sexta-feira, 26 de outubro de 2018

QUASE UMA REPÓRTER: Igor Sorriso e o retorno a São Paulo em seu auge



Por Juliana Yamamoto | Foto de capa: Walber Silva
Olá, seguidores do Carnavalize. Tudo bem?

Olha quem está de volta após um, digamos, bom tempo sumida, hein? A quase-repórter retoma o seu quadro trazendo um dos maiores intérpretes da atualidade, Igor Sorriso!

Fazendo uma visita na quadra da Mocidade Alegre, uma das principais escolas de samba de São Paulo, fomos recebidos por Fernando Estima, que faz parte do departamento de comunicação. Agradeço por toda assessoria pela atenção e simpatia conosco na visita à Morada do Samba! 

A entrevista com o Igor Sorriso foi uma das mais gratificantes que pude fazer. Conhecer um pouco mais sobre a sua relação com a Mocidade Alegre, que não é de agora, foi especial. Igor, iniciou sua parceria com a escola do bairro do Limão nas eliminatórias para o carnaval de 2011, onde defendeu o samba-concorrente vencedor. A partir dali, a linda história começou a surgir. Após ter estreado em São Paulo como intérprete oficial em 2013, pelo Acadêmicos do Tucuruvi, onde fez um excelente trabalho, o destino queria que ele voltasse a Morada, agora como intérprete, ficando até o ano de 2016. 

Mesmo dois anos fora, Igor Sorriso ainda estava presente na Mocidade durante as eliminatórias de samba-enredo. Entretanto, parecia que a vida de Igor Sorriso estava traçada a vermelha, verde e branco. Após o carnaval de 2018, Igor, que estava na Vila Isabel, desligou-se da agremiação e voltou para a sua Morada, agora, de maneira exclusiva. Querido e admirado por muitos torcedores, Igor é a essência da Mocidade Alegre. Representa a síntese da escola, e através da entrevista que vocês escutarão, irão entender um pouco o grande amor e carinho que ele tem por essa escola de samba. 


Agradeço também ao Bruno Malta, torcedor da escola e grande fã do Igor Sorriso por ter participado da entrevista, tendo-a tornado ainda melhor! 

Igor Sorriso, nós do Carnavalize, desejamos muito sucesso e muitos anos na Morada do Samba! O carnaval de São Paulo agradece por ter um dos maiores intérpretes da atualidade conosco! 

Aí sim, meus pretinhos!

OUÇA A ENTREVISTA COMPLETA ABAIXO:

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

#SérieSambas: 8 grandes intérpretes do carnaval brasileiro

A #SérieSambas vai trazer todo o universo do gênero que comanda a nossa festa, desde os grandes clássicos, passando por seus compositores e intérpretes. Sempre às segundas e quintas-feiras de outubro. Fiquem ligados!


Por Redação Carnavalize


Sambas antológicos não se fazem sozinhos. Para eles explodirem na Avenida são necessárias grandes vozes para entoá-los. Por trás de grandes clássicos do repertório do gênero samba-enredo, estão verdadeiros intérpretes que fizeram história com seus diferentes timbres e personalidades. Alguns acabaram ficando relegados apenas no nicho, outro se tornaram famosos e compositores de canções de outros gêneros. Mesmo sem receber o devido valor, eles são verdadeiros monstros da nossa música. Por isso, separamos oito grandes cantores que balançaram a Sapucaí e o Anhembi, pegue o microfone e prepare o grito de guerra.

Quinho


Ao falar em Melquisedeque, pode até ser que surjam olhares estranhos e que poucos realmente saibam de quem se trata. Mas ao gritar “arrepiiiiiiiia” ou ainda “pimba! Pimba!”, é impossível não saber que se trata de Quinho, uma das mais marcantes vozes do carnaval e dono de um dos mais populares gritos de guerra. A história dessa carismática figura começou no bloco carnavalesco Boi da Freguesia, mas foi o imortal Aroldo Melodia o responsável por sua grande estreia dentre as renomadas escolas do carnaval carioca, na União da Ilha do Governador. A voz grave e rouca marcou a vida de diversas gerações de foliões e ganhou fama em todo o Brasil, sendo Quinho detentor de um dos mais famosos alusivos do carnaval. 

Foi no Salgueiro, porém, somando ao todo 20 carnavais, dentre os quais 12 foram ininterruptos, que Quinho fez história e emprestou sua voz a momentos memoráveis da Academia do Samba e da própria Sapucaí, como a homenagem aos 50 anos da alvirrubra, o sétimo – e questionado – lugar de Candaces, o campeonato de 2009, com Tambor, e, por fim, Gaia, um dos desfiles mais marcantes dos últimos anos da escola. Depois de um desentendimento com a diretoria da escola, Quinho rumou para São Paulo, onde defendeu a Unidos do Peruche em 2015 e 2016. No Rio de Janeiro, desde o último carnaval retornou à Sapucaí para defender a Acadêmicos de Santa Cruz.


Eliana de Lima


Eliana de Lima é figura de respeito no mundo do samba. Famosa não só por seus grandes sucessos no pagode romântico como "Desejo de Amar", mas por ser uma das primeiras e mais marcantes vozes femininas à frente de um carro de som de escola de samba. Sua trajetória enquanto intérprete de samba-enredo começou na Cabeções da Vila Prudente, em 1979, quando soltou o vozerão na quadra da escola e passou a integrar o time das pastoras da agremiação. 

Em 1980, pela Príncipe Negro, fez a sua estreia e de lá deslanchou por escolas como a Mocidade Alegre, Unidos do Peruche, Rosas de Ouro e Barroca Zona Sul. Pela Leandro de Itaquera, gravou seu timbre na história: interpretou Babalotim, um dos mais belos sambas do carnaval da terra da garoa e do Brasil, considerado antológico. Ao lado de outras mulheres, como a amiga Bernadete, brilhou e quebrou estereótipos, além de ter tido a honra de cantar ao lado de Jamelão, considerado o maior intérprete de todos os tempos. Hoje, Eliana, a Rainha do Pagode, segue cantando e sendo relembrada pela sua trajetória de muito sucesso apesar de não empunhar o microfone de nenhuma escola há bastante tempo.

Aroldo Melodia



Grandes intérpretes não só marcam sua passagem por alguma agremiação, como podem estar inteiramente ligados à identidade delas. É o caso Aroldo Forde, que por mais de vinte vezes emprestou sua voz para os sambas-enredos da União da Ilha. Se a tricolor ficou famoso pelo estilo leve e simpático no imaginário carnavalesco, muito desse apelo se deve às atuações sempre divertidas e carismáticas do intérprete. O cantor está intimamente ligado a história da agremiação, chegando por lá apenas cinco anos depois de sua fundação, em 1958. 

Na tricolor insulana, permaneceu interruptamente até 1983, entoando clássicos do repertório da agremiação como “O amanhã” e “É hoje!”. Em 1984, surpreendeu ao sair da sua escola de origem e seguir rumo à Padre Miguel, onde também substituiu um cantor muito ligado a sua agremiação, Ney Vianna. A parceria não rendeu para ambas as partes e Aroldo seguiu para a Santa Cruz por dois anos, antes de voltar pra a Ilha. Entre idas e vindas na agremiação, passou ainda por Unidos da Ponte e Caprichosos de Pilares. Encerrou a carreira em 1996, quando sofreu um derrame cerebral que o obrigou a andar em cadeira de rodas, mas deixou de herança seu filho Ito, que tal como o pai marcou a história insulana e segue sendo o cantor da União por mais de uma década. 

Thobias da Vai-Vai



Edimar Tobias da Silva antes de entrar no mundo do samba trabalhava como entregador de contas da Sabesp, até que começou a frequentar rodas de samba e acabou vencendo um concurso de intérprete da empresa, despertando o interesse dos Gaviões da Fiel, na época ainda bloco. Assim, ele começou assim a escrever a sua história no carnaval em 1983. A passagem pelos Gaviões acabou sendo rápida, devido seu sucesso que acabou chamando a atenção do Vai-Vai, que não perdeu tempo e já em 1986 o colocou como dono do seu microfone principal. 

