segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Dossiê Carnavalize: O Carnaval das Organizadas, história que dá samba - Parte 1

Por: Jéssica Barbosa
Arte: Rodrigo Cardoso
No carnaval de 2018, pela primeira vez, quatro escolas de samba oriundas de torcidas organizadas irão desfilar no Anhembi: Independente Tricolor e Mancha Verde na sexta-feira, Gaviões da Fiel e Dragões da Real no sábado, estarão no mesmo grupo mostrando sua força e que merecem ser tratadas com respeito tal qual suas co-irmãs.

Preparamos um dossiê especial para contar um pouco da trajetória de grandes escolas muitas vezes recriminadas, mas que enchem o mundo do samba de orgulho. Na primeira parte, você acompanha Gaviões da Fiel e Mancha Verde. 

A TRADIÇÃO ALVINEGRA
Foi em 1975 quando a torcida organizada do Corinthians, após desfilar por alguns carnavais como ala no Vai-Vai, ganhou um bloco carnavalesco para chamar de seu. Um ano depois, em 1976, o bloco foi campeão com o enredo “Vai Corinthians”. Foram 12 títulos (1976 a 1979 - 1981 a 1988) e um vice campeonato em 1980 em 13 anos, o que chamou a atenção da Liga das Escolas de Samba de São Paulo, que, mais tarde, em 1989, a convidou para fazer parte do Grupo 1 (atual grupo de Acesso) do carnaval paulistano.

Já no seu primeiro ano como escola de samba, conquistou um vice-campeonato no Acesso com o enredo “Preto e Branco na Avenida”, conseguindo a ascensão para o Grupo Especial. Mas foi em 1994 que a escola, até então novata, se viu perto do título inédito. Contando o enredo “A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente”, desenvolvido pelo carnavalesco Raul Diniz, que ficaria na escola até 1997, o tema contava a história do tabaco a partir de uma lenda do Oriente com o profeta Maomé. Os Gaviões, neste mesmo desfile, trouxeram na parte final do desfile, uma mensagem sobre a conscientização do uso de cigarros: uma ala vestida de caveira apresentava a morte e logo em seguida o último carro, o mais criativo e impactante do cortejo, mostrava novamente uma caveira, desta vez com um cigarro na mão e atrás um crânio com válvulas do coração mostrando os perigos do fumo. O samba é cantado até os dias de hoje, entretanto não agradou um dos jurados que deu nota 6 em melodia. Esta nota levou a escola ao segundo lugar, atrás da campeã Rosas de Ouro.


SOU GAVIÃO, LEVANTO A TAÇA:

Engasgada com o carnaval anterior, a Gaviões da Fiel vinha para 1995 falando de momentos alegres que ficam em nossa memória. “Coisa Boa é Pra Sempre” era o título do enredo, de autoria do carnavalesco Raul Diniz, trazia brincadeiras infantis e as paixões da vida.

A primeira parte do desfile era sobre o jubileu de prata da escola. Na Comissão de Frente vinham palhaços simbolizando a magia do mundo infantil. Já o abre-alas, todo em preto, branco e prata, trazia um grande número 25 em cima, lembrando o aniversário da escola. A segunda alegoria trazia o esporte, com a taça do tetracampeonato brasileiro do Timão e uma homenagem ao piloto Ayrton Senna, falecido um ano antes. Mas, sem dúvidas, a alegoria mais bonita era a que remetia ao Circo. Trazendo muitos palhaços e um elefante logo na frente, chamava atenção pelo seu tamanho e belíssimo acabamento. O final do desfile foi a coroação máxima da felicidade, com um carro que mostrava a maior alegria de um folião: o carnaval.

O grande trunfo deste desfile foi o memorável samba-enredo composto por Grego. Considerado, não apenas um dos sambas mais lembrados pela escola, mas também pelo carnaval paulistano no geral. Quem nunca cantarolou “me dê a mão, me abraça, viaja comigo pro céu…”? Esse samba conquistou o público antes mesmo do desfile, sendo o mais tocado nas rádios da cidade naquele ano, o que chamou a atenção da mídia para os desfiles. O samba foi tão aclamado que tocava em rodas de samba do Rio de Janeiro, fazendo o inesquecível Jamelão regravá-lo. Terminando seu desfile aos gritos de “é campeão”, o resultado final não poderia ser outro: os Gaviões da Fiel eram, pela primeira vez, campeões do carnaval de São Paulo, com um desfile histórico que marcou o carnaval paulistano!

