quinta-feira, 7 de junho de 2018

#SérieCarnavalescos: Jack Vasconcelos e o novo diálogo entre carnaval e academia

Por Leonardo Antan

A #SérieCarnavalescos vai dominar o site no mês de junho, com textos novos às segundas e quintas. Não perca!



Após o sucesso da apresentação da Paraíso da Tuiuti, Jack Vasconcelos viu sua carreira ganhar novo patamar. Com o inédito vice-campeonato e a enorme repercussão da agremiação, o então pouco reconhecido artista da festa viu os holofotes todos se virarem para ele.

Mas o sucesso da apresentação não surgiu de uma hora para outra e o talento de Jack, somado a sua liberdade criativa na escola e aliado a outros quesitos do desfiles, tornou-se decisivo neste processo. O carnavalesco possui um currículo já extenso na folia carioca: há mais de dez anos atuando entre os grupos especial e de acesso. Mas desde sua estreia, em 2004, no Império da Tijuca, vem desenhando uma trajetória sólida e com elementos que dão personalidade às suas criações. Em homenagem, não só pelo incrível desfile nesse carnaval, mas por sua carreira como um todo, vamos fazer um passeio pelos principais elementos que marcaram, até então, a carreira de Jack Vasconcelos. Vem com a gente!

Formado em Cenografia pela Escola de Belas Artes, Jack marca o constante diálogo entre uma das principais academias de artes do país com a nossa maior manifestação artístico-cultural. Desde Fernando Pamplona a Leandro Vieira, e também com profissionais como escultores e desenhistas, a migração e atuação da instituição para a folia foi - e ainda é - fundamental para desenhar os rumos artísticos dos desfiles nas últimas década.

Rosa Magalhães é o melhor exemplo dessa relação histórica entre EBA-Carnaval e Jack conta que foi ela sua principal inspiração para chegar à faculdade: "Eu queria muito fazer e a primeira coisa que me chamou a atenção quando eu decidi estudar pra isso, na época, foi a Rosa e ela era a professora das Belas Artes", disse em entrevista ao site Carnavalize no início deste ano.

Devoto confesso da deusa barroca, fica clara a influência da carnavalesca em diversos aspectos do estilo que Jack desenvolveu consigo. Tal influência está presente, sobretudo, na clara homenagem a ela no desfile de 2015, já na Paraíso da Tuiuti, com o enredo sobre a antropofagia no olhar de Hans Staden. O tema bebia no cortejo de treze anos antes, da carnavalesca, sobre a antropofagia na cultura brasileira, o maravilhoso "Tupi or not tupi, in a South American Way!", realizado na Imperatriz Leopoldinense.

A abertura do carnaval de 2015, pela Paraíso do Tuiuti (Foto: Gabriel Xavier/Riotur)

O gosto por narrativas densas, bem estruturadas e com fortes referências culturais, assim como nos carnavais de Rosa, é destaque no trabalho de Jack desde seus primeiros desfiles, mesmo com temas sugeridos pelas agremiações. Bons exemplos são as apresentações de 2007, pelo Império Serrano, onde propôs um passeio artístico de personalidades importantes para a mensagem de inclusão social, e de 2009, desta vez pela União da Ilha, no enredo sobre viagens, que contou com referências ao escritor Júlio Verne e o aviador Santos Dumont. Jack torna claro nas narrativas o desejo por uma construção bem trabalhada do todo, onde cada ala tem sua função dramática bem delimitada, como ele mesmo defendeu na já citada entrevista "Eu consigo visualizar meus enredos como um filme, como uma história que tem início, tem o meio dramático com conflito e tem o fim”.

Mas se densidade e repertório cultural são decisivos em seus enredos, nos últimos anos destaca-se ainda nesse sarapatel o bom humor e sagacidade de retratar diferentes temas com um olhar ácido, não só na forte crítica social que marcou o comentado último setor desse ano, mas também ao abordar o tropicalismo e a antropofagia.

