quinta-feira, 30 de novembro de 2017

TREM DO SAMBA 2017: a 22ª edição do evento, no dia nacional do samba, homenageará o “Tambor”




A 22ª Edição do Trem do Samba será realizada no dia 2 de dezembro de 2017. O evento faz parte do calendário oficial da cidade do Rio de Janeiro e Celebra o Dia Nacional do Samba com uma viagem de trem da Central do Brasil ao bairro de Oswaldo Cruz, considerado o berço do samba carioca, localizado na região da Grande Madureira, subúrbio da cidade. Além disso, trata-se de uma grande oportunidade de promover a valorização do patrimônio imaterial da região. A festa contará com um palco principal montado na Estação de Trem Central do Brasil, além de outros três situados no bairro de Oswaldo Cruz.

O evento, idealizado pelo artista Marquinhos de Oswaldo Cruz, este ano, homenageia o Tambor, como instrumento que promove a comunicação entre as gerações, a ancestralidade, além de interagir com diversas culturas. A expectativa de público é de aproximadamente 120 mil pessoas. A festa, que é gratuita, emprega anualmente cerca de 1.500 trabalhadores, promove o aquecimento do comércio local e arrecada alimentos não perecíveis, que são distribuídos para diversas instituições de caridade. Em média, são arrecadadas 2,5 toneladas de alimentos em cada edição do Trem do Samba.

Renomados artistas do samba nacional já confirmaram presença, como: Tia Surica, Monarco, Wilson Moreira, Noca da Portela, Dominguinhos do Estácio, Dorina, Osmar do Breque, Mauro Diniz, Marquinhos Diniz, Baianinho, Ernesto Pires e muitos outros, dentre os quais, as mais renomadas e tradicionais Velhas Guardas das Escolas de Samba Cariocas. 

PREPARE-SE PARA A DIVERSÃO
No dia primeiro será feita uma alvorada em saudação ao Dia Nacional do Samba, meia-noite em Oswaldo Cruz, dando início às comemorações. 

A festa do samba terá início no dia 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba, a Central do Brasil e também Oswaldo Cruz, se transformam para receber o grande evento, a partir das 13h. No Palco Almir Guineto, na Central, artistas como Osmar do Breque, Tantinho da Mangueira e Wilson Moreira, entre outros e as Velhas Guardas da Portela, Mangueira, Salgueiro, Império e Vila Isabel se revezam até às 19h.

SIGA O TREM
O acontecimento mais esperado da festa ocorre a partir das 18h04, mesmo horário em que Paulo da Portela seguia para Oswaldo Cruz, há 80 anos, com seus companheiros de samba batucando e cantando nos trens. Todos são convidados a participar desta viagem que conta com cinco composições ferroviárias completas, fornecidas e operadas pela SuperVia; quatro delas, compostas por oito carros cada, destinadas aos participantes da festa e uma disponibilizada para as Velhas Guardas das Escolas de Samba, unidas nesta grande comemoração. Para embarcar nesse Trem, basta contribuir com 1kg de alimento não perecível, trocado por bilhete, na própria estação da Central do Brasil, no dia do evento, a partir das 12h. Esses alimentos arrecadados serão destinados a entidades de apoio a pessoas carentes, através de parceria com o Banco Rio de Alimentos, que promove essa distribuição.

Durante o trajeto, dentro de cada um dos carros e de cada uma das composições, diversos sambistas estarão conduzindo rodas de samba e fazendo a festa com o público, que embarcará na viagem até o bairro considerado Berço do Samba Carioca. Cinco Velhas Guardas e 32 rodas de samba garantirão grandes shows e muita festa, no interior das composições.

DESTINO FINAL
Em Oswaldo Cruz, todos desembarcarão das respectivas composições e 14 rodas de samba seguirão para bares de referência do bairro e os demais poderão desfrutar das atrações dos três palcos montados em diferentes pontos do bairro, sendo eles: Palco Mestre Pirulito, na Praça Paulo da Portela, Palco Wilson das Neves, na Rua João Vicente, e Palco Mestre Trambique, na Rua Átila da Silveira. Tudo isso, ao som de sambas que vão dos mais consagrados aos mais recentes. A festa não tem hora para acabar e todos são bem vindos!

UM POUCO DE HISTÓRIA
O evento, além de fazer parte do calendário oficial da Cidade do Rio de Janeiro e tem como idealizador e mentor o músico Marquinhos de Oswaldo Cruz, que se inspira na viagem que Paulo Benjamin de Oliveira, mais conhecido como Paulo da Portela, fazia, no início do século passado, como forma de fugir da repressão aos sambistas que acontecia à época.

A história conta que nessa época, os sambistas eram proibidos de mostrar sua música em público e buscavam refúgio nas casas de famílias do subúrbio carioca. Paulo da Portela e outros músicos iam, então, fazendo samba da região Central do Rio rumo ao subúrbio, com destino à Oswaldo Cruz.
Cerca de 80 anos depois, o sambista, cantor e compositor Marquinhos de Oswaldo Cruz, cujas raízes estão ligadas ao bairro que é o berço do samba e abriga agremiações, como a Portela e Império, idealizou o Trem do Samba, e há 22 anos vem tocando este projeto com a colaboração de diversos parceiros.

Além de toda festa em homenagem e celebração ao Dia Nacional do Samba, ao próprio samba e à cultura carioca, o evento que gera diversos empregos, também promove a captação de alimentos em prol de instituições de caridade e se traduz em uma grande oportunidade de promover a responsabilidade social e gerar benefícios diretos à sociedade carioca. Vem pro Trem do Samba 2017!
               
Patrocinadores, apoios e informações extras:
            
A Edição 2017 do Trem do Samba é realizada pela Merecita Promoções e Eventos e Associação Veia Cultural, com patrocínio da BOA, a Cerveja Oficial do Trem do Samba e da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, por meio da Lei Estadual de Incentivo.
            
A 22ª Edição do Trem do Samba, conta também com o apoio da SuperVia , da Globo Rio  e Assessoria de Imprensa de Enildo Viola à Cultura.

Contatos:

Telefone: (21) 98478-3196 (WhatsApp)/ 97042-3109/97042-3110/97036-4543.

Realização: Merecita Produções e Veia Cultural

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

#PonteAérea: estrelas do carnaval de São Paulo no carnaval do Rio de Janeiro.

Por Alisson Valério
Não é de hoje que vemos grandes estrelas do Carnaval de São Paulo ganhando espaço na folia carioca, mas o impacto nunca foi tão grande como no momento. Vamos mostrar um pouco mais de algumas dessas grandes estrelas do Anhembi para os fãs do Carnaval do Rio de Janeiro que irão, a partir de agora, começar a acompanhar de perto esses talentosos artistas.