Sua carreira foi marcada pela passagem longa no Vai-Vai, tanto que quando se fala de um se lembra do outro naturalmente. Foram quatorze carnavais, com oito títulos conquistados, sendo a voz principal do Bixiga. Sempre foi conhecido pela sua tranquilidade, seu profissionalismo, pelo sorriso fácil e pela sua voz potente que ecoava pelo sambódromo do Anhembi. Thobias, além de intérprete, foi eleito presidente do Vai-Vai em 2006, permanecendo no cargo por quatro anos, sendo ainda presidente de honra e foi vice-presidente da escola até o ano de 2018. Falar da história de Thobias como interprete do Vai-Vai e ouvir o seu inesquecível “alô nação alvinegra” não é apenas relembrar da era de ouro da escola da Saracura, mas também de uma das vozes mais marcantes da história do carnaval. 


Dominguinhos do Estácio 


"Olha o Dominguinhos chegando..." Cria do morro do São Carlos, Domingos da Costa Ferreira ganhou alcunha relativa ao seu bairro de origem antes da escola do lugar ser conhecida por Estácio de Sá, mas sim Unidos de São Carlos. Foi na escola do bairro que Dominguinhos se tornou primeiro compositor e depois assumiu os vocais, entoando na avenida clássicos como “Arte Negra na lendária Bahia” e “Festa do Círio de Nazaré”.

Teve uma rápida passagem pela Santa Cruz em 1977 e logo depois desembarcou em Ramos. Na Imperatriz Leopoldinense, assinou junto com Darcy do Nascimento a emblemática canção do enredo “O que é que a Bahia tem?”, que sagrou a escola campeã, ficando na escola por mais dois anos e faturando mais um título no ano seguinte. O cantor nunca teve duradouros cansamentos com uma escola em especial, pelo contrário, foi um nome de muitos amores, emprestando sua voz e talento a grandes agremiações. Não a toa, Dominguinhos é o único intérprete campeão em três escolas distintas, deixando sua marca na história de cada uma delas.

Na verde e branco de Ramos, ele voltaria em 1989 e se sagraria campeão com o clássico “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós”. Nos anos 90, voltou a sua escola de origem e embalou a histórica vitória da vermelho e branco com “Pauliceia Desvairada - 70 anos de modernismo”, e anos depois cruzou a ponte rumo a Niterói. Na Viradouro, permaneceu por mais de uma década e entoou o campeonato de 1997. Dominguinhos teve ainda carreira como cantor de samba e pagode, lançando mais de nove álbuns de sua carreira. Atualmente, segue afastado da Avenida após voltar a Estácio e Viradouro nos últimos anos.

Royce do Cavaco


Royce Todoverto começou a sua carreira no carnaval como intérprete em 1982 no Águia de Ouro, mas a sua história no carnaval paulistano começou bem mais cedo: quando jovem, ele costumava tocar o seu cavaco nas rodas de samba nos jogos de várzea com a companhia dos seus irmãos. Nos jogos, acabou conhecendo muitos sambistas e assim começou a frequentar algumas escolas de samba, dentre elas a Rosas de Ouro, onde mais tarde integrara a ala de compositores. Royce é muito respeitado por onde passa e por toda a comunidade do samba por seu estilo simples de ser e de cantar, sem fazer firulas, os famosos cacos. 

Sua passagem mais marcante foi exatamente no Rosas de Ouro, sua atual escola. Até o momento são 14 carnavais defendendo a escola da Freguesia do Ó, com 5 títulos conquistados, além de várias performances memoráveis do cantor. Ouvir o 'Sabiá da Roseira' puxar o seu grito de guerra é ter a certeza de que ali se iniciará mais uma belíssima performance de um dos grandes intérpretes da história do carnaval do Brasil. "Alô nação azul e rosa! Canta, canta, canta Roseira..."

Neguinho da Beija-Flor 


"Olha a Beija-Flor aí, gente!..." O mais emblemático grito de guerra da Sapucaí surgiu espontaneamente, de uma adaptação de uma música chamada "Olha o camburão", de composição própria. O cantor teve seu primeiro contato com a música aos 10 anos de idade, ao vencer um concurso de cantores mirins cantando uma música de Jamelão. Aos 26 anos, em 1976, o Neguinho da Vala virou da Beija-Flor ao compor o clássico Sonhar com o rei dá leão. Desde então, empresta seu talento à agremiação, de forma voluntária, sem receber salário, como gostar de frisar.

Essa relação profunda entre Neguinho e a agremiação não é só sinônimo de resistência e enaltecimento de identidade nas escolas corporativas de samba. A própria voz da Beija-Flor é a voz rouca de Neguinho, e vice-versa. O cantor e a instituição se confundem tamanha entrega e profundidade do vínculo, que dura mais de quarenta anos, um dos maiores da história da Avenida. E eternizada no samba-exaltação “Deusa da Passarela“, composto por ele. Por isso, pela simpatia, pelo talento e pelo carisma particulares, o intérprete é um dos mais queridos por público e crítica, possuindo diversos admiradores e prêmios, como cinco Estandartes de Ouros. 

Em 2009, Neguinho desfilou careca na Sapucaí após o tratamento de um câncer e casou em plena Avenida, local em que ele mais brilha. Para isso, convidou o ex-presidente e preso político Lula para ser padrinho da cerimônia. Ele e Dona Marisa, no entanto, não puderam comparecer à cerimônia.  Neguinho é ainda emblemático cantor e compositor além da Avenida, sendo o autor do clássico das arquibancadas “Domingo, Eu Vou Ao Maracanã“.

Jamelão



José Bispo Clementino dos Santos foi para muitos a maior voz que já surgiu até hoje no carnaval. Seu timbre potente e o grave tom com que ecoava cada palavra intimidava e era característica fundamental para a personalidade do cantor. Jamelão, como não poderia deixar de ser diferente, foi uma figura muito peculiar. Não só sua voz, mas seu profissionalismo, sua dedicação e seu amor genuínos e profundos à Estação Primeira de Mangueira, além do famoso mau-humor e a maneira como se colocava ao rejeitar o título de puxador e toda sua composição são marcantes e repletas de memória.

O cantor emprestou sua voz para a verde e rosa por incríveis 57 carnavais, recorde absoluto entre as escolas de samba. Sua última passagem pela Sapucaí foi no carnaval de 2006, prestes a completar 93 anos de vida, quando a agremiação exaltou as águas e os elementos que cercavam o rio São Francisco. É um dos recordistas de Estandarte de Ouro, com seis estatuetas. Em 2013, ano do centenário de Jamelão, a Unidos do Jacarezinho o homenageou com o enredo “Puxador, não. Intérprete!”, e relembrou a vida e os elementos do artista, como o a superstição do uso de vários elásticos em sua mão e sua carreira fora da Avenida, quando se entregou a gravação de sambas-canções, a ditas músicas de dor de cotovelo. O grito de “minha Mangueira” deve causar comoção e saudosismo para a torcida da escola durante muito mais tempo.


A lista lembrou alguns dos intérpretes mais marcantes a passar pela Sapucaí e Anhembi, mas sempre há outros nomes que merecem e devem ser lembrados por suas incríveis atuações e personalidades próprias. Desde os nomes que já não está mais em atividade, como Carlinhos de Pilares, Ney Viana, Gera ou Jackson Martins, até os nomes mais recentes como Wantuir, Wander Pires, Nêgo e Preto Joia. Todos deixaram seus vozeirões eternizados na Avenida. 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

#SérieSambas: 7 sambas antológicos do carnaval paulistano

Por Alisson Valério e Leonardo Antan

A #SérieSambas faz um passeio pelo universo do gênero que embala os desfiles das escolas, desdes os clássicos, passando pelos grandes intérpretes e compositores. Os textos saem sempre as segundas e quintas de outubro. Fique ligado!



Voltar no tempo e recordar grandes sambas que marcaram a história no samba paulistano é sempre um prazer, mas pode ser também uma nova oportunidade para conhecer e se apaixonar por canções que você talvez nunca tenha ouvido ou não saiba da existência, mas não ficam devendo em nada em poesia e beleza. O interesse pelo carnaval de São Paulo cresce a cada ano, mas pouco se conhece ainda sobre a história dos desfiles da Terra da Garoa, suas apresentações e sambas mais marcantes antes da virada do século XXI. 

