sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Carnavanálise: Que enredo é esse? - Escolas de domingo do Grupo Especial do Rio de Janeiro 2019





Vocês acham que nossa análise de enredos pra lá de sério tinha enrolado a bandeira? Nada disso! A gente tarda mais não falha! Estamos pra lá de atrasados, mas como o pré-carnaval anda desanimado, vamos dar um sacode num geralzão sobre o que as 14 - valeu, virada de mesa #sqn - escolas vão apresentar nesse ano que se desenha. E já adiantamos que vai ter de tudo! De crítica social a auto-homenagem, passando por reedição e adaptação de samba, uma loucura. Apertem os cintos e se segurem no "Santo Antônio" (aquele negócio de segurar destaque), que a alegoria vai fazer a curva e a nossa comissão já está se apresentando no primeiro módulo.


DOMINGO:

O que é?
Numa aposta pra lá de ousada(?) que deixou o mundo do samba "o que é o que é" que eles tão pensando, o Império Serrano foi rápido ao anunciar seu enredo (e samba) para o carnaval 2019. Pouco mais de um mês após saber que desfilaria novamente no Grupo Especial, a escola de Madureira apertou o gatilho na direção da MPB e declarou que vai cantar e contar a história de um dos maiores sucessos de Gonzaguinha: "O que é, o que é?". Ousadia e alegria tour.

Buscando passar por todos os espectros que a vida possui, a setorização proposta pelo carnavalesco começa pela ciência, passa pela religião, pelo homem, pela lado controverso da vida, pelo lado lúdico e, por fim, no que ainda se espera da vida, terminando no grande sonho do Império em voltar a ser campeão. No final do desfile, lágrimas são esperadas ao passar uma homenagem à grande joia rara do samba, Dona Ivone Lara, que nos deixou em abril desse ano e foi - e continuará sendo - uma das mais importantes figuras da história imperiana.



O que esperamos?
Lutando para não cair, quando pensamos no último desfile da agremiação, isto é, se tiver rebaixamento em 2019, a escola vem com novo carnavalesco. Paulo Menezes, depois de 12 anos está de volta ao Império Serrano. Uma escola bem vestida com fáceis e objetivas leituras nós podemos esperar, já que uma das principais armas da escola com esse enredo é o diálogo com o público. Paulo é conhecido por seu bom gosto nos figurinos e terá trabalho dobrado ao tentar aproveitar o máximo do último carnaval e gastar o mínimo pra colocar sua escola na rua.

De 1 a 3 Gonzaguinhas mostrando o que ele espera do Império em 2019:


O que é?
Sou Viradouro e vou cantar... Abrindo um novo filão de "remakes", depois dos truques das alegorias e das receitas de bolos, Paulo Barros repete agora trocadilho de nome de enredo com a escola. VIRAVIRADOURO! Mas então... sobre o que é o enredo? Alguém nos explica que a gente ainda não entendeu, não, viu!? Só misturar umas magias aleatórias, uma vovó misteriosa, personagens de filmes, Michael Jackson, parques de diversão e uma pitada de Mocidade 2015 encantada... e voilà! Pra quem perdeu o fio da meada (tipo todo mundo), o enredo propõe uma viagem literária por um livro encantado e sombrio, a escola de Niterói vai buscar viver e "divertir quem gosta de histórias, brincar com a memória e se transformar senão pela vida toda, então por uma noite de carnaval".



O que esperamos?
Alegorias girando, subindo e descendo, alas  coreografadas, tudo bem Paulo Barros. O que pode se esperar do carnavalesco de "Segredo" a gente nunca se sabe, 2019 pode trazer uma reinvenção dele como artista ou a continuação de Paulo em sua zona de conforto que vimos nos últimos carnavais. 


De 1 a 3 bolos alegóricos o quanto esse desfile pode ter pitadas de "déjà vu":












O que é?
Sabe aquelx amigx que só abre a boca pra dar close errado? Então... tentando surfar na onda crítica que se estabeleceu no último carnaval, a agremiação de Caxias propõe um enredo que busca satirizar não só o papelão protagonizado pela escola nos desdobramentos do carnaval 2018, mas como todos e quaisquer desvios de conduta que eles, eu, você e nós podemos ter cometido e cometer.  A narrativa tenta ainda dar um final positivo, propondo uma saída pela educação para os jeitinhos brasileiros, parafraseando a sinopse do enredo que contraria a própria escola em seu passado recente que critica a máxima "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", mas também esquece de dar o exemplo.



