segunda-feira, 6 de agosto de 2018

5x São Clemente: A crítica irreverente da escola da Zona Sul

Por Beatriz Freire



Na onda dos enredos críticos, muitas escolas têm aderido ao eixo temático, e a São Clemente, escola que construiu sua identidade sob o véu das denúncias irreverentes, volta ao seu berço para reencontrar seu DNA construído a partir da década de 80. Sendo assim, o Carnavalize separou cinco desfiles fundamentais para entender a alma da escola da Zona Sul e embalar os próximos enredos que virão, inclusive com a própria escola, no carnaval de 2019.


QUEM CASA QUER CASA (1985)

Comissão de frente da preta e amarela da Zona Sul (Foto: Tantos Carnavais)

Ao ano final da lenta e gradual abertura do regime militar, a São Clemente, no auge de uma crise econômica, levou à Sapucaí a denúncia verossímil de tantas pessoas que não tinham onde sequer morar. "Quem casa quer casa" foi um enredo desenvolvido por Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa para mostrar a realidade do déficit habitacional no Brasil, desde a barriga da mãe, passando pelos caminhos da vida, até o cemitério. A comissão de frente trazia componentes com vestes que eram metade vestidos de noiva e metade ternos, representando casais que saíam em busca do sonho da casa própria, uma apresentação digna e vencedora do Estandarte de Ouro. A escola não tinha lá os luxos das grandes potências da época, o que acabou prejudicando o desempenho visual no julgamento, mas o ponto positivo foi o aguerrido samba composto pelos grandes Izaías de Paula, Helinho 107 e Rodrigo, que fazia jus ao gritos de "olha a crítica", que a escola passou a carregar. Apesar do rebaixamento no fim da quarta de cinzas, o desfile de 1985 coloca a escola na posição ativa de porta-voz das mazelas da sociedade. 




CAPITÃES DO ASFALTO (1987)

Abertura da escola no carnaval de 1987 (Foto: Jornal OGlobo)
Já no carnaval de 87, ainda seguindo o eixo temático que criou a identidade da escola, a São Clemente mostrou ao mundo o abandono das crianças e adolescentes com o inesquecível "Capitães do Asfalto", enredo desenvolvido também pela dupla Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa. O desfile contou a história dos menores abandonados, embalado por um dos maiores sambas da escola, composto por Izaías de Paula, Jorge Moreira e Manuelzinho Poeta, e traçou a comparação entre a vida de um menino que tinha uma infância de luxo e a de um menino fadado a crescer e aprender o que a rua poderia ensinar. A escola, recém-chegada do segundo grupo, ainda emocionou ao levar para a Avenida uma ala de meninos que eram moradores de rua, conquistando, ao final da disputa, um honroso sétimo lugar. E, mais uma vez, mostrou-se atemporal ao retratar a realidade que não mudou neste mais de 30 anos que se passaram. 




E O SAMBA SAMBOU (1990/2019)

Comissão de frente que levou o Estandarte de Ouro em 1990 (Extraída de Galeria do Samba)

Ah… que saudade da Praça Onze, dos grandes carnavais e também da acidez clementiana. Depois de dois anos amargando posições ruins na classificação geral, a escola da Zona Sul deu seu grito de crítica às grandes transformações e ao "sabor comercial" que permeou (e vem permeando) as escolas de samba a partir de meados da década de 1980 com os enredos patrocinados, vendas de cargos de rainhas de bateria para celebridades e o troca-troca da dança das cadeiras sem nenhuma valorização da fidelidade ao pavilhão. E foi assim que "E o Samba Sambou" fez o povo cantar e vibrar nas arquibancadas. A comissão de frente da escola foi, novamente, a vencedora do Estandarte de Ouro, representada por fantoches de mestre-salas controlados pelos dirigentes das agremiações, e o samba-enredo, composto por Helinho 107, Chocolate, Mais Velho e Nino, profetizou toda a espetacularização da festa que hoje, quase 30 anos depois, ainda é uma realidade. O sexto lugar conquistado naquele ano foi o melhor resultado da escola em toda sua trajetória no Grupo Especial e, em 2019, sob comando de Jorge Silveira, a escola abre o pano do passado para rememorar e atualizar as críticas ao universo interno e aos bastidores do maior espetáculo da terra na reedição do enredo. 




BOI VOADOR SOBRE O RECIFE: O CORDEL DA GALHOFA NACIONAL (2004)


(Imagem extraída de site Apoteose)
Em 2004, num cenário político complicado para ministros e demais engravatados, a São Clemente regressou até o Recife de Maurício de Nassau para contar a história da galhofa no país, tendo como guia o boi voador que passou pelo céu pernambucano, atração para inauguração de uma ponte recém-construída e, para recuperar os investimentos, foi exigido o pedágio. Sob batuta do brilhante Milton Cunha, o enredo buscou conciliar passado e presente, à época, para contar os rumos do Brasil. O desfile, apesar de contar com um excelente samba, não cumpriu requisitos suficientes para garantir a permanência na elite da folia, mas a São Clemente realmente nos fez acreditar que, aqui, o que é sério é carnaval...




CHOQUE DE ORDEM NA FOLIA (2010)

O desfile de 2010, assinado por Mauro Quintaes (Foto: Wigder Frota)

Depois de um ano de expediente na Série A, em 2010 a São Clemente viu a chance de voltar a desfilar pela elite carioca. O enredo escolhido, denominado "Choque de Ordem na Folia", foi desenvolvido por Mauro Quintaes e usou como mote o programa do então prefeito Eduardo Paes para embarcar numa crítica do mesmo teor de "E o samba sambou", a fim de mostrar a desordem interna das escolas de samba. Versos do próprio samba relembraram a profecia da escola vinte anos antes, como "eu bem que te avisei que o samba um dia ia sambar", e a irreverência de letra e melodia feitas por Luiz Carlos Ribeiro e seus parceiros proporcionou um desfile animado e leve para a São Clemente. No fim da quarta-feira de cinzas, a escola saiu vitoriosa e retornou ao Grupo Especial, onde permanece até hoje, quase nove carnavais depois da ascensão.



LEIA MAIS:
- SINOPSE: São Clemente | "E o Samba Sambou..."
- #SérieEnredos: Carnavais de carnavais - Metalinguagem nos desfiles

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

5x Viradouro: Desfiles marcantes da alvirrubra niteroiense

Por Leonardo Antan



Uma novata com pose de veterana. Desde que deixou a festança de Nitéroi e cruzou a ponte rumo ao carnaval carioca, a Viradouro trouxe consigo uma bagagem que lhe deu corpo para conseguir feitos impressionantes e se fixar no imaginário carnavalesco. Apesar de frequentar o carnaval da capital há pouco mais de vinte e poucos anos, a vermelho e branco está presente nas rodas de conversa e nas antologias de grandes desfiles e sambas. Com uma torcida que rompeu as barreiras de sua cidade e se espalha pelo Brasil, a escola vive uma fase turbulenta, oscilando entre os grupos, mas mantém no inconsciente dos foliões o seu tamanho e a presença de sua comunidade valente, além da sede de bons resultados.

Para celebrar uma das grandes agremiações das últimas décadas, separamos cinco apresentações memoráveis do furacão alvirrubro que ajudam a sintetizar a sua história no carnaval da Sapucaí. Vem, pois o amor está no ar!


BRAVO, BRAVÍSSIMO - DERCY, O RETRATO DE UM POVO (1991)

A homenageada Dercy Gonçalves em destaque no desfile da Viradouro (Foto: Acervo OGlobo)

Embalada pela ascensão ao Grupo Especial, em 1991 a Viradouro investiu em uma homenagem à Dercy Gonçalves, com o enredo "Bravo, Bravíssimo! Dercy Gonçalves - o retrato de um povo", contando a história da atriz. Dercy se tornou reconhecida pela irreverência e pelo humor diferenciado e único, com o uso rotineiro dos palavrões como sua verdadeira assinatura. O desfile desenvolvido pelo carnavalesco Max Lopes, que já estava na escola desde o carnaval anterior, foi de muito bom gosto e tudo saiu como o planejado, salvo por um problema pequeno de evolução ocasionado pela chuva, e outros deslizes que não comprometeram tanto a apresentação da escola de Niterói. 