Como a gente espera que todo mundo já tenha aprendido que São Paulo faz samba também, e muito bem, a gente separou uma lista de sambas clássicos e belíssimos da folia desde antes do Anhembi. Vamos passear por sambas de diferentes escolas, anos, enredos, estilos e muito mais. E aí, será que você conhece todos os sambas desse texto?  Se não conhece, venha em São Paulo para ver...

Colorado do Brás 1988 – Quilombo Catopés do Milho Verde

"Me abraça e faz as peles mais unidas 
Que beleza
Não criou raça, 
Deus apenas criou vidas"



"Quilombo espalhou suas raízes, e fez sua semente germinar, em ricas terras mineiras, do milho verde vem o canto pelo ar..." Se no Rio de Janeiro, o centenário da suposta "abolição da escravatura" rendeu obras também inesquecíveis, em São Paulo não foi diferente. Se por si só, enredos sobre a história do povo africano já apresentam uma força peculiar por toda a história vivida por eles, imagine num ano especial como esse. 

A trajetória de luta por liberdade e sofrimento pelo simples fato de ser diferente do que se julgava ser normal na época (e infelizmente até nos dias de hoje) é uma mancha na história desse país, mas se tem algo que esse samba conseguiu imprimir é a felicidade do povo negro em forma de letra e melodia. Porque sim, apesar de todo sofrimento vivido eles, nunca perderam essa essência de ser felizes, de cantar, dançar e de manter viva a esperança de dias melhores. A letra dessa obra composta por Dom Marcos, Edinho, Rona Gonzaguinha e Xixa passeia de maneira emocionante pelo movimento da diáspora, trazendo o cotidiano dos escravos na plantação e sua resistência através das manifestações culturais, fazendo por fim um clamor pelo fim do preconceito.


Rosas de Ouro 1992 - "Non Ducor Duco", qual é a minha cara?

"Meu sabiá, ô ô ô ô 
Soltou o trinar, cantou, cantou
Deu um show na passarela
Levantou a galera
Bateu asas e voou..."



"Bom é recordar, bom demais." Assim se inicia um dos sambas mais especiais e tradicionais da Sociedade Rosas de Ouro em sua história no carnaval paulistano. O enredo em homenagem a São Paulo, especialidade da casa nessa época, embalou um dos principais e mais lembrados títulos da agremiação. O samba tem toda uma cadência especial ao falar da capital, contando o enredo em forma de uma declaração de amor ao seu lugar, relembrando a nostalgia de coisas que se perderam no processo de evolução da cidade, de pequeno vilarejo a uma das maiores cidades do país.

A letre, composta por João do Violão e Miltinho, passeia ainda pelos principais logadouros do lugar, tendo tom crítico ao já avisar da poluição que atingia a metrópole, tanto no verso "o ar, cadê meu ar?" e idealizando um futuro melhor para o famoso rio da cidade: "Tietê, quero um dia beber você". Toda a bela poesia foi entoada por uma performance marcante de Royce do Cavaco, o sabiá da Roseira. O sabiá deu um show na passarela, levantou a galera, bateu asas e voou para um lugar especial na memória do sambista....    

Gaviões da Fiel 1995 - Coisa boa é para sempre

"Me dê a mão, me abraça
Viaja comigo pro céu 
Sou gavião, levanto a taça
Com muito orgulho pra delírio da Fiel"


Você achou que São Paulo não tinha o seu "Ita"? No melhor estilo de animação e empolgação do lendário hino salgueirense, lhes apresentamos um dos maiores sucessos do carnaval de São Paulo.  É um daqueles sambas que caíram no gosto popular de cara, se tornando famoso antes mesmo do carnaval, sendo cantado pela arquibancada antes, durante e depois do desfile - e até os dias de hoje nos estádios de futebol. 

A letra, composta por Grego, além de leve, divertida e festiva, te leva a relembrar e viajar pelo universo infantil, dos tempos de criança, não deixando de lembrar os antigos carnavais e a celebrar a Gaviões da Fiel que celebraria 25 anos no carnaval daquele ano. A canção fez tanto sucesso que rompeu as barreiras do Anhembi e foi regravada pelo mestre Jamelão, num belo gesto de valorização do carnaval paulistano por um dos maiores intérpretes do país. E como diz o mesmo: o que é bom pra sempre fica guardado na memória....  

Leandro de Itaquera 1989 – Babalotim: a História dos Afoxés

"Ô, ô,ô... Eu vim de longe, cruzei mares, quem diria
Ô, ô, ô... Sou afoxé irradiando energia"



Este é aquele samba clássico da história do samba paulistano, se você ainda não conhece essa obra-prima, agora é uma ótima oportunidade. Um samba-enredo irresistível de ponta a ponta, com refrães deliciosos e que te convidam a cantar e sambar. A letra é de beleza e poesia ímpares, o que engrandece ainda mais a obra. Brilhantemente interpretado por Eliana de Lima, o hino fez muito sucesso antes mesmo do desfile e na hora da apresentação oficial mobilizou as massas presentes, comandado não só pelos vocais marcantes da lendária interprete paulistana, mas pelo público presente na Avenida. 

A obra composta por Thiago Lee, Grupo Relíquia, Sandrinha e Clarice é mais uma a contar a história da diáspora africana da maneira mais valente e poética possíveis, sendo coroada por um dos refrões mais inesquecíveis da folia paulistana, o que fez toda diferente a ajudar em eternizar essa canção. O marco de Babalotim foi tão forte na história da Leandro de Itaquera e do carnaval paulistano que foi recentemente reeditado pela agremiação. Axé, Babalotim!


Vai-Vai 1998 – Banzai Vai-Vai

"Me beija na boca, amor 
Me faz um chamego eu quero sentir
Balançando a massa, é Vai-Vai que passa 
Sacudindo o Anhembi"



Achou que ia faltar a escola mais tradicional e conhecida do carnaval de São Paulo? Achou errado! E pra isso, apresentamos mais um grande sucesso popular e que literalmente "sacudiu o Anhembi". É bem verdade que o Vai-Vai, como a escola popular e vitoriosa que é, coleciona uma discografia das mais revelantes e marcantes do carnaval brasileiro como um todo. Mas essa composição de 1998 tem sua força especial por vários motivos. É aquele samba com a essência do componente do Bixiga, com aquele jeito Vai-Vai de ser. 

A letra composta por Zeca, Zé Carlinhos e Afonsinho é um xodó da agremiação da Bela Vista, sendo o samba entoado em todos os ensaios e em todas as apresentações nas quadras das coirmãs. E como todo samba antológico que se preze, teve um intérprete que emprestou a força necessária aos versos da obra para eternizá-los, e nesse caso foi o inesquecível Thobias da Vai-Vai. A obra relatou com perfeição o enredo que levou o Criolé, mascote da escola, numa viagem pelo Japão, desenvolvido pelo carnavalesco Chico Spinoza, que fez história na alvinegra. 


Cabeções da Vila Prudente 1981 - Do Iorubá ao reino de Oyó

"Xangô Ô Ô Ô Ô
Valei-me meu pai, valei-me Xangô"


Esse talvez seja o samba menos comentado da lista, de uma escola menos conhecida ainda, mas não por isso menos belo e marcantes ao ouvir a primeira vez. A Cabeções de Vila Prudente teve uma trajetória curta e com apenas duas passagens no Grupo Especial até agora, mas em 1981 deixou sua marca no samba paulistano, mesmo amargando um décimo lugar no grupo principal daquele ano. A escola que recentemente voltou à ativa após enrolar a bandeira nos brindou com esse hino da folia nacional e que se tornou um clássico.

Sambas de enredo sobre orixás são sempre especiais pela sua força ancestral, e com esse não poderia ser diferente ao contar a história de Xangô, o rei africano que se tornou divindade nas religiões afro-brasileiras. Apesar de curta para os padrões atuais, a letra composta por Dom Marcos não deixa faltar beleza e força em seus versos, cumprindo muito bem sua função de emocionar e inspirar. Valei-me meu pai, kaô!  


