terça-feira, 28 de agosto de 2018

#MinhaIdentidade: o raio X do Vai Vai, a escola do povo

por Alisson Valério



Revelando um pouco da construção da identidade das principais escolas brasileiras, hoje fazemos uma parada no Bixiga para lembrar a história de uma das mais importantes agremiações carnavalescas do país. Surgido como cordão e depois tornado escola de samba propriamente, o Vai Vai construiu uma história de luta e raça, sempre ligado ao povo, sendo o maior campeão da folia paulistana. 

Em meio a críticas sociais e homenagens musicais, a escola construiu um perfil popular e aguerrido que é abraçado por torcedores pelo Brasil a fora, conquistando cada dia mais novos apaixonados. Por isso, relembramos agora os desfiles mais marcantes da escola do povo. Vem ver o samba amanhecer com a gente! 

"Vem novamente a disputa, meu povo à luta!"


Tudo começou no início do século passado: por volta de 1928, Livinho, Benedito Sardinha e um grupo de amigos animavam os jogos e as festas organizadas do time de futebol e grupo carnavalesco chamado de Cai-Cai no bairro do Bixiga. Mas eles não eram bem vistos pela galera do Cai-Cai não, viu? Longe disso; o grupo de amigos era visto como um bando de penetras e arruaceiros, foram até jocosamente apelidados de "a turma do Vae-Vae". Não demorou muito e eles foram expulsos do Cai-Cai, mas não deixaram por isso mesmo e criaram o "Bloco dos Esfarrapados" e também o Cordão Carnavalesco e Esportivo Vae-Vae, este sendo oficializado em 1930, o resto é história.... 

O cordão escolheu as cores preto e branco, que eram as cores do Cai-Cai invertidas como forma de ironizar o cordão, honrando assim a fama de arruaceiros. O símbolo que até hoje faz parte do pavilhão da escola tem como objeto central uma coroa, com dois ramos de café e abaixo o nome e a data de fundação. A escolha dos ramos de café foi pelo motivo do produto ser, na época, uma das grandes fontes de riqueza do Brasil, com a coroa simbolizando a realeza e a magnitude da raça negra, em forma de homenagem aos que vieram para o Brasil como escravos e eram reis e rainhas na sua terra. Era comum naquela época os negros se tratarem por “oi, meu rei", "oi, minha rainha”.


Outra curiosidade é o apelido "Saracura". O nome veio do rio que margeava a Bela-Vista. Apesar de ser um apelido que é motivo de orgulho hoje ele foi dado de forma pejorativa, mas graças ao sucesso e aos títulos da escola, virou motivo de orgulho para a toda a sua comunidade.  

Desfilando como cordão foram quatro títulos e três vice-campeonatos. A escola estreou como Escola de Samba no Grupo Especial em 1972, já garantindo o segundo lugar com o enredo "Passeando pelo Brasil o samba mostra o que é seu". De 1972 até 2018 foram 15 títulos, tornando-a a maior campeã do Carnaval de São Paulo na atualidade.
  

O começo de tudo – (1978, 1981 e 1982)




A escola que estreou no Grupo Especial no ano de 1972 sendo vice-campeã não demorou muito para conquistar o seu primeiro título no grupo: o título veio no ano de 1978, com o enredo “Na Arca de Noel quem entrou não saiu mais”, assinado por uma comissão de carnaval. "Noel, Noel, Noel, esta linda noite é sua, o Vai-Vai está em festa neste carnaval de rua..."



"Acredite se quiser no sonho mais lindo que eu não sonhei..." E três anos depois viria o primeiro bicampeonato da escola, com os enredos “Acredite se quiser” e “Orun Aiyê - O Eterno Amanhecer”, os dois assinados por uma comissão de carnaval. Ambos os desfiles foram embalados por dois sambaços que estão eternizados na coletânea do Vai Vai. "Olorum, canta meu povo em harmonia, Olorum, Vai-Vai na apoteose da alegria..."



O tricampeonato – (1986, 1987 e 1988)


"Raiou e o sol brilhou, ao romper de um novo dia, o Vai-Vai chegou..." Depois de conseguir seu bicampeonato em 81 e 82, foi a vez de conquistar o seu primeiro tricampeonato no Grupo Especial paulistano, com títulos de 86 a 88. O enredo “Do jeito que a gente gosta”, assinado pelo carnavalesco Andrés Wilches, marcou também o início da era de Thobias da Vai-Vai como interprete da escola. Enredos com teor critico como esse seriam frequentes na história da escola no Carnaval de São Paulo. "Quero ver pulso firme contra a corrupção, e um salário justo para toda nação..."  