Fato é que a atriz, por si só, era um monumento: aos 83 anos, a Dercy, sempre jovem e dona de si, abaixou o decote do vestido e passou com os seios desnudos pela Sapucaí, acenando e mandando beijos ao público. E no peito aberto da homenageada veio o amor e a boa sorte: a Viradouro terminou em sétimo lugar, garantindo com muita folga e conforto a permanência que duraria muitos anos na elite carioca e assinando no livro de sua própria história uma página inesquecível.




TREVAS! LUZ! A EXPLOSÃO DO UNIVERSO (1997)

Os delírios de João 30 no único campeonato da escola de Niterói (Foto: Acervo OGlobo)

Investindo na chegada do maior nome da folia de então, a agremiação viu todos os holofotes se virarem para ela com a contratação de Joãosinho Trinta. O carnavalesco onírico e das formas gigantescas foi aos poucos moldando e adaptando a Virando para sonhar cada vez mais alto. Em 97, a escola estava em seu quarto carnaval assinado pelo artista, um ano após o fracasso de uma apresentação que prometia uma releitura de Aquarela do Brasil, com diversos falhas. Em outros aspectos, também, aquele foi um carnaval de superação para a alvinegra; João sofreu uma isquemia e perdeu o movimento de um lado do corpo. Entrando na avenida longe de ser protagonista, todo o público se surpreendeu com o imenso abre-alas negro que despontou. Era o "nada". 

Em meio ao momento de disputa artística entre Rosa e Renato, João deu uma tacada de mestre, reinventou-se e reconquistou o papel de destaque categórico com a estética daquele carnaval. A Viradouro fez uma apresentação de alto nível nos quesitos plásticos, aliado a um samba animado que prometia uma "explosão de alegria" na voz sempre marcante de Dominguinhos do Estácio. Na bateria, outro trunfo daquela apresentação: a paradinha funk de mestre Jorjão trouxe o ritmo que tomava conta dos bailes da cidade para Sapucaí. Foi impossível não se acabar. Com apresentação avassaladora, coroou-se quase uma ressurreição de um artista genial e o primeiro título da novata escola, apenas sete desfiles depois de chegar ao grupo principal.




PEDIU PRA PARÁ, PAROU! COM A VIRADOURO EU VOU PRO CÍRIO DE NAZARÉ (2004)

Mauro Quintaes foi responsável por assinar a reedição (Foto: Wigder Frota)

Mantendo-se sempre entre as primeiras posições, a Viradouro se fixou pouco a pouco no imaginário da festa como escola encorpada e sempre na busca de bons resultados. Em 2004, o cenário não era diferente, já que a vermelho e branco vinha de uma boa apresentação em homenagem à Bibi Ferreira. Os trabalhos estavam sob a batuta de Mauro Quintaes, um dos artistas mais relevantes e criativos da época, que assinou boas apresentações na Porto da Pedra e no Salgueiro nos anos anteriores. O pré-carnaval, no entanto, gerou um pequeno quiproquó. A escola começou os trabalhos com a promessa de um novo tributo para a maior festa da fé no país, o Círio de Nazaré, que seria embalado por um samba original. Porém, em meio ao receio sobre a preparação de uma nova obra e com a liberação da LIESA do uso das reedições de composições antigas, a diretoria da Viradouro voltou atrás e anunciou o uso de "Festa do Círio de Nazaré", famoso samba da Unidos do São Carlos de 1976. 

A Viradouro despontou na avenida com uma impactante abertura, apostando em vertentes cênicas. A comissão de frente assinada por Déborah Colcker investiu em uma coreografia arrojada e forte, seguida por uma procissão de foliões que remetia o Círio. Nas alegorias e alas, Mauro fez um dos grandes trabalhos de sua carreira, com carros bem desenhados e originais. A escola fez uma grande apresentação, e, por meio do bom uso do samba e da beleza plástica, foi coroada com um honroso quarto lugar na classificação geral.





A VIRADOURO VIRA O JOGO (2007)


Em 2007, a Viradouro trouxe os diversos jogos para a Sapucaí (Foto extraída de Flickr)

Repetindo uma história já conhecida, a Viradouro voltou a atrair as atenções quando contratou o carnavalesco mais badalado e em alta daquele momento. Depois de um período memorável de três desfiles na Unidos da Tijuca, que mudou o patamar da azul e amarela do Borel, Paulo Barros se tornou a grande revelação da folia carioca. Com a pressa de vôos mais altos para a escola e para o artista, a comunidade entrou na avenida apostando alto no enredo sobre os jogos. 

Barros prometeu um show de inovações, que começou com uma simpática comissão de frente, uma porta-bandeira com uma saia curta em forma de roleta de jogos com rajadas de fogo e um abre-alas apostando na já consagrada característica do carnavalesco: o uso de elementos humano. O grande coringa do desfile, entretanto, envolvia a bateria! Os ritmistas comandados por mestre Ciça cruzaram parte da avenida em cima de uma imensa alegoria que simbolizava o jogo de xadrez. Com um samba animado, cantado por Dominguinhos do Estácio, a Viradouro fez uma boa e divertida apresentação. Um desdobramento mais relevante que o sexto lugar conquistado, o refrão "esse jogo vai virar, eu quero ser o vencedor" permanece no imaginário momesco. 




SOU A TERRA DE ISMAEL. GUANABARAN VOU CRUZAR, PARA VOCÊ TIRO O CHAPÉU, RIO EU VIM TE ABRAÇAR (2014)


Com João Vitor Araújo, a Viradouro conquistou o título da Série A em 2014 (Foto: Jornal Extra)

Já caminhando para o quarto carnaval fora do Grupo Especial, em 2014 a Viradouro comandada pelo jovem carnavalesco João Vitor Araújo estava decidida a fazer um carnaval que a impulsionasse de volta ao rol das doze grandes. "Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar" foi o enredo que transitou entre a Cidade Sorriso e o Rio de Janeiro, levando ao público a história de Araribóia e as ligações com a cidade vizinha. Ainda que iniciante, o carnavalesco mostrou muito bem seu apuro estético e maturidade artística, indispensáveis para a conquista do título na quarta-feira de cinzas. Guanabaran marcou a volta da escola para 2015, ano em que novamente foi rebaixada por inúmeros problemas debaixo de um dilúvio. 



Retornando ao grupo especial e apostando na recontratação de Paulo Barros dez anos após a primeira passagem do artista pela agremiação, a Viradouro chega para o próximo ano com altas expectativas e promessas de alcançar grandes voos. Estruturada e com apoio de seus dirigentes e sua já conhecida comunidade leal e apaixonada, a escola vive uma boa fase e pretende resgatar o orgulho de uma campeã.

terça-feira, 31 de julho de 2018

SINOPSE: Grande Rio | "Quem nunca...? Que atire a primeira pedra"




"Quem nunca? Que atire a primeira pedra! "

Fala sério aqui com a gente, "de boas", "numa boa", francamente: quem nunca saiu dos trilhos, perdeu o prumo, deu detalhe, rodou a baiana, chutou o balde e o pau da barraca, armou um barraco ou mesmo deu uma virada de mesa? Um deslize, uma gafezinha qualquer ou uma falta de educação das grossas mesmo? Quem nunca? Eu, você, todo mundo, pelo menos uma vez, já esqueceu etiquetas, manuais e regulamentos e atravessou o samba na passarela dessa vida.

Que atire a primeira pedra quem nunca. Ou melhor, atirar pedra, não, porque aí já é falta de educação outra vez.

