quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Minha Identidade: a vanguarda independente, um raio-x da Mocidade

Por Leonardo Antan


Somos definidos por nossas características individuais e por nossas peculiaridades, que nos tornam únicos no mundo. Com as escolas de samba, não é diferente. Desde a sua criação, trilharam caminhos que as configuraram e deram-nas particularidades que podemos observar atualmente. Por isso, o Carnavalize estreia a série que mostrará a construção da identidade de cada uma de nossas agremiações. Toda essa identidade é construída durante as histórias delas, não é algo fixo e imutável, mas em constante transformação. Afinal, o que constitui uma escola de samba? São seus desfiles, seus componentes - ou tudo isso junto?

Carnavalescos, presidentes, patronos, compositores, baianas, mestres de baterias, intérpretes, cada um dá sua personalidade e ajuda na formação de cada agremiação. Acreditando que nossas escolas de sambas são únicas e produtos da rica cultura nacional, vamos percorrer os caminhos e trilhos que a moldaram, dando sequência a essa série que propõe um raio-x da história de cada agremiação, definindo os fatores decisivos que a fizeram ganhar sua identidade própria. E hoje vamos mergulhar na vanguarda da Estrela de Padre Miguel. Vem com a gente erguer a bandeira e plantar essa raiz.

"E a paradinha de outros carnavais, sei que ninguém pode esquecer jamais"

Fundada em 1955, herdeira do Independente Futebol Clube e do bloco carnavalesco Mocidade Independente, a escola de samba da Zona Oeste chegaria ao Grupo Especial em seu segundo desfile, com "Apoteose ao Samba", que, como se sabe, todo o povo aplaudiu. Então veio a primeira das muitas viradas da Mocidade. Seu nome entrou pra história quando, pela primeira vez, uma bateria se calou diante do público. E a lenda fez o mestre, ou vice versa. 


Há diferentes versões sobre o surgimento da mística paradinha, a mais conhecida é que tudo foi um grande imprevisto, após Mestre André levar um susto e cair do chão. De verdade, sabemos que apesar do talento na liderança, o maestro não era lá um exímio ritmista, contrariando algumas máximas do meio. O melhor instrumento que ele tocava era seu apito, mas mesmo assim fez história. Além da paradinha, inovou ao introduzir o surdo de terceira e ao fundar a primeira bateria mirim do carnaval. 

E assim, a Mocidade surgiu no imaginário popular, com a maldosa máxima "a bateria que carrega uma escola". A bateria marcaria pra sempre sua história e seria do som dos tambores (ou o silêncio deles) a primeira pincelada do painel que formaria a agremiação. 

"Uma luz riscou o espaço sideral, fiz um pedido pra brilhar no carnaval"

Além da estrela de cinco pontas, a figura de um simpático Castor se tornou outro símbolo da escola da Zona Oeste nos últimos anos, estampando bandeiras e até alegorias de ensaios técnicos. E não podia ser por menos, se há uma figura fundamental para a trajetória da agremiação, ela se chama Castor de Andrade. Figura controversa do carnaval, Castor se tornou um dos "patronos" mais místicos da folia carioca. 


O bicheiro formado em Direito misturava a elegância de um gentleman de fala pausada  ao submundo da contravenção carioca, um verdadeiro Poderoso Chefão à brasileira. Sua importância não se restringe só a atuação na Mocidade, mas no carnaval como um todo. Junto com outros patronos, foi um dos responsáveis pela criação da LIESA, em 1984. Sua atuação na Zona Oeste do Rio logo o levou a "apadrinhar" a que se tornaria a principal escola da região, começando no carnaval de 1972. Foi responsável por levar e bancar os carnavalescos que mudariam a trajetória da verde e branca, afinal nem só de dinheiro é feita uma agremiação, é necessário um time de artistas para fazer a verdadeira revolução.

"Com as bençãos do divino, aconteceu o descobrimento do Brasil"

A trajetória e a identidade da Mocidade Independente são marcadas fundamentalmente pelo traço de diferentes carnavalescos que a moldaram durante sua história. O primeiro deles veio direto do Salgueiro, após comandar uma revolução que mudaria para sempre a estrutura da festa. Arlindo Rodrigues, dono de um traço barroco e inovador, traria pra agremiação toda sua vanguarda na utilização de novos materiais, como o acetato, as fitas metaloides.