"A paz virá, neste momento de alegria, vou desfilar, irradiando energia, aos povos sem exceção..." Com o enredo “A volta ao Mundo em 80 Minutos”, assinado por Ciro Nascimento, a escola entrou na avenida no amanhecer do dia rumo ao seu bicampeonato. No pouco que se pode ver do desfile, dá para notar o mascote da escola, o Criolé, no seu abre-alas que nos levaria a uma viagem pelo mundo. A leveza do desfile e a energia dos componentes junto a arquibancada deram o tom, além do show da bateria do Mestre Tadeu, embalando assim mais um campeonato para a escola do Bixiga. "Eu quero é mais que sedução, brotar o amor no coração, a liberdade, um ideal, Vai-Vai na avenida é carnaval..." 



"Jorge Amado... Mestre na literatura, fez da epopeia de um povo, a sua arte em romance de ternura..." Com o seu desfile baseado em obras de Jorge Amado, intitulado de “Amado Jorge, a História de uma Raça Brasileira”, assinado por Ulysses Cruz, a escola da Saracura vinha em busca do seu tricampeonato. A intenção do carnavalesco era fugir do tradicional de época e fazer um carnaval bem teatral no Vai-Vai, transformando a avenida em um verdadeiro palco. E conseguiu! O samba, que era pura poesia, embalou mais um grande desfile da escola do Bixiga rumo a conquista do seu terceiro título consecutivo. "Bahia... o seu nome principia, com o canto e a magia, que o negro sopra pelo ar, cantando... sua terra, sua gente, seu passado, seu presente, o futuro só Deus dirá..."   




A rainha que reluz é ouro – (1993 e 1996)


Foto: YouTube

"A Bela Vista vem de novo aí, com muito brilho pra te alucinar, reluz feliz e não é ouro, o meu maior tesouro, é ver o povo delirar..." O período que marcou o início da era dos desfiles no Sambódromo do Anhembi rendeu dois títulos ao Vai-Vai, nenhum deles consecutivos, mas nem por isso foram menos marcantes. O primeiro deles foi com o enredo “Nem tudo que reluz é ouro”, assinado pelo trio de carnavalescos Fábio Brando, Luís Rossi e Renato Teobaldo. A intenção era mostrar a saga do homem através da riqueza e dele se perdendo na ganancia, tendo o intuito de ensinar que a maior riqueza na nossa vida são justamente as coisas que não estão à venda. 

Sempre que o Vai Vai abraça enredos com crítica e exerce a sua voz como 'Escola do Povo', o sucesso é quase garantido e dessa vez não foi diferente. Mais um show na avenida no amanhecer do dia para delírio do público que não arredou o pé do Anhembi até o final do desfile campeão da Saracura.  "Leva meu samba, um canto de reflexão, que o tesouro, é a água, é a terra (é o nosso ar), tá na liberdade, na felicidade eterna, tá no sangue, vem da alma e do amor, tá no coração dos homens, está na paz, está na flor..."

Foto: Ouro de Tolo

"Clareou, clareou geral, alô galera, alô bateria, alô povão, de preto e branco vem a Saracura, ninguém segura essa overdose de emoção..." Em busca do seu segundo título do Anhembi, o Vai Vai teve pela primeira vez em sua história um carnavalesco carioca, Sidinho Ramos, que assinou o enredo “A rainha, a noite tudo transforma” que cantaria a noite que transforma em realidade, fantasias do consumo e em conjunto realizaria o sonho de uma mulher que fez da noite o palco para o seu sucesso, a dona de casas noturnas paulistana, Lilian Gonçalves. Um desfile inesquecível que começou a noite e foi iluminado pela luz do dia. E a noite que tudo transforma transformou o sonho do título em realidade para a festa de toda a comunidade da Saracura. "Hoje Lilian Gonçalves na verdade, o sonho fez realidade, nas mil e uma noites da canção, agora a Cinderela é rainha, vou sonhar a festa é minha, Vai-Vai um novo dia clareou, clareou..."

O tetracampeonato (1998 - 2001)

Foto: SPTuris

"Me beija na boca, amor, me faz um chamego, eu quero sentir, balançando a massa, é Vai-Vai que passa, sacudindo o Anhembi..." No ano de 1998, o Vai Vai decidiu falar sobre os 90 anos da imigração japonesa no Brasil, mas eles resolveram contar essa história de uma forma um pouco diferente, tornando o enredo mais a cara da escola. O carnavalesco, Chico Spinoza, resolveu inserir o mascote da escola, o Criolé, no enredo o transformando na figura que contaria a história. No enredo, o personagem sonha que é o imperador do Japão antigo, conhece as belezas e as tradições da terra do sol nascente e no meio dessa viagem ele acorda na avenida no desfile de carnaval guiando o público por essa viagem recheada de beleza e cultura. Uma sacada genial do carnavalesco! O desfile ainda teve como grande trunfo a estética japonesa que deu um toque todo especial ao visual da escola. Em um dos grandes sacodes do Anhembi, embalado por um dos sambas inesquecíveis da história do carnaval paulistano, o título não poderia ir para outro lugar além do bairro do Bixiga. "Aí fiquei maluco com o desfile da Vai-Vai, sacode povão, Banzai!" 

