quarta-feira, 16 de maio de 2018

#SérieEnredos: O carnaval e as histórias à margem da História

Por Redação Carnavalize




“A História é escrita pelos vencedores”. A frase atribuída a George Orwell - pseudônimo do escritor inglês Eric Arthur Blair - evidencia uma centralização na construção dos discursos, que proporcionam grande exaltação aos “vencedores” das guerras e disputas de poder, e uma fácil vilanização ou esquecimento aos que sofreram com as dominações que moldam a realidade da nossa população.

É por essa desproporção que outras fontes de disseminação de conhecimento e dos acontecimentos que moldaram nós e nossos povos se tornam necessárias. A História pode ser contada, também, fora dos centros de ensino convencionais. Os saberes são disseminados na rua, na internet, nas casas religiosas, nos terreiros, no sofá de casa e... nas escolas de samba! Nossas agremiações, por diversas vezes, assumem-se como responsáveis por contar histórias que a História marginalizou, a exaltar figuras da realidade ou do folclore que foram sucumbidas em prol de uma perspectiva preconceituosa para falar sobre o mundo e a vida.

Então, se prepara que o Carnavalize fez um levantamento mega especial de enredos que homenagearam figuras importantes para a construção da nossa sociedade e relevantes para a cultura do Brasil, que nem sempre figuraram nos livros de História.

Antes de começar, um aviso: textos novos todas quartas e sextas-feiras na nossa #SérieEnredos! Confira o primeiro e o segundo clicando aqui e aqui, respectivamente!


Xica da Silva - Salgueiro 1963

Não se pode falar acerca de personagens que muitas pessoas conheceram por meio das agremiações do carnaval sem falar da Academia do Samba. A escola tijucana foi pioneira em possuir uma identidade temática de valorização do negro, guiada pela direção de Nelson de Andrade e pelas visões de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Em 1963, com os desfiles pela primeira vez na Avenida Presidente Vargas, o carnaval do Salgueiro inovou tanto com a escolha do enredo - que pela primeira vez no carnaval exaltaria uma mulher negra - quanto pela coreografia de parte de seus integrantes em minueto -  manobra ousada para época, concebida pela dançarina Mercedes Baptista e que proporcionou uma das fotos mais emblemáticas do carnaval.

O minueto, um dos momentos mais marcantes da história da Academia do Samba (Foto: Acervo OGlobo)
O grupo coreografado ficou localizado na última divisão do desfile, dividido entre as origens da homenageada, a liberdade alcançada após seu casamento e seus caprichos, de acordo com o pesquisador João Gustavo Melo. Além disso, o desfile marcou a vida de Isabel Valença. Ela, assim como a homenageada do enredo, tornou-se conhecida do grande público após aquele carnaval, ao encarná-la de uma maneira incrivelmente luxuosa. O requinte, aliás, foi característica forte de todo o desfile, com tema escolhido e assinado pelo talentosíssimo Arlindo Rodrigues, enquanto Pamplona realizava uma viagem internacional. A homenagem à ex-escrava que se casou com o responsável pela exploração de diamantes na região do Arraial do Tijuco, atualmente localizada em Diamantina (MG), garantiu o primeiro campeonato solo para o Salgueiro e inspirou o filme que seria rodado anos depois pelo cineasta Cacá Diegues.

Chico Rei - Salgueiro 1964

A chamada “revolução salgueirense” continua a dar frutos na década de 60 e outra homenagem é preparada para o carnaval seguinte ao inesquecível Xica da Silva. Contando a história de outro escravo que subverteu aos padrões de status de sua época, o Salgueiro apostava em exaltar Chico Rei, figura que até hoje promove dúvidas acerca de sua veracidade. Entre pessoa e lenda, é a ele atribuída a responsabilidade pela compra da alforria de diversos escravos da tribo de onde viera e por introduzir em Minas Gerais o congado, manifestação formada pelo intercâmbio cultural entre Brasíl e países africanos.




Segundo o historiador Diogo de Vaconselos, Chico Rei teria sido monarca no Reino do Congo - região hoje composta por países como Angola e República do Congo - e trazido, junto a seus pares, para a região de Ouro Preto. Lá também se firmou como rei ao conseguir criar uma rede de apoio para o pagamento de alforrias aos seus familiares e amigos. O desfile também foi assinado pelo carnavalesco Arlindo Rodrigues e proporcionou para o Salgueiro o vice-campeonato daquele ano.