O rigor histórico e estético de Arlindo, vindo de sua atuação no teatro, colocaria a Mocidade num novo patamar entre as co-irmãs. Agora, além da bateria de Mestre André, a escola concorria a pé de igualdade nos quesitos plásticos com as outras grandes da época. Nos enredos, ficaria marcada por ser uma escola sempre ligada a brasilidade. O eterno parceiro de Pamplona passaria pelo lado folclórico (Festa do Divino, 1974, e Brasiliana, 78) e pela africanidade (Mãe Meninha do Gantois, 76).
Alegoria do desfile campeão de 1979 (Foto: O Globo)
Em 1979, veio a virada definitiva. O esperado título confirmaria a escola como a nova potência da festa. Após o tricampeonato inédito da Beija-Flor, mais uma escola fora do hall das antigas quatro grandes arrombava a festa e consolidava uma nova era da folia carioca. No embalo de um carnaval cada vez mais espetacular, Arlindo recontou um enredo que havia feito no Salgueiro, em 1962, com um novo olhar. "Descobrimento do Brasil" trazia não só o lado histórico da chegada da colonização portuguesa, mas inseria um lado místico ao citar o deus Netuno. 

"Vejam quanta alegria vou levar, viver um sonho no espaço sideral"

Virou a década e veio uma nova Mocidade Independente. Arlindo saiu num trem com destino a Ramos e a Zona Oeste encontrou um novo amor nos cachos de um tropicalista. Após uma passagem de altos e baixos no Império Serrano, que foi do título a um rebaixamento, Fernando Pinto assumia a responsabilidade de assinar o carnaval da escola. Depois do enredo clássico de Arlindo, o artista do movimento marginal e desbundado tratou de deixar claro sua herança artística em "Tropicália Maravilha". A narrativa irreverente contava exatamente a história brasileira sobre uma nova ótica, em quadros bem humorados, decorados por muitas frutas e aves tropicais.

Carro Abre-Alas de 1980 (Foto de Anibal Philot)
Apesar do segundo lugar, Fernando Pinto se afastaria e só retornaria em 1983, quando iniciaria uma sequência que transformaria de vez a história da Mocidade. O estilo inovador do carnavalesco trazia um lado mais tropical para "espetacularização" da festa. Tudo (re)começou com a ode indianista de "Como era verde meu Xingu", continuou com a corajosa história da muamba em "Mamãe eu quero Manaus" e encontrou seu apogeu em "Ziriguidum 2001". O desfile que levaria o carnaval e suas diversas manifestações ao espaço sideral, junto ao samba antológico de Arsênio, Gibi e Tiãozinho da Mocidade, levaria a escola a um novo patamar. A "pioneira" passaria definir a estrela que não tinha limites, indo para além do tempo e do espaço.

Visão geral do desfile na dispersão em 1985 (Foto de Sebastião Marinho)
O dinheiro, que não faltava, fez Fernando Pinto brincar em seus delírios. As alegorias cada vez maiores e com designs arrojados, investindo nas formas vazadas e futuristas. As baianas irreverentes e joviais de perucas, capacetes e oncinhas ajudaram também no imaginário de uma agremiação arrojada. O tiro final desse casamento seria o antológico "Tupinicópolis", a lendária cidade índia do terceiro milênio, símbolo do retro-futurismo, marcaria a vanguarda Independente. A obra prima de Fernando Pinto, que morreria na preparação de 88, ainda trazia a irreverência do gênio ao propor o fim do Brasil em meio ao otimismo da constituinte.

"Ah vira virou, vira virou... A Mocidade chegou!"

