quinta-feira, 31 de maio de 2018

#SérieEnredos: Carnavais de carnavais - Metalinguagem nos desfiles

Por Beatriz Freire, Felipe Tinoco e Leonardo Antan



A bateria sai do recuo, anunciando os últimos momentos desse nosso delicioso desfile que deu o tom do Carnavalize nas últimas semanas. A #SérieEnredos acaba com uma homenagem mais que justa para nossa amada festa por meio dela mesma. Então, folião, ainda não chore, que até o portão fechar, passarão nossas últimas alas e a alegoria final.

Nesse clima já saudoso, enredo que não termina em carnaval não tem graça, né? As escolas frequentemente dão um jeito de rodar uma temática e, ao fim, acabar falando de nós mesmos, dos sambistas, dos desfiles, do carnaval. Nós não faríamos diferente como nossa série especial. Da Candelária ao Sambódromo, listamos aqui alguns dos enredos mais marcantes que cantaram a folia e sua história. Prepare a sua fantasia para o último cortejo da #SérieEnredos e se deleite com os temas metalinguísticos, enredos que utilizaram o próprio carnaval para falar de carnaval!



“História do carnaval carioca” - Salgueiro 1965




É o pioneirismo que você quer, @? Não bastando o protagonismo do negro nos desfiles do Salgueiro durante a década de 1960, o grupo revolucionário liderado por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues inovou também ao contar a história do carnaval dentro do carnaval de maneira historiográfica. Já existiriam, à época, homenagens ao samba e um desfile mais genérico da Mangueira de 1960, mas nada com proposta mais certeira como essa da Academia. O diferencial foi a inspiração no seminal livro de Eneida de Morais, que batizou o enredo, sendo uma das primeiras obras brasileiras a se dedicar exclusivamente à história da folia.

"Vamos dar uma de Shakespeare em Hamlet, o teatro dentro do teatro... o carnaval dentro do carnaval, pô". Assim, Pamplona convenceu o parceiro Arlindo para a escolha do tema. Foi uma saída genial dos carnavalescos para a obrigatoriedade de 1965, em que todas as escolas deveriam render homenagens ao aniversário de 400 anos do Rio de Janeiro. O desfile contou com a ajuda de nomes que se tornariam famosos no universo momístico; um tal de João Trinta ajudou nos adereços e Max Lopes, outro ainda desconhecido, foi diretor de ala.




Com o auxílio de tantos grandes profissionais, a Academia do Samba deu sequência a uma série de inovações que passaram por aspectos temáticos e visuais. O uso do bombom, hoje completamente banal, foi uma grande novidade introduzida pelo grupo nesse desfile. Também se destacou como uma forte imagem desse ano a comissão de frente formada por membros da comunidade, que traziam singelas burrinhas de vime, feitas por João - então "João das alegorias". 

O grande desfile acabou conquistando o público, mesmo após o burburinho no pré-carnaval contra a série de inovações que o Salgueiro pretendia promover e promoveu. Nomes mais tradicionalistas, como o jornalista Sérgio Bittencourt, fizeram duras críticas à escola e aos profissionais vistos como "estrangeiros" na produção do desfile. Apesar da polêmica, a agremiação conquistou público e júri com suas ousadias e desbancou o favorito Império Serrano com seu também imortal "Cinco bailes da história do Rio", de Ivone Lara e Silas, faturando o terceiro título da vermelho e branco da Tijuca. 

Anos mais tarde, em 72, no último carnaval com a participação de Arlindo e Pamplona juntos, o Salgueiro faria outra novidade com uso semelhante de metalinguagem: uma homenagem para sua madrinha Mangueira, em um belo exemplo de respeito e admiração entre as coirmãs. Ainda que o samba tenha ficado para a história da agremiação, o desfile não alcançou grandes resultados.


"Vovó e o rei da Saturnália na Corte egipciana" - Beija-Flor 1977





Nos devaneios de Joãosinho Trinta, Nilópolis pegou carona em uma viagem pela história do carnaval. O enredo contava as origens da festa e o Egito foi, segundo alguns estudiosos, um dos prováveis locais do início dos festejos. A Saturnália está ligada às comemorações da Roma antiga oferecidas ao deus Saturno, época na qual escravos eram livres, as regras sociais eram derrubadas e a festa era regada a bebidas e orgias. Entrudos e os bailes de Veneza também apareceram no enredo, que foi desenvolvido num dos grandes delírios típicos de João. Toda a epopeia momesca foi narrada por intermédio de uma vovó que, ao ver a azul e branco desfilar, recordava-se da folia como se estivesse vivido todos esses momentos. 

O desfile deu sequência à série de ousadias espetaculares do artista, apostando no luxo e na opulência, mesmo que com uso de materiais comuns e baratos. Essas características todas aliadas à famosa garra nilopolitana ajudaram a garantir o caneco da azul e branco, e a Deusa da Passarela triunfou pela segunda vez na sua história.


Bumbum Paticumbum Prugurundum - Império Serrano, 1982




Marcando a estreia da dupla Rosa Magalhães e Lícia Larceda como carnavalescas, o Império cantou a história das escolas de samba com um enredo sugerido por Fernando Pamplona, que mediou a contratação de suas discípulas pela Serrinha. O enredo foi batizado pelo mestre de "Praça Onze, Candelária e Sapeca aí”, delimitando os principais locais de desfiles, mas a dupla resolveu modificá-lo para o curioso título - uma onomatopeia que simboliza o som do surdo, inspirada em uma entrevista realizada com Ismael Silva. 

A narrativa passeou pelos grandes momentos da história das escolas desde a Praça Onze, passando pela série de inovações salgueirenses décadas antes e terminava em uma crítica ao desenfreado processo de crescimento das escolas. Para isso, as carnavalescas consideraram as agremiações como verdadeiras empresas ao cantar "super escolas de samba S/A, super alegorias". A crítica teve como protagonista Joãosinho Trinta, representado em uma das alegorias. Para arrematar, o grande samba de Aluísio Machado e Beto Sem Braço incendiou os componentes da Serrinha. O campeonato da escola veio com facilidade, desbancando outras favoritas e sendo privilegiada como a única agremiação a não descumprir a novidade do regulamento daquele ano, que proibia o uso de figuras vivas, como destaques e componentes, nas alegorias e tripés.


É hoje - União da Ilha 1982


Foto: Anibal Philot

1982 foi um ano de grandes enredos metalinguísticos! Além do campeão Império Serrano, outra instituição cultural teve sua canção consagrada. E como marcou! A obra musical de Didi e Mestrinho entrou para a eternidade se tornando um dos sambas-enredo mais famosos fora da folia, ganhando várias regravações e se tornando um verdadeiro clássico da MPB. Quanto ao enredo, ele foi desenvolvido pelo jovem carnavalesco Max Lopes, inspirado em livro homônimo escrito por Haroldo Costa, que contava com ilustrações do cartunista Lan. 

Apesar de ter apenas três carros alegóricos, o abre-alas, representando uma barca cheia de brincantes da Ilha para a avenida do Rio, ficou marcado na memória da folia e dos componentes da escola. Os demais elementos visuais beberam no estilo insulano do "bom, bonito e barato", concebido pela carnavalesca Maria Augusta, como alas vestidas de pierrôs, colombinas, baianas e fantasias típicas da folia. O samba antológico contribuiu ainda para uma grande apresentação da Ilha, que terminou apenas num modesto quinto lugar. Em 2008, a agremiação reeditou os famosos versos e também terminou na quinta colocação - mas no Grupo A, organizado pela extinta AESCRJ.


“Festa Profona” - União da Ilha 1989




A escola da alegria e da leveza não poderia deixar de ter como característica enredos ligados ao maior show da terra, né? Depois de contar sua própria história em 1980 e a folia contemporânea dois anos depois, a Ilha terminou a década fazendo um desfile ainda mais profundo na folia, com seu também inesquecível "Festa Profana". 

Passeando desde os tempos mais remotos, a agremiação insulana tentou achar uma origem para festa na Grécia e no Egito, passando ainda por Roma e Veneza até chegar ao Brasil e seu entrudo. A comissão de frente trazia componentes vestidos de Rei Momo, fazendo jus aos famosos versos "o rei mandou cair dentro da folia". O carnaval foi assinado pelo carnavalesco Ney Auan, que fez um bom trabalho plástico. O desfile ainda ficou famoso pela icônica genitália desnuda de Enoli Lara, desinibida em uma alegoria. 

