terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Da Galera: A cabine dupla e o julgamento no carnaval carioca

Assim como o Carnavalize, esse novo espaço aqui no site surge para dar voz a apaixonados, que escrevam, pesquisam e estudam o carnaval. Quando tivemos a ideia do site, em primeiro lugar, queríamos expor nossas opiniões e visões de como os jovens enxergavam e gostariam de contar e encontrar materiais sobre o carnaval. Sendo assim, iniciaremos essa série de textos do nosso público, entenda-se como um "espaço aberto" e sinta-se à vontade para nos mandar seu texto, crônica, artigo, o que for. Com essa iniciativa, buscaremos dar voz a pessoas, que sempre quiseram divulgar escritos sobre a festa, mas nunca tiveram um lugar - assim como nós antes do site. 


Por Gabriel Cascardo

"Dos maiores clichês existentes no Carnaval, o que diz que ele não termina quarta feira é o mais fidedigno possível. Da análise das notas rasuradas no jornal (essa tradição ainda está viva) até o aguardo interminável pela justificativa dos jurados, inúmeras suposições são criadas até termos acesso as ponderações que descontaram pontos das escolas. Acho que o inconformismo desse processo não coube no meu corpo e esse texto ganhou forma.

2017 foi o ano mais atípico possível. Creio que não para ser esquecido, mas sim para ficar bem vivo. Servir de exemplo e oportunidade (gigantesca) de melhoria. Hoje, vejo que cosmologicamente falando, era impossível não haver respingos no julgamento e consequentemente na apuração depois dos quatro dias de caos ocorridos na Sapucaí.

Antes dos nossos olhos visualizarem todos os problemas supracitados, a definição de uma nova segmentação para os jurados já causou dúvidas e desconfiança. A tal “cabine dupla de julgamento” praticamente no meio da avenida parecia ter nascido fadada ao fracasso (dela e de agremiações). O resultado não foi diferente do imaginado. Meses depois da sua estréia na Sapucaí, ela foi extinta com a inacreditável média de 0,1 pontos de diferença por jurado do mesmo quesito, 57% de suas notas sendo descartadas (dados do grupo de acesso) e um carnaval tragicamente decidido no setor 6.

Todo ocorrido no último carnaval me gerou mais questionamentos sobre o formato de julgamento no carnaval do Rio de Janeiro. Em grupos e fóruns, percebi o mesmo sentimento. Sendo assim, como folião, venho discutir algumas percepções (conspirativas ou não hahahaha) que tenho e não aparece no caderno de justificativas:

1. Alguns jurados criam pré disposições com o dia do desfile.
E consequentemente, posição/data no desfile. De 1984 pra cá (quando o carnaval foi fragmentado em dois dias), apenas 6 escolas foram campeãs (18%) foram campeãs no Domingo. Já no acesso, todas as campeãs desfilaram no Sábado.

2. Alguns jurados julgam por comparação.
E desta forma, as primeiras escolas tendem a ser mais descontadas, pois não há o comparativo para argumento inicial-pessoal de descontar a sequente ou não. Isso também leva/retorna a teoria do “Julgamento por bandeira”, onde as escolas de menos peso tendem a ser prejudicadas.

3. (E mais grave) O quesito conjunto ainda é julgado.
E sem dúvidas, é o ponto que mais me incomoda. Tenho a total impressão que muitas vezes os jurados deixam passar alguns detalhes técnicos do quesito que está sendo julgado por ser um desfile que possivelmente estará disputando o título dias depois.  Não gosto de  qualquer agremiação como bode expiatório, mas temos exemplos claros em comissão de frente em 2017, Evolução em 2015, Alegorias e Adereços em 2014, entre outros.

4. O quesito Samba Enredo tem um “Q” de Harmonia para os jurados.
E aí entra a terrível definição, “O samba aconteceu na avenida.” Por regulamento, letra e melodia devem ser avaliados de forma separada a fim de alcançar a pontuação da agremiação no quesito. O que vemos recentemente são sambas com claros problemas melódicos e com má construção para demonstrar o enredo com inúmeras notas 10 por passar de forma avassaladora na avenida.

5. As bandeiras são tão julgadas.
Some os 4 tópicos acima aos resultados recentes e a definição deste último tópico se torna de conhecimento público.

Concordam com alguns dos tópicos? Tem alguma percepção similar que não foi citada?


Espero que na próxima quarta de cinzas estejam com olhos atentos as notas a partir do que foi citado acima. E lembrem-se (mais um ponto inacreditável), só verão as justificativas meses depois da apuração. Creio que exista uma corrente que acredita na quaresma das notas e que todos serão perdoados por suas avaliações até a Páscoa." 

Confira abaixo a análise feita por Gabriel Cascardo das notas da cabine dupla na Série A do carnaval carioca. (Clique para ampliar)



Quer participar dessa nossa coluna e ter seu texto estrelando o próximo "Da Galera"? Mande o seu arquivo para o e-mail contato@carnavalize.com ou nos mande em nossas redes sociais: Facebook e Twitter. Assim que recebermos o texto, nosso equipe o avaliará, sendo aprovado, entraremos em contato. Não perca tempo, mande-nos!

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Carnavalizadores de Primeira - Paulo Benjamin de Oliveira, quem fez o mundo azul e branco crescer

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan


Em 1984, os "Contos de Areia" de Oswaldo Cruz e Madureira coroaram a inauguração do Sambódromo e a Águia altaneira alçou seu majestoso voo. Na letra do hino que embalou o título dividido da escola, um verso simbólico exaltou um personagem fundamental da escola: "e no ABC dos orixás/ Oraniã é Paulo da Portela". Em uma viagem que mescla a história do personagem com a da própria história da agremiação, descobriremos quem de fato foi o deus negro responsável pelo crescimento deste mundo azul e branco.

Nascido no Rio de Janeiro na virada do século XX, Paulo Benjamin de Oliveira traz em sua história as transformações que seriam decisivas para história da cidade e o surgimento do samba. Viveu na lendária Praça Onze, teve o contato com os primeiros batuques e personalidades que começavam a moldar o gênero, posteriormente levando a novidade para os lados de Oswaldo Cruz e Madureira. O nome "da Portela" ganhou antes da escola que levou fama, era uma referência à Estrada do Portela inicialmente, que depois também batizaria a agremiação.

Em meio ao nascimento do samba e a busca de reconhecimento de um ritmo marginalizado, o Oraniã portelense foi figura à frente de seu tempo na luta pela dignidade negada aos sambistas por parte da sociedade. Paulo foi responsável por imprimir à classe uma figura de requinte, sempre bem alinhado, trajando ternos e chapéus que o colocassem numa linha respeitosa para os padrões da época.

Foi na década de 20 que se uniu às icônicas figuras de Caetano e Rufino e juntos fundaram o bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz. Mais tarde, desenvolvera um conjunto carnavalesco que se assemelhou ao que conhecemos como uma escola de samba e depois nasceria a Vai Como Pode, rebatizada de Portela em 1935. A história então começou a ser escrita.

Paulo e a Portela se tornam figuras decisivas nos rumos que moldariam o carnaval em sua primeira década. Entre serem aceitas para legitimar o samba e criar laços comunitários identitários, as escolas marcavam um grande empreendimento, abraçado por políticos e intelectuais, para criar uma nova identidade nacional. Paulo é, portanto, um artista e intelectual fundamental para nossa festa, sua visão civilizatória traria para as escolas temas ligados aos desejos nacionalistas do poder público, como "Carnaval Moderno" e "Academia de Samba", criando também, logo em 1932, a primeira Comissão de Frente devidamente trajada e vestida ao estilo cartola e paletó, tornando símbolo a elegância portelense.

Compositor de muito talento, Paulo foi figura essencial para a diplomacia do samba, afinal, foi o responsável pelo diálogo e mediação dos dois lados de uma cidade claramente dividida e de uma cultura oficial que era excludente. Seu poder de articulação e a vontade de lavar do samba a visão preconceituosa que as pessoas imprimiam levaram à mídia e ao Governo de bandeja a possibilidade de construção de uma identidade e uma negociação. Seu legado foi reconhecido popularmente e pelos meios de comunicação da época, como o jornal "A Nação" que o nomeou o "maior compositor das escolas de samba", em 1935. Além do famoso título de "Cidadão-Samba", em 1937, pelo jornal "A rua".


