quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Se todos gostam de enredos críticos, por onde eles andavam?




Todo dia vaza uma nova notícia de uma alegoria, ala, fantasia que trará uma crítica a algum político ou fato social recente. Com isso, as redes sociais se inflamam, todo mundo comemora e elogia. Dos treze enredos para este ano, os mais comentados e tietados entre a mídia e as conversas de grupo no WhatsApp são os de Mangueira, Beija-Flor e Paraíso do Tuiuti, justamente os ditos "críticos". Num cenário político conturbado nas mais diferentes esferas, é de se esperar que o carnaval lave nossa alma e seja nossa válvula de escape. Se todo mundo gosta tanto do lado irreverente das escolas, por onde ele andava então?

É bem verdade que apesar do senso comum, as escolas nunca foram contestadoras. A irreverência é um tom do carnaval como festa, mas as escolas, em si, sempre escolheram a mediação, de 1932 a 1980, as grandes narrativas optavam pela História oficial, salvando poucos exceções. Foi no início dos anos 80, com a redemocratização e o apelo pelas "Diretas Já" que as escolas mergulharam na crítica se alinhando à sociedade. Então, veio Luiz Fernando Reis e sua Caprichosos, a São Clemente e chegando a Ratos e Urubus. Só pra citar os mais famosos, mas nessa onda até escolas adesistas, em outrora, mergulharam na crítica - como Portela e Imperatriz. 

Hoje, em 2018, com um adeus dos enredos patrocinados e maior liberdade criativa, a festa encontra num momento de crise a chance perfeita para se reinventar. Entre narrativas e homenagens e um enredo supostamente CEP, que ainda teima aparecer, os que ganham destaques na mídia e na boca do povo são as temáticas que vão de encontro ao sabor da sociedade. A Mangueira canta uma ode ao carnaval se colocando contra as políticas públicas de Marcelo Crivella, a Beija-Flor faz uma crítica social usando como fio-condutor o livro Frankenstein enquanto a Paraíso do Tuiuti conta a história da escravidão chegando aos dias de hoje perguntando se a prática exploradora ainda não acabou. As criações de carnavalescos corajosos se aliam a grandes sambas, que rompem a estrutura usual e se consagram também entre os favoritos dos amantes da festa. 

A pergunta que não quer calar é: se todos clamavam por essas narrativas e sentem saudades delas, por onde elas andavam? Os mais saudosistas podem dizer que "no meu tempo que era bom", outros podem dizer que o cenário político não era dos mais acalorados com uma democracia estabelecida... e as escolas também não o que tinham o que reclamar, além dos grandes patronos, não era difícil conseguir um gordo patrocínio de uma marca de iogurte, por exemplo. Os tempos, entretanto, mudaram...

Especulações à parte, é simples entender porque as narrativas sumiram do espetáculo. Sim, as escolas são fruto de sua sociedade e falam dos seus momentos, mas pensem em todos os desfiles críticos que puder. Quais deles foram campeões? Pense no maior deles: Ratos e Urubus. Esse perdeu para "Liberdade Liberdade", que preferiu seguir a narrativa da dita história oficial. Os grandes desfiles da Caprichosos e da São Clemente não passaram de um quinto lugar; e, até mesmo, as escolas mais tradicionais que aderiram a onda e mergulharam na crítica, nenhuma se sangrou campeã. Alguns até podem citar Beija-Flor 2003 como exceção a regra, mas nem ele é exatamente anti-governista, visto que o Lula tinha acabado de se reeleger democraticamente. Sendo assim, o enredo era absolutamente adesista ao momento do país de então. Será que hoje aquele desfile com enorme escultura do Lula seria campeão?

É verdade que as escolas são preocupadas demais com o resultado oficial, vivem em função dele, não, do processo e da mensagem que podem propagar. Não é chutar o balde, muito menos "vamos desfilar e resultado que se dane". Pensar, porém, menos que só a classificação pode fazer bem às escolas. Basta o júri consagrar um novo nome e várias escolas vão atrás, copiando o estilo e a temática. A festa parece querer ter sempre um estilo só e não vários, quando pode ser a pluralidade sua maior qualidade, assim exatamente como eram na década de 80.

Então de lá  pra cá, dos anos 1980 à 2018, o que mudou em mais de 30 anos na festa?