O samba composto por J.Brito, Bujão e Franco - que não o assinou -, apesar de ser denominado como "marchinha sem vergonha" por Fernando Pamplona, embalou um grande e animado cortejo da tricolor insulana, tornando-se mais um dos grandes clássicos da agremiação a romper a vida útil do desfile, cantado em blocos e festas. Apesar do ano conturbado, protagonizado pelo embate entre Beija-Flor e Imperatriz, a Ilha ficou logo atrás das favoritas com um honroso terceiro lugar. Em 2005, a Porta da Pedra reeditou o memorável samba e, sob a batuta do carnavalesco Alexandre Louzada, conquistou o sétimo lugar da elite.


“O samba sambou” - São Clemente 1990


Foto: O Globo

Olha a crítica! A tradicional escola da zona sul carrega em seu DNA mais do que a simples irreverência: também o dedo na ferida, a acidez sutil de um discurso crítico que sempre caiu bem a ela. "O samba sambou" se tornou um dos enredos críticos mais conhecidos e aclamados da escola, ajudou a contar na Sapucaí a realidade dentro do mundo das escolas de samba. A narrativa foi uma das últimas escrita pela dupla que marcou época na preto e amarelo, Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa, e passeou por diversas incoerências e absurdos que faziam parte da espetacularização da folia das escolas. Como celebridades em busca dos holofotes da mídia até a mercantilização dos profissionais da festa e suas constantes mudanças de bandeira. Tudo junto e misturado para lembrar a nostalgia e os bons tempos dos antigos carnavais que mantinham a raiz do "verdadeiro samba".

Uma das imagens mais marcantes foi a comissão de frente, quesito que foi destaque como um todo na trajetória da escola em seus enredos críticos. O grupo trouxe fantoches de mestres-salas sendo manipulados pelos dirigentes. Já a letra do samba, escrita por Helinho 107, Izaías de Paula e seus parceiros, casou perfeitamente com o que se viu e sintetizou bem a crítica com belas passagens. Profética, a escola pareceu adivinhar os rumos daquilo que já se desenhava à frente dos sambistas há quase 30 anos, e conquistou um sexto lugar, sua melhor posição no Grupo Especial até hoje. Ainda atualíssimo. 


“Marquês que é Marquês, do saçarico é freguês” - Imperatriz Leopoldinense 1993 



Somos todos fregueses do saçarico, não é mesmo? A Imperatriz e nossa sempre deusa Rosa Magalhães também. Por isso, em 1993, com título baseado no Marquês de Sapucaí, burocrata que dá nome ao Sambódromo e que se tornaria bicentenário naquele ano, a carnavalesca e a Rainha de Ramos realizaram uma homenagem à história momesca, passando por todas suas formulações até a chegada dos desfiles sofisticados. Para isso, o enredo relembrou o entrudo, a serração da velha, os bailes de máscaras, os cordões e blocos, os ranchos e as grandes sociedades, realizando um retrato das origens e inspirações das escolas de samba. 

Chegando a nomes mais recentes, foram saudados artistas como Fernando Pinto, Joãozinho Trinta e Arlindo Rodrigues, por meio de referências aos seus mais emblemáticos trabalhos. Além disso, Viriato Ferreira foi homenageado no último carro, com uma faixa com os dizeres “No saçarico do Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira”. A mesma frase dá título ao enredo da Acadêmicos da Rocinha de 2017, que exaltava o incrível artista falecido durante a preparação do desfile da Imperatriz de 1993, em setembro do ano anterior. Ele era figurinista de Rosa e, à época, chegou a realizar uma releitura de outro carnaval que participou e foi recordado no desfile em questão: “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” (Beija-Flor, 1989).


“Gosto que me enrosco” - Portela 1995




Abrindo as portas para folia, a tradicional Portela mostrou por que é uma das maiores escolas da folia carnavalesca. A maior campeã da festa vivia um grande jejum de títulos e oscilava entre boas e medianas posições quando realizou um carnaval que também protagonizou sua história. O enredo fazia parte de uma trilogia proposta por José Felix, que cantou a história do samba um ano antes, passaria pela folia naquele ano e se encerraria na apresentação seguinte sobre a música brasileira. A proposta da narrativa foi passear apenas pela história do carnaval no Rio de Janeiro, passando pelas grandes sociedades, o lendário Zé Pereira, os ranchos, blocos e cordões.

A parte plástica contou com muito requinte e luxo, apesar das alegorias não apostarem em uma grande volumetria, e sim em um aspecto mais cênico, pouco usual nos desfiles. A tradicional águia se vestiu especialmente para a apresentação, ganhando máscara e chapéu carnavalescos e um lindo ginzo no bico. O lirismo dessa junção tornou uma das mais belas aparições do símbolo portelense.

A apresentação foi coroada pelo grande samba composto por Noca da Portela, Colombo e Gelson, na interpretação memorável de Rixxa. A Portela saiu como favorita daquele ano, mas mas acabou perdendo para a Imperatriz, e sua já comentada era de ouro no casamento com Rosa Magalhães. O segundo lugar, a melhor posição da azul e branco até o desjejum de 2017, ainda machuca uma série de torcedores da escola.


“Das arquibancadas ao Camarote Número Um ‘Grande Rio’ de emoção na apoteose do seu coração” – Grande Rio 2010




Patrocinada por um camarote de cervejaria que controlava grande parte da área de elite da Marquês de Sapucaí, a Grande Rio promoveu uma homenagem à história do Sambódromo do Rio e de seus grandes carnavais em função do aniversário de 25 anos da inauguração da avenida. Para isso, o carnavalesco Cahê Rodrigues não só exaltou os grandes nomes da folia carioca, mas também os que ajudavam (ou ajudam) na realização da festa. Desde os funcionários de barracão até Oscar Niemeyer – que projetou esse marco arquitetônico da cidade – e Darcy Ribeiro – que dá nome à passarela e foi incentivador de sua construção durante o mandato do aliado e amigo Leonel Brizola, então governador do estado.

Como já mencionado, personagens que fizeram história foram lembrados, como Jamelão, Max Lopes, Fernando Pinto e demais carnavalescos, assim como diversos pavilhões e símbolos das principais agremiações do Rio de Janeiro. A narrativa abusou de imagens e momentos emocionantes repletos de simbologia que a Sapucaí presenciou a longo de sua história. Foi marcante também a última passagem de Joãosinho Trinta como folião do carnaval, sendo destaque do carro sobre o lendário “Ratos e urubus”. Desfiles marcantes, como Ita e Kizomba, até marcas contemporâneas, como o famoso carro do DNA de Paulo Barros, foram lembrados, criando referências de força cultural e comunicação com o público que garantiram o sucesso da apresentação. A Grande Rio conquistou um especial segundo lugar, logo atrás do campeão “É Segredo”, da Unidos da Tijuca.


“Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco” – Mangueira 2018




Encerrando essa nostálgica e deliciosa viagem pela folia por meio da folia, o carnaval de 2018 também foi marcado pelo uso da metalinguagem. Comandado pelo talentoso Leandro Vieira, a Mangueira se inspirou em uma marchinha da década de 1940 e proporcionou um dos melhores temas do ano, repleto do tom crítico que permeou diversos momentos da Marquês de Sapucaí em 2018. O carnavalesco se motivou com as discussões proporcionadas pelo demagógico corte do repasse de verbas municipais promovido pelo bispo Marcelo Crivella e resolveu realizar uma exaltação da essência do carnaval, suas raízes, sua felicidade e folia e tudo aquilo que o faz relevante para a sociedade.

Foi nesse sentido que o enredo flertou de maneira constante com o tom anárquico e liberto do carnaval de rua, e a Mangueira desfilou repleta de componentes de blocos, arrastões e demais signos que transcendem ao teor utilitário e empresarial que muitas vezes limitam o carnaval. Foram lembrados, no decorrer da apresentação, o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça, os saberes dos bares, roupas de cetim barato e a origem dos desfiles das agremiações no centro do rio, assim como colombinas sem posses, pierrôs em desalinhos e diversos outros símbolos carnavalescos. O excelente enredo proporcionou para a agremiação o Estandarte de Ouro do quesito e auxiliou na conquista do quinto lugar, que deixou um gostinho de quero-mais para os torcedores e membros da verde-rosa.


"Entra, canta, gira, roda  
Que o barracão agora é teu
Carnaval é minha moda  
Todo ano o rei sou eu"

Para terminar, deixamos essa obra-prima do Arranco do Engenho de Dentro, de 1991 no grupo de acesso, que é pouco conhecida mas narra as dificuldades e bastidores da construção de um desfile com maestria. É uma forma de nos despedimos com alegria dessa temporada aqui no site.