Fonte: Youtube
"Na virada do milênio, a paz renascerá, ô clareia deixa clarear..." Rumo ao bicampeonato, o Vai Vai do carnavalesco Chico Spinoza resolveu contar a história e as profecias de Nostradamus. Um tema polêmico, que gerou de certa forma olhares estranhos até o dia do desfile... Porém, quando o mesmo começou, foi arrebatador em sua essência! Num cortejo harmonioso do início ao fim, desde o seu início de cores mais escuras até o seu final cheio de esperança e de tons mais claros, a escola deu um verdadeiro show no Anhembi para coroar seu bicampeonato. "Na transformação, surge um clarão é um novo ser, Saracura vem anunciar (que o Vai-Vai), chegou para explodir o Anhembi..." 


"Eu sou Bixiga, sou amor, amor, fazendo o samba amanhecer (vem ver), a Saracura é a razão do meu viver..." Na rota do tricampeonato, com o enredo “Vai-Vai Brasil”, assinado pelo carnavalesco Flávio Tavares, no ano em que eram celebrados os 500 anos do Brasil, a escola contou a época mais contemporânea do país, passando por vários fatos históricos que aconteceram entre 1984 e os anos 2000. Acontecimentos históricos como as Diretas Já, o Plano Cruzado, Sarney, Collor e Real, o ídolo Ayrton Senna e, claro, uma homenagem aos 70 anos da própria escola. Um desfile de tom crítico, mas ao mesmo tempo divertidíssimo, com aquele espirito arruaceiro, essência da escola. Pode colocar mais um tricampeonato na conta da escola do povo! "Eu elegi um presidente, Collorido e diferente, me dei mal, com garra e emoção, pintei toda nação, aí eu caí no Real..." 

 Vania Vargas/Folha Imagem

"Na transformação, surge um clarão é um novo ser, Saracura vem anunciar (que o Vai-Vai), chegou para explodir o Anhembi..." Sonhando com o inédito tetracampeonato no Grupo Especial do carnaval paulistano, o Vai Vai trouxe o enredo “O Caminho da Luz, a Paz Universal”, de assinatura do carnavalesco Ilvamar Magalhães. A proposta do carnavalesco era um convite a reflexão, tocando em vários pontos que regem a humanidade como a vida, a razão, a inspiração, a esperança e o amor. Foi um verdadeiro show do Vai Vai no Anhembi. Tendo ao seu favor mais um samba 'arrasa quarteirão' e a sua comunidade sempre fazendo jus a sua essência aguerrida, o sonho do tetracampeonato inédito virou realidade para a Saracura. "Me dê a mão, somos irmãos, vamos caminhar, buscar na luz celestial, a paz universal..."

15 vezes campeã – (2008, 2011, e 2015)


Foto EFE

"Eu sou guerreiro de fé, meu samba é no pé, sou Vai-Vai, se quero axé meu manto traz, no branco a paz, no preto amor, sou brasileiro e tenho meu valor..." Depois de alguns anos sem saber o que era comemorar um título no carnaval, o Vai Vai voltou a sua origem crítica ao lado de Chico Spinoza, naquele que seria um dos maiores desfiles da sua história. Intitulado de “Vai-Vai acorda Brasil, a saída é ter esperança”, inspirada na peça de Antônio Ermírio de Moraes, que conta a história de um incêndio na comunidade de Heliópolis em 1996. A história de superação contada na avenida mostrando a força que a educação tem de mudar o futuro de uma nação ganhou uma linda descrição durante o desfile da escola. Um cortejo inesquecível para muitos, é com certeza um dos maiores desfiles da escola no carnaval paulistano. O título, claro, veio, mas de forma sofrida, apenas na última nota do último quesito. Campeonato mais do que merecido pelo o que foi apresentado pela escola do Bixiga. "Alô Brasil, o nosso povo quer mais educação pra ser feliz, com união, vencer a corrupção, passar a limpo este país..."