Tão humano quanto o ato bíblico de atirar a primeira pedra são os nossos maus hábitos que expressam impaciência, egoísmo, descuido, intolerância, "jeitinho". ou até falta de informação.

Furar fila, fingir estar dormindo pra não ceder o banco do ônibus pra idoso ou gestante, colar chiclete embaixo da mesa, lançar a guimba do cigarro na calçada ou aderir àquele pacote do "gatonet" chegam a ser "fichinha" perto de uma série de atitudes questionáveis. E aí cada um (do alto do seu telhado de vidro) lança aquela velha máxima: "faça o que eu digo, não faça o que eu faço".

O motivo do nosso enredo é educação, só que a gente resolveu falar dela pelo viés irreverente e crítico da FALTA de educação, de coisas que fazemos que comprometem o nosso dia-a-dia, a nossa convivência e o nosso futuro.

Quem nunca lançou a latinha de refrigerante pela janela do carro, avançou o sinal vermelho, dirigiu com aquela dose de cervejinha na ideia ou acima da velocidade permitida?

Do preguiçoso que entra na via sem ligar a seta e do apressadinho que pensa que buzina é almofada até a madame ou executivo de carrão que dá "conferência" pelo celular (e não "tá nem aí" que o sinal abriu), é deseducada a vida no trânsito, camarada! Haja direção defensiva!

Nas vias das redes sociais, meio capaz de unir as pessoas aos quatro cantos do mundo, quem nunca largou o pé do freio e destilou (ou sofreu) uma indireta, um "piti"? Quem nunca testemunhou, pelo menos, xingamentos e toda sorte de discriminação (racismo, homofobia, assédio, bullying) através de postagens de quem quer impor a própria opinião e se vale do mundo movediço dos perfis virtuais? E na corrida por likes, têm aqueles que reproduzem qualquer coisa que chame a atenção, nem se dando ao trabalho de ler e de checar a informação.

No país do carnaval, de mais de duzentos milhões de carnavalescos, quem nunca saiu detonando um enredo nas redes de "amigos" sem mesmo ler a sua sinopse ou aguardar o seu desenvolvimento na Avenida?

Ainda sobre o uso das novas tecnologias, quem nunca falou alto ao celular dentro do ônibus, do trem ou da van lotada? Cá entre nós, hein, ninguém merece saber que o passageiro ao lado saiu com a mulher do vizinho noite passada ou ter que acompanhar o vídeo do "sem noção" sem fone de ouvido, não é mesmo? E haja capacidade de armazenamento do celular pra suportar tantas "fofurices" e correntinhas diárias a nos desejarem bom dia, boa noite, boa semana, boa sexta, feliz sábado. Ufa! Esses novos "brinquedinhos" deviam vir com um manualzinho de ética, fala sério!

E quem nunca se livrou daquela inofensiva sacola de lixo no rio perto de casa? Aquela sacolinha plástica que você descarta e ela ainda leva anos e anos pra se decompor. De sacolinha em sacolinha os rios "enchem o saco"! E aí é sacolinha, sacolão, tampa de privada, sofá. enchentes, transbordarmentos, desabrigados, mortos. Uma avalanche de tristeza!

Mas nem tudo é desgraça já que nossas faltas também gostam de uma farra. Nas festividades e encontros populares (nos estádios de futebol, no réveillon, no carnaval.), "ninguém é de ninguém", e na praça, na praia, na rua o que é público também parece não ser; consciência toma sumiço e juízo de multidão não tem dono: malandro sarra na moça em condução lotada, chafarizes de mijões regam a cidade, falso torcedor sai de casa pra brigar, monumentos são destruídos, fachadas sofrem pichações que distorcem a beleza da cidade e comprometem a arte do povo grafiteiro.

A conta vem depois, quando a gente descobre que o que é público é nosso e é a gente que paga. Na pátria do carnaval e das chuteiras, o futebol nos traz imagens pertinentes: bola murcha, gol contra, impedimento. Ah, e um cartão vermelho para as faltas daqueles que se escondem na multidão.

Como se vê, no trânsito, nas redes virtuais, no meio ambiente, nos encontros das massas etc e tal, estamos meio mal.
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#SóQueNão.

Nossa conduta não é de todo ruim. Afinal, somos seres inteligentes, sempre capazes de aprender. A última parte do nosso enredo é uma ode às maravilhas que o Conhecimento é capaz de edificar, aos monumentos que são o respeito ao outro e aos códigos coletivos, à convivência harmoniosa de contrários, à ética, à preservação ambiental, à construção de novas realidades por meio do estudo, da leitura, da pesquisa e da inovação.

Albert Einstein, o grande físico, já dizia que "a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original." É assim que o tema da Educação nos inspira e se funde à ESCOLA de Samba G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio (com seu saber cultural, afetivo, informal e ancestral, de "tias", "tios", "pais" e "mães", professores nossos do dia-a-dia), deixando um rastro positivo à comunidade de Caxias e aos Pimpolhos da Grande Rio, futuro da arte do samba e da humanidade.

E quem nunca fez uma faxina profunda, animada por aquela batucada estridente que enlouquece a vizinhança? O final do nosso desfile reserva uma "limpeza" geral, "enxaguando" nossos maus hábitos, removendo metafórica e alegremente as "crostas" que nos impedem a uma evolução "nota 10". Afinal, entendemos que uma das grandes potências do carnaval é a possibilidade de aprendizado através da alegria, do movimento e do encontro dos corpos e da criatividade das mentes - sentido pedagógico este que congrega as diferenças e revitaliza o Ser.

O momento simbólico de aprendizado do nosso enredo não é, evidentemente, a imagem da "lavagem cerebral", que fomenta a solidão da ignorância, o desmazelo com o meio ambiente, o fundamentalismo de ideias ou qualquer tipo de polarização norteada pelas faltas de gentileza, empatia e compreensão, mas uma purificação que expande a consciência, dá-lhe Saber, lava a alma e eleva o Espírito.

(Antes de terminar, vale lembar: "educação" vem do latim "educare", que deriva de EX (que significa "fora"), junto a DUCERE ("guiar, instruir, conduzir"). Portanto, educar-se é conduzir-se para fora, sair do isolamento de si e dos próprios (maus) hábitos, ou, se quisermos, é superar os limites de nossa "caverna" escura, alegoria platônica).

Ainda temos jeito - aquele "jeitinho" que brasileiro adora e que também pode ser para o bem. Podemos aprimorar o indivíduo e as relações coletivas e ainda tentar deixar o Planeta da forma como o recebemos: maravilhoso, abundante, generoso e cuidadosamente pensado para nos "darmos bem" por aqui, sobre a Bola!

Refinar a mente, os hábitos e a vida para que sigamos em frente, com harmonia, na linguagem, na comunicação, no dia-a-dia é passo essencial para um final de Enredo feliz, alegre e pleno, aqui e no futuro, que pertencerá aos Bem Educados.

Proposição/Argumento: Renato Lage e Márcia Lage
Texto/Desenvolvimento: Izak Dahora

segunda-feira, 30 de julho de 2018

SINOPSE: Beija-Flor de Nilópolis | "Quem não viu, vai ver... As fábulas do Beija-Flor"



JUSTIFICATIVA

A proposta do Carnaval 2019 da Beija-Flor de Nilópolis é uma celebração aos seus 70 anos de história, resgatando a memória do Pavilhão através de uma releitura contemporânea e fabulosa dos enredos mais marcantes da Agremiação.

Quem Não Viu, Vai Ver, e quem viu, vai novamente poder se emocionar com As Fábulas do Beija-Flor, uma coletânea das aventuras conduzidas pelo voo do Beija-Flor, animal símbolo da Escola, e o narrador-personagem dos enredos.

O embasamento e a argumentação deste projeto carnavalesco perpassam pela definição do conceito de fábula, pela relevância histórica e pedagógica do escravo grego Esopo, e pela missão do Carnaval enquanto espetáculo e manifestação cultural.

