segunda-feira, 11 de novembro de 2019

#Efemérides | 1969 - A explosão da Bahia salgueirense x O grito revolucionário imperiano

Por Leonardo Antan

O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!

Há cinquenta anos: o fim de uma década marcante


A década de 1960 foi uma das mais importantes da história das escolas de samba, representando um marco do momento em que as agremiações se tornaram grandes expoentes do carnaval carioca para o mundo inteiro. Os desfiles começaram a lotar a Presidente Vargas com arquibancadas montadas especialmente para eles. Os jornais e revistas dedicavam grandes páginas para falar dos enredos, sambas e celebridades que participavam do cortejos. 

Há cinquenta anos, em 1969, duas escolas protagonizaram momentos importantes. O Salgueiro se consolidava como a grande agremiação da década, conquistando seu quarto título em apenas dezessete anos de fundação. Do outro, o Império Serrano cantou os “Heróis da Liberdade” num gesto corajoso que marcou a história do carnaval. Mas antes de chegar lá, vamos relembrar o que aconteceu antes de tudo…

"Exaltando o negro pro mundo inteiro cantar"


Em 1959, o Salgueiro tinha começado a revolucionar os desfiles da escolas de samba ao passar na Avenida com "Debret". O enredo assinado por Nelson de Andrade e com identidade visual dos artistas Marie Louise e Dirceu Nery começou a implantar uma dinâmica espetacular em meio a transformação das escolas de samba como o principal produto do carnaval carioca. Em 1960, Fernando Pamplona desembarcou na escola vermelha e branca para desenvolver "Quilombo dos Palmares" e a história mudou de vez: uma escola de samba cantava um enredo que trazia o negro como herói, com uma estética afirmativa e cheia de elementos surpreendentes. 

Em 1963, o desfile "Xica da Silva" foi um marco na transformação das escolas de samba.

Já em 1963, a história mudou definitivamente. Com o enredo Xica da Silva, assinado por Arlindo Rodrigues, a vermelho e branco brilhou no primeiro desfile realizado com a montagem arquibancadas na altura da Candelária, na Presidente Vargas. A personagem-título foi encarnada por Isabel Valença e uma ala coreografada por Mercedes Baptista trazia doze casais dançando o minueto, tornando-se uma das grandes imagens daquela apresentação. Era um tema negro, engajado e também com elementos espetaculares, que dialogavam com o teatro e ópera, conquistando o público que se interessava cada dia mais pelas escolas de samba. (Saiba mais sobre esse desfile aqui)

O Salgueiro se tornou a escola-símbolo daquela época, dialogando tanto com a intelectualidade que se preocupava com os rumos das escolas quanto com o público que lotava as apresentações. Assim, desfilou tanto temas negros e politizados, como fez desfiles cheios de elementos visuais requintados, fantasias luxuosas e muito samba no pé. 

Outra escola que correu atrás também de conquistar os jurados mais uma vez foi a Portela. A azul e branco trouxe da Academia o presidente Nelson de Andrade, em 1962, que depois das transformações no Salgueiro, seguiu fazendo inovações na Majestade. Ainda assim, não teve para ninguém. O Salgueiro foi campeão com Xica da Silva, em 1963, e depois, em 1965, com História do Carnaval Carioca. 


"Bahia, meus olhos ainda estão brilhando..."




Desde do título em 1965, o Salgueiro seguiu sem vencer. Para aquele ano de 1969, a escolha do tema não foi fácil. Diziam que cantar a Bahia não dava sorte, nenhuma escola havia ganhado um carnaval cantando um enredo sobre o estado. Para piorar, a Academia não enfrentava uma boa fase financeira. Foi assim que surgiu a icônica frase de Fernando Pamplona, "tem que se tirar da cabeça o que não tem no bolso". Para driblar a crise, o carnavalesco, ao lado de Arlindo Rodrigues, resolveu usar uma reciclagem para lá de bem bolada. Responsáveis pela decoração do baile de carnaval do Copacabana Palace, os dois desenharam várias peças em vermelho e branco que saíram direito da festa luxuosa do hotel no sábado de carnaval para o desfile na Presidente Vargas, no dia seguinte. 

A destaque Isabel Valença com uma fantasia de baiana luxuosa.

Muitos fatos marcantes se eternizaram naquela apresentação. Vários desfilantes incorporaram orixás, comandados pela bailarina Mercedes Baptista. O professor Júlio Machado veio de Xangô, o que lhe originou o apelido que o eternizaria: o Xangô do Salgueiro. Isabel Valença foi uma luxuosa baiana, mas quem roubou a cena foi a jovem Narcisa. A passista fez a plateia delirar, e se acabou tanto que até perdeu o sapato e não parou de desfilar mesmo sem o calçado e com o asfalto quente. O samba-enredo tinha uma letra animada e empolgante, quebrando com a tradição dos chamadas sambas-lençóis. O hino foi cantado por ninguém menos do que Elza Soares. 

"Yemanjá enriquecendo o visual"


Um dos marcos dos desfiles foi a primeira grande alegoria a ficar gravada na memória dos sambistas: nada mais, nada menos que a representação de Iemanjá, a orixá das águas salgadas. A escultura de pouco mais de três metros era formada por uma cascata de espelhos, material usado até então nunca utilizado nos desfiles. A idealização foi do mestre Arlindo Rodrigues, enquanto Joãosinho Trinta, na época Joãosinho das Alegorias, realizou. Outra figura que participou da produção do desfile foi da então futura carnavalesca Maria Augusta, que até hoje relata o encantamento que a alegoria causou na concentração daquele desfile. O relato dela sobre a presença da escultura de papel machê é impressionante. 

Uma dos raros registros da alegoria. 

"Já era dia claro quando os componentes esperavam cansados o início do desfile, sob um calor de rachar. Até que o Fernando Pamplona resolveu mudar a armação da escola. A alegoria da Iemanjá, que viria lá atrás do desfile, foi parar na frente. À medida que ela passava, a escola ia literalmente levantando. Foi uma emoção indescritível ver aquela imagem tão linda passeando pela concentração. Dali pra frente o astral da escola mudou e entramos com tudo", conta a artista. 

Formada de espelhos redondos recortados e presos por fios de náilon, que formavam cascatas de luz refletindo os raios de sol, o efeito foi tão grande que a tecnologia da época não deu conta. As fotografias da alegorias não retratam com fidelidade a beleza da alegoria, já que a forte luz estourava as fotografias. 

Ao longe, soldados e tambores...


Se foi o Salgueiro quem se consagrou campeão, outra escola ficaria na história também aquele ano. Trata-se de um dos poucos casos de censura da história do samba-enredo. Fundada por estivadores e sindicalistas, o Império Serrano tem nas suas entranhas as lutas sociais. E em meio a ditadura civil-militar e o anúncio do AI-5, os "anos de chumbo" marcavam o período mais difícil do regime. Se em 1967, o Salgueiro já havia contado "A história da liberdade no Brasil", o desfile do Império era ainda mais claro na crítica. 

O samba-enredo Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira clamava pela Liberdade e recrutava todo o povo para lutar contra a "chama que o ódio não apaga". A letra não agradou os censores da época e os compositores foram chamados pelo secretário de Segurança da Guanabara, general França. A palavra “revolução” teve que ser trocada por “evolução”. 

Uma alegoria do desfile trazia Tiradentes.