O que esperamos?
Partindo para uma pegada mais social, o enredo que a tricolor escolheu não é problemático apenas pelo seu lado social... Quem nunca empurrou uma velhinha? É... Mas também em como materializar um pena que pode ser de difícil execução... Com o lado plástico e temático comandados pelos gabaritados Renato e Márcia Lage pelo segundo ano consecutivo, é o onde os caxienses podem respirar um pouco aliviado e renovar suas esperanças sobre o que esperar em 2019.


De 1 a 3 Lages sorridentes, o quanto a Grande Rio será cara de pau nesse desfile: 


O que é?
Sério que o Salgueiro vai falar de justiça logo num ano como esse? Academia do Samba, negritude e macumba quase respondem pela mesma coisa, e não tem outro tema que o povo da vermelho e branco da Tijuca goste de desfilar mais do que esse. Depois de ser o enredo do Salgueiro em todos o pré-carnavais possíveis, a escola vai enfim falar de seu padroeiro espiritual: Xangô! Batendo cabeça para o rei de Oió, a escola vem saudando seu santo, mais vermelho (com muito branco) do que nunca e promete colocar pra incorporar até os eleitores do prefeito que estejam nos arredores da Sapucaí. 



O que esperamos?
Luxo, opulência, muito vermelho (e branco), mas muiiiiiiito vermelho mesmo... um pouquinho de dourado, muitos machados, outro pouquinho de dourado... Fugindo do esperado e materializando o antigo sonho de homenageá-lo da escola, Alex de Souza soube unir bem, embora o enredo não possua mistérios, uma leitura fácil mas sem cair num arroz com feijão sem graça, passeando não só pela mitologia iorubá mas pela cultura brasileira e prestando uma homenagem a própria vermelho e branco. É só não esquecer de firmar bem o ponto e pagar a iluminação que o Salgueiro vem para as cabeças mais uma vez.


De 1 a 4 enredos de curimba, o quanto a cota de macumba do ano está garantida:





O que é?
Tem escola se auto homenageando... Não, calma! Não é uma samba da Portela que foge do enredo. Dando uma de Majestade do Samba, a Deusa da Passarela resolveu colocar um espelho em sua frente e relembrar a importância de sua própria história. Apesar de ser a atual campeã, o quesito "Enredo" não foi assim o ponto alto do desfile vencedor... É, bem, melhor não entrar nesse detalhe... A escola promete uma sequência não cronológica de seus carnavais, dividindo suas trajetórias em blocos temáticos.



O que esperamos?
O enredo promete um certo tom de fábula, que pode facilitar o desenvolvimento e os links entre os desfiles. É, o que pode ser mais fácil que um enredo sobre si mesma para uma escola com uma história tão rica... Se até mesmo com um conjunto temático pra lá de duvidoso a escola levou o caneco, não podemos duvidar do poder nilopolitano e para o quê a escola vem em 2019. Isso é Beija-flor, amado, atura ou surta!



De 1 a 3 grandes desfiles da azul e branco de Nilópolis, o quanto a Beija-Flor precisa apresentar um enredo depois de passar sem o quesito em 2018:


O que é?
Sabe quando a gente tinha de fazer uma pesquisa pra escola, esquece e faz aquela resumão do Google? A sinopse vem nesse estilo... Dinheiro! É só a gente dividir em setores e ser feliz... Quer dizer, começa no tempo mais remoto e o amanhã? Como será? Vem, Ilha! Pronto, resolvido... De atrativo, nesse primeiro momento, apenas a pegada crítica e irreverente pouco comum nas bandas de Ramos... Da última vez que a tia Imperatriz resolveu fazer a linha engraçadinha, o resultado foi mais desastroso que piada de pavê em festa de família ou ter que voltar pro grupo da família depois das eleições (olá carnaval de 1988)... Esperamos agora que o destino da monarca seja melhor com esse viés crítico.


O que esperamos?
zzzZZzZzZZzZ... Brincadeira à parte que ronda o mundo do carnaval sobre os "frios" desfiles da Imperatriz, espera-se uma nova (nem tanto assim) cara, ao menos, pro povo de Ramos. Com gente nova no comando artístico, os cenógrafos Kaká e Mário Monteiro, que trabalharam com Cahê em 2013 na própria Imperatriz, serão os carnavalescos da agremiação e já prometeram usar e abusar da cenografia pra dar uma nova roupagem à escola. Jogo de luzes nas alegorias, fantasias mais interativas e extenso uso cenográfico provavelmente darão o tom do desfile do povo de Ramos.