Cédula de votação do concurso de 1937.
Chamado de "professor", o título não veio a toa, uma referência ao desfile que seria uma marco de sua importância e atuação. Em 1939, a azul e branco de Oswaldo Cruz apresentaria "Teste ao samba", considerado por muitos pesquisadores como o primeiro desfile a unir samba e visual. Primeira referência da dramatização do cortejo, Paulo se vestiu de professor e entregou diplomas ao componentes da agremiação na frente do júri e também inseriu uma das primeiras alegorias da festa, um quadro negro onde se lia "Prestigiar e amparar o samba, música típica e original do Brasil, é incetiva o povo brasileiro". Uma verdadeira aula de carnaval.

Infelizmente, em 1941, uma separação traumática entre criador e criatura aconteceria. Após voltar de São Paulo de uma série de shows com Cartola e Heitor dos Prazeres direto para o desfile portelense, o professor seria proibido de se apresentar, pois estava com um terno escuro e não azul s branco, nas leis de elegância que ele mesmo havia criado. Chateado por ter sido barrado do desfile da escola que fundou, Paulo comporia "Meu nome já caiu no esquecimento". Apesar disso, ele ainda voltaria à agremiação num momento histórico, recebendo Walt Disney no início da década de 40, durante a Segunda Guerra Mundial. Como "presente", ganhou um personagem pra lá de brasileiro, que botou os Estados Unidos de Roosevelt pra sambar com Zé Carioca na Política da Boa Vizinhança.

Se a Portela se tornou uma das principais e mais tradicionais agremiações cariocas, a responsabilidade passa pelas mãos de Paulo. E se as escolas de samba se tornaram um dos mais importantes símbolos da cultura brasileira, também. Paulo da Portela fez não só o mundo azul e branco crescer, mas, todo o mundo do samba, um carnavalizador histórico da nossa festa.



quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Minha Identidade: a vanguarda independente, um raio-x da Mocidade

Por Leonardo Antan


Somos definidos por nossas características individuais e por nossas peculiaridades, que nos tornam únicos no mundo. Com as escolas de samba, não é diferente. Desde a sua criação, trilharam caminhos que as configuraram e deram-nas particularidades que podemos observar atualmente. Por isso, o Carnavalize estreia a série que mostrará a construção da identidade de cada uma de nossas agremiações. Toda essa identidade é construída durante as histórias delas, não é algo fixo e imutável, mas em constante transformação. Afinal, o que constitui uma escola de samba? São seus desfiles, seus componentes - ou tudo isso junto?

Carnavalescos, presidentes, patronos, compositores, baianas, mestres de baterias, intérpretes, cada um dá sua personalidade e ajuda na formação de cada agremiação. Acreditando que nossas escolas de sambas são únicas e produtos da rica cultura nacional, vamos percorrer os caminhos e trilhos que a moldaram, dando sequência a essa série que propõe um raio-x da história de cada agremiação, definindo os fatores decisivos que a fizeram ganhar sua identidade própria. E hoje vamos mergulhar na vanguarda da Estrela de Padre Miguel. Vem com a gente erguer a bandeira e plantar essa raiz.

"E a paradinha de outros carnavais, sei que ninguém pode esquecer jamais"

Fundada em 1955, herdeira do Independente Futebol Clube e do bloco carnavalesco Mocidade Independente, a escola de samba da Zona Oeste chegaria ao Grupo Especial em seu segundo desfile, com "Apoteose ao Samba", que, como se sabe, todo o povo aplaudiu. Então veio a primeira das muitas viradas da Mocidade. Seu nome entrou pra história quando, pela primeira vez, uma bateria se calou diante do público. E a lenda fez o mestre, ou vice versa. 


Há diferentes versões sobre o surgimento da mística paradinha, a mais conhecida é que tudo foi um grande imprevisto, após Mestre André levar um susto e cair do chão. De verdade, sabemos que apesar do talento na liderança, o maestro não era lá um exímio ritmista, contrariando algumas máximas do meio. O melhor instrumento que ele tocava era seu apito, mas mesmo assim fez história. Além da paradinha, inovou ao introduzir o surdo de terceira e ao fundar a primeira bateria mirim do carnaval. 

E assim, a Mocidade surgiu no imaginário popular, com a maldosa máxima "a bateria que carrega uma escola". A bateria marcaria pra sempre sua história e seria do som dos tambores (ou o silêncio deles) a primeira pincelada do painel que formaria a agremiação. 

"Uma luz riscou o espaço sideral, fiz um pedido pra brilhar no carnaval"

Além da estrela de cinco pontas, a figura de um simpático Castor se tornou outro símbolo da escola da Zona Oeste nos últimos anos, estampando bandeiras e até alegorias de ensaios técnicos. E não podia ser por menos, se há uma figura fundamental para a trajetória da agremiação, ela se chama Castor de Andrade. Figura controversa do carnaval, Castor se tornou um dos "patronos" mais místicos da folia carioca. 


O bicheiro formado em Direito misturava a elegância de um gentleman de fala pausada  ao submundo da contravenção carioca, um verdadeiro Poderoso Chefão à brasileira. Sua importância não se restringe só a atuação na Mocidade, mas no carnaval como um todo. Junto com outros patronos, foi um dos responsáveis pela criação da LIESA, em 1984. Sua atuação na Zona Oeste do Rio logo o levou a "apadrinhar" a que se tornaria a principal escola da região, começando no carnaval de 1972. Foi responsável por levar e bancar os carnavalescos que mudariam a trajetória da verde e branca, afinal nem só de dinheiro é feita uma agremiação, é necessário um time de artistas para fazer a verdadeira revolução.

"Com as bençãos do divino, aconteceu o descobrimento do Brasil"

A trajetória e a identidade da Mocidade Independente são marcadas fundamentalmente pelo traço de diferentes carnavalescos que a moldaram durante sua história. O primeiro deles veio direto do Salgueiro, após comandar uma revolução que mudaria para sempre a estrutura da festa. Arlindo Rodrigues, dono de um traço barroco e inovador, traria pra agremiação toda sua vanguarda na utilização de novos materiais, como o acetato, as fitas metaloides.

O rigor histórico e estético de Arlindo, vindo de sua atuação no teatro, colocaria a Mocidade num novo patamar entre as co-irmãs. Agora, além da bateria de Mestre André, a escola concorria a pé de igualdade nos quesitos plásticos com as outras grandes da época. Nos enredos, ficaria marcada por ser uma escola sempre ligada a brasilidade. O eterno parceiro de Pamplona passaria pelo lado folclórico (Festa do Divino, 1974, e Brasiliana, 78) e pela africanidade (Mãe Meninha do Gantois, 76).
Alegoria do desfile campeão de 1979 (Foto: O Globo)
Em 1979, veio a virada definitiva. O esperado título confirmaria a escola como a nova potência da festa. Após o tricampeonato inédito da Beija-Flor, mais uma escola fora do hall das antigas quatro grandes arrombava a festa e consolidava uma nova era da folia carioca. No embalo de um carnaval cada vez mais espetacular, Arlindo recontou um enredo que havia feito no Salgueiro, em 1962, com um novo olhar. "Descobrimento do Brasil" trazia não só o lado histórico da chegada da colonização portuguesa, mas inseria um lado místico ao citar o deus Netuno. 

"Vejam quanta alegria vou levar, viver um sonho no espaço sideral"

Virou a década e veio uma nova Mocidade Independente. Arlindo saiu num trem com destino a Ramos e a Zona Oeste encontrou um novo amor nos cachos de um tropicalista. Após uma passagem de altos e baixos no Império Serrano, que foi do título a um rebaixamento, Fernando Pinto assumia a responsabilidade de assinar o carnaval da escola. Depois do enredo clássico de Arlindo, o artista do movimento marginal e desbundado tratou de deixar claro sua herança artística em "Tropicália Maravilha". A narrativa irreverente contava exatamente a história brasileira sobre uma nova ótica, em quadros bem humorados, decorados por muitas frutas e aves tropicais.

Carro Abre-Alas de 1980 (Foto de Anibal Philot)
Apesar do segundo lugar, Fernando Pinto se afastaria e só retornaria em 1983, quando iniciaria uma sequência que transformaria de vez a história da Mocidade. O estilo inovador do carnavalesco trazia um lado mais tropical para "espetacularização" da festa. Tudo (re)começou com a ode indianista de "Como era verde meu Xingu", continuou com a corajosa história da muamba em "Mamãe eu quero Manaus" e encontrou seu apogeu em "Ziriguidum 2001". O desfile que levaria o carnaval e suas diversas manifestações ao espaço sideral, junto ao samba antológico de Arsênio, Gibi e Tiãozinho da Mocidade, levaria a escola a um novo patamar. A "pioneira" passaria definir a estrela que não tinha limites, indo para além do tempo e do espaço.