E não só isso, dizem vários integrantes da escola que uma série de fatos estranhos que aconteceram durante o desfile, como voos rasantes de aeronaves da FAB, que acabariam por prejudicar a apresentação da verde e branco. Apesar da incerteza, o Império apresentou um desfile de plástica simples e conquistou um quarto lugar. A força revolucionário do Império permaneceu na memória popular e o samba-enredo se tornou um dos grandes clássicos do gênero, sendo até apontado por alguns especialistas como um dos maiores da história. 


E assim acabava mais uma década...


O final da década de 1960 marcava o fim de um período transformador das escolas de sambas que havia se iniciado exatamente dez anos antes. As escolas de samba se transformaram na principal atração turística e popular do carnaval, lançados como símbolo cultural da cidade. Com a aproximação dos artistas do Teatro Municipal e da Escola de Belas Artes, novos padrões nos quesitos narrativos e visuais foram estabelecidos, aumentando o lado artístico da festa. A vitória do Salgueiro de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues em 1969 reafirmava a soberania e liderança da vermelho e branco no período, transformando-se numa das mais tradicionais agremiações do carnaval carioca.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

#Efemérides | 1959 - O Debret do Salgueiro: a gênese de uma revolução

Por Leonardo Antan

O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!

60 anos do "Debret" do Salgueiro!


Se muitos dizem que a chamada "revolução salgueirense" começou em 1960, com a chegada de Fernando Pamplona à vermelho e branco da Tijuca, há uma perspectiva mais adequada para tratar dessa história. (Saiba mais sobre a Revolução Salgueirense aqui) A verdadeira gênese das transformações discursivas e estéticas que fariam o GRES Acadêmicos do Salgueiro se consagrar com uma das maiores agremiações do país já começaria a estar presente em seus desfiles em 1959. E antes de falar do carnavalesco com voz de trovão, professor da Escola de Belas Artes e cenógrafo do Municipal, precisamos lembrar de outra figura com o pensamento à frente de seu tempo: Nelson de Andrade. 

Comerciante da Tijuca, ele tinha ajudado o Salgueiro algumas vezes com contribuições para seu livro de ouro. Mas logo se enturmando com nomes da escola como Jô Calça Larga e Djalma Sabiá, Nelson foi convidado a ser presidente da agremiação por sua competência de liderança. Determinado, tinha o sonho de não só fazer a escola fundada em 1953 romper a barreira da quarta posição, como também conquistar o título de campeã do carnaval. E como fazer isso? A resposta só podia estar em um lugar: inovação! 

Já em seus primeiros anos como presidente, entre 1957 e 1958, Nelson tentou trazer algumas novidades para o desfile do Salgueiro. Naquela época, as escolas de samba ainda refletiam os ecos da vitória da Portela em 1939, que consolidou um carnaval tradicional, clássico e nacionalista - como você pode ler no primeiro texto da série #Efemérides. Com o fim da Praça Onze para as obras da avenida Presidente Vargas, as escolas passaram a desfilar no novo endereço, mas foi em 1957 que conquistaram o inimaginável prestígio de se apresentar no principal logradouro da cidade: a Avenida Rio Branco. A partir daí, as agremiações começariam a assumir, finalmente, o posto de principal manifestação cultural do período carnavalesco, desbancando as sociedades e os ranchos na predileção da população do Rio de Janeiro. 

 

"E quando foi julgador, o desfile atrasou seu coração salgueirou..."



Já passava das oito da noite quando o corpo de jurados daquele carnaval de 1959 chegou ao palanque construído na altura da Biblioteca Nacional. O espetacular desfile das escolas de samba estava marcado para começar às sete horas, só que desde sempre o atraso foi uma das maiores características da cultura carioca. O time de julgadores era formado por Fernando Pamplona, responsável pelo quesito “Escultura e Riqueza”, o grande folclorista e pesquisador Edison Carneiro, julgando “Enredo”, a escritora e jornalista Eneida de Morais, julgando “Letra do Samba”. Completariam o júri Belá Paes Leme (fantasia); Lúcio Rangel (bateria) e Brasil Easton (mestre-sala e porta-bandeira). 

Para aquele ano, Nelson decidiu que precisava arriscar mais do que nunca. Até então, os carnavais da escola já eram liderados artisticamente por Hildebrando Moura, funcionário da Casa da Moeda, que assinou enredos como “Romaria à Bahia”, “Brasil, fonte das artes” e “Navio negreiro”, entre 1954 e 1958. Para 1959, o presidente tinha feito um gesto ambicioso, indo atrás de dois grandes nomes da cultura brasileira, um casal “excêntrico” da Zona Sul carioca que colecionava itens do folclore brasileiro, chamados Dirceu e Marie Louise Nery. Quando encontrou o pernambucano e a suíça, a afinidade foi imediata e, depois de um papo ou outro, os dois estudiosos, que já tinham trabalhado no Museu de Etnografia da Suíça, concordaram em assinar o desfile do Salgueiro. Assim surgiu a homenagem ao artista Jean Baptiste Debret, famoso pintor por integrar a Missão Artística Francesa.

No domingo de carnaval de 1959, na Rio Branco, já passava das dez da noite e nenhum surdo ainda fazia marcação, somando horas de atrasos. A pista dos desfiles permanecia repleta de foliões e as cordas que deveriam separar plateia e palco estavam para lá de indefinidas. Com sua truculência histórica, os policiais montados tentavam retirar as pessoas da pista a cacetadas. A reportagem do Correio da Manhã (22/01/1959) comenta o uso descontrolado da Polícia Especial e da Polícia Militar, “que como sempre, voltaram a praticar violências contra o povo que se aglomerava ao longo da Av. Rio Branco para assistir o que há de mais belo no carnaval carioca”. 

Para complicar ainda mais, a Unidos de Bangu, a primeira escola que devia se apresentar, quebrou o eixo de um dos seus carros, recusando-se a iniciar os cortejos. Tentaram então passar para a segunda agremiação da ordem, a Aprendizes de Lucas, que não quis desfilar até a primeira se apresentar. Sem solução no horizonte, formou-se um quiproquó entre as quatro primeiras agremiações a se apresentar, o secretário do Turismo e a polícia. Em meio à discussão, o presidente salgueirense resolveu se manifestar. Ele decidiu que o Salgueiro poderia começar, mas desde que sua passagem fosse livre das cordas, para que o público e os desfilantes pudessem interagir de forma mais livre. 

A polícia se manifestou contrariamente a ideia do presidente, alegando que a medida aumentaria a desorganização. Com o atraso se arrastando há horas e o público inquieto, no entanto, o júri autorizou a entrada do Salgueiro - que seria apenas a quinta a se apresentar pela ordem original estipulada. Após tanta confusão, a solução parecia ter dado a graça. Eram pouco mais de 22 horas e 45 minutos quando a multidão alvirrubra finalmente iniciou os cortejos daquele histórico ano de 1959. 

"Viajei com Debret pelo Brasil..."



Dois grandes negros de um metro e noventa encabeçavam o corpo de componentes. Trajados de escravos, traziam o estandarte com o título “Viagem pitoresca através do Brasil”. Os figurinos reproduziam as famosas gravuras de Debret. Cestarias, vendedores de frutas e galinhas e a corte brasileira surgiram em encarnado e branco. O desfile tentava levar os foliões de volta ao Brasil do século XIX, tanto que os figurinos eram rigorosamente históricos como os mostrados pelo artista em suas gravuras. Nada de peruca tipo Luís XV ou fantasias de nobre pouco ligadas ao enredo. O tema tinha início, meio e fim, contando uma história ligada integralmente com o que era visto na pista. Além de grande presidente, Nelson de Andrade foi também um excelente "enredista", mostrando sua preocupação em desenvolver uma história bem amarrada na Avenida.

