segunda-feira, 21 de maio de 2018

Livro em homenagem a Rosa Magalhães será lançado no Rio de Janeiro




Vem aí o: “VERDE AMARELO AZUL E ROSA”

Este livro escrito por Bruno Laurato, “Verde Amarelo Azul E Rosa”, merece ser lido com muito prazer e atenção. O autor faz um estudo detalhado sobre os melhores desfiles assinados pela grande carnavalesca Rosa Magalhães.”
Lícia Lacerda.

O livro.
Este é, portanto, um dossiê sobre alguns desfiles assinados pela premiada carnavalesca Rosa Magalhães. O que era a tese de conclusão de curso para a graduação de jornalista do autor Bruno Laurato tornou-se um livro, que hoje ganha às livrarias – para a felicidade dos fãs da professora. Neste projeto o autor analisou os desfiles em que Rosa Magalhães abordou períodos históricos do Brasil. Unindo, desta forma, o povo e a sua história através da maior festa de cultura popular brasileira.

A obra caminha sobre doze carnavais da artista, em ordem cronológica, iniciando, portanto, em 1982 com o antológico “Bumbum Paticumbum Prungurundum” do Império Serrano. Logo depois, os dois anos consecutivos que a carnavalesca assinou o desfile dos Acadêmicos do Salgueiro. Em seguida, alguns desfiles históricos que Rosa desenvolveu na Imperatriz Leopoldinense e terminando, enfim, com campeão de 2012 na Vila Isabel.

Para essa análise, o autor contou não apenas com entrevistas valiosas onde a homenageada detalhou cada enredo, como também, conversas com especialistas do carnaval como: Fábio de Mello – grande coreógrafo que trabalhou durante doze anos com Rosa Magalhães; Lícia Lacerda, amiga e carnavalesca que trabalhou com Rosa em seu primeiro carnaval, no Império Serrano em 1982 - e que escreveu a orelha do livro; Milton Cunha, carnavalesco e comentarista da Rede Globo e Fabio Fabato, jornalista, escritor e comentarista de carnaval, que inclusive, é o responsável pelo prefácio do livro. Além disso, o autor buscou matérias de jornais da época, arquivos de entrevistas sobre as especulações do enredo, assim como, os vídeos dos desfiles de cada ano.

O autor.
Bruno Laurato, 23 anos é jornalista, escritor e, atualmente, atua também como carnavalesco em São Paulo. Esta é sua primeira obra literária.

Lançamento.
O lançamento ocorre no Sábado - 26/05 às 14h.
Local: Baródromo – Rua do Lavradio, 163 – Lapa – Rio de Janeiro

Ficha técnica:
Gênero: Livro Reportagem
Categoria: História
Páginas: 138
Formato: 16 cm x 21 cm
Preço: 46,90
Palavras-chave: História do Brasil; Carnaval; Rio de Janeiro; Rosa Magalhães

sexta-feira, 18 de maio de 2018

#SérieEnredos: Arretado! Oito enredos que cantaram o nordeste do Brasil

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan


Em mais uma lista da Série Enredos, hoje embarcaremos rumo ao nordeste do Brasil! O Carnavalize preparou uma seleção de temas desbravadores do local, contando as dores e tradições dos seus ricos estados e histórias. Uma enorme diversidade nos convida, a partir de agora, a repousarmos numa rede e vermos um pouco mais dessa querida região! Antes de começarmos nossa viagem, não se esqueça: para ouvir os sambas, acesse nossa playlist do Spotify, ao final do texto. 

"Seca no Nordeste" - Tupy de Braz de Pina (1961)

A então pequena Tupy de Braz de Pina colocou seu nome na história ao desfilar com o enredo "Seca no Nordeste", em 1961. O samba, que contou com lirismo e poesia as dificuldades da terra seca nordestina, se tornou um dos mais belos sambas de todos os tempos. Jamelão, o maior intérprete do carnaval, dizia ser seu samba favorito. A obra foi regravada por grandes nomes da música brasileira, como Clara Nunes, Fagner e Ivan Lins.


"Nordeste, seu povo, seu canto, sua gente" - Império Serrano (1971)

Nordestino, o então jovem carnavalesco Fernando Pinto fez sua estreia no Império Serrano com um samba cantando todas as belezas de sua região de origem. O enredo fazia uma grande celebração ao povo e a cultura da região, passeando pelos fabangos, os maracatus e os carnavais. O desfile contou com um visual simples, sem a explosão tropicalista que marcaria Fernando no ano seguinte. A apresentação tímida, mas aguerrida, faturou um honroso terceiro lugar pra Serrinha. 


"Os Sertões" - Em Cima da Hora (1976)

"O sertanejo é, antes de tudo, um forte", disse Euclides da Cunha, romancista que escreveu sobre a Guerra de Canudos, que aconteceu no final do século XIX. Embalada pelos contos do movimento messiânico do interior da Bahia que marcou a história sob liderança de Antônio Conselheiro, a Em Cima da Hora levou aos foliões o antológico "Os Sertões", um dos maiores sambas de enredo de todos os tempos. Na letra, de tudo um pouco da dura realidade interiorana: a seca que assola aquela terra, a improdutividade rural, a miséria, a fé que leva a lugares inimagináveis – até mesmo ao fanatismo – e às mortes de quem lutou no Arraial. A escola de Cavalcante, apesar de ter presenteado o carnaval e a música brasileira com uma verdadeira pintura, acabou rebaixada naquele ano. 


"Mais vale um jegue que me carregue, que um camelo que me derrube... lá no Ceará!" - Imperatriz Leopoldinense (1995)

Seguindo a viagem por terras nordestinas agora, convidamos a todos para embarcarem nos jegues escondidos na história. Num dos enredos mais originais da lista, não poderíamos esquecer a incursão de Rosa Magalhães na região nordestina. A história da expedição científica ao Ceará que importou camelos da Argélia é um achado da cultura brasileira. Como diz o samba, "balançou, não deu certo", os dromedários não deram certo em terras nordestinas e o enredo terminou por exaltar o jegue. O tema ganhou ainda o "Ceará" após a confirmação de patrocínio do estado.