Vale esclarecer que são momentos sociais dispares, apesar de parecidos. Mas vale a expectativa de tempos conturbados socialmente que respingam na folia o desejo de tempos melhores. E fazem com que a festa dialogue com a sociedade. Sabemos que, antes, o sabor de novos tempos abafou a irreverência e o tom chapa branca retornou. Será que atualmente será igual? O que mudou?

Primeiro de tudo, o momento das escolas perante a sociedade. Em 1984, as agremiações ganharam um palco fixo pros desfiles e, no ano seguinte, a LIESA foi criada para gerir o espetáculo, ou seja, as escolas gozavam de poder e prestígio como nunca antes. Essas não eram mais uma simples festa popular, era sim promovida à grande espetáculo, não precisavam mais do apoio de ninguém. Hoje, elas até queriam algum apoio, mas o cenário é quase o completo inverso pra não dizer o mínimo, sem verba do poder público e não mais tão queridas pelo grande público e quase desprezadas pela mídia - a não ser a especializada em sua cobertura durante todo o ano. Cantar o que o povo quer é ouvir a solução pra se tornar mais popular?

Segundo ponto. A principal diferença entre esses dois momentos, no carnaval, talvez seja as escolas que capitanearam isso tudo. Se lá, as pequenas e estão inexpressivas Caprichosos e São Clemente foram as peitudas pioneiras, hoje escolas consagradas assumem a ponta. A Mangueira vem renovada após título recente com o traço de um carnavalesco, cada vez mais, consagrando-se e a, mesmo com resultados irregulares desde 2014, Beija-Flor. Será que a força dessas escolas faz a onda se arrastar mais fácil para os outros grupos?

Por fim, a estética pode ser um ponto decisivo. Já que os estilos de Luiz Fernando Reis e da São Clemente não se tornaram famosos exatamente pelo luxo e pela pompa, valia mais a animação e o samba no pé. E talvez esse impeditivo estético seja o responsável pelo fracasso de uma época. Numa festa onde o luxo é a opulência de uma linguagem hegemônica, a simplicidade e um outro belo que prezava pela comunicação acabou ruindo. Joãosinho Trinta foi um dos responsáveis e acabou tomando do próprio veneno.

Hoje, o cenário pode mudar, Leandro Vieira é um dos carnavalescos mais aclamados da folia por seu primor estético, será que com seu talento ele finalmente consegue aliar crítica e beleza, subvertendo a história? Se dará uma contradição? Afinal o samba diz "que se faltar fantasia", "pouco me importa o brilho e a renda"... É possível relegar os quesitos estéticos atualmente? Como aliar discurso e estética? 

Em Nilópolis e em São Cristóvão, o desafio é o mesmo. A Beija-Flor ainda é famosa por seu luxo e pompa, como resposta deve apostar na cenografia, em efeitos e teatralização pra contar sua história. Já Jack Vasconcelos, carnavalesco do Paraíso do Tuiuti parece apostar na crueza e na mensagem direta como antigamente, segundo fotos de fantasias que circulam no pré-carnaval. 

Em meio a esse turbilhão, o Brasil vive um momento tão intenso como em 1985, os enredos críticos retornam e as perguntas que não querem calar são: Como viverá a nossa festa? Será que finalmente um desfile crítico ganhará? Será que será consolidada uma nova ordem?

Por enquanto, é tudo só especulação, verdade é que vem um ano dos mais difíceis e urgem os tempos de renovação. Infelizmente, pode estar na mão dos jurados, responsáveis pelo resultado nu e cru da folia, o destino da nossa festa.






Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro. Atualmente, faz mestrado em História da Arte na UERJ onde pesquisa também sobre o tema.

Reações:

Um comentário:

  1. Muito bom o texto. Parabéns. Só não entendi por que a Imperatriz foi citada como exemplo de escola adesista quando, na verdade, é uma escola conhecida por sua origem de esquerda, tendo sido fundada por Amaury Jório, reconhecido por sua atuação política e ligação com o PCB, sendo a primeira escola a criar um Departamento Cultural, capitaneado por Hiram Araújo, sempre alinhado com com os ideais da esquerda. A escola adquiriu fama com enredos revolucionários como "Oropa, França e Bahia", "Martin Cererê" e "Barra de ouro, barra de rio, barra de saia", valorizando temas não explorados por outras agremiações da época, tudo isso muito longe do conceito de adesismo. Abração.

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