segunda-feira, 25 de junho de 2018

#SérieCarnavalescos: grandes jovens talentos da folia

Por Alisson Valério, Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos está dominando o site no mês de junho, com textos novos às segundas e quintas. Não perca!





Felizmente, a cada década, o carnaval se renova e novos profissionais chegam a folia trazendo novos estilos e formas de construir a linguagem dos desfiles das escolas de samba. Nos últimos anos, diversos artistas talentosos ascenderam a função de carnavalesco, com ideias novas e transformadoras para a nossa festa. Seja em enredo, alegoria ou fantasias, alguns nomes se destacaram não só com bons resultados, mas ao desenhar um estilo com o frescor necessário a uma festa que urge por inovação e renovação. 

Para essa lista, reunimos nomes que surgiram nos últimos oito anos nas folias brasileiras e se destacaram de diversas formas, alguns até títulos já ganharam apesar da pouca experiência. Seja primeiro como desenhistas e figurinistas, todos chegaram ao posto de artista principal e se destacaram e então vem saber mais sobre eles com a gente.


João Vitor Araújo




João Vitor é um nome de peso e de muita representatividade na nossa folia, por ser um dos poucos carnavalescos negros em destaque atualmente. João esbanja talento, bom gosto e ótimos resultados na carreira. Metido na festa momesca desde cedo, ele começou atuando como aderecista em diversos barracões, confeccionando também figurinos de luxo em ateliês do ramo. Foi assistente do carnavalesco Max Lopes até conseguir a primeira chance solo, em 2014, quando assinou na Viradouro o enredo "Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar", que cantou a Cidade Sorriso, Niterói, passando por suas ligações com o Rio de Janeiro. Já demonstrando bom gosto e maturidade artística, o apuro estético aliado a força da comunidade da escola deu o título do carnaval daquele ano.

Desfile da Viradouro em 2013 (Foto: Extra)
A escola voltou ao Grupo Especial em 2015, ainda sob comando de João, com o enredo "Nas veias do Brasil, é a Viradouro em um dia de graça", uma demonstração da importância da negritude na formação do povo brasileiro. Apesar do digno desfile que a Sapucaí aguardava, a escola se viu prejudicada pela chuva que a castigou durante sua passagem. A vermelho e branco do Barreto homenageou curandeiros, malandros, amas de leite – representada em uma linda alegoria em tons de verde – e cantou a junção de dois belos sambas de Luiz Carlos da Vila, um dos maiores compositores de todos os tempos. Debaixo de tanta água, as fantasias e alegorias não tiveram os efeitos esperados, além de um dos carros ter entrado na Avenida com uma escultura danificada, o que acabou resultando na volta da escola à Série A.

Rocinha em 2017.

Em 2016, João atuou como assistente de Paulo Barros na Portela, e em 2017 retornou à atuação direta. Na Rocinha assinou uma bela homenagem a Viriato Ferreira, com o enredo "No Saçarico do Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira". João viajou pelas passagem de Viriato em três escolas principais, Portela, Beija-Flor e Imperatriz, num desfile que azul, prateado e verde não faltaram na paleta de cores. A evolução da escola com relação ao carnaval anterior foi discrepante e a apresentação arrancou aplausos e a simpatia do público. Não só destes, mas também dos jurados, que reagiram positivamente e entregaram à Rocinha o sexto lugar da classificação geral da Série A.



Em 2018, talvez um dos casamentos mais coerentes do carnaval tenha sido celebrado: a convite da Unidos de Padre Miguel, que vem de grandiosos desfiles, João Vitor assumiu o enredo "O Eldorado Submerso: Delírio Tupi-Paritintin". A escola, desde o pré-carnaval, foi uma das mais aguardadas e era considerada rival direta da Viradouro em um verdadeiro duelo de titãs. A apresentação começou grandiosa, e o luxo se fez presente nas alegorias e fantasias produzidas por João, além do excelente desenvolvimento cromático da apresentação. O abre-alas, em tons de dourado, e com muita água, impactou a Avenida e fez os componentes verdadeiramente embarcarem no enredo. Boquiaberto, o público aclamou o desfile, que terminou com um merecido vice-campeonato. Em 2019, João comanda uma homenagem a Dias Gomes, com o enredo "Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência".


Leandro Vieira




Leandro é desses que chegam quietos e arrebatam. Não a toa é um dos grandes carnavalescos da atualidade, mesmo tendo apenas quatro carnavais em sua carreira, como ele mesmo, com ares modestos, faz questão de lembrar. Formado em Belas Artes, trabalhou mais de dez anos como desenhista de outros profissionais, como Cahê Rodrigues, Fábio Ricardo, entre outros. Em 2015, Leandro assumiu pela primeira vez o posto de carnavalesco oficial em uma escola de samba. A Caprichosos de Pilares, à época na Série A, ganhou do artista o enredo "Na minha mão é + barato", que contava a história dos mercados brasileiros desde a colônia até os presentes dias. A mistura de crítica com humor deu o tom ao desfile da escola, que construiu assim sua identidade com auge nos anos 80 e nos carnavais de Luis Fernando Reis.



