia acaba. Eu sei, sobre o nada eu tenho profundidades." - Manoel de Barros

Para a disputa de sambas na Sossego em 2016, o compositor explicita que era um momento em que não havia medo de perder, mas tinha, sim, a vontade de criar algo diferente do que vinha sendo feito e de delirar poeticamente, aderindo à frase "a arte não é para os covardes". E não é que deu samba?! Com a coragem da escola ao aceitar a ideia do samba-enredo e um belo desfile, a Sossego conquistou o título do grupo B e ascendeu à Série A, desfilando pela primeira vez em sua história na Marquês de Sapucaí no ano de 2017.

A loucura continua!
Para fazer sua estreia no Sambódromo, a Acadêmicos do Sossego escolheu contar a vida de Zezé Motta, no enredo "Zezé Motta: A Deusa do Ébano", assinado pelo carnavalesco Marcio Puluker. Para abrir os festejos da Série A em 2017, a parceria de Felipe Filósofo pensou na composição de um samba pequeno, bem-resolvido melodicamente e de fácil assimilação, conta ele. Com o mesmo pensamento de 2016, sem medo de perder a disputa e buscando ousar ainda mais na confecção, nasceu o primeiro samba-enredo em forma diálogo.
O casal Cherry e Naninha, na estreia da Sossego na Sapucaí (foto: Jornal OGlobo)
Para desenvolver o samba, embasou-se na música "Amigo É Pra Essas Coisas", composição de Chico Buarque, também conhecida por ser em conversa; a verdadeira deixa para compor o hino daquele ano na forma de conversação. E ora, ora, o enredo não era Zezé Motta? Zezé é famosa por atuações marcantes no teatro, formulado em diálogo. Por que não tornar o samba da Sossego para 2017 uma grande conversa entre a homenageada e a escola?

Durante a disputa de sambas e o pré-carnaval, a composição da parceria de Filósofo foi uma das mais comentadas, sofrendo até mesmo o questionamento se a forma utilizada atrapalharia o canto da comunidade. No desfile oficial, provou-se o contrário. A homenagem foi tão bem confeccionada que, na gravação oficial, Zezé Motta colaborou cantando suas falas no samba, juntamente ao ex-intérprete da escola, Leandro Santos.

E não é que deu certo de novo? O primeiro samba-enredo em diálogo da história do carnaval manteve a Acadêmicos do Sossego na Série A e esquentou muito bem, obrigado! A arquibancada, ficando à frente de escolas como Renascer de Jacarepaguá e Alegria da Zona Sul, que já tem um longo histórico na Série A.


E para 2018...
Depois da parceria de Felipe Filósofo conquistar seu quinto campeonato em disputas de samba (2012, 2013, 2015, 2016 e 2017) pela Acadêmicos do Sossego, decidiu-se que, em meio à crise que assola o país e o mundo do carnaval, a escola faria uma encomenda para o ano de 2018. E não poderia ser outro grupo o responsável por compôr o hino da escola do Largo da Batalha, certo? "A honra é gigante, mas a responsabilidade aumenta também", diz Filósofo.

Para o enredo "Ritualis", do carnavalesco Petterson Alves, não era possível retornar à fórmula antiga. A loucura já estava instaurada. Foi necessário achar alguma deixa para "delirar" e continuar a quebra com a razão. Uma das inspirações para os compositores foram os conceitos do filósofo Friederich Nietzsche em "O Nascimento da Tragédia", na obra, o autor fala da tensão entre o apolíneo e o dionisíaco, como os impulsos vitais da arte, um marcado pela forma e beleza, e outro pelas emoções intensas e a intuição. Para Filósofo, os sambas estão "harmônicos demais", mais apolíneos, quando deviam emocionar e inflamar as pessoas, sendo mais dionisíacos.

Além disso, há o ponto alto da composição, o desuso de verbos. Felipe Filósofo explica que, ao entrar num ritual, há a quebra do Princípio da Individuação, onde o ser humano encontra-se em transe e o espírito se conecta ao todo do universo. Quando, no princípio, há a individuação, existem comumente as individualidades, entretanto, com o rompimento, não existe a figura do sujeito e da pessoa verbal, datando também o apagamento dos verbos. Há somente a existência de imagens, configuradas pela plenitude do espírito. Essa relação do êxtase, do transcendental, é algo extremamente ligado ao conceito dionisíaco de Nietzsche, oriundo exatamente ao nascimento do teatro nas festas em louvor ao deus grego Dionísio. De onde surgiu um dos principais rituais ocidentais: o teatro. 

Porém, não há só a questão estilística ou filosófica. A falta de verbos não prejudica e não deve atrapalhar o canto da escola, mas deve alimentar a discussão quanto à forma e estética do samba. Há também a atenção conforme o desenho melódico, conforme a construção de imagens, onde o som carrega a construção figurativa; a música é uma pintura dos acordes, como cita Felipe.

Evoé!

Confira o samba da Acadêmicos do Sossego para 2018: 
Reações:

Um comentário:

  1. , '' a Sossego conquistou o título do grupo B e ascendeu à Série A, desfilando pela primeira vez em sua história na Marquês de Sapucaí no ano de 2017.''

    Não foi o a primeira vez na história que a Sossego desfilou na Sapucaí. Lembro em 2010 desfilando pelo grupo B

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