Foto: Fernando Donasci/UOL
"Feliz da vida lá vem o Bexiga, exemplo de comunidade, a música venceu, o dom é luz que vem de Deus, da emoção, Vai-Vai resplandeceu..." Em busca da sua 14ª estrela, o Vai Vai trouxe para o Anhembi uma das histórias mais lindas da história da música do nosso país: a vida e a superação do maestro João Carlos Martins. “A música venceu” foi assinado pelo carnavalesco Alexandre Louzada. O enredo passeou por toda a vida do maestro, começando na sua infância na comissão de frente e terminando com ele regendo uma orquestra no último carro. O desfile foi arrebatador do começo ao fim! A história de luta do homenageado encantou e emocionou a todos os presentes no sambódromo. O samba em si é uma obra-prima da história do Vai Vai. A sensação ao final da apresentação é que o título tinha sido arrebatado e a confirmação veio na terça-feira de carnaval. A décima quarta estrela do pavilhão do Vai Vai havia sido conquistada em 2011. "Na sua fé, resistiu, e a dor da adversidade, suplantou, com muita garra e amor..." 


"Reluziu, seu canto ecoou, no meu Brasil cantora igual jamais se ouviu, Saracura a cantar bem mais feliz, simplesmente Elis..." Vai Vai e música é uma combinação que dá ótimos frutos e quando se trata de uma homenagem, as chances de sucesso são maiores ainda. O tributo a Elis Regina virou realidade no Carnaval de 2015 e o Vai-Vai abraçou a oportunidade com unhas e dentes. O enredo “Simplesmente Elis. A Fábula de uma Voz na Transversal do Tempo” assinado pelos carnavalescos Alexandre Louzada, Eduardo Caetano e André Marins foi contado através das suas músicas na avenida de forma leve e emocionante. Nesse texto, a palavra sacode foi citada algumas vezes, mas esse desfile talvez tenha sido o maior sacode proporcionado na avenida pelo alvinegro em sua história. Foi de arrepiar do começo ao fim. Elis Regina e Vai-Vai com uma combinação pra lá de apimentada, que abocanhou o título do Carnaval de 2015. A cantar a dor, o amor, o bêbado e a equilibrista, a voz do povo diz que o show de todo artista, tem que continuar...


Baluartes do Vai Vai

 Thobias da Vai-Vai – Presidente de Honra

Foto: Revista Paulista
Thobias na sua carreira de intérprete foi uma voz marcante e inesquecível no Vai-Vai e agora continua sendo uma voz forte dentro da agremiação, só que dessa vez como presidente de honra. Thobias já foi interprete, presidente, vice-presidente e agora é presidente de honra da escola. Já fez e faz de tudo pelo Bixiga. Ele que chegou a escola em 86, e obviamente continua até os dias de hoje, fez parte de 11 dos 15 títulos da história do Vai-Vai no Grupo Especial. Como intérprete, ele embalou o título de Banzai em 1998, com presidente o título Acorda, Brasil em 2008 e como presidente de honra o desfile em homenagem a Elis Regina em 2015. Uma história na escola repleta de momentos memoráveis. Impossível falar do Vai-Vai e não falar de Thobias e vice-versa. É um nome que ficará marcado para sempre na história da escola.

Mestre Tadeu – Mestre de Bateria


Foto: Christian von Ameln/Folhapress
Antônio Carlos Tadeu chegou ao Vai-Vai no final da década de 1960 e permanece até os dias de hoje na escola. Ele assumiu o posto de Mestre de Bateria em 1973 e não sendo fã desse negócio de paradinha, ficou e não saiu mais. Mestre Tadeu participou de todos os 15 títulos do Vai-Vai no Grupo Especial de São Paulo. E não é só troféu que ele coleciona não, recordes também. Os recordes de maior vencedor do Carnaval de São Paulo e o de maior tempo comandando a mesma bateria no Brasil são dele. Da bateria do Mestre Tadeu saíram grandes mestres e diretores de bateria, nomes como o do Mestre Tornado que atualmente é um dos grandes mestres de bateria do carnaval.  Antes mesmo do Vai-Vai ser uma escola de samba Tadeu já estava por lá, lugar que ele faz história até hoje. A história do Antônio Carlos e do Vai-Vai se misturam de tal forma que quase se tornam uma só. Mestre Tadeu é um patrimônio do carnaval paulistano e uma lenda viva da história do carnaval do Brasil. Vida longa ao Mestre!