Antes dos leitores sugerirem outras apresentações, a gente admite a dificuldade de conceber uma lista como essa! Fizemos uma seleção especial que passou por diferentes agremiações e décadas dos desfiles das escolas de samba. Não foi nada fácil largar apresentações e obras cativante no processo. Mas como a série é sobre os enredos, optamos pelos que tinham as narrativas e apresentações mais emblemáticas, deixando de lado clássicos como "Para tudo se acabar na quarta-feira". Esse e mais sambas sobre o carnaval você encontra na playlist abaixo, especialmente realizada nessa pegada metalinguística que encerrou a #SérieEnredos! Até a próxima!

quarta-feira, 30 de maio de 2018

#SérieEnredos: Como nasce um enredo? A arte da narrativa por João Gustavo Melo


Por Leonardo Antan



O enredo é o pontapé inicial para um desfile. Seu desenvolvimento afeta diversos outros setores no processo de uma agremiação; faz surgir o samba, a os elementos visuais e permeia todos os quesitos como um todo. Com o crescimento do espetáculo, em diversos sentidos, a necessidade do surgimento de um profissional específico para elaborar as narrativas carnavalescas se tornou uma demanda das últimas décadas. 

A função do chamado "enredista" não é absolutamente comum no ambiente das escolas, e ainda são pontuais os casos de carnavalescos que recorrem a esses profissionais. Além disso, são muitas as dúvidas dos apaixonados pela festa sobre essa temática. Como funciona as etapas de criação de um enredo? Como ele chega até nós - seja no formato da sinopse, seja traduzido na parte plástica? Motivado por essa indagação, o Carnavalize ouviu um especialista na área, que há mais de quinze anos assina enredos que já passaram pelo grupo especial e de acesso do Rio e de São Paulo.

João Gustavo Melo, jornalista e doutorando em Artes pela UERJ, foi convidado para uma conversa sobre a habilidade narrativa das escolas de samba. Vem com a gente para descobrir como foi esse papo no penúltimo texto da #SérieEnredos! 

A imagem de um carnavalesco autossuficiente e dono de todo o seu processo criativo ainda permanece firme no imaginário coletivo, mesmo que as diversas funções atribuídas aos grandes artistas da festa estejam se dissolvendo ao longo dos anos, por conta da demanda alta dessa jornada. Nesse sentido, o enredista seria mais um profissional possível nessa descentralização, assim como figurinistas ou projetistas. 

A diferenciação do processo criativo entre o enredista e o carnavalesco precisa ser nítida para compreender as etapas de construção de um desfile. Primeiramente, é preciso entender a área de atuação de cada um, e, sobre isso, Gustavo Melo cristalino: "Na verdade, é um trabalho auxiliar à pesquisa do carnavalesco. Não é algo uniforme. Cada um desses artistas tem competências específicas e, por isso, demandas específicas, o que existe em comum é que o trabalho do pesquisador deve ser de respeito à criação visual do carnavalesco". Para ele, o mais importante é uma sintonia e uma afinidade na criação do processo: "Os textos de sinopse e das defesas têm que amarrar os caminhos visuais traçados no enredo, criando um discurso e dando um tom ao trabalho dos artistas. Estamos a serviço deles."

A importância desse diálogo entre diferentes funções acaba sendo rica para toda formação de um carnaval, pois a criação coletiva aumenta as possibilidades artísticas, tornando o resultado final mais rico e plural. "Acredito que a importância do enredista é, em alguns momentos, tirar o carnavalesco da solidão criativa. É fazer a cabeça do artista ferver ainda mais. É puxar deles o melhor", defende Melo, que ressalta a mudança do resultado quando há um profissional da narrativa envolvido na geração do desenvolvimento do tema: "Apesar da relação de idas e vindas, a importância desses outros criadores de enredo se refletiram como um todo na produção dos carnavalescos, interferindo diretamente na qualidade de alguns carnavais. Toda a relação é de trocas."

Nesse ciclo, é importante diferenciar que o papel de autor da sinopse e do desenvolvimento do tema não está necessariamente ligado com o surgimento da ideia original. Toda a trajetória para o desenvolvimento da narrativa é muito coletiva, atravessando não só os profissionais de criação, já que também pode contar com os dirigentes e outras pessoas envolvidas. "A questão da autoria é algo muito delicado. Nesse processo de pesquisa, naturalmente vão surgindo ideias que são levadas ao carnavalesco. Mas não é uma trilha linear. Alguns enredos surgem da vontade do presidente, da possibilidade de patrocínios, da própria escolha do carnavalesco", alerta o jornalista.

O trabalho do enredista em meio a essas opiniões divergentes é ser uma espécie de guia: "O nosso trabalho é dar um nó literário e conceitual nessas histórias. Mas é fundamental ter em mente que, de uma forma ou de outra, os caminhos serão traçados pelo carnavalesco, que é o diretor geral do desfile", exemplifica. No carnaval, sempre tem algum diretor querendo dar pitaco na criação, e vários sentem a responsabilidade de ajudar de alguma forma. Mesmo com boa intenção, isso nem sempre é positivo: "O pior dos mundos é quando alguém de fora do universo criativo tenta mudar algo do texto simplesmente por mudar. A sinopse é uma estrutura. Muitas vezes se você retira, inclui, enfim, modifica algo, a obra desaba. Essa tensão é muito séria e também presente na preparação do carnaval. Mas faz parte do processo criativo", ameniza o enredista.


O enredo de 2003 sobre o cinquentenário do Salgueiro teve participação de Gustavo.

Cearense, formado em Jornalismo e atualmente doutorando em Artes, João Gustavo Melo já trabalhou para artistas consagrados da folia brasileira, como Renato Lage e Mauro Quintaes. A história que o fez chegar na função é inusitada: "Foi um acidente de percurso (risos). Nasceu de uma ajuda ao Mauro Quintaes no enredo sobre aviação, no Salgueiro, em 2002, com a equipe da diretoria cultural do Salgueiro. O Mauro pediu uma opinião sobre o último setor da escola, nós demos e ele gostou da sugestão. A partir daí eu passei a trabalhar com ele na pesquisa e lá se vão 18 anos."

A sua atuação mais marcante foi no Departamento Cultural do Salgueiro, onde participou na idealização de diversos grandes enredos que a escola apresentou na longa estadia do casal Lage na Academia. Enredos campeões do Estandarte de Ouro, como "Ópera dos Malandros", tiveram a interferência criativa preciosa de Gustavo: "No Salgueiro, esse trabalho foi feito com Renato Lage, Márcia Lage e com Eduardo Pinto e Paulo César Barros, da diretoria cultural. Essa parceria rendeu enredos muito bacanas com os quais a escola de identificava. De uma certa maneira, contribuímos para o carnaval da escola em mais de 10 enredos."

No entanto, é com o carnavalesco Mauro Quintaes sua parceria mais marcante. Desde o primeiro contato entre os dois na vermelho e branco da Tijuca, eles viraram parceiros em diversos trabalhos entre o Rio e São Paulo. Na passagem do carnavalesco por Viradouro, Mocidade, São Clemente, Curicica, Tom Maior e Peruche, foi Gustavo o responsável por desenvolver a narrativa de enredos marcantes como Bibi Ferreira e "Choque de ordem na folia". "Só não trabalhamos juntos  na Unidos da Tijuca, que tinha a própria equipe de pesquisa", conta o jornalista. 

A parceria Quintaes e Gustavo se iniciou no Salgueiro e seguiu pela Viradouro. (Foto do desfile de 2004, por Widger Frota)

A intimidade e longa trajetória que Quintaes e Gustavo têm juntos já estabelece os limites de atuação de cada artista. É comum a dúvida entre os menos iniciados em até que ponto exatamente delimita a literatura do enredo e sua transformação em aspecto plástico. Precisa ser uma sinergia, com muita conversa e troca de conhecimentos dos envolvidos. Para o ex-diretor cultural, trata-se de um relação que precisa ficar bem estabelecida: "A primeira coisa a pensar nesse processo é: o carnavalesco é o nosso cliente. O artista é uma marca à qual temos que atender com toda dedicação. Se ele for bem, o pesquisador, obviamente, também irá.". 