Os grandes e cenográficos adereços de mão serviram para ladear a apresentação, substituindo as criticadas alegorias de então, já que desde 1954, como sinalizou uma reportagem do jornal O Globo, as alegorias eram consideradas "fracas e toscas", um crime ao "singelo" espetáculo das escolas. Grandes lampiões a gás carregados pelos desfilantes iluminavam a Avenida e formavam um cortejo, mais do que nunca, teatralizado. Paula do Salgueiro surgiu levantando a plateia, dando um show na pista. Paula da Silva Campos se tornaria uma espécie de celebridade dos universos das escolas de sambas do período e intimamente ligada à identidade da vermelho e branco, desfilando na agremiação desde sua fundação. Virou uma atração à parte com seu gingado e carisma, mesmo sem nunca ter propriamente sambado, costumando usar fantasias de baianas estilizadas em composição popularizada por Carmen Miranda. 

Assim como ela, era comum um componente famoso ou identificado com a escola ser considerado uma "atração" dentro do desfile, uma pessoa geralmente animada que se comunicava com o público, famosa ou não. Este processo, possivelmente, originou o termo “passista”. Paula do Salgueiro seria um dos melhores exemplos dessa noção: ela era descrita como grande atração da vermelho e branco nos períodos da época, consolidando-se como uma “celebridade” do samba. Este desfile de 1959 marcou também a estreia das “irmãs Marinho” no Salgueiro, três dançarinas trazidas por Nelson do universo da Zona Sul carioca que se tornariam celebridades carnavalescas.

Desse jeito, com um desfile animado, bonito e que construía verdadeiras cenas aos olhos dos espectadores, o Salgueiro saiu da pista com uma das grandes favoritas, enquanto as escolas de samba começavam a se transformar nas queridinhas do público, da imprensa e do turismo, como um espetáculo vibrante, belo e típico da cultura carioca. Outro marco que ajuda a entender a "massificação" das escolas são os desfiles patrocinados pela Coca-Cola. Semanas antes do carnaval, as agremiações se apresentavam com sambas e fantasias inspiradas na marca de refrigerantes como forma de propaganda. Lá era dado um troféu para a principal agremiação, e naquele ano a grande campeã do Tamborim de Ouro foi exatamente o Salgueiro. 

Na cabine dos jurados, depois das apresentações, Fernando Pamplona tinha ficado dividido com as suas avaliações. Nos riscos a lápis, deu uma nota maior para o Salgueiro, mas mesmo com um tema sem empatia, a Portela havia feito uma excelente apresentação, apesar da pouca inovação, comparada ao desfile da vermelho e branco. Com "Brasil, pantheon de heróis", a azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira foi campeã mais uma vez, já com o status de a maior agremiação da época. A escola seguia apostando em um estilo patriótico e clássico, como fez em 1939. De qualquer forma, se naquele ano ainda não havia conquistado o título, o Salgueiro começou a incomodar as coirmãs com um inédito vice-campeonato. 

Depois do desfile, Nelson de Andrade foi procurar o jurado que tinha dado uma nota maior para o Salgueiro do que para a campeão do carnaval. Da afinidade imediata com Fernando Pamplona nasceria uma parceria que mudaria para sempre o carnaval e seus destinos. Seguindo as inovações do presidente para transformar os desfiles em algo mais dinâmico e teatral, Pamplona chamaria o reforço de seu parceiro de Municipal Arlindo Rodrigues para dar sequência a ideia de desfiles com enredos bem amarrados, com figurinos fieis ao seu tempo histórico, trazendo elementos que ajudariam a compor cenas dentro da apresentação além de apostar em passistas e celebridades para conquistar o público. 

Assim, nasceria uma revolução em vermelho e branco que modificaria para sempre o carnaval das escolas de samba e que ainda encontraria ecos dez anos depois, em 1969, quando o Salgueiro já era mais a escola azarada e conquistaria seu terceiro título - história para outro texto. 

Não perca a série #Efemérides! Texto toda segunda e quinta.







terça-feira, 5 de novembro de 2019

A promoção e aposta em novos casais de mestre-sala e porta-bandeira para o carnaval 2020


Por Juliana Yamamoto
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira tem a responsabilidade de defender o maior símbolo de uma escola de samba, o pavilhão, e trazer a nota máxima, ajudando-a no tão sonhado título. Esse quesito que exala arte, parceria e dança é composto por apenas dois integrantes, e são eles que se dedicam em constantes ensaios em prol do pavilhão e da sua enorme comunidade que está sendo carregada pela porta-bandeira em giros e minuetos e na proteção e cortejo do mestre-sala. Juntos, transmitem dedicação e amor. 

Para o carnaval paulistano de 2020, houve a promoção e a aposta em novos casais de mestre-sala e porta-bandeira nos grupos Especial e Acesso I. Muitos farão sua estreia como primeiro mestre-sala ou primeira porta-bandeira. Está cada vez mais evidente um novo ciclo no quesito embalado pelo surgimento de novas estrelas.


Foto: André Murrer
Abrindo os desfiles do Grupo Especial, o Barroca Zona Sul irá apostar num jovem mestre-sala para o carnaval 2020, Igor Sena. 

Igor possui 10 anos no carnaval, sendo 7 como mestre-sala. Já teve passagem pelo Águia de Ouro, escola pela qual dançou por 3 anos. Ganhou ainda mais destaque na Dragões da Real, ficando por 2 anos como segundo mestre-sala. Para 2020, fará sua estreia ao lado da porta-bandeira Lenita Magrini, que já teve passagens pela Independente Tricolor e no próprio Barroca em anos anteriores.


Foto: Felipe Araújo
A primeira escola a adentrar a pista do Anhembi no sábado de carnaval é a Pérola Negra. A agremiação da Vila Madalena também aposta numa jovem promessa com muita experiência no quesito, Arthur Santos.

Arthur tem 19 anos e começou a sua trajetória cedo, aprendendo essa nobre arte desde criança. Sua história na dança de mestre-sala e porta-bandeira se iniciou na Nenê de Vila Matilde, mais especificamente na Nenê do Amanhã, escola-mirim da águia paulistana.

Em 2019, ao lado da porta-bandeira Beatriz Teixeira, estreou como primeiro mestre-sala na escola. Com seu talento e se destacando cada vez mais na dança, Arthur estreará como primeiro mestre-sala na elite do carnaval ao lado da porta-bandeira Eliana, que está desde o carnaval de 2018 na escola.


Foto: Sergio Cruz
Já os alvinegros dos Gaviões da Fiel resolveram apostar em uma prata da casa para o quesito, marca registrada da escola. 

Gabriela Mondijan foi promovida para primeira porta-bandeira e dançará ao lado de Wagner Lima, que já era da escola e tinha uma parceria de sucesso com a Adriana Mondijan, a Drika. 

Nascida e crescida nos Gaviões, a nova primeira porta-bandeira já dança há 11 anos e iniciou a sua trajetória na própria escola em 2011, quando assumiu o quarto pavilhão. Adriana, antiga primeira porta-bandeira, sua maior inspiração, irá acompanhar todo o processo da transição ao lado do mestre-sala Wagner. 