As fábulas são narrativas de fatos, imaginários ou não; fabulações cujas personagens são animais (e ainda plantas e seres inanimados) que agem como seres humanos, apresentam características humanas, tais como a fala e os costumes, e têm
como objetivo promover reflexão e propiciar ensinamentos através da moral da história.

A inspiração na obra milenar de Esopo baseia-se em uma identificação imediata, pois do mesmo modo que os preceitos morais deixados como legado por este visionário permanecem atuais e atemporais, a Beija-Flor de Nilópolis sempre revelou-se uma Escola pioneira, à frente de seu tempo.

Da mesma forma que as narrativas de Esopo se tornaram famosas ao longo da História da humanidade, os carnavais da Beija-Flor inspiraram e incitaram importantes reflexões na nossa sociedade, ambos embebidos de arte em um universo de magia e fantasia; e tanto as fábulas quanto o Carnaval são elementos populares. Sendo que o Carnaval, enquanto a mais genuína expressão da nossa identidade, também apresenta, através dos desfiles das Escolas de Samba, temáticas fictícias que têm por finalidade disseminar informação, conhecimento, cultura e entretenimento, cantadas em verso e prosa – tal qual as fábulas – através do samba-enredo.

SINOPSE

Uma lágrima sentida caiu dos olhos da Vovó, lembrando imagens de crianças e do velho tempo que passou. Olhem o céu que maravilha! Retalhos de nuvens, bordados de estrelas... Iluminada pelo sol da meia-noite, a natureza vem mostrar sua beleza.

Pela porta da imaginação, galopando em cavalos alados, chegamos ao País das Maravilhas. Recebidos por soldadinhos de chumbo, entramos na floresta onde os animais falam e as plantas cantam; tudo neste mundo é encantado!

Com o despontar da primavera, tirem do passado a nobreza, e do futuro, a magia da surpresa! Criem a mais linda fantasia, delirem no universo fantástico deste canto de emoção!

Não chore não Vovó, não chore não! Veja quanta alegria dentro da recordação! Hoje, novamente sou livre, sou criança Beija-Flor; nessa bela fantasia, brindando à vitória do amor!

Pousarei nos luxuriantes Jardins das Delícias onde repousa o gigante em berço esplêndido. Celebrarei os donos da terra, sua cultura, suas lendas e seus rituais mágicos. Lavarei a alma e matarei a sede nas águas do rio mar, acompanhado de Caruanas e Amazonas à luz do luar. Ensinarei a dádiva da preservação das nossas riquezas, que estão abaixo e acima do solo; e revisitarei diversos cantos e recantos desse torrão
miscigenado. Ouvirei ainda poemas encantados de amor; renascendo nas águas de um paraíso hospitaleiro de onde se avista o sol primeiro. Me tornarei candango e calango na
capital da esperança e, traçando o destino ainda criança, me transfigurarei em brilho de fogo sob o sol do novo dia.

Iluminado feito um festival de prata, subirei ao Orum sagrado dos Nagôs, e descortinarei a reluzente constelação das estrelas negras para resgatar as nossas diversas Áfricas: a de lá e as de cá. Guiarei um cortejo de reis, rainhas e guerreiros negros,
aqueles que romperam grilhões e carregaram nos ombros, marcados pelas chibatas, a opulência do nosso país, mas que sempre ficaram esquecidos nas savanas da memória oficial. Então, lembrarei que o mundo deve o perdão aos filhos de ébano, àqueles que sangrando pela História, foram tratados como mercadoria pela cruel ganância da escravidão.

Recordarei a grandiosidade da nossa cultura, múltipla, diversificada. Sonharei com rei e acertarei no leão. Ouvirei novamente aquela inesquecível voz de cristal encantando corações; me emocionarei com a sensibilidade da Dama das Bromélias; reviverei um tempo que passou, uma lembrança que ficou, para encontrar, lá no Cachoeiro, o Rei ainda menino e; finalmente, quando o amor invadir as almas e a magia trouxer inspiração, triunfará uma canção para embalar os corações.

Porém, entristecido, constatarei que não somos o Brasil das maravilhas. Verei que os trabalhadores mais humildes continuam carregando o peso descomunal dos impostos, enquanto os “donos do poder” se esbaldam em farras bancadas com dinheiro público. Serei mais uma vez o porta-voz dos excluídos contra as mazelas que corroem as nossas riquezas, por que faz parte da minha missão.

Retirarei das imensas lixeiras desse país, restos de luxo, convocando o povo para um grande Bal Masqué. Fazendo, da própria angústia, um grito de desabafo: ratos e urubus, larguem nossas fantasias! Chega de ganhar tão pouco, chega de sufoco e de covardia! Parem com essa ganância, pois a tolerância pode se acabar um dia! Oh! Pátria amada, por onde andarás? Seus filhos já não aguentam mais! É bem verdade, Vovó, que de lá pra cá, tudo se transformou. Mas a vitória da folia ficou no encanto do meu povo, que brinca sambando quando samba a Beija-Flor!

segunda-feira, 16 de julho de 2018

5x Rosas de Ouro: desfiles que deixaram o Anhembi com água na boca

Por Alisson Valério 


A Sociedade Rosas de Ouro foi fundada na Brasilândia em 1971 e conquistou 7 títulos no Grupo Especial de São Paulo, sendo o último em 2010. A escola que tem lugar cativo na elite do carnaval paulistano desde 1975 desfilou vários enredos de diversos temas na sua história, mas no texto de hoje iremos falar sobre cinco momento em que a escola deixou o público do Anhembi com água na boca. O que todos esses desfiles têm em comum além de falar sobre comida? Todos renderam apresentações bem leves e divertidas, sem falar nos resultados pra lá de interessantes. 

Enfim, chega de conversa e bora falar desses desfiles deliciosos da Rosas de Ouro. Separa o seu lanchinho aí e vem comigo!


1997 - "São Paulo, capital mundial da gastronomia"
“Amor fique à vontade, Rosas de Ouro com prazer vai te servir…”


Com um enredo falando sobre a gastronomia encontrada em São Paulo, assinado pelos carnavalescos Carlão e Mona. A escola viajou pelo estado, achando nas ruas e restaurantes comidas do mundo inteiro. A abertura do desfile, com o Mestre Cuca servindo um banquete, dava uma ideia do que viria pela frente; dali em diante foi um passeio pela culinária mundial, terminando, é claro, no fast-food, forma muito comum de alimentação utilizada por muitos paulistanos na correria do dia-a-dia. O recheio do desfile foi formado por receitas, temperos e, claro, pelas culinárias francesa, portuguesa, italiana, japonesa, chinesa, entre outras encontradas na grande São Paulo. Com direito a um delicioso (rá!) e animado samba, a Roseira satisfez o público e conquistou o quarto lugar do carnaval daquele ano.


2002 - "O pão nosso de cada dia"
“Vem me dê a mão, que eu faço o pão, pra “massa" inteira alimentar...”


Raul Diniz escolheu contar a história do pão na avenida em 2002, quem sabe assim não mataria a fome de títulos que a escola estava vivendo. Sim, o pão. Aquele pãozinho que você come toda manhã, ou comia se entrou na vida fitness e cortou da sua vida. Enfim, por trás daquele pão tem muita história, que foi contada na avenida. Essa trajetória começou lá na pré-história, com os povos primitivos, os homens que caçavam animais, que acabaram descobrindo a agricultura e, por consequência, o trigo, surgindo assim a criação do pão. Passou também pelos egípcios que foram os primeiros a colocar o pão no forno e que trataram logo de passar a receita para os romanos, além da Revolução Francesa, não é mesmo dona Maria Antonieta? E é claro que passou pela parte religiosa, onde o pão tem um significado muito forte, tanto que tal mote abriu e fechou o cortejo. O público que cantou e pulou do início ao fim, embalado por um belo samba e uma performance sensacional de bateria e carro de som, que em certos momentos largava o microfone chamando a galera para cantar. A Rosas saboreou um pão delicioso em forma de desfile, já os jurados preferiram tirar o pão do forno antes da hora e a escola acabou ficando na terceira posição, aumentando assim sua fome de títulos por mais um longo ano. 