Camisa Verde e Branco 1982 - "Negros maravilhosos, Mutuo Mundo Kitoko"

"Ôô, ôô, a nossa escola
Enaltece a negra gente
Que nunca ficou chorando 
Sempre viveu cantando, fingindo contente"




"Achei uma bola de ferro, presa a ela uma corrente, tinha um osso de canela, deu tristeza em minha mente..." O que esperar de um samba que já começa dessa forma? É uma baita de uma pedrada na alma. Ao contar a dor da diáspora, o samba-enredo da Camisa Verde e Branco de 1982 evoca belas imagens da dor e sofrimento do trânsito entre África e Brasil. Chegando até os dias de hoje, o samba faz um verdadeiro clamor por igualdade racial, além de uma justa exaltação ao povo negro. 

A obra composta por Ataíde tem um refrão principal duplo, que dá um toque muito singular ao samba, sem falar que ele em sua totalidade é bastante valente em forma de letra e melodia. Exaltando a importância da negra raça também na contemporaneidade, a marcante canção deixa uma pergunta que até hoje ecoa na nossa sociedade: "Não nos leve a mal / Por que só no triduo de Momo/ Que o negro é genial?." Afinal, "negro paga imposto, negro vai a guerra, negro ajudou a construir a nossa terra..."

1970 - Desfile de carnaval no Vale do Anhangabaú.

Relembrar sambas antológicos do Carnaval é sempre um passaporte para uma viagem no tempo, seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Listá-los é sempre tarefa árdua e que presume uma seleção, que com certeza não agradará a todos. Entretanto, são diversos os sambas que poderiam também estar presentes nessa lista, obras como: Gaviões da Fiel 1994, Mocidade Alegre 1980, Vai-Vai 1982, Nenê de Vila Matilde 2002 e muitos outros. 

Seja exaltando a beleza e a importância do povo negro, seja passeando pelos velhos tempos e por continentes distantes, o samba paulistano tem sua riqueza e importância na cultura nacional. Afinal, seu carnaval é também patrimônio da nossa gente. Esperamos que tenham curtido os sambas, que tenham descoberto novos hinos favoritos e que se aventurem a pesquisar e conhecer mais sobre a história do Carnaval de São Paulo. Até a próxima!   

domingo, 14 de outubro de 2018

"Enquanto há a possibilidade de democracia e fascismo, a Mangueira fez sua escolha" por Felipe Tinoco

A Estação Primeira de Mangueira é tão grande que nem cabe explicação. O portelense Paulinho da Viola sintetizou bem a dimensão que a instituição cultural verde e rosa tem para si, diante de sua relevância para o carnaval e para o Rio de Janeiro. Cabe abrir, porém, exceções e tentar compreender e explicar as envergaduras da escola e da escolha de seu hino para o carnaval de 2019, definido sob quadra lotada na madrugada do último domingo, já dia 14 de outubro.

(Crédito: arte do logo oficial da escola adaptado para a capa desta matéria)


“História para ninar gente grande” é o tema autoral do carnavalesco Leandro Vieira para o desfile do ano que vem, propondo-se a exaltar outra faceta do país senão aquelas contadas nos livros de educação convencional, senão uma história que é majoritariamente branca, europeia, caucasiana, masculina, machista e normativa. Assim, uma história que demonstra a possibilidade de se conhecer Dandara e Luísa Mahin, mulheres negras fundamentais à luta abolicionista e contra a escravidão. História que revela os Malês, escravos negros de ascendência islâmica que proporcionaram uma revolta decisiva para o Brasil. Que exalta os índios Tamoios. Uma parte do país que enaltece os Cablocos de julho, símbolos da guerra tramada pela independência do país à nação lusitana, e os que resistiram aos anos de ferro como chumbos de tão fortes. E Marielle Franco, a personificação da luta pelos Direitos Humanos e por uma sociedade igualitária e emancipatória, vereadora negra, da favela, executada em 14 de março, com uma investigação que até hoje não achou quem mandou matá-la, nem quem matou Anderson e a vereadora.

Luiz Antônio Simas é historiador e escritor sobre o país, o Rio, o cotidiano, o samba, as macumbas e a folia - e tudo isso junto. Por isso, compartilha da visão e do discurso do Brasil que a Mangueira se dispõe a conceber e realizar. Para ele, a escolha da agremiação foi acertada:

“A vitória desse samba é uma prova que escola de samba é uma instituição que, ao mesmo tempo que negocia, resiste. Foi um samba que fugiu ao controle da própria Mangueira porque ele ultrapassou o limite da escola, ganhou as redes sociais, ganhou os fãs de samba-enredo e os fãs de MPB”, comenta.

Simas explana a ideia de que a excelência da obra não passa apenas por sua perspectiva social e política, mas também por sua riqueza como samba de enredo, denominando-o como brilhante. Lembra, também, das questões da torcida:

“Foi uma torcida espontânea. Nesse sentido, ele era um samba tão melhor que acabou se impondo à própria lógica das disputas. Tomara que ele seja uma referência. Nós temos hoje um grande samba, e esse samba é o pulo de virada para o carnaval 2019”, observa.

Perguntado sobre sua influência na temática da escola, Simas comenta que é amigo do Leandro e que dialogam, mas que o enredo e a perspectiva são do carnavalesco, descrito por Simas como um “intelectual do Rio de Janeiro e do Brasil da maior relevância”.

Leandro, à frente da Mangueira nos três últimos carnavais, é o responsável pela criação da sinopse e de toda estética da agremiação. Para o carnavalesco, o enredo tem muito a dizer, também, sobre a conjuntura do país:

“Se houver Brasil depois das eleições do segundo turno, o enredo da Mangueira é um enredo que dialoga com esse cenário. Ele seria o contrário do que chega ao poder”. E acrescenta: “Um país que não conhece sua história, ou ele repetirá a história ou ele não encontrará representatividade nunca na história que é contada. O enredo da Mangueira é um enredo de representatividade, um enredo que quer eleger pessoas, que quer eleger heróis populares, quer dar representatividade a alguma lutas, principalmente a lutas individuais”.

Leandro também exalta que o tom de tristeza não está presente no seu enredo, embora boa parte dos heróis homenageados tenham sido assassinados:

“É um olhar apaixonado para isso, é um protesto com alegria, não é um protesto triste”, diz. O artista conclui falando que o enredo “quer mostrar que a luta vale a pena, quer mostrar um Brasil que vale a pena, um Brasil que se orgulhe do Brasil. E um Brasil que possa lutar, um Brasil que possa resistir. A importância do enredo da Mangueira para esse cenário é mostrar que lutou, independente se a luta tenha dado certo ou não. Mas que houve alguém que tenha lutado”.

Enquanto o discurso de Luiz Antônio Simas é comprometido em exaltar outra faceta do país e enquanto Leandro Vieira criou “História para ninar gente grande”, Deivid Domênico é um dos autores da obra que tanto chamou atenção à verde e rosa. O compositor também observa a importância do posicionamento da Mangueira no olhar histórico:

“Em 1988, a Mangueira já falava sobre a realidade ou a ilusão sobre a escravidão. O Leandro propôs um enredo muito pertinente pro momento do país, que vive um momento muito odioso. E a gente sabia que a gente precisava ter muito cuidado para fazer esse samba porque a gente precisava falar de coisas sérias, de verdades que não foram ditas. Alertar que a História se repete, e que se a gente não tomar cuidado ela se repetirá, mas de uma maneira delicada, fraterna”, revela.

Além disso, acerca da necessidade de disseminar consciência de classes entre a sociedade, Domênico diz que “o samba, como instituição, é resistência, e precisa alertar isso; é a função dos artistas, é a função dos sambistas, é a função do carnavalesco Leandro Vieira, que é, pra mim, o maior inspirador disso tudo que está acontecendo”.

Mais do que a narrativa adotada nos discursos de Simas, mais do que a criação do enredo e do samba por Leandro e Domênico, o maior recado da noite de ontem está na escolha do samba pela Mangueira. Movida por apoio de formiga, de torcedor a torcedor, pelo reconhecimento de identidade por parte dos corpos que estavam ali presentes e dos avatares que disseminaram a mensagem e a qualidade do samba pelas redes sociais - em tempos que avatares propagam fakenews, correntes e boatos para tentar favorecer candidatos e mudar os rumos das eleições. Os corpos e os avatares fizeram a Mangueira escolher o samba que cita nominalmente as figuras que serão exaltadas, o samba de uma parceria não-hegemônica, o samba que pode ser fortemente adaptado à situação em que se colocam o país e o estado do Rio de Janeiro. O povo de lá clama, assim, que os corpos e os avatares escolham o ziringuidum da democracia no segundo turno. Sabem o retrato que quer ver no Brasil e nas urnas. 

