sexta-feira, 29 de junho de 2018

SINOPSE: Acadêmicos do Salgueiro | "Xangô"

XANGÔ
Abram alas ao Homem que nasce do poder e morre em nome do poder. Apodera-se do trono de seu irmão para se tornar o verdadeiro líder de uma nação.
Sàngó, Rei absoluto, forte, imbatível, Aláàfìn Òyó, o Homem do Palácio; o grande Obá, o grande Rei.
Batam cabeça pro orixá dos raios, trovões e do fogo. “Senhor do Raio” ou “Senhor das Almas”. Viril e atrevido, violento e justiceiro; implacável com os mentirosos, os ladrões e os malfeitores. Xangô é a representação máxima do poder de Olorum. O desafio é feito sempre para confirmar seu poder. O seu machado duplo, seu Oxé, é o símbolo da imparcialidade. É uma divindade da vida, representado pelo fogo ardente e por essa razão não tem afinidade com a morte e nem com os outros orixás que se ligam à morte.
Sàngó, Ioruba Orisà; Nzazi / Loango, Bantu Nkisi; Xangô, Ketu Orixá; Heviossô, Jeje Vodum; Chango / Jebioso, Santeria Cubana; Ogoun Shango , Vodou Haiti.
É a realeza nas vestes e a sua riqueza, a sua forma de gerir o poder. Usa o vermelho da nobreza e - se grandes reis pisavam sobre o tapete vermelho - Xangô pisa sobre o fogo.
Três esposas: Oya, que divide o domínio sobre o fogo. Oxum, a mais amada. E Oba, que por amor ao seu rei, foi capaz do seu próprio corpo mutilar.
Chega ao Brasil por seus devotados filhos. É cultuado como religião. No Nordeste, influenciado por Daomé, é denominado também de Xangô, em virtude da popularidade e importância da entidade nessa região. A raiz é do Sitio de Pai Adão. É o Xangô de Pernambuco, Xangô do Recife, Xangô do Nordeste e Nagô Egbá.
Sincretizado: das Pedreiras à São Jerônimo, que amansa o leão e que tem o poder da escrita e escreve na pedra suas leis e seus julgamentos. Na cachoeira, com São João Batista, por causa do batismo de Jesus, de lavar a cabeça na água doce para se purificar. Com o poder do fogo, queima, destruindo tudo o que é de ruim e ocorre a transmutação, trazendo tudo o que é de bom, todo o bem possível, de acordo com o nosso merecimento. Isso é o que pedimos nas fogueiras do mês de junho.
São Judas Tadeu, por ter um livro na mão ligado a trabalhos e pedidos de estudos. São Miguel Arcanjo é guerreiro, não das guerras sem propósito, mas, da guerra de cada um contra seu próprio “demônio”. Miguel desce dos céus com o vermelho em suas roupas, em sua árdua batalha contra o mal, quase sempre apontando de cima para baixo seu golpe. A autoridade máxima de São Pedro, a pedra. O primeiro papa, que tem as chaves da igreja e do céu.
Hoje os meus olhos estão brilhando, minha querida Bahia, terra abençoada pelos deuses. Felicidade também mora no Salgueiro. Naquela manhã de 1969, o saudoso professor, na escola tijucana, se incorporou pela primeira vez, ao se trajar como o orixá. E daí à eternidade, consagrado como o Xangô do Salgueiro.
Senhor do que é justo e correto, como o respeito à igualdade de todos. Se a justiça dos homens tem olhos vendados, onde "todos seriam iguais perante a lei". Os de Xangô estão sempre bem abertos. Apelamos ao supremo tribunal, com seus doze Obás- Ministros de Xangô do Axé Opó Afonjá. Todos serão julgados sem privilegios! Presidido pelo Grande Juiz, que bate o martelo e dá seu veredicto: Chega de impunidade! Seus filhos pedem justiça. Cumpra-se!
Xangô é nosso pai é nosso Rei ! Kawó Kabiesilé!!!
Alex de Souza

Cinco vezes que Garantido e Caprichoso sambaram na Sapucaí

Por Felipe de Souza e Leonardo Antan


No Rio, o samba fez escola e virou dos maiores espetáculos da terra. Mas bem longe das praias de água salgada e do litoral, uma outra manifestação cultural se tornou um dos maiores festejos do Brasil. Em Parintins, as tradicionais festas do "boi bumbá" ganharam aspectos espetaculares e protagonismo em meio ao cenário cultural do país. Em julho, quando os tambores do samba-enredo estão longe da avenida, o Brasil ouve ecoar as toadas dos bois Garantido e Caprichoso. A ligação de troca entre os dois espetáculos é histórica, foram os parintintins os responsáveis por difundir as esculturas articuladas e os movimentos surpreendentes nas alegorias. Até hoje, equipes da 'Ilha da Magia', como é conhecida Parintins, trabalham na festa em diversos barracões em Rio e São Paulo, dando vida às esculturas gigantescas. De cá, também saíram profissionais e artistas que brilham no Bumbodrómo.

Celebrando essa união, transformando passista em cunha poranga, relembramos as vezes que nossas escolas renderam homenagem aos bois. Confira:


Salgueiro 1998 - "Parintins, A Ilha do Boi-Bumbá: Garantido x Caprichoso, Caprichoso x Garantido"


O Salgueiro homenageou a 'Ilha da Magia' num desfile em 1998, exaltando o festival folclórico e toda sua mística, como as lendas indígenas e a rivalidade entre os bois vermelho e azul. Num samba bem animado, ao estilo da Academia no sucesso pós-Ita, a escola fez um desfile assinado por Mário Borriello, com alegorias grandiosas e articuladas, bebendo nas características da festa folclórica do Norte. Com um grande contingente, o Salgueiro fez uma contagiante apresentação, comandado pelo intérprete Quinho e pela Bateria Furiosa, comandada por mestre Louro.



Portela 2002 - "Amazonas, esse desconhecido! Delírios e verdades do Eldorado Verde"

A águia teve desenvolvimento de artistas parintinenses (foto extraída de Ouro de Tolo)
O universo místico da maior floresta do mundo voltou a embalar uma agremiação carioca em 2002, quando a Portela prestou homenagem ao estado do Amazonas, num cortejo assinado por Alexandre Louzada. A águia, símbolo da azul e branco, foi elaborada por artistas do festival e contou com movimentos impressionantes. A escola contou todas as riquezas e a história do estado mais verde do país. Ao final do desfile, a escola trouxe para a Marquês os bois Garantido e Caprichoso, numa belíssima e importante troca cultural.


Salgueiro 2009 - "Tambor"

Salgueiro homenageou os tambores amazônidas em seu carnaval campeão (Foto: Ricardo Almeida)
Ao contar a mística e o complexo cultural que envolvem os instrumentos percussivos, o Salgueiro não esqueceu dos nossos maiores eventos artístico-culturais. Além de passear por diversos festejos folclóricos, o carnaval assinado por Renato e Márcia Lage contou com uma bela alegoria representando o Festival de Parintins. Dividido em duas cenas, o carro tinha a frente e as costas idênticas cenograficamente mudando apenas as cores típicas dos dois bumbás, com um grande palco onde os bois branco e negro se apresentavam.


Grande Rio 2012 - "Eu acredito em você! E você?"

David Assayag, uma das grandes figuras do Festival 
Ao cantar a superação em suas diversas formas no ano de 2012, a Grande Rio rendeu tributo a diversas personalidades da história brasileira. Um desses homenageados foi David Assayag, importante levantador de toadas do Festival, que é deficiente visual. O cantor começou sua trajetória no Boi Garantido, cantando por mais de dez anos na instituição. Em 2010, mudou-se para o Caprichoso, num troca cercada de polêmica. No desfile da caçulinha da Baixada, David veio de destaque num tripé que trazia os dois bois, numa bela homenagem ao show do folclore nacional.