Visão geral do desfile na dispersão em 1985 (Foto de Sebastião Marinho)
O dinheiro, que não faltava, fez Fernando Pinto brincar em seus delírios. As alegorias cada vez maiores e com designs arrojados, investindo nas formas vazadas e futuristas. As baianas irreverentes e joviais de perucas, capacetes e oncinhas ajudaram também no imaginário de uma agremiação arrojada. O tiro final desse casamento seria o antológico "Tupinicópolis", a lendária cidade índia do terceiro milênio, símbolo do retro-futurismo, marcaria a vanguarda Independente. A obra prima de Fernando Pinto, que morreria na preparação de 88, ainda trazia a irreverência do gênio ao propor o fim do Brasil em meio ao otimismo da constituinte.

"Ah vira virou, vira virou... A Mocidade chegou!"

Faceira e livre que só, a Mocidade não perdeu tempo no luto pelo grande amor cacheado que foi. Sua identidade jovem, moderna e vanguardista era uma realidade. Sabendo disso, um novo artista chegou virando a década de 90. Renato Lage chegou batendo cabeça para quem veio antes e assim fez história, uma nova história. Na revolução tecnológica, Renato Lage e Lilian Rabello dariam início a uma nova era de formas cleans e muito neon, em fetos e pierrôs que formariam toda uma nova geração Independente.
Uma das alegorias marcantes de Renato Lage na Mocidade, o feto de 1991.
Dos três artistas fundamentais na trajetória Independente, Lage seria o dono da maior e mais vitoriosa trajetória. Consagrada e protagonista, a Mocidade seria cada vez mais uma escola "jovem", e até sensual, como narram os sambas de 92 e 98. Grandes imagens marcaram este casamento entre criador e criatura, do menino com seu videogame à corações vermelhos. Foram treze desfiles que a agremiação passou de corpo e alma pela Avenida Brasil fazendo a Estrela brilhar e sonhar sem pagar nada, colorindo a avenida de verde, amarelo, azul-anil de Villa-Lobos. Ao som das bachianas e encantando a todos como um verdadeiro circo místico, Padre Miguel sempre esteve olhando por nós. 

"Sou independente sou raiz, também!"

Além de artistas visuais, a Mocidade contou com profissionais de diversas áreas dando sua personalidade a ela. Na música, após André, outro mestre que deixou sua história na "Não Existe Mais Quente", foi Mestre Jorjão. Na ala de compositores, Tiãozinho da Mocidade seria responsável por hinos campeões. Como em 1985, em parceira com Arsênio e Gibi, outros dois gigantes da composição. Tiãozinho também estaria na parceria responsável por 90 e 91 com Jorginho Medeiro e Toco, se firmando um dos mais importantes compositores da história da verde e branco.

O intérprete Ney Vianna.
Grandes intérpretes também passaram na agremiação. O mais emblemático deles foi Ney Vianna, que atuou primeiro de 77 a 83, retornando depois de 85 a 89. Embalou os dois primeiros títulos da escola e foi substituindo a altura por Paulinho Mocidade, que gravou em seu nome a herança de Padre Miguel. No título de 96, outro nome foi revelado: Wander Pires, que também estaria presente no título de 2017. Elza Soares, antes de todos esses, também levaria no gogó sambas da Estrela Guia e se fixaria com uma das maiores baluartes da escola.

Adele Fátima brilhou na frente dos ritmistas da escola.
Na arte das bandeiras, o bailado de figuras como Babi, a revelação de Lucinha Nobre ainda menina para se tornar uma das mais importantes porta-bandeiras da história e mestres-salas como Alexandre e Rogerinho Dornelles também riscaram o chão verde e branco. As grandes musas e rainhas de bateria marcariam também a sensualidade do povo da Zona Oeste. Adele Fátima foi a pioneira, a mulata de Osvaldo Sargentelli, que começou no fim da década de 1970 e permaneceu até 1984. A modelo Monique Evans chegou em 1985 roubando todos os flash para si e a lenda ajudou a eternizá-la como a primeira rainha de bateria, apesar de não ser verdade, a bela fez história. Anos mais tarde, Vivianne Araújo encantou a todos, antes de sua passagem pelo Salgueiro. E Thatiana Pagung mostrou seu carisma e simpatia a frente dos ritmistas. Hoje, Camila Silva dá conta do legado com sua beleza avassaladora.

"Da pioneira ergo a bandeira!"

A partir de 2003, a Mocidade encararia uma fase difícil sem Renato Lage. Depois da boa posição no carnaval assinado por Chico Spinoza, o fatídico ano de 2004, no controverso samba e enredo sobre a boa conduta no trânsito marcariam o início de uma era de treze carnavais fora do desfile das campeãs. Fruto de uma má administração, a escola passeou pela segunda parte da tabela. Passeando por bons carnavais, como os assinados por Cid Carvalho, com bons sambas, a desfiles catastróficos, comoe em 2009 e 2013. Nem mesmo a passagem de Paulo Barros por lá tirou o estigma. Hoje reerguida, a escola faturou seu sexto título através da viagem ao Marrocos, de Alexandre Louzada, marcando uma nova virada da sua trajetória, das tantas outras. 

O desfile campeão de 2017.
A Mocidade construiu em torno de seu nome a imagem jovem e vanguardista de uma escola "pioneira". Marcada desde sua bateria ao traço de grandes carnavalescos, assim a Estrela se fixou no imaginário e conquistou uma grande legião de apaixonados.

Referências para o texto: as crônicas de Fábio Fabato no livro "As Três Irmãs - Como um trio de penetras 'arrombou a festa'" e do livro "Estrela que me faz sonhar: histórias da Mocidade", de Bárbara Pereira.



Leia mais da coluna "Minha Identidade", saiba mais sobre a história que formou a personalidade da Imperatriz e da Beija-Flor

Processos da criação: Jack Vasconcelos - Do traço à mensagem, um carnaval com conceito

Por Redação Carnavalize

A contagem regressiva para a folia vai nos deixando mais ansiosos e, então, é tempo de desvendar barracões, descobrir os segredos e saber um pouco do que as escolas preparam. Por isso, mas também por pura curiosidade nossa (confessamos), preparamos uma série de entrevistas com carnavalescos focada em seus processos de criação. Queremos saber de tudo, desde os primeiros riscos até a materialização do projeto. 

Após passarmos pelo barracão da São Clemente para conversar com Jorge Silveira e na Acadêmicos da Rocinha, sob a companhia de Marcus Ferreira, chegamos a mais um galpão, o da Paraíso do Tuiuti. Jack Vasconcelos é o nosso alvo de hoje, venha conferir um pouco mais da trajetória do carnavalesco, que tem passagens por União da Ilha, Império Serrano e Estácio de Sá. Vem com a gente!

CARNAVALIZE: Você é formado pela EBA, teve um início trabalhando com outros carnavalescos como Chico Spinoza e Cahê Rodrigues, e a Escola de Belas Artes tem uma atuação muito forte no carnaval. Como você enxerga a formação da Escola com a festa e o seu trabalho dentro desse trânsito?

JACK: "Eu me interessei em estudar na EBA justamente por conta de profissionais que vieram dela e foram fazer carnaval…"

CARNAVALIZE: Então já era um desejo seu fazer carnaval, né?

JACK: "Era. Eu queria muito fazer e a primeira que me chamou a atenção quando eu decidi estudar pra isso, na época, foi a Rosa e ela era a professora das Belas Artes. Então pensei: 'nossa! Belas Artes… preciso saber como é, onde fica, o que comem…' (risos). Fiz Artes Cênicas, que inclui Cenografia e Indumentária, e aí a partir da figura da Rosa, na verdade, é que eu fui perceber outros profissionais. Eu conheci o Fernando Pinto, que é a primeira referência que eu tenho de carnavalesco porque o primeiro carnaval que me chamou atenção foi o do Fernando mas eu não sabia que era o Fernando porque eu era pequeno. E aí veio o João, que tinha aquela máquina de mídia em cima dele, então era natural que eu soubesse quem era Joãosinho Trinta e o quê ele fazia, e fui ver o que era essa EBA. Veio a figura do Pamplona e da Maria Augusta, a Lícia, e veio a confirmação de que era pra lá mesmo que eu tinha que ir. Antes de prestar vestibular, depois de um papo que eu tive com o Joãosinho Trinta, na Viradouro, eu me matriculei no curso de Desenho Artístico, no Liceu de Artes e Ofícios, e fiquei lá por aproximadamente três anos; só saí do Liceu pra Belas Artes.