E a agremiação faz ecoar, também, Marielle. Presente. Eternizada na história verde e rosa e na história da verde e rosa, no enredo da Mangueira. Hoje e sempre.

Ouça a gravação da parceria vencedora:

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

#SérieSambas: Perderam, mas levaram: sambas marcantes que não venceram as disputas

Por Alisson Valério, Beatriz Freire e Leonardo Antan

A #SérieSambas faz um passeio pelo universo do gênero que embala os desfiles das escolas, desdes os clássicos, passando pelos grandes intérpretes e compositores. Os textos saem sempre as segundas e quintas de outubro. Fique ligado!




Outubro é a época final das esperadas disputas de samba do grupo especial, tempo em que a maioria dos hinos que desfilarão na Sapucaí estão escolhidos e prontos para a gravação do CD. Como bons apaixonados e foliões que contam os dias para a folia, durante o processo é praticamente impossível não ser identificar com aquela ou outra parceria concorrente que laça nossos corações e nem sempre ganham, deixando um gostinho de quero mais. Afinal, não existe em outro lugar do mundo, um festival de música que acontece todo ano e produz milhares de obras em disputa para várias deles serem esquecidos logo depois... Já parou pra pensar?

A sorte é que algumas dessas obras acabam encantando os foliões e permanecendo no imaginário momesco. Quem disse que amor de carnaval acaba se engana, pois o Carnavalize selecionou alguns queridinhos de diversas disputas do Rio e também de São Paulo que perderam a taça mas ganharam um espacinho em nossas vidas. Destacamos que respeitamos ao máximo todas as parcerias que saíram vitoriosas dos anos citados e saudamos os compositores. A intenção é exaltar a nossa variedade e relembrar compositores que escreveram bem seus nomes nas histórias de suas próprias escolas, afinal, todos já são vitoriosos. 


 Vila Isabel 1974 (Martinho da Vila)

"E o índio cantou
O seu canto de guerra
Não se escravizou
Mas está sumido da face da terra"



Conhecida pelo seu natural engajamento à esquerda, a Vila Isabel de Martinho da Vila sempre deu um jeito de mostrar sua melhor face subversiva durante a ditadura civil militar brasileira. O samba em questão, do próprio Martinho, ficou marcado não só pela qualidade, mas pela sabotagem que sofreu durante o processo de escolha da disputa, já que foi cortado por pressão de censores. Por eles, também, a linhagem do enredo sofreu alteração e teve que exaltar os feitos do regime. Anos depois, Martinho contou a história em seu livro e o cantou em diversas entrevistas televisionadas, inclusive ao apresentador Jô Soares, resgatando assim a obra, com versos fortes e de fato engajados para o auge do limite militar. 


Império Serrano 1975 (Acyr Pimentel e Cardoso)

"Um trem de luxo parte
Para exaltar a sua arte
Que encantou Madureira
Mesmo com o palco apagado
Apoteose é o infinito"



Outro samba que se eternizaria fora das avenidas viria de Madureira. O Império Serrano teve uma escolha de samba histórica para escolher a obra que representaria o enredo sobre a vedete Zaquia Jorge, desenvolvido por Fernando Pinto. Entre perdedor e vencedor da disputa, o samba não escolhido se tornaria histórico por ser mais conhecido do grande público que o vencedor. Se a obra vencedora não se tornou um clássico do repertório imperiano e não sobrevivei muito além dos dias de folia, a canção de Acyr Pimentel e Cardoso se tornaria um clássico do samba. Se o samba levado par a Avenida, composto por Avarese, era marcado pela alegria e o ritmo acelerado, a parceria de Acyr Pimentel e Cardoso tinha outras características. Batizado de "Estrela de Madureira", a canção ganhou o país ao ser gravado por Roberto Ribeiro. E depois regravado por Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, entre outros. Sendo de vez imortalizado no imaginário popular.

 Imperatriz 2000 (Parceria de Eduardo Medrado)

"O povo e a Imperatriz / Ao som de cavaco e pandeiro / 
Ah! Todo mês de fevereiro / Descobrindo um Brasil mais brasileiro”



Na expectativa da virada para o ano 2000, as escolas de samba definiram como temática comum os 500 anos do descobrimento – ou conquista – do Brasil. A Rainha de Ramos, famosa pelos enredos de linha história que desenvolveu com a professora Rosa Magalhães intitulou seu carnaval de “Quem descobriu o Brasil foi Seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval”. A condução do enredo partiu da ordem do Rei de Portugal à época, Dom Manoel, aos expedicionários responsáveis pela busca de um caminho alternativo que conduzisse à rota das especiarias, tendo como destino final a Índia, mas que conduziu à terra brasilis. 

A disputa de samba foi animada, e todo o processo de desenvolvimento do carnaval ganhou registro no documentário “A Imperatriz do Samba”, que acompanhou justamente o processo de composição da parceria de Eduardo Medrado, campeã do inesquecível samba de 1995. A obra do grupo cantava de forma didática, além de bela, os passos dos lusitanos para o desembarque em Porto Seguro. A expectativa da final causou fervor e arrastou uma torcida animada, mas o resultado final consagrou o samba de Marquinhos Lessa e seus companheiros como campeão, que viria a somar no título que a escola conquistaria no carnaval daquele próximo ano. Conhecido até hoje pelos foliões mais antigos da festa, o samba da parceria de Eduardo Medrado é uma verdadeira aula de história, letra e melodia. 


Salgueiro 2009 (Parceria de Simas e Mussa)

"Menina, quem foi teu mestre?
Um batuqueiro que arrastava o povo do Salgueiro"



O tambor é conhecido desde os primórdios da humanidade. De troncos ocos aos couros dos animais, o Salgueiro contou a história deste indispensável instrumento para o samba e, por que não?, para a construção cultural e civilizatória de muitas sociedades em seus ritos e festejos. A super parceria de Simas, Edgar Filho, Beto Mussa, Bené do Salgueiro e Gari Sorriso alavancou uma multidão de salgueirenses para cantar em versos um pouco da tradução do que o próprio Luiz Antonio intitula de “gramática dos tambores”, que estabelece diálogos, provoca respostas de corpos e expressa sentimentos. Se por um lado o campeão propôs facilidade e animação de fácil letra, a composição da referida parceria era uma espécie de sofisticação popular, muito lúdico e belissimamente abrilhantado pela interpretação do inesquecível Rixxah. Basta puxar “menina, quem foi teu mestre?” e rapidamente alguém completará a letra se ao universo dos bambas pertencer. 


Salgueiro 2016 (Parceira de Antônio Gonzaga)

"Doi, doi, doi, doi, doi
Um amor faz sofrer
Dois amor faz chorar”



As disputas no Salgueiro não deixam faltar emoção, ainda mais quando o bom enredo inspira os compositores. Em 2016, a escola desenvolveu “A Ópera dos Malandros”, mais uma das propostas do departamento cultural da escola que homenageou o Rei da Ginga e toda a sua relação com a vida, com as ruas e, claro, com o samba. O enredo imprimiu-se de forma muito identificada com a escola e, atendendo à máxima de que até parado o Salgueiro é favorita, a agremiação foi uma das mais comentadas durante todo o pré-carnaval. Reflexo esse de uma disputa que rendeu ótima safra e boa aderência da comunidade, como aconteceu com a obra da turma de Xande de Pilares. Foi um rapaz jovem, que chegou de mansinho na ala pouco tempo antes, mas muito apaixonado pelo Salgueiro, que mostrou-se grande e surpreendeu positivamente. A parceria de Antônio Gonzaga trazia o famoso ponto da pomba-gira e o samba de letra muito fácil e pra cima tomou conta do público e virou pedida certa nas rodas de samba, chegando a final com grande favoritismo, mas acabou sendo derrotado pela parceria liderada por Marcelo Motta, que eternizou a expressão "malando batuqueiro".