Unidos de Padre Miguel 2018 - “O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Parintintin”


A UPM conquistou o vice-campeonato da Série A em 2018 (Foto: Fernando Grilli/RioTur)
No último carnaval, a Unidos de Padre Miguel, capitaneada por João Vitor Araújo, trouxe para a Avenida uma narrativa folclórica inspirada na obra de Milton Hatoum, "Órfãos do Eldorado". Trazendo muito luxo num cortejo digno de campeonato, a escola contou o mergulho nas águas amazônidas, que daria no Eldorado Submerso, Parintins. Na plástica, além de grandes esculturas repletas de efeitos e movimentos, a última alegoria da escola trouxe os dois bois para o samba. 


Além desses desfiles, os dois bois já brilharam também no Anhembi, cabe menção a algumas aparições do Festival de Parintins em São Paulo, como em X-9 Paulistana 1997 ("Amazônia, a Dama do Universo"), Império de Casa Verde 2006 ("Do Boi Místico ao Boi Real - De Garcia D´Ávila na Bahia ao Nelore - O Boi que come capim - A Saga pecuária no Brasil para o Mundo"), Rosas de Ouro 2013 ("Os condutores da alegria numa fantástica viagem aos Reinos da Folia"). No Rio, recentemente, a Mocidade Independente de Padre Miguel em 2018 também teve um momento em menção ao festival, em "Namastê: a Estrela que habita em mim, saúda a que existe em você"..

O Festival de Parintins 2018 acontece nas noites de 29 e 30 de junho e 1º de julho. A festa folclórica tem transmissão da TV Cultura. Não deixe de celebrar e prestigiar a cultura brasileira!

quinta-feira, 28 de junho de 2018

#SérieCarnavalescos: O requinte e arte dos carnavais de Alex de Souza

Por Redação Carnavalize


Um dos principais carnavalescos a se destacar na última década, construindo uma forte personalidade em seus desfiles é Alex de Souza. O artista, que teve passagens marcantes em escolas como Rocinha, União da Ilha e Vila Isabel, vem traçando um estilo marcado pelo bom gosto e pelo requinte de suas criações. Pra encerrar nossa #SérieCarnavalescos, relembramos a trajetória desse grande profissional e seus casamentos mais marcantes.

A formação de Alex deu o tom a algumas de suas principais características. De um lado, o diploma de Técnico em Mecânica, lhe deu um olhar prático e tecnicista sobre a criação. Do outro, o carnavalesco também atuou no mundo da Moda, trabalhando em fábricas têxteis e como assistente de estilo, adquirindo experiência em aliar cores e texturas, como faria em seus carnavais.

Já a carreira nos bastidores da festa começou em 1991, quando foi auxiliar do carnavalesco Renato Lage, na Mocidade Independente, desenhando os figurinos de luxo e composições de alegorias por anos. Estreou como carnavalesco em 1996, atuando na União de Jacarepaguá, pelo Grupo D. Dois anos depois já estava na Série A assinando carnavais na Em Cima de Hora, onde conquistou um expressivo terceiro lugar.

Conceituado nas áreas técnica e artística, teve tais qualidades a seu favor ao definir um estilo mais clean e elegante, sendo reconhecido por suas fantasias grandiosas que abusam de enormes volumes, para aumentar o componente e ocupar toda a avenida. Nas alegorias, desenvolveu um estilo arrojado e limpo, como do seu mestre Renato Lage, mas acrescentando garbo e sinuosidade, típica dos traços curvilíneos dos movimentos "art nouveau" e "art deco", do início do século XX. Já nos quesitos narrativas, Alex de Souza sempre se mostrou competente em desenvolver enredos com narrativas simples e históricas, mas bem amarradas e com início, meio e fim bem definidos.

Oscilando entre resultados mais altos e medianos, Alex sempre se destacou em seus quesitos. Relembre com a gente suas passagens por agremiações dos últimos doze anos. 

Rocinha 2004-2006

O abre-alas de 2004 já trazia o estilo de cores leves e estética "art nouveau" de Alex.

Depois de três anos fazendo expediente na Leão de Nova Iguaçu, à época pela Série A, em 2004,  Alex assumiu a criação na Acadêmicos da Rocinha, então comandada pelo empresário Maurício Mattos. Estreando pela escola de São Conrado, o carnavalesco assinou um desfile que homenageou  Joãosinho Trinta, com o enredo "O Mago do Novo, João do Povo", na ocasião dos 70 anos do artista. O desfile viajou pela valorização do Brasil no repertório de João, seus desfiles mais antológicos, a vida de bailarino e até mesmo sua participação no nascimento da própria Rocinha – onde comandou os três primeiros carnavais da escola. O homenageado veio no último carro, trazendo os bons ares de um desfile bem recebido pelo público, que teve fantasias e alegorias luxuosas, como pedia o carnavalesco-tema do enredo. O resultado foi um terceiro lugar que brindou a união de Alex com a escola, o melhor resultado de seus sete carnavais até ali.

A belíssima abertura de 2005 da Rocinha (Foto: Carlos Magno)
No ano seguinte, o artista comandou uma mensagem de esperança com o enredo "Um Mundo Sem Fronteiras", numa época em que a comunidade-sede da agremiação passava por um período muito violento. O desfile mostrou a união de um mundo em que não existissem barreiras raciais, físicas, que fosse auxiliado pela tecnologia para estreitar e dinamizar relações com a globalização, unindo os povos de forma fraterna. A escola passou deslumbrante na Avenida, apostando em fantasias grandiosas e bem acabadas. O abre-alas foi um dos destaques, em formatos arrojados, com belíssima iluminação e uso de efeitos especiais. Surpreendendo com uma grande apresentação, a Rocinha consagrou-se campeã da Série A.

A integração da primeira ala com o abre-alas é recorrente na trajetória de Alex.

Estreando no grupo especial, Alex seguiu apostando num enredo com mensagem crítica. Assim, sendo a segunda escola a desfilar no domingo, a Rocinha apresentou "Felicidade não tem preço", sobre a relação do homem com o dinheiro. A narrativa teria a simplicidade característica da assinatura das temáticas de Alex, com histórias simples mas bem amarradas. Num excelente trabalho plástico do artista, ele apostou numa abertura luxuosa, que trazia o lendário pote de ouro após o fim de arco-íris. Quase todas as alegorias tiveram acoplamentos e eram grandiosas, com traços cleans e fácil leitura. As fantasias já começavam a desenhar o estilo volumoso que seria uma das características de Alex. 

Infelizmente, apesar do sucesso nos quesitos ligados ao carnavalesco, a escola desfilou sob forte chuva, que fez com que as fantasias pesassem ainda mais e vários carros apresentaram problemas na parte mecânica, prejudicando o cortejo. Ademais, a escola estourou em seis minutos o tempo de desfile, e o prejuízo na quarta de cinzas custou a permanência da escola no Grupo Especial. A partir dali, Alex encerrava a parceria com a Rocinha e rumaria para a Mocidade.

Vila Isabel 2008-2010

Mais uma bela abertura de Alex em 2008 (Foto: Widger Frota)
Após uma rápida passagem na verde-e-branco da Zona Oeste, num enredo sobre o artesanato brasileiro, Alex desembarcou num dos redutos mais boêmios do Rio de Janeiro. Logo no ano em que pintou na terra de Noel, o carnavalesco assinou o enredo “Trabalhadores do Brasil”. O desfile da Vila Isabel contou com a assinatura histórica e objetiva das narrativas do carnavalesco ao falar da história brasileira desde antes da chegada dos colonizadores, do trabalho escravo, até os dias atuais.

Com uma abertura que apostou em tons leves, tendo como destaque uma grande ala de baianas num degradê que retrava o mar indo até o abre-alas grandioso. Do conjunto alegórico, se destacaram o carro que abordou o trabalho escravo e a resistência negra nos quilombos e o traço arrojado e tecnológico das últimas alegorias, uma lembrando o governo Vargas e outra a indústria automobilística contemporânea. Com o resultado plástico ofuscado pela má condução da escolha do samba, junção à época, ficou-se esperando mais da escola, que chegou apenas em nono lugar.