O segundo título veio quatro anos depois, em 1999, com o enredo “O Príncipe Encoberto ou a Busca de Dom Sebastião na Ilha de São Luís do Maranhão”, do carnavalesco Roberto Szaniecki. O desfile contava a lenda de que Dom Sebastião não teria morrido após uma guerra, e seu exército estaria a sua procura. Um enredo muito bem contado que passeou pela fé e pelos motivos que levaram D. Sebastião à guerra contra os mouros, as reconquistas de Portugal, as colônias por onde o procuraram até a chegada ao nordeste brasileiro mostrando os fatos históricos que estavam ocorrendo naquelas regiões, juntamente com a lenda de que Dom Sebastião estaria submerso junto com seu exército em um reino mágico, parte que deixou o cortejo momesco com cores mais claras com o azul e branco. As alegorias eram de fácil entendimento e muito bem feitas, assim como as fantasias, naquele que, talvez tenha sido um dos melhores enredos da escola, muito rico em história e cultura. Com um belo e correto samba, composto por Alemão do Cavaco, José Rifai e Ernesto Teixeira, os Gaviões empataram com o Vai Vai em 299.5 pontos e o título foi dividido entre as duas agremiações.

O terceiro título da escola do Bom Retiro chegaria em 2002, já com o carnavalesco Jorge Freitas. O enredo fazia uma crítica social comparando o momento em que o Brasil vivia a um jogo de xadrez com o título “Xeque-Mate”.

O desfile começava contando a origem do Xadrez pela Índia e como o jogo ficou popular nas Arábias. A crítica social começa pela ala “Monstros do FMI”, seguindo para o mais criativo carro do desfile, a quarta alegoria vinha toda preta com várias caveiras, que representavam os países ricos segurando e controlando o peão, a mais frágil do jogo, metaforizando os países de terceiro mundo. Você quer crítica social f***, @? A parte de trás do carro dava um contraste, vindo em tons claros, simbolizando a esperança. Por fim o último carro trazia um rei que dava um xeque-mate em todas essas injustiças e impunidades.

Já em 2003, a escola conquistou seu bicampeonato falando do Brasil com “ As Cinco Deusas Encantadas na Corte do Rei Gavião”, que mostrava as belezas das cinco regiões brasileiras. A Comissão de Frente mostrava a força do carnaval paulistano como os ‘anunciantes da folia’. As fantasias traziam os nomes de todas as co-irmãs. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Michel e Ildely, veio como o coração da escola, vestindo lindas fantasias em vermelho e branco. O segundo carro fazia referência a região centro- oeste, trazendo consigo uma escultura de uma mulher com cabeça de pássaro e asas, com vários animais da região nas laterais. O ponto alto do samba, composto também por Grego, era o refrão de meio, que exaltava o carnaval do Rio de Janeiro e o de São Paulo.


LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA:

Após um rebaixamento muito contestado em 2006, a escola voltou aos bons resultados quando contratou o carnavalesco Zilkson Reis, em 2009. Foram três anos seguidos voltando aos desfiles das campeãs. No ano de sua chegada, a escola acertou em cheio na escolha do enredo e do samba, que contavam a história da roda. O desfile conquistou o quarto lugar.

Já em 2010, cantando o centenário do Corinthians, a escola emocionou e garantiu a volta na Sexta das Campeãs com o quinto lugar.

2011 foi o ano em que os Gaviões homenagearam Dubai, destacando-se a bela Comissão de Frente, também ficando na quinta colocação.


A TI SEREI FIEL: 

O intérprete Ernesto Teixeira está na escola há 37 anos. Ele começou em 1980 como passista, nos anos de 1983 e 84 desfilou na bateria até que, em 1985, quando o intérprete oficial não pode comparecer no desfile, Ernesto foi chamado para substituí-lo. Desde então, o microfone principal da alvinegra é comandado por ele, nunca tendo desfilado por outra escola. Foi ele que, em 2000, convidou Jorge Freitas, que estava no Rio de Janeiro, a assumir o posto de carnavalesco da escola. 

Os Gaviões tiveram extrema importância no crescimento do carnaval de São Paulo, assim desejamos que a escola volte a reencontrar suas glórias e vitórias.