Foto: Henrique Barbosa
Após a saída de Emerson Ramires, a Mocidade Alegre decidiu promover um de seus mestres-sala, Uilian Cesário, antigo quarto mestre-sala da agremiação. O novato no posto estreará no Anhembi ao lado de Karina Zamparolli, primeira porta-bandeira da Morada desde 2013.

Com 24 anos, Uilian iniciou sua trajetória na Mocidade Alegre após o carnaval de 2015, com uma parceria ao lado de Natália Lago. Antes, fazia parte do Acadêmicos do Tatuapé, escola em que se destacou por seu elegante bailado. O mestre-sala também se mostrava muito empenhado e dedicado, sempre aprimorando a arte através de cursos. 

Na Morada do Samba, Uilian Cesário cresceu e ganhou seu espaço, adquirindo a admiração da comunidade. Em 2020, terá a grande honra e responsabilidade de defender o tradicional pavilhão vermelho, verde e branco ao lado de Karina.


Foto: Paulo Sadão
Após a saída do primeiro casal da escola, a Unidos de Vila Maria decidiu investir numa nova dupla para o quesito. Brunno Mathias e Tatiana dos Santos formarão o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Vila Mais Famosa para o carnaval de 2020.

Com uma trajetória extensa, iniciada em 1999, Brunno, de 31 anos chegou à escola em 2010 como quinto mestre-sala, e de lá nunca mais saiu. Foi ganhando espaço e admiração pela comunidade através do riscado característico e por sua evolução na dança. A cada ano, o menino de Jundiaí crescia na arte e com seu talento ganhou maior notoriedade. Em 2018 desfilou como primeiro mestre-sala do Morro da Casa Verde. No mesmo ano, na Vila Maria, precisou assumir o pavilhão oficial ao lado da porta-bandeira Jéssica Passos, demonstrando muita responsabilidade e força. Para 2020, Brunno terá um dos maiores desafios de sua vida.

Já sua porta-bandeira, Tatiana dos Santos, é experiente, possuindo passagem em várias agremiações, como Leandro de Itaquera, X-9 Paulistana e Morro de Casa Verde, já tendo ocupado o posto de primeira porta-bandeira. No último carnaval, desfilou com o segundo pavilhão da Nenê de Vila Matilde. Muitos não sabem, mas Tatiana já participou do quadro de casais da Vila Maria, de 2006 a 2009, sendo terceira porta-bandeira. Agora retorna à verde, azul e branco como primeira, estreando nessa função no Grupo Especial, e também com um novo parceiro na dança.


Foto: Anju Fotografia
No Grupo de Acesso I, também teremos novos nomes no Sambódromo do Anhembi. A Nenê de Vila Matilde decidiu apostar em uma porta-bandeira já muito conhecida no carnaval paulistano e que fará a sua estreia como primeira no grupo da Liga das Escolas de Samba de São Paulo: Monalisa Carmo Bueno.

Monalisa tem 28 anos e começou a dançar aos 7, como porta-bandeira mirim do Barroca Zona Sul. No mesmo ano, recebeu o convite para participar do quadro de casais do Vai-Vai. Em 2000, estreou como porta-bandeira nas duas agremiações. Seu currículo é de peso, com passagens por Imperador do Ipiranga, Tradição Albertinense e Dragões da Real. Em 2007, foi porta-bandeira oficial do GRES Quilombo e no mesmo ano retornou ao Vai-Vai, ganhando maior notoriedade através do seu bailado e talento. Para 2020, atravessará a passarela do samba como primeira porta-bandeira da Nenê, ao lado do mestre-sala Cley Ferreira, que possui passagens pelo Barroca e Independente Tricolor.


Foto: Acadêmicos do Tucuruvi
O Acadêmicos do Tucuruvi anunciou no último sábado (2) seu novo primeiro mestre-sala após o desligamento de Kawan Alcides. O novo parceiro de Waleska Gomes será Luan Caliel!

Luan tem 20 anos e ganhou notoriedade no Águia de Ouro, desfilando como terceiro mestre-sala até o carnaval de 2019. Através do seu riscado característico, ganhou destaque. O jovem teve aulas com a sua própria porta-bandeira no curso da Amespbeesp nos anos de 2018 e 2019. Para 2020, fará sua estreia como mestre-sala oficial ao lado da experiente Waleska.


Foto: Felipe Araújo
Dedicação, empenho, ensaios e muito amor ao pavilhão não faltarão aos novos casais de mestre-sala e porta-bandeira que se formaram para o carnaval 2020. Novas estrelas estão surgindo para abrilhantar o Anhembi e encantar com seu bailado. Que venham os desfiles!

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

#Efemérides | 1939 - A inovação da Vizinha Faladeira x a tradição da Portela


Por Leonardo Antan


O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!


1939 - A inovação da Vizinha Faladeira e a Tradição da Portela


Há 80 anos, dois desfiles emblemáticos aconteciam na Praça Onze, o grande berço do samba carioca. As escolas de samba davam seus primeiros passos, conquistando o povo e os intelectuais da época. Nos primeiros desfiles, a dúvida era cristalina: o que queriam as escolas de samba em meio ao movimentado carnaval do Rio de Janeiro? Dividindo atenção com luxuosas e aristocráticas Grandes Sociedades e os populares e divertidos Ranchos, cabia nas escolas um carnaval espetacular e cheio de requinte visual? Ou valia mais a simplicidade de temas patrióticos que agradassem aos governantes e fizessem os heróis nacionais caírem no samba? 

Essa tensão pode ser vista em duas apresentações que marcaram o último ano daquela primeira década de competição. De um lado, a Vizinha Faladeira deu o que falar ao tentar fazer o primeira tema internacional ao contar a história de "Branca de Neve e os sete anões", baseado no filme animado de Walt Disney. Na briga contra o "estrangeirismo", a Portela deu as bases de um carnaval educacional e politicamente correto com "Teste ao Samba". Era a (hoje conhecida) disputa entre tradição e inovação que já ecoava na festa. Vamos lembrar mais a fundo para saber quem levou a melhor nessa história.  


"Praça Onze, berço das nossas fantasias..."



Os primeiros desfiles das escolas de sambas em nada lembram o espetáculo audiovisual que as mesmas agremiações apresentam hoje no Sambódromo. Quando a primeira disputa oficial realizada entre os grupos foi promovida pelo Jornal Mundo Sportivo, em 1932, os sambistas dos morros e subúrbios se apresentaram para o júri subindo em um pequeno palanque após circular pelo espaço da Praça Onze. Não existiam ainda o cortejo e a pista reta que caracterizaram os desfiles tempos depois; era tudo muito mais improvisado e espontâneo. Assim, não se pode esperar também que houvesse uma unidade entre o apresentado pelos intérpretes e ritmistas, que improvisavam versos, e as fantasias simples de baianas, cabrochas e malandros.