"Brazil com Z é pra cabra da peste, com S é nação do nordeste" - Mangueira (2002)

E com a verde-e-rosa a gente vai juntinho invadir o Nordeste! O grande campeonato da Estação Primeira de Mangueira brindou a garra e a alegria nordestina no Sambódromo, com o enredo "Brazil com Z é pra cabra da peste, com S é nação do Nordeste", desenvolvido por Max Lopes, o mago das cores. Ao longo da Marquês, histórias das invasões, da miscigenação, a lida dura de uma vida difícil, personagens do rico folclore e, claro, a alegria, as festas e a libertação de um povo que é protagonista de sua própria história. O baião de Gonzagão e o xaxado se misturaram ao surdo de primeira e brindaram a escola com o primeiríssimo! 


"Cordel branco e encarnado" - Salgueiro (2012)

Um bom exemplo de enredo que não cantou a região diretamente, mas não deixou de exaltá-la por meio de sua cultura foi "Cordel branco e encarnado". O tema foi um ideia original do departamento cultural da Academia, desenvolvido em parceria com os carnavalescos Márcia e Renato Lage. O desfile passeou pela história do Cordel e toda sua ligação com a região do nordeste, seus hábitos, lendas e magias, conquistando o vice-campeonato.


"Corações Mamulengos" - União do Parque Curicica (2016)

Já a União do Parque Curicica levou à Sapucaí o enredo "Corações Mamulengos", desenvolvido por Marcus Ferreira. Os mamulengos, na verdade, são típicos fantoches do nordeste brasileiro, com grande destaque no estado de Pernambuco. O teatro dos bonecos é ditado pelo improviso, que apresenta, por meio dos mamulengueiros, situações muito próximas as do cotidiano dos regionais; a Caravana Curicica abriu o desfile e convidou o grande público a mergulhar com alegria e emoção na história. Infelizmente, a escola não conseguiu levar uma das alegorias à Sapucaí por problemas mecânicos, o que acarretou no amargo 11º lugar. 


"Dragões canta Asa Branca" - Dragões da Real (2017)

São Paulo é a cidade do Brasil que mais recebe nordestinos que saem de suas casas para tentar uma vida melhor no maior centro econômico do país. Pensando na sua comunidade, a Dragões da Real se inspirou no Velho Lua, Luiz Gonzaga, e na clássica música Asa Branca para contar a história de quem sonha em alçar voos mais altos. Da decisão de deixar sua terra e seus amores, passando pela viagem no pau de arara e chegando à grande cidade, a escola emocionou o Anhembi em um dos desfiles mais bonitos do carnaval paulista, com um samba que preenchia o coração de quem por catarse se auto-reconhecia naqueles versos. Assim, a tricolor garantiu um vice-campeonato no carnaval de 2017.

Ouça a playlist especial: 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

#SérieEnredos: O carnaval e as histórias à margem da História

Por Redação Carnavalize




“A História é escrita pelos vencedores”. A frase atribuída a George Orwell - pseudônimo do escritor inglês Eric Arthur Blair - evidencia uma centralização na construção dos discursos, que proporcionam grande exaltação aos “vencedores” das guerras e disputas de poder, e uma fácil vilanização ou esquecimento aos que sofreram com as dominações que moldam a realidade da nossa população.

É por essa desproporção que outras fontes de disseminação de conhecimento e dos acontecimentos que moldaram nós e nossos povos se tornam necessárias. A História pode ser contada, também, fora dos centros de ensino convencionais. Os saberes são disseminados na rua, na internet, nas casas religiosas, nos terreiros, no sofá de casa e... nas escolas de samba! Nossas agremiações, por diversas vezes, assumem-se como responsáveis por contar histórias que a História marginalizou, a exaltar figuras da realidade ou do folclore que foram sucumbidas em prol de uma perspectiva preconceituosa para falar sobre o mundo e a vida.

Então, se prepara que o Carnavalize fez um levantamento mega especial de enredos que homenagearam figuras importantes para a construção da nossa sociedade e relevantes para a cultura do Brasil, que nem sempre figuraram nos livros de História.

Antes de começar, um aviso: textos novos todas quartas e sextas-feiras na nossa #SérieEnredos! Confira o primeiro e o segundo clicando aqui e aqui, respectivamente!


Xica da Silva - Salgueiro 1963

Não se pode falar acerca de personagens que muitas pessoas conheceram por meio das agremiações do carnaval sem falar da Academia do Samba. A escola tijucana foi pioneira em possuir uma identidade temática de valorização do negro, guiada pela direção de Nelson de Andrade e pelas visões de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Em 1963, com os desfiles pela primeira vez na Avenida Presidente Vargas, o carnaval do Salgueiro inovou tanto com a escolha do enredo - que pela primeira vez no carnaval exaltaria uma mulher negra - quanto pela coreografia de parte de seus integrantes em minueto -  manobra ousada para época, concebida pela dançarina Mercedes Baptista e que proporcionou uma das fotos mais emblemáticas do carnaval.

O minueto, um dos momentos mais marcantes da história da Academia do Samba (Foto: Acervo OGlobo)
O grupo coreografado ficou localizado na última divisão do desfile, dividido entre as origens da homenageada, a liberdade alcançada após seu casamento e seus caprichos, de acordo com o pesquisador João Gustavo Melo. Além disso, o desfile marcou a vida de Isabel Valença. Ela, assim como a homenageada do enredo, tornou-se conhecida do grande público após aquele carnaval, ao encarná-la de uma maneira incrivelmente luxuosa. O requinte, aliás, foi característica forte de todo o desfile, com tema escolhido e assinado pelo talentosíssimo Arlindo Rodrigues, enquanto Pamplona realizava uma viagem internacional. A homenagem à ex-escrava que se casou com o responsável pela exploração de diamantes na região do Arraial do Tijuco, atualmente localizada em Diamantina (MG), garantiu o primeiro campeonato solo para o Salgueiro e inspirou o filme que seria rodado anos depois pelo cineasta Cacá Diegues.

Chico Rei - Salgueiro 1964

A chamada “revolução salgueirense” continua a dar frutos na década de 60 e outra homenagem é preparada para o carnaval seguinte ao inesquecível Xica da Silva. Contando a história de outro escravo que subverteu aos padrões de status de sua época, o Salgueiro apostava em exaltar Chico Rei, figura que até hoje promove dúvidas acerca de sua veracidade. Entre pessoa e lenda, é a ele atribuída a responsabilidade pela compra da alforria de diversos escravos da tribo de onde viera e por introduzir em Minas Gerais o congado, manifestação formada pelo intercâmbio cultural entre Brasíl e países africanos.