Paulinha e Pingo - Mestre-sala e Porta-bandeira

Foto: Liga SP
Eles estrearam como primeiro casal do Vai-Vai em 2006, não só como primeiro casal do Vai-Vai, mas como primeiro casal no Carnaval. Paulinha era a segunda porta-bandeira da escola, onde desfilava desde os seus 7 anos de idade, Pingo chegou a escola em 2001 e era o terceiro mestre-sala. Se estamos falando sobre eles agora nem é preciso dizer que a parceira deu certo, aliás não só deu certo como foi um golaço da escola. O casal foi nota 10 já em sua estreia, história que se repetiu várias vezes em todos os seus carnavais dançando juntos pelo Anhembi. A primeira fantasia usada pelos dois representava o "Orgulho de ser Vai-Vai" e se tem uma certeza quando se fala desse casal é o orgulho de todos os torcedores da escola em tê-los defendendo ano pós ano o pavilhão da escola do Bixiga. Pingo e Paulinha serão eternizados como um dos grandes casais não só do Vai-Vai, mas da história do Carnaval de São Paulo.

Chico Spinoza - Carnavalesco

Chico Spinoza é um dos grandes carnavalescos do Brasil e no Vai-Vai fez boa parte da sua história no Carnaval. Ele chegou a escola por escolha do próprio Chico, ainda quando trabalhava como figurinista da Rede Globo um diretor da emissora pediu para ele fazer um carnaval em São Paulo, citou duas escolas e ele acabou escolhendo o Vai-Vai e o resto é história. Foram 8 anos, 3 títulos e 2 vice-campeonatos conquistados. Na sua passagem pela escola foram vários desfiles inesquecíveis, mas obviamente que os títulos com Banzai em 1998 e Acorda Brasil em 2008 encabeçam a lista dos melhores desfiles de Spinoza no Bixiga. Em sua carreira como carnavalesco foi campeão por 4 oportunidades, três com o Vai-Vai em São Paulo e uma vez com a Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Chico Spinoza é o carnavalesco que mais vezes foi campeão assinando sozinho o carnaval na escola do Bixiga, marcando assim o seu nome na história da agremiação paulistana.

Camila Silva – Rainha de Bateria


Foto: Fashionando
No carnaval de 2018, Camila Silva completou 10 anos de reinado a frente da bateria Pegada de Macaco do Vai-Vai. Não precisa nem dizer que ficar 10 anos à frente de uma bateria, um cargo tão disputado e constantemente vendido no carnaval, o que não é o caso do Vai-Vai, é um tempo muito significativo para mostrar a força da natureza que Camila Silva é e continua sendo no Vai-Vai. Ela tem todos os requisitos que uma rainha precisa: samba no pé, beleza, carisma e o mais importante deles que é o comprometimento. Ser rainha de bateria é muito mais que um posto, é um estado de espirito e Camila Silva é uma rainha de bateria em seu pleno estado de espirito. Vida longa à rainha!  

"É tradição e o samba continua!"


Falar do Vai-Vai é passear pela história do Carnaval de São Paulo, contar dos seus títulos é relembrar vários momentos marcantes e inesquecíveis da história do samba paulistano. Desde a sua essência arruaceira, dos seus sambas antológicos, do seu povo aguerrido.... ah, o seu povo, diversas vezes em sua história quando o Vai-Vai abraçou a sua faceta de Escola do Povo, de falar dos problemas do seu povo, o sucesso era inevitável, a sua vertente crítica é uma das suas maiores qualidades pois é puramente de sua essência falar do povo e ser o povo cantando na avenida as suas dores e os seus amores... E uma dica: se nunca viu o samba amanhecer vai no Bixiga pra ver, vai no Bixiga pra ver.... 

Playlist no Youtube com todos os sambas dos campeonatos do Vai-Vai:
https://www.youtube.com/playlist?list=PL9xrNWhRQAwMK6k8BE9haZKQU1LL2SYuE 


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

5x São Clemente: A crítica irreverente da escola da Zona Sul

Por Beatriz Freire



Na onda dos enredos críticos, muitas escolas têm aderido ao eixo temático, e a São Clemente, escola que construiu sua identidade sob o véu das denúncias irreverentes, volta ao seu berço para reencontrar seu DNA construído a partir da década de 80. Sendo assim, o Carnavalize separou cinco desfiles fundamentais para entender a alma da escola da Zona Sul e embalar os próximos enredos que virão, inclusive com a própria escola, no carnaval de 2019.


QUEM CASA QUER CASA (1985)

Comissão de frente da preta e amarela da Zona Sul (Foto: Tantos Carnavais)

Ao ano final da lenta e gradual abertura do regime militar, a São Clemente, no auge de uma crise econômica, levou à Sapucaí a denúncia verossímil de tantas pessoas que não tinham onde sequer morar. "Quem casa quer casa" foi um enredo desenvolvido por Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa para mostrar a realidade do déficit habitacional no Brasil, desde a barriga da mãe, passando pelos caminhos da vida, até o cemitério. A comissão de frente trazia componentes com vestes que eram metade vestidos de noiva e metade ternos, representando casais que saíam em busca do sonho da casa própria, uma apresentação digna e vencedora do Estandarte de Ouro. A escola não tinha lá os luxos das grandes potências da época, o que acabou prejudicando o desempenho visual no julgamento, mas o ponto positivo foi o aguerrido samba composto pelos grandes Izaías de Paula, Helinho 107 e Rodrigo, que fazia jus ao gritos de "olha a crítica", que a escola passou a carregar. Apesar do rebaixamento no fim da quarta de cinzas, o desfile de 1985 coloca a escola na posição ativa de porta-voz das mazelas da sociedade. 