Longe do sucesso que têm hoje, as agremiações ainda disputavam atenção com outras formas de brincar muito mais populares, como os ranchos, blocos, cordões e as Grandes Sociedades. Apesar disso, logo foram aceitas pela sociedade e já em 1935 ganharam um órgão oficial responsável pela administração dos desfiles e as escolas passaram a receber verba pública da Secretaria do Turismo. Ao usarem o ritmo, que fazia sucesso fonográfico na folia, as agremiações surgiram em um contexto de valorização e popularização do samba não só como música típica do Brasil, mas também aliando elementos que já existiam nessas outras manifestações, tentando buscar aceitação social. A estratégia foi muito bem vista pelo governo populista de Getúlio Vargas e os intelectuais modernistas que buscavam criar uma identidade nacional a ser exportada. Nesse jogo de negociações, as escolas de samba souberam ecoar sua gramática dos tambores surgidas na diáspora e valorizar a cultura ancestral negra, enquanto ainda agradavam os políticos e artistas eruditos. Seria essa capacidade de negociação o grande trunfo para perpetuar a longevidade dessas instituições. Foi assim que elas já surgiram verdadeiramente "tradicionais", reafirmando sua ancestralidade negra, trazendo baianas e proibindo os instrumentos de sopro, expurgando qualquer herança estrangeira e se tornando um produto da nossa brasilidade. 


Um vizinha muito exibida



É inegável que todo esse projeto deu certo, mas ele fica ainda mais claro quando pesquisadores resgatam a história da Vizinha Faladeira. Fundada em 1932, na Zona Portuária, trata-se de uma escola inovadora naquela década de 30, trazendo elementos que não eram imaginados no contexto e causaram rebuliço. Já em 1933, no concurso organizado pelo jornal O Globo, a agremiação das cores azul e branco cometeu a ousadia de trazer um automóvel para seu desfile. Com desfiles espetaculosos, apostou em componentes montados a cavalos, automóveis decorados, fantasias de tecidos caros e até iluminação especial. Tanta novidade dividia opiniões dos jurados, público e imprensa. Será que era aquele caminho que queriam as escolas?

A repercussão das inovações da Vizinha faria a União das Escolas de Samba proibir os carros e carretas nos desfiles, alegando que a brincadeira estava se descaracterizando. Veja bem: uma forma de brincar que ainda estava surgindo e mal tinha se entendido direito. Outra proibição que chama atenção foi a impossibilidade de desfilar  histórias internacionais em sonho ou imaginação, marcando a preferência por temas brasileiros. Mesmo assim, ninguém conseguiu parar a escola que se sagrou campeã em 1937, com um desfile feito pelos cenógrafos Irmãos Garrido,  com luxuosas fantasias. Apesar do campeonato, a comissão julgadora destacou em relatório enviado à Diretoria de Turismo que a Portela fora “a única que se apresentou conservando todas as tradições de uma verdadeira escola de samba, enquanto as outras se desviavam, consideravelmente, dessa finalidade”.


Portela: a guardiã da tradição!



Enquanto a Vizinha Faladeira era duramente criticada por importar um modelo muito espetacular para as "singelas" escolas de sambas, uma certa escola azul e branco de Oswaldo Cruz tentava defender toda a "tradição" das recém surgidas agremiações. Cantando sempre temas nacionais e idílicos, ela era liderada por um dos grandes intelectuais cariocas da primeira metade do século XX: Paulo da Portela. O sambista nascido na Zona Portuária, mas que logo se mudou para o subúrbio de Oswaldo Cruz, foi o responsável por tentar colocar fim na discriminação contra os sambistas. A sua arma? A elegância! 

“Pés e pescoços cobertos!” era o que ele dizia, defendendo a ideia de que sambista devia permanecer com uma beca impecável para combater o racismo institucional que marcava o Rio de Janeiro desde a escravidão. Não é à toa que a Portela se tornaria a Majestade do Samba, famosa por sua pompa e bom trato, herdando o estilo inconfundível de seu fundador. Ao contrário da Vizinha Faladeira, a azul e branco investiu em grandes sambas e apresentações sem tantas pirotecnias. Foi assim que conquistou seu primeiro título, em 1935, mas ainda tentava marcar seu território contra escolas como a Mangueira e Unidos da Tijuca. 

1939: o grande duelo! 


O duelo da tradição ancestral da Portela e as inovações da Vizinha Faladeira marcou definitivamente o ano de 1939. Afinal, qual escola definiria os rumos do carnaval dali pra frente? 

Mostrando que a falta de organização também era uma "tradição" das escolas já naquele tempo, o pré-carnaval teve momentos conturbados que não deixaram evidente qual seria o regulamento a ser usado naquele ano, após uma série de discussões na entidade organizadora da festa. O impasse fez o regulamento de 1938 ser reutilizado. Com isso, foram reafirmadas as proibições de instrumentos de sopro, carros alegóricos ou temas estrangeiros, itens que tinham sido explicitamente proibidos no regulamento anterior. Para completar o sarapatel, a divulgação das regras do concurso foi feita apenas 17 dias antes do desfile, restando menos de um mês para as escolas se prepararem para a disputa. Tal falta de organização faria com que algumas escolas decidissem ousar, desfilando com carros alegóricos, fantasias luxuosas e outras novidades.

Foi nessa confusão generalizada que a Vizinha Faladeira tentou inovar com um tema inédito: "Branca de Neve e os sete anões" abordava o filme lançando pelo estúdio Walt Disney como primeiro longa-metragem de animação do mundo. Surpreendendo a todos, a escola arrancou aplausos ao desfilar com 400 integrantes, comissão de frente trajando terno de flanela e polainas, bateria fantasiada, carro alegórico com luzes e anões em volta da Branca de Neve. 

Interessados em valorizar as escolas de samba, os jornais destacavam seu caráter nacionalista, descrevendo-as como “núcleos de cultivadores da nossa música típica, no que ela tem de mais histórico e básico da civilização brasileira” ou como “simpáticas manifestações do folclore nacional”. Comandada por Paulo da Portela, a azul e branco de Madureira preparou para aquele ano o "Teste ao samba", unindo visual e música pela primeira vez. Contra o estrangeirismo, a agremiação também fez uma apresentação com elementos ousados e pouco usuais na época. Aproveitando-se de outras inovações da Vizinha, mas dando a elas aspectos mais líricos. Paulo se transformou no professor e entregou diplomas para os foliões vestidos com becas de estudantes, enquanto o samba também composto por ele cantava "vou começar a aula perante a comissão". 

Arrematando a cena, uma pequena alegoria representando um quadro-negro trazia a simbólica frase: "Prestigiar o samba, música típica e original do Brasil e incentivar o povo". O caráter uniforme e disciplinado da escola em uma apresentação coesa que remetia o militarismo e bons costumes, agradou a todos. Com um show de educação singelo, a Portela se mostrou a escola mais afinada ao projeto de transformar a escolas de samba em produto típico nacional e símbolo da identidade cultural do Brasil. Até hoje, este é considerado o primeiro "samba-enredo" da História. Afirmando o imaginário da azul e branco como uma escola pioneira.

E a grande campeã... foi?


A disputa pelo título começou antes do julgamento. A Portela pediu a desclassificação imediata da Vizinha Faladeira por desfilar com um tema estrangeiro, se valendo das proibições dos regulamentos anteriores. O pedido não só foi aceito, com a Majestade do Samba se tornou a grande campeã, consolidando seu desfile "tradicional" e patriótico. Revoltada, a Vizinha Faladeira não se calou para o ano seguinte e resolveu cutucar com o tema batizado de “Carnaval para o povo”. Assim, no carnaval de 1940, a escola fez um grande protesto, se virando contra o corpo de jurados na hora de sua apresentação. Após passar por trás da cabine, se virou ao povo exibindo uma enorme faixa com os dizeres “Devido às marmeladas, adeus carnaval. Um dia voltaremos”. 

