terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Do Setor 1 à Apoteose: Orfeu, o negro do carnaval - Viradouro 1998

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan


"Do Setor 1 à Apoteose" propõe uma viagem completa por um desfile marcante da história carnavalesca, da concentração à Apoteose, passando dos antecedentes, contextos, histórias de bastidores e análise de todos os quesitos. Um verdadeiro desfile de informações sobre a apresentação escolhida.

Hoje, vamos passar todos detalhes de um detalhe marcante da Unidos da Viradouro em seus áureos anos no grupo especial carioca sob a batuta do carnavalesco Joãosinho Trinta, a apresentação de 1998 que contava a história de "Orfeu, o negro do carnaval".


"Lá, onde a vida faz a prece"
Os antecedentes da apresentação

Em 1997, a Viradouro conquistava seu primeiro título no Grupo Especial apenas seis anos depois de chegar à "elite" da festa. Com a assinatura do genial Joãosinho Trinta, a escola de Niterói havia se consolidado com uma nova potência dos desfiles. Por isso, toda a preparação para 1998 foi cercada de muita expectativa e cobrança. 


Já no pré-carnaval, o grande samba da escola fazia sucesso no rádio e na mídia da época. Os ensaios em Niterói também se tornaram eventos a parte, disputados e grandiosos, já que o campeonato acabou chamando mais componentes e trazendo mais visibilidade para a agremiação. Além disso, a expectativa e o assédio midiático aumentaram quando Cacá Diegues escolheu a escola e seu desfile como cenário para o filme sobre Orfeu, que estava sendo gravado. O protagonista Toni Garrido e outros atores da produção desfilariam na vermelho e branco para a captação de imagens para o longa-metragem.

"É na magia do sonho que eu vou"
Os delírios de João Trinta
A Comissão de Frente da agremiação. (Foto; Widger Frota)
Quarta a desfilar da segunda de carnaval, a vermelho e branco de Niterói já começou a levantar a Sapucaí no grito de guerra do intérprete Dominguinhos do Estácio. A Comissão de Frente, comandada por Jussara Pádua, em dourado e nuances avermelhadas, representava a força divina do deus Apolo, que trazia o simbolismo do sol, a partir da figura daquele que era o pai de Orfeu, este último deus da música, talento dado por seu pai. No lugar da lira, símbolo musical da Grécia Antiga, os bailarinos traziam em suas vestes o violão, já dentro do hibridismo do enredo proposto por Joãosinho. 

Para explicar o enredo proposto por Joãosinho Trinta, é necessário uma bíblia a parte. A narrativa é uma das mais complexas e geniais do carnavalesco. Assim como em outros escritos enredográficos do artista, esta se dividia em diferente camadas, o que, a grosso modo, significa que eram três enredos em um só. Na mais profunda, havia o mito grego de Orfeu, deus grego da música e filho de Apolo; na segunda, havia a peça musical de Vinícius de Moraes, que atualizava o mito para os dias atuais, tendo como cenário uma favela carioca. Orfeu se transformava num sambista, compositor de uma agremiação que levaria à Avenida a história do carnaval, fechando assim a terceira camada do enredo. Um verdadeiro meta-enredo, de dois Orfeus, o grego e o carioca, além da história momesca. Ufa!

O abre-alas do desfile (Foto; Revista Manchete)
Apesar da complexidade, o enredo se desenvolveu bem e perfeitamente nas belas e gigantescas alegorias propostas por João, que iam sobrepondo as diferentes narrativas em níveis distintos. O enorme abre-alas trazia um favela carioca com ares de Olimpo, onde Djavan encarnava o personagem principal. As alas que seguiam alternavam o carnaval, a vida nos morros cariocas e a Grécia em figurinos volumosos e monumentais. A segunda alegoria era batizada de "O talento de Orfeu" e mostrava o cotidiano do personagem do morro como compositor de samba e seu talento com as mulheres, "seduzidas pela sua inspiração". Estes dois setores foram marcados por cores quentes, como o vermelho e o laranja. 

Apesar de requisitado, o galã facheiro só tinha olhos pra Eurípedes, seu verdeiro amor, que vinha representada na terceira cena da apresentação, fazendo a paleta do desfile entrar em tons mais pasteis e leves. O carro do amor entre os dois marcava o início de uma relação com os quadros e diversas formas de brincar carnaval ao longo da história, o primeiro a ser representada ali eram os Ranchos. Seguindo na história, o amor entre os dois se vê destruído com a morte de Eurípedes, na Grécia, onde ela é picada por uma víbora, enquanto na versão carioca uma bala perdida a atingia, "o zombido da fatalidade que atinge a cidade", esse lado triste da história era representado na folia através dos Bailes de Veneza. 
A alegoria "Grandes Sociedades: o reino de Hades" de Joãosinho Trinta (Foto: Widger Frota)