CAPITÃES DO ASFALTO (1987)

Abertura da escola no carnaval de 1987 (Foto: Jornal OGlobo)
Já no carnaval de 87, ainda seguindo o eixo temático que criou a identidade da escola, a São Clemente mostrou ao mundo o abandono das crianças e adolescentes com o inesquecível "Capitães do Asfalto", enredo desenvolvido também pela dupla Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa. O desfile contou a história dos menores abandonados, embalado por um dos maiores sambas da escola, composto por Izaías de Paula, Jorge Moreira e Manuelzinho Poeta, e traçou a comparação entre a vida de um menino que tinha uma infância de luxo e a de um menino fadado a crescer e aprender o que a rua poderia ensinar. A escola, recém-chegada do segundo grupo, ainda emocionou ao levar para a Avenida uma ala de meninos que eram moradores de rua, conquistando, ao final da disputa, um honroso sétimo lugar. E, mais uma vez, mostrou-se atemporal ao retratar a realidade que não mudou neste mais de 30 anos que se passaram. 




E O SAMBA SAMBOU (1990/2019)

Comissão de frente que levou o Estandarte de Ouro em 1990 (Extraída de Galeria do Samba)

Ah… que saudade da Praça Onze, dos grandes carnavais e também da acidez clementiana. Depois de dois anos amargando posições ruins na classificação geral, a escola da Zona Sul deu seu grito de crítica às grandes transformações e ao "sabor comercial" que permeou (e vem permeando) as escolas de samba a partir de meados da década de 1980 com os enredos patrocinados, vendas de cargos de rainhas de bateria para celebridades e o troca-troca da dança das cadeiras sem nenhuma valorização da fidelidade ao pavilhão. E foi assim que "E o Samba Sambou" fez o povo cantar e vibrar nas arquibancadas. A comissão de frente da escola foi, novamente, a vencedora do Estandarte de Ouro, representada por fantoches de mestre-salas controlados pelos dirigentes das agremiações, e o samba-enredo, composto por Helinho 107, Chocolate, Mais Velho e Nino, profetizou toda a espetacularização da festa que hoje, quase 30 anos depois, ainda é uma realidade. O sexto lugar conquistado naquele ano foi o melhor resultado da escola em toda sua trajetória no Grupo Especial e, em 2019, sob comando de Jorge Silveira, a escola abre o pano do passado para rememorar e atualizar as críticas ao universo interno e aos bastidores do maior espetáculo da terra na reedição do enredo. 




BOI VOADOR SOBRE O RECIFE: O CORDEL DA GALHOFA NACIONAL (2004)


(Imagem extraída de site Apoteose)
Em 2004, num cenário político complicado para ministros e demais engravatados, a São Clemente regressou até o Recife de Maurício de Nassau para contar a história da galhofa no país, tendo como guia o boi voador que passou pelo céu pernambucano, atração para inauguração de uma ponte recém-construída e, para recuperar os investimentos, foi exigido o pedágio. Sob batuta do brilhante Milton Cunha, o enredo buscou conciliar passado e presente, à época, para contar os rumos do Brasil. O desfile, apesar de contar com um excelente samba, não cumpriu requisitos suficientes para garantir a permanência na elite da folia, mas a São Clemente realmente nos fez acreditar que, aqui, o que é sério é carnaval...




CHOQUE DE ORDEM NA FOLIA (2010)

O desfile de 2010, assinado por Mauro Quintaes (Foto: Wigder Frota)

Depois de um ano de expediente na Série A, em 2010 a São Clemente viu a chance de voltar a desfilar pela elite carioca. O enredo escolhido, denominado "Choque de Ordem na Folia", foi desenvolvido por Mauro Quintaes e usou como mote o programa do então prefeito Eduardo Paes para embarcar numa crítica do mesmo teor de "E o samba sambou", a fim de mostrar a desordem interna das escolas de samba. Versos do próprio samba relembraram a profecia da escola vinte anos antes, como "eu bem que te avisei que o samba um dia ia sambar", e a irreverência de letra e melodia feitas por Luiz Carlos Ribeiro e seus parceiros proporcionou um desfile animado e leve para a São Clemente. No fim da quarta-feira de cinzas, a escola saiu vitoriosa e retornou ao Grupo Especial, onde permanece até hoje, quase nove carnavais depois da ascensão.