Vem com a gente que tem muita coisa legal sobre a história dessas estrelas do nosso Carnaval.


Grazzi Brasil
Grazzi fará parte do time de canto do Paraíso do Tuiuti em 2018. Foto: Pcsouza/Divulgação
Grazzi Brasil é a maior revelação do carnaval paulistano na década, principalmente no quesito canto. Uma ascensão meteórica que foi iniciada no ano passado. Apesar de ter feito carreira como apoio em muitos sambas concorrentes, Grazzi se tornou referência na função de intérprete em 2016. na disputa de samba-enredo do Vai-Vai para o último carnaval. Dona de uma voz potente e melodiosa, a cantora se destacou bastante durante a disputa, sendo convidada pelo presidente da escola do povo, Neguitão, para integrar o carro de som da escola no Anhembi. Além disso, Grazzi dividiu a faixa oficial do CD do Grupo Especial com Wander Pires, à época intérprete oficial da agremiação. Após o desfile, a cantora passou a ser cobiçada para defender sambas concorrentes de diferentes parcerias, inclusive no Rio de Janeiro. Em uma dessas apresentações, Grazzi chamou tanta atenção que foi convidada pelo presidente da São Clemente a estar no carro de som da escola da Zona Sul. Mas já era tarde: a cantora já estava apalavrada com a diretoria do Paraíso do Tuiuti. Depois de tanto sucesso, Grazzi estreará na Marquês de Sapucaí, compondo um trio com Nino do Milênio e Celsinho Mody. No CD dos sambas-enredo da elite carioca, ela gravou a introdução e fez algumas participações ao longo da faixa. A cantora terá jornada dupla, pois será a condutora do carro de som do Vai-Vai, fazendo dupla com o pagodeiro Belo.


Celsinho Mody
Celsinho estreará na Sapucaí em 2018. Foto: Carnavalesco/Reprodução
Celson Mody, o Celsinho, foi revelado pela Unidos do Peruche no início dos anos 2000. Ainda jovem, no desfile de 2003, o cantor fez parte do time de canto de Eliana de Lima no Peruche. De ascensão meteórica, Celsinho ganhou notoriedade quando se transferiu para o Camisa Verde e Branco. Com 16 anos, em 2004, ele já fazia parte do carro de som da escola. Um ano depois, o jovem foi alçado ao posto de intérprete oficial da escola, fazendo dupla com Juscelino. Em 2006 e 2007 defendeu, respectivamente, os microfones de Tatuapé e Mancha Verde. Para 2008, Celsinho foi recontratado pelo Camisa e, embora não tenha conseguido manter o Trevo da Barra Funda no Grupo Especial, recebeu o Prêmio SASP de melhor intérprete daquela edição dos desfiles. Após permanecer na escola em 2009, ele começou uma peregrinação por diversos pavilhões. Voltou à Mancha, retornou pela segunda vez ao Camisa e ficou por duas temporadas na Nenê de Vila Matilde. Em 2014, ao lado do falecido Mydras, puxou a Pérola Negra. Após ficar fora do carnaval em 2015, Celsinho estreou no Tatuapé em 2016. Na "Tatu", o intérprete ajudou a escola a conquistar o vice-campeonato no ano de 2016 e o título inédito em 2017. Além dos feitos coletivos, Celsinho foi mais uma vez considerado o melhor intérprete do Carnaval Paulistano pela SASP. Para 2018, além de seguir firme no Tatuapé, a "pegada de africano" de Celsinho se fará presente no Paraíso do Tuiuti.

Jorge Silveira
Enredo sobre a Escola de Belas Artes será executado por Jorge na São Clemente. Foto: Rafael Arantes
Jorge Silveira vive em barracão de escola de samba desde muito cedo em função do pai que foi carnavalesco nos anos 80, como ele mesmo diz cresceu no meio de fibra, ferro, isopor e madeira. Dizem que o talento as vezes vem de berço e Jorge sempre teve a certeza que o caminho não poderia ser outro. Formado em Educação Artística na Escola de Belas Artes da UFRJ ele começou a sua vida no Carnaval desenhando para várias agremiações. A primeira oportunidade foi dada por Jaime Cezário quando trabalhava na Cubango. Ali se iniciava a história de sucesso de Jorge Silveira no Carnaval. Ele desenhou carnavais de grandes escolas tanto no Rio como em São Paulo, escolas como: Gaviões da Fiel, X-9 Paulistana, Dragões da Real, Colorado do Brás, Porto da Pedra, Cubango, Vila Isabel, Unidos da Tijuca, Mangueira e Imperatriz. O seu primeiro carnaval assinado como carnavalesco foi em 2015 na Dragões da Real, escola onde ele ficou até o ano de 2017. No ano de 2017 ele assumiu um desafio de além de assinar um Carnaval na Dragões da Real, assinar outro Carnaval no Rio de Janeiro na Viradouro. O convite surgiu após ele projetar e trabalhar na execução do Carnaval de 2016 da escola e ele prontamente assumiu a missão dupla. Os dois trabalhos renderam dois vice-campeonatos e chamaram a atenção do mundo do Carnaval. Em 2017 veio o maior desafio: assinar um carnaval sozinho no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Mas quem conhece o Jorge sabe da qualidade do seu trabalho e o quanto isso é fruto do seu incontestável talento. Ele levará um enredo Academicamente Popular para a Sapucaí em 2018 em busca de levar a São Clemente rumo a voos mais altos. Afinal, a mais bela arte o samba lhe deu e ele fez da São Clemente o retrato fiel.


Camila Silva
Carismática e atenciosa, Camila é muito querida pela comunidade de Padre Miguel. Foto: Marcos Serra Lima/EGO
Camila Silva iniciou a sua trajetória no carnaval aos 7 anos de idade e teve passagens pela Combinados de Sapopemba, Flor de Vila Dalila, Leandro de Itaquera, Camisa Verde e Branco e Nenê de Vila Matilde. Desde 2009, Camila é a dona do posto de Rainha de Bateria do Vai-Vai. A morena é conhecida pelo seu poderoso samba no pé, pela sua simpatia e também pela sua assiduidade nos ensaios, coisa que ela faz questão de frisar ser importantíssimo no posto de rainha de bateria. Tem que ser presente e ela é mesmo, não só vai sempre como também dá o seu show particular. Camila é unanimidade no Vai-Vai e foi isso que a levou ao carnaval do Rio em 2013, como rainha  da Mocidade Independente de Padre Miguel, a convite do carnavalesco Alexandre Louzada, que se encantou por ela ao longo de sua passagem pela Saracura, A escolha dividiu opiniões, mas não foi a única passagem da rainha pela Mocidade Camila voltou a escola em 2016 como musa e neste ano reassumiu o posto de rainha de bateria, função que também exercerá no próximo desfile da Estrela-Guia. Camila conquistou o seu lugar na Sapucaí por todas as qualidades que a levaram a ser uma unanimidade na Terra da Garoa.