Sinhá Olímpia - Mangueira 1990


“Sou amor, sou esperança”. É assim que um dos mais belos sambas da Estação Primeira de Mangueira apresentou uma das figuras mais curiosas retratadas na Marquês de Sapucaí. Bebendo da fonte das homenagens que a afilhada encarnada e branca realizou nas décadas anteriores, a verde e rosa contou a história de Olímpia Angélica de Almeida Cotta, a Sinhá Olímpia. A senhora também faz parte do imaginário da cidade de Ouro Preto e foi considerada por alguns nomes da cultura e da História como a primeira hippie do país, com vestimentas peculiares, marcadas pelo uso excessivo de cores e materiais alternativos.


Foto: O Globo.
Sinhá Olímpia gostava de contar histórias, contos e acontecimentos como se estivesse presenciado épocas em que não estava viva. Por isso, foi taxada como louca na cidade de Minas Gerais notável pela herança da arquitetura e arte barrocas, justificando o título “E deu a louca no barroco”.  De acordo com o livro "As Matriarcas da Folia", a ideia de fazer um tributo em forma de carnaval para Olímpia era de Fernando Pinto, falecido em 1987. Um dos carnavalescos da Mangueira de 1990, Ernesto Nascimento era amigo do tropicalista e realizou o enredo descoberto por Fernando como uma possibilidade de homenageá-lo. 

Após uma sucessão de problemas envolvendo os carros alegóricos no decorrer da avenida e, com isso, estourar o tempo máximo de apresentação, a verde e rosa terminou em oitavo lugar, mas faturou seis prêmios do Estandarte de Ouro, incluindo o de melhor escola e o de samba-enredo.

Tereza de Benguela - Viradouro 1994


Outro imprescindível nome para a narrativa visual e temática do carnaval, Joãosinho Trinta assinou seu primeiro desfile na Viradouro em homenagem a uma forte mulher negra: Tereza de Benguela. Após uma fase épica na Beija-Flor de Nilópolis, o gênio partiu para as bandas de Niterói disposto a continuar ousando e acreditando em enredos fortes e repletos de personalidade.



Tereza foi ícone do movimento libertário durante a época escravocrata do país, e tomou frente do Quilombo de Quariterê, localizado no Mato Grosso. Lá, ela se demonstrou um exemplo de liderança, assumindo o papel de coordenação do funcionamento político, social e administrativo do grupo e resistindo às tentativas de escravidão pela colônia. 

Ao retratar uma figura que conseguia possuir essa inteligência e mesclar diferentes povos e culturas com respeito e tolerância, João associou Tereza e suas características com o que desejava para o cenário contemporâneo da época - que carregava problemáticas que seguem atuais, como preconceito e questões da terra. A Viradouro terminou em um honroso terceiro lugar e a luz de Tereza não apagou.

Bidu Sayão - Beija-Flor 1995


Figura fundamental da música clássica brasileira, Bidu Sayão foi uma cantora lírica de enorme sucesso e reconhecimento internacional. Durante mais de uma década, assumiu o posto de principal soprano do Metropolitan Opera House, casa de uma das principais companhias de música clássica do mundo. A artista encantou diversas autoridades estrangeiras; em 1921, aos 17 anos, foi intitulada como a “rouxinol do Brasil” por Hirohito, que seria cinco anos depois o 124º imperador do Japão. Ela também foi convidada por Roosevelt, então presidente dos Estados Unidos, em plena Casa Branca, a se naturalizar como cidadã estadunidense. Bidu recuou do convite, pois queria ser lembrada como uma artista brasileira.

Autor do enredo, Milton Cunha ao lado de Bidu Sayão (Foto: Autor desconhecido)
Um dos nomes mais expressivos do carnaval e que tem forte papel de exaltação de figuras desconhecidas do grande público, Milton Cunha foi o autor do enredo e do desfile em homenagem à soprano, sendo responsável pela disseminação de Bidu pela comunidade nilopolitana e a todos atentos ao desfile da azul e branco. À época do carnaval, um dos compositores do samba-enredo daquele ano afirmou que não conhecia a homenageada, evidenciando a importância das agremiações como instrumento de contar histórias distantes da população.