Tom Maior 2018  (Parceira de Elymar Santos)

"Brilha a minha coroa na Tom Maior 
Dois pavilhões num só
Em verso e prosa eis minha vida
Carolina Josefa Leopoldina" 



Quando a Tom Maior anunciou o seu enredo sobre as duas Imperatrizes do Brasil gerou-se uma expectativa perante a sua safra de sambas e também sobre quem iria colocar samba na disputa. Quando surgiu a parceria de Elymar Santos (compositor campeão e torcedor da Imperatriz) com Samir Trindade (multi-campeão na Beija-Flor e na Portela), o interesse foi instantâneo e não tinha como ser diferente. O samba foi interpretado por Preto Joia, interprete que tem a sua história no carnaval marcada pela sua passagem pela Imperatriz Leopoldinense, formando uma combinação imbatível e emocionante. A obra contou com uma letra muito inspirada e bastante poética, retratando a história da Leopoldina com louvor e a mesclando com uma bela homenagem a Imperatriz Leopoldinense. A melodia apresentou uma levada deliciosa e que nos levava para os desfiles dos anos 2000 e 1990, e talvez tenha sido a sua falta de adequação a um padrão incomum do carnaval paulistano que o fez não vencer a disputa, infelizmente, mas como a letra do samba diz que “eu sei que o tempo passou, mas a história ficou”, assim como essa grande obra.    


Porto da Pedra 2019 (Parceria de Altay Velloso e PC Feital)

“Meu Porto da Pedra
O luar que beija esse chão
Ilumina o ceba de cá
Vem ver, meu irmão
Antonio Pitanga chorar
De tanta emoção
A São Gonçalo toda a minha gratidão



Esse samba mal perdeu e já deixou saudades. Queridinha de São Gonçalo, há alguns carnavais a Porto da Pedra vinha trazendo enredos nostálgicos e populares ao grande público. Mudando a pegada, em 2019 a escola fará uma grande homenagem em vida ao ator Antônio Pitanga na Sapucaí. “Um negro em movimento”, nome do enredo, proporcionou uma disputa quente na escola do tigre e a parceria badalada de Altay Velloso e PC Feital encantou a todos pela beleza do samba, como a dupla já vinha fazendo há algum tempo na Mocidade Independente de Padre Miguel e também na Unidos do Viradouro, em 2016. Impulsionado pelo “disse-me-disse” dos grupos de carnaval e das redes sociais, o samba ganhou destaque rapidamente e também a torcida dos internautas, mas não foi suficiente para barrar a força dos componentes da agremiação, que abraçaram o samba campeão, da parceria de Bira. E como às vezes variar é preciso, curtiremos muito o hino oficial da Porto mas não esqueceremos tão cedo desta obra que vai deixar aquela saudade, né? Saravá pra tanto amor! 



Entre centenas de obras produzidas anualmente pelos compositores das nossas escolas de samba, vale relembrar algumas canções que se eternizaram para além das disputas. Não que as obras selecionadas não tenham sido justas, a proposta da lista não é questionar o resultado das disputadas citadas, nem desvalorizar os sambas vencedores, mas apenas relembrar grandes sambas que merecem serem ouvidos de novo e permanecer no universo carnavalesco. 


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

#SérieSambas: As transformações do samba-enredo nessa década


A #SérieSambas vai trazer todo o universo do gênero que comanda a nossa festa, desde os grandes clássicos, passando por seus compositores e intérpretes. Sempre às segundas e quintas-feiras de outubro. Fiquem ligados!



Apesar dos discursos pessimistas e com tom nostálgico, o samba-enredo segue se renovando e se mantendo vivo através de décadas. Dizem que "o samba agoniza mas não morre", porém, desde que as escolas de samba surgiram, elas negociam e brincam com os conceitos de tradição e modernidade. É verdade que desde sempre o espírito "na minha época era melhor" assombrou as escolas e, nos dias atuais, as vozes se potencializam e esse discurso se intensificou. No entanto, apesar das agremiações atravessarem uma crise que dialoga com o momento social e político do país e, principalmente, da cidade do Rio de Janeiro, os sambas-enredos vivem uma fase de renovação, transformação e intensa discussão, desde o início dessa década. 

No meio de tantas tensões e contingências, o samba resiste e se mantém vivo entre as polêmicas discussões sobre o assunto; o encarecimento das disputas, as problemáticas políticas que são envolvidas nas escolhas dos sambas, a encomenda de obras, os escritórios.... Todas essas questões agitam as falas sobre samba-enredo e fazem relevantes todos os debates sobre as obras musicais de nossas escolas. 

Imersos nesse contexto, é possível perceber que a estrutura de melodia e letra que esteve estagnada por mais de vinte anos começou a dar alguns respiros nos últimos carnavais, com obras que testam novos formatos e métricas para os desenhos dos sambas. Passeando pelas composições mais relevantes da última década, a gente propôs uma análise das transformações musicais recentes do nosso gênero musical favorito! Vem com a gente! 

Madureira sobre o Pelô e a Vila faz sua festa no arraiá


Se a década começou com um desfile marcante nos quesitos estéticos, o mesmo não se pode dizer dos sambas de então. Nas safras dos dois primeiros anos da década presente, poucas obras se destacaram por trazer algum tipo de inovação em meio ao formato tradicional. Vale destacar, entretanto, nesses dois anos, as composições da Imperatriz Leopoldinense, que chamaram atenção pela melodia forte e letra cheia de boas passagens. Com os enredos "O Brasil de todos os deuses" e "A Imperatriz Adverte: sambar faz bem a saúde", ambos assinados pelo carnavalesco Max Lopes, a verde e branco foi bicampeã do Estandarte de Ouro do quesito com as obras compostas pela parceria encabeçada por Gil Branco, Guga, Jeferson Lima e Me Leva, entre outros nomes que oscilaram nos dois anos.



Foi depois, entretanto, que marcos definitivos podem ser estabelecidos no deflagrar de todas as transformações e novidades dessa década. A obra símbolo de todo esse processo veio da Portela, em 2012, com a escolha de um samba-enredo histórico e que se destacou desde seu surgimento na disputa da escola por suas características até então pouco valorizadas. A força da composição de Luiz Carlos Máximo, Naldo, Toninho Nascimento e Wanderley Monteiro levantou a competição na quadra da Rua Clara Nunes, ganhando repercussão na internet e nos comentários da mídia especializada. 



A letra construiu belas imagens ao contar o enredo sobre as festas e religiões associadas ao estado da Bahia, enquanto a cadência lembrava sambas-enredos antigos, fora da aceleração reinante, que dominava, à época, o andamento dos desfiles. A letra era coroada ainda pelo marcante refrão que fazia Madureira subir o Pelô e rolar o toque de Olodum, tornando-se um clássico instantâneo. A obra também trouxe uma inovação na estrutura, saindo da fórmula de dois refrões e duas partes de versos agrupados. Ela acrescentou uma nova sequência a ser repetida e dividiu os versos em um novo conjunto. Mesmo com um desfile com equívocos visuais, em um período de forte crise institucional, a Portela chegou à sexta posição daquele carnaval, motivada por seu grande samba, exaltando a importância de uma obra musical em meio à imposição do visual.

No mesmo ano, uma semente transformadora também nasceu em Vila Isabel. A parceria formada por André Diniz, Arlindo Cruz, Artur das Ferragens, Evandro Bocão e Leonel se sagrou campeã na agremiação e também inovou ao introduzir uma espécie de "contra canto" em sua estrutura. No fim da segunda passagem, um jogo de palavras trouxe sentenças que deveriam ser completadas em um jogo de resposta entre os componentes em cortejo, com uma criativa solução. A força da obra que falou da ligação entre o Brasil e Angola se aliou ao trabalho plástico da mestra Rosa Magalhães e consolidou um desfile memorável. 