Para o ano seguinte, uma chegada surpresa mudaria os rumos do povo de Noel e o trabalho de Alex. Com os preparativos para o desfile de 2009 já em andamento, Paulo Barros, após uma saída conturbada da Viradouro, se uniu ao time da Vila. A combinação inusitada do artista das alegorias humanas e do profissional de traços mais elegantes mudaria a trajetória de ambos para sempre. Num belo desfile sobre o centenário do Teatro Municipal, batizado de "Neste palco da folia, é minha Vila que anuncia: Theatro Municipal - A centenária maravilha”, Alex trouxe acabamento e requinte para as alegorias coreografadas de Barros, num ótimo casamento que mostrou ainda indumentárias bem desenvolvidas, inseridas ao enredo sendo, sem dúvidas, um dos pontos altos do desfile.


O abre-alas representou bem essa inusitada junção: em dois módulos acoplados, a primeira parte trazia uma representação do famoso "bota-abaixo" que marcou a construção da Avenida Rio Branco, obra clara de Paulo. Já o segundo chassi, com uma bela coroa, trazia o estilo "art nouveau" de Alex, típico do período retratado, com formas vazadas e tons claros. Pensando alegoricamente, o carro “A Construção de um Sonho: Theatro Municipal do Rio de Janeiro” trazia a cara do artista, por ser impecavelmente concebido, luxuoso e opulento.


A parceria que surgiu de maneira inusitada marcaria tanto a trajetória de ambos que as influências seriam vistas nos desfiles solo deles. Barros voltou à Tijuca, contando com acabamento e cuidado maior com as alegorias, aprendido ano antes. Isso foi crucial para o campeonato do Borel no antológico "É Segredo". Já Alex permaneceu na azul e branco, prestando uma aguardada homenagem ao maior poeta da agremiação azul celeste e branco.

Com o enredo “Noel: a presença do poeta da Vila”, a escola fez uma apresentação aquém das expectativas, mas de altíssimo teor emocional. Não era pra menos! Embalada por um dos melhores sambas do ano, a escola tornou a apresentar irregularidades em suas fantasias, o que, aliado ao pouco impacto visual das alegorias daquele ano, não atingiu o ápice que se esperava. Favorita no pré-carnaval, a escola fez uma boa apresentação embalada por um samba de Martinho da Vila e conquistou um quarto lugar, encerrando de forma honesta a primeira passagem do carnavalesco por aquelas bandas.

União da Ilha 2011-15



Nos cinco anos em que esteve na União da Ilha, Alex fez sua passagem mais marcante e com identificação em uma escola do grupo especial. Com a missão de substituir Rosa Magalhães, que garantiu a permanência da agremiação na elite da folia, o carnavalesco foi um dos grandes responsáveis em colocar de novo a tricolor insulana como protagonista depois de tanto tempo afastada dos holofotes, trazendo de volta o espírito jovem e simpático da escola.

A união entre a escola e o artista já começou com um apresentação marcada por dificuldades. O desfile sobre a teoria das espécies do naturalista Charles Darwin foi prejudicado por um incêndio que atingiu o barracão da Cidade do Samba. Junto de Grande Rio e Portela, a Ilha perdeu grande parte de suas fantasias e alegorias há menos de um mês do carnaval.

Os tons leves, as transparências, as formas sinuosas e simples: marcas das alegorias de Alex.

Felizmente, a agremiação conseguiu superar as dificuldades e fez uma grande apresentação na segunda-feira de carnaval. As poucas alegorias que foram atingidas conseguiram ser reconstruídas a tempo e as fantasias sofreram grandes simplificações. No desfile, predominaram figurinos formados por macacões de malha colorida que cobriam os componentes, somados a volumes adquiridos por adereços como golas, chapéus e esplendores. A escola desfilou da maneira leve que lhe é característica e, apesar de não concorrer no julgamento oficial, faturou um Estandarte de Ouro de Melhor Escola.


Nos anos seguintes, Alex seguiu apostando no resgaste da identidade insulana e fez belas homenagens a momentos históricos da agremiação. Em 2012, ao contar a história da Inglaterra num link com os jogos olímpicos daquele ano, tornou a carnavalesca Maria Augusta, responsável pelos desfiles mais marcantes da tricolor, soberana maior da apresentação, presente na comissão de frente. No desfile, um pede-passagem com o nome da agremiação em bolas brancas lembrava os elementos usados nos desfiles da carnavalesca pela União da Ilha. Já em 2013, a abertura do desfile que homenageou Vinícius de Moraes trouxe uma grande barca em estilo "art nouveau" remetendo à que a agremiação já havia apresentado em 1982, no marcante desfile "É Hoje".

A barca do abre-alas de 2013 lembrava a alegoria marcante de trinta anos antes.
Os dois desfiles apostaram numa linguagem mais simples, adequada ao estilo da escola. Apesar disso, as narrativas eram bem desenhadas, trazendo elementos da cultura pop num diálogo com o público. Também herança da parceria com Paulo Barros em 2009, as alegorias trouxeram o uso de coreografias e elementos vivos. Infelizmente, a escola falhou em outros quesitos, com samba medianos e problemas de harmonia, prejudicando a busca por melhores posições nestes dois desfiles.


O traço elegante não se perde em meia a tecnologia e iluminação das alegorias de Alex.

Em 2014, Alex realizaria a apresentação mais marcante de sua carreira e da trajetória recente da União da Ilha, num ápice do processo de resgaste da identidade da escola. Com "É Brinquedo, é brincadeira. A Ilha vai levantar poeira!", o artista valorizou ainda mais seu estilo pop e contemporâneo. Diferente do estilo mais espetacular de Paulo Barros, que traz esses elementos da cultura de massa de maneira mais seca e simples, o estilo de Alex era mais bem acabado ao apresentar personagens de filmes e da cultura popular, apostando em requinte e acabamento.




Com fantasias grandiosas que cobriam os componentes por inteiro e os transformava em ursinhos, palhações, figuras de filmes e videogames, a União literalmente brincou na avenida com um samba que arrematou pelo estilo leve, numa grande interpretação de Ito Melodia. Surpreendendo a todos, a escola conquistou um quarto lugar e voltou no sábado das campeãs após vinte anos sem realizar o feito.

As asas das ninfas do abre-alas de 2015 lembra belos vitrais.
No ano seguinte, o profissional seguiu apostando na temática leve e resgatou os temas críticos, como os que fez na Rocinha. O enredo "Beleza Pura?" passeou de maneira bem humorado pelos padrões de beleza da história humana, brincando com os contos de fadas, o universo da moda, das academias e das celebridades. As alegorias trouxeram a assinatura clean e requintada do artista, mas as fantasias acabaram pesando ainda mais pelo estilo já volumoso de Alex. Apesar do bom trabalho em enredo e quesitos plásticos, a escola não fez uma apresentação tão empolgante quanto no ano anterior. Um decepcionante nono lugar acabou dando fim ao feliz casamento entre a União da Ilha e o carnavalesco.

Vila Isabel 2016-17

O seca sertaneja retratada com uma forte iluminação e tons leves.
Com o fim do casamento com a tricolor, Alex voltou a escola que lhe firmou com um dos grandes profissionais do grupo. Para 2016, ele contou com o luxuosíssimo auxílio de Martinho da Vila para a concepção do enredo "Memórias do 'Pai Arraia' - Um sonho pernambucano, um legado brasileiro", em homenagem aos 100 anos de vida do político de esquerda Miguel Arraes, famoso por ser governador de Pernambuco. A narrativa trazia também referências evidentes ao estado do homenageado, como a literatura de cordel, na comissão de frente, e o carnaval nordestino, ao final do desfile.