Depois do sucesso que conquistou na primeira década de desfile, a Vizinha Faladeira virou história e enrolou sua bandeira, voltando a ativa somente recentemente. O fracasso da escola estava diretamente ligado a vitória da Portela, ainda mais com a vitória da "tradição" das recém-fundadas instituições contra as inovações e o luxo. Apesar de parecer uma dicotomia, foi a capacidade de reinvenção e adaptação que garantiu o sucesso da Portela, que incorporou o uso de uma alegoria, mas a transformou num objeto de patriotismo, cumprindo diversos interesses. E foi entre essas negociações e trocas que a Majestade se tornou uma das maiores escolas do carnaval brasileiro. 

Símbolo máximo do carnaval, as escolas são fruto da capacidade de reinventar constantemente suas tradições adaptando-as aos interesses da intelectualidade sem perder de vista seus próprios objetivos. 


Que saber mais sobre a história do carnaval? Não perca nossos próximos textos, na quinta vamos direto à folia de 1959.

Referências bibliográficas:
O artigo "Incômoda Vizinhança", de Gabriel Turano e Felipe Ferreira.
A tese "Que carnaval é esse?", de Gabriel Turano.
O livro "Pra tudo começar na quinta-feira", de Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

SINOPSE | Unidos da Tijuca: "Onde moram os sonhos"

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RESUMO
A Unidos da Tijuca escolheu, como tema para o enredo de 2020, a Arquitetura e o Urbanismo. Cenário do Carnaval carioca, que é um dos maiores espetáculos a céu aberto do planeta, o Rio de Janeiro é Patrimônio Cultural Mundial, na categoria paisagem urbana, desde 2012. A cidade recebeu, ainda, recentemente, o título de primeira Capital Mundial da Arquitetura, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pela União Internacional dos Arquitetos (UIA). No ano em que o Rio será a sede de importantes eventos internacionais, como o 27º Congresso Mundial de Arquitetos e o Fórum Mundial de Cidades, além de exposições e concursos públicos, a Tijuca projetou seu desfile para explorar o passado, entender o presente e arquitetar o futuro. O enredo vai mostrar a incrível capacidade do homem de criar espaços que possam servir de abrigo para diferentes atividades. Ao realizar o seu trabalho, os arquitetos deixam registros que nos ajudam a compreender a nossa história. Templos, castelos, monumentos, casas, prédios, conjuntos habitacionais, parques, praças, ruas e avenidas revelam a contribuição de uma das mais antigas profissões. Das edificações da Antiguidade às cidades modernas, cada espaço ensina a cultura de seu tempo. Mas muitos são os desafios. É preciso conservar o patrimônio cultural da humanidade, além de resolver os problemas gerados pelo crescimento desordenado, que se agrava nos centros urbanos. Arquitetar a vida é assegurar o testemunho do passado, intervir no presente e traçar para o futuro uma cidade sustentável a que todos tenham direito…


Abertura

O que move homens e mulheres que se dedicam a pensar na arte de viver, projetar, organizar e produzir o lugar da moradia, do trabalho, da diversão, do lazer e da religião?

A sensibilidade do artista procura e encontra soluções, ao erguer palácios, igrejas, casas, vilas, cidadelas e metrópoles que desafiem o tempo e o espaço. Esse é um processo que acontece há milênios, todos os dias.

Tijuca percorre a Avenida da Capital Mundial da Arquitetura apresentando algumas de suas grandes realizações do passado até chegar às modernas metrópoles da atualidade. E convida a todos para participar do projeto de um futuro em que haja qualidade de vida e justiça social para todos. Que venham os arquitetos do mundo! Vamos planejar o amanhã… Porque os sonhos vivem dentro de nós e é possível torná-los realidade, se trabalharmos juntos.


Setor 1 – Em busca da eternidade…

Na Antiguidade, os que governaram as primeiras civilizações construíram edifícios monumentais para cultuar suas divindades, abrigar seus sarcófagos, proteger suas cidades, divertir seus povos. Maravilhas arquitetônicas do Mundo Antigo resistiram há milhares de anos, para que suas ruínas nos revelassem histórias perdidas no tempo, onde faraós e imperadores homenageavam os deuses e construíam templos que são testemunhos da avançada cultura das sociedades daquele período. O refinado conhecimento dos povos antigos, com suas construções simétricas e harmoniosas, foi resgatado de suas ruínas e inspira, até hoje, a arquitetura mundial.


Setor 2 – Arquitetando a história

Cada edifício da história guarda os registros do trabalho de seus arquitetos. A vida das cortes medievais pode ser conhecida em seus castelos, verdadeiras fortificações, com grossas paredes de pedra e poucas janelas, levantadas para defender os feudos dos ataques dos inimigos externos e, mesmo, das guerras civis e revoltas populares dentro dos próprios reinos. E as obras de igrejas? Algumas levam séculos para serem concluídas! Em torno delas, crescem as grandes cidades e seus projetos diferenciados de poder. Alguns artistas da era moderna retomam a simplicidade das primeiras soluções influenciadas pelas formas contidas na natureza e nos surpreendem com obras singulares e inconfundíveis. A leveza do traço do genial arquiteto brasileiro, que projetou o Brasil para o mundo inteiro, pousou a capital no centro do país. E, no deserto tão distante de nós, são erguidas cidades inteiras de desenho arrojado e impetuoso, com seus arranha-céus futuristas.


Setor 3 – O sonho que se perde todos os dias

No entanto, com o passar do tempo, crescem as populações das grandes cidades, de forma desordenada, e, com isso, surgem os problemas que afetam a maioria das metrópoles. O desmatamento avança, sem nenhum controle, provocando o esgotamento dos solos, o desaparecimento das águas e o desequilíbrio climático, com graves consequências para todo o planeta. A enorme quantidade de lixo, originado pelo consumo desenfreado, afeta os rios, os mares e a terra. São toneladas diárias de detritos contaminando tudo ao redor. Morrem os pássaros e os peixes atingidos por vazamentos de petróleo e resíduos das indústrias. Enchentes e falta de saneamento atingem, principalmente, as comunidades de baixa renda. O trânsito caótico imobiliza as pessoas, os milhares de automóveis poluem o ar, a violência se espalha e a desigualdade social ameaça a vida. Nas cidades de hoje, esquecemos o futuro todos os dias.


Setor 4 – A cidade que pode ser maravilhosa

Pense em uma cidade onde é possível abrir as janelas para contemplar o verde, passear nos parques, circular nas ruas, sentir a brisa quente que vem das praias e traz o cheiro da maresia… Respire o ar puro da floresta. Imagine um lugar onde os rios correm livremente para o mar e é possível mergulhar na baía e nadar na lagoa. Em que casas seguras e confortáveis, construídas em suas colinas, contemplam a paisagem e repousam tranquilas. Aqui, se pode acordar mais tarde e chegar do trabalho mais cedo, porque o trânsito flui e o transporte é acessível. O ar é puro, a vida é boa. Tem escola, universidade, teatro, cinema, hospital e moradia para todos. Essa cidade existe e está nos sonhos de milhares de pessoas. Ela também vem sendo construída no trabalho cotidiano de quem dedica sua existência a buscar soluções para criar uma cidade sustentável. Mas é preciso conquistá-la, alimentar os sonhos todos os dias. A Tijuca quer arquitetar o futuro na Avenida do Samba, provocando o encontro com aqueles que sabem que ele é possível. Conhecer o passado, reagir ao presente e tramar o futuro nos traz a certeza de que não devemos retroceder. Porque o sonho que se sonha junto é realidade e a cidade maravilhosa ainda precisa ser conquistada!