Se a rivalidade entre Rosa e Renato Lage marcou a década de noventa, Jack demonstra em seus trabalhos a referência de quem acompanhou os embates entre os estilos opostos dos carnavalescos. Nos quesitos narrativos, a aproximação com as características da tricampeã pela Imperatriz são claras, mas há ainda um quê do mago high-tech nos carnavais de Jack, exatamente no quesito mais marcante da produção de Lage: suas alegorias.

Alegoria que representava Einstein, no desfile do Império Serrano, em 2007 (Foto: seLusava/Flickr)

Em seus principais trabalhos, o atual profissional da Tuiuti sempre apostou em alegorias com formas arrojadas e modernosas, com estruturas metálicas, vazadas e com aspectos menos ornamentais, destacando-se também pelo gosto por neon e pelo trabalho de iluminação como parte decisiva da imagem das alegorias. Apesar de criticado por alguns sambistas, o desfile do Império Serrano de 2007, ousou exatamente em alegorias com novos formatos, como o curioso carro que representava o cientista Albert Einstein, que não trazia uma escultura dele, mas sim uma representação de um grande cérebro em meio a formas luminosas, numa proposição mais original. Esse desejo por formas menos excessivas e mais diretas permanece em alegorias realizadas nos seus trabalhos mais recentes. No aspecto mais artesanal dos carros, algumas soluções optam por materiais mais inusitados, ou até os já usados de forma exaustiva, como o tradicional uso de espelho, no original efeito de chuva da segunda alegoria da "Farra do Boi", ou a forração de esculturas por grandes mosaicos de emborrachado EVA recortado, como o leão da última alegoria do Estácio em 2014 e depois em outras ocasiões, como 2015 - cavalos marinhos da segunda alegoria - e 2017, nas esculturas de Gil e Caetano.

Jack dosa o bom gosto com o belo trabalho cromático, como no desfile de 2017
(Foto: Riotur) 
Ainda nos grandes cenários da festa carnavalesca, os carros alegóricos têm importante papel em outra característica muito presente nas apresentações elaboradas pelo artista. As aberturas de Jack são um capítulo à parte, sendo fundamentais na força de sua criação. A paisagem formada por comissão de frente, casal de mestre-sala e porta-bandeira e, geralmente, uma primeira ala na "cabeça" das escolas, é provavelmente o espaço do desfile onde o artista mais se dedica a fazer algo que consiga impacto, apostando na velha máxima "a primeira impressão é a que fica".

Não só nas elogiadas aberturas dos dois últimos cortejos da trajetória do carnavalesco na Tuiuti, com a explosão tropical multicolorida em homenagem ao movimento tropicalista e os tons terrosos e metálicos do grande quilombo deste ano, mas desde apresentações anteriores, que marcam a assinatura pensada e desenvolvida para este segmento do desfile.

Esse conjunto de elementos parece ser pensado por Jack não só na valorização visual de seu trabalho e da importância narrativa desse setor, mas é também onde o carnavalesco gosta de demonstrar enorme respeito à identidade da agremiação a qual está trabalhando. O que nos leva a outro diferencial fundamental de sua carreira.

Desde a abertura em verde água com uma gigante coroa do Império Serrano, passando pelo respeito ao vermelho nos trabalhos em Viradouro e Estácio e chegando ao azul e amarelo, presente, inclusive, no abre-alas deste ano de maneira discreta em elementos decorativos menores, tudo marca um entendimento fundamental do estilo de cada agremiação com algo importante. Como defendem outros artistas da festa, o carnavalesco jamais deve se sobrepor de maneira unilateral sobre uma escola de samba que já tem sua trajetória, mas sim estabelecer uma negociação entre ambas as partes, criando um casamento entre artista e instituição cultural

O imponente abre-alas da Tuiuti no carnaval de 2018 (Foto: Felipe de Souza/Site Carnavalize)

Assim, a cor surge não só como elemento de identificação e reafirmação da escola com a qual o artista formado pela EBA faz uso, mas como uma das chaves fundamentais de sua diferenciação e singularização em relação a outros profissionais: o uso da cor. O chamado "tapete cromático", surgido do conjunto entre alas e alegorias, parecer ser sempre uma grande e potente tela em branco onde Jack gosta de fazer as mais diferentes combinações. A escolha de uma palheta perfeita varia a cada desfile, servindo à proposta do todo daquela narrativa, o que pode gerar desfiles com cores mais quentes, como o de 2015, ou a com uma explosão crítica, 2018.