Marlon Lamar
Marlon Lamar terá a responsabilidade de ostentar o pavilhão portelense em 2018. Foto: Leo Cordeiro
Após estrear como principal mestre-sala do Império de Casa Verde em 2014, Marlon Lamar teve uma ascensão meteórica. Logo em seu primeiro ano, ele atingiu a nota máxima, feito cada vez mais raro. Marlon permaneceu na escola até 2016, levantando um título do Grupo Especial e sendo aclamado pela crítica. Lucinha Nobre, histórica porta-bandeira da folia carioca, conheceu Marlon enquanto dava aulas ao primeiro casal da X-9 Paulistana. Quando resolveu voltar a dançar, Lucinha convidou o rapaz para ser seu par. Marlon, que sempre teve o sonho de desfilar na Marquês de Sapucaí, dançou ao lado de Lucinha no desfile deste ano da Porto da Pedra. Apesar de não ter recebido nota máxima, o casal foi agraciado com premiações diversas. O bom desempenho da dupla rendeu um chamado da Portela, que precisava de novos integrantes após as saídas de Alex Marcelino e Danielle Nascimento. Em 2018, na maior campeã da história do samba carioca, Marlon estreará no Grupo Especial tendo como companheira a sua fiel amiga Lucinha.


Alemão do Cavaco
O cavaquinista é um dos maiores nomes da história dos Gaviões da Fiel. Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo
Alemão do Cavaco é um compositor e músico consagrado no meio do carnaval. Isso se deve aos muitos feitos realizados em sua carreira. Apaixonado pelo Corinthians e pelo samba, Alemão entrou para carnaval e, consequentemente, para os Gaviões da Fiel, no começo da década de 90. Em 1993, graças ao talento no instrumento que virou parte de seu nome, fez parte do carro de som da escola alvinegra pela primeira vez, ocupando o posto de segundo cavaquinista. Em 94, graças ao sucesso na função, já era o primeiro cavaco da escola e assim foi até 2007. Além do destaque no carro de som, o músico se tornou um compositor de muito sucesso. Ao lado de seus parceiros, venceu a disputa na alvinegra em oito oportunidades (1996, 1998, 1999, 2000, 2001, 2002, 2005 e 2006). Além disso, duas obras suas foram as trilhas sonoras de desfiles campeões na Torcida que Samba. Apesar disso, Alemão - seja como cavaquinista ou como compositor  - esteve presente em todos os quatro campeonatos da Fiel. Em 2007, após 14 anos fazendo parte do time musical da escola do Bom Retiro, Alemão assumiu a direção musical da Caprichosos de Pilares, abrindo sua trajetória no carnaval carioca. Em 2011, venceu a disputa de samba-enredo na X9 Paulistana e foi convidado para se tornar o diretor musical da escola. No mesmo ano, realizou um sonho: cencer a disputa de samba-enredo de sua escola do coração, a Mangueira. Após uma disputa recheada de polêmica, Alemão e seus parceiros venceram a concorrência e conseguiram o sucesso com o samba sobre Nelson Cavaquinho. A obra acabou sendo aclamada por público e crítica. Em 2013, foi convidado pelo então presidente Ivo Meireles para ser o diretor musical da verde e rosa, ficando até 2016. Ao mesmo tempo, continuava compondo para a escola e venceu as disputas de 2015 e 2016. No ano de 2016, no enredo em homenagem a Maria Bethânia, Alemão viu sua obra ser trilha sonora do desfile campeão do Grupo Especial. Para 2018, o compositor, mais uma vez, disputou e venceu o concurso da Estação Primeira. Ao lado de seu antigo rival nas disputas e companheiro no carro de som, Lequinho, Alemão compôs uma obra que é considerada um sucesso mesmo antes do desfile pelo belíssimo conjunto de letra e melodia. Por tudo isso e pela carreira consagrada, é impossível não citar Alemão do Cavaco como um sucesso na ponte-aérea carnavalesca.


Bom, não dá para falar apenas de um lado da ponta área, não é mesmo? Vamos dar uma passada rápida em São Paulo e falar um pouco sobre os cariocas na folia paulistana.

Além da ponte aérea de São Paulo para o Rio de Janeiro, existe também a do Rio de Janeiro para São Paulo. Essa porta foi aberta de vez após o desfile da Nenê de Vila Matilde na Marquês de Sapucaí, em 1985, onde começamos a ver o intercâmbio entre os estados. Muitos nomes cariocas estiveram em Sampa: Laíla, Joãozinho 30, Alexandre Louzada, Jamelão, Quinho, Mestre Jorjão, Jorge Silveira, Cebola, Flávio Campello e muitos outros. Mas nenhum deles tem o sucesso e a importância para o carnaval do Anhembi que possui Jorge Freitas.

Jorge Freitas
Jorge Freitas: uma vida dedicada à arte carnavalesca. Foto: SRZD - Claudio L. Costa
Jorge Freitas era um carnavalesco pouco conhecido no Rio de Janeiro na década de 90. Apesar de assinar três Carnavais no Grupo Especial pela Unidos de Vila Isabel, foi em São Paulo que ele viu a sua vida mudar. Convencido a rumar para a capital paulistana pelo intérprete Ernesto Teixeira, Jorge estreou nos Gaviões da Fiel em 2000. Na alvinegra mostrou seus diferenciais: o acabamento perfeito e o gigantismo. Os títulos vieram em 2002 e 2003 e criaram uma marca: Jorge Freitas é garantia de alto nível. Em 2004, Jorge teve uma breve ausência da folia paulistana para ser carnavalesco da Portela. Em 2005, já de volta aos Gaviões, ajudou a escola a retornar ao Grupo Especial após os incidentes ocorridos no ano anterior. Em 2006, num desfile cheio de polêmicas, o artista novamente foi o destaque positivo, apesar do rebaixamento da Torcida que Samba. Em 2007, a convite da Liga/SP se dividiu entre Pérola Negra no Especial e Gaviões no Acesso, ajudando as escolas a cumprirem seus objetivos de estarem no Grupo Especial de 2008, quando Jorge iniciou uma trajetória marcante no Rosas de Ouro. Na escola da freguesia do Ó conquistou um título, três vices e vários desfiles inesquecíveis. Após oito Carnavais, o carnavalesco se mudou para a Império de Casa Verde. Na Caçula do Samba, conquistou o campeonato de 2016 com um enredo sobre os mistérios. Em 2017, num enredo sobre a paz, a azul e branca terminou em quarto lugar, mas com um desfile bastante elogiado. A carreira de Jorge Freitas é recheada de prêmios e títulos, mas seu maior feito vai além das conquistas. Com um estilo único de comandar um desfile de escola de samba, o Carioca mudou a cara do carnaval paulistano e elevou o patamar da folia do Anhembi em geral. Por tudo isso, é um grande exemplo positivo de como o intercâmbio entre as cidades faz bem para a maior festa popular do mundo.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