Segundo o historiador Diogo de Vaconselos, Chico Rei teria sido monarca no Reino do Congo - região hoje composta por países como Angola e República do Congo - e trazido, junto a seus pares, para a região de Ouro Preto. Lá também se firmou como rei ao conseguir criar uma rede de apoio para o pagamento de alforrias aos seus familiares e amigos. O desfile também foi assinado pelo carnavalesco Arlindo Rodrigues e proporcionou para o Salgueiro o vice-campeonato daquele ano.


Sinhá Olímpia - Mangueira 1990


“Sou amor, sou esperança”. É assim que um dos mais belos sambas da Estação Primeira de Mangueira apresentou uma das figuras mais curiosas retratadas na Marquês de Sapucaí. Bebendo da fonte das homenagens que a afilhada encarnada e branca realizou nas décadas anteriores, a verde e rosa contou a história de Olímpia Angélica de Almeida Cotta, a Sinhá Olímpia. A senhora também faz parte do imaginário da cidade de Ouro Preto e foi considerada por alguns nomes da cultura e da História como a primeira hippie do país, com vestimentas peculiares, marcadas pelo uso excessivo de cores e materiais alternativos.


Foto: O Globo.
Sinhá Olímpia gostava de contar histórias, contos e acontecimentos como se estivesse presenciado épocas em que não estava viva. Por isso, foi taxada como louca na cidade de Minas Gerais notável pela herança da arquitetura e arte barrocas, justificando o título “E deu a louca no barroco”.  De acordo com o livro "As Matriarcas da Folia", a ideia de fazer um tributo em forma de carnaval para Olímpia era de Fernando Pinto, falecido em 1987. Um dos carnavalescos da Mangueira de 1990, Ernesto Nascimento era amigo do tropicalista e realizou o enredo descoberto por Fernando como uma possibilidade de homenageá-lo. 

Após uma sucessão de problemas envolvendo os carros alegóricos no decorrer da avenida e, com isso, estourar o tempo máximo de apresentação, a verde e rosa terminou em oitavo lugar, mas faturou seis prêmios do Estandarte de Ouro, incluindo o de melhor escola e o de samba-enredo.

Tereza de Benguela - Viradouro 1994


Outro imprescindível nome para a narrativa visual e temática do carnaval, Joãosinho Trinta assinou seu primeiro desfile na Viradouro em homenagem a uma forte mulher negra: Tereza de Benguela. Após uma fase épica na Beija-Flor de Nilópolis, o gênio partiu para as bandas de Niterói disposto a continuar ousando e acreditando em enredos fortes e repletos de personalidade.



Tereza foi ícone do movimento libertário durante a época escravocrata do país, e tomou frente do Quilombo de Quariterê, localizado no Mato Grosso. Lá, ela se demonstrou um exemplo de liderança, assumindo o papel de coordenação do funcionamento político, social e administrativo do grupo e resistindo às tentativas de escravidão pela colônia. 

Ao retratar uma figura que conseguia possuir essa inteligência e mesclar diferentes povos e culturas com respeito e tolerância, João associou Tereza e suas características com o que desejava para o cenário contemporâneo da época - que carregava problemáticas que seguem atuais, como preconceito e questões da terra. A Viradouro terminou em um honroso terceiro lugar e a luz de Tereza não apagou.

Bidu Sayão - Beija-Flor 1995


Figura fundamental da música clássica brasileira, Bidu Sayão foi uma cantora lírica de enorme sucesso e reconhecimento internacional. Durante mais de uma década, assumiu o posto de principal soprano do Metropolitan Opera House, casa de uma das principais companhias de música clássica do mundo. A artista encantou diversas autoridades estrangeiras; em 1921, aos 17 anos, foi intitulada como a “rouxinol do Brasil” por Hirohito, que seria cinco anos depois o 124º imperador do Japão. Ela também foi convidada por Roosevelt, então presidente dos Estados Unidos, em plena Casa Branca, a se naturalizar como cidadã estadunidense. Bidu recuou do convite, pois queria ser lembrada como uma artista brasileira.

Autor do enredo, Milton Cunha ao lado de Bidu Sayão (Foto: Autor desconhecido)
Um dos nomes mais expressivos do carnaval e que tem forte papel de exaltação de figuras desconhecidas do grande público, Milton Cunha foi o autor do enredo e do desfile em homenagem à soprano, sendo responsável pela disseminação de Bidu pela comunidade nilopolitana e a todos atentos ao desfile da azul e branco. À época do carnaval, um dos compositores do samba-enredo daquele ano afirmou que não conhecia a homenageada, evidenciando a importância das agremiações como instrumento de contar histórias distantes da população.

Após longa estadia nos Estados Unidos, Bidu voltou a seu país especialmente pelo desfile. Com 90 anos de idade, ao lado do carnavalesco Milton Cunha, cruzou a Sapucaí no último carro da agremiação, vestida com os trajes típicos da Carmem Miranda. A Deusa da Passarela terminou em terceiro lugar ao exaltar o canto de cristal.


Agotime - Beija-Flor 2001


A Beija-Flor também tem dobradinha! Além de Bidu Sayão, a escola já retratou outros nomes da cultura nacional não tão bem lembrados. Entre eles, Agotime e sua saga foram a inspiração para o desfile de 2001, que contou a trajetória da monarca da região de Daomé - onde hoje se encontra o país Benim. O enredo se baseou em relatos do Pajé Zeneide Lima, e acompanhou toda a história da figura homenageada, que foi vendida como escrava por seu enteado. Filho do primeiro casamento de Agonglo, após a morte de seu pai e a escolha do meio-irmão para a ocupação do trono, Adandozan comercializou a madastra como gesto de revolta, acusando-a de feitiçaria.

Agotime chegou na Bahia e, ao entrar em contato com a população de origem Nagô e suas entidades, os orixás, decidiu continuar seus ritos e cultos voduns com os demais negro-minas, localizados em outro estado. Prosseguiu como escrava durante dez anos, até conseguir comprar sua liberdade, instalando-se no Maranhão. Lá, Agotime passou a se chamar Maria Mineira Naê, por conta de seu vodun denominado Naê e pela região da Costa da Mina - local em que vários escravos saíram do continente africano para os países da América. Segundo o fotógrafo e etnógrafo franco-brasileiro Pierre Verger, a monarca fundou a Casa das Minas, que até hoje é uma das casas mais antigas e tradicionais de tambor, localizada no Centro Histórico de São Luís e tombada pelo IPHAN em 2002.