MEMORÁVEIS DESFILES EM VERDE E BRANCO
Fundada como bloco carnavalesco em outubro de 1995, a Mancha Verde desvinculou-se da torcida organizada do Palmeiras para ser considerada apenas escola de samba. Seu primeiro desfile como bloco, no ano de 1996, lhe daria o segundo lugar com o enredo “Sinal Verde Pra Vida”. Em 1997 e 1998 conquistaria seu bicampeonato como bloco. Já em 99, conseguiria mais um vice-campeonato, chamando a atenção por suas conquistas como também pelo fato de seu samba cantado ser por Quinho, intérprete da Grande Rio naquela época

.Seu primeiro desfile como escola de samba foi no ano 2000, com um enredo sobre os 500 anos do Brasil: “Brasil, Que História é Essa” ficou com o segundo lugar no terceiro grupo da UESP. Após passar pelos grupos 2 e 1A nos anos de 2001 e 2002, a Mancha conseguiu se sagrar campeã do Grupo de Acesso no ano de 2004, com o enredo “A Saga Italiana na Terra Paulistana”. onde a escola contou a chegada dos imigrantes a São Paulo, a economia, cultura e o esporte. O desfile trouxe uma estética muito bonita, grande trabalho do carnavalesco Eduardo Caetano, conquistando, com muita justiça, o direito de desfilar pelo Grupo Especial de São Paulo.

Estreando na elite do carnaval paulistano em 2005, a Mancha trouxe a história do estado do Mato Grosso, num dos mais lindos sambas da escola, cantado por Vaguinho. O desfile surpreendeu a todos pela grandiosidade de uma escola que sequer havia chegado no grupo. Eduardo Caetano assinara seu segundo carnaval pela Mancha, saindo de lá após o desfile de 2005 e retornando para assinar o carnaval de 2008. O início do desfile foi pela pré-história, com um abre-alas composto por muitos dinossauros, seguindo o desfile com a formação geográfica do estado e seus primeiros habitantes. Também foi mostrada a fauna e flora do estado, um dos mais ricos em beleza natural no país. A escola terminou na décima segunda colocação. O enredo foi reeditado em 2016, quando a escola retornou ao Acesso. Naquela oportunidade, a Mancha Verde sagrou-se campeã.


GRUPO DESPORTIVO

Em 2006, ficou decidido pela Liga-SP que a Mancha Verde, juntamente com os Gaviões da Fiel, iria desfilar em um grupo separado de escolas oriundas de torcidas organizadas. Dias antes do desfile oficial, os Gaviões conseguiram uma liminar que os permitia desfilar junto com as outras escolas, disputando o título. Entretanto, o mesmo direito não foi concedido para a Mancha, fazendo-a desfilar sozinha naquele ano e assim sagrando-se campeã do Grupo Desportivo.

Não se deixando abater por essa decisão, a Mancha Verde fez um desfile arrebatador contando o belíssimo enredo “Bem Aventurados Sejam os Perseguidos, Por Causa da Justiça dos Homens...Porque deles é o Reino dos Céus”, do carnavalesco Cláudio Cebola, a Mancha criticou as intolerâncias do mundo. A Comissão de Frente encenou o trajeto seguido por Jesus Cristo carregando a cruz na Via Crúcis, parte mais forte do desfile. A segunda alegoria relembrava a histórica cena de quando um garoto entrou na frente de um tanque de guerra tentando pará-lo na praça da Paz Celestial na China. O terceiro carro fazia um contraste, trazendo um grande Buda no meio, acima uma escultura do Papa João Paulo II e a frente puxando a alegoria, dois tanques de guerra na cor branca cujo canhões jogavam flores ao invés de munição. Outro momento muito emocionante foi a ala que representava o sofrimento dos escravos, com eles acorrentados. O última carro fazia uma linda homenagem a Dona Norma, mãe do presidente Paulo Serdan que havia falecido naquele ano, com sua escultura sendo coroada, fechando um dos mais belos desfiles que já passaram pelo Anhembi.

No ano 2007 a Mancha mais uma vez desfilou sozinha sendo declarada campeã, mas com a diferença de ter conseguido participar dos desfiles das campeãs. Em 2008 o grupo foi extinto permitindo que a escola disputasse o título junto às outras agremiações.