De 1 a 3 Cahês a Imperatriz o quanto a Imperatriz voltará nas Campeãs:



O que é?
Se jamais podemos julgar um livro pela capa, com um enredo de escola de samba já não é bem assim. Macaco? Pão? Tijuca? Foi só o Laíla chegar mesmo que a cara da escola já mudou. Um bom enredo geralmente começa por seu título, ou isso que a gente espera! Se o título é confuso, o enredo tende a ser ainda mais. Joga uma linha histórica, um pouquinho de fermento, uma linha crítica e deixa crescer... isso tudo ao som de Aline Barros e um quê gospel também! Inovação teu nome é Tijuca! Atirando para todos os lados, digamos... Com uma linha de desenvolvimento, vamos dizer assim, mais abrangente... a azul e ouro do Borel troca seus enredos de narrativas simples comum nos últimos anos por algo que aparenta ter mais densidade... Fazendo a engajada para ficar bonita na foto, quem nunca, né, quiridos?



O que esperamos?
Veremos uma nova Tijuca com cara de uma atinga Beija-Flor? Será que as alegorias recicladas do ano passado, com direito a papel crepom e barbante, vão ficar de fora? Muitas perguntas, nenhuma resposta por enquanto. Mas a gente confia nas guias e orixás do mestre Laíla e na comunidade tijuca? Amém! 

De 1 a 3 padeiros aleatórios o quanto a Tijuca vai vir com fome de vencer:

                        

                        



E é com o pão quetinho da Tijuca, louvando Xangô e perguntando afinal "o que será?, o que será?" do carnaval de 2019, que a gente ficar por aqui, por enquanto, apostando e muito provavelmente enredo nossas grandes palpitações carnavalescas. Ainda essa semana, voltamos com a análise dos enredos das agremiações de segunda. Fiquem com Rosa e os orixás! Amém!


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

QUASE UMA REPÓRTER: Igor Sorriso e o retorno a São Paulo em seu auge



Por Juliana Yamamoto | Foto de capa: Walber Silva
Olá, seguidores do Carnavalize. Tudo bem?

Olha quem está de volta após um, digamos, bom tempo sumida, hein? A quase-repórter retoma o seu quadro trazendo um dos maiores intérpretes da atualidade, Igor Sorriso!

Fazendo uma visita na quadra da Mocidade Alegre, uma das principais escolas de samba de São Paulo, fomos recebidos por Fernando Estima, que faz parte do departamento de comunicação. Agradeço por toda assessoria pela atenção e simpatia conosco na visita à Morada do Samba! 

A entrevista com o Igor Sorriso foi uma das mais gratificantes que pude fazer. Conhecer um pouco mais sobre a sua relação com a Mocidade Alegre, que não é de agora, foi especial. Igor, iniciou sua parceria com a escola do bairro do Limão nas eliminatórias para o carnaval de 2011, onde defendeu o samba-concorrente vencedor. A partir dali, a linda história começou a surgir. Após ter estreado em São Paulo como intérprete oficial em 2013, pelo Acadêmicos do Tucuruvi, onde fez um excelente trabalho, o destino queria que ele voltasse a Morada, agora como intérprete, ficando até o ano de 2016. 

Mesmo dois anos fora, Igor Sorriso ainda estava presente na Mocidade durante as eliminatórias de samba-enredo. Entretanto, parecia que a vida de Igor Sorriso estava traçada a vermelha, verde e branco. Após o carnaval de 2018, Igor, que estava na Vila Isabel, desligou-se da agremiação e voltou para a sua Morada, agora, de maneira exclusiva. Querido e admirado por muitos torcedores, Igor é a essência da Mocidade Alegre. Representa a síntese da escola, e através da entrevista que vocês escutarão, irão entender um pouco o grande amor e carinho que ele tem por essa escola de samba. 


Agradeço também ao Bruno Malta, torcedor da escola e grande fã do Igor Sorriso por ter participado da entrevista, tendo-a tornado ainda melhor! 

Igor Sorriso, nós do Carnavalize, desejamos muito sucesso e muitos anos na Morada do Samba! O carnaval de São Paulo agradece por ter um dos maiores intérpretes da atualidade conosco! 

Aí sim, meus pretinhos!