Após longa estadia nos Estados Unidos, Bidu voltou a seu país especialmente pelo desfile. Com 90 anos de idade, ao lado do carnavalesco Milton Cunha, cruzou a Sapucaí no último carro da agremiação, vestida com os trajes típicos da Carmem Miranda. A Deusa da Passarela terminou em terceiro lugar ao exaltar o canto de cristal.


Agotime - Beija-Flor 2001


A Beija-Flor também tem dobradinha! Além de Bidu Sayão, a escola já retratou outros nomes da cultura nacional não tão bem lembrados. Entre eles, Agotime e sua saga foram a inspiração para o desfile de 2001, que contou a trajetória da monarca da região de Daomé - onde hoje se encontra o país Benim. O enredo se baseou em relatos do Pajé Zeneide Lima, e acompanhou toda a história da figura homenageada, que foi vendida como escrava por seu enteado. Filho do primeiro casamento de Agonglo, após a morte de seu pai e a escolha do meio-irmão para a ocupação do trono, Adandozan comercializou a madastra como gesto de revolta, acusando-a de feitiçaria.

Agotime chegou na Bahia e, ao entrar em contato com a população de origem Nagô e suas entidades, os orixás, decidiu continuar seus ritos e cultos voduns com os demais negro-minas, localizados em outro estado. Prosseguiu como escrava durante dez anos, até conseguir comprar sua liberdade, instalando-se no Maranhão. Lá, Agotime passou a se chamar Maria Mineira Naê, por conta de seu vodun denominado Naê e pela região da Costa da Mina - local em que vários escravos saíram do continente africano para os países da América. Segundo o fotógrafo e etnógrafo franco-brasileiro Pierre Verger, a monarca fundou a Casa das Minas, que até hoje é uma das casas mais antigas e tradicionais de tambor, localizada no Centro Histórico de São Luís e tombada pelo IPHAN em 2002.

As pretas-velhas do cortejo nilopolitano (Foto: Wigder Frota)
Como canta o épico samba da escola, a Beija-Flor passou repleta de energia e vibração na Sapucaí, em uma memorável abertura com desfilantes pretas-velhas à frente do primeiro carro alegórico.  Foi o quarto carnaval desenvolvido por uma comissão, em um modelo que, até então, havia rendido um campeonato e dois vices. Disseminando a história de Agotime, a agremiação nilopolitana acabou com o vice-campeonato e um gosto de amargo em perder o título.


Joaquina Lapinha - Inocentes de Belford Roxo 2014


Fechando nosso levantamento, novamente Minas Gerais e a música lírica aparecem entre as histórias desvalorizadas pela História. Desta vez, juntas, sob a figura de Joaquina Lapinha. Mineira, a cantora e atriz obteve grande destaque entre o final do século XVIII e início do século XIX, em pleno período colonial do Brasil. Apresentou-se em Portugal para Dom João VI, possuindo passaporte livre entre os dois países. Assim, a soprano foi uma das primeiras artistas negras de destaque internacional, em um cenário de normatização de arbitrariedades raciais e de gênero. Até hoje restam dúvidas acerca das datas de nascimento e morte de Joaquina Lapinha, mas não há incertezas quanto à sua importância cultural e social.


O enredo em exaltação a ela era, inicialmente, uma ideia da Beija-Flor de Nilópolis, que sugeriu à coirmã a homenagem após preteri-la pelo astro da televisão brasileira, o Boni. A Inocentes de Belford Roxo, embalada por uma linda melodia de samba, fez um desfile extremamente agradável e com interessantes soluções estéticas concebidas pelo carnavalesco Wagner Gonçalves. Embora tenha terminado em um modesto e subestimado décimo lugar, a agremiação expôs no carnaval uma figura pouco reconhecida pela sociedade e nos apresentou um essencial triunfo da América, Joaquina.

É fundamental reforçar os valores artístico e cultural das nossas escolas, que devem ter como uma de suas principais missões exaltar outras perspectivas e narrativas do que entendemos como Brasil. Por meio da sua potência em dialogar com as massas e a população como um todo, torcemos para que as agremiações continuem a apostar no processo de retomada do protagonismo de outras figuras e personalidades da nossa sociedade!

Para complementar o texto, criamos uma playlist com os sambas dos desfiles acima e outros que também se encaixam nessa temática!

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