2003 - "No circuito das frutas - Tô de bem com a vida"
“Rumo ao circuito das frutas, cercado de verde por todos os lados...”


O carnavalesco Raul Diniz deixou claro que iria fazer esse enredo sem o compromisso de contar uma história. Ele iria levar a escola numa viagem para o interior de São Paulo rumo ao Circuito das Frutas (Atibaia, Indaiatuba, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, Morungaba, Valinhos e Vinhedo) para saborear todas as delícias que o lugar tem a oferecer. E por não ter o compromisso de contar uma história, ele buscava simplesmente um carnaval alegre, divertido e, claro, com muita beleza. Além das deliciosas frutas, o carnavalesco tentou mostrar a diversidade das matas paulistanas e a vida simples e pacata do interior, chegando ao alimento que era tema central apenas no terceiro setor da escola. A partir dali foi um passeio por todas as frutas produzidas na região, são elas: uva, caqui, figo, goiaba, morango, acerola, pêssego e outras mais. Sem falar nos saborosos derivados, não é mesmo? Foi de dar água na boca no público. A arquibancada deu um verdadeiro show, e essa grande sintonia com o público ajudou ainda mais a atingir o desejo do carnavalesco. O samba divertido da escola foi incorporado pela bateria, que brincou bastante durante o desfile, sem falar na harmonia da escola que deu aquele show rotineiro. O desejo do carnavalesco de um desfile leve, alegre, divertido foi alcançado com louvor, entretanto a colocação final foi a sexta posição.


2010 - "Cacau: um grão precioso que virou chocolate, e sem dúvida se transformou no melhor presente"
“Tá na boca do povo, o cacau é show, sou Rosas, Rosas de Ouro, meu sabor te conquistou!... ”


A fome de títulos da escola só aumentava, o último título conquistado lá em 1994 já parecia muito distante e o carnavalesco Jorge Freitas queria mudar essa realidade. Contar a história do cacau na avenida foi a decisão tomada para o carnaval de 2010. Um enredo que pode, de início, parecer fraco tem uma história muito rica por trás, que foi contada com louvor pela escola. O desfile contou toda a trajetória do cacau desde a América Central até a ida a Europa, como era considerado um fruto sagrado por maias e astecas, sendo usado por anos como moeda por esses povos. O final do desfile retratando a páscoa levava o pedido de renascer na avenida, trazendo a escola para a busca desse tão esperado e sonhado título. A Rosas de Ouro entrou na avenida com sangue nos olhos e deu novamente um verdadeiro show, tendo como destaques harmonia e bateria. A estética do desfile foi outro show à parte, bom gosto do início ao fim. E nem os imprevistos, como a comissão de frente chegando em cima da hora, derrubaram a escola que fez um desfile impecável e conquistou o tão sonhado título. Fim do jejum com um sabor delicioso de chocolate. 


2017 - Convivium. Sente-se à mesa e saboreie
“Vem saborear, vamos brindar um novo dia, a Roseira põe a mesa pra você, eu quero ver um banquete de alegria...”


Depois de um ano complicado em 2016, a Rosas de Ouro quis mudar a realidade do seu Carnaval em 2017. Com a chegada do carnavalesco André Machado, veio a escolha do enredo que faria uma viagem pelos banquetes mais importantes da história. Uma viagem que começaria lá no Egito e terminaria nos tempos atuais, deixando uma mensagem em forma de crítica social no final do desfile. O cortejo passou por vários momentos da história, dentre eles "O Banquete Egípcio - a celebração da vida", "Os banquetes na Idade Média", "O Olubajé - banquete do Rei", "Não há idade para um doce banquete" e "A ceia nossa de cada dia: pitada de amor". Esses foram os grandes jantares representados nos carros. Mas o desfile também teve espaço para uma crítica, antes do último carro do desfile, a ala “E o povo clama por comunhão” representada por mendigos, retratava a realidade dos dias de hoje em que muitos têm tanto e outros tão pouco para comer. O objetivo do carnavalesco era criar um momento especial, mostrar que esse momento de reunir a família, ir à mesa e saborear um belo banquete é mágico e traz lembranças inesquecíveis. E o desfile que aconteceu com o dia já claro no Anhembi foi exatamente isso, um belo momento para compartilhar entre os componentes da escola e o público. Um desfile leve, divertido e saboroso que trouxe a escola de volta ao desfile das campeãs (colocando-se em quinto lugar) depois de um ano em que a escola ficou próxima do rebaixamento. Mais uma prova de que quando a escola fala de comida, o final feliz é sempre garantido.


Bom, o papo tá ótimo, os desfiles melhores ainda, mas essa conversa toda sobre desfiles falando sobre comida acabou dando foi aquela fome, então se vocês me dão licença chegou a minha hora de sentar à mesa e saborear. E se você gostou desse texto fica ligado que a série continua no site durante mês inteiro. Afinal, aqui no Carnavalize tem carnaval o ano inteiro!


quinta-feira, 12 de julho de 2018

SINOPSE: Unidos da Tijuca | “Cada macaco no seu galho. Ó, meu pai, me dê o pão que eu não morro de fome”


“Cada macaco no seu galho. Ó, meu Pai, me dê o pão que eu não morro de fome!”
Através dos “olhos” do pavão, animal que traz a visão de Deus pela alma e elimina o mal com suas garras, a Unidos da Tijuca vai passar uma mensagem de esperança em dias melhores por meio da história e simbologia do pão. Assim como no pavilhão tijucano, o pavão guiará a escola a revelar a trajetória do alimento mais popular do planeta.
Em tempos de ódio gratuito, intolerância para todos os lados, e do politicamente correto, o enredo se utiliza de um ditado popular para sinalizar que, se cada um fizer a sua parte, o mundo há de ser mais justo. A agremiação frisa aqui que a expressão “cada macaco no seu galho” utilizada no tema nem de longe lembra o significado primitivo do termo, que era usado para discriminar a população negra. Dentro do contexto do desfile da Tijuca, o ditado assume o sentido irreverente característico dos cariocas. Ou seja, é “cada um no seu quadrado” em busca de uma sociedade melhor.
Essência de todas as escolas de samba, os negros foram (e são) o pilar desta festa. Portanto, seria contraditório denegrir quem fez e faz pelo maior espetáculo da Terra.
O título do enredo ainda traz uma frase de clamor pelo pão que alimenta, seja o corpo ou a alma. Desde a sua descoberta, ele vem curando as necessidades de muitos, fortalecendo a construção de sociedades. O pão é o fio condutor que nos levará até os dias atuais.
Afinal, de acordo com o historiador alemão Heinrich
Eduard Jacob, “nenhum outro produto, antes ou depois da
sua descoberta, dominou o mundo antigo, material e espiritualmente, como o pão foi capaz de fazer”.
Desenvolvimento
Através dos “olhos do Criador”, revejo o surgimento do alimento mais importante e sagrado do mundo. Na Mesopotâmia, um dos berços da civilização, o homem primitivo percebe que a simples exposição ao sol de um punhado de cereal, batizado como trigo, faz nascer uma massa intrigante. A “descoberta” dali para frente alimentaria a humanidade.
Foram os egípcios que, com inteligência e sagacidade, iniciaram o processo de fermentação dessa massa, dando origem ao Pão. Ele rapidamente ganhou traços simbólicos, seja como moeda de troca ou instrumento político.
Do pão, foi mantido um Império. Reis e rainhas caíram. Revoltas e revoluções surgiram.
O povo explorado, muitas vezes escravizado, sempre trabalhou pelo alimento de cada dia. O humilde proletário, que madruga atrás de condução, também está em busca de uma vida melhor. E é na fé que esse homem se sustenta. Fé encontrada no filho de Deus, que se fez carne entre os pecadores. O Cordeiro de Deus deixou-nos o exemplo da multiplicação e partilha do amor com os irmãos.
Assim como Jesus Cristo, outras santidades dão verdadeiras lições de que, se cada um fizer a sua parte, mesmo que pequena, fabricaremos, amassaremos a mistura, que ao crescer, salvará nosso mundo da fome de alimento, e de sentimentos.
Até porque vivemos em uma realidade tão cruel, em que muitos ainda não têm acesso ao básico para viver. Os abusos de poder massacram os desfavorecidos. Estamos
no forno, assando, sofrendo, queimando no descaso de quem deveria olhar pela prosperidade de todos.
Ah se todos fizessem a sua parte…
Se os ardilosos com seu egoísmo e ambição fossem extintos…
O ditado popular “Cada macaco no seu galho” nunca foi tão essencial como agora. Não no seu significado primitivo, que era usado para discriminar a população negra – povo que é a essência das nossas escolas de samba. Se cada um dentro do seu ofício fizer o melhor, teremos o nosso pão e não morreremos de fome.
É preciso colocarmos no coração verdadeiramente a mensagem do Pão da Vida para podermos viver nas glórias de um Paraíso Real.
Enquanto não desfrutamos desta abundância, sei que tudo poderá me faltar: água, pão… Mas nada tirará o meu ânimo de viver. Nada! Porque sei que nunca me faltará o teu amor, Pai. Amor que gerará filhos, nascidos sem dor. Filhos que crescerão como homens de bem, direitos. Direitos que serão ensinados para vivermos em um mundo melhor.
Ouço o teu clamor, por isso, cubro-te de amor e fé pois este é o verdadeiro alimento da sua alma.
Unidos pela arte e cultura popular
Coordenação geral: Laíla
Diretor de carnaval: Fernando Costa
Carnavalescos: Annik Salmon, Fran Sérgio, Hélcio
Paim e Marcus Paulo
Desenvolvimento: Annik Salmon, Fernando Costa, Fran Sérgio, Hélcio Paim, Igor Ricardo, Laíla, Marcus Paulo
Pesquisa e texto: Igor Ricardo
Agradecimento