Só de eu comentar como os profissionais da EBA me influenciaram a dar esse passo, olha como isso é significativo pra instituição. O pessoal fala muito da contribuição lá na década de 60 e 70, mas ela continua. Existe muita gente que quer trazer o acadêmico pra cá. O diamante nasce e a gente quer uma lapidação feita da forma correta; é o que diferencia o desenho da criança pro desenho do Miró. Uma coisa é você desconstruir sabendo o que você tá fazendo, você precisa construir para desconstruir. Se você já fizer desconstruído, então é porque você não sabe edificar. Olha como ela influencia no geral, sabe? E eu percebo isso ainda hoje, isso é atuante, as pessoas ainda vão atrás disso e procuram a EBA e ela continua amamentando a gente, porque a gente se forma mas os laços continuam lá."

CARNAVALIZE: Você é um carnavalesco muito preocupado com o conceito e isso envolve um longo e cuidadoso processo de pesquisa. Como você monta este panorama de referências e ajusta o molde do seu desfile?

JACK: "É interessante como as pessoas veem a gente de fora, né?! Como eu venho de uma formação acadêmica é natural que eu tenha um conceito pra arrumar o meu processo criativo, então estou acostumado, não consigo mais desvincular uma coisa da outra. Tenho uma história pra contar e eu preciso escolher um caminho para aquela história…"



CARNAVALIZE: Mas você vai pela Literatura primeiro, opta pelo visual ou é algo muito híbrido?

JACK: "Depende muito, tem coisas coisas que começam de um jeito, tem coisas que começam de outro. Eu sempre monto uma trilha sonora (esse ano não montei) pra cada enredo e eu vou ouvindo aquela trilha e vou desenhando, vou lendo e aquilo vai nascendo com aquela música. Eu tenho playlist pra todos os meus enredos. Tinha um exercício que eu adorava fazer no Liceu, que era pra soltar a mão, e aí era um cavalete e pegávamos um carvão, nos vendávamos e colocavam uma música. E aí, a gente deixa a mão fazer o movimento do que a gente tá sentindo; você não sabe o que vai sair daquilo e você não pode tirar a mão do papel. A vibração do traço acompanha a vibração que chega pelo ouvido e o ritmo da música vai influenciando o teu punho. É muito legal! Eu adorava aquele exercício! Pensar com harmonia, pensar musicalmente — e eu sou um cara que sou muito influenciado por música — é natural ser uma influência no meu trabalho de carnaval. Então, trouxe isso pros meus desenhos, pras minhas criações. Eu consigo visualizar meus enredos como um filme, como uma história que tem início, tem o meio dramático com conflito e tem o fim."

CARNAVALIZE: Já falando sobre suas referências, parece que a cor é, depois da música que você revelou agora, tão importante quanto. Já ouvimos algumas vezes você teve dificuldade, no início, de materializar todo esse trabalho de cores, que não tinha material suficiente. Como você olha pra esse tapete cromático da escola?

JACK: "Teve uma palestra que assisti na EBA, num evento anual em que os alunos produzem, e levaram o Roberto Szaniecki. Ele estava com o enredo dos sete pecados capitais e tinha levado os desenhos. Alguém perguntou sobre cor, e lá na EBA a gente tem uma liberdade enorme, produz cores inimagináveis… só que pro carnaval a gente precisa pensar nisso pra uma produção em larga escala porque eu não compro um metro de tecido, eu compro mil metros. Então, eu preciso produzir essa cor, dentro de fornecedores que por vezes têm opções limitadas, e no papel é maravilhoso; ele aceita tudo, vai qualquer coisa. A realidade é um pouco diferente.

O carnavalesco Roberto Szaniecki conhecido por sua passagem pela Grande Rio.

Mas fato é que perguntaram sobre cores e ele pegou uma maletinha e abriu. Quando ele abriu, era cheia de hidrocor que de um lado é um pincel e do outro a ponta é seca; ele também é aquarelável. E aí ele explicou pra gente: todas as cores que encontramos em hidrocor dá pra achar em qualquer fábrica, porque são cores industriais, o que é mais fácil do que bolar uma cor ou um degradê em determinado tecido. E aquilo resolveu os meus problemas (risos), era incrível.

CARNAVALIZE: Ainda sobre esse assunto, você acabou de comentar que viu os desenhos do Szaniecki numa época em que nada era digitalizado. Como é sua relação com o papel? Você faz tudo do seu processo de fantasias e alegorias nele ou se vale do artifício da tecnologia pra te auxiliar?

JACK: "No processo das fantasias eu uso só o papel, meus livros, algo que eu tenha visto na internet. Já as alegorias, como fazem parte de um processo mais elaborado, eu conto com a ajuda do computador por ser algo mais técnico, cálculos mais exatos… mas o projeto, a ideia, o esboço da alegoria nasce também no papel."

CARNAVALIZE: Falando sobre sua trajetória, você construiu uma carreira longa e bem reconhecida no Acesso. Como foi ter que moldar seu processo de criação aos improvisos dentro das limitações orçamentárias do grupo e como isso foi, de certa forma, uma escola que te alavancou para ser mais "consciente" no trabalho no Grupo Especial?

JACK: "Olha, isso é uma realidade que acompanha a arte, quem faz teatro, quem faz cinema, quem faz TV, quem faz Grupo Especial… todo mundo passa pelo mesmo problema. A diferença está nos números, é a quantidade de coisas que você tem que resolver porque o projeto é maior, mas a demanda de problemas é quase equiparada. Uma festa se vende pela dificuldade e a outra pelo glamour, então as pessoas não diferenciam muito isso. Não estou desmerecendo o que eles passam lá, mas o que estou querendo dizer é que os problemas existem e são quase os mesmos praticamente, que é o fornecedor que não tem o material pra você, o orçamento que não chega ao que você precisa pra colocar o carnaval na rua e você tem que repensar o efeito…"

CARNAVALIZE: Muitas vezes, as pessoas entendem que a criação e a gerência de barracão são processos separados. Como isso funciona pra você, se são os mesmos processos?

JACK: "Isso depende do método de atuação de cada carnavalesco. Tem uma galera vindo de uma produção televisiva, ou de algo que tenha outro processo. Talvez o comportamento em relação ao projeto seja outro. E também tem a galera que vem do processo manual. O cara que é artista plástico, que tem mais a alma de barracão, tem o prazer de estar com o ferreiro, o carpinteiro... Essa proximidade depende de como cada um vai administrar isso. Eu gosto disso aqui, sei da minha responsabilidade em relação ao visual da escola e prezo muito por isso, não sou um carnavalesco de quadra. Aqui, por exemplo, só fui para lançar a sinopse esse ano. Os holofotes eu deixo pros outros."

CARNAVALIZE: Ainda tratando sobre sua trajetória, você tem uma passagem muito marcante pela União da Ilha no Grupo de Acesso. Foi um ponto marcante da sua carreira, onde você começou a ganhar destaque. O que você comentaria sobre essa passagem?

JACK: "A Ilha foi primordial para a formação do Jack como carnavalesco. Eu era um carnavalesco a caminho antes da minha passagem, numa transição. Não que a gente 'se forme' e acabe, a gente tá sempre se transformando. Mas assim, em termos de estilo, de maturidade e segurança, compreensão do mercado... Eu não tinha esse preparo, era assistente. Nesses anos de Ilha, tive uma parceria muito grande com o diretor de carnaval, na época, Márcio André, ele me mostrou as coisas. Não fui jogado num ninho de cobras e 'se vira', isso até me prejudicou no futuro, em passagens por outras escolas, por achar que sempre seria assim. Era uma escola em que todo mundo se abraçava, e eu fui abraçado pela Ilha. Eu tinha mais frequência na quadra, porque tinha um ateliê funcionando lá. Fazíamos os protótipos lá, as costureiras e aderecistas eram todos da comunidade, baianas ou velha guarda. Chegava de noite, o pessoal responsável pelas alas da comunidade ia do trabalho para a quadra ajudar na reprodução das fantasias. Era um esquema muito familiar, sabe?! E eu achava que toda escola de samba era assim... eles brigavam para fazer o melhor pra escola. Era uma concorrência saudável.

Em 2008, Jack assinou a reedição do clássico "É hoje!"