As pretas-velhas do cortejo nilopolitano (Foto: Wigder Frota)
Como canta o épico samba da escola, a Beija-Flor passou repleta de energia e vibração na Sapucaí, em uma memorável abertura com desfilantes pretas-velhas à frente do primeiro carro alegórico.  Foi o quarto carnaval desenvolvido por uma comissão, em um modelo que, até então, havia rendido um campeonato e dois vices. Disseminando a história de Agotime, a agremiação nilopolitana acabou com o vice-campeonato e um gosto de amargo em perder o título.


Joaquina Lapinha - Inocentes de Belford Roxo 2014


Fechando nosso levantamento, novamente Minas Gerais e a música lírica aparecem entre as histórias desvalorizadas pela História. Desta vez, juntas, sob a figura de Joaquina Lapinha. Mineira, a cantora e atriz obteve grande destaque entre o final do século XVIII e início do século XIX, em pleno período colonial do Brasil. Apresentou-se em Portugal para Dom João VI, possuindo passaporte livre entre os dois países. Assim, a soprano foi uma das primeiras artistas negras de destaque internacional, em um cenário de normatização de arbitrariedades raciais e de gênero. Até hoje restam dúvidas acerca das datas de nascimento e morte de Joaquina Lapinha, mas não há incertezas quanto à sua importância cultural e social.


O enredo em exaltação a ela era, inicialmente, uma ideia da Beija-Flor de Nilópolis, que sugeriu à coirmã a homenagem após preteri-la pelo astro da televisão brasileira, o Boni. A Inocentes de Belford Roxo, embalada por uma linda melodia de samba, fez um desfile extremamente agradável e com interessantes soluções estéticas concebidas pelo carnavalesco Wagner Gonçalves. Embora tenha terminado em um modesto e subestimado décimo lugar, a agremiação expôs no carnaval uma figura pouco reconhecida pela sociedade e nos apresentou um essencial triunfo da América, Joaquina.

É fundamental reforçar os valores artístico e cultural das nossas escolas, que devem ter como uma de suas principais missões exaltar outras perspectivas e narrativas do que entendemos como Brasil. Por meio da sua potência em dialogar com as massas e a população como um todo, torcemos para que as agremiações continuem a apostar no processo de retomada do protagonismo de outras figuras e personalidades da nossa sociedade!

Para complementar o texto, criamos uma playlist com os sambas dos desfiles acima e outros que também se encaixam nessa temática!

domingo, 13 de maio de 2018

SINOPSE: Paraíso do Tuiuti | "O Salvador da Pátria"

O SALVADOR DA PÁTRIA
Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!
Não posso provar, mas tenho total convicção da autenticidade de tudo o que a ele atribuíram…

Não se sabe muito bem de qual paragem veio aquele cabra, ou melhor, bode. Dizem que era retirante da grande seca no sertão cearense imortalizada pela escritora Rachel de Queiróz, em O Quinze. Naqueles tempos de República quase balzaquiana, o Governo interceptava as procissões de fugitivos da miséria. Com medo de uma invasão furiosa, devido à fome que consumia aqueles esquecidos teimosos em se fazerem lembrar, pastorava o povaréu num campo de concentração antes que chegassem até a cidade. Porém, como o sertanejo é, acima de tudo, um forte, quando viu a terra ardendo e sentiu a baforada do Zé Maria no cangote o bode bumbou até Fortaleza com a coragem e a cara.
Penou, mas chegou.
Sentiu a brisa fresca do litoral acariciar aquela carcaça sofrida, castigada. Deixou para trás o passado capiongo, quando foi comprado por José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia, correspondente da empresa britânica que comercializava couros, peles, sementes de algodão e borracha, a Rossbach Brazil Company, localizada na Rua Dragão do Mar, Praia do Peixe. Dali virou mascote com direito à liberdade de ir e vir que, aliás, era bem praticada. Apreciava o movimento de barcos e jangadas enquanto perambulava entre os pescadores e seguia o aroma dos tabuleiros das merendeiras, tanto que os populares da região logo se afeiçoaram ao bichim. Dizem até ter remoçado em sua nova vida à beira-mar.
Ao cair da tarde, arribava pra Praça do Ferreira sassaricar com os artistas e intelectuais, herdeiros da Padaria Espiritual, no Café Java. Os boêmios acreditavam ser o poeta Paulo Laranjeira, reencarnado depois que o cabrão reagiu ao ouvir uma composição feita pelo desencarnado em homenagem a sua decepção amorosa. Desde então, o bode caiu nos braços da boemia. Bebericava, pitava, serestava pelas ruas, vielas e mafuás, botando boneco noite a fora.
De tanto vai e vem passou a ser chamado de Ioiô.
E lá se ia o bode Ioiô bater seus cascos Belle Époque alencariana adentro, sem a menor cerimônia, entre as modas copiadas do estrangeiro pelas “pessoas de bem” da sociedade. Passeou de bonde elétrico, frequentou o Theatro José de Alencar, participou de saraus literários e até comeu a fita inaugural do Cine Moderno.
Sentiu as Mademoiselles espilicutes exalando um perfume de civilidade europeia quando saíam da Maison Art-Nouveau em direção ao Passeio Público. Doce aroma que era constantemente interrompido pelo peculiar cheirinho de certo bode que dava rabissaca pro Código de Conduta imposto que, dentre muitas medidas disciplinadoras, proibia animais soltos nas ruas. Um Dândi sertanejo tão incômodo como as camadas pobres e marginalizadas as quais o poder desejava esconder por debaixo dos tapetes chiques para não atrapalharem o savoir-vivre nas avenidas, confeitarias, jardins, clubes e salões. Assim, velhos hábitos considerados de gente subdesenvolvida deveriam ser substituídos por novos costumes, os bons modos. Tanto cidade quanto população careciam ser modificadas, remodeladas num choque de aformoseamento. Afinal, para a elite, as maravilhas do mundo moderno não harmonizavam com a matutice do povo.
Povo, aliás, que já era mamulengo nas mãos dos poderosos, há muito tempo. A política republicana havia herdado antigos sistemas coloniais que se consolidaram em influentes famílias tradicionais e no domínio dos coronéis latifundiários, pois a prática do “manda quem pode e obedece quem tem juízo” era um tiro certeiro. Cabia à população ser tratada como gado trazido em cabresto curto, quais as aves de rapina direcionavam para onde quisessem, e cativos em currais eleitorais para que ela mesma sustentasse o sistema que a prejudicava.
Com um cenário governamental mais parecido com um covil repleto de animais nocivos ao interesse público e a feérica intervenção de aculturamento, a insatisfação popular só crescia. Até que a resposta do povaréu veio em forma de protesto no mais inesperado momento: nas eleições. Ao abrir a urna eleitoral se ouviu o berro do povo escrito nos votos que elegeram o bode Ioiô para vereador na Câmara Municipal de Fortaleza. Um deboche com os poderosos. Molecagem porreta! Sem ter feito campanha um animal ruminante era eleito pelo povo como seu representante! E, de fato, há muito já era um símbolo da identificação sertaneja que a elite (ameaçada pelas cédulas de papel) queria suprimir.
Contam que o fuá já estava instalado quando os poderosos articularam um golpe para que o bode Ioiô sofresse um impedimento e não assumisse o cargo ao qual foi eleito legitimamente, em processo democrático. Porém, a justificativa jurídica de incompatibilidade de espécie não livrou os políticos daquele vexame retumbante e só alimentou o monstro: Ioiô saiu da vida pública para entrar na história.
O bode mitou. Até hoje seus admiradores o defendem como ícone de empoderamento popular, representatividade dos marginalizados. Segue comandando a revolução do inconformismo seja nas lembranças dos memorialistas, nos cordéis, nos livros, na sala de um museu ou pelos blocos carnavalescos. Ioiô é a imagem da resiliência de um povo que faz graça até da própria desgraça e, com esse jeitinho inigualável, nos revela o genuíno salvador da nossa pátria: o bom humor.
[Isso aqui, Ioiô, foi um pouquinho de Brasil].