Obrigado, meu Deus, obrigado por mais esse dia. Obrigado pela minha família, pela oportunidade de mais uma vez te encontrar de braços abertos para carregar em teu colo os meus desejos, as minhas dores, os meus desafios. Obrigado, meu Deus, por iluminar meu caminho, protegei minha casa, minha mulher, protegei meus filhos. Cubra-me de amor e fé porque esse é o verdadeiro alimento da minha alma. Iluminai a cabeça daqueles que vivem na escuridão, consolai aqueles que tanto precisam do teu amor. Proteja aquele que vai em busca do pão de cada dia, mas sobretudo cubra de graças aquele que se levanta para ir em busca de um emprego. Que o clarão do dia que está para chegar, traga o sol da tua bondade e aqueça o nosso coração. Sei, meu Deus, que pode me faltar a água, o pão, um teto, um abraço, mas sei que nada disso é tão importante que me tire o ânimo e a alegria de viver. Sei que nesta vida tudo poderá me faltar. O que nunca me faltará é o Teu Amor, Pai.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

5x Porto da Pedra: grandes carnavais do Tigre de São Gonçalo

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieIdentidade vai dominar o site em julho e no início de agosto, com textos novos às segundas e quintas.


Abrindo os trabalhos na #SérieIdentidade, atravessamos a Ponte Rio-Niterói rumo à São Gonçalo, município com mais de um milhão de habitantes que abriga grandes escolas de samba que surgiram no carnaval na década 1990. Inspirada da vizinha Viradouro, que deu adeus ao carnaval de Niterói querendo alçar voos maiores, a Porto da Pedra também cruzou a baía de Guanabara para brincar a folia carioca. Fundada, em 1978, como bloco de enredo, só virou escola de samba no início da década de 1980, disputando os campeonatos na cidade natal.

Após quase uma década inativa, foi em 1993 que a escola voltou à cena e decidiu rumar para outros carnavais. O primeiro desfile do tigre na capital do estado foi em 1994, quando se apresentou no antigo grupo de acesso 3. No ano seguinte, uma rixa entre diferentes entidades organizadoras  fez as escolas se dividirem em diferentes ligas, promovendo um rearranjo nas agremiações. Com a confusão, a vermelho e branco de São Gonçalo foi convidada a integrar o grupo de acesso 1. Organizada e estruturada, contratou o então estreante Mauro Quintaes, que vinha trabalhando como assistente do carnavalesco Max Lopes. Com o enredo "Campo, cidade em busca da felicidade" a escola foi a campeã numa bela apresentação, garantindo a estreia no grupo especial da folia em apenas dois anos de retomada e chegada ao carnaval do Sambodrómo.



"No reino da folia, cada louco com sua mania" (1997)

"Eu canto, eu pinto, eu bordo/ Sapucaí é a tela/ Porto da Pedra enlouquece a passarela"


Foto: Wigder Frota/Rádio Arquibancada

Não só permanecendo, mas fazendo um desfile arrebatador na sua estreia na folia principal, a Porto mostrou que ninguém era vermelho e branco impunemente - como brincou o comentarista Fernando Pamplona ao elogiar a apresentação da escola. Contando a história do carnaval pelo mundo, o Tigre se mostrou "endiablado" e garantiu um surpreendente nono lugar. Para o ano seguinte, as expectativas não podiam ser modestas.

Mauro Quintaes ia para seu terceiro carnaval em conjunto com a comunidade de São Gonçalo, imprimindo uma marca moderna e de traços arrojados para agremiação, com enredos leves e animados. E a narrativa sobre a loucura continuou dando à Porto essa personalidade jovial e alegre, que se tornaria característica. O samba-enredo acompanhava essa marca de empolgação e foi muito bem defendido pelo intérprete Wantuir, em início de carreira. "Doida pra ganhar o carnaval", a escola fez uma das melhores apresentações de sua história, marcando-se definitivamente como grande agremiação do carnaval fluminense. Num desfile leve e empolgante, soube aliar um belo trabalho plástico de Quintaes a uma comunidade comendo o chão da avenida. carregada de euforia. O resultado foi um honroso quinto lugar, que garantiu a volta nas campeãs, sendo a melhor posição da história da escola no grupo especial até hoje.


"Serra acima, rumo à Terra dos Coroados" (2002)

"Serra Acima/ Rumo a terra dos coroados/ Porto da Pedra vem exaltar/ E coroada hoje vai te coroar"




Após os ótimos carnavais de 1996 e 1997, o tigre de São Gonçalo oscilou entre os dois primeiros grupos em idas e vindas. Em 2001, a escola consagrou-se campeã e ascendeu novamente ao especial, desta vez comandada pelo jovem carnavalesco Cahê Rodrigues, que iniciava sua carreira. Em 2002, a escola homenageou Petrópolis com o enredo "Serra acima, rumo à terra dos coroados", um carnaval definitivo para a permanência da alvirrubra de forma consolidada na elite carioca dali em diante, onde permaneceu por dez anos. 

O desfile passou bem plasticamente e a condução do samba escrito por Evaldo Melodia, Ernesto do Cavaco e Beto Grande foi de ninguém mais que Preto Jóia, uma das maiores vozes do carnaval, que naquele ano retornou à Sapucaí depois de uma temporada em São Paulo. O enredo sobre a cidade imperial foi uma verdadeira aula de história, desde os caminhos da mineração, passando por Pedro II, Teresa Cristina e chegando até grandes nomes de sucesso do Brasil que tiveram afinidade com a cidade. A sorte sorriu para a comunidade de São Gonçalo e com apenas uma rebaixada naquele ano, a Porto da Pedra, enfim, buscaria um suado 11º lugar, mas que garantiu a permanência no grupo definitivamente. 