Evidentemente, às vezes nem tudo fica tão definido assim e o processos podem se tocar, existindo sempre respeito entre as partes. "Alguns carnavalescos  depositam em nós a confiança de poder sugerir elementos visuais. Outros preferem desenvolver por si só e com sua equipe de criação essa parte. Mas muitas vezes o texto da sinopse tem tantos elementos visuais presentes, que inspiram não só o compositor, mas também o carnavalesco. O visual também mora nas palavras", analisa. 

Uma história que ilustra bem isso envolve uma das imagens mais marcantes do carnaval campeão do Salgueiro, em 2009: "No enredo do Tambor, por exemplo, um poema que dizia que a batida dos elementos percussivos na pré-história era o grito do animal sacrificado nas caçadas. Esse texto deu a ideia para o carnavalesco Renato Lage criar a segunda alegoria da escola, que era de uma força estética impressionante. Quando há essa conexão entre o carnavalesco e o pesquisador, é gol certo", afirma Melo. O caso do enredo Tambor também demonstra as diferentes fontes de inspiração para o surgimento de um tema: a ideia original de uma narrativa sobre os instrumentos de percussão nasceu de uma sugestão de Haroldo Costa, depois desenvolvida pela diretoria da agremiação. 

A marcante alegoria do carnaval salgueirense de  2009.

Esse alinhamento entre os textos e as imagens do desfile é fundamental para o sucesso da narrativa na hora do desfile. Gustavo explica que às vezes é mais ousado, arriscando em sugestões que possibilitam um salto pro artista visual, mas que ao mesmo tempo não o aprisionem, tentando deixar um  espaço livre para a criação: "Eu procuro trabalhar com o carnavalesco uma forma de criar imagens poéticas para o enredo. É uma estratégia arriscada. Pode não dar certo. Mas na maioria das vezes a escrita de sinopses mais visuais tem se refletido em sambas condizentes com o enredo proposto."

A respeito do processo da transformação do assunto a ser desfilado na linguagem não-verbal das escolas de samba, como alegorias e fantasias, tudo pode variar caso a caso. Gustavo explica que a escolha de figuras relacionadas com o tema é uma fase crucial de todo o processo: "Essa definição da ordem dos elementos do desfile é fundamental para a composição de uma boa história a ser levada para a avenida." Ainda, ele lembra que "na fase de criação do enredo, o nosso trabalho também é de sugerir mudança de ordem de elementos para que essa sequência dramática seja respeitada. Uma mudança nesse roteiro pode atrapalhar o compositor na hora da elaboração do samba e também confundir o julgador. Por isso em alguns casos podemos sugerir alas ou mesmo fazer o roteiro, mas com todo o respeito à criação do carnavalesco."

Um aspecto menos feliz do ciclo de realização do enredo é a pouca valorização do profissional. Apesar da importância que ele assume em algumas escolas, a visibilidade do cargo e sua consequente remuneração ainda não são satisfatórias, assim como ocorre com outras funções da festa. Os desfiles, ao longo de sua história, são marcados por esbarrarem na barreira da profissionalização em diferentes cargos, e com um enredista não é diferente: "Pode parecer contraditório - e é - mas, no mundo do Carnaval, o que não é remunerado é desvalorizado. Ninguém respeita quem não ganha. O processo de construção do enredo é algo muito complicado. Um xadrez jogado coletivamente com o carnavalesco, com a direção da escola, com os compositores, enfim... É um trabalho que consome muito, porque não há um um 'expediente', você não se desliga daquela ideia nenhum minuto, nem na hora de dormir", estabelece o jornalista. 

Gustavo reafirma não só as dificuldades desse empreitada, mas também a cobrança em cima de um quesito tão importante: "Isso é um trabalho que começa lá atrás, na solidão do texto. Portanto, seria justa essa remuneração, uma espécie de indenização por você emprestar sua alma e repertório criativo num projeto que muitas vezes só beneficia algumas pouquíssimas pessoas.", diz se referindo aos patrocinadores beneficiados. 

Ele defende ainda que "os pesquisadores e carnavalescos ganhem um  percentual a mais por enredos patrocinados. Muitas vezes se transforma uma ideia tosca em algo mais palatável." E continua: "A defesa de quesito, por exemplo, pode destruir ou salvar uma nota de enredo. É muita responsabilidade, um trabalho artesanal que nos consome durante todo o processo de execução do desfile, junto ao carnavalesco, em cuja cabeça temos que morar durante um tempo até conhecer todo seu estilo e poder atender-lhe da melhor forma possível."

A longínqua parceria entre Mauro e Gustavo segue para o ano que vem, em SP.

Para 2019, João Gustavo está envolvido em projetos no Rio e São Paulo. Dá continuidade com a grande parceira com Mauro Quintaes na Dragões da Real, onde desenvolvem o enredo "A invenção do tempo. Uma odisseia em 65 minutos". Pelo Rio, é responsável pela sugestão que gerou o enredo "Salvador da Pátria", da Paraíso do Tuiuti, e também assinará a homenagem ao dramaturgo Dias Gomes, na Unidos de Padre Miguel, inaugurando uma parceira com João Vitor Araújo. 

Ser um enredista é estar responsável por uma das artes mais cativantes e relevantes de uma escola de samba: a capacidade de contar histórias e mexer com o público por meio delas. Atualmente, a função das agremiações em fazer refletir e emocionar as arquibancadas narrando histórias que dialoguem com nossa história e cultura é uma das possíveis salvações para que o país se conheça, reconheça e resista no que possui de melhor. Por isso, que contemos mais histórias de negros, malandros, índios e artistas, revelando as entranhas da arte mais brasileira de todas: o carnaval.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

SINOPSE: Mocidade Independente | “Eu sou o tempo. Tempo é vida”





GRES Mocidade Independente de Padre Miguel
Carnaval 2019 – “Eu sou o Tempo. Tempo é Vida.”
Presidente – Wandyr Trindade (Vô Macumba)
Vice-presidente – Rodrigo Pacheco
Direção de Carnaval – Marco Antônio Marino
Carnavalesco – Alexandre Louzada

Apresentação

Mais um carnaval se apresenta. É o tempo que passa e novamente estamos aqui, carregando no peito a estrela da Mocidade Independente de Padre Miguel, que leva em seu nome a eterna juventude. Para a Mocidade, que será sempre jovem, o tempo é fonte de inspiração no carnaval de 2019. Eu sou o tempo, nós somos o tempo. Já pensou nisso? Todos construímos os nossos momentos e embalamos as nossas histórias nos braços de algo intocável, incontrolável e, por vezes, imensurável. Passa rápido, devagar, não volta, não perdoa e queremos sempre mais. Tempo é vida; a vida é o tempo. Por isso, relaxe e embarque nesse sonho com a gente. Venha aproveitar esses momentos e monte o quebra-cabeças da sua própria história. Deixe a sua mente bailar, no ar, em novos tempos. É tempo de Mocidade!

Sinopse do Enredo
Eu sou o Tempo. Tempo é Vida.

Tempo, tempo, tempo, tempo…

As batidas do meu coração marcam o compasso no tambor do samba, quando ecoa o apito da partida do trem da vida, nos trilhos do tempo, caminho infinito, riscado no espaço pela cauda de luz da estrela-guia, que cria um vácuo de sonho que a ciência desafia e que invade a morada de Cronos, a antimatéria que brilha, magia, e que se comprime e se expande, se dobra, retrocede e avança, num vai e vem que se esvai e se lança numa viagem louca, do presente ao passado e, numa reviravolta, de volta para o futuro.

Tempo que aqui se define ou que nasce indefinido, num tempo quando o tempo sequer existia no mundo, fruto do Caos, num dado momento, quando o Céu se encontrou com a Terra e concebeu o titã implacável, senhor da razão e do destino, o tempo que se mede desmedindo.

Tempo que a humanidade buscou entender acompanhando a dança dos astros, bailando entre a luz e a treva, dia e noite se repetindo e se reinventado constantemente, luas e marés mutantes, pois nada é igual ao que era antes, antes de tudo mudar. Tempo de florescer, de plantar e de colher, tempo de hibernar e de buscar onde se aquecer, tempo a brotar em épocas, ritos em profusão, oferendas, estações, declarações de fé em solstícios e equinócios, sagrações da primavera em cada alvorecer.

Tempo de descobrir, marcar, calcular. Quanto tempo o tempo tem? Tempos remotos de se observar o Sol a riscar de sombra a haste sobre a terra, horas que se desenham, nas gotas da clepsidra, tempo que orna e transborda. Tempo que ocioso passeia, de cima para baixo, e que se revira nas ampulhetas – o tempo que desliza nas areias, vira-virando o mistério.