Depois que eu saí da Ilha, caí numa realidade muito diferente: gente querendo tirar as coisas, e não colocar, isso foi um choque. O lado bom foi que a Ilha me mostrou uma consciência de comunidade, de um projeto amplo. Que não é só minha fantasia ou minha alegoria, eu era muito focado nisso, como tive contato com todos os segmentos, conhecia todos os passistas, toda a velha guarda... Isso ampliou minha consciência do meu papel dentro de uma escola de samba. A Ilha foi fundamental pra mim!"

CARNAVALIZE: Em 2007, você chega ao Império Serrano para assinar "Ser diferente é normal - O Império Serrano faz a diferença no carnaval". De que maneira aquele carnaval é traumático pra você? Quais dificuldades você enfrentou no processo de condução e criação daquele projeto?

JACK: "Não sei dizer o que fez e o que faz uma escola cair. As escolas trabalham pra fazer o melhor possível, não é só uma questão visual, é como um todo. Eu sou muito satisfeito com a parte visual, pois a perspectiva era tenebrosa. O enredo não era meu, mas a escola não me obrigou a seguir determinado desenvolvimento. Eu já cheguei sabendo que iria falar sobre aquele assunto. Havia uma promessa de patrocínio que não veio. Pegamos um barracão onde diziam que podíamos zerar os chassis das alegorias. Recém-chegado da União Ilha, eu achava que todo mundo dizia a verdade: zerei os carros. Hoje, o Jack mais experiente não faria isso em escola nenhuma até saber como se encontra o terreno.

Abre-alas do Império Serrano em 2007.

Nisso, as coisas começaram a se atropelar. O dinheiro prometido não veio e a escola sofreu muito, como um todo. Uma coisa é projetar um desfile lindo, o projeto era muito bacana, a escola gostava muito, estava contente em fazer, e de repente não ter nada. Minha sorte foi ter sobras de materiais de outros carnavais para conseguir concluir o projeto. Ali foi um grande choque, o primeiro choque de realidade. Tentamos fazer outra coisa, muita gente enxerga o Império como uma escola antiga, envelhecida... O Império é uma escola de vanguarda, enquanto muitas pessoas colocam a escola como se cheirasse a naftalina."

CARNAVALIZE: Depois de 2017, como você vê o esgotamento do modelo atual dos desfiles, no sentido do fazer e pensar carnaval? Quais as soluções você vê?

JACK: "Eu acho que esteticamente a gente fica um pouco amarrado por conta do regulamento, eu sinto necessidade de quebrar esse bloco de cinco carros e cinco, seis alas entre eles. Gostaria que tivesse um outro tipo de conta nesse sentido, porque as vezes um carro grande não me ajuda muito. Ás vezes pra eu passar melhor uma mensagem, um carro menor ou uma composição de alguns mobiles, algumas coisas fazendo uma paisagem, pra mim já seria o suficiente e ficaria mais harmônico com as alas no entorno. Eu sinto falta de poder mexer nessa paisagem do desfile, sinto essa necessidade."

CARNAVALIZE: Alguns enxergam que as questões da interação e do envolvimento do público são muito importantes. Como você avalia isso? Como é, pra você, o uso de carros coreografados?

JACK: "A interação do público é algo muito discutível, porque você colocar como depois da era do Paulo Barros que as coreografias se convencionaram, de ter algum carro coreografado pra chamar o público, isso às vezes funciona, às vezes não. Às vezes o público só olha e 'ah, passou, ótimo'. Interação com o público se faz no momento anterior à festa, divulgando o samba e fazendo as pessoas se interessarem por aquele enredo e aquele samba. Então você vê uma escola que tem um carro coreografado e o resto livre, o público responder muito mais. Às vezes uma escola se apresenta e o publico senta pra olhar, encarar aquilo só como espetáculo e aí ele não se vê como parte integrante daquilo. Isso é relativo. Eu não busco necessariamente a interação com o público, mas passar melhor a mensagem do meu enredo para que o público se identifique com isso."

CARNAVALIZE: E como isso funcionará no desfile de 2018?

JACK: "A gente vai criando esse diálogo assim, naturalmente. Esse ano especificamente, por ser um enredo que eu preciso que as pessoas entendam certas mensagens, estou lançando mão de uma dramatização maior. Então praticamente todos os carros têm algum núcleo que faz alguma coisa, mas não é uma coreografia, é uma representação em conjunto. Me ajuda esse ano pelo enredo ter a ver com trabalhadores, mas cada caso é um caso. Eu procuro não ter uma ideia fechada sobre nenhum tipo de recurso."


CARNAVALIZE: Você vem de três carnavais marcantes pela Tuiuti, com enredos de forte conteúdo cultural e artístico. Você sente que aqui na escola há mais liberdade de propor seus enredos?

JACK: "Tenho sim, até agora estou tendo bastante. Houve um pedido especial esse ano para que eu falasse de alguma temática africana ou afrodescendente, foi então que sugeri a questão da Lei Áurea, mas falei 'eu vou fazer a minha Lei Áurea'. Assim nasceu o enredo. Aqui, desde que eu cheguei, tenho uma liberdade maior de sugerir os temas, não que eu não tivesse em outras escolas no desenvolvimento." 

CARNAVALIZE: Como você trabalhou isso em escolas com um enredo já entregue, assinando apenas o desenvolvimento?

JACK: "Vou dar um exemplo, 'Viajar é Preciso', na Ilha, em 2009. A escola precisava falar sobre viagens, sobre turismo. Pouco depois que chegou esse pedido pra mim, o Cristo Redentor foi eleito uma das 7 maravilhas do mundo moderno, um dos colaboradores ativos daquela época na escola era o presidente do Trem do Corcovado. Nisso, a escola me pediu se eu poderia colocar o Cristo de alguma maneira no enredo. Então eu tinha essas coisas pra cumprir: viagem, turismo e Cristo. Tá, vamos lá! Eu fiquei na minha casa ouvindo músicas, vendo uns filmes, então eu lembrei de um enredo que eu vontade de desenvolver sobre o Júlio Verne. Daí eu podia ir pro Santos Dumont, que leu muito o Julio Verne e foi influenciado por ele, chegando a Dumont inventando o 14 Bis e chegando ao Cristo."

Abre-alas da apresentação de 2009 da tricolor insulana.

CARNAVALIZE: Nessa parte da entrevista, gostaríamos de saber se você acha que nessa passagem pela Tuiuti você conseguiu atingir uma maturidade artística com o reconhecimento do meio carnavalesco. Esse reconhecimento já veio antes?

JACK: "Eu vou trabalhando e não percebo essas coisas, cada ano é um ano e eu vou fazendo. O resultado disso não está na minha mão. Como eu tive uma liberdade maior com os enredos, no intuito de sugerir o tema principal e a escola foi acatando, eu consegui mostrara cara do Jack por completo. Eu fiz muitas outras coisas que também são minhas, a minha cara tá lá, mas eu não vejo uma coisa 100% porque não era ideia minha fazer aquilo inicialmente. Era meio que uma encomenda, de certa maneira tudo é uma encomenda também... Esses enredos que chegam assim, sugeridos, me davam um calafrio porque eu tinha medo de me transformar nisso, de olhar aquele roteiro sugerido e pensar 'que droga', ter que fazer aquilo e ter que assumir aquilo pra mim. Quem manda a gente fazer não tem consciência do mal que nos faz ter que ficar dando entrevista durante meses como se aquilo fosse o máximo. Aqui na Tuiuti nesse últimos projetos, como eram projetos que eu tinha muita vontade de fazer, saíram com a minha identidade e aí as pessoas me viram melhor."

CARNAVALIZE: Pra finalizar, a gente enxerga exatamente a continuação desse trabalho e pergunta sobre o enredo de 2018, que passeia por um momento histórico e chega na atualidade, com a critica politica. Qual mensagem final você quer deixar nesse desfile?

JACK: "Eu espero sinceramente que as pessoas tenham mais consciência do coletivo, isso seria muito bom. Porque nós fazemos parte de um coletivo, essa propaganda que a gente é bombardeado diariamente com o "personal" é uma grande mentira. Nós somos um corpo só, nós somos células de um corpo. A gente espera que com esse tema as pessoas pensem um pouquinho nisso, de ter essa consciência de que o próximo é tão importante quanto você, porque a minha ação provoca no próximo mesmo eu nem vendo. O enredo no fundo fala disso. A gente tá falando da exploração do próximo, então se existe esse olhar de que o próximo merece ser explorando. Existe uma ideia de superioridade, existe um 'eu sou importante e o próximo não é'. A gente tá batendo nessa tecla de que isso tem que deixar as pessoas mais ligadas."