No ano seguinte, na mesma azul e branca de Noel, o samba-enredo voltou a ser protagonista como não se via há muito tempo. Arlindo Cruz seguiu na liderança da parceria, que se sagraria campeã novamente, com destaque para a chegada ao grupo de Martinho da Vila, um dos mais importantes compositores do país. Para cantar a narrativa sobre a agricultura e o homem do campo, a composição se utilizou de imagens poéticas e singelas como pedia o tema. Com um refrão em duas versões, em que a palavra "plantar" e "colher" eram revezadas, a música fez sucesso entre os sambistas e repercutiu fortemente no pré-carnaval. No desfile, a expectativa se cumpriu e a grande obra musical foi o guia máximo a conduzir a escola para o terceiro título de sua história.

Nas bandas de Oswaldo Cruz e Madureira, após o sucesso da composição sobre a Bahia, a parceria de Toninho Nascimento, Luiz Carlos Máximo e Wanderley Monteiro obteve algumas modificações em seu corpo, mas seguiria campeã na Águia por mais dois anos, reforçando um novo estilo de fazer samba, com melodia, candência particular e a marcante estrutura de três refrões que possibilitava uma ginga aos ouvintes. Em 2013, o enredo sobre a história do bairro de Madureira teve um valente refrão com o verso "abre a roda, chegou Madureira". Em 2014, na narrativa sobre a história da Avenida Rio Branco e seu entorno, a escola, guiada por outra diretoria, brilhou com o inesquecível "vou de mar a mar". 

E a coisa reverberou


Ainda em 2014, o Salgueiro se destacou nas rodas de discussão pela obra composta por Betinho de Pilares, Dudu Botelho, Jassa, Miudinho, Rodrigo Raposo e Xande de Pilares, na primeira vez que o cantor do Grupo Revelação foi campeão na disputa da agremiação, quando passou a integrar o carro de som da Academia. O samba conduziu uma boa apresentação e seria vencedor do Estandarte de Ouro daquele ano, mas o desfile foi derrotado na apuração pela apresentação controversa da Unidos da Tijuca em homenagem a Ayrton Senna, embalado por um problemático e pouco inspirado samba-enredo. 



Já no grupo de acesso, recém transformado em Série A pela junção dos dois antigos contingentes que desfilavam na Sapucaí, iniciou-se uma alternativa ao criticado e problemático modelo atual de disputa de sambas. Com dificuldade em sua quadra, a Renascer de Jacarepaguá resolveu encomendar sua obra musical e não promover disputa. Sem as amarras que normalmente limitam os compositores nas disputas de samba, os renomados Cláudio Russo e Moacyr Luz foram convidados a compor a obra em homenagem ao cartunista Lan, que fugiu dos moldes comerciais e poucos criativos. Desde então, a agremiação alvirrubra segue não realizando disputas, em medida que gerou uma série de discussões e foi replicada em diversas escolas. 

Já são seis obras encomendadas que sempre tiveram Russo e Moacyr como autores, com poucas variações. Entre 2015 e 2016, a cantora Teresa Cristina participou das criações, nos enredos sobre Candeia e São Cosme e Damião. Já em 2017, o intérprete Diego Nicolau entrou no grupo e vem assinando. Na história do carnaval recente, é rara e notável a sequência de bons sambas que a Renascer apresentou com essa medida. Apesar de variarem ligeiramente em espécie de "régua de qualidade", todas as obras assinadas desde então são excelentes. Destaca-se o samba de 2017, que rendeu belos e duros versos sobre a negritude, inspirado no enredo "O Papel e o Mar", ao propor um encontro ficcional entre a escritora Maria Carolina de Jesus e o marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata.



Retornando a discussão à elite carnavalesca, veio da Leopoldina, de uma agremiação com uma discografia invejável, o protagonismo dos aspectos musicais entre 2015 e 2016. Com disputas de samba de alto nível e diversas obras de qualidade à disposição, a Imperatriz coroou a importância do maior compositor de sua história nestes dois anos. A parceria liderada por Zé Katimba compôs lindas pérolas do gênero, que se destacaram pela inovação melódica e na construção da letra, tanto ao contar o continente africano quanto ao homenagear a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano. No aspecto estrutural, a composição sobre o enredo "Axé Nkenda" surpreendeu ao trazer apenas um refrão a ser repetido, e o resto da letra foi dividido em três partes, com destaque ao bloco do meio, de melodia marcante e cíclica, ainda que a letra não se repetisse. Bem interpretada pelo cantor Negô, a música foi a vencedora da categoria no Estandarte de Ouro. 



Voltando à Majestade do Samba, a parceria que emplacou três sambas seguidos na azul branco acabou se desfazendo e, em uma disputada final para a escolha da obra a ser defendida no carnaval de 2015, quem se saiu campeão foi o grupo liderado pelo baluarte Noca da Portela. A escolha deu sequência à personalidade dos sambas anteriores de Toninho, Máximo e Wanderley, demonstrando a importância daquele formato concebido para o carnaval de 2012. Também em 2015 e também sobre compositores importantes para a história de uma escola, a Beija-Flor foi campeã do carnaval com uma bela obra afro que exaltou a Guiné Equatorial. Samir Trindade encabeçou a parceria, e após grandes sambas compostos para a escola nilopolitana, transferiu-se para Portela no ano seguinte, quando seria campeão após mais uma acirrada disputa na Águia de Oswaldo Cruz e Madureira.



O ano de 2015 também é lembrado por uma medida inédita que apontou os novos processos e tensões acerca dos sambas de enredo, e pela volta da Viradouro ao Grupo Especial. Presidida pelo compositor Gustavo Clarão, a vermelho e branco optou por não realizar disputa de samba, mas fazer uma junção de duas obras do repertório de Luiz Carlos da Vila, compositor fundamental para a história do samba, um dos autores de "Kizomba, Festa da Raça". Apesar de não terem nascido como sambas de enredo propriamente, as duas obras tinham cadência e aspectos estilísticos próximos ao gênero dos sambas das escolas, além de serem bem resolvidas musicalmente em sua adaptação a ser cantada. Apesar de levantar debates e gerar um samba elogiado, a medida passou de maneira discreta na discussão pós-desfile, talvez motivada por uma apresentação pouco emocionante da alvirrubra, afetada por uma forte chuva. 

O ano do renascimento


Após esta série de composições que mapeamos, o ano de 2016 foi uma espécie de ápice das transformações das obras musicais das agremiações, sintetizando uma leve revalorização do aspecto musical em tempos espetaculares. Tudo começou com uma boa sequência de enredos das escolas, que gerou uma das melhores safras de sambas do século XXI. No Grupo Especial, das doze agremiações, significativa parte escolheu boas obras para a Avenida. Com uma grande variação de estilo e características, não se viu uma safra tão homogênea como de costume, mas plural no aspecto musical e dialogando com a personalidade das escolas. 

E tudo começou no pré-carnaval, com disputas de sambas acirradas e polêmicas, repletas de repercussão nas redes sociais. A do Salgueiro foi uma dessas, que se dividiu entre as parcerias do jovem Antônio Gonzaga e do consagrado Marcelo Motta. Entre o "dói, dó, dói” e o "malandro batuqueiro", a comunidade da escola da Tijuca escolheu a obra com uma estrutura menos ousada, mas com a força de um refrão inesquecível e uma letra que versava com a tradição de versos leves e marcantes da Academia. No pré-carnaval, o samba explodiu e chegou com força no ensaio técnico da vermelho e branco, o que se consolidou no desfile, apesar do desempenho abaixo do esperado nos quesitos plásticos. 



Outras disputadas escolhas de samba aconteceram, novamente, em Ramos e Madureira. Como já apresentado, Zé Katimba se firmava como um dos grandes compositores do carnaval ao transformar o controverso enredo sobre uma dupla de sertanejo em um samba-enredo de melodia marcante e bela letra. Na Portela, a chegada imponente de Samir Trindade, após uma atuação vitoriosa em Nilópolis, arrebatou a disputa ao mexer com a vaidade portelense por meio de um refrão que fazia todos bater no peito e dizer "eu sou a Águia". Com um desfile inflamado, a harmonia treinada da escola ajudou a obra a ganhar o Estandarte de Ouro daquele ano. 



Fora da tradição de grandes competições de sambas, a Unidos da Tijuca foi uma surpresa naquele ano após uma sequência de obras musicais pouco inspiradas. Diante de grandes parcerias que brigaram entre si, saiu campeão o grupo de autores liderados por Dudu Nobre, com uma letra poética ao falar da agricultura e da relação do homem com a terra. 