Lembrete:
Votar em animais é e sempre será possível.

Jack Vasconcelos
carnavalesco

Bibliografia consultada:
BRUNO, Artur; FARIAS, Airton de, Fortaleza: uma breve história, Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2015.
GIRÃO, Raimundo, Geografia estética de Fortaleza, Fortaleza: Edições BNB, 1979.
MANUELA DA SILVA VIEIRA, Carla, O Theatro José de Alencar do início do século XX: modernidade e sociabilidades (1908-1912), Fortaleza: SECULT, 2011.
PONTE, Sebastião Rogério, Fortaleza Belle Époque: reforma urbana e controle social 1860-1930, Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2014.
SILVA, Marco Aurélio Ferreira da, Humor, vergonha e decoro na cidade de Fortaleza (1850-1890), Fortaleza: Museu do Ceará, SECULT, 2009.
VIEIRA, Carla M, Sociabilidade e Lazer: Fortaleza no início do século XX, Fortaleza: INESP, 2015.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

#SérieEnredos: Abre o Xirê - Enredos sobre a magia dos orixás

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

A "Série Enredos" dominará o site durante o mês de maio, com textos novos às quartas e sextas.

Foto: Fernando Grilli/Riotur
Sempre bem quistos no carnaval, os enredos de temática "afro" se tornaram garantia de bons sambas, com pegada e força para embalar um bom desfile. Historicamente ligadas às religiões afro-brasileiras, as escolas de samba demoraram a levar esta temática de fato para suas apresentações. A forte negociação com o poder público acabou por fazer as agremiações cantarem a história oficial branca durante muito tempo. Por isso, foi apenas em 1966 que o nome de um orixá apareceu num samba-enredo pela primeira vez, quando a São Clemente e o Império Serrano inseriram "Iemanjá" em suas letras. 

Louvando as temáticas de raízes africanas, preparamos essa lista cheia de axé, focando nos enredos biográficos dos orixás, que se tornaram muitos comuns na Série A nos últimos anos, mas que já foram contados há décadas. Então, prepare o terreiro e vem com a gente nesse xirê.

Arranco 1977 - Logun, príncipe de Efan


Foi só em 1977 que se registrou o primeiro samba-enredo biográfico sobre um orixá afro-brasileiro, segundo o livro "Samba de Enredo: história e arte", de Luiz Antônio Simas e Alberto Mussa. A história se torna ainda mais curiosa por se tratar de uma das divindades menos conhecidas em terras brasileiras. 

Logunedé, que significa feiticeiro de Edé, é o filho de Oxóssi e Oxum, nasceu no gênero masculino mas ganhou o poder de se transformar para o feminino. Na versão cantada pela azul e branco do Engenho de Dentro, Logun seria um bastardo condenado após a morte de Xangô, marido da deusa das águas doces. O obra tem uma belíssima letra e garantiu não só um honroso vice-campeonato para a agremiação na segunda divisão da folia carioca, como também o Estandarte de Ouro de melhor samba do grupo naquele ano. 

Imperatriz 1979 - Oxumaré, a Lenda do Arco-íris


Dois anos depois, finalmente, um orixá teve sua história contada numa escola do primeiro grupo. E esse suposto pioneirismo aconteceu por uma escola inusitada, a Imperatriz Leopoldinense, que é pouco ligada historicamente a temas "afro". A Rainha de Ramos levou para a Avenida "Oxumarê, a Lenda do Arco-íris", um enredo que tinha como figura principal um dos mais conhecidos orixás, simbolizado pelo arco-íris e por uma grande serpente, que liga os reinos de Orun e Ayê (terra e céu)

O desfile trouxe os príncipes africanos em sua comissão de frente, moças e alas nas sete cores do arco-íris e, claro, a roda da fortuna de Oxumarê, já que o intuito era trazer a lenda do arco-íris sob a perspectiva da tradição afro no Brasil. No final, o resultado conferiu à escola um sétimo lugar e a Avenida reverenciou as cores do majestoso orixá! Arroboboi!