A chegada da parte mais densa da apresentação fez o carnavalesco optar por tons mais escuros, obviamente. Consternado com a morte de sua amada, Orfeu então mergulha no inferno de Hades para tentar recuperar a alma de sua amada. A alegoria que sintetizava o setor fazia alusão, por sua vez, à folia das Grandes Sociedades. Chegando ao sexto setor, o clima mais depressivo continuava: entregue à desilusão, Orfeu se lança na farra e cai no bloco das bancantes, ferozes mulheres que, furiosas por não terem o amor do belo, o jogam num "abismo da saudade", onde ele "voa para eternidade". Apesar da morte trágica do compositor, seu samba-enredo é aclamado e sua escola é coroada campeã "num desfile magistral", levando para a penúltima alegoria da agremiação "Corsos: Louvação de Orfeu". O desfile recuperava o tom animado em seu último quadro, contando também com cores mais alegres e da bandeira da escola, encerrando o desfile no oitavo carro, que celebrava a festa e a favela carioca, com a escultura de um grande Orfeu Negro.

"Tem no seu talento reconhecimento, num desfile magistral"
A explosão vermelho e branca em ritmo funk

O chão da Sapucaí se tingiu de vermelho, a cor do coração, e foi testemunha do amor viradourense. Inchada de componentes após o título, a escola foi embalada por um samba contagiante, que ganhou a voz de Dominguinhos do Estácio, quicou, avassalou e mobilizou a Avenida, convidando o público para fazer parte daquele coro. Se hoje notamos que os componentes mais se assemelham a soldados marchando que a brincantes carnavalescos, Orfeu era totalmente o oposto; desfilantes animados e soltos empolgavam as arquibancadas, que chegavam junto para a festa que acontecia ali, na pista. Mesmo com alguns problemas que conduziram a notas abaixo da pontuação máxima em harmonia e evolução, a Viradouro conquistou incontáveis corações e foi aclamada sob os gritos estrondosos de bicampeã. 
A última alegoria com um gigantesco Orfeu (Foto Revista Manchete)
Já o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Andrezinho e Patrícia, enfrentou dificuldades durante a apresentação. Ao bailarem, o chapéu de Patrícia caiu em frente a uma cabine de jurados, e chateados, o casal se retirou e se posicionou junto à bateria. A porta-bandeira, que estava grávida de cinco meses, não escondeu o desapontamento e a frustração. Na quarta de cinzas, durante a abertura dos envelopes, os jurados mostraram impiedade e descontaram pontos do quesito. 

A bateria de mestre Jorjão que, no ano anterior, inovou com a bossa funk, uma paradinha que arrebatou as arquibancadas, mas que foi gongada por críticos e jurados. Para 1998, a expectativa ficava por conta da manutenção ou volta da novidade do ano anterior. Com a escola já embalada pelo aclamado samba, mestre Jorjão aguardou o delírio do público na segunda passada do refrão principal e deu, por mais um ano, start naquela paradinha que fez a galera delirar: era mais uma integração entre o samba-enredo e o funk, irmãos genuinamente cariocas. Outra proposta da bateria da escola ficou por conta do baião, que também incendiou as arquibancadas, mas não os jurados, que viam as inovações como negativas para as baterias e para o gênero. Na hora de entrar no recuo, a orquestra popular da Viradouro manobrou de costas, algo que está sumindo dos desfiles na atualidade.


"E o samba do negro orfeu, tem um retorno triunfal"
O resultado injusto e consagração da apresentação

A quarta de cinzas reservou momentos de tensão para a escola de Niterói, apesar da confiança de que aquele tinha sido um desfile marcante e histórico, para ficar gravado nas páginas da agremiação. Mas, justamente como disse o poeta e parafraseou a Viradouro, tristeza não tem fim; felicidade, sim. A Viradouro começou perdendo pontos e a queda maior veio no quesito mestre-sala e porta-bandeira, onde os jurados canetaram o casal por conta da queda do chapéu da porta-bandeira Patrícia. O samba-enredo, tão elogiado, também foi muito penalizado e a taça escapou das mãos da campeã do ano anterior. O caneco foi dividido entre Mangueira e Beija-Flor, deixando um quinto lugar de consolação para a alvirrubra. No sábado das campeãs, o protesto dos que não entenderam o julgamento foi conduzido com uma faixa escrita "POR QUÊ?".
A faixada levada nos desfiles das campeãs.
"Orfeu, o Negro do Carnaval" é, sem dúvidas, uma das maiores apresentações da Viradouro em sua histórica passagem pelo Grupo Especial. Apesar de não faturar o campeonato, a força da agremiação e sua sinergia provaram que o amor estava mesmo no ar, embalado pelo talento de Joãosinho, na plástica, além de Jorjão e Dominguinhos, na música, conquistando assim o coração de todos. Infelizmente, a felicidade chegou ao fim com a injusta posição alcançada no julgamento, mas que não tira o brilho da apresentação que se tornou uma das marcas da vermelho e branco na Sapucaí. Em 2018, exatos vinte anos após tudo, a gente torce para que ele seja um dos motores para a Viradouro retornar ao lugar especial onde fez história. Ser Viradouro é a personificação da paixão.
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