Tempos idos medidos em calendários antigos, civilizações e impérios – apogeu e queda. Tempo que do universo é o regente e que em ciclos se divide no lado de cá do ocidente, envolto em enigmas entre o povo Maia, tempo que se faz serpente. Tempo viril, “yang”, que fecunda as terras do oriente, regando de chuva o seu chão. Tempo que se faz festejado, tão aguardado, tempo mítico dragão.

Tempo que gira perverso: eis que é tempo de inventar o tempo e de se aprisionar dentro dele. Engrenagens em movimento, tic-tac, relógios, máquinas do tempo pra lá e pra cá em um pêndulo. Som das horas a despertar, o galo que já cantou. Tempo que urge, a pressa, é cedo, é tarde, é hora de trabalhar, tempo que corre, dispara, tempo que é dinheiro, aposta, notícia, tempo de vida, o tempo que de fato não para.

Tempo que jaz no tempo, repousado nas camadas de tempos passados. O tempo redescoberto, preservado em museus e livros, frases então reveladas, arquivo do tempo. Tempo que brilha em mentes a frente do próprio tempo e, tal qual uma equação, viaja anos-luz na imensidão. Ciência equilibrada em teorias que em dobras do tempo, faz o longe quase perto e se teletransporta. Ou não? Tempo virtual, memória atemporal que a tecnologia armazena no ar, nas nuvens. O que antes era ficção científica, hoje é realidade. Tempo que se congela estéril na ilha glacial, Aíon, guardião da eternidade, faz da grande geladeira a nossa herança, a esperança de preservação.

Tempo, indomável tempo, de Kairós, o fragmento, único como o sopro divino, tempo de Deus que não é medido, tempo para ser vivido, sem pressa, sem medo, vida que segue, tempo indesvendável, tempo que é segredo e árvore sagrada.

O toque da inspiração vem num estalo de tempo: a arte se faz imortal e se eterniza na memória, de geração a geração, de voltas e reviravoltas, na tela do carnaval ou em uma explosão de cor no meio desse povo, assim como a nossa escola, que atravessou os trilhos do tempo e se imortalizou na história. Tempos de glórias, descritos por seus poetas nos seus lindos sambas, das paradinhas inesquecíveis, dos seus gênios artistas que lançaram tantas cores nos seus tantos carnavais. Ela, a eterna juventude, Mocidade Independente, que carrega a estrela, que é o cosmo, como emblema, o verde da brotação que se renova e o branco da paz de espírito. É possível parar o tempo na síncope do batuqueiro. Hoje o trem que transporta o futuro, que recuperou o tempo perdido, na vanguarda, redemoinho, acelera e retorna orgulhoso, na certeza de novas conquistas – e conduz a sua gente à mais infinita alegria!

Vira-tempo no templo do samba, eis que chega o nosso momento. Uma voz ecoa na noite: “Vamos lá! A hora é essa!” Coloque a fantasia, ouça o som da bateria.

É tempo de desfilar!

Alexandre Louzada

#SérieEnredos: Passaporte carimbado! Oito desfiles com CEPs internacionais

Por Leonardo Antan e Felipe Tinoco

A "Série Enredos" tá dominando o site no mês de maio, com textos novos sempre às quartas e sextas. Fique ligado!



Passaportes na mão? Depois de viajar pelo Nordeste na semana passada, resolvemos alçar voos mais longe desta vez, percorrendo os principais continentes através do olhar das nossas escolas. Foi só em 1997 que a regra que proibia temas estrangeiros acabou. O fim da norma, que dificultava a abordagem de temas não-nacionais, deu mais liberdade para as agremiações viajarem em temas de fora do Brasil.

Junto a isso, com a chegada dos anos 2000, veio a onda de enredos CEP patrocinados, então as agremiações começaram não só a viajar pelas cidades brasileiras mais inusitadas, mas também pelos mais variados cantos do mundo. É uma tendência tão recente que todos os desfiles da lista são apenas dos últimos quinze anos. Por isso, são apresentações que quase todo mundo lembra. Vem viajar com a gente! 


França - Grande Rio 2009 e Vai Vai 2016

Reprodução site Liesa

Nossa alma é tricolor? O Brasil tem uma relação conturbada com a França, principalmente pelo Rio de Janeiro, mas é inegável o valor e a influência cultural francesa em nossa história. Um país tão rico culturalmente daria um grande enredo, né? E já deu dois, na Sapucaí e no Anhembi. Primeiro, a Grande Rio levou um grande homenagem ao país no ano da "França no Brasil", que incluía uma série de homenagens e aproximações entre as duas nações.

O enredo se focou nesse diálogo entre aqui e lá, viajando pela invasão de Villegagnon, as influências da Revolução Francesa e o carnaval de Nice. A apresentação assinada por Cahê Rodrigues em seu ano de estreia na tricolor de Caxias garantiu a quinta posição para a escola. Anos depois, o país ganhou o Anhembi com o desfile da tradicional Vai Vai, com enredo assinado pela consagrada dupla de carnavalescos Renato e Márcia Lage, que apresentaram os aspectos mais conhecidos do país. 

América Latina - Vila Isabel 2006



Para bailar la bamba! E nessa viagem por terras estrangeiras, vale uma passada pelos nossos hermanos, não é mesmo? Com uma polpuda verba da estatal petrolífera venezuelana PDVSA (R$ 900 mil à época, segundo consta), o carnavalesco Alexandre Louzada desenvolveu uma excelente viagem sobre os diferentes aspectos culturais que formam a América Latina no geral, desde as civilizações pré-colombianas passando pela exploração espanhola até os dias de hoje.

A apresentação foi embalada por um samba mediano, mas defendido com garra por Tinga e a comunidade de Noel. Recém subida do acesso, a Vila Isabel surpreendeu a todos, com um grande trabalho estético de Louzada e a força da apresentação, que acabou credenciando a azul e branco para o título. Numa apuração eletrizante, a agremiação acabou superando a sua principal rival, Grande Rio, que perdeu décimos preciosos depois de estourar o tempo.


África do Sul - Porto da Pedra 2007



O continente africano é sempre cantado num sentido abrangente e reducionista. Apesar de ser visto como um lugar homogêneo, a África é exatamente um continente com uma rica diversidade de países e culturas. Poucas narrativas com a alcunha de "enredo afro" desmistificam essa visão, como é o caso do enredo da Porto da Pedra em 2007, que escolheu fazer um recorte da região por país.

O enredo de Milton Cunha contou a história da África do Sul contra o preconceito e a colonização inglesa, marcada pelo terrível "apartheid". A figura fundamental de Nelson Mandela e sua luta contra repressão também ganhou destaque. O enredo explorou ainda os aspectos sociais do país, além da Copa do Mundo que o país sediou, em 2010. Tudo isso ganhou ainda mais emoção com um samba-enredo poético e que sintetizava muito bem a história. Pena a plástica de Milton não ter surtido o efeito esperado, mas mesmo assim, não tira o brilho dos bons momentos da apresentação do Tigre.


México - Viradouro 2010

Foto: Wallace Teixeira | Riotur 

Outro desfile que cantou a latinidade foi o da Viradouro. Com uma tequila e um sombreiro na mão, a vermelho e branco cantou o México e suas cores. Assinado por Edson Pereira e Junior Schall, o enredo lembrou diversas marcas históricas do país, exaltando sua rica cultura, sua fé, seus temperos, o processo de independência, a relação do seu povo com a morte e as figuras de Diego Rivera e Frida Kahlo.

A passagem da agremiação, no entanto, foi marcada por diversos problemas estéticos, e a escola acabou ficando com a posição mais baixa na apuração, caindo para o grupo de acesso. Até o carnaval de 2018, o ano de 2010 foi o último em que a agremiação que subiu - à época, União da Ilha - não ficou em último lugar. 

Angola - Vila Isabel 2012

Foto: O Globo

Voltando ao continente africano, outra narrativa não-totalizante da região veio pelas mãos de ninguém menos que Rosa Magalhães, carnavalesca pouco associada às temáticas negras. Com mais um enredo extremamente inspirado, a azul e branco mostrou que Brasil e Angola também estão ligados pela música, pela religiosidade e pelas demais heranças que transitam na negritude, proporcionada pelo tráfico de escravos, extremamente forte entre os portos de Luanda e do Rio de Janeiro.