O cortejo foi aberto com um plástica característica do carnavalesco, que com elementos visuais de tons terrosos e claro, a elegância e uma assinatura clássica ao tratar da seca nordestina, tema difícil de materializar de maneira bela. Nesse primeiro setor do enredo, se destacou ainda a representação de carcaças de animais, principalmente no abre-alas, para ilustrar o cenário da obra, no conhecido traço "art nouveau" de Alex, marcando pela limpeza e sinuosidade. A fim de retratar a população campesina, o carnavalesco utilizou palafitas e manguezais, representando o Acordo do Campo, promovido pelo homenageado enquanto governador, com a figura central do caranguejo na segunda alegoria. A bela fantasia das baianas, um destaque positivo do desfile, representou os canaviais. 


Ainda tratando da obra política de Miguel, a escola trouxe o Movimento de Cultura Popular, responsável por unir intelectuais para a promoção de uma educação de qualidade no estado, com objetivo de alfabetizar adultos. Na passagem da Vila, pode-se observar o terceiro setor com alas representando disciplinas escolares e a quarta alegoria, "Servindo de Lição", fazendo jus à obra educacional do homenageado. Ainda se tratando do MCP, o projeto detinha o ideal de divulgação da cultura nordestina para os habitantes da região, sendo contado no desfile nas duas últimas alegorias.  

De modo objetivo, Alex soube driblar a narrativa clichê para construir a ideologia do político pernambucano nos carros. O chão da escola, vibrante com o belo enredo, esbarrou no excesso sobre as fantasias, que promoveu dificuldades para a evolução de alguns componentes e descontos na quarta-feira de cinzas. Ao final da apuração, a escola amargou a 8ª colocação, deixando a sensação para o grande público de que poderia ter voltado ao sábado das campeãs.

Invés dos tons terrosos normalmente ligados à África, Alex optou por uma abertura preta e prata para lembrar os "tumbeiros".

Seguindo o padrão temático da Vila Isabel, Alex de Souza trouxe “O Som da Cor” para o carnaval 2017. O enredo era uma ponte entre os estilos musicais da América, partindo da negrura dos tambores africanos, representada na comissão de frente assinada por Patrick Carvalho. Problemática no pré-carnaval, a Vila enfrentou muitas dificuldades financeiras e de barracão para colocar seu carnaval na rua. O desfile tornou-se reflexo disso: muitos problemas de acabamento nas alegorias e reproduções aquém do esperado retiraram a escola do bairro de Noel da briga por uma melhor posição. 

Dessa forma, pode-se destacar do cortejo a concepção e idealização do enredo, que prometia fazer uma viagem por referências musicais na América Latina. Tal ideia foi clara no que tange à chegada dos tambores africanos pelos escravos, influenciando a formação de diversos ritmos. No desfile, a apresentação de ritmos como Tango, Pop (numa ideia de realização duvidosa) e da música afro-brasileira, que trouxe à tona o samba, evidenciou problemas de acabamento. A Vila amargou a briga pelo rebaixamento, terminando em 10ª, acima apenas de Unidos da Tijuca e Paraíso do Tuiuti.

Salgueiro 2018

A imponente abertura em tons quentes deste ano, com a cara do Salgueiro.  (Foto: O Globo)

De mudança, Alex chegou à rua Silva Teles após o fim do longínquo casamento do Salgueiro com Renato e Márcia Lage. Com a alta expectativa da escola retomar a temática negra, coube ao departamento cultural, junto ao carnavalesco, promover o enredo "Senhoras do Ventre do Mundo", tema que fazia referência ao carnaval de 2007, "Candaces", num desfile de resultado injusto aos olhos dos salgueirenses. Com a promessa de um carnaval competitivo apesar da crise, a presidente Regina Celi concedeu a Alex boas condições de trabalho, o que acarretou num belo desfile.

Trazendo o "Éden Africano" na abertura do cortejo, o carnavalesco soube trabalhar bem com as cores da escola, impactando pela grandiosidade do abre-alas da Academia. A primeira alegoria da escola trouxe a figura da Grande Mãe com o ventre que daria origem à Terra a partir da África. Num tema que demonstrou força ao representar a ancestralidade, a escola valeu-se de referências a deusas e rainhas africanas nos primeiros setores, inserindo referências históricas, como é possível observar no segundo setor setor: mulheres que, como diz o samba, foram 'generais contra o invasor', o colonizador europeu.

Uma das grandes imagens do carnaval de 2018. (Foto: O Globo)
A chegada da negritude feminina ao Brasil também é representada posteriormente, de modo que profissão e religiosidade daquelas vindas da África são pontos cruciais no enredo de Alex. Para finalizar o desfile, a Academia buscou na figura de literatas, como Carolina de Jesus, a ponte para homenagear as mulheres que fizeram e fazem história no Salgueiro. Dessa forma, a última alegoria trouxe uma das mais belas imagens do carnaval de 2018, em que a figura da Pietà, escultura de Michelangelo, é retratada com escritos do livro "Quarto de Despejo".

Apesar da belíssima homenagem à figura feminina, que deu ao salgueirense o gosto do título, a escola terminou a apuração na terceira colocação, perdendo a primeira posição no último quesito. De todo modo, Alex de Souza demonstrou sua fibra ao vibrar com a Academia e teve seu contrato renovado. Para 2019, a escola levará "Xangô", um tributo ao orixá que guia os caminhos na alvirrubra do Andaraí.


Vivendo um momento esperado de valorização do seu trabalho com o casamento com o Salgueiro, Alex só confirma porque é um dos grandes nomes revelados do carnaval da última década. Soube se adaptar a festa e apresentar uma assinatura pessoal, atualizando o estilo tecnológico e clean de seu mestre Renato Lage, com um toque sinuoso e particular inspirado nos movimentos "art nouveau" e "deco". Atento a mudança, a parceria com o balado Paulo Barros trouxe o frescor contemporâneo e pop ao estilo de Alex, que ganhou ainda mais força ao dialogar com a cultura de massa e fazer bom uso de alegorias coreografadas.

Sabendo cumprir com competência todos as funções de um carnavalesco, Alex é um dos raros profissionais atuais que alia narrativas próprias e bem desenvolvidas com fantasias e alegorias com um traço só dele, dominando todas as áreas artísticas da linguagem de uma escola de samba. Um carnavalesco completo e fundamental dos dias atuais. 

SINOPSE: Portela | "Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma Sabiá"




‘Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma Sabiá’

A Portela vai apresentar no carnaval de 2019 uma homenagem à cantora Clara Nunes, ressaltando a diversidade e a atualidade de sua trajetória biográfica e seu vasto e plural repertório musical, constituído de sambas-canção, sambas-enredo, partidos-altos, marchas-rancho, forrós, xotes, afoxés, repentes e canções de influência dos pontos de umbanda e do candomblé. Para isso, pretende sair do lugar-comum das narrativas sobre sua vida ou de uma colagem de títulos de sua discografia. Nossa escola exalta a importância cultural de Madureira, das festas, terreiros e do contagiante carnaval popular, enfatizando a contribuição do bairro para a formação da identidade que caracterizou Clara Nunes: a brasilidade.


O meu lugar,
tem seus mitos e seres de luz.
É bem perto de Oswaldo Cruz* 

Em 1924, no primeiro carnaval da Portela, fundada em abril do ano anterior, o coreto de Madureira, criado pelo cenógrafo José Costa, reproduzia a imponente Torre Eiffel. Visitando o bairro na companhia de alguns amigos, Tarsila do Amaral não apenas eternizou aquela imagem numa tela, como também mostrou para seus pares modernistas que as festas populares do nosso subúrbio incorporavam os mais diversos elementos culturais. Sem dúvida, Madureira sempre teve um ar moderno, como a própria trajetória de Clara Nunes, que parece ter emergido de uma obra modernista, como se fosse uma tela da Tarsila: a Mineira representa a mais plural expressão da brasilidade. Morena. Mestiça.


Porque tem um sanfoneiro no canto da rua,
fazendo floreio pra gente dançar,
tem Zefa da Porcina fazendo renda
e o ronco do fole sem parar** 

Clara nasceu no interior mineiro, num lugar que hoje se chama Caetanópolis. Ainda menina, trabalhou numa fábrica de tecidos para conseguir sobreviver, mas seu destino já estava traçado. Tinha como missão cantar o Brasil! Ao longo da infância, conheceu de perto as tradições culturais e as festas folclóricas interioranas, certamente recebendo influência de seu pai, Mané Serrador, mestre de canto de Folia de Reis e violeiro dos sertões das Gerais.