5x Salgueiro: a negritude em vermelho e branco



Poucas escolas estão tão ligadas a uma linha temática como o Salgueiro e o imaginário negro brasileiro. A conhecida transformação de Pamplona e seu grupo nos anos de 1960 adicionou o "negro" como terceira cor da Academia do Samba. Enredos que abordavam a diáspora africana, que traziam ao público personagens desconhecidos da nossa história e, mais recentemente, sambas-enredos com louvações aos orixás, construíram no público a imagem do morro salgueirense como um verdadeiro Orum em terras cariocas. A construção é tão forte que, mesmo antes da década de transformações, a agremiação já cantava temas ligados a negritude. 

Para exaltar essa união, separamos grandes desfiles salgueirenses de temáticas africanas durantes as mais diferentes décadas. Vem pegar no ganzê com a gente! 


1 - Salgueiro 1957: "Navio Negreiro"
"Acabou-se o navio negreiro, 
não há mais cativeiro..."



Antes da chegada de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, o Salgueiro já era uma escola preocupada em cantar a negritude em seus enredos, bem mais que outras agremiações. Inspirada no clássico poema de Castro Alves, citado no samba, a obra musical retratava as dores e dificuldades da diáspora africana nos fúnebres navios escravocratas. O desfile ainda não tinha uma unidade narrativa entre o samba e o desfile, e apresentava uma versão mais pacificadora da história negra do que contestadora. 


2 - Salgueiro 1960: "Quilombo dos Palmares

"Surgiu nessa história um protetor, 

Zumbi, o divino imperador..."



A dita revolução que colocara o negro em pauta na festa aconteceria três anos mais tarde, quando Fernando Pamplona junto de Arlindo Rodrigues e outros profissionais do Teatro Municipal e da Escola de Belas Artes chegariam, de fato, ao carnaval questionando a história oficial e trazendo à tona personagens poucos conhecidos do grande público, como Zumbi dos Palmares. Com uma estética negra, deixando a capa e a espada de lado, vieram as estampas geométricas inspiradas em filmes de Hollywood da época. A partir daí, Salgueiro e Negritude viraram sinônimos oficialmente.



3 - Salgueiro 1971: "Festa para um Rei Negro"

"Nos anais da nossa História, 
Vamos relembrar
 Personagens de outrora 
Que iremos recordar..."


O último grande suspiro da revolução salgueirense do grupo de Pamplona aconteceu onze anos depois. De lá pra cá, chegaram profissionais que mudariam a estética da festa nos anos seguintes. Joãosinho era o rei das alegorias, manejando isopor como ninguém. O inusitado enredo da visita de um rei africano à corte de Maurício de Nassau em Pernambuco era fruto da pesquisa acadêmica de Maria Augusta. E Rosa Magalhães chegava sem nem saber o que era um porta-bandeira e espetando bolinhas de isopor em fornos de fogão alheio (entenda aqui). O icônico desfile contou ainda com uma revolução no samba-enredo, com o lendário "Pega no ganzê", deixando de lado os "sambas-lençóis" e apostando num ritmo contagiante e refrões "chiclete".



4 - Salgueiro 1989: "Templo Negro em tempo de Consciência Negra"

"Livre ecoa o grito dessa raça 

E traz na carta 

A chama ardente da abolição..."



Vão-se os grandes carnavalescos, os patronos, o dinheiro e, durante a década de 1980, o Salgueiro patinou com desfiles complicados e enredos que nada lembravam o sopro de revolução de vinte anos atrás. A escola da negritude deixou os 100 anos da abolição passarem em branco e se redimiu um ano depois, com a volta da temática "afro" e de uma posição melhor. Depois de desfiles irreverentes na Caprichosos de Pilares, Luiz Fernando Reis mostrou sua versatilidade ao misturar crítica social e uma homenagem aos grandes desfiles da Academia. O enredo "Templo Negro em tempo de Consciência Negra" atualizou a estética de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues num desfile empolgante com uma bela obra musical. O excelente desfile acabou ofuscado por apresentações antológicas de Beija-Flor e Imperatriz.



5 - Salgueiro 2007: "Candaces"
"Candaces mulheres, guerreiras 
Na luta... justiça e liberdade 
Rainhas soberanas 
Florescendo pra eternidade"


Novamente, após quase duas décadas, a Academia do Samba retornaria com louvor e propriedade aos enredos ligados à africanidade, desta vez na Era Lage. Os carnavalescos, juntamente com o departamento cultural da escola, resgataram a incrível história de uma dinastia africana de rainhas guerreiras, as Candaces. Conhecido pelo estilo modernoso, o casal de carnavalescos mergulhou no barroco e rococó mais ancestral de Arlindo Rodrigues, apresentando um desfile arrebatador e com a força de um samba-enredo antológico e inspirado. Infelizmente, os jurados não viram tantas qualidades assim e a vermelho e branco terminou num incompreensível sétimo lugar, numa das maiores injustiças carnavalescas do século, até então.


"É negritude, Salgueiro"
O imaginário africano é parte de identidade da formação de uma escola que mudou para sempre os desfiles da festa momesca. A convergência entre o "erudito" e o "popular", a valorização negra e as dores da diáspora africana formam o Salgueiro como uma agremiação histórica. Seja com Xicas da Silvas, exaltando as Bahias, ressoando tambores e louvando sua própria história, a Academia do Samba não recebeu tal alcunha à toa. Nos ensinou muito mais sobre a verdadeira história brasileira e negra do que nossos livros da escola. Axé! 

sábado, 18 de novembro de 2017

Dossiê Carnavalize: uma viagem encantada pelos carnavais de Fernando Pinto no Império Serrano


Muitos foram os carnavais marcantes de Fernando Pinto na Mocidade Independente de Padre Miguel; enredos como "Ziriguidum 2001" e "Tupinicópolis" permanecem no imaginário folião. O artista tropicalista também assinou, entretanto, grandes desfiles do Império Serrano durante quase toda a década de 70. Ao todo, foram oitos desfiles criados para o Reizinho de Madureira, contra seis na Estrela Guia de Padre Miguel. Nessa primeira fase, Fernando apostou em temas mais populares, ligados às manifestações folclóricas, personagens históricos e o único enredo de temática "negra" de sua trajetória. Confira nesse dossiê completo uma retrospectiva de sua carreira na Serrinha.