A carnavalesca optou pelo uso de diversas estamparias do país homenageado, abrindo o carnaval com a riqueza natural da fauna e flora angolanas - lindamente retratadas em uma inesquecível comissão de frente - e fechando o desfile com o ícone comum dos dois países: Martinho da Vila. O compositor é considerado Embaixador Cultural do Brasil no país africano e realizou uma ponte musical relevante entre as duas nações, disseminando a música brasileira em Angola e a música angolana no Brasil. A agremiação, com um excelente samba-enredo, foi a última a desfilar no domingo de carnaval, saindo aclamada por crítica e público, conquistando o terceiro lugar daquele ano, além de seis prêmios do Estandarte de Ouro - inclusive para desfile, enredo e personalidade para Rosa Magalhães.  


Suíça - Unidos da Tijuca 2015

Foto: Christophe Simon 

Uma escola que tem pontos altos no programa de milhagem é a Unidos da Tijuca. Na onda dos enredos CEP, o povo do Borel encheu o pote como pôde, passeando não só pelo Brasil como pelo mundo diversas vezes. Um dos casos mais curiosos foi o da Suíça, afinal, quem diria que um país tão distante culturalmente poderia dar um bom enredo?

Foi o primeiro carnaval da Comissão formada após a saída de Paulo Barros, que ajudou a conquistar três títulos para o Borel. O enredo fez um passeio burocrático sobre a cultura e história da região homenageada, no melhor estilo atlas e guia de turismo. Numa tentativa de ligação com o Brasil, a narrativa ganhou o fio condutor de Clóvis Bornay, que tinha relação com o país através de seu pai. O samba não empolgou tanto, mas a plástica foi competente e faturou um ótimo quarto lugar para a azul e amarelo naquele ano. 

Marrocos - Mocidade 2017

Foto: Jornal Extra

Pra lá de Marrakesh! A Mocidade embarcou para o norte da África no carnaval de 2017 e homenageou Marrocos, sua gente, suas histórias e seus hábitos. A princípio com uma confusa sinopse e sem grande expectativa do público, a escola acabou surpreendendo a Sapucaí e realizou um belo desfile sendo tocado por um grande samba-enredo.

A comissão de frente de Jorge Teixeira e Saulo Finelon, feito um teatro de ilusão, foi um dos grandes trunfos e encantou a todos com a perseguição a Aladdin e seu tapete mágico, que sobrevoou a Avenida com um drone. O enredo foi um pouco criticado por não exatamente tratar do Marrocos, mas propor uma grande mistura de elementos famosos da cultura árabe, o que acabou dando tom mais familiar e lúdico ao tema. O último carro encerou o carnaval com uma miragem em que o “Saara de cá” - a bateria Não Existe Mais Quente - se encontra com o deserto do “Saara de lá”, sob a batucada do tambor de Xangô. Como propõe o lindo samba que acabou guiando o desfile da Estrela Guia, o orixá conheceu Alah e a Mocidade terminou a quarta-feira de cinzas com um grandioso vice-campeonato, mas se sagrou campeã do carnaval ao lado da Portela após a divulgação das justificativas e uma polêmica divisão do título.

China - Império Serrano 2018

Foto: Fernando Grilli/Riotur

Terminando nossa viagem, partindo rumo ao Oriente, chegamos no Império Serrano que escolheu homenagear a China após um período de oito anos distante da elite. O tema foi trabalhado pelo carnavalesco Fábio Ricardo e a agremiação desenvolveu uma proposta linear para exaltar a região. A imponência dos dragões chineses dourados abriram o desfile da agremiação, que contou com os leques, a flor de lótus, os signos religiosos, os mercados, a seda, as festas místicas, o Kung Fu Panda e outros elementos que são facilmente relacionados ao país.

Ainda que possuísse um simples porém aguerrido samba, o enredo cometeu equívocos, como a associação da Muralha da China às sete maravilhas do mundo antigo, e o Império sofreu com problemas de evolução e dificuldades estruturais e políticas no retorno ao Grupo Especial. O Reizinho de Madureira, entretanto, acabou beneficiado após a virada de mesa orquestrada pela Grande Rio, e continuará a desfilar no principal coletivo de escolas de samba em 2019.



Procuramos fazer uma viagem bem abrangente pelas mais variadas regiões do globo e seus continentes contados por diferentes agremiações. Obviamente algumas apresentações ficaram de fora, mas criamos uma playlist para quem ficou com gostinho de quero mais! Assim, sem sair do lugar, vamos conseguir ir a outros inúmeros destinos internacionais do roteiro carnavalesco:

quinta-feira, 24 de maio de 2018

SINOPSE: Acadêmicos do Cubango | "Igbá Cubango - A alma das coisas e a arte dos milagres"


GRES ACADÊMICOS DO CUBANGO
CARNAVAL 2019

PRESIDENTE: ROGÉRIO BELISÁRIO
CARNAVALESCOS: GABRIEL HADDAD E LEONARDO BORA

IGBÁ CUBANGO
A ALMA DAS COISAS E A ARTE DOS MILAGRES

Objetos de poder, objetos de devoção, objetos-dádivas, objetos que possuem alma e contam histórias, objetos de pedir e pagar, objetos que traduzem graças, objetos encantados, objetos-amuletos, objetos-relíquias, objetos que operam milagres – e que mentem milagres também. O GRES Acadêmicos do Cubango pede a proteção de Babalotim, o “ídolo menino” que completa 40 anos, e agradece a São Lázaro, o padroeiro, pelo sonho vivido no último cortejo. Romeiro, cada sambista carrega consigo as suas obrigações. O que pretendemos contar são causos da religiosidade popular brasileira a partir da relação de cada sujeito com os seus objetos de culto. Somos devotos dos tambores ancestrais: rum, rumpi e lé. O desfile é o nosso ex-voto, o samba é a nossa graça. Porém é preciso cuidado com as promessas dos falsos profetas – novíssimos Reis da Vela com as suas coroas de lata, votos que perpetuam o medo e o preconceito.
Sambemos!
Carrego de Exu eu não quero carregar. Mas amuleto, o que é que há?
– Ko si ọba kan, ofi, Ọlọrun.


SINOPSE DO ENREDO

1 – Igbá Cubango

Na festa de Domurixá
em homenagem a Oxum
Deusa da nação Ijexá
onde a figura principal
era o boneco Babalotim
mensageiro da alegria, da força do axé
um ídolo menino, levado por menino em sua fé
e assim teve origem o Afoxé
Heraldo Faria e João Belém – Afoxé

Igbá Cubango! Guardamos nessas cabaças as memórias antepassadas. Fundamentos. Levamos para a Avenida o peji das nossas vitórias: evocamos o dom de Afoxé, o samba que se fez milagre. Assentamos, aqui, nossa história. Da palha fazemos um trono. O ídolo-menino de outrora é revivido na Passarela: que todo componente da escola a ele dirija um pedido. Valei-nos, Babalotim! Oxum traz os seus axés: pedras do fundo do rio, pentes de tartaruga. Otás. São Lázaro se transforma: Obaluaê, Omolu, Xapanã, na porta da nossa quadra, no Morro do Abacaxi. Saúda e protege os sambistas, que a ele oferecem presentes. Giram laguidibás, giram saias, giram guias. Chifres de búfalos, asas de besouros. Mães-baianas, turbantes e panos da costa, cobrem o chão de pipocas. As mãos nos atabaques, os pés na terra. Os corpos-terreiros fervem e alguém, enfim, anuncia: agarrem as suas figas para mais uma sagração!


2 – De pedir proteção
Laguidibá
não é simples ornamento
é colar de fundamento
você tem que respeitar
(…)
Laguidibá
é adereço muito certo
é coisa de santo velho
do Antigo Daomé
Nei Lopes – Laguidibá

Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. O barroco tropical brasileiro reuniu em um mesmo oratório as relíquias dos santos de lá às penas caboclas de cá. Nos balangandãs de prata, romãs e muiraquitãs. Medalhas. Uma figa, uma rosácea, um coração, um crucifixo. Búzios, firmas, fitas, fios de conta. Dentes de animais encastoados. Pulseiras, colares, cocares. Calungas. Me banhei com guiné, alfazema e dandá. Defumei com quarô, benjoim. Patuás. Ourivesaria sagrada, jóias de mandingueiras. Quase tudo se faz amuleto, pedir proteção é de praxe – “basta encontrar na rua um fetiche qualquer, pedra, pedaço de ferro ou concha do mar”, escreveu João do Rio, nas quebradas. O seguro morreu de velho e é preciso se precaver: fechar o corpo, tomar a sorte, ganhar coragem, fazer os nós. Nos sacrários das sacristias, nos segredos dos Candomblés. Ebós. Arriar comidas nos entroncamentos. Carrancas pra navegar, máscaras nos bailados. Terços e escapulários – e um pouquinho de pó de pemba.