Sua brasilidade, como herança de sua origem, sempre valorizou a diversidade regional de nosso país. A voz de Clara fez ecoar os ritmos do povo, na saborosa confusão dos mercados populares, seja do nordeste ou de qualquer outro recanto desta nação.

Alçando voos mais ousados, Clara mudou-se para Belo Horizonte, onde participou de concursos, realizou os primeiros trabalhos artísticos e conquistou espaço nos meios de comunicação. Chegando ao Rio de Janeiro, seguiu fazendo sucesso e conheceu o misticismo que aflorava em Madureira, incorporando-o à sua identidade.


Sou a Mineira Guerreira,
filha de Ogum com Iansã*** 

Até então, a artista cantava principalmente boleros e sambas-canções. Após ter contato com o ancestral universo afro-brasileiro de Madureira, a mineira se transformou igual ao céu quando muda de cor ao entardecer. E nunca mais foi a mesma: visitou os terreiros, quintais e morros de Oswaldo Cruz e Madureira, vestiu-se de branco, incorporou colares, turbantes e contas, cantou sambas e pontos de macumba. Seu repertório se expandiu. A imagem de Clara evocando os Orixás, irmanada ao povo de Santo, eternizou-se na memória de seus fãs. Ela se tornou a Guerreira que não temia quebrantos, dançando feliz pelas matas e bambuzais, sambando descalça nas areias da praia, unindo a essência negra de Angola ao subúrbio carioca. E assim, sua voz rapidamente se espalhou. Seu canto correu chão, cruzou o mar, foi levado pelo ar e alcançou as estrelas. Uma força da natureza que brilhou como um raio nos palcos e terreiros, iluminando o coração dos portelenses. Nada disso foi por acaso.


Portela, sobre a tua bandeira
esse divino manto.
Tua Águia altaneira 
é o Espírito Santo
no templo do samba**** 

Desde que foi fundada, a Portela tem uma presença significativa de elementos típicos do mundo rural, trazidos pelo povo simples do interior, sobretudo do interior de Minas Gerais, mesclados à negritude que vibrava em Madureira. Talvez tenha sido por isso que a identificação de Clara com a Portela foi imediata. Ela sempre ocupou posição de destaque nos desfiles, é madrinha da Velha Guarda e até puxou sambas-enredos na avenida. Ela e os portelenses, famosos e anônimos, sempre caminharam de mãos entrelaçadas, voando nas asas da Águia. 

Um dia, inesperadamente ela partiu. Trinta e cinco anos se passaram desde então. A dor da saudade sempre reverberou no coração de todos, tornando-a uma estrela ainda mais cintilante. 

Agora está na hora de a Guerreira reencontrar seu povo mestiço, para mais uma vez brilhar na avenida. Vestida com o manto azul e branco e a Águia a lhe guiar, voa minha Sabiá.

Até um dia!

Carnavalesca: Rosa Magalhães
Sinopse: Fábio Pavão e Rogério Rodrigues
____________________________________________

* O Meu Lugar – Arlindo Cruz e Mauro Diniz
** Feira de Mangaio – Glorinha Gadelha e Sivuca
*** Guerreira – João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro
**** Portela na Avenida – Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte

segunda-feira, 25 de junho de 2018

#SérieCarnavalescos: grandes jovens talentos da folia

Por Alisson Valério, Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos está dominando o site no mês de junho, com textos novos às segundas e quintas. Não perca!





Felizmente, a cada década, o carnaval se renova e novos profissionais chegam a folia trazendo novos estilos e formas de construir a linguagem dos desfiles das escolas de samba. Nos últimos anos, diversos artistas talentosos ascenderam a função de carnavalesco, com ideias novas e transformadoras para a nossa festa. Seja em enredo, alegoria ou fantasias, alguns nomes se destacaram não só com bons resultados, mas ao desenhar um estilo com o frescor necessário a uma festa que urge por inovação e renovação. 

Para essa lista, reunimos nomes que surgiram nos últimos oito anos nas folias brasileiras e se destacaram de diversas formas, alguns até títulos já ganharam apesar da pouca experiência. Seja primeiro como desenhistas e figurinistas, todos chegaram ao posto de artista principal e se destacaram e então vem saber mais sobre eles com a gente.


João Vitor Araújo




João Vitor é um nome de peso e de muita representatividade na nossa folia, por ser um dos poucos carnavalescos negros em destaque atualmente. João esbanja talento, bom gosto e ótimos resultados na carreira. Metido na festa momesca desde cedo, ele começou atuando como aderecista em diversos barracões, confeccionando também figurinos de luxo em ateliês do ramo. Foi assistente do carnavalesco Max Lopes até conseguir a primeira chance solo, em 2014, quando assinou na Viradouro o enredo "Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar", que cantou a Cidade Sorriso, Niterói, passando por suas ligações com o Rio de Janeiro. Já demonstrando bom gosto e maturidade artística, o apuro estético aliado a força da comunidade da escola deu o título do carnaval daquele ano.

Desfile da Viradouro em 2013 (Foto: Extra)
A escola voltou ao Grupo Especial em 2015, ainda sob comando de João, com o enredo "Nas veias do Brasil, é a Viradouro em um dia de graça", uma demonstração da importância da negritude na formação do povo brasileiro. Apesar do digno desfile que a Sapucaí aguardava, a escola se viu prejudicada pela chuva que a castigou durante sua passagem. A vermelho e branco do Barreto homenageou curandeiros, malandros, amas de leite – representada em uma linda alegoria em tons de verde – e cantou a junção de dois belos sambas de Luiz Carlos da Vila, um dos maiores compositores de todos os tempos. Debaixo de tanta água, as fantasias e alegorias não tiveram os efeitos esperados, além de um dos carros ter entrado na Avenida com uma escultura danificada, o que acabou resultando na volta da escola à Série A.

Rocinha em 2017.

Em 2016, João atuou como assistente de Paulo Barros na Portela, e em 2017 retornou à atuação direta. Na Rocinha assinou uma bela homenagem a Viriato Ferreira, com o enredo "No Saçarico do Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira". João viajou pelas passagem de Viriato em três escolas principais, Portela, Beija-Flor e Imperatriz, num desfile que azul, prateado e verde não faltaram na paleta de cores. A evolução da escola com relação ao carnaval anterior foi discrepante e a apresentação arrancou aplausos e a simpatia do público. Não só destes, mas também dos jurados, que reagiram positivamente e entregaram à Rocinha o sexto lugar da classificação geral da Série A.



Em 2018, talvez um dos casamentos mais coerentes do carnaval tenha sido celebrado: a convite da Unidos de Padre Miguel, que vem de grandiosos desfiles, João Vitor assumiu o enredo "O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Paritintin". A escola, desde o pré-carnaval, foi uma das mais aguardadas e era considerada rival direta da Viradouro em um verdadeiro duelo de titãs. A apresentação começou grandiosa, e o luxo se fez presente nas alegorias e fantasias produzidas por João, além do excelente desenvolvimento cromático da apresentação. O abre-alas, em tons de dourado, e com muita água, impactou a Avenida e fez os componentes verdadeiramente embarcarem no enredo. Boquiaberto, o público aclamou o desfile, que terminou com um merecido vice-campeonato. Em 2019, João comanda uma homenagem a Dias Gomes, com o enredo "Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência".


Leandro Vieira




Leandro é desses que chegam quietos e arrebatam. Não a toa é um dos grandes carnavalescos da atualidade, mesmo tendo apenas quatro carnavais em sua carreira, como ele mesmo, com ares modestos, faz questão de lembrar. Formado em Belas Artes, trabalhou mais de dez anos como desenhista de outros profissionais, como Cahê Rodrigues, Fábio Ricardo, entre outros. Em 2015, Leandro assumiu pela primeira vez o posto de carnavalesco oficial em uma escola de samba. A Caprichosos de Pilares, à época na Série A, ganhou do artista o enredo "Na minha mão é + barato", que contava a história dos mercados brasileiros desde a colônia até os presentes dias. A mistura de crítica com humor deu o tom ao desfile da escola, que construiu assim sua identidade com auge nos anos 80 e nos carnavais de Luis Fernando Reis.