O colorido e a beleza de fantasias e alegorias não permitiam a quem assistia imaginar que o "jeitinho" foi peça-chave para o desfile da escola: saber inventar sem gastar muito foi e continua sendo um dos maiores artifícios do jovem carnavalesco. Além dos ambulantes, do vendedor de mate das areias cariocas e dos comerciantes do famoso Saara, Leandro não deixou de lado o comércio interno das próprias escolas de samba, que o trecho do refrão principal do samba fez questão de indagar: "quem dá mais no mestre-sala / quanto vale a tradição?". No fim das contas, a escola terminou com um positivo sétimo lugar e uma lembrança feliz do ótimo trabalho que o carnavalesco fez. Os bons frutos do carnaval vieram na virada de temporada: a Mangueira, uma das mais tradicionais da elite carioca, buscara o jovem artista para assinar o seu desfile em 2016. E assim foi feito.


Em seu primeiro ano como carnavalesco da elite da folia, o segundo de sua carreira até então, batizou de "Maria Bethânia: a Menina dos Olhos de Oyá" o enredo que homenageou uma das maiores cantoras do Brasil, que outrora já havia desfilado pela escola quando junto aos companheiros de Doces Bárbaros pintou e bordou na Sapucaí, em 1994. Tudo se desenhou de forma muito bonita: apesar de novato, Leandro entendeu bem a identidade da escola e, ao encerrar os desfiles de 2016, emocionou toda a Avenida. Squel, a porta-bandeira da escola, fez-se na Avenida uma iaô belíssima e apareceu careca junto ao antigo parceiro de dança, Raphael Rodrigues. Daí pra frente foi só emoção: toda a simbologia de elementos importantes da vida pessoal, religiosa e artística de Bethânia esteve retratada no desfile através de diversas referências artísticas. Com tudo isso, é claro, que a verde-e-rosa explodiu com o público na pista e nas arquibancadas. No fim das contas, o feito inédito do "estreante" foi confirmado na quarta de cinzas: Leandro e a Mangueira eram campeões.



Em 2017, "Só com a ajuda do santo" tratou da forma como o povo lida com a religiosidade, de suas diversas formas, seja no catolicismo, na crendice popular, no candomblé e na umbanda ou mesmo de modo a misturar em um só credo todas essas possibilidades. Embalado pela expectativa de um bicampeonato, Leandro mostrou-se calmo e confiante em seu trabalho durante todo o tempo. No dia do desfile, com mais um samba que ajudou a manter o componente e as arquibancadas acesas, a Mangueira passou belíssima. E em cada alegoria e fantasia vinha o reconhecimento de uma crença, mas foi o Cristo-Oxalá, a representação do sincretismo, uma das imagens mais bonitas e significativas do carnaval daquele ano e da história de Leandro, da Mangueira e das escolas. São Jorge e Santo Antônio, imagens de tanta devoção, não foram esquecido e as baianas, que traziam nas saias sacos de Cosme e Damião, foram gratas surpresas também. Além disso, o segundo casal da Mangueira, formado por Débora e Renan, simbolizou o encontro por um pescador da imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma das indumentárias mais bonitas e simbólicas do desfile. Apesar de tanto bom gosto, a escola abriu um buraco de quase 100 metros quando o carro que trazia a cantora Alcione empacou na Avenida, o que gerou perdas em evolução. Mesmo assim, o quarto lugar, posição final da escola, foi positivo e há até que considere que deixou gosto de um bicampeonato moral. 



Em 2018, numa onda crítica ao prefeito e à imposição de uma agenda neopentecostal, do corte de verbas para as escolas de samba sombreado por um discurso demagogo e com o pedido de deixar a rua livre pro povo passar, a Mangueira contou o enredo "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco". A escola pediu passagem para que a rua, casa do povo e palco da nossa principal festa, fosse livre para (re)viver toda a subversão e brincadeira que o carnaval propõe. Logo na comissão de frente, a mesa do bar se transformava em grades de uma cadeia e trazia claramente um painel que formava a frase: "deixa nosso povo passar". Daí pra frente foi só dedo na ferida, do jeito inteligente e debochado que Leandro gosta e sabe fazer: muito bumbum de fora, a rememoração do Bafo da Onça e do Cacique de Ramos, o dia de malhar judas (e Crivella), os pierrôs que em tantos festejos já sofreram pelas colombinas e o bloco dos sujos no final. O conjunto alegórico era totalmente diferente do que já passou, mesmo em desfiles anteriores do carnavalesco, mas trazia claramente sua assinatura. As fantasias traziam tons pastéis em muito verde e rosa, que também já virou característica do carnavalesco, além dos costeiros em acetato. O resultado final colocou a escola em quinto lugar. Para 2019, ainda à frente da escola, Leandro Vieira assina o enredo "História para ninar gente grande", uma viagem pelo "lado B" de personagens e da história do Brasil.