"Carnaval - Festa Profana" (2005)
"Eu vou tomar um porre de felicidade/ Vou sacudir, eu vou zoar/ Toda a cidade"


Foi em 2005, porém, que a Porto da Pedra fez a Sapucaí vibrar com um samba pra lá de empolgado e velho conhecido dos sambistas: Festa Profana, enredo de 1989 da União da Ilha, sua escola madrinha, que havia sido desenvolvido por Ney Ayan, naquele ano passaria então nas cores do tigre de São Gonçalo, sob o comando de Alexandre Louzada. O enredo era uma metalinguagem: a história do próprio carnaval era contada num passeio por outras festividades clássicas, passando pelas orgias do deus Baco, as comemorações no Egito à Deusa Íris, os bailes em Veneza e chegando até o carnaval de rua de outrora, com o famoso entrudo. 


Escola e arquibancadas tinham o samba na ponta da língua, de forma muito vibrante, sem espaço para o desânimo na noite daquela segunda-feira. As cores da escola estiveram bem presentes no cortejo, e alguns pontos do desenvolvimento do enredo se mostraram diferentes do desfile original, mas nada disso prejudicou a escola, que cruzou a linha final da Avenida com boas esperanças de um retorno no sábado das campeãs. A quarta-feira de cinzas trouxe o presente dos deuses momescos: um sétimo e confortável lugar foi o resultado final. Se a Ilha tinha motivos de sobra para guardar com carinho o inesquecível samba, a Porto da Pedra passou a compartilhar do mesmo sentimento.



"O sonho sempre vem pra quem sonhar..." (2011)

"No tablado consagrando a criação/ É a arte, vida em transformação/ Meu tigre chegou, aplausos no ar/ É Clara que me faz sonhar!"



Após patinar numa série de carnavais medianos, o Tigre voltou a mostrar que é uma escola grande quando deixou enredos históricos e mais densos de lado, apostando na leveza e jovialidade que são suas características mais marcantes. O enredo "O sonho sempre vem pra quem sonhar..." prestou uma homenagem à dramaturga Maria Clara Machado, grande nome do teatro infantil no Brasil e criadora do Tablado. 

Paulo Menezes ia para seu segundo carnaval na alvirrubra e repetia o tributo à escritora, tema que já havia realizado na União da Ilha em 2003, no grupo de Acesso. Embalado por um lindo samba, dos mais bonitos daquele ano, o intérprete Luizinho Andanças soube dar ainda mais beleza a obra melódica que fazia um bela passagem pelas principais obras da autora, sendo muito bem cantado pela escola na pista.

Desfilando no dia de seu aniversário, 8 de março, a escola apostou em um carnaval colorido e leve, como pedia o tema. Ficam marcadas no imaginário momesco imagens singelas do cortejo, como o belo "Pluft, o fantasminha" sobrevoando a bateria em um balão de lua. A escola resgatou o estilo jovial e animado, que não vinha a alguns carnavais. Elogiada, a apresentação chegou em oitavo lugar na apuração, melhor resultado da escola em cinco apresentações, mas que sem dúvida poderia render uma volta nas campeãs com folga. 


"Palhaço Carequinha, paixão e orgulho de São Gonçalo. Tá certo ou não tá?!" (2016)
"Paixão e orgulho... do meu lugar/ tá certo ou não tá? Vem com a gente brincar/ sou Porto da Pedra, sou pura emoção/ com essa trupe conquistei seu coração"



Após o indigesto rebaixamento de 2012, a Porto da Pedra demorou a se recuperar após o infeliz desfile patrocinado sobre o iogurte. Uma polêmica eterna do carnaval carioca. Com problemas de administração e trocas de carnavalesco, a escola batalhou para se apresentar em 2013, no Acesso. Apesar de uma boa apresentação no ano seguinte, com uma homenagem aos casais de mestre sala e porta-bandeira, a vermelho e branco fez um difícil carnaval sobre a energia no ano de 2015. A escola só conseguiu se restabelecer totalmente e voltar a brigar pelo acesso ao grupo principal em 2016, quando Jaime Cezário fez o primeiro de uma sequência de desfiles leves e muito bem relacionados com o público e com a própria comunidade de São Gonçalo, resgatando a personalidade da escola.

O enredo "Palhaço Carequinha, paixão e orgulho de São Gonçalo. Tá certo ou não tá?!" fez uma homenagem a um dos maiores palhaços brasileiros, famoso no picadeiro, na TV e nas rádios que alavancaram tantos de seus sucessos, relacionando ainda com o fato de ele ter sido ilustre morador de São Gonçalo, lugar onde viveu e morreu aos 90 anos. Muitos foram os bordões de sucesso, como "hoje tem marmelada? Tem, sim, senhor!" e as músicas que embalaram a infância da criançada, e a proposta era justamente fazer com que o público se reconhecesse na nostalgia do desfile. As referências musicais estavam representadas nas alegorias e a comissão de frente logo abriu o desfile com acrobatas, bailarinos e os palhaços que ficaram famosos no país, usando um picadeira inflável que gerou um belo efeito. A escola saiu da Avenida com o conforto de uma boa posição na parte de cima da tabela, certeza confirmada com um 5º lugar na classificação final, um marco de um novo momento que traria bons ares e outros ótimos carnavais nos anos seguintes.



Vivendo uma boa fase, a Porto da Pedra vem de uma trilogia de enredos que resgataram sua identidade leve e jovial, como a que a fez brilhar nos meados dos anos 90. A escola dá sequência ao feliz casamento com o carnavalesco Jaime Cezário e renderá tributo ao ator Antônio Pitanga para o ano que vem. Apesar de oscilar entre as posições e os grupos, nos seus mais de vinte anos desfilando em solo carioca, a Porto da Pedra se mostrou uma das grandes novas agremiações surgidas nas últimas décadas. Marcada pela leveza, a escola criou com seu Tigre um dos grandes símbolos da folia brasileira e que merece voltar a brilhar com seus carnavais, como vem fazendo.



*Texto dedicado a Rodrigo Cardoso, um dos membros iniciais do site e colaborador em diversas áreas, que escolheu a Porto da Pedra como escola do coração, mesmo morando no Rio Grande do Sul. 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

SINOPSE: Acadêmicos do Salgueiro | "Xangô"