O colorido e a beleza de fantasias e alegorias não permitiam a quem assistia imaginar que o "jeitinho" foi peça-chave para o desfile da escola: saber inventar sem gastar muito foi e continua sendo um dos maiores artifícios do jovem carnavalesco. Além dos ambulantes, do vendedor de mate das areias cariocas e dos comerciantes do famoso Saara, Leandro não deixou de lado o comércio interno das próprias escolas de samba, que o trecho do refrão principal do samba fez questão de indagar: "quem dá mais no mestre-sala / quanto vale a tradição?". No fim das contas, a escola terminou com um positivo sétimo lugar e uma lembrança feliz do ótimo trabalho que o carnavalesco fez. Os bons frutos do carnaval vieram na virada de temporada: a Mangueira, uma das mais tradicionais da elite carioca, buscara o jovem artista para assinar o seu desfile em 2016. E assim foi feito.


Em seu primeiro ano como carnavalesco da elite da folia, o segundo de sua carreira até então, batizou de "Maria Bethânia: a Menina dos Olhos de Oyá" o enredo que homenageou uma das maiores cantoras do Brasil, que outrora já havia desfilado pela escola quando junto aos companheiros de Doces Bárbaros pintou e bordou na Sapucaí, em 1994. Tudo se desenhou de forma muito bonita: apesar de novato, Leandro entendeu bem a identidade da escola e, ao encerrar os desfiles de 2016, emocionou toda a Avenida. Squel, a porta-bandeira da escola, fez-se na Avenida uma iaô belíssima e apareceu careca junto ao antigo parceiro de dança, Raphael Rodrigues. Daí pra frente foi só emoção: toda a simbologia de elementos importantes da vida pessoal, religiosa e artística de Bethânia esteve retratada no desfile através de diversas referências artísticas. Com tudo isso, é claro, que a verde-e-rosa explodiu com o público na pista e nas arquibancadas. No fim das contas, o feito inédito do "estreante" foi confirmado na quarta de cinzas: Leandro e a Mangueira eram campeões.



Em 2017, "Só com a ajuda do santo" tratou da forma como o povo lida com a religiosidade, de suas diversas formas, seja no catolicismo, na crendice popular, no candomblé e na umbanda ou mesmo de modo a misturar em um só credo todas essas possibilidades. Embalado pela expectativa de um bicampeonato, Leandro mostrou-se calmo e confiante em seu trabalho durante todo o tempo. No dia do desfile, com mais um samba que ajudou a manter o componente e as arquibancadas acesas, a Mangueira passou belíssima. E em cada alegoria e fantasia vinha o reconhecimento de uma crença, mas foi o Cristo-Oxalá, a representação do sincretismo, uma das imagens mais bonitas e significativas do carnaval daquele ano e da história de Leandro, da Mangueira e das escolas. São Jorge e Santo Antônio, imagens de tanta devoção, não foram esquecido e as baianas, que traziam nas saias sacos de Cosme e Damião, foram gratas surpresas também. Além disso, o segundo casal da Mangueira, formado por Débora e Renan, simbolizou o encontro por um pescador da imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma das indumentárias mais bonitas e simbólicas do desfile. Apesar de tanto bom gosto, a escola abriu um buraco de quase 100 metros quando o carro que trazia a cantora Alcione empacou na Avenida, o que gerou perdas em evolução. Mesmo assim, o quarto lugar, posição final da escola, foi positivo e há até que considere que deixou gosto de um bicampeonato moral. 



Em 2018, numa onda crítica ao prefeito e à imposição de uma agenda neopentecostal, do corte de verbas para as escolas de samba sombreado por um discurso demagogo e com o pedido de deixar a rua livre pro povo passar, a Mangueira contou o enredo "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco". A escola pediu passagem para que a rua, casa do povo e palco da nossa principal festa, fosse livre para (re)viver toda a subversão e brincadeira que o carnaval propõe. Logo na comissão de frente, a mesa do bar se transformava em grades de uma cadeia e trazia claramente um painel que formava a frase: "deixa nosso povo passar". Daí pra frente foi só dedo na ferida, do jeito inteligente e debochado que Leandro gosta e sabe fazer: muito bumbum de fora, a rememoração do Bafo da Onça e do Cacique de Ramos, o dia de malhar judas (e Crivella), os pierrôs que em tantos festejos já sofreram pelas colombinas e o bloco dos sujos no final. O conjunto alegórico era totalmente diferente do que já passou, mesmo em desfiles anteriores do carnavalesco, mas trazia claramente sua assinatura. As fantasias traziam tons pastéis em muito verde e rosa, que também já virou característica do carnavalesco, além dos costeiros em acetato. O resultado final colocou a escola em quinto lugar. Para 2019, ainda à frente da escola, Leandro Vieira assina o enredo "História para ninar gente grande", uma viagem pelo "lado B" de personagens e da história do Brasil.

Jorge Silveira




Lá de Niterói vem mais um nome que ganhou destaque nos últimos anos. Jorge Silveira, indo para o seu segundo carnaval pela elite carioca, já trabalhou com nomes como Max Lopes e Jaime Cezário antes de passar a assinar sozinho seus desfiles. Foi em São Paulo, pela Dragões da Real, que conquistou espaço de prestígio entre os grandes artistas da festa da terra da garoa. Na tricolor desde 2015, conquistou um expressivo vice-campeonato no ano de 2017, com o enredo "Dragões canta Asa Branca", uma homenagem à inesquecível e emocionante música de Luiz Gonzaga. As alegorias, ponto marcante da assinatura de Jorge, chamaram a atenção pela beleza e movimentos coreográficos. Os carros do pau-de-arara e o do mandacaru foram pontos altos da apresentação, ricos em detalhes e um ótimo meio de se comunicar com as arquibancadas, muito embalada pela emoção e catarse para com a lida de um povo que, em busca de dias melhores, se despede de seu chão para que um dia retorne em condições melhores. 


No Rio, não foi diferente: em seu primeiro ano solo, pela Unidos do Viradouro, em 2017 na Série A, Jorge desenvolveu o enredo "E todo menino é um rei...". Com uma temática leve, a proposta da escola niteroiense era brincar e levar à Sapucaí a emoção dos nostálgicos tempos de criança. Jorge, conhecido pelo traço cartoonesco de seus desenhos, deitou e rolou com sua criatividade. O colorido tomou conta da Avenida e não demorou muito para o público se render à escola, a começar pela alegoria do 'menino Rei', personagem central do enredo, que trazia enormes piões que giravam, a coroa e o nome da Viradouro, além de Dominguinhos do Estácio, que por anos defendeu a escola.  Os carros do Batman e dos doces foram outros dois que chamaram a atenção do público. Nas fantasias, de clara leitura, veio a lembrança das brincadeiras e dos personagens inesquecíveis que marcaram a infância de muitas gerações, como o Super Mario Bros e as brincadeiras de boneca e de bola.


Foi na virada para o carnaval de 2018, porém, que Jorge viu o sonho alcançar degraus ainda mais altos: o convite para estrear oficialmente pelo Grupo Especial do Rio de Janeiro veio da São Clemente. Na preto e amarelo da Zona Sul, Jorge teve a felicidade, enquanto egresso da Escola de Belas Artes da UFRJ, de homenagear os 200 anos da instituição que o formou como uma grande galeria a céu aberto, enredo que já havia sido apresentado – e consagrado campeão – no Carnaval Virtual, laboratório importante na carreira do artista.