1971 - Nordeste: seu povo, seu canto, suas glórias




Tudo começou quando Fernando Pinto escreveu uma carta pedindo para ser o carnavalesco do Império. A escola vinha de uma má classificação no ano anterior, e, no texto, o artista prometia resgatar o verdadeiro Império Serrano. A escola verde e branco aceitou o pedido e acabou contratando o jovem de apenas 24 anos que fazia carreira como ator e diretor teatral. Pernambucano, o artista resolveu tratar de suas origens, abordando as festas, manifestações artísticas, hábitos e  a cultura nordestina. A escola foi bem com seu samba e garantiu o terceiro lugar daquele ano.  


1972 - Alô alô, taí Carmen Miranda!





Após o título do Salgueiro em 1971 com o histórico "Festa para um rei negro",  Fernando Pinto disse ao Jornal do Brasil que tratou de analisar todos os ângulos do desfile campeão para preparar uma apresentação imbatível. E conseguiu. Tratou de escolher uma figura popular e festiva para o tema: a cantora Carmen Miranda. Resgatada como símbolo de brasilidade pelo tropicalismo, Fernando fez jus ao movimento que lhe deu régua e compasso. Optou não por uma narrativa biográfica da pequena notável, mas numa pegada teatral e cinematográfica. 




Foi a primeira vez que uma escola de samba teve como enredo uma figura da cultura de massa e não histórica ou folclórica, o que gerou estranhamento e revolta na agremiação. Mas o carnavalesco bancou a inovação. A história da cantora foi dividida em oitos quadros (setores), cada um deles com uma personalidade representando uma Carmen Miranda diferente. Inspirado nos filmes, os quadros eram: o "Abre-alas", com Marion; "Um Rosário de ouro, um bolota assim, quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim", com Leila Diniz; "Alô, Alô, Carnaval", com Wanderléia; "Banana da Terra", com Miriam Pérsia; "Cassino da Urca", com Marília Pêra e todo o elenco de "Vida Escrachada"; "Carmen Internacional", com Vilma Vernont e sua academia de ballet; "Serenata Tropical", com Olegária e "Copacabana" com Rosemay.




Ao contrário da revolução salgueirense, liderada por Pamplona e Arlindo, que se baseava em elementos da cultura acadêmica e erudita, Fernando Pinto bebeu na cultura de massas e no que era considerado "brega e cafona", como as chanchadas, os teatros de revista e a era do rádio, sempre abusando de frutas, palmeiras e muita tropicalidade. Diz a lenda que os carros chegaram quase sem nada na concentração e todos acharam que o Império desceria, mas, aos poucos, o carnavalesco foi tirando da cartola diversas decorações tropicais, fazendo tudo ganhar vida.

"Se o carnaval virou empolgação, Carmen Miranda é um tema ideal para isso", afirmou em entrevista.



Um ponto controverso do desfile foi a escolha de samba. Após o inesquecível "Pega no ganzê" no ano anterior, o artista da Serrinha defendia que a escola necessitava de uma canção empolgante. Para isso, comprou briga na agremiação, desbancando a obra do imortal Silas de Oliveira. O samba-enredo escolhido era curto e viciante, composto por Wilson Diabo, Heitor Rocha e Maneco, sendo um dos primeiros a inserir uma gíria: "que grilo é esse?". 



Na Avenida, o samba foi defendido por Malene, Rainha do Rádio. E, apesar da polêmica dos mais conservadores, o desfile foi um sucesso e empolgou a todos, fazendo a obra musical permanecer no imaginário popular, sendo regravado até mesmo por Elis Regina. O título foi incontestável e a escola ganhou vários prêmios do Estandarte de Ouro, que foi realizado pela primeira vez aquele ano. A Pequena Notável ajudou a faturar três categorias: Enredo, Comunicação com o Público e Fantasias, estes dois extintos atualmente. 


1973 - Viagem encantada Pindorama a dentro





Após o título, o Império entrou na avenida com uma grande expectativa. Fernando Pinto assinou seu terceiro carnaval apostando numa temática diferente dos últimos anos. Em "Viagem encantada Pindorama a dentro", o artista tropicalista misturou história e fantasia para contar como era o Brasil antes da chegada dos portugueses. 





Um ano antes de "Rei de França na Ilha da Assombração", de Joãosinho Trinta (dito como o primeiro enredo onírico), Fernando já havia apostado no tal olhar onírico para fatos históricos, tendo como destaque o luxo e o gigantismo. Abusando de adereços de mãos e muito prateado, a apresentação contou o enredo em quatro quadros. A narrativa começava em Pindorama - primeira etapa; passava pela Ilha de Vera Cruz - segunda etapa, chegando à Terra de Santa Cruz, terceira etapa; e, finalmente, o Reino Encantado do Upabuçu, quarta e última fase, onde morava o amor de Iara, personagem principal do enredo. 




Nas materiais da época, Fernando disse que apostou pela primeira vez no uso do isopor, em vez do papel machê, então usado, e do poliéster de fibra de vidro nas esculturas, inserindo, portanto, materiais usados até hoje na confecção das esculturas carnavalescas. Outros destaques estéticos foram o grande arco-íris que anunciava a chegada ao reino encantado e as Iaras com lindas caudas prateadas que reluziram durante o dia.



O samba-enredo teve bons momentos, mas não tinha o mesmo apelo popular do ano anterior. A escola fez um grande desfile e chegou a ser apontada pelos jornalistas da época como grande favorita, mas acabou ficando com o vice-campeonato, perdendo para a Mangueira. 




1974 - Dona Santa, Rainha do Maracatu





Para o cortejo de 74, Fernando Pinto voltou às suas raízes pernambucanas, assim como em seu ano de estreia. Para louvar umas das expressões populares mais famosas da região, o maracatu, o carnavalesco homenageou uma figura lendária e que fez parte de seu imaginário desde a infância: Dona Santa, rainha do maracatu na Nação Elefante durante mais de dezesseis anos. 




Para tentar repetir o sucesso da Iaras prateadas do ano anterior, o carnavalesco apostou numa apresentação toda branca e prata, diminuindo um pouco do verde que dava cor à agremiação. A escolha fez os tradicionalistas virarem o nariz e não encheu os olhos do jurados. O efeito esperado dos figurinos e alegorias para um desfile à noite não foram alcançados, já que a escola desfilou de manhã. A apresentação foi tida como morna pelas reportagens da época, o samba era pouco empolgante e não funcionou. Apesar disso, o Reizinho de Madureira terminou numa ótima terceira posição. 