Império da Tijuca 2015 - O Império nas águas doces de Oxum 

Fonte: G1

Dando um grande salto no tempo, desembarcamos no Morro da Formiga, que logo após a ligeira passagem pelo grupo especial levou à Sapucaí toda a riqueza, beleza e fertilidade de Oxum, mãe do ouro, da beleza e dos amores. O enredo, desenvolvido por Junior Pernambucano, foi batizado de "O Império nas Águas Doces de Oxum". A trajetória da iabá começa em seu nascimento no ventre de Odudúa e passa por suas águas doces, símbolo da fertilidade, onde reina soberana e dança com seu abebê encantado, sempre formosa e discreta. 

A rainha das águas doces foi representada por Érika Januza no desfile oficial e a escola, no fim das contas, conquistou um modesto sexto lugar no seu primeiro ano de volta à Série A, mas encantou com majestosa passagem, digna da homenageada. Ora, ieie ô! Salve Oxum!

Alegria da Zona Sul 2016 - Ogum

Foto: Widger Frota

Ogum é um dos orixás masculinos mais difundidos no imaginário brasileiro, talvez por seu forte sincretismo com santos igualmente muito cultuados. No Sudeste, possui forte ligação com o popular São Jorge, enquanto na região Nordeste, com Santo Antônio. Ogum é o orixá guerreiro, senhor do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia. Era ele mesmo quem forjava suas ferramentas, tanto para a caça, quanto para a agricultura e para as batalhas.

A história do orixá foi narrada pela Alegria da Zona Sul em 2016, assinada pelo carnavalesco Marco Antônio Falleiros, passando desde a origem do guerreiro até toda sua atuação entre Orun e Ayê, terminando, obviamente, com sua ligação ao santo guerreiro católico. Com um desfile agradável, que se destacou pelo samba valente e forte, a vermelho e branco da Zona Sul terminou na modesta décima posição. Ogunhê!

Renascer de Jacarepaguá 2016 - Ibejís, nas brincadeiras de crianças: Os orixás que viraram santos no Brasil.

Foto: G1
Os Ibejis são entidades pouco conhecidas, mas que no Brasil ganharam novas proporções com o desenvolvimento do sincretismo afro-católico. As divindades gêmeas foram aglutinadas na figura de São Cosme e Damião, num complexo e fascinante processo de troca cultural. A mistura acabou por fazer do Brasil um dos poucos lugares do mundo onde os santos católicos são representados com feições infantis, sem ainda falar na inclusão de Doum nessa mistura boa, mais fortemente na umbanda. 

Toda essa relação complexa de troca e negociação entre as culturas europeias e africanas foi contada na apresentação da Renascer de Jacarepaguá em 2016, no desfile assinado por Jorge Caribé, que possui reconhecida experiência na temática. O desfile foi leve e empolgante, como pedia a temática, embalado por um samba leve, encomendado a grandes compositores: Moacyr Luz, Cláudio Russo e Teresa Cristina, no modelo que a vermelho e branco segue desde 2014.

Unidos de Padre Miguel 2017 - Ossain, o poder da cura 

Foto: Riotur

Um dos carnavais recentes mais marcantes contando a história de um orixá foi o desenvolvido pela Unidos de Padre Miguel em 2017. A escola, que tem se fixado pela estética afro, optou por louvar um membro pouco difundido do panteão africano. Ossain é orixá ligado às folhas, à cura e à força da floresta, e, embora fundamental, acabou se tornando pouco difundido pelos terreiros brasileiros. 

O desfile maravilhoso foi o último do bem-sucedido casamento da escola de Padre Miguel com Edson Pereira, apostando em grandes esculturas e alegorias monumentais muito bem elaboradas. Apesar de toda a beleza e força, é impossível esquecer do trágico incidente que marcou a apresentação: a queda da primeira porta-bandeira que acarretou na torção de sua perna, durante sua dança para o módulo duplo - já extinto - de julgadores. Vale lembrar que o orixá é, por vezes, representado exatamente com apenas uma perna só. Arrepiante!

 Império da Tijuca 2018 - Olubajé: um banquete para o rei 

Última alegoria do Imperinho do desfile de 2018 (Foto: Carnavalesco)

Atotô! 2018 marcou o primeiro ano da escola da Tijuca após o seu longo e bem sucedido casamento com o carnavalesco Junior Pernambucano, especialmente ligado aos grandes desfiles com temática afro. Mas mesmo com a saída do artista, o Morro da Formiga se apresentou apostando na magia dos orixás, sob comando de Sandro Gomes e Jorge Caribé. 

"Olubajé, um Banquete para o Rei" foi o enredo que saudou Olubajé com uma grande homenagem, desde o seu nascimento, passando pela transformação em um bom caçador e encerrando com um lindo banquete em plena Sapucaí, com, claro, banho de pipoca no final! A estética da agremiação surpreendeu por sua beleza e força, contando o enredo de maneira digna e com um grande samba composto por uma parceira encabeçada por Samir Trindade. 

Foto: Rádio Arquibancada
Apesar de um discurso que critica os enredos sobre as macumbas brasileiras por sua repetição temática e visual, em alguns casos, é sempre importante as escolas de samba reafirmarem suas raízes africanas, sobretudo num cenário intolerante e segregador. Mas sem nunca deixar de procurar novas soluções estéticas e narrativas para temas já conhecidos por parte do público. Nós que adoramos um xirê estamos sempre preparados para incorporar na avenida e ver ainda muitos orixás sendo celebrados na Sapucaí! Axé! 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

#SérieEnredos: Enredos críticos em terras paulistanas: verdade ou mito?

Por Alisson Valério e Leonardo Antan

A "Série Enredos" dominará o site aqui durante o mês de maio, com textos novos às quartas e sextas.
Foto: Alexandre Schneider/UOL
Nunca se falou tanto sobre os enredos críticos como no último Carnaval. Em meio ao momento social agitado, a volta da temática repercutiu bem e garantiu bons resultados no Rio de Janeiro. Sempre atreladas a seu tempo, as escolas de samba assumiram o papel de porta-vozes culturais, desfilando temas políticos em diversos momentos, seja retratando de variados problemas da nossa sociedade ou usando a crítica e irreverência para reflexão. A volta desses enredos busca resgatar a identidade cultural das agremiações, que se não se perdeu totalmente, mas tornou-se esquecida com o passar do tempo.

Além disso, a importância desse resgate é a volta da representação do povo e da sua realidade atual nos desfiles, formulando empatia entre as agremiações e o público, de modo que os espectadores se envolvam e sintam-se ainda mais representados pelas escolas de samba.