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Minha primeira vez... Com Leonardo Bessa

Por Vitor Melo

Você se lembra da sua primeira vez no Sambódromo? Seja aqui no Rio, na Marquês, em São Paulo, no Anhembi ou em qualquer outro estado que também cultive um dos nossos maiores patrimônios culturais, o  carnaval. Para nós, que amamos essa festa e toda essa atmosfera que a envolve, acredito não existir alguém que não lembre sem um certo tom e ar nostálgicos de sua primeira vez, afinal, diz-se que da primeira vez ninguém se esquece. E, como a voz do povo é a voz de Deus, vamos em busca de descobrir se os personagens da folia lembram de sua primeira vez, não só como artistas da festa, mas também, de quando eles eram como nós, foliões.


Foto: Alex Nunes/Divulgação: Salgueiro



Intérprete oficial do Acadêmicos do Salgueiro desde 2010, Leonardo Bessa começou logo criança nos cortejos momescos. E, desde pequeno, sempre esteve onde pudesse soltar a voz. Num ano em que a Academia do Samba vai falar das "Senhoras do ventre do Mundo inteiro", a "primeira vez" do nosso participante não poderia ter sido diferente. Bom... como eu costumo dizer, a minha primeira experiência no carnaval não foi na Sapucaí, foi na presidente  Antônio Carlos, na barriga da minha mãe, no carnaval de 1974, onde o Salgueiro apresentou o enredo "O Rei de França na Ilha das assombrações". Mostrando que a vermelha e branco tijucano sempre conversou e, principalmente, encontrou-se nessa temática, há quase 45 anos, pé quente Bessa já "estreou" campeão. Fomos campeões, eu nasci naquele ano e minha mãe desfilou comigo na barriga. E, mesmo depois de nascer, a ligação com o carnaval continuou, nutrido, especialmente, por sua mãe. 


Desde criança, eu sempre gostei de acompanhar os desfiles das escolas de samba pela televisão e, logicamente, como toda criança, também sonhava em participar daquela grande festa... E o destino resolver realizar tal desejo e começou já pela infância. Em meados dos anos 80, onde eu tive a primeira oportunidade na escola mirim Alegria da Passarela, lugar em que começou, de fato, a minha integração com o mundo do samba, com o mundo do carnaval, embora já tivesse frequentado quadra de escolas de samba - como Arrastão de Cascadura, Unidos de Padre Miguel e Portela. Nessa última, Bessa se lembra inclusive de um presente um tanto quanto especial que ganhou, um tamborim direto das mãos do mestre MUG da Portela, grande sambista da Majestade do Samba.

Foto: Alex Nunes

Quem o vê, hoje, estabelecido em uma das maiores escolas de samba do carnaval, talvez não saiba quanto Bessa percorreu pela vielas carnavalesca até poder soltar, finalmente, seu grito de guerra. É, realmente... minha primeira experiência como intérprete de apoio - que pouca gente sabe -, foi no Arrastão de Cascadura, no Grupo B na Sapucaí em 98. Fui apoio do Tiãozinho Cruz. E depois na São Clemente, como apoio, a partir de 2002. Só de poder estar soltando a voz já no chão sagrado do samba, dá pra perceber o quão importante foi esse processo. Só, entretanto, dois anos depois de sua estreia como apoio na amarelo e preto da zona sul, Bessa conseguiu sentir o gostinho de soltar seu conhecido, atualmente, grito. Tá bom!? Já foi uma emoção muito grande de poder estar cantando na Sapucaí e, no primeiro ano, que eu pude dar meu grito de guerra, que foi no carnaval de 2004 no Arranco de Engenho de Dentro foi realmente a certeza de que muita coisa ia mudar dali pra frente... 

Junto de um microfone principal de escola de samba, existem muita cobrança e responsabilidade e Bessa estava ciente e da necessidade de se aprimorar. Sem dúvidas, é uma responsabilidade grande, né!? E, ao longo dos anos, com certeza, eu fui procurando amadurecer mais o meu trabalho, aumentando o aprendizado e a cada ano sempre buscando mais conhecimento e o aperfeiçoamento. Deu pra perceber a importância do Arranco nessa trajetória, mas foi só na São Clemente, escola em começou trabalhando como aderecista, botando a mão na massa no barracão, que ele conseguiu soltar sua voz, finalmente, no grupo especial. A São Clemente foi uma grande escola na minha vida, onde eu aprendi muita coisa, comecei lá trabalhando no barracão, como aderecista; Fui cavaquinista, compositor, intérprete de apoio... E, no carnaval de 2006, oficializado como cantor principal da escola. Depois de dois anos, comandando as bandas por lá, chegara, finalmente, a primeira vez que soltaria seu grito de guerra no grupo especial, em 2008, depois de ser campeão no extinto grupo A em 2007 com o enredo "Barrados no baile". Foi realmente uma emoção incrível, algo imensurável. 2008 foi um ano muito marcante na minha vida e é, de fato, algo que eu não me poderei esquecer jamais.



Foto: Alex Nunes


Se engana quem pensa que Leonardo só cantou aqui pelos perímetros cariocas, Bessa já soltou sua voz em outros carnavais além da festa de momo da cidade maravilhosa - como os carnavais de Amazonas, de Uruguaiana, de Niterói e de São Gonçalo. Indo para o seu oitavo carnaval à frente do microfone salgueirense, Bessa é o único remanescente do trio formado àquele carnaval de 2011 com Quinho e Serginho do Porto. Ao lado de Hudson Luiz, Tuninho Jr e, desde 2013, Xande de Pilares, o intérprete parece mais maduro do que nunca e ciente do que se tem de fazer para permanecer à frente do carro de som da Academia, mas também bastante agradecido. Eu me sinto realizado, feliz, embora saibamos que, a cada ano, precisamos estar sempre trabalhando em alto nível. Como intérprete, estando a frente de uma escola como o Salgueiro, que tem muitos fãs e torcedores por esse Brasil afora, a responsabilidade é triplicada, e eu sei que a cada ano a cobrança é grande, mas, com certeza, Deus não dá um fardo maior a quem não consiga carregar. Se estou lá, é porque sou digno de estar frente dessa escola e faço de tudo, do meu melhor para representar essa escola da melhor forma possível.


Além da função intérprete, Bessa é um dos responsáveis pela produção do CD do grupo de acesso há quase 20 anos, salvo o ano de 2016. Ganhador de um disco de ouro pela produção de 2017, o produtor-intérprete-adericista sabe que a cobrança em proporção da qualidade oferecida. Quando você faz um trabalho de qualidade, a cobrança sempre é grande. são quase vinte anos fazendo esse projeto do grupo de Acesso, esse CD, que muito me envaidece... Por fim, sem dúvidas, é nítido o orgulho de que Bessa possui de deixar, de alguma forma, uma contribuição para a história do carnaval, buscando sempre o aperfeiçoamento. Acima de tudo, me sinto muito honrado de poder de alguma forma estar colaborando para o carnaval, tanto eu como a minha equipe e, ao longo dos anos, a gente procura melhorar mais e mais.

Salve a Academia do Samba! Tá bom? Tá bom? Então... Tá bom a beeeessa!

Essas foram as "primeiras vezes" do Leonardo Bessa, intérprete premiado no carnaval. Bessa, atualmente, defende o pavilhão vermelho e branco mais sinérgico do mundo do samba com sua voz. Espero que tenha gostado e sinta-se livre para opinar em nossas redes sociais - ou na minha, inclusive - sobre quem você gostaria de ver nesse quadro. Quer ler os quadros anteriores com Igor Sorriso, intérprete da Vila Isabel ou com a rainha de bateria nilopolitana, Raissa de Oliveira? É pra já! Igor Sorriso, clique aqui. Raissa, clique aqui






O relato sobre minha primeira vez e como escolhi, pelo resto de minha vida, o meu Torrão Amado, o Acadêmicos do Salgueiro? Aqui.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

5X Vila: sambas engajados do povo de Noel

Por Leonardo Antan 


"Azul por fora, mas vermelhinha por dentro" é uma máxima que ajuda a definir a história da Unidos de Vila Isabel. Apesar da coroa como símbolo e o nome nobre, a Unidos de Vila Isabel não tem nada de monárquica. Pelo contrário, durante sua trajetória de mais de 70 anos, a agremiação se destacou ao longo da sua história por sambas engajados, que versam sobre os direitos universais, os trabalhadores  e as desigualdades sociais. Sempre se posicionando à esquerda, a azul é branco mostrou que a cor que pulsa mesmo dentro de si é o vermelho. Entendendo e respeitando isso separamos cinco sambas sociais do povo de Noel. 