OUÇA A ENTREVISTA COMPLETA ABAIXO:

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

#SérieSambas: 8 grandes intérpretes do carnaval brasileiro

A #SérieSambas vai trazer todo o universo do gênero que comanda a nossa festa, desde os grandes clássicos, passando por seus compositores e intérpretes. Sempre às segundas e quintas-feiras de outubro. Fiquem ligados!


Por Redação Carnavalize


Sambas antológicos não se fazem sozinhos. Para eles explodirem na Avenida são necessárias grandes vozes para entoá-los. Por trás de grandes clássicos do repertório do gênero samba-enredo, estão verdadeiros intérpretes que fizeram história com seus diferentes timbres e personalidades. Alguns acabaram ficando relegados apenas no nicho, outro se tornaram famosos e compositores de canções de outros gêneros. Mesmo sem receber o devido valor, eles são verdadeiros monstros da nossa música. Por isso, separamos oito grandes cantores que balançaram a Sapucaí e o Anhembi, pegue o microfone e prepare o grito de guerra.

Quinho


Ao falar em Melquisedeque, pode até ser que surjam olhares estranhos e que poucos realmente saibam de quem se trata. Mas ao gritar “arrepiiiiiiiia” ou ainda “pimba! Pimba!”, é impossível não saber que se trata de Quinho, uma das mais marcantes vozes do carnaval e dono de um dos mais populares gritos de guerra. A história dessa carismática figura começou no bloco carnavalesco Boi da Freguesia, mas foi o imortal Aroldo Melodia o responsável por sua grande estreia dentre as renomadas escolas do carnaval carioca, na União da Ilha do Governador. A voz grave e rouca marcou a vida de diversas gerações de foliões e ganhou fama em todo o Brasil, sendo Quinho detentor de um dos mais famosos alusivos do carnaval. 

Foi no Salgueiro, porém, somando ao todo 20 carnavais, dentre os quais 12 foram ininterruptos, que Quinho fez história e emprestou sua voz a momentos memoráveis da Academia do Samba e da própria Sapucaí, como a homenagem aos 50 anos da alvirrubra, o sétimo – e questionado – lugar de Candaces, o campeonato de 2009, com Tambor, e, por fim, Gaia, um dos desfiles mais marcantes dos últimos anos da escola. Depois de um desentendimento com a diretoria da escola, Quinho rumou para São Paulo, onde defendeu a Unidos do Peruche em 2015 e 2016. No Rio de Janeiro, desde o último carnaval retornou à Sapucaí para defender a Acadêmicos de Santa Cruz.


Eliana de Lima


Eliana de Lima é figura de respeito no mundo do samba. Famosa não só por seus grandes sucessos no pagode romântico como "Desejo de Amar", mas por ser uma das primeiras e mais marcantes vozes femininas à frente de um carro de som de escola de samba. Sua trajetória enquanto intérprete de samba-enredo começou na Cabeções da Vila Prudente, em 1979, quando soltou o vozerão na quadra da escola e passou a integrar o time das pastoras da agremiação. 

Em 1980, pela Príncipe Negro, fez a sua estreia e de lá deslanchou por escolas como a Mocidade Alegre, Unidos do Peruche, Rosas de Ouro e Barroca Zona Sul. Pela Leandro de Itaquera, gravou seu timbre na história: interpretou Babalotim, um dos mais belos sambas do carnaval da terra da garoa e do Brasil, considerado antológico. Ao lado de outras mulheres, como a amiga Bernadete, brilhou e quebrou estereótipos, além de ter tido a honra de cantar ao lado de Jamelão, considerado o maior intérprete de todos os tempos. Hoje, Eliana, a Rainha do Pagode, segue cantando e sendo relembrada pela sua trajetória de muito sucesso apesar de não empunhar o microfone de nenhuma escola há bastante tempo.

Aroldo Melodia



Grandes intérpretes não só marcam sua passagem por alguma agremiação, como podem estar inteiramente ligados à identidade delas. É o caso Aroldo Forde, que por mais de vinte vezes emprestou sua voz para os sambas-enredos da União da Ilha. Se a tricolor ficou famoso pelo estilo leve e simpático no imaginário carnavalesco, muito desse apelo se deve às atuações sempre divertidas e carismáticas do intérprete. O cantor está intimamente ligado a história da agremiação, chegando por lá apenas cinco anos depois de sua fundação, em 1958. 