3 – De pagar promessas
No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.
(…)
No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.
Carlos Drummond de Andrade – Romaria

Pedido feito, graça recebida – então é preciso pagar. Caminhar, seguir romaria. Carregar uma cruz tão pesada, o drama de Zé-do-Burro. Nas mãos calejadas da lida, cem mil corações em brasa. Ex-votos do Brasil inteiro desenham um mapa de pernas. O catolicismo popular expressa as andanças da nossa gente: Bonfim, Nazaré, Matosinhos, Bom Jesus, Pai Eterno, Canindé, Monte Santo, Juazeiro, e lá se vai a multidão cantando. Que ex-voto levo à Aparecida, se não tenho doença e só lhe peço a cura? – questionou Adélia Prado. São Judas Tadeu – Niterói. A Candelária, a Penha, a Penna. Nos “museus das promessas ou dos milagres”, como o descrito por Jorge Amado, vê-se a sobreposição de dádivas: barro, cera, madeira, papel. São partes do corpo, são pinturas, são retratos e miniaturas (de casas, de bichos, de barcos, de gratidão). Cartas, bilhetes, roupas, diplomas. Vitalino esculpiu ex-votos, Mestre Fida é uma referência. Artistas contemporâneos revisitam o imaginário – mesmo o Bispo do Rosário, que tanta alegria nos deu, a quem novamente rogamos: olhai por nós, nobre peregrino! Cada rosto esculpido foi dor alentada. (…) Deixa a dor nas aras, como ex-voto aos deuses – e segue o teu destino!


4 – Da (falsa) promessa que é dívida
HELOÍSA – Ficaste o Rei da Vela!
ABELARDO I – Com muita honra! O Rei da Vela miserável
dos agonizantes. O Rei da Vela de sebo. E da vela feudal que nos fez
adormecer em criança pensando nas histórias das negras velhas…
Da vela pequeno-burguesa dos oratórios e das escritas em casa… (…)
Num país medieval como o nosso, quem se atreve a passar
os umbrais da eternidade sem uma vela na mão?
Herdo um tostão de cada morto nacional!
Oswald de Andrade – O Rei da Vela

Mas há os falsos profetas e as falsas promessas à venda. Objetos de todo tipo, no shopping-cassino da unção. É água de benzer camisa, é caneta de assinar contrato, é tijolo para erguer a casa, é vassoura de varrer o diabo. Travesseiros para sonhos bons, redes de pescar vitórias. E velas aos borbotões! Não é outro que não a vela o mais famoso objeto votivo: de pedir, pagar, prometer. Abelardo I, o Rei da Vela, lucrou e fez fortuna explorando a miséria alheia. A crítica de Oswald de Andrade, Antropofagia e Tropicália, permanece ferida aberta no peito do Brasil atual. São promessas que viram cifras e moedas que se avolumam: qual é o preço a se pagar por um lugar confortável no céu? E que céu tão nublado é este, que mais exclui do que celebra a diferença? Dívidas que se pagam a preços exorbitantes – inclusive um outro tipo de voto, nem devoto nem ex-voto: o voto depositado nas urnas eleitorais.

Que as velas acendam pedidos de dias mais iluminados. Afinal, já dizia o poeta: há sempre uma promessa de alegria…
Amém, Axé, Evoé, Saravá!
-Glória pro fio de Exu!

Carnavalescos – Gabriel Haddad e Leonardo Bora
Autores e pesquisa do enredo – Gabriel Haddad, Leonardo Bora e Vinícius Natal

Nascido de uma confluência de sonhos, sequências de sincronicidades.
Agradecimentos especiais a Thiago Hoshino e Fred Góes.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMADO, Jorge. Bahia de Todos-os-Santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
ANDRADE, Oswald de. O Rei da Vela. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2000.
BARRETO, Cristina; BORGES, Adélia. Pavilhão das Culturas Brasileiras: Puras misturas. São Paulo: Terceiro Nome, 2010.
BATISTA, Marta Rossetti (org.). Coleção Mário de Andrade. Religião e Magia, Música e Dança, Cotidiano. São Paulo: EdUSP / Imprensa Oficial, 2004.
BISILLIAT, Maureen; SOARES, Renato. Museu de Folclore Edison Carneiro. Sondagem na Alma do Povo. São Paulo: Empresa das Artes, 2005.
BITAR, Nina Pinheiro; GONÇALVES, José Reginaldo Santos; GUIMARÃES, Roberta Sampaio (orgs.). A Alma das Coisas: patrimônio, materialidade e ressonância. Rio de Janeiro: Mauad X; Faperj, 2013.
COELHO, Beatriz (org.). Devoção e arte: imaginária religiosa em Minas Gerais. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.
CUNHA, Laura; MILZ, Thomas. Joias de Crioula. São Paulo: Terceiro Nome, 2011.
DUARTE, Ana Helena da Silva Delfino. Ex-Votos e Poiesis: representações simbólicas na fé e na arte. Tese de Doutorado em História – PUC-SP. São Paulo: 2011. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/handle/handle/12719.
GAUDITANO, Rosa; TIRAPELI, Percival. Festas de Fé. São Paulo: Metalivros, 2003.
GÓES, Maria da Graça Coutinho. Ex-votos, promessas e milagres: um estudo sobre a Igreja Nossa Senhora da Penna. Dissertação de Mestrado Profissionalizante em Bens Culturais e Projetos Sociais – FGV. Rio de Janeiro: 2009. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/2700/CPDOC2009MariadaGracaCoutinhodeGoes.pdf?sequence=1&isAllowed=y.
LODY, Raul. Moda e história. As indumentárias das mulheres de fé. São Paulo: SENAC, 2015.
MAMMÌ, Lorenzo (org.). A viagem das carrancas. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
MOURÃO, Tadeu. Encruzilhadas da cultura. Imagens de Exu e Pombajira. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2012.
MUSSA, Alberto. Ẹlẹgbara. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2005.
PERES, Eraldo. FÉsta Brasileira: folias, romarias e congadas. São Paulo: Senac Editoras; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.
RIO, João do. As religiões no Rio. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
RUFINO, Luiz; SIMAS, Luiz Antonio. Fogo no Mato. A ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.
SILVA, Lucília Maria Oliveira. Pedir, Prometer e Pagar: escritos, imagens e objetos dos romeiros de Canindé. Dissertação de Mestrado em História Social – Universidade Federal do Ceará (UFC). Fortaleza: 2007. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/3378/1/2007_dis_lmosilva.pdf.
VAREJÃO, Adriana. Entre carnes e mares. Rio de Janeiro: Cobogó, 2009.
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás. Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 2002.
https://projetoex-votosdobrasil.net/.

Canções mencionadas no texto:
Afoxé, Heraldo Faria e João Belém
Feita na Bahia, Roque Ferreira
Laguidibá, Nei Lopes

Poemas e demais textos literários mencionados no texto:
Alegria, entre cinzas, Carlos Drummond de Andrade
Bahia de Todos-os-Santos, Jorge Amado
Ẹlẹgbara, Alberto Mussa
Ex-Voto, Adélia Prado
Ex-Votos, Aninha Duarte
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (capítulo Macumba), Mário de Andrade
Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade
No mundo dos feitiços, João do Rio
O Pagador de Promessas, Dias Gomes
O Rei da Vela, Oswald de Andrade
Romaria, Carlos Drummond de Andrade
Segue o teu destino, Ricardo Reis/Fernando Pessoa

quarta-feira, 23 de maio de 2018

#SérieEnredos: Vai pra avenida ou não vai? Enredos cogitados que nunca desfilaram

Por Leonardo Antan

A "Série Enredos" dominará o site aqui durante o mês de maio, com textos novos às quartas e sextas.


No ciclo de vida momesco, a cada ano as escolas dão o start para a preparação do próximo desfile com o lançamento do enredo que levarão para a avenida. Enquanto o anúncio oficial não acontece, muitas são as especulações, ainda mais em tempos de WhatsApp e redes sociais, locais onde os boatos se proliferam com grande dinamismo, criando as possibilidades mais absurdas. 