Mas, na pista de 2016, foram duas outras canções protagonistas na sedução de público e arquibancada. Primeiro, a Vila Isabel voltou a trazer uma obra de qualidade, após dois anos mais discutíveis no aspecto musical. Nomes da parceria vitoriosa de "Festa no Arraiá", como Martinho da Vila, André Diniz, Arlindo Cruz e Leonel, retornaram a compor para a azul e branco, e foram responsáveis pela música sobre a importância do político Miguel Arraes no estado de Pernambuco. 

Por fim, não pode se esquecer da campeã Mangueira ao recuperar sua tradição de grandes homenagens a nomes da música e a sacudir a Sapucaí ao saudar Maria Bethânia. A Estação Primeira também conquistou uma das melhores safras de sua história, com várias composições que dariam um excelente tom ao desfile. Apesar do samba-enredo vencedor não trazer grandes inovações estéticas, a obra composta por Alemão do Cavaco, Almyr, Cadu, Lacyr D'Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão cumpriu seu papel de conduzir muito bem o desfile da verde e rosa. A agremiação, aliás, é uma das escolas mais regulares no quesito da nossa série, e dificilmente não leva para avenida composições que não toquem o coração dos espectadores.

Passeando novamente aos grupos de acesso, outras obras se destacaram em um ano tão frutífero para o aspecto musical das agremiações carnavalescas. Na Viradouro, um samba com melodia e letra marcantes se tornou protagonista na briga por contar a história do "Alabê de Jerusálem" na Avenida. A agremiação implorou por tolerância e respeito numa emocionante obra encabeçada por Paulo César Feital, importante nome da MPB, e Felipe Filósofo. Além da Viradouro, Felipe também foi um dos responsáveis pela obra da Acadêmicos do Sossego, na Série B. A agremiação, ao contar o enredo sobre a obra de Manoel de Barros, confeccionou um samba-enredo sem rimas, até então só produzido por Martinho da Vila em 1987, na Vila Isabel. 



Com o campeonato da azul e branco do Largo da Batalha e sua ascensão ao grupo A, o compositor seguiu sendo o ousado artista por trás da composição de obras musicais da agremiação, e lideraria uma sequência de letras que pensariam novas estruturas e soluções para o gênero. Após a obra sem rimas, Filósofo e a escola apostaram em uma obra em formato de diálogo no enredo sobre a atriz Zezé Motta e uma sem a presença de verbos, ao exaltar os diversos rituais da humanidade. Ambas foram novas tentativas de soluções para o formato exaurido das composições carnavalescas. 

O Céu de Sherazade e o canto do Juremê


Após o importante carnaval de 2016, o ano seguinte guardou uma série de surpresas para as escolas de samba em seus diversos aspectos. Mas se restringindo ao tema samba-enredo, duas obras despontaram em agremiações que ainda não haviam se destacado no quesito durante a década, polarizando assim as discussões a respeito das transformações do gênero. De um lado, a Beija-Flor começou sua escolha de samba com um fator decisivo para o nascimento de uma grande composição: uma disputa acirrada. Um samba-enredo com uma série de elementos inusitados chamou a atenção nas redes sociais a partir da produção de um videoclipe com status de superprodução, com direito a atores e encenação do enredo sobre Iracema.  



Quem diria que um samba com um refrão principal de improváveis oito versões, um refrão do meio com apenas uma frase repetida quatro vezes e que trouxe ainda a repetição da palavra "amor" no mesmo verso poderia dar tão certo? Contrariando todas as verdades pré-estabelecidas, a obra de Claudemir, Maurição, Ronaldo Barcellos, Bruno Ribas, Fábio Alemão, Wilson Tatá, Alan Vinicius e Betinho Santos se alastrou feito pólvora no universo carnavalesco, fazendo todo mundo cantar "juremê" e "pegar no aremê". Cantado por Neguinho da Beija-Flor e aliado à garra de toda a comunidade de Nilópolis, a obra deu o Estandarte de Ouro da categoria para a azul e branco após uma década sem realizar a conquista. 

Apesar de bem quisto pela maioria arrasadora dos sambistas naquele ano, a disputa de melhor samba do ano era grande e vinha de Padre Miguel o concorrente da Soberana. Após mais de uma década sem apresentar sambas com expressão, a Mocidade Independente teve em sua obra musical o guia para voltar a ser protagonista. Apesar do carnaval sobre o Marrocos começar desacreditado e com uma sinopse confusa, uma obra liderada por Altay Veloso e Paulo César Feital subverteu o texto base e criou suas próprias imagens sobre o trânsito cultural entre Marrocos e Brasil, promovendo o encontro entre Alá e Xangô. Surpreendendo ainda ao rimar Mocidade não com "cidade ou comunidade", mas com o Sherazade, e com belas imagens e soluções de letra que fugiam aos clichês usuais, o samba tinha ainda uma melodia marcante e cadenciada. 


O trânsito cultural e a homenagem a um país de cultura distante a nossa seguiu no melhor estilo Glória Perez para o ano seguinte na verde e branco, e a parceria de grandes nomes da MPB seguiu vitoriosa com uma obra ainda mais bonita e que reforçou as características do ano anterior, fazendo roncar a pele do tambor da eternidade, brindando o pública com mais uma linda melodia.

E o agora, e o amanhã?


Cinco anos após ter dado início às transformações no formato do samba-enredo, a Portela foi campeã com uma das obras com menos qualidades do que dos anos anteriores. Ao contar o enredo sobre os rios, os compositores liderados por Samir Trindade aliaram à narrativa personagens da história da escola, o que gerou uma série de críticas, apesar da ferramenta reforçar uma característica narcisista da azul e branco, presente em outros sambas antológicos da Águia, como "Contos de Areia" e "Tributo a Vaidade".

Em meio às transformações do gênero, crises das agremiações, falta de verbas e inviabilidades no formato das disputas e sua alta necessidade financeira, a alternativa da Renascer de Jacarepaguá e o sucesso de suas obras fez o recurso da encomenda se espalhar em outras agremiações chegando até o Grupo Especial. Após um criticado samba de 2017 para defender o ótimo enredo acerca do movimento tropicalista, a Paraíso do Tuiuti resolveu encomendar sua obra a grandes compositores da agremiação e nomes consagrados do mundo do samba, como Cláudio Russo e Moacyr Luz. Mais uma vez, deu resultado: a obra embalou um desfile apoteótico sobre os 130 anos da abolição da escravidão, que levou a escola para um surpreendente vice-campeonato, inédito na história da azul e amarela. 



Já na Série A, o grupo de obras escolhidas sem as tradicionais disputa de composições cresceu vertiginosamente. Além da Renascer, as escolas Rocinha, Alegria da Zona Sul, Sossego e Inocentes escolheram os autores de seus sambas e delegaram a eles a missão de compor suas obras. Apesar de polêmicas, todas as obras encomendadas apresentaram uma boa qualidade musical, deflagrando uma discussão necessária sobre a medida. Para o bem ou para o mal, a encomenda não pode ser relativizada como causa da perda de protagonismo das escolas de samba, o avanço dos ditos escritórios de compositores e a perda de força das alas de músicos dentro das agremiações, mas sim como sintoma de todo esse processo iniciado há décadas. 

Para 2019, a ausência de disputa na Série A não só segue com força; mas se disseminou também no Especial causando desdobramentos e polêmicas. Em meio a tantos processos, o Império Serrano apostou em uma medida inédita ao levar uma obra musical já composta e fora da métrica do samba-enredo para a Avenida. A canção "O quê é, o que é", de Gonzaguinha, será interpretada pelo cantor Leléu e iniciou uma série de discussões sobre os rumos dos sambas de enredo. Será que o corpo de uma escola em cortejo terá ritmo para dar voz ao clássico da MPB e levantar as arquibancadas?

No meio de várias tensões, essa e diversas questões surge. Uma delas clama por sabedoria às diretorias e aos compositores das escolas: será que a salvação para a perpetuação da festa, diante do contexto de graves crises política e social em que se encontram as agremiações, passa pela força das obras musicais levadas para a avenida?