Mas apesar de famosos nas terras cariocas, quem disse que as escolas paulistanas também já não cantaram temas engajados em suas apresentações? É exatamente o que iremos desvendar. Vem com a gente!


Vai-Vai 2008 - "Acorda Brasil, a saída é ter esperança"

Alexandre Schneider/UOL
O desfile é baseado na peça “Acorda Brasil”, de Antônio Ermínio de Moraes, que retrata o cenário de um incêndio na comunidade de Heliópolis, no ano de 1996. O fogo causou comoção ao maestro Silvio Baccarelli, que resolveu montar uma escola de música na comunidade, nascendo assim o Instituto Baccareli, que deu origem a uma grande orquestra popular. Transformando e mudando o destino de muitos habitantes da periferia por meio da educação e da música. 

O renomado carnavalesco Chico Spinoza resolveu contar essa história real no carnaval do Vai-Vai em 2008, com a mensagem final de que a única forma de acordar e colocar o Brasil no rumo certo seria a educação. A combinação da “Escola do Povo” como porta-voz da população não tinha como dar errado e o grito de “Acorda Brasil” ecoou durante todo o desfile, arrebatando a arquibancada e conquistando o título daquele ano, fato raro em se tratando de enredos críticos no Carnaval. E com um dos melhores sambas de sua história, a escola deixou o seu recado: “Alô Brasil, o nosso povo quer mais educação pra ser feliz, com união vencer a corrupção, passar a limpo esse país...”.

Hoje, dez anos atrás continua tão atual, não é mesmo? Seguimos na esperança de que esse grito seja ouvido e o nosso país acorde.



Império Casa Verde 2018 - "O povo, a nobreza real"

Alisson Valério/Carnavalize
O mais recente enredo crítico do Carnaval de São Paulo não poderia ficar de fora, certo? Usando como pano de fundo o cenário da Revolução Francesa para falar sobre a realidade atual do Brasil - com muitos na pobreza e poucos na riqueza - a Império de Casa Verde coroou, em seu desfile de 2018, a nobreza real brasileira: o povo!

O carnavalesco Jorge Freitas acertou em cheio na escolha: um verdadeiro show de história e crítica. Plasticamente impecável (e que assim conseguiu driblar a afirmação que enredo critico geralmente tem a sua plástica comprometida), o desfile, mesmo não conquistando o título - ficando um pouco longe disso, no sétimo lugar - com certeza ficou marcado na memória de muita gente: “Sonhei um sonho onde há coragem pra mudar o mundo, a igualdade segue junto derrubando as Bastilhas. Um sonho sonhei em que a lei era dignidade, todo camponês se torna rei, nessa folia é realidade...




Águia de Ouro 2006 – "Não tem desculpa"

Keiny Andrade/Folha Imagem
Como carnavalizar um tema difícil? A denúncia ao tráfico de crianças com finalidade de prostituição e pedofilia foi o enredo escolhido para o carnavalesco Victor Santos no Águia de Ouro, em 2006, buscando sensibilizar as pessoas sobre os direitos infantis e também do respeito a infância.

A comissão de frente mostrava um grande combate entre o pensamento infantil, representado por magos, contra o pensamento monstruoso, representado por guerreiros selvagens e primitivos, se encerrando com uma homenagem a todas às ONGs que lutam pelos direitos das crianças e prendendo os vilões em grades, deixando bem clara a mensagem do desfile, que viajou pela inocência do mundo infantil na sua luta contra os pensamentos cruéis e maldosos do mundo adulto. Um enredo pesado, um verdadeiro soco no estômago, mas que retratou esse grito por respeito aos direitos das crianças de uma forma muito bonita. O samba deixou o seu recado: “Não tem desculpa não, denuncia é a solução, pra quem tem culpa, sofrer a punição. ”




Tucuruvi 2001 - "São Paulo dá Samba, olha aí o Nosso Carnaval"
Evélson de Freitas/Folha Imagem


Túmulo do samba? Nada disso. O carnavalesco Marco Aurélio Ruffin resolveu mostrar que São Paulo dá samba e fez uma verdadeira exaltação à história do carnaval paulistano no desfile da Tucuruvi em 2001.

O desfile começou no samba paulistano, tendo um verdadeiro arauto do ritmo na sua comissão de frente, seguindo ali para contar a história do nascimento do carnaval em São Paulo, até a chegada do palco para provar a sua raiz, com a construção do Anhembi. Tema justamente do último carro, que infelizmente teve um problema e acabou não cruzando a avenida. Mas o que não comprometeu o desfile e a verdadeira declaração de amor ao samba da Terra da Garoa. Além disso, o hino da agremiação deixou o seu aviso a Vinícius de Moraes e a quem ousar chamar o Carnaval de São Paulo de túmulo do samba: "Se enganou, olha aí, não sou um túmulo, eu sou feliz, ganhei um palco pra provar minha raiz, deixei de ser marginal, segui outra diretriz, meu samba hoje é o orgulho do país”.



Gaviões da Fiel 2002 - "Xeque-Mate"

Rogério Cassimiro/Folha Imagem
É óbvio que esse desfile do mago Jorge Freitas, não poderia ficar de fora, né? Dessa vez pelos Gaviões da Fiel, ele transformou a avenida em um verdadeiro tabuleiro de xadrez. Dar um justo e merecido xeque-mate nas guerras, corrupções e impunidades era o objetivo dessa narrativa. O resultado seria transformar o nosso país em um lugar de paz, com mais moradia, mais educação e segurança: uma jogada de mestre.

A forte crítica arrebatou o público presente numa grande apresentação, que se tornou uma das mais memoráveis de São Paulo. E continua possuindo aplicabilidade no cenário contemporâneo, tanto na esfera política quanto na esfera social: "É hora da virada (vem amor), tenho fé e esperança (no coração), o meu país menino vai mudar, e a felicidade há de brilhar".

Seguimos com essa esperança e acreditando na mudança.



Nenê de Vila Matilde 1985 - "O dia que o cacique rodou a baiana, aí ó"

Se em terras cariocas os enredos críticos tiveram seu auge durante a década de 1980, durante a redemocratização, o carnaval paulistano também reverberou o cenário social agitado. A Nenê de Vila Matilde utilizou como fio condutor a eleição do primeiro indígena a se tornar deputado federal, o Cacique Juruna, para fazer uma crítica às desigualdades sociais, usando o carnaval como forma de despertar a mobilização social.