Sai ano e entra ano, alguns temas voltam a se repetir e rodar em diferentes escolas como possíveis eleitos a enredos. Desde cidades buscando promoção até artistas famosos que não aceitam tal honraria, há várias possibilidades que já circularam nas escolas oficialmente ou não. Dando sequência à #SérieEnredos, confira algumas das mais famosas especulações dos últimos pré-carnavais:

Cirque du Soleil

O maior e mais conhecido circo do mundo com certeza poderia dar um belo enredo, né? Truques de ilusionismo, acrobacias, apresentações espetaculares e tudo o que faz parte do universo do circo canadense já foram cogitados para ganhar a Sapucaí. Uma das ocasiões mais emblemáticas ocorreu na Unidos da Tijuca, na preparação para o carnaval de 2010. Já pensou que poderíamos não ter tido "É Segredo!"? De qualquer forma, Paulo Barros, o carnavalesco do pavilhão amarelo ouro e azul pavão da época, seria um bom nome para levar o tema para Sapucaí.


Logo do que seria o enredo da Estácio sobre Singapura
Singapura

Bateu na trave! A cidade-estado asiática chegou a ser anunciada como enredo da Estácio de Sá para o carnaval de 2018. O desenvolvimento do tema contaria com a ligação do local com a agremiação por meio do leão do São Carlos, já que a região também tem o felino como símbolo. A proposta era patrocinada, mas o dinheiro não chegou, fazendo com que a vermelho e branco abandonasse a ideia, e Singapura ficou sem ganhar um samba em sua homenagem felizmente! 


Espanha

Um país tão rico culturalmente como a Espanha daria um belo enredo, e, vez ou outra, o reinado da Península Ibérica é ventilado como possibilidade de homenagem. Apesar da promessa, o enredo da União da Ilha sob a batuta de Rosa Magalhães em 2010 acabou enfocando mais sobre o clássico Dom Quixote e menos sobre o país. Até hoje, nenhuma escola do Grupo Especial fez uma homenagem à altura ao país. 



Nova Friburgo

A Cubango até divulgou a parceria com Friburgo, mas a homenagem não vingou.
A cidade da região serrana do Rio de Janeiro comemorou seu bicentenário esse ano e a prefeitura cogitou patrocinar um tema em homenagem ao município na Série A do carnaval carioca. Friburgo circulou por duas agremiações; primeiro a Porto da Pedra e um enredo fake de título curioso: "Deu a louca no Egito, o Faraó foi parar em Friburgo". A notícia chegou a ser anunciada em alguns veículos de imprensa para depois ser negada pelo Tigre de São Gonçalo. Depois, a possibilidade de homenagear o município também rondou a Acadêmicos do Cubango, e os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, vulgo Boraddad, chegaram a realizar um desenvolvimento do tema, que também não se concretizou.


Fernando Montenegro
Confira a matéria
Considerada quase que unanimemente a maior atriz brasileira, a brilhante carreira de Fernanda Montenegro, que atravessa mais de setenta anos da produção cultural do nosso país, seria um enredo e tanto! Possibilidades não faltaram para isso se concretizar: em sua última passagem no Especial antes de 2019, no ano de 2015, a Viradouro - escola que já homenageou grandes musas do teatro, como Dercy Gonçalves e Bibi Ferreira -, chegou a conversar com a atriz, que alegou estar com a agenda cheia, o que impossibilitaria-a de poder se envolver como gostaria no processo da homenagem. O enredo teria sinopse assinada por Milton Cunha, que chegou a esboçar o texto. Posteriormente, quem procurou Fernandona foi ninguém menos que a Mangueira, mas a atriz alegou a mesma problemática: sua agenda, por duas vezes para a verde e rosa. A situação mais recentes foi há poucos meses, visando o próximo carnaval. Mas não será ainda que a vida da grande dama do teatro será retratada no Sambódromo. Deixa, Fernandona!


Luciano Huck
O Huck até tentou... Confira a matéria
Se alguns têm um currículo invejável, com possibilidades de alas e carros sobrando, outros não possuem tanto... Em 2017, Luciano Huck foi ventilado como possível candidato à presidência e para uma aproximação popular, nada melhor que virar enredo de escola de samba, não é mesmo? E o dono do Caldeirão tentou. Uma gorda promessa de patrocínio rondou algumas agremiações do da elite do carnaval para contar a vida do apresentador global. Alegoria do Lata Velha? Ala da pinta da Angélica? Pra nossa sorte, o absurdo ficou só na promessa e não chegou a se concretizar. 


Tim Maia
Uma das figuras mais controversas e amadas da música brasileira já teve sua vida transformada em livro, musical, filme e por que não um enredo de escola de samba? A história do cantor já foi cogitada para a avenida tanto no Rio quanto em São Paulo, sem sucesso, porém, nas duas folias. O tema seria difícil de carnavalizar, mas com certeza geraria um desfile de temática alegre e de fácil comunicação com o público. Fica a dica! 



Renato Russo

Outro músico fundamental para a história do Brasil mas também difícil de ser transformado em enredo é Renato Russo. O lendário líder da Legião Urbana também já foi ventilado como possível enredo de algumas agremiações. A vez mais recente foi pela União da Ilha, localizada na terra natal de Renato, cria da Ilha do Governador. O principal herdeiro do músico se envolveu na negociação e a ideia era bancar a iniciativa com um financiamento coletivo, mas a ideia não se concretizou. 


Esses são só alguns temas que mais circularam pelas cúpulas e pela rádio bastidor das escolas nos últimos anos. Você curte algum? Espera que um deles se concretize no futuro? Ou ainda, lembra de um que sempre circula nas conversas do pré-carnaval e não está na lista? Mande sua sugestão! Nossa #SérieEnredos segue até o fim do mês, sempre às quartas e sextas.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Livro em homenagem a Rosa Magalhães será lançado no Rio de Janeiro




Vem aí o: “VERDE AMARELO AZUL E ROSA”

Este livro escrito por Bruno Laurato, “Verde Amarelo Azul E Rosa”, merece ser lido com muito prazer e atenção. O autor faz um estudo detalhado sobre os melhores desfiles assinados pela grande carnavalesca Rosa Magalhães.”
Lícia Lacerda.

O livro.
Este é, portanto, um dossiê sobre alguns desfiles assinados pela premiada carnavalesca Rosa Magalhães. O que era a tese de conclusão de curso para a graduação de jornalista do autor Bruno Laurato tornou-se um livro, que hoje ganha às livrarias – para a felicidade dos fãs da professora. Neste projeto o autor analisou os desfiles em que Rosa Magalhães abordou períodos históricos do Brasil. Unindo, desta forma, o povo e a sua história através da maior festa de cultura popular brasileira.

A obra caminha sobre doze carnavais da artista, em ordem cronológica, iniciando, portanto, em 1982 com o antológico “Bumbum Paticumbum Prungurundum” do Império Serrano. Logo depois, os dois anos consecutivos que a carnavalesca assinou o desfile dos Acadêmicos do Salgueiro. Em seguida, alguns desfiles históricos que Rosa desenvolveu na Imperatriz Leopoldinense e terminando, enfim, com campeão de 2013 na Vila Isabel.

Para essa análise, o autor contou não apenas com entrevistas valiosas onde a homenageada detalhou cada enredo, como também, conversas com especialistas do carnaval como: Fábio de Mello – grande coreógrafo que trabalhou durante doze anos com Rosa Magalhães; Lícia Lacerda, amiga e carnavalesca que trabalhou com Rosa em seu primeiro carnaval, no Império Serrano em 1982 - e que escreveu a orelha do livro; Milton Cunha, carnavalesco e comentarista da Rede Globo e Fabio Fabato, jornalista, escritor e comentarista de carnaval, que inclusive, é o responsável pelo prefácio do livro. Além disso, o autor buscou matérias de jornais da época, arquivos de entrevistas sobre as especulações do enredo, assim como, os vídeos dos desfiles de cada ano.

O autor.
Bruno Laurato, 23 anos é jornalista, escritor e, atualmente, atua também como carnavalesco em São Paulo. Esta é sua primeira obra literária.

Lançamento.
O lançamento ocorre no Sábado - 26/05 às 14h.
Local: Baródromo – Rua do Lavradio, 163 – Lapa – Rio de Janeiro

Ficha técnica:
Gênero: Livro Reportagem
Categoria: História
Páginas: 138
Formato: 16 cm x 21 cm
Preço: 46,90
Palavras-chave: História do Brasil; Carnaval; Rio de Janeiro; Rosa Magalhães