1975 - Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira







Após ao desfile nem tão bem sucedido do ano anterior, o artista imperiano voltou a apostar numa temática popular e kitsch para 75. Após a cantora do rádio e abacaxis, veio uma homenagem a uma personagem do bairro sede da agremiação verde e branca: Zaquia Jorge foi uma vedete que construiu um teatro de revista em Madureira e acabou morrendo de maneira trágica. 




Com o enredo, Fernando voltou a beber numa estética tipicamente popular e multicolorida. Apostou no verde e amarelo da bandeira brasileira, reforçando a brasilidade das revistas da época da homenageada. A narrativa, mais uma vez, fugia de uma simples biografia, sendo apresentada como uma viagem de trem da Central do Brasil até o subúrbio de Madureira. O abre-alas representava uma locomotiva partindo da estação terminal e o desfile seguiu pelos quadros que representavam as próximas paradas da viagem ferroviária, passando por Mangueira e Méier. 




Todos os carros tinham uma estética muito próxima do teatro de revista, abusando das escadarias onde as vedetes faziam suas apresentações, com seus imensos leques de pena. Segundo uma reportagem do jornal O Globo, outro destaque foi o uso de elementos decorativos de grandes estrelas que uniam os diferentes quadros do enredos dando um aspecto onírico e de um grande teatro popular.




Fora a plástica, outra história importante daquele ano aconteceu na disputa de samba. A obra escolhida foi o belo samba de Alvarese, defendido pelo carnavalesco, pois apresentava melhor o enredo proposto. Mas (muitos) outros preferiam a obra de Acyr Pimentel & Cardoso, gravada depois por Roberto Ribeiro, e que acabou se tornando mais conhecido do que a obra vencedora. Apesar da polêmica, o samba-enredo empolgou e fez a escola conquistar mais um terceiro lugar.


1976 - A lenda das sereias, rainhas do mar





O carnaval de 76 seria o único na trajetória de Fernando Pinto a tratar de um tema ligado a temática africana. O enredo sobre "sereias" passeava por diversas divindades ligadas à água na tradição yorubá-nagô, como Yemanjá, Oguntê, Oloxum, Inaê e outras citadas no antológico refrão do samba-enredo. 




Assim como em 73 e 74, o artista voltaria a apostar no prata como cor predominante da apresentação. Os adereços de mão, sempre presentes nos desfiles de Fernando, e as fantasias remetiam aos elementos do mar e animais como peixes, polvos, camarões e cavalos marinhos. A reportagem após o desfile, do jornal O Globo da época, criticou o gigantismo da escola e uso repetitivo das sereias e dos elementos marítimos. Em suma, um trabalho estético que não se destacou, fazendo a escola amargar uma sexta posição, péssima para aqueles tempos. Já o samba composto por Dionel, Arlindo Velloso e Vicente Mattos, entretanto, brilhou na avenida e se tornou um dos mais conhecidos da trajetória imperiana, regravado por ícones musicais como Marisa Monte, sendo reeditado em 2009 pela própria Serrinha. 





1978 - Oscarito, carnaval e samba - Uma chanchada no asfalto




Após o resultado nada satisfatório em 1976, Fernando Pinto se afastou por um ano do carnaval, dedicando-se a sua carreira no teatro e seu trabalho como figurinista e diretor do grupo "As Frenéticas", que explodiu nesse período. Em 78, o carnavalesco dos cabelos cacheados voltaria ao Império Serrano para assinar seu último desfile na agremiação. Após Carmen e Zaquia, criou uma narrativa que homenageava outro personagem popular, o humorista Oscarito. Depois do Rádio e do teatro de revista, ele exaltava, através do eterno parceiro do Grande Otelo, a chanchada, um estilo cinematográfico famoso na primeira metade do século XX no Brasil e depois desprezado pela intelectualidade. 




O enredo apostava numa narrativa alegre e começava homenageando o Circo, onde Oscarito cresceu e teve seu primeiro contato com a arte. Os três quadros faziam um panorama da carreira do ator, começavam exatamente nos "Circos Spinelli e Democrata", depois iam para os famosos teatros da "Praça Tiradentes" e terminavam nos filmes lendários da produtora "Atlântida". As alegorias e tripés apresentavam peças e filmes da trajetória de Oscarito, apostando num multicolorido. Na Avenida, o desfile desandou e o samba pouco inspirado não animou nem componentes, nem a arquibancada. A escola passou arrastada e acabou tendo que correr no final da apresentação; confusão essa que gerou um sétimo lugar e um rebaixamento para o segundo grupo. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Os Cinco Mais: Vozes que se eternizaram no Carnaval de São Paulo

Foto extraída do site Folia do Samba

Por Alisson Valério
Se no texto anterior, falamos que sem samba não tem escola de samba. O que seria do samba, sem seu cantor? Portanto, se prepare agora para conhecer um pouco mais sobre cinco nomes marcantes na arte de conduzir samba-enredo no último texto da série "Os Cinco Mais". 

E aí, preparados? Então vamos lá que o cavaco já está chorando e é hora de soltar a voz!

Daniel Collête – Mocidade Alegre, X-9, Dragões da Real, Leandro de Itaquera e Pérola Negra
 "Maraviiiiiiiiiiilha! Alô você! Bate no peito e diz: Eu sou Mocidade!"

Foto: Samba Rio Carnaval
Nascido em Nilópolis, no estado do Rio, Daniel Collête acabou fazendo a sua carreira de intérprete na cidade de São Paulo. Entrou no Carnaval como cantor de apoio na X-9 Paulistana nos anos de 98 e 99. No ano seguinte, migrou para a Mocidade Alegre, ainda na mesma função. Em 2001, no entanto, Collête assumiu o microfone principal da escola do bairro do Limão e começou a fazer história. Mesmo com a Morada do Samba não fazendo grandes apresentações, o intérprete já se destacava e ganhava reconhecimento no meio. Entretanto, o auge aconteceria em 2003. Cantando um samba afro e vestido a caráter para o enredo, o cantor deu um show no Anhembi e ajudou a escola a voltar à disputa pelo título após mais de 10 anos. O título não veio em 2003, mas não demoraria muito.