 Paulo Barros, Isabel Azevedo, Ana Paula Trindade e Simone Martins.

Carnavalescos: Paulo Barros, Marcus Paulo e Helcio Paim


sábado, 10 de agosto de 2019

SINOPSE | Portela: "Guajupiá, Terra Sem Males"




IRIN-MAGÉ, PAJÉ DO MEL, POVOADOR DA TERRA...
 
Todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes, desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado. 
 
Então veio castigo. O fogo desceu do céu e destruiu tudo sobre a terra. Apenas um homem considerado digno, foi poupado desse castigo. Seu nome era Irin-Magé.
 
Levado para o céu ele, aos prantos, diz à Monã, que seria difícil viver sem pares nesse imenso vazio. Comovido, Monã reverte a situação, e fez com que caísse um dilúvio sobre a terra. Dessa água surgiram os oceanos, os rios e tudo frutificou.

Monã então deu a Irin-Magé uma mulher e o mandou de volta à terra para que ele a repovoasse de homens melhores. Dentre os muitos de seus filhos, nasce um em especial que se tornaria o grande guru, o grande karaíba, "o profeta transformador", chamado Maíramûana. 
 
Familiar de Monã, Maíramûana aprendera a arte de transformar tudo o que quisesse de acordo com sua vontade nas mais diversas formas; de animais, pássaros, peixes e para punir os homens podia transformá-los também ao seu bel-prazer. 
 
É esse profeta-guru, dotado de poderes e conhecimentos "sobrenaturais" e misteriosos, quem ensinará todas as práticas sagradas, todos os costumes e regras da organização social das tribos tupinambás.
 
 
BAÍA DA GUANABARA, NOSSO GUAJUPIÁ
 
Na beleza do azul sobre o azul, da calma sobre a calma, um curso d'água serpenteia num vale de árvores verdes e frondosas. Em todas as direções a floresta é vívida. Há que se fiar no Sol, a luz é cultivada e tudo deve ser puro.
 
O rio é o caminho, é sagrado, tem peixe, tem marisco. As aves voam livres, colorindo o céu. Temos tudo ao alcance das mãos, água de beber, de lavar e de se banhar. Vivemos a vida em profunda gratidão.
 
Mas além de pescar e caçar, somos também bravos guerreiros. Só aqueles que enfrentam a morte, sem medo, conseguem encontrar o Guajupiá. Os tupinambás representavam esse paraíso como um lugar idílico, recoberto de flores e regado por um maravilhoso rio, em cujas margens viam-se enormes árvores. 
 
E nenhum lugar poderia ser tão igual ao imaginado Guajupiá eterno do que um Rio de Janeiro ainda virgem.
 
 
 
NASCE UM KARIÓKA
Chemembuira rakuritim, chemebuira rakuritim (eu já vou parir, eu já vou parir)
 
Nasce um tupinambá. Ritos e tradições serão seguidos, para assegurar bons presságios. Unhas de onça e garras de águia, ornarão o berço-rede, para garantir que nada de mal lhe aconteça.
 
Pai, mãe, filhos, avós, tios, tias, primos e primas, se juntam, está formada a maloca, a casa coletiva da tribo. Cercando o okara (grande quintal) se construía uma taba. Karióka, a lendária taba tupinambá, surge majestosa à esquerda da paradisíaca baía de kûánãpará. 
 
O homem roçava a terra, plantava, fabricava canoas, arcos, flechas, tacapes, adornos de penas multicoloridas. Eram eles os responsáveis pela segurança das tabas.  E sua função primordial era a de ensinar a arte da guerra.
 
Às mulheres eram imputadas as rígidas tradições e responsabilidades tribais, cuidavam da horta, participavam da pesca, fiavam algodão, teciam redes, fitas para amarrar nos cabelos e faixas para amarrar as crianças, trançavam cestos em junco e vime, manuseavam o barro para produzir panelas, vasilhas e potes, e mantinham acesos os dois fogos junto a rede do chefe da família. Eram o sustentáculo para o "esforço de guerra" tão cultivado pelo tupinambás.
 
Aos mais velhos cabiam repassar oralmente as histórias, o saber, e as orientações do que deveriam fazer, aos ainda jovens, em cada fase de sua vida.
 
Os tupinambás acreditavam que o homem tinha duas substâncias essenciais: uma eterna e outra transitória e ambas, o corpo e a alma, estavam ligadas.
 
 
 
KAÛÍ, A BEBIDA "DOS DEUSES"
 
Ó vinho, ó bom vinho! Jamais existiu outro igual!
Ó vinho, ó bom vinho! Vamos beber à vontade.
Ó vinho, ó bom vinho! Ó bebida que não dá preguiça!
 
Peguem as canoas! Passem pelas tabas: Yabebira – a aldeia maracanã, a do Peixe Pirá, de Eiraiá – atual Irajá - e sigam em direção a Guirá Guaçu, a aldeia com nome de águia, porque a festa vai começar!
 
Ao som dos marakás, chocalhos, flautas, tambores, pífanos e apitos, cantamos e dançamos. Tem que ter Kaûi ou Cauim, o licor sagrado que tanto adoramos.
 
A bebida era feita de raízes e frutos. As propriedades inebriantes do cauim eram feitas pela mastigação, e esse processo era considerado místico. Só mulheres, as mais lindas e puras, podiam participar da fabricação do "vinho". Os tupinambás eram beberrões respeitados e era difícil acompanhá-los. A festa poderia durar vários dias, enquanto houvesse bebida, porque disposição para consumi-la não faltaria.
 
... E todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado. Então veio castigo...
 
Um Rio teve que acabar para que outro pudesse surgir. Como poderia ter sido se tivéssemos respeitado a diversidade étnico-cultural? Enterrados no esquecimento perdemos o elo com nossa ancestralidade primal, perderam eles, perdemos nós, absurdamente privados dessa experiência!
 
 
GUAJUPIÁ, O QUE FIZEMOS DE TI?
 
Essa coisa do azul sobre o azul
Da calma sobre a calma
Às vezes me cansa
Às vezes me acalma
Eu paro no sinal vermelho
Uns pedem dinheiro
Uns sacam o revólver
Um outro expõe a própria dor
Segue o asfalto
Metálico fluxo
Saudade é um retrovisor
 
Há que se fiar no sol
E cultivar a luz
Purificar o pus
Deus
 
Assisto a vitória do bronco, do bruto
Do sínico e da servidão
Segue o espetáculo
No estádio, na tela
Parlamentam sobre a escrotidão
Mas quando a tribo invadir a floresta
Subindo até o Sumaré
E deslinkar a torre, o Brasil
Meu mano então como é que é?
 
Há que se firmar na terra
O teto, o viaduto
Proliferar o fruto
Deus
(em memória - letra da música "Palas Superficiais", de Marco Jabu)
 
 
"Cavam em busca de uma coisa
Que se sente estar profunda
Mas que foge e se esquiva
Quando chega à superfície
Uma coisa que está ali
Numa terra de mistério". 
(Poema de Joaquim Cardozo)                                                                                 
                                                                         


Autores: Renato Lage e Márcia Lage
 
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
- O RIO ANTES DO RIO
Autor: Rafael Freitas da Silva
Editora: Babilônia
 
- O POVO BRASILEIRO
Autor: Darcy Ribeiro
Editora: Companhia de Bolso
 
- DUAS VIAGENS AO BRASIL
Autor: Hans Staden
Editora: L&PM Pocket Descobertas
 
- Documentário Guerras do Brasil.doc – episódio 1 (NETFLIX)
Criação: Luiz Bolognesi

SINOPSE | Estácio de Sá: "Pedra"



A pedra, para o ser humano, representa a permanência do tempo. A camada externa e dura da Terra, a rocha.