EM VERDE E BRANCO QUERO ETERNIZAR:

Em 2010 a Mancha Verde fez uma homenagem ao ensino, “Aos Mestres com Carinho! Mancha Verde ensina como Criar Identidade”. O início do desfile trazia a Grécia como o berço da sabedoria. Já a segunda parte homenageia a China e seus ensinamentos sobre o equilíbrio, com uma alegoria muito bonita e grandiosa, a escola ainda mostrava toda a sabedoria dos índios e a importância da tecnologia no conhecimento. O último carro fazia uma homenagem aos mestres dos sambas e a própria escola de samba, na frente do carro um enorme Mancha tocando seu característico surdo. O samba que era muito pra cima não deixou o desfile esfriar em momento algum, era puxado por Vaguinho e pelo estreante Celsinho Mody.

No ano de 2011 a Mancha contratou o carnavalesco Magoo, e vinha com mais um excelente samba, homenageando gênios imortais “Uma Ideia de Gênio” esses que viriam logo no início do desfile saudando o público na comissão de frente, entre eles, Einstein, Leonardo Da Vinci, Santos Dumont, Picasso entre outros:

O abre alas mostrava o criação do universo, com um homem feito do barro a frente. O segundo carro e mais interessante mostrava toda a genialidade de Da Vinci, na frente a reprodução do seu desenho mais famoso, o Homem Vitruviano, no alto do carro uma destaque representava Mona Lisa, as laterais do carro estavam decoradas por outras de suas pinturas. Os gênios da tecnologia como Steve Jobs e Bill Gates também foram representados por algumas alas. Uma ala coreografada representava Romeu e Julieta em uma homenagem à Shakespeare.

Com um final de desfile muito simbólico mostrando o desejo dos gênios que sonham com um mundo melhor, sem intolerância, sem fome, o último carro trazia o conto Mil e Uma Noites. Um lindo desfile que a deixou em quarto lugar mais uma vez.

“Pelas Mãos do Mensageiro do Axé, a Lição de Odú Obará A Humildade” era o enredo da Mancha para o carnaval de 2012, tendo como base a história de Odú Obará, um babalorixá que mesmo sendo menosprezado por seus irmãos por conta de sua simplicidade nunca perdeu sua bondade, a escola falava sobre humildade e a necessidade de preservar o planeta. O samba um dos melhores do ano foi muito bem defendido por Freddy Vianna e toda a ala musical da escola, o desfile continha tanta emoção que ainda na concentração se via componentes às lágrimas.

Pela comissão de frente 14 bailarinos representando 14 Orixás, vestidos com as cores de seus respectivos Deuses Africanos. O abre alas retratava um mundo em destruição, com peixes mortos, a poluição dos mares, uma alegoria feita para chocar o público com a realidade. Um dos destaques do desfile foi o casal de mestre sala e porta bandeira, Jéssica e Fabiano,que vinham representando o candomblé, a fantasia dela em branco com detalhes em marrom simbolizava um tabuleiro de búzios muito bem feito.

A parte central do enredo começa pela ala “ Odú Obará e sua simplicidade”, onde Odú foi ignorado por seus irmãos por não se deixar levar por luxos. A terceira alegoria era a casa humilde de Odú, contando a história de quando ele ofereceu abóboras para seus irmãos e os mesmos a recusaram sem saber que dentro de cada uma delas continham jóias, o carro era enfeitado por essas abóboras e as riquezas eram representadas por mulheres. O quarto carro trazia os presentes do Criador, com esculturas de alguns Orixás. E a última alegoria do cortejo veio como o oposto da primeira, em vez de peixes mortos animais saudáveis, a preservação da natureza e o mundo com qual sonhamos. A escola terminou a apuração também em quarto lugar.


INJUSTIÇAS NÃO VÃO ME DETER:

Em 2013 a Mancha resolveu homenagear um dos maiores nomes da arte brasileira, Mário Lago, tentando dar sequência aos ótimos resultados dos anos anteriores.  A escola conseguiu juntar um agradável samba com um desfile leve, divertido e muito colorido. Contando muito bem a trajetória de Maria Lago, como a vida no bairro da Lapa no Rio de Janeiro, seu amor por Dona Zeli, os trabalhos no teatro, cinema e televisão. Um desfile extremamente bem feito, que com méritos poderia ter conseguido as primeiras posições, mas surpreendentemente e como uma das maiores injustiças do carnaval de São Paulo a escola foi rebaixada.

A escola sofreu com mais um rebaixamento em 2015, voltando ao Especial em 2017 com um enredo sobre os Josés do Brasil, ficando apenas com a 10ª colocação no grupo

Fica o desejo para que escola volte a nos presentear com belos desfiles e que injustiças não interrompam sua trajetória.
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