Na tricolor insulana, permaneceu interruptamente até 1983, entoando clássicos do repertório da agremiação como “O amanhã” e “É hoje!”. Em 1984, surpreendeu ao sair da sua escola de origem e seguir rumo à Padre Miguel, onde também substituiu um cantor muito ligado a sua agremiação, Ney Vianna. A parceria não rendeu para ambas as partes e Aroldo seguiu para a Santa Cruz por dois anos, antes de voltar pra a Ilha. Entre idas e vindas na agremiação, passou ainda por Unidos da Ponte e Caprichosos de Pilares. Encerrou a carreira em 1996, quando sofreu um derrame cerebral que o obrigou a andar em cadeira de rodas, mas deixou de herança seu filho Ito, que tal como o pai marcou a história insulana e segue sendo o cantor da União por mais de uma década. 

Thobias da Vai-Vai



Edimar Tobias da Silva antes de entrar no mundo do samba trabalhava como entregador de contas da Sabesp, até que começou a frequentar rodas de samba e acabou vencendo um concurso de intérprete da empresa, despertando o interesse dos Gaviões da Fiel, na época ainda bloco. Assim, ele começou assim a escrever a sua história no carnaval em 1983. A passagem pelos Gaviões acabou sendo rápida, devido seu sucesso que acabou chamando a atenção do Vai-Vai, que não perdeu tempo e já em 1986 o colocou como dono do seu microfone principal. 

Sua carreira foi marcada pela passagem longa no Vai-Vai, tanto que quando se fala de um se lembra do outro naturalmente. Foram quatorze carnavais, com oito títulos conquistados, sendo a voz principal do Bixiga. Sempre foi conhecido pela sua tranquilidade, seu profissionalismo, pelo sorriso fácil e pela sua voz potente que ecoava pelo sambódromo do Anhembi. Thobias, além de intérprete, foi eleito presidente do Vai-Vai em 2006, permanecendo no cargo por quatro anos, sendo ainda presidente de honra e foi vice-presidente da escola até o ano de 2018. Falar da história de Thobias como interprete do Vai-Vai e ouvir o seu inesquecível “alô nação alvinegra” não é apenas relembrar da era de ouro da escola da Saracura, mas também de uma das vozes mais marcantes da história do carnaval. 


Dominguinhos do Estácio 


"Olha o Dominguinhos chegando..." Cria do morro do São Carlos, Domingos da Costa Ferreira ganhou alcunha relativa ao seu bairro de origem antes da escola do lugar ser conhecida por Estácio de Sá, mas sim Unidos de São Carlos. Foi na escola do bairro que Dominguinhos se tornou primeiro compositor e depois assumiu os vocais, entoando na avenida clássicos como “Arte Negra na lendária Bahia” e “Festa do Círio de Nazaré”.

Teve uma rápida passagem pela Santa Cruz em 1977 e logo depois desembarcou em Ramos. Na Imperatriz Leopoldinense, assinou junto com Darcy do Nascimento a emblemática canção do enredo “O que é que a Bahia tem?”, que sagrou a escola campeã, ficando na escola por mais dois anos e faturando mais um título no ano seguinte. O cantor nunca teve duradouros cansamentos com uma escola em especial, pelo contrário, foi um nome de muitos amores, emprestando sua voz e talento a grandes agremiações. Não a toa, Dominguinhos é o único intérprete campeão em três escolas distintas, deixando sua marca na história de cada uma delas.

Na verde e branco de Ramos, ele voltaria em 1989 e se sagraria campeão com o clássico “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós”. Nos anos 90, voltou a sua escola de origem e embalou a histórica vitória da vermelho e branco com “Pauliceia Desvairada - 70 anos de modernismo”, e anos depois cruzou a ponte rumo a Niterói. Na Viradouro, permaneceu por mais de uma década e entoou o campeonato de 1997. Dominguinhos teve ainda carreira como cantor de samba e pagode, lançando mais de nove álbuns de sua carreira. Atualmente, segue afastado da Avenida após voltar a Estácio e Viradouro nos últimos anos.

Royce do Cavaco


Royce Todoverto começou a sua carreira no carnaval como intérprete em 1982 no Águia de Ouro, mas a sua história no carnaval paulistano começou bem mais cedo: quando jovem, ele costumava tocar o seu cavaco nas rodas de samba nos jogos de várzea com a companhia dos seus irmãos. Nos jogos, acabou conhecendo muitos sambistas e assim começou a frequentar algumas escolas de samba, dentre elas a Rosas de Ouro, onde mais tarde integrara a ala de compositores. Royce é muito respeitado por onde passa e por toda a comunidade do samba por seu estilo simples de ser e de cantar, sem fazer firulas, os famosos cacos. 