Jorge Silveira




Lá de Niterói vem mais um nome que ganhou destaque nos últimos anos. Jorge Silveira, indo para o seu segundo carnaval pela elite carioca, já trabalhou com nomes como Max Lopes e Jaime Cezário antes de passar a assinar sozinho seus desfiles. Foi em São Paulo, pela Dragões da Real, que conquistou espaço de prestígio entre os grandes artistas da festa da terra da garoa. Na tricolor desde 2015, conquistou um expressivo vice-campeonato no ano de 2017, com o enredo "Dragões canta Asa Branca", uma homenagem à inesquecível e emocionante música de Luiz Gonzaga. As alegorias, ponto marcante da assinatura de Jorge, chamaram a atenção pela beleza e movimentos coreográficos. Os carros do pau-de-arara e o do mandacaru foram pontos altos da apresentação, ricos em detalhes e um ótimo meio de se comunicar com as arquibancadas, muito embalada pela emoção e catarse para com a lida de um povo que, em busca de dias melhores, se despede de seu chão para que um dia retorne em condições melhores. 


No Rio, não foi diferente: em seu primeiro ano solo, pela Unidos do Viradouro, em 2017 na Série A, Jorge desenvolveu o enredo "E todo menino é um rei...". Com uma temática leve, a proposta da escola niteroiense era brincar e levar à Sapucaí a emoção dos nostálgicos tempos de criança. Jorge, conhecido pelo traço cartoonesco de seus desenhos, deitou e rolou com sua criatividade. O colorido tomou conta da Avenida e não demorou muito para o público se render à escola, a começar pela alegoria do 'menino Rei', personagem central do enredo, que trazia enormes piões que giravam, a coroa e o nome da Viradouro, além de Dominguinhos do Estácio, que por anos defendeu a escola.  Os carros do Batman e dos doces foram outros dois que chamaram a atenção do público. Nas fantasias, de clara leitura, veio a lembrança das brincadeiras e dos personagens inesquecíveis que marcaram a infância de muitas gerações, como o Super Mario Bros e as brincadeiras de boneca e de bola.


Foi na virada para o carnaval de 2018, porém, que Jorge viu o sonho alcançar degraus ainda mais altos: o convite para estrear oficialmente pelo Grupo Especial do Rio de Janeiro veio da São Clemente. Na preto e amarelo da Zona Sul, Jorge teve a felicidade, enquanto egresso da Escola de Belas Artes da UFRJ, de homenagear os 200 anos da instituição que o formou como uma grande galeria a céu aberto, enredo que já havia sido apresentado – e consagrado campeão – no Carnaval Virtual, laboratório importante na carreira do artista.



Em "Academicamente Popular", foi impossível negar que a São Clemente apresentou alegorias diferentes dos últimos carnavais da escola, que cresceram em tamanho, o grandioso abre-alas, todo em branco e detalhes dourados, chamou a atenção e a alegoria do modernismo, com serpentes pretas, a xilogravura de Goeldi e os balanços e pipas de Portinari no centro, foi a que mais surpreendeu o público. As fantasias, por sua vez, formaram o conjunto mais bonito da escola nos últimos anos, com cores bonitas e muito bem acabadas. No fim das contas, a São Clemente acabou prejudicada em alguns quesitos, como Comissão de Frente, e outros que surpreenderam negativamente na abertura dos envelopes, como Fantasias, terminando em 11º lugar, escapando por um triz da zona de rebaixamento, que acabou descartada por uma virada de mesa em reunião da Liesa. 

Para o carnaval 2019, Jorge assume o projeto que resgata o grito crítico da São Clemente, marca indissociável da escola, e reeditará "E o Samba Sambou", um dos carnavais mais conhecidos da escola e o que rendeu a ela a melhor colocação de sua história. Com a sinopse em mãos, já aguardamos ansiosos toda a ousadia, coragem e irreverência que ele pode nos presentear!