Dentro desse aspecto, destaca-se ainda o cuidado de Jack mais especificamente por cada setor da apresentação, que marca não só blocos narrativos mas visuais bem delimitados, onde o uso de cores e sua variação são desenvolvidos sempre de maneira espetacular e estruturada pelo estudos da teoria cromática e suas possíveis combinações. Além disso, podem surgir outros elementos que unifiquem essa sequências de alas e alegoria através do uso do mesmo material, como as bolinhas de isopor do setor do Einstein, no Império Serrano e os pingentes de lã amarelo e laranja do setor africano deste ano, substituindo a tradicional palha em desfiles de temática "afro".

No desfile sobre a Tropicália, um dos destaques foi a boa escolha de cores, juntamente ao trabalho em cima de diferentes referências artísticas (foto: Riotur)

Se essas observações de processos recorrentes na carreira do artista podem ser percebidas nos elementos já citados, as fantasias de ala são uma área da atuação carnavalesca onde Jack se destaca menos em relação a esses outros elementos. Não fica claro um estilo mais definido de figurinos que marque sua trajetória desde o início, mas algo mais fluído e moldável em diferentes etapas, mostrando uma adequação às tendências dos desfiles. De fixo, aparece apenas a importante construção de um panorama de referências iconográficas dos temas abordados, que servem de base para a criação das novas imagens das alas, o que é inclusive uma das maiores qualidades do desfile de 2017, reinterpretando a Tropicália a partir da aglutinação de elementos díspares e contradições fundadoras do movimento, como os divertidos anjinhos tocando guitarras e os animais híbridos do abre-alas.

Sobre o vitorioso casamento com a Paraíso do Tuiuti nos últimos quatro carnavais, se percebeu uma adequação e um olhar mais atento ao crescimento das roupas e adereços que vestem os foliões, onde nota-se um aposta menor em alas com criação de figurinos mais detalhados, mas algo mais agigantado e que molda o corpo do desfilante além de suas proporções naturais. Grandes adereços, estruturas em vime, armações, esculturas de espuma somam uma visualidade que busca aumentar os componentes da ala, num claro processo de agigantamento e espetacularização dos desfiles, presente nas fantasias de outros artistas, como Alex de Souza. Algo que não precisa ser lido nem como positivo ou negativo necessariamente, mas apenas característico.

Enfim, valiam aqui diversas outras observações e apontamentos da sequência de desfiles que Jack Vasconcelos assinou no carnaval carioca na última década, mas somando sua já considerável trajetória, é possível destacá-lo com facilidade como uma das mais importantes revelações da folia deste século. Apesar das dificuldades apresentadas na sua atuação por algumas escolas no grupo de acesso, seu trabalho quase nunca deixou de corresponder em qualidade e originalidade.

Sua formação pela academia artística mais ligada ao carnaval carimba sua presença nos desfiles com uma das vozes na ressignificação da tradição carnavalesca e sua consequente atualização, marcando uma ponte necessária e potente entre os artistas de ontem e de hoje, time no qual Jack conquistou seu espaço no primeiro escalão, dado seu estilo de narrativas rebuscadas e composição visual marcada pela qualidade de sua escala cromática. A originalidade ao apresentar temas já batidos, com a escravidão, propondo novas visualidades e materiais à festa são fundamentais para renovação da nossa maior expressão artístico-cultural.

Por isso, viva Jack! E que sua vitoriosa trajetória esteja apenas esboçando novos caminhos para alcançar ainda mais sucesso e reconhecimento.





Leonardo Antan é folião frequentador do Sambódromo desde criança e tem verdadeiro amor pelas escolas de sambas. Trabalha, estuda e vive o mundo de confetes e serpentinas durante o ano inteiro.  Além de atuar como escritor e curador independente. Atualmente, faz mestrado em História da Arte na UERJ, onde pesquisa também sobre o tema carnavalesco.
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