Faceira e livre que só, a Mocidade não perdeu tempo no luto pelo grande amor cacheado que foi. Sua identidade jovem, moderna e vanguardista era uma realidade. Sabendo disso, um novo artista chegou virando a década de 90. Renato Lage chegou batendo cabeça para quem veio antes e assim fez história, uma nova história. Na revolução tecnológica, Renato Lage e Lilian Rabello dariam início a uma nova era de formas cleans e muito neon, em fetos e pierrôs que formariam toda uma nova geração Independente.
Uma das alegorias marcantes de Renato Lage na Mocidade, o feto de 1991.
Dos três artistas fundamentais na trajetória Independente, Lage seria o dono da maior e mais vitoriosa trajetória. Consagrada e protagonista, a Mocidade seria cada vez mais uma escola "jovem", e até sensual, como narram os sambas de 92 e 98. Grandes imagens marcaram este casamento entre criador e criatura, do menino com seu videogame à corações vermelhos. Foram treze desfiles que a agremiação passou de corpo e alma pela Avenida Brasil fazendo a Estrela brilhar e sonhar sem pagar nada, colorindo a avenida de verde, amarelo, azul-anil de Villa-Lobos. Ao som das bachianas e encantando a todos como um verdadeiro circo místico, Padre Miguel sempre esteve olhando por nós. 

"Sou independente sou raiz, também!"

Além de artistas visuais, a Mocidade contou com profissionais de diversas áreas dando sua personalidade a ela. Na música, após André, outro mestre que deixou sua história na "Não Existe Mais Quente", foi Mestre Jorjão. Na ala de compositores, Tiãozinho da Mocidade seria responsável por hinos campeões. Como em 1985, em parceira com Arsênio e Gibi, outros dois gigantes da composição. Tiãozinho também estaria na parceria responsável por 90 e 91 com Jorginho Medeiro e Toco, se firmando um dos mais importantes compositores da história da verde e branco.

O intérprete Ney Vianna.
Grandes intérpretes também passaram na agremiação. O mais emblemático deles foi Ney Vianna, que atuou primeiro de 77 a 83, retornando depois de 85 a 89. Embalou os dois primeiros títulos da escola e foi substituindo a altura por Paulinho Mocidade, que gravou em seu nome a herança de Padre Miguel. No título de 96, outro nome foi revelado: Wander Pires, que também estaria presente no título de 2017. Elza Soares, antes de todos esses, também levaria no gogó sambas da Estrela Guia e se fixaria com uma das maiores baluartes da escola.

Adele Fátima brilhou na frente dos ritmistas da escola.
Na arte das bandeiras, o bailado de figuras como Babi, a revelação de Lucinha Nobre ainda menina para se tornar uma das mais importantes porta-bandeiras da história e mestres-salas como Alexandre e Rogerinho Dornelles também riscaram o chão verde e branco. As grandes musas e rainhas de bateria marcariam também a sensualidade do povo da Zona Oeste. Adele Fátima foi a pioneira, a mulata de Osvaldo Sargentelli, que começou no fim da década de 1970 e permaneceu até 1984. A modelo Monique Evans chegou em 1985 roubando todos os flash para si e a lenda ajudou a eternizá-la como a primeira rainha de bateria, apesar de não ser verdade, a bela fez história. Anos mais tarde, Vivianne Araújo encantou a todos, antes de sua passagem pelo Salgueiro. E Thatiana Pagung mostrou seu carisma e simpatia a frente dos ritmistas. Hoje, Camila Silva dá conta do legado com sua beleza avassaladora.

"Da pioneira ergo a bandeira!"

A partir de 2003, a Mocidade encararia uma fase difícil sem Renato Lage. Depois da boa posição no carnaval assinado por Chico Spinoza, o fatídico ano de 2004, no controverso samba e enredo sobre a boa conduta no trânsito marcariam o início de uma era de treze carnavais fora do desfile das campeãs. Fruto de uma má administração, a escola passeou pela segunda parte da tabela. Passeando por bons carnavais, como os assinados por Cid Carvalho, com bons sambas, a desfiles catastróficos, comoe em 2009 e 2013. Nem mesmo a passagem de Paulo Barros por lá tirou o estigma. Hoje reerguida, a escola faturou seu sexto título através da viagem ao Marrocos, de Alexandre Louzada, marcando uma nova virada da sua trajetória, das tantas outras. 

O desfile campeão de 2017.
A Mocidade construiu em torno de seu nome a imagem jovem e vanguardista de uma escola "pioneira". Marcada desde sua bateria ao traço de grandes carnavalescos, assim a Estrela se fixou no imaginário e conquistou uma grande legião de apaixonados.

Referências para o texto: as crônicas de Fábio Fabato no livro "As Três Irmãs - Como um trio de penetras 'arrombou a festa'" e do livro "Estrela que me faz sonhar: histórias da Mocidade", de Bárbara Pereira.



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