Sua passagem mais marcante foi exatamente no Rosas de Ouro, sua atual escola. Até o momento são 14 carnavais defendendo a escola da Freguesia do Ó, com 5 títulos conquistados, além de várias performances memoráveis do cantor. Ouvir o 'Sabiá da Roseira' puxar o seu grito de guerra é ter a certeza de que ali se iniciará mais uma belíssima performance de um dos grandes intérpretes da história do carnaval do Brasil. "Alô nação azul e rosa! Canta, canta, canta Roseira..."

Neguinho da Beija-Flor 


"Olha a Beija-Flor aí, gente!..." O mais emblemático grito de guerra da Sapucaí surgiu espontaneamente, de uma adaptação de uma música chamada "Olha o camburão", de composição própria. O cantor teve seu primeiro contato com a música aos 10 anos de idade, ao vencer um concurso de cantores mirins cantando uma música de Jamelão. Aos 26 anos, em 1976, o Neguinho da Vala virou da Beija-Flor ao compor o clássico Sonhar com o rei dá leão. Desde então, empresta seu talento à agremiação, de forma voluntária, sem receber salário, como gostar de frisar.

Essa relação profunda entre Neguinho e a agremiação não é só sinônimo de resistência e enaltecimento de identidade nas escolas corporativas de samba. A própria voz da Beija-Flor é a voz rouca de Neguinho, e vice-versa. O cantor e a instituição se confundem tamanha entrega e profundidade do vínculo, que dura mais de quarenta anos, um dos maiores da história da Avenida. E eternizada no samba-exaltação “Deusa da Passarela“, composto por ele. Por isso, pela simpatia, pelo talento e pelo carisma particulares, o intérprete é um dos mais queridos por público e crítica, possuindo diversos admiradores e prêmios, como cinco Estandartes de Ouros. 

Em 2009, Neguinho desfilou careca na Sapucaí após o tratamento de um câncer e casou em plena Avenida, local em que ele mais brilha. Para isso, convidou o ex-presidente e preso político Lula para ser padrinho da cerimônia. Ele e Dona Marisa, no entanto, não puderam comparecer à cerimônia.  Neguinho é ainda emblemático cantor e compositor além da Avenida, sendo o autor do clássico das arquibancadas “Domingo, Eu Vou Ao Maracanã“.

Jamelão



José Bispo Clementino dos Santos foi para muitos a maior voz que já surgiu até hoje no carnaval. Seu timbre potente e o grave tom com que ecoava cada palavra intimidava e era característica fundamental para a personalidade do cantor. Jamelão, como não poderia deixar de ser diferente, foi uma figura muito peculiar. Não só sua voz, mas seu profissionalismo, sua dedicação e seu amor genuínos e profundos à Estação Primeira de Mangueira, além do famoso mau-humor e a maneira como se colocava ao rejeitar o título de puxador e toda sua composição são marcantes e repletas de memória.

O cantor emprestou sua voz para a verde e rosa por incríveis 57 carnavais, recorde absoluto entre as escolas de samba. Sua última passagem pela Sapucaí foi no carnaval de 2006, prestes a completar 93 anos de vida, quando a agremiação exaltou as águas e os elementos que cercavam o rio São Francisco. É um dos recordistas de Estandarte de Ouro, com seis estatuetas. Em 2013, ano do centenário de Jamelão, a Unidos do Jacarezinho o homenageou com o enredo “Puxador, não. Intérprete!”, e relembrou a vida e os elementos do artista, como o a superstição do uso de vários elásticos em sua mão e sua carreira fora da Avenida, quando se entregou a gravação de sambas-canções, a ditas músicas de dor de cotovelo. O grito de “minha Mangueira” deve causar comoção e saudosismo para a torcida da escola durante muito mais tempo.


A lista lembrou alguns dos intérpretes mais marcantes a passar pela Sapucaí e Anhembi, mas sempre há outros nomes que merecem e devem ser lembrados por suas incríveis atuações e personalidades próprias. Desde os nomes que já não está mais em atividade, como Carlinhos de Pilares, Ney Viana, Gera ou Jackson Martins, até os nomes mais recentes como Wantuir, Wander Pires, Nêgo e Preto Joia. Todos deixaram seus vozeirões eternizados na Avenida.