XANGÔ
Abram alas ao Homem que nasce do poder e morre em nome do poder. Apodera-se do trono de seu irmão para se tornar o verdadeiro líder de uma nação.
Sàngó, Rei absoluto, forte, imbatível, Aláàfìn Òyó, o Homem do Palácio; o grande Obá, o grande Rei.
Batam cabeça pro orixá dos raios, trovões e do fogo. “Senhor do Raio” ou “Senhor das Almas”. Viril e atrevido, violento e justiceiro; implacável com os mentirosos, os ladrões e os malfeitores. Xangô é a representação máxima do poder de Olorum. O desafio é feito sempre para confirmar seu poder. O seu machado duplo, seu Oxé, é o símbolo da imparcialidade. É uma divindade da vida, representado pelo fogo ardente e por essa razão não tem afinidade com a morte e nem com os outros orixás que se ligam à morte.
Sàngó, Ioruba Orisà; Nzazi / Loango, Bantu Nkisi; Xangô, Ketu Orixá; Heviossô, Jeje Vodum; Chango / Jebioso, Santeria Cubana; Ogoun Shango , Vodou Haiti.
É a realeza nas vestes e a sua riqueza, a sua forma de gerir o poder. Usa o vermelho da nobreza e - se grandes reis pisavam sobre o tapete vermelho - Xangô pisa sobre o fogo.
Três esposas: Oya, que divide o domínio sobre o fogo. Oxum, a mais amada. E Oba, que por amor ao seu rei, foi capaz do seu próprio corpo mutilar.
Chega ao Brasil por seus devotados filhos. É cultuado como religião. No Nordeste, influenciado por Daomé, é denominado também de Xangô, em virtude da popularidade e importância da entidade nessa região. A raiz é do Sitio de Pai Adão. É o Xangô de Pernambuco, Xangô do Recife, Xangô do Nordeste e Nagô Egbá.
Sincretizado: das Pedreiras à São Jerônimo, que amansa o leão e que tem o poder da escrita e escreve na pedra suas leis e seus julgamentos. Na cachoeira, com São João Batista, por causa do batismo de Jesus, de lavar a cabeça na água doce para se purificar. Com o poder do fogo, queima, destruindo tudo o que é de ruim e ocorre a transmutação, trazendo tudo o que é de bom, todo o bem possível, de acordo com o nosso merecimento. Isso é o que pedimos nas fogueiras do mês de junho.
São Judas Tadeu, por ter um livro na mão ligado a trabalhos e pedidos de estudos. São Miguel Arcanjo é guerreiro, não das guerras sem propósito, mas, da guerra de cada um contra seu próprio “demônio”. Miguel desce dos céus com o vermelho em suas roupas, em sua árdua batalha contra o mal, quase sempre apontando de cima para baixo seu golpe. A autoridade máxima de São Pedro, a pedra. O primeiro papa, que tem as chaves da igreja e do céu.
Hoje os meus olhos estão brilhando, minha querida Bahia, terra abençoada pelos deuses. Felicidade também mora no Salgueiro. Naquela manhã de 1969, o saudoso professor, na escola tijucana, se incorporou pela primeira vez, ao se trajar como o orixá. E daí à eternidade, consagrado como o Xangô do Salgueiro.
Senhor do que é justo e correto, como o respeito à igualdade de todos. Se a justiça dos homens tem olhos vendados, onde "todos seriam iguais perante a lei". Os de Xangô estão sempre bem abertos. Apelamos ao supremo tribunal, com seus doze Obás- Ministros de Xangô do Axé Opó Afonjá. Todos serão julgados sem privilegios! Presidido pelo Grande Juiz, que bate o martelo e dá seu veredicto: Chega de impunidade! Seus filhos pedem justiça. Cumpra-se!
Xangô é nosso pai é nosso Rei ! Kawó Kabiesilé!!!
Alex de Souza

Cinco vezes que Garantido e Caprichoso sambaram na Sapucaí

Por Felipe de Souza e Leonardo Antan


No Rio, o samba fez escola e virou dos maiores espetáculos da terra. Mas bem longe das praias de água salgada e do litoral, uma outra manifestação cultural se tornou um dos maiores festejos do Brasil. Em Parintins, as tradicionais festas do "boi bumbá" ganharam aspectos espetaculares e protagonismo em meio ao cenário cultural do país. Em julho, quando os tambores do samba-enredo estão longe da avenida, o Brasil ouve ecoar as toadas dos bois Garantido e Caprichoso. A ligação de troca entre os dois espetáculos é histórica, foram os parintintins os responsáveis por difundir as esculturas articuladas e os movimentos surpreendentes nas alegorias. Até hoje, equipes da 'Ilha da Magia', como é conhecida Parintins, trabalham na festa em diversos barracões em Rio e São Paulo, dando vida às esculturas gigantescas. De cá, também saíram profissionais e artistas que brilham no Bumbodrómo.

Celebrando essa união, transformando passista em cunha poranga, relembramos as vezes que nossas escolas renderam homenagem aos bois. Confira:


Salgueiro 1998 - "Parintins, A Ilha do Boi-Bumbá: Garantido x Caprichoso, Caprichoso x Garantido"


O Salgueiro homenageou a 'Ilha da Magia' num desfile em 1998, exaltando o festival folclórico e toda sua mística, como as lendas indígenas e a rivalidade entre os bois vermelho e azul. Num samba bem animado, ao estilo da Academia no sucesso pós-Ita, a escola fez um desfile assinado por Mário Borriello, com alegorias grandiosas e articuladas, bebendo nas características da festa folclórica do Norte. Com um grande contingente, o Salgueiro fez uma contagiante apresentação, comandado pelo intérprete Quinho e pela Bateria Furiosa, comandada por mestre Louro.



Portela 2002 - "Amazonas, esse desconhecido! Delírios e verdades do Eldorado Verde"

A águia teve desenvolvimento de artistas parintinenses (foto extraída de Ouro de Tolo)
O universo místico da maior floresta do mundo voltou a embalar uma agremiação carioca em 2002, quando a Portela prestou homenagem ao estado do Amazonas, num cortejo assinado por Alexandre Louzada. A águia, símbolo da azul e branco, foi elaborada por artistas do festival e contou com movimentos impressionantes. A escola contou todas as riquezas e a história do estado mais verde do país. Ao final do desfile, a escola trouxe para a Marquês os bois Garantido e Caprichoso, numa belíssima e importante troca cultural.


Salgueiro 2009 - "Tambor"

Salgueiro homenageou os tambores amazônidas em seu carnaval campeão (Foto: Ricardo Almeida)
Ao contar a mística e o complexo cultural que envolvem os instrumentos percussivos, o Salgueiro não esqueceu dos nossos maiores eventos artístico-culturais. Além de passear por diversos festejos folclóricos, o carnaval assinado por Renato e Márcia Lage contou com uma bela alegoria representando o Festival de Parintins. Dividido em duas cenas, o carro tinha a frente e as costas idênticas cenograficamente mudando apenas as cores típicas dos dois bumbás, com um grande palco onde os bois branco e negro se apresentavam.


Grande Rio 2012 - "Eu acredito em você! E você?"

David Assayag, uma das grandes figuras do Festival 
Ao cantar a superação em suas diversas formas no ano de 2012, a Grande Rio rendeu tributo a diversas personalidades da história brasileira. Um desses homenageados foi David Assayag, importante levantador de toadas do Festival, que é deficiente visual. O cantor começou sua trajetória no Boi Garantido, cantando por mais de dez anos na instituição. Em 2010, mudou-se para o Caprichoso, num troca cercada de polêmica. No desfile da caçulinha da Baixada, David veio de destaque num tripé que trazia os dois bois, numa bela homenagem ao show do folclore nacional.


Unidos de Padre Miguel 2018 - “O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Parintintin”


A UPM conquistou o vice-campeonato da Série A em 2018 (Foto: Fernando Grilli/RioTur)
No último carnaval, a Unidos de Padre Miguel, capitaneada por João Vitor Araújo, trouxe para a Avenida uma narrativa folclórica inspirada na obra de Milton Hatoum, "Órfãos do Eldorado". Trazendo muito luxo num cortejo digno de campeonato, a escola contou o mergulho nas águas amazônidas, que daria no Eldorado Submerso, Parintins. Na plástica, além de grandes esculturas repletas de efeitos e movimentos, a última alegoria da escola trouxe os dois bois para o samba. 


Além desses desfiles, os dois bois já brilharam também no Anhembi, cabe menção a algumas aparições do Festival de Parintins em São Paulo, como em X-9 Paulistana 1997 ("Amazônia, a Dama do Universo"), Império de Casa Verde 2006 ("Do Boi Místico ao Boi Real - De Garcia D´Ávila na Bahia ao Nelore - O Boi que come capim - A Saga pecuária no Brasil para o Mundo"), Rosas de Ouro 2013 ("Os condutores da alegria numa fantástica viagem aos Reinos da Folia"). No Rio, recentemente, a Mocidade Independente de Padre Miguel em 2018 também teve um momento em menção ao festival, em "Namastê: a Estrela que habita em mim, saúda a que existe em você"..

O Festival de Parintins 2018 acontece nas noites de 29 e 30 de junho e 1º de julho. A festa folclórica tem transmissão da TV Cultura. Não deixe de celebrar e prestigiar a cultura brasileira!