Em 2004, outra fantástica apresentação no comando do carro de som unida a mais um grande desfile levou a taça de campeão para o Limão após 24 anos. Nos anos seguintes, Collête manteve o alto nível e ajudou a verde e vermelha a ser campeã novamente em 2007. Naquele ano, o enredo que falava do riso, teve o cantor vestido de palhaço. Em 2008, Daniel se mudou para a X-9 e, apesar de não ter conseguido levar a escola a briga pelo título nos três anos que esteve por lá, se destacou pelo talento inegável e pelas fantasias maravilhosas que usava. Em 2011, Daniel foi para a Dragões da Real e ajudou na construção de uma escola que se tornou a mais nova potência do Carnaval Paulistano. Com muita alegria e a potência na voz de costume, Collête se tornou uma marca na tricolor. Após seis anos na escola, ele deixou a agremiação rumo a Leandro de Itaquera no Carnaval de 2017. Nesse ano, cantou o histórico "Babalotim", considerado por muitos, o melhor samba da história do Carnaval Paulistano. Apesar da boa apresentação dele no comando do carro de som, Collête e Leandro optaram por não renovar o vínculo. Com isso, em 2018, Collête acertou com o Pérola Negra, que busca o Acesso ao Grupo Especial. Conhecendo seu talento e sua fama de pé quente, temos certeza que lá na Vila Madalena já tem gente batendo no peito e dizendo que o Pérola Negra vai subir. Maraviiiiiiiiiiilha...



Thobias da Vai-Vai – Vai-Vai
"Alô Nação Alvinegra!"

Foto: Revista Paulista
Tido por muitos como um dos maiores interpretes da história do Carnaval de São Paulo, Thobias teve o início da sua carreira no samba de uma forma um pouco curiosa. Vindo de uma família sem ligação com o samba foi nos anos 80, quando ainda trabalhava como entregador de contas da Sabesp que ele começou a frequentar rodas de samba e em um concurso promovido pela empresa que ele trabalhava, não é que se sagrou vencedor como melhor intérprete?, chamando, ainda, a atenção dos Gaviões da Fiel, na época ainda bloco, e se tornando o cantor principal em 1983. A voz de Thobias acabou despertando a galera do Bixiga, do Vai-Vai, que não perdeu tempo e o colocou como interprete oficial da escola no carnaval de 1986 e que história os dois escreveriam juntos a partir daquele momento... Foram oito títulos (86, 87, 88, 93, 96, 98, 99 e 2000) durante os anos dessa parceria inesquecível para o samba. Thobias foi a voz principal do Vai-Vai de 86 até 2000, sendo que em 1994 ele passou o posto para Agnaldo Amaral, quando decidiu se dedicar a carreira de cantor, mas logo voltou ao posto de intérprete oficial no ano seguinte. Além disso, nos seus dois últimos anos pela Saracura, ele dividiu o microfone com Wantuir (1999) e Agnaldo Amaral (1999 e 2000).

Mas quem pensa que a história do Thobias na escola chegou ao fim, enganou-se. Em 2006, ele foi eleito presidente da escola por aclamação, após a renúncia do antigo presidente Sólon Tadeu Pereira e conquistou também um título pela escola no ano de 2008, totalizando, assim, nove conquistas na sua passagem pela alvinegra. O bordão “Sob nova direção” virou marca da sua gestão, que chegou ao fim após o desfile de 2010. No ano de 2014, Thobias assumiu a vice-presidência da escola, cargo que exerce até os dias de hoje. Foram tantas performances marcantes e inesquecíveis ao longo dos anos que ele foi (e sempre será!) a voz do Vai-Vai. Fica até difícil escolher uma performance dentre todas. Entretanto, é mais difícil ainda imaginar a Saracura campeã sem as atuações do cantor.

Em 1996 e 1998, brilhou e fez sucesso com os sambas sobre Lílian Gonçalves e o inesquecível Japão. Além disso, deu um show em 99 e 2000.  Fez, também, uma participação pra lá de especial em 2003, no carro de som liderado por Renê Sobral, e em 2005, junto de Agnaldo Amaral. Em 2014, esteve presente na faixa do CD com a categoria de sempre e fez companhia a Márcio Alexandre, apadrinhado pelo mestre, na defesa do samba sobre a cidade de Paulínia. Por tudo isso, o grito de "Alô Nação Alvinegra" ficou marcado nos sambistas da cidade e confirmou que Thobias é um cantor de categoria e classe. Sem a menor dúvida, é uma das vozes mais marcantes da história do Carnaval de São Paulo!


Royce do Cavaco – Águia de Ouro, X-9, Tom Maior, Nenê e Rosas de Ouro
 "Alô Nação azul e rosa, canta, canta, caaaaaaaaaaaaanta Roseira..."
  
Foto: SASP
Nascido em São Paulo, Royce do Cavaco é um nome marcante no Carnaval Paulistano. Intérprete oficial desde 1982, quando entrou no Águia de Ouro, Royce se consagrou a partir de 83, quando começou a cantar no Rosas de Ouro. Na escola da Freguesia do Ó, fez sucesso cantando sambas como “De Piloto de Fogão a Chefe da Nação”, “Non Ducor Duco", "Qual é a Minha Cara?” e “Sapoti”. Após 11 anos de sucesso na azul e rosa, Royce se transferiu para a recém-promovida, X-9 Paulistana. Na escola da Parada Inglesa, construiu outra carreira de muitos títulos e sucesso. Em 1997, ajudou a escola a ser campeã pela primeira vez com uma atuação irretocável cantando “Amazônia, a Dama do Universo”. Em 2000, repetiu o feito cantando o samba que falava sobre o café e o período de domínio do café na cultura e na economia brasileira. Além dos títulos, ficou marcado pelas ótimas atuações tanto em 2002 no enredo “Aceito tudo, quem sou eu?... O Papel!” e em 2005 com o tema “Nascidos para Cantar e Também Sambar”.

Após 10 carnavais, Royce foi para a Tom Maior em 2006. Ganhou, ao lado de Renê Sobral, o troféu Nota 10 de melhor intérprete. No ano seguinte, se transferiu para a Nenê de Vila Matilde. Na Águia da Zona Leste, conseguiu conquistar o prêmio de melhor intérprete em outras duas oportunidades (2009 e 2011). Além das duas atuações premiadas, Royce ficou marcado pela ótima apresentação no ano de 2007, com a temática sobre o fundador do Grupo Bandeirantes, João Jorge Saad. Em 2011, Royce deixou a Nenê e retornou a X-9. Na nova passagem pela verde e vermelha, Royce mostrou a categoria de sempre e brilhou cantando o bom samba sobre a chuva em 2015. Em 2016, por conta de incidentes com carros alegóricos, a X-9 acabou rebaixada ao Grupo de Acesso. Entretanto, Royce permaneceu no Grupo Especial. Isso aconteceu devido a saída dele rumo à Roseira. Após 22 anos, o “Sabiá”, apelido dado ao cantor em virtude do consagrado samba de 1992, retornava a escola da Freguesia do Ó. Na azul e rosa, Royce teve ótima atuação cantando o samba do enredo “Convivium - Sente-se à mesa e saboreie”. Em 2018, o intérprete segue na Roseira mais querida e cantará a obra que fala sobre a vida dos caminhoneiros. Com o grito de guerra clássico, Royce vai pedir para a Roseira fazer o que melhor sabe fazer: cantar! 