Em "Academicamente Popular", foi impossível negar que a São Clemente apresentou alegorias diferentes dos últimos carnavais da escola, que cresceram em tamanho, o grandioso abre-alas, todo em branco e detalhes dourados, chamou a atenção e a alegoria do modernismo, com serpentes pretas, a xilogravura de Goeldi e os balanços e pipas de Portinari no centro, foi a que mais surpreendeu o público. As fantasias, por sua vez, formaram o conjunto mais bonito da escola nos últimos anos, com cores bonitas e muito bem acabadas. No fim das contas, a São Clemente acabou prejudicada em alguns quesitos, como Comissão de Frente, e outros que surpreenderam negativamente na abertura dos envelopes, como Fantasias, terminando em 11º lugar, escapando por um triz da zona de rebaixamento, que acabou descartada por uma virada de mesa em reunião da Liesa. 

Para o carnaval 2019, Jorge assume o projeto que resgata o grito crítico da São Clemente, marca indissociável da escola, e reeditará "E o Samba Sambou", um dos carnavais mais conhecidos da escola e o que rendeu a ela a melhor colocação de sua história. Com a sinopse em mãos, já aguardamos ansiosos toda a ousadia, coragem e irreverência que ele pode nos presentear!


Márcio Gonçalves e Sidnei França 



A dupla chegou oficialmente a Mocidade Alegre em 2009 para fazer parte da comissão de carnaval da escola junto de Fabio Lima e Flavio Campello, e de cara já conquistou o título do carnaval daquele ano. No ano seguinte, a comissão manteve o ótimo desempenho, dessa vez sem a presença de Flavio Campello, e conquistou o vice-campeonato. 

Em 2011, viria o desafio de assinar o primeiro carnaval como dupla na escola. Com o enredo “Carrossel das Ilusões” a dupla conquistou o 7º lugar; apesar do ótimo desfile, a classificação ficou prejudicada em função da quebra de um carro que nem chegou a entrar no Anhembi. Em 2012 viria a redenção: a dupla seria responsável por um dos desfiles mais marcantes da história do Carnaval de São Paulo na última década. “Ojuobá - No Céu, os Olhos do Rei... Na Terra, a Morada dos Milagres... No Coração, Um Obá Muito Amado!" foi o enredo que deu o primeiro título a dupla, um desfile técnica e plasticamente impecável, marca da escola, que presenteou o público com um cortejo inesquecível, fruto de um enredo magnífico.



A dupla deu a escola um tricampeonato com os títulos consecutivos de 2012 a 2014, marcando assim seu nome na história da Morada do Samba e do Carnaval de São Paulo. Os dois seguiram juntos na escola até 2015, quando conquistaram o vice-campeonato no ano em que homenagearam a grande atriz Marilia Pera. Márcio Gonçalves seguiu para a Dragões da Real em 2016, onde ficou até o Carnaval de 2018, conquistando bons resultados na tricolor. No ano de 2019 estará de volta à comissão de carnaval da Morada, trazendo o enredo "Ayakamaé: as águas sagradas do sol e da lua".


No ano de 2016, Sidnei França começou a voar sozinho na própria Mocidade Alegre, seguindo para a Vila Maria em 2017, escola na qual o carnavalesco assinou uma homenagem a Nossa Senhora Aparecida, e vai para o seu segundo ano como o carnavalesco dos Gaviões da Fiel, tendo como enredo a reedição de "A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente". Os dois são verdadeiramente grandes nomes que surgiram nos últimos anos no Carnaval de São Paulo e se firmaram como dois ótimos prospectos da nova geração de artistas da folia paulistana. 

Leonardo Bora e Gabriel Haddad




Finalizando com uma dupla que tem conquistados a todos: Leonardo Bora e Gabriel Haddad formam uma parceria pra lá de talentosa que estreou em 2018 na Sapucaí. Antes disso, passaram pela Intendente Magalhães, sendo campeões duas vezes consecutivas em uma comissão de carnaval na Mocidade Unida do Santa Marta, em 2012 e  2013. Atuantes no Carnaval Virtual, assinaram desfiles solo em várias agremiações cibernéticas. Trabalharam também como assistentes de outros profissionais da folia, como Alexandre Louzada e Eduardo Gonçalves.


Saídos da comissão do Santa Marta, montaram a dupla em 2015 para assinar o carnaval da Acadêmicos do Sossego, naquela ano na Série B da folia carioca. No ano seguinte, conduziriam a escola de Niterói à Sapucaí com uma homenagem a Manoel de Barros, em belo desfile para o grupo.
Mas foi no último carnaval que a dupla despontou, assumindo a função de carnavalescos da Acadêmicos do Cubango. Para 2018, a dupla preparou o enredo "O Rei que Bordou o Mundo", uma homenagem à vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, figura importante da arte contemporânea, que oscilava entre a lucidez e o delírio da loucura.


O desfile teve início na bússola-mandala do Bispo na comissão de frente e a primeira alegoria já trouxe uma das peças mais conhecidas de Arthur, passando pela sua peregrinação, a vida no manicômio, até a sua origem quilombola, onde um manto rodava solitário no alto da alegoria, como se ele, abençoando a apresentação, estivesse – e estava! – presente. As cores passaram pelo vermelho, o tradicional verde e branco e também pelo creme, em fantasias de clara leitura e beleza plástica. Sem muitas discussões, a Cubango fez uma das melhores apresentações das duas noites, quiçá dos dois grupos, e a aura bela do desfile revelou não só a grandiosidade do homenageado, mas, também, o talento dos jovens meninos. Em 2019, Gabriel e Leonardo seguem no comando do carnaval da escola e levarão público o enredo "Igbá Cubango - a alma das coisas e a arte dos milagres".




Nossa missão enquanto apreciadores do carnaval é sempre resgatar a folia de antigamente e reverenciar novos nomes que estão a surgir no imaginário carnavalesco. Que o futuro da festa seja brilhante, com esses e tantos outros nomes despontando e engrandecendo ainda mais nossa festa.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

SINOPSE: Estação Primeira de Mangueira | "História pra ninar gente grande"


Com intuito de divulgar um enredo de conteúdo tão relevante a direção da Mangueira decidiu apresentar juntamente com o enredo, sua sinopse oficial, já para que o publico, os torcedores, e os compositores possam ter um primeiro contato com o tema. Em breve será divulgado um encontro entre os compositores e o carnavalesco Leandro Vieira para que ele possa apresentar sua ideia e eventuais dúvidas possam ser sanadas. (Na imagem, a logo oficial, obra do Design Igor Matos)


HISTÓRIA PRA NINAR GENTE GRANDE é um olhar possível para a história do Brasil. Uma narrativa baseada nas “páginas ausentes”. Se a história oficial é uma sucessão de versões dos fatos, o enredo que proponho é uma “outra versão”. Com um povo chegado a novelas, romances, mocinhos, bandidos, reis, descobridores e princesas, a história do Brasil foi transformada em uma espécie de partida de futebol na qual preferimos “torcer” para quem “ganhou”. Esquecemos, porém, que na torcida pelo vitorioso, os vencidos fomos nós.

Ao dizer que o Brasil foi descoberto e não dominado e saqueado; ao dar contorno heroico aos feitos que, na realidade, roubaram o protagonismo do povo brasileiro; ao selecionar heróis “dignos” de serem eternizados em forma de estátuas; ao propagar o mito do povo pacífico, ensinando que as conquistas são fruto da concessão de uma “princesa” e não do resultado de muitas lutas, conta-se uma história na qual as páginas escolhidas o ninam na infância para que, quando gente grande, você continue em sono profundo.

De forma geral, a predominância das versões históricas mais bem-sucedidas está associada à consagração de versões elitizadas, no geral, escrita pelos detentores do prestígio econômico, político, militar e educacional – valendo lembrar que o domínio da escrita durante período considerável foi quase que uma exclusividade das elites – e, por consequência natural, é esta a versão que determina no imaginário nacional a memória coletiva dos fatos.