Márcio Gonçalves e Sidnei França 



A dupla chegou oficialmente a Mocidade Alegre em 2009 para fazer parte da comissão de carnaval da escola junto de Fabio Lima e Flavio Campello, e de cara já conquistou o título do carnaval daquele ano. No ano seguinte, a comissão manteve o ótimo desempenho, dessa vez sem a presença de Flavio Campello, e conquistou o vice-campeonato. 

Em 2011, viria o desafio de assinar o primeiro carnaval como dupla na escola. Com o enredo “Carrossel das Ilusões” a dupla conquistou o 7º lugar; apesar do ótimo desfile, a classificação ficou prejudicada em função da quebra de um carro que nem chegou a entrar no Anhembi. Em 2012 viria a redenção: a dupla seria responsável por um dos desfiles mais marcantes da história do Carnaval de São Paulo na última década. “Ojuobá - No Céu, os Olhos do Rei... Na Terra, a Morada dos Milagres... No Coração, Um Obá Muito Amado!" foi o enredo que deu o primeiro título a dupla, um desfile técnica e plasticamente impecável, marca da escola, que presenteou o público com um cortejo inesquecível, fruto de um enredo magnífico.



A dupla deu a escola um tricampeonato com os títulos consecutivos de 2012 a 2014, marcando assim seu nome na história da Morada do Samba e do Carnaval de São Paulo. Os dois seguiram juntos na escola até 2015, quando conquistaram o vice-campeonato no ano em que homenagearam a grande atriz Marilia Pera. Márcio Gonçalves seguiu para a Dragões da Real em 2016, onde ficou até o Carnaval de 2018, conquistando bons resultados na tricolor. No ano de 2019 estará de volta à comissão de carnaval da Morada, trazendo o enredo "Ayakamaé: as águas sagradas do sol e da lua".


No ano de 2016, Sidnei França começou a voar sozinho na própria Mocidade Alegre, seguindo para a Vila Maria em 2017, escola na qual o carnavalesco assinou uma homenagem a Nossa Senhora Aparecida, e vai para o seu segundo ano como o carnavalesco dos Gaviões da Fiel, tendo como enredo a reedição de "A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente". Os dois são verdadeiramente grandes nomes que surgiram nos últimos anos no Carnaval de São Paulo e se firmaram como dois ótimos prospectos da nova geração de artistas da folia paulistana. 

Leonardo Bora e Gabriel Haddad




Finalizando com uma dupla que tem conquistados a todos: Leonardo Bora e Gabriel Haddad formam uma parceria pra lá de talentosa que estreou em 2018 na Sapucaí. Antes disso, passaram pela Intendente Magalhães, sendo campeões duas vezes consecutivas em uma comissão de carnaval na Mocidade Unida do Santa Marta, em 2012 e  2013. Atuantes no Carnaval Virtual, assinaram desfiles solo em várias agremiações cibernéticas. Trabalharam também como assistentes de outros profissionais da folia, como Alexandre Louzada e Eduardo Gonçalves.


Saídos da comissão do Santa Marta, montaram a dupla em 2015 para assinar o carnaval da Acadêmicos do Sossego, naquela ano na Série B da folia carioca. No ano seguinte, conduziriam a escola de Niterói à Sapucaí com uma homenagem a Manoel de Barros, em belo desfile para o grupo.
Mas foi no último carnaval que a dupla despontou, assumindo a função de carnavalescos da Acadêmicos do Cubango. Para 2018, a dupla preparou o enredo "O Rei que Bordou o Mundo", uma homenagem à vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, figura importante da arte contemporânea, que oscilava entre a lucidez e o delírio da loucura.


O desfile teve início na bússola-mandala do Bispo na comissão de frente e a primeira alegoria já trouxe uma das peças mais conhecidas de Arthur, passando pela sua peregrinação, a vida no manicômio, até a sua origem quilombola, onde um manto rodava solitário no alto da alegoria, como se ele, abençoando a apresentação, estivesse – e estava! – presente. As cores passaram pelo vermelho, o tradicional verde e branco e também pelo creme, em fantasias de clara leitura e beleza plástica. Sem muitas discussões, a Cubango fez uma das melhores apresentações das duas noites, quiçá dos dois grupos, e a aura bela do desfile revelou não só a grandiosidade do homenageado, mas, também, o talento dos jovens meninos. Em 2019, Gabriel e Leonardo seguem no comando do carnaval da escola e levarão público o enredo "Igbá Cubango - a alma das coisas e a arte dos milagres".




Nossa missão enquanto apreciadores do carnaval é sempre resgatar a folia de antigamente e reverenciar novos nomes que estão a surgir no imaginário carnavalesco. Que o futuro da festa seja brilhante, com esses e tantos outros nomes despontando e engrandecendo ainda mais nossa festa.

Reações:

0 comentários:

Postar um comentário