Ernesto Teixeira – Gaviões da Fiel
"Alô Nação Corintiana!"

Foto: SRZD – Cláudio L. Costa
A voz da Fiel. Ernesto Teixeira é, com certeza, a voz mais identificada com uma única escola no Grupo Especial de São Paulo. Nascido em São Paulo, o, hoje, senhor Ernesto está nos Gaviões da Fiel desde que a escola se tornou escola de samba em 1989. Contando os anos de bloco, Ernesto tem 34 anos ininterruptos sem deixar o posto de cantor oficial da Torcida que Samba. Além de cantor oficial com apresentações destacadas, Ernesto é compositor consagrado dentro da agremiação. Com seus parceiros, a voz em destaque da alvinegra conseguiu sete vitórias dentro da escola. Apesar disso, uma curiosidade é que Ernesto nunca viu um samba seu campeão do Carnaval. Mesmo com essa “falta”, a voz corintiana, como ele gosta de se denominar, teve apresentações irretocáveis nos campeonatos da escola. Em 1995, Ernesto brilhou conduzindo o ótimo e inesquecível “Coisa boa é para sempre”. Em 99, foi a vez de cantar o samba que contava a história do enredo “O Príncipe Encoberto ou a Busca de Dom Sebastião na Ilha de São Luís do Maranhão”. Mesmo sendo a última escola a desfilar, graças a maravilhosa interpretação de Ernesto, os Gaviões levantaram o Anhembi e saíram da pista consagrados campeões do Carnaval. Em 2002, a consagração definitiva! Com um enredo sobre o jogo de Xadrez misturado a realidade do mundo naquele momento, a Torcida que Samba brilhou e foi tricampeã. Ernesto, obviamente, foi um destaque da escola. Em 2003, o tetracampeonato veio com mais um show do cantor.

Mas além das apresentações campeãs, a voz alvinegra brilhou cantando os sambas de 2000 (Um Voo Para a Liberdade), 2001 (Mitos e Magias na Triunfante Odisseia da Criação) e 2015 (No jogo enigmático das cartas, desvendem os mistérios e façam suas apostas, pois a sorte está lançada!). Isso só para ficar em alguns anos.. A carreira de Ernesto é recheada de apresentações inesquecíveis! Além da consagrada carreira de intérprete, o cantor dos Gaviões é responsável pela contratação de Jorge Freitas pela alvinegra no ano de 2000. Isso poderia ser pouco, mas o carnavalesco fez história no Carnaval de São Paulo com seu estilo único. Com talento e forma única de fazer Carnaval, Jorge mudou a cara do cortejo momesco paulistano como um todo. Isso, também, é um mérito de Ernesto que viu lá atrás, o potencial desse grande artista. Por tudo isso, é impossível não ver a carreira desse cantor fantástico como um patrimônio da cultura carnavalesca da Terra da Garoa. Sendo assim, é muito bom abrir a faixa dos Gaviões no CDs de Samba-enredo e ouvir o inconfundível Alô Nação Corintiana!


Carlos Jr – Camisa Verde e Branco, Vai-Vai e Império de Casa Verde
 "Alô Nação Imperiana! Alô Tigre! O mundo te espera, e aqui tem, hein?! Fooooooooogo neeeeeeeeeles!"

Foto: SRZD
Carlos Júnior é um dos cantores com mais história no Carnaval Paulistano. Ao longo dos 17 anos de carreira, compôs e defendeu obras de muita qualidade que marcaram a "era Anhembi". Em 2000, estreou como intérprete oficial no Trevo da Barra Funda. No ano seguinte, defendeu o ótimo samba sobre Heitor Villas-Boas. Em 2002, Carlos Júnior ajudou a escola alviverde a ter o melhor resultado desde 1993. Com um samba de sua autoria, o Camisa terminou em segundo lugar na defesa do enredo sobre o número 4. Esse desfile, apesar do vice, foi considerado um marco para a tradicional escola que vinha perambulando no meio da tabela. Em 2003, na sua última apresentação pela agremiação, Carlos Júnior defendeu maravilhosamente a obra que falava sobre João Cândido. Um lindo gran finale para uma passagem marcante. Em 2004, sua estreia pelo Tigre Guerreiro foi impactante! Cantando com garra e muita alegria o samba, a escola bateu na trave na busca pelo campeonato, terminando num honroso terceiro lugar. Em 2005 e 2006, Carlos Júnior ajudou a então Caçula do Samba a se sagrar bicampeã. Suas apresentações, em especial no ano de 2005, contribuíram para carnavais marcantes e inesquecíveis. Em 2007, cantando o samba que tinha como enredo “Glórias e Conquistas - A Força do Império está no salto do Tigre”, o cantor mostrou que estava consolidado entre os grandes intérpretes do Carnaval.

Após o Carnaval de 2007, Carlos se transferiu para o Vai-Vai. Na alvinegra, dois anos e dois shows de interpretação, garra e alegria. Em 2008, segundo ele, teve sua melhor e mais emocionante atuação da carreira na defesa do enredo “Vai-Vai Acorda Brasil! A saída é ter esperança”. Em 2009, outra participação destacada no Carnaval, que tinha como tema a saúde do corpo humano. No ano de 2010, Carlão voltou ao Império de Casa Verde para, até o momento, não sair mais. Se até 2015, as colocações da escola eram modestas, o mesmo não dá para dizer das atuações do intérprete. O cantor brilhava e era o destaque absoluto dos desfiles da azul e branco. Em 2016, com a chegada de Jorge Freitas e com o samba de autoria do próprio cantor, o Império voltou a comemorar um título e Carlos Júnior foi agraciado com uma premiação de melhor intérprete do grupo. Em 2017, o título não veio, mas Carlos Júnior deixou sua marca no Anhembi com mais uma atuação de categoria. Pela carreira fantástica tanto como cantor quanto como compositor, Carlos Júnior é um patrimônio do nosso Carnaval. E quem for contra? Vai chorar...


Contar a história desses intérpretes é uma forma de reverenciar todos os intérpretes que passam pelo sambódromo ao longo dos anos sejam ele de apoio ou oficial. E esse também foi o espírito da série. Falar dos casais, das comissões de frente, das baterias, dos sambas, dos intérpretes.... Foi uma forma de valorizar e reconhecer o trabalho de todos os sambistas ao longo dos 26 anos do sambódromo do Anhembi. Por tudo isso, esperamos que a série fique marcada como uma valorização do Carnaval Paulistano. Carnaval que, assim como a co-irmã carioca Acadêmicos do Salgueiro, não é melhor, nem pior, apenas diferente, meu!