1) 1972 - Onde o Brasil aprendeu a liberdade
"Vamos preparar lindos mamulengos pra comemorar a libertação..."


Martinha da Vila não carrega o nome do místico bairro carioca à toa. Se é da personalidade da agremiação sambas com pegada social, muito vem da consciência política do cantor que nunca escondeu seu posicionamento. O primeiro encontro entre esses interesses é de 1972, quando em pleno regime militar, a azul e branco marcou sua oposição ao governo de maneira sutil num samba de Martinho que passeava pela liberdade na história brasileira numa época em que a população era privada de muitos direitos e principalmente da liberdade de expressão. O conteúdo político é expresso no conteúdo histórico do samba, um belo exemplo de discurso velado que buscava driblar a censura. A escola da Zona Norte conseguiu um confortável 6º lugar e deixou na história o lindo samba que já regravado algumas vezes.


3) 1989 - Direito é Direito
"A Declaração Universal não é um sonho, temos que fazer cumprir
A justiça é cega, mas enxerga quando quer..."



Após o título arrasta-quarteirão de 1988, que também tem seu lado esquerdista, a escola de Noel seguiu a pauta apresentando um samba forte e dando continuidade na luta pelo direitos depois do grito pelo igualdade racial. Por trás desse período, além do já citado Martinho da Vila estaria uma personagem pouco falada, mas de extrema importância, a presidente Ruça liderou a agremiação entre 87 e 90, anos de enredos mais marcantes neste sentido. O samba de letra emocionante sobre a Declaração dos Direitos Universais embalou um desfile correto, que começou marcante com uma comissão de frente formada por grávidas, garantindo o estandarte de ouro daquele ano. Apesar da plástica mais simples, foi um desfile empolgado e valente que conquistou um honroso quarto lugar num dos anos mais turbulentos da história carnavalesca.


3) 1990 - Se essa terra, se essa terra fosse minha…
"É a Vila a cantar que felicidade é dividir
Com igualdade pra reforma, reformar..."


Encerrando a trilogia histórica presidida por Ruça, iniciada dois anos antes, a Vila apresentaria um enredo igualmente contestatório, misturando crítica à reforma agrária com um panorama histórico sobre as terras brasileiras, desde à colonização até às desigualdades que ainda vigoram no país. O belo samba-enredo foi escolhido após uma disputa de samba polêmica, mas se mostrou de grande qualidade na avenida, defendido mais uma vez pelo inesquecível Gera. A estética assinada por Ilvamar Magalhães dava sequência a um visual mais simples de materiais baratos. Entretanto, infelizmente, algumas alegorias deram problemas durante o desfile impedido uma melhor posição da agremiação, que amargou um décimo segundo lugar.



4) 2008 - Trabalhadores do Brasil
"Hoje é dia do trabalhador que conquistou o seu lugar
E vai nossa Vila, fazendo história pra luta do povo eternizar"


Depois de um longo período, o samba de 2008 sobre os trabalhadores brasileiros resgatou, em certa medida, a vertente social na agremiação. Afinal, nada mais adequado pra uma escola com uma história de luta como a que estamos contando, levar pra avenida a luta das conquistas trabalhistas desde a colonização. A curiosidade é que o enredo acabou levando o mesmo título que a apresentação de 1951, ambos referências aos discursos do presidente Getúlio Vargas. O povo de Noel, que tinha sido campeão dois anos antes, fez uma apresentação na média. O carnavalesco Alex de Souza fez um belo trabalho nos quesitos estéticos, com alegorias de bom gosto e um desenvolvimento correto do enredo. Apesar de agradável, o samba não tinha nenhum brilhantismo e não cumpriu seu papel na hora do desfile. Somou-se a isso ainda, problemas de evolução com a demora na entrada do último carro, fatores que fizeram a escola terminar em nono lugar.


5) 2016 - Memórias do Pai Arraia - um sonho pernambucano, um legado brasileiro
"Pra ver na avenida, meu valor na mensageira Vila
gente aguerrida que defende a tradição do seu lugar
um Movimento de Cultura Popular..."


A volta de Alex de Souza, que após a chegada em 2008 permaneceu até 2010, marcaria o retorno de mais um enredo que flertaria com as lutas sociais, numa homenagem a um dos principais líderes da esquerda na história brasileira. A homenagem sugerida por Martinho da Vila ao centenário de Miguel Arraes permeava o legado político e cultural da atuação do político no estado de Pernambuco. Vindo de carnavais problemáticos, a azul-e-branca acabou se superando e fazendo uma apresentação na garra e na força. Com um excelente samba composto por nomes de peso como Martinho da Vila, André Diniz, Mart'nália, Arlindo Cruz e Leonel embalando um desfile alegre e aguerrido com uma plástica correta que terminou em oitavo lugar.



Além das dicotomias políticas, o carnaval deve ser a festa da liberdade e da pluralidade. Por isso, é louvável uma escola mostrar sua personalidade em temáticas diversas, celebrando assim diferentes enredos e visões que podem conviver harmonicamente. Assim, a Vila pode seguir trazendo as pautas sociais em diversos carnavais e outras agremiações mostrarem outros lados. Fato é que o azul e branco de Noel sempre vai ter uma mancha vermelha orgulhosa, graças a Martinho, Ruça e outras figuras. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

QUASE UMA REPÓRTER: Paulinha Penteado, o brilho de uma porta-bandeira na sua história

Por Juliana Yamamoto
Olá, seguidores do Carnavalize, tudo bom? A quase-repórter está de volta e a entrevistada de hoje vem lá da Escola do Povo! Tive o grande prazer e a honra de conversar um pouco com a primeira porta-bandeira do Vai-Vai, Paulinha Penteado! 

Paulinha é filha de Fernando Penteado, diretor de carnaval da Escola do Povo. Desde pequena, Paulinha frequentava os ensaios da escola, mas o seu destino já estava traçado para se tornar uma das maiores porta-bandeiras da história do Vai-Vai e da Terra da Garoa. 

No carnaval de 2005, defendeu o segundo pavilhão da agremiação, mas o futuro reservava grandes surpresas. Para o carnaval de 2006, após a saída do primeiro casal, Paulinha foi promovida e teve o grande desafio de defender o primeiro pavilhão. Em 2018, ela comemorará 12 anos como primeira porta-bandeira do Vai-Vai ao lado do seu mestre-sala, Pingo. 

Na entrevista, pude conversar um pouco sobre sua longa história, sua parceria ao lado de Pingo e também os desafios que enfrentou por ser da família Penteado e substituir Renatinho e Fabíola. Também conversamos sobre sua forte relação com o Vai-Vai e também seus desfiles mais marcantes. 

Numa entrevista bem proveitosa, pude perceber o quanto Paulinha é uma mulher incrível, de opinião forte e, sem dúvidas, muito dedicada e simpática - o pavilhão da Saracura não poderia estar em melhores mãos.

Agradeço a Paulinha por toda atenção ao site Carnavalize! Torcemos muito pelo seu sucesso ao lado do Pingo. Também agradeço a assessoria de imprensa do Vai-Vai, em especial ao Mauricio Coutinho, que deu toda assistência no dia da entrevista. 

Espero que curtam a entrevista. Quaisquer sugestões e críticas são bem-vindas! Um beijo da quase-repórter e até a próxima!

OUÇA A ENTREVISTA ABAIXO:

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Do Setor 1 à Apoteose: Orfeu, o negro do carnaval - Viradouro 1998

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando dos antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro desfile de informações sobre a apresentação escolhida.

Hoje, vamos passar todos detalhes de um detalhe marcante da Unidos da Viradouro em seus áureos anos no grupo especial carioca sob a batuta do carnavalesco Joãosinho Trinta, a apresentação de 1998 que contava a história de "Orfeu, o negro do carnaval".


"Lá, onde a vida faz a prece"
Os antecedentes da apresentação

Em 1997, a Viradouro conquistava seu primeiro título no Grupo Especial apenas seis anos depois de chegar à "elite" da festa. Com a assinatura do genial Joãosinho Trinta, a escola de Niterói havia se consolidado com uma nova potência dos desfiles. Por isso, toda a preparação para 1998 foi cercada de muita expectativa e cobrança. 