O samba fez ainda crítica a cultura de massa "alienante" na figura do personagem Macobeba, reivindicando, também, o lugar do negro na representação política, convocando todos a "rodarem a baiana". Representatividade que fala, né? Afinal como dizia a letra: "Negro também quer poder falar alto, rodar a baiana e chegar no Planalto." 

O desfile da azul e branco foi um sacode, não só garantindo o título para a agremiação, mas a chance de protagonizar um momento histórico, ao ir desfilar no Sambódromo do Rio de Janeiro, abrindo o desfile das campeãs daquele ano.



Escolher os desfiles críticos desse texto foi uma missão complicada! Optou-se pelos mais marcantes e os que ainda ressoam, se tornando ainda atuais no cotidiano do país. Caso você seja fã de enredos críticos e não conheça tantos desfiles de São Paulo com essa vertente, não precisa se preocupar! Segue uma lista de outros carnavais políticos para descobrir ainda mais a folia do Anhembi: 

Camisa Verde e Branco 1990 – “Dos Barões do Café a Sarney, Onde Foi Que Eu Errei”; 
Mocidade Alegre 1991 – “A história se repete”; 
Gaviões da Fiel 1992 – “Cidade Aquariana”; 
Unidos do Peruche 1995 – “Não Deixe o Samba Sambar”; 
Gaviões da Fiel 1997 – “O Mundo da Rua”; 
Rosas de Ouro 2000 – “Yes, nós temos mais que banana”; 
Vai-Vai 2000 – “Vai-Vai Brasil”; 
Império de Casa Verde 2005 – “Brasil: Se Deus é por nós, quem será contra nós?”; 
Vai-Vai 2009 – “Mens Sana et Corpore Sano - O Milênio da Superação”.


E fique ligado a "Série Enredos" vai encher o mês de maio do nosso site com matérias sobre os temas que as escolas levaram para a avenida, com textos novos toda quarta e sexta. Por isso, venha carnavalizar conosco. 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Quatro feijoadas para comemorar o Dia de São Jorge

O dia de São Jorge é um dos festejos mais tradicionais do Brasil. Desde a alvorada, às 5h da manhã de 23 de abril, é comum que feijoadas marquem os festejos ao Santo Guerreiro, Ogum no sincretismo religioso. As escolas de samba de Rio e São Paulo não ficam para trás e abrem seus espaços para a celebração, demonstrando também a religiosidade no meio do carnaval. Montamos um guia com cinco feijoadas para colocar na agenda para a próxima segunda-feira. Ogunhê! Salve, São Jorge!

Portela
Divulgação
A maior campeã do carnaval abre sua quadra, na Rua Clara Nunes, para confraternizar no dia do Santo Guerreiro. A tradicional feijoada da Portela chega a edição de São Jorge e, neste ano, contará com o show de Xande de Pilares e do grupo RDN - Reis da Noite. O Portelão inicia os trabalhos às 14h, com os ingressos custando a partir de R$ 15 e o prato de feijoada a R$ 25.

Serviço: 
Feijoada do Guerreiro
Shows com Xande de Pilares e o grupo RDN - Reis da Noite
Data: Segunda-feira, dia 23 de abril (feriado de São Jorge)
Horário: A partir das 14h
Local: Quadra da Portela (Rua Clara Nunes 81, Madureira, Zona Norte)
Informações: (21) 3256-9411

Estácio de Sá
Divulgação
Aliando a história de uma das mais tradicionais escolas do carnaval carioca com a celebração ao santo padroeiro da escola, a feijoada da Estácio de Sá na edição de abril tem o tempero especial! A escola do São Carlos tem o prazer de receber em sua roda de samba os grupos Quem Sabe Canta, Swing Carioca e 100%, além da cantora Andreia Caffe. O encerramento da festa fica por conta da Bateira Medalha de Ouro, com o show dos segmentos do Leão. A entrada é gratuita e começa ao meio-dia. 

Serviço:
Feijoada de São Jorge
Data: Segunda-feira, 23 de abril
Horário: A partir do meio-dia
Local: Quadra da Estácio de Sá (Av. Salvador de Sá, 206 - Cidade Nova)
Entrada gratuita e feijoada cobrada a parte.
Informações: (21) 2504-2883

Unidos do Viradouro
Divulgação
Do outro lado da Ponte, em Niterói, a Unidos do Viradouro, que recentemente ascendeu ao Grupo Especial, também convida o público para sua quadra em mais uma edição da feijoada da escola. No mês de abril, a homenagem ao Santo é um atrativo a mais, além de atrações como Leandro Sapucahy, Toninho Geraes e a Bateria Furacão Vermelho e Branco. O momento mais esperado é o anuncio do enredo da escola para o próximo carnaval, de assinatura do carnavalesco Paulo Barros. Os ingressos custam a partir de R$ 15, antecipados, sem feijoada. O prato do dia sai por R$ 20. 

Serviço:
Feijoada da Viradouro | São Jorge
Data: Segunda-feira, 23 de abril
Horário: A partir das 14h
Local: Quadra da Unidos do Viradouro (Av. do Contorno, 16 - Barreto, Niterói)
Entrada a partir de R$ 15 (ingressos aqui)
Informações: (21) 2628-5744

Acadêmicos do Tatuapé
Divulgação
Da Ponte Rio-Niterói para a ponte aérea, a atual bicampeã do carnaval paulistana abre os trabalhos para o carnaval 2019 no dia do seu padroeiro. Além de servir a tradicional feijoada, será anunciado o enredo para o próximo cortejo, de assinatura do carnavalesco Wagner Santos. A atração musical fica por conta do carro de som da escola, comandado por Celsinho Mody, no evento que também terá cadastramento e recadastramento para a comunidade da Zona Leste. A entrada é franca e a feijoada é servida das 19h30 às 21h30. 

Serviço:
Festa para São Jorge
Data: Segunda-feira, 23 de abril
Horário: A partir das 19h
Local: Quadra Social da Acadêmicos do Tatuapé (Rua Melo Peixoto, 1513 - Tatuapé, São Paulo)
Entrada e feijoada gratuitas