LEIA MAIS:
- SINOPSE: São Clemente | "E o Samba Sambou..."
- #SérieEnredos: Carnavais de carnavais - Metalinguagem nos desfiles

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

5x Viradouro: Desfiles marcantes da alvirrubra niteroiense

Por Leonardo Antan



Uma novata com pose de veterana. Desde que deixou a festança de Nitéroi e cruzou a ponte rumo ao carnaval carioca, a Viradouro trouxe consigo uma bagagem que lhe deu corpo para conseguir feitos impressionantes e se fixar no imaginário carnavalesco. Apesar de frequentar o carnaval da capital há pouco mais de vinte e poucos anos, a vermelho e branco está presente nas rodas de conversa e nas antologias de grandes desfiles e sambas. Com uma torcida que rompeu as barreiras de sua cidade e se espalha pelo Brasil, a escola vive uma fase turbulenta, oscilando entre os grupos, mas mantém no inconsciente dos foliões o seu tamanho e a presença de sua comunidade valente, além da sede de bons resultados.

Para celebrar uma das grandes agremiações das últimas décadas, separamos cinco apresentações memoráveis do furacão alvirrubro que ajudam a sintetizar a sua história no carnaval da Sapucaí. Vem, pois o amor está no ar!


BRAVO, BRAVÍSSIMO - DERCY, O RETRATO DE UM POVO (1991)

A homenageada Dercy Gonçalves em destaque no desfile da Viradouro (Foto: Acervo OGlobo)

Embalada pela ascensão ao Grupo Especial, em 1991 a Viradouro investiu em uma homenagem à Dercy Gonçalves, com o enredo "Bravo, Bravíssimo! Dercy Gonçalves - o retrato de um povo", contando a história da atriz. Dercy se tornou reconhecida pela irreverência e pelo humor diferenciado e único, com o uso rotineiro dos palavrões como sua verdadeira assinatura. O desfile desenvolvido pelo carnavalesco Max Lopes, que já estava na escola desde o carnaval anterior, foi de muito bom gosto e tudo saiu como o planejado, salvo por um problema pequeno de evolução ocasionado pela chuva, e outros deslizes que não comprometeram tanto a apresentação da escola de Niterói. 

Fato é que a atriz, por si só, era um monumento: aos 83 anos, a Dercy, sempre jovem e dona de si, abaixou o decote do vestido e passou com os seios desnudos pela Sapucaí, acenando e mandando beijos ao público. E no peito aberto da homenageada veio o amor e a boa sorte: a Viradouro terminou em sétimo lugar, garantindo com muita folga e conforto a permanência que duraria muitos anos na elite carioca e assinando no livro de sua própria história uma página inesquecível.




TREVAS! LUZ! A EXPLOSÃO DO UNIVERSO (1997)

Os delírios de João 30 no único campeonato da escola de Niterói (Foto: Acervo OGlobo)

Investindo na chegada do maior nome da folia de então, a agremiação viu todos os holofotes se virarem para ela com a contratação de Joãosinho Trinta. O carnavalesco onírico e das formas gigantescas foi aos poucos moldando e adaptando a Virando para sonhar cada vez mais alto. Em 97, a escola estava em seu quarto carnaval assinado pelo artista, um ano após o fracasso de uma apresentação que prometia uma releitura de Aquarela do Brasil, com diversos falhas. Em outros aspectos, também, aquele foi um carnaval de superação para a alvinegra; João sofreu uma isquemia e perdeu o movimento de um lado do corpo. Entrando na avenida longe de ser protagonista, todo o público se surpreendeu com o imenso abre-alas negro que despontou. Era o "nada". 

Em meio ao momento de disputa artística entre Rosa e Renato, João deu uma tacada de mestre, reinventou-se e reconquistou o papel de destaque categórico com a estética daquele carnaval. A Viradouro fez uma apresentação de alto nível nos quesitos plásticos, aliado a um samba animado que prometia uma "explosão de alegria" na voz sempre marcante de Dominguinhos do Estácio. Na bateria, outro trunfo daquela apresentação: a paradinha funk de mestre Jorjão trouxe o ritmo que tomava conta dos bailes da cidade para Sapucaí. Foi impossível não se acabar. Com apresentação avassaladora, coroou-se quase uma ressurreição de um artista genial e o primeiro título da novata escola, apenas sete desfiles depois de chegar ao grupo principal.