Não à toa o termo “DESCOBRIMENTO” ainda é recorrente quando, na verdade, a chegada de Cabral às terras brasileiras representou o início de uma “CONQUISTA”. E, ao ser ensinado que foi “descoberto” e não “conquistado”, o senso coletivo da “nação” jamais foi capaz de se interessar ou dar o devido valor à cultura indígena, associando-a “a programas de gosto duvidoso” ou comportamentos inadequados vistos como “vergonhosos”.

Comemoramos 500 anos de Brasil sem refazermos as contas que apontam para os mais de 11.000 anos de ocupação amazônica, para os mais de 8.000 anos da cerâmica mais antiga do continente, ou ainda, sem olhar para a civilização marajoara datada do início da era Cristã. Somos brasileiros há cerca de 12.000 anos, mas insistimos em ter pouco mais de 500, crendo que o índio, derrotado em suas guerras, é o sinônimo de um país atrasado, refletindo o descaso com que é tratada a história e as questões indígenas do Brasil. Não fizeram de CUNHAMBEMBE – a liderança tupinambá responsável pela organização da resistência dos Tamoios – um monumento de bronze. Os índios CARIRIS que se organizaram em uma CONFEDERAÇÃO foram chamados de BÁRBAROS. Os nomes dos CABOCLOS que lutaram no DOIS DE JULHO foram esquecidos. Os Índios, no Brasil da narrativa histórica que é transmitida ainda hoje, deixaram como “legado” cinco ou seis lendas, a mandioca, o balanço da rede, o tal do “caju”, do “tatu” e a “peteca”.

Levando em conta apenas pouco mais de 500 anos, a narrativa tradicional escolheu seus heróis, selecionou os feitos bravios, ergueu monumentos, batizou ruas e avenidas, e assim, entre o “quem ganhou e quem perdeu”, ficamos com quem “ganhou.” Índios, negros, mulatos e pobres não viraram estátua. Seus nomes não estão nas provas escolares. Não são opções para marcar “x” nas questões de múltiplas escolhas.

Deram vez a outros. Outros que, por certo, já caíram nas suas “provas”. Você aprendeu que os “BANDEIRANTES” – assassinos e saqueadores – eram os “bravos desbravadores que expandiram as fronteiras do território nacional”. DOM PEDRO, o primeiro, você “decorou” que era o “herói” da Independência, sem que as páginas dos livros contassem a “camaradagem” de um “negócio de família” tão bem traduzido pela frase do PAI do Imperador, que a ele orientou: “ponha a coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça”. Convém esclarecer aqui que os “aventureiros” citados por DOM JOÃO éramos nós, brasileiros, e que a “independência” proclamada – ou programada – foi para evitar que tivéssemos aqui “aventureiros” como Bolivar ou San Martin, patriarcas bem-sucedidos das “independências” que não queriam por aqui.

Como “CABRAL”, o “ladrão”, que roubou o Brasil lá pelas bandas de mil e quinhentos, ou PEDRO I, que através de um acordo “mudou duas ou três coisas para que tudo ficasse da mesma forma”, tem também o Marechal, o DEODORO DA FONSECA, homem de convicções monarquistas – amigo pessoal do Imperador PEDRO II – autor da proclamação de uma República continuísta – sem participação popular – traduzida em golpe e que, na ausência de líderes, mandou “pintar” um retrato do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o TIRADENTES, na tentativa de produzir “um personagem pra chamar de seu”.

Se a República foi “golpe”, conclui-se que “golpe” no Brasil não é novidade. Nem é novidade que a natureza dos “golpes” ainda estejam mal contadas. A rodovia CASTELO BRANCO “corta” São Paulo com “nome de batismo” em homenagem ao primeiro general “do GOLPE DE 1964”. Para cruzar a Baía da Guanabara em direção a Niterói, lá está a ponte PRESIDENTE COSTA E SILVA, o mesmo que fechou o Congresso Nacional e aditou o AI-5 suspendendo todas as liberdades democráticas e direitos constitucionais. Em Sergipe, em dias de jogos, a bola rola no estádio PRESIDENTE MÉDICI, o general dos “ANOS DE CHUMBO”, do uso sistemático da tortura e dos violentos assassinatos. Nas ruas – por terem lido um livro que “ninou” e não “ensinou” falando da suspensão dos direitos humanos, da corrupção e dos assassinatos cometidos no período – aparecem faixas para pedir “intervenção militar”, décadas depois da redemocratização.

Sem saber quem somos, vamos a “toque de gado” esperando “alguém pra fazer a história no nosso lugar”, quiçá uma “princesa”, como a ISABEL, a redentora, que levou a “glória” de colocar fim ao mais tardio término de escravidão das Américas. Nunca esperaremos ser salvos pelos tipos populares que não foram para os livros. Se “heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referências, fulcros de identificação” a construção de uma narrativa histórica elitista e eurocêntrica jamais concederia a líderes populares negros uma participação definitiva na abolição oficial. Bem mais “exemplar” a princesa conceder a liberdade do que incluir nos livros escolares o nome de uma “realeza” na qual ZUMBI, DANDARA, LUIZA MAHIN, MARIA FELIPA assumissem seu real papel na história da liberdade no Brasil.

O fato é que a atuação de “gente comum”, ou mesmo a incansável luta negra organizada em quilombos, em fugas, no esforço pessoal ou coletivo na compra de alforrias e em revoltas ou conspirações, já enfraqueciam o sistema escravocrata àquela altura. Entretanto, ensinar na escola o nome de “CHICO DA MATILDE”, jangadeiro, mulato pobre do Ceará (líder da greve que colocou fim ao embarque de escravos no estado nordestino, levando-o à abolição da escravatura quatro anos antes da princesa ganhar sua “fama” abolicionista) não serviria à manutenção da premissa de que as conquistas sociais resultam de concessões vindas “do alto” e não das lutas. A história de CHICO DA MATILDE era inspiradora demais para o povo. Não à toa, seu nome não está nos livros.

Esses nomes não serviram para eles. Para nós, eles servem. Para nós, sentinelas dos “ais” do Brasil, heróis de lutas sem glórias ainda deixados “de tanga” ou preso aos “grilhões”, eles são as ideias que usaremos para “gestar” o que virá. “Engravidados” de novas ideias, jorrará leite novo para “amamentar” os guris que virão. Sabendo outra versão de quem é o Brasil, – não a que nos “ninou” para quando fôssemos adultos – sabendo que CABRAL “invadiu” e que, ao invés de quinhentos e dezenove anos, somos brasileiros há quase doze mil anos. Conhecendo CUNHAMBEBE, a CONFEDERAÇÃO DOS CARIRIS, cientes da participação dos CABOCLOS na luta do 02 DE JULHO NA BAHIA, e sabendo que os índios lutaram e resistiram por mais de meio século de dominação, talvez se orgulhem da porção de sangue que faz de TODOS NÓS, sem exceção, índios. Sabendo que a “bondosa” princesa Isabel deu vez a “Chico da Matilde”, “Luiza Mahin” e “Maria Felipa”, é possível que reconheçam em si a bravura que vive à espreita da hora de despertar e aí, talvez, o “gigante desperte sem ser para se distrair com a TV”.

Cientes de que nossa história é de luta, teremos orgulho do Brasil. Alimentados de leite novo e bom, varreremos de nossos “porões” o complexo de “vira-latas” que fomenta nossa crença de inferioridade. Veremos tanta beleza na escultura de ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA quanto no quadro que eterniza o sorriso da Monalisa. Nos orgulharemos do “tupi” que falamos – mesmo sem saber. Daremos mais cartaz ao saci do que à “bruxa”. Brincaremos mais de BUMBA MEU BOI, CIRANDA E REISADO. Nossas crianças enxergarão tanta coragem no CANGACEIRO quanto no “cowboy”. Vibraremos quando SUASSUNA estrear em “ROLIÚDE” sem tradução para o SOTAQUE de João Grilo e Chicó. Não estranharemos caso o Mickey suba a ESTAÇÃO PRIMEIRA, troque “my love” por “minha nêga” e mande pintar o “parquinho” da Disney com o VERDE E O ROSA DA MANGUEIRA.