Já no pré-carnaval, o grande samba da escola fazia sucesso no rádio e na mídia da época. Os ensaios em Niterói também se tornaram eventos a parte, disputados e grandiosos, já que o campeonato acabou chamando mais componentes e trazendo mais visibilidade para a agremiação. Além disso, a expectativa e o assédio midiático aumentaram quando Cacá Diegues escolheu a escola e seu desfile como cenário para o filme sobre Orfeu, que estava sendo gravado. O protagonista Toni Garrido e outros atores da produção desfilariam na vermelho e branco para a captação de imagens para o longa-metragem.

"É na magia do sonho que eu vou"
Os delírios de João Trinta
A Comissão de Frente da agremiação. (Foto; Widger Frota)
Quarta a desfilar da segunda de carnaval, a vermelho e branco de Niterói já começou a levantar a Sapucaí no grito de guerra do intérprete Dominguinhos do Estácio. A Comissão de Frente, comandada por Jussara Pádua, em dourado e nuances avermelhadas, representava a força divina do deus Apolo, que trazia o simbolismo do sol, a partir da figura daquele que era o pai de Orfeu, este último deus da música, talento dado por seu pai. No lugar da lira, símbolo musical da Grécia Antiga, os bailarinos traziam em suas vestes o violão, já dentro do hibridismo do enredo proposto por Joãosinho. 

Para explicar o enredo proposto por Joãosinho Trinta, é necessário uma bíblia a parte. A narrativa é uma das mais complexas e geniais do carnavalesco. Assim como em outros escritos enredográficos do artista, esta se dividia em diferente camadas, o que, a grosso modo, significa que eram três enredos em um só. Na mais profunda, havia o mito grego de Orfeu, deus grego da música e filho de Apolo; na segunda, havia a peça musical de Vinícius de Moraes, que atualizava o mito para os dias atuais, tendo como cenário uma favela carioca. Orfeu se transformava num sambista, compositor de uma agremiação que levaria à Avenida a história do carnaval, fechando assim a terceira camada do enredo. Um verdadeiro meta-enredo, de dois Orfeus, o grego e o carioca, além da história momesca. Ufa!

O abre-alas do desfile (Foto; Revista Manchete)
Apesar da complexidade, o enredo se desenvolveu bem e perfeitamente nas belas e gigantescas alegorias propostas por João, que iam sobrepondo as diferentes narrativas em níveis distintos. O enorme abre-alas trazia um favela carioca com ares de Olimpo, onde Djavan encarnava o personagem principal. As alas que seguiam alternavam o carnaval, a vida nos morros cariocas e a Grécia em figurinos volumosos e monumentais. A segunda alegoria era batizada de "O talento de Orfeu" e mostrava o cotidiano do personagem do morro como compositor de samba e seu talento com as mulheres, "seduzidas pela sua inspiração". Estes dois setores foram marcados por cores quentes, como o vermelho e o laranja. 

Apesar de requisitado, o galã facheiro só tinha olhos pra Eurípedes, seu verdeiro amor, que vinha representada na terceira cena da apresentação, fazendo a paleta do desfile entrar em tons mais pasteis e leves. O carro do amor entre os dois marcava o início de uma relação com os quadros e diversas formas de brincar carnaval ao longo da história, o primeiro a ser representada ali eram os Ranchos. Seguindo na história, o amor entre os dois se vê destruído com a morte de Eurípedes, na Grécia, onde ela é picada por uma víbora, enquanto na versão carioca uma bala perdida a atingia, "o zombido da fatalidade que atinge a cidade", esse lado triste da história era representado na folia através dos Bailes de Veneza. 
A alegoria "Grandes Sociedades: o reino de Hades" de Joãosinho Trinta (Foto: Widger Frota)

A chegada da parte mais densa da apresentação fez o carnavalesco optar por tons mais escuros, obviamente. Consternado com a morte de sua amada, Orfeu então mergulha no inferno de Hades para tentar recuperar a alma de sua amada. A alegoria que sintetizava o setor fazia alusão, por sua vez, à folia das Grandes Sociedades. Chegando ao sexto setor, o clima mais depressivo continuava: entregue à desilusão, Orfeu se lança na farra e cai no bloco das bancantes, ferozes mulheres que, furiosas por não terem o amor do belo, o jogam num "abismo da saudade", onde ele "voa para eternidade". Apesar da morte trágica do compositor, seu samba-enredo é aclamado e sua escola é coroada campeã "num desfile magistral", levando para a penúltima alegoria da agremiação "Corsos: Louvação de Orfeu". O desfile recuperava o tom animado em seu último quadro, contando também com cores mais alegres e da bandeira da escola, encerrando o desfile no oitavo carro, que celebrava a festa e a favela carioca, com a escultura de um grande Orfeu Negro.

"Tem no seu talento reconhecimento, num desfile magistral"
A explosão vermelho e branca em ritmo funk

O chão da Sapucaí se tingiu de vermelho, a cor do coração, e foi testemunha do amor viradourense. Inchada de componentes após o título, a escola foi embalada por um samba contagiante, que ganhou a voz de Dominguinhos do Estácio, quicou, avassalou e mobilizou a Avenida, convidando o público para fazer parte daquele coro. Se hoje notamos que os componentes mais se assemelham a soldados marchando que a brincantes carnavalescos, Orfeu era totalmente o oposto; desfilantes animados e soltos empolgavam as arquibancadas, que chegavam junto para a festa que acontecia ali, na pista. Mesmo com alguns problemas que conduziram a notas abaixo da pontuação máxima em harmonia e evolução, a Viradouro conquistou incontáveis corações e foi aclamada sob os gritos estrondosos de bicampeã. 
A última alegoria com um gigantesco Orfeu (Foto Revista Manchete)
Já o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Andrezinho e Patrícia, enfrentou dificuldades durante a apresentação. Ao bailarem, o chapéu de Patrícia caiu em frente a uma cabine de jurados, e chateados, o casal se retirou e se posicionou junto à bateria. A porta-bandeira, que estava grávida de cinco meses, não escondeu o desapontamento e a frustração. Na quarta de cinzas, durante a abertura dos envelopes, os jurados mostraram impiedade e descontaram pontos do quesito. 

A bateria de mestre Jorjão que, no ano anterior, inovou com a bossa funk, uma paradinha que arrebatou as arquibancadas, mas que foi gongada por críticos e jurados. Para 1998, a expectativa ficava por conta da manutenção ou volta da novidade do ano anterior. Com a escola já embalada pelo aclamado samba, mestre Jorjão aguardou o delírio do público na segunda passada do refrão principal e deu, por mais um ano, start naquela paradinha que fez a galera delirar: era mais uma integração entre o samba-enredo e o funk, irmãos genuinamente cariocas. Outra proposta da bateria da escola ficou por conta do baião, que também incendiou as arquibancadas, mas não os jurados, que viam as inovações como negativas para as baterias e para o gênero. Na hora de entrar no recuo, a orquestra popular da Viradouro manobrou de costas, algo que está sumindo dos desfiles na atualidade.


"E o samba do negro orfeu, tem um retorno triunfal"
O resultado injusto e consagração da apresentação

A quarta de cinzas reservou momentos de tensão para a escola de Niterói, apesar da confiança de que aquele tinha sido um desfile marcante e histórico, para ficar gravado nas páginas da agremiação. Mas, justamente como disse o poeta e parafraseou a Viradouro, tristeza não tem fim; felicidade, sim. A Viradouro começou perdendo pontos e a queda maior veio no quesito mestre-sala e porta-bandeira, onde os jurados canetaram o casal por conta da queda do chapéu da porta-bandeira Patrícia. O samba-enredo, tão elogiado, também foi muito penalizado e a taça escapou das mãos da campeã do ano anterior. O caneco foi dividido entre Mangueira e Beija-Flor, deixando um quinto lugar de consolação para a alvirrubra. No sábado das campeãs, o protesto dos que não entenderam o julgamento foi conduzido com uma faixa escrita "POR QUÊ?".
A faixada levada nos desfiles das campeãs.
"Orfeu, o Negro do Carnaval" é, sem dúvidas, uma das maiores apresentações da Viradouro em sua histórica passagem pelo Grupo Especial. Apesar de não faturar o campeonato, a força da agremiação e sua sinergia provaram que o amor estava mesmo no ar, embalado pelo talento de Joãosinho, na plástica, além de Jorjão e Dominguinhos, na música, conquistando assim o coração de todos. Infelizmente, a felicidade chegou ao fim com a injusta posição alcançada no julgamento, mas que não tira o brilho da apresentação que se tornou uma das marcas da vermelho e branco na Sapucaí. Em 2018, exatos vinte anos após tudo, a gente torce para que ele seja um dos motores para a Viradouro retornar ao lugar especial onde fez história. Ser Viradouro é a personificação da paixão.