PEDIU PRA PARÁ, PAROU! COM A VIRADOURO EU VOU PRO CÍRIO DE NAZARÉ (2004)

Mauro Quintaes foi responsável por assinar a reedição (Foto: Wigder Frota)

Mantendo-se sempre entre as primeiras posições, a Viradouro se fixou pouco a pouco no imaginário da festa como escola encorpada e sempre na busca de bons resultados. Em 2004, o cenário não era diferente, já que a vermelho e branco vinha de uma boa apresentação em homenagem à Bibi Ferreira. Os trabalhos estavam sob a batuta de Mauro Quintaes, um dos artistas mais relevantes e criativos da época, que assinou boas apresentações na Porto da Pedra e no Salgueiro nos anos anteriores. O pré-carnaval, no entanto, gerou um pequeno quiproquó. A escola começou os trabalhos com a promessa de um novo tributo para a maior festa da fé no país, o Círio de Nazaré, que seria embalado por um samba original. Porém, em meio ao receio sobre a preparação de uma nova obra e com a liberação da LIESA do uso das reedições de composições antigas, a diretoria da Viradouro voltou atrás e anunciou o uso de "Festa do Círio de Nazaré", famoso samba da Unidos do São Carlos de 1976. 

A Viradouro despontou na avenida com uma impactante abertura, apostando em vertentes cênicas. A comissão de frente assinada por Déborah Colcker investiu em uma coreografia arrojada e forte, seguida por uma procissão de foliões que remetia o Círio. Nas alegorias e alas, Mauro fez um dos grandes trabalhos de sua carreira, com carros bem desenhados e originais. A escola fez uma grande apresentação, e, por meio do bom uso do samba e da beleza plástica, foi coroada com um honroso quarto lugar na classificação geral.





A VIRADOURO VIRA O JOGO (2007)


Em 2007, a Viradouro trouxe os diversos jogos para a Sapucaí (Foto extraída de Flickr)

Repetindo uma história já conhecida, a Viradouro voltou a atrair as atenções quando contratou o carnavalesco mais badalado e em alta daquele momento. Depois de um período memorável de três desfiles na Unidos da Tijuca, que mudou o patamar da azul e amarela do Borel, Paulo Barros se tornou a grande revelação da folia carioca. Com a pressa de vôos mais altos para a escola e para o artista, a comunidade entrou na avenida apostando alto no enredo sobre os jogos. 

Barros prometeu um show de inovações, que começou com uma simpática comissão de frente, uma porta-bandeira com uma saia curta em forma de roleta de jogos com rajadas de fogo e um abre-alas apostando na já consagrada característica do carnavalesco: o uso de elementos humano. O grande coringa do desfile, entretanto, envolvia a bateria! Os ritmistas comandados por mestre Ciça cruzaram parte da avenida em cima de uma imensa alegoria que simbolizava o jogo de xadrez. Com um samba animado, cantado por Dominguinhos do Estácio, a Viradouro fez uma boa e divertida apresentação. Um desdobramento mais relevante que o sexto lugar conquistado, o refrão "esse jogo vai virar, eu quero ser o vencedor" permanece no imaginário momesco. 




SOU A TERRA DE ISMAEL. GUANABARAN VOU CRUZAR, PARA VOCÊ TIRO O CHAPÉU, RIO EU VIM TE ABRAÇAR (2014)


Com João Vitor Araújo, a Viradouro conquistou o título da Série A em 2014 (Foto: Jornal Extra)

Já caminhando para o quarto carnaval fora do Grupo Especial, em 2014 a Viradouro comandada pelo jovem carnavalesco João Vitor Araújo estava decidida a fazer um carnaval que a impulsionasse de volta ao rol das doze grandes. "Sou a Terra de Ismael, 'Guanabaran' eu vou cruzar... Pra você tiro o chapéu, Rio eu vim te abraçar" foi o enredo que transitou entre a Cidade Sorriso e o Rio de Janeiro, levando ao público a história de Araribóia e as ligações com a cidade vizinha. Ainda que iniciante, o carnavalesco mostrou muito bem seu apuro estético e maturidade artística, indispensáveis para a conquista do título na quarta-feira de cinzas. Guanabaran marcou a volta da escola para 2015, ano em que novamente foi rebaixada por inúmeros problemas debaixo de um dilúvio. 



Retornando ao grupo especial e apostando na recontratação de Paulo Barros dez anos após a primeira passagem do artista pela agremiação, a Viradouro chega para o próximo ano com altas expectativas e promessas de alcançar grandes voos. Estruturada e com apoio de seus dirigentes e sua já conhecida comunidade leal e apaixonada, a escola vive uma boa fase e pretende resgatar o orgulho de uma campeã.