A beleza sólida desse material é a essência de nosso planeta. E foi essa beleza sólida que nossos ancestrais usaram como caminho para registrar suas passagens pelo mundo.

Descobriu-se a beleza dos diamantes, de tantas pedras preciosas ou semipreciosas e do ouro. Foi esta uma das primeiras atividades de exploração dos homens no Brasil, mais precisamente em Minas Gerais, no século XVIII. A partir de 1771, criou-se a Real Extração, sob o controle da Coroa portuguesa, decreto que durou até mesmo depois da Proclamação da Independência. Foram as primeiras pedras que trilhamos no nosso caminho.

E vamos seguir pela estrada de Minas, pedregosa…

O poeta Carlos Drummond de Andrade nasceu e cresceu em Itabira, em Minas. Da janela de seu quarto, costumava observar o perfil montanhoso cujo destaque era o pico do Cauê. ‘’Chego à sacada e vejo minha serra, a serra de meu pai e meu avô, a serra que não passa … Essa manhã acordo e não a encontro britada em bilhões de lascas…”

Fora-se a Pedra, engolida pelo enorme trem, fora-se a pedra do poeta.

Outro escritor mineiro, Guimarães Rosa, enfocou “a biodiversidade do cerrado e o relevo constituído pelo calcário, rocha maleável e moldável pela ação das águas. O Morro da Garça só emite recados porque é uma pirâmide no meio de Minas e de uma história imemorial do garimpo, da pecuária, dos boiadeiros viajantes e da surda vidência sertaneja.”

Outra pedra que faz parte do nosso caminho é a Serra dos Carajás. Recebeu o nome de seus antigos moradores – os índios Carajás. Segundo suas crenças, eles nasciam do interior do solo – solo rico e pedregoso, repleto de grutas. Quando nasciam, saíam desse mundo subterrâneo para ir habitar a superfície.

A região é uma pedra enorme toda feita de ferro, e em seu entorno nascem pequenas cidades. Segundo uma artesã do Centro Mulheres de Barro, na cidade de Parauapebas, surgiram muitos conflitos por aquele rico pedaço de chão.

A própria cidade é um amálgama de pessoas vindas de todos os cantos do Brasil. Vêm do norte e do nordeste, do sul e do sudeste, vêm do centro e vêm do leste. Todas sonhando em extrair daquela terra as muitas riquezas que ela guarda. E acabam também formando uma amostra da variedade do povo brasileiro.

A rocha mais antiga que conhecemos uma lasca com pouco mais de dois centímetros, foi coletada na Lua pelos astronautas da nave Apollo. Tem quatro bilhões de anos.

A nossa Terra, vista da Lua, ainda é linda, azulzinha… Até quando?





Rosa Magalhães

Bibliografia consultada:
Cosmologia e Sociedade Karaja - André Amaral de Toral - Universidade Federal do Rio de Janeiro
Museu Nacional - 1992 - pags 145 a 162.
Pedra – O Universo Escondido – Denise Milan – S. Paulo – Bei Comunicação – 2018.
Maquinação do Mundo – Drummond e a mineração - Wisnik, José Miguel – 1a. edição-S. Paulo
– Companhia das Letras- 2018
Mitos e Lendas Karajás - Peret , João Américo - Rio de Janeiro 1979.
A margem do projeto ferro carajas - uma pequena contribuição a história social e cultural de Parauopebas  Rocha, Avon Jose Araujo - 1980 – 2009
A história de Parauopebas Força e Trabalho em Carajá - Miguel Angelo Braga Reis - 2016

sábado, 3 de agosto de 2019

De cabo a rabo: os 14 enredos do carnaval de São Paulo


Por Juliana Yamamoto e Luiz Felipe de Souza
Chegou a hora de conhecer os 14 enredos que as escolas de samba do Grupo Especial levarão para o Anhembi no próximo carnaval! Com uma atenção particular à pertinência cultural, é possível perceber o esforço das escolas para fugir de temas subjetivos e que, por algum tempo, marcaram a festa paulistana, aliando narrativas de cunho histórico a mensagens de tolerância e de diversidade.

Em ordem dos desfiles que cruzarão a sexta e o sábado de carnaval pela pista, o Carnavalize preparou um resuminho sobre o que cada escola de São Paulo defenderá no primeiro ano da próxima década, de 2020! Se liga aí e não deixe de carnavalizar com a gente:

Vice-colocada do Acesso 1 em 2019, a Barroca Zona Sul abrirá o carnaval com o enredo “Benguela... A Barroca clama a ti, Tereza!” em homenagem à trajetória de resistência de Tereza de Benguela, importante líder na história negra do Brasil, no quilombo do Quariterê. O tema é assinado pela comissão formada por Rodrigo Meiners, Rogério Sapo e Yuri Aguiar. A escola optou por não realizar uma disputa e encomendou um samba de boa qualidade. Confira aqui:


A Tom Maior também levará uma ode à negritude para a avenida com "É coisa de preto". Segunda agremiação a desfilar na sexta-feira, a escola busca trazer à tona nomes de grandes brasileiros negros e remover o estigma que associa  'coisa de preto' a algo negativo. A partir de personalidades de diversos setores, André Marins projeta a coroação da figura negra por meio daquilo que é essencial: respeito.

Mais feliz do que nunca, a Dragões da Real, comandada por Mauro Quintaes, trará “A revolução do riso: a arte de subverter o mundo pelo divino poder da alegria”. A escola quer cativar novamente o Anhembi, com um tom leve e descontraído, em busca do tão sonhado título e em perpetuar a mensagem de que a alegria e o riso curam.

Diferentemente da Dragões, com uma pegada mais reflexiva e existencial, a Mancha levará para o Anhembi o enredo "Pai! Perdoai, eles não sabem o que fazem!”, aproveitando o complexo contexto contemporâneo de intolerância e violência. Assinado por Jorge Freitas, o tema reconstrói a história da humanidade e reflete sobre as atitudes do homem. Ao reforçar a função social da festa, a Mancha politiza sua mensagem e clama pela autorreflexão em seu desfile. A escola já definiu seu samba. Ouça abaixo:


Já na onda dos enredos CEP (cidades, estados ou países), depois de dois títulos e um inesperado 7º lugar, a Acadêmicos do Tatuapé viajará para Atibaia no enredo “O ponteio da viola encanta... Sou fruto da terra, raiz desse chão... Canto Atibaia do meu coração”. A ideia do carnavalesco Wagner Santos é, as do som do instrumento tradicional do interior, fazer um tour pela cidade e por seus principais pontos turísticos, atividades e aspectos culturais, exibindo a riqueza do povo atibaiense.

O avião sai do município de Atibaia e voa internacionalmente até o Oriente Médio: “Marhaba, Lubñan” é o enredo da Império de Casa Verde! Para contar a história do país do cedros milenares, o Líbano, o carnavalesco Flávio Campello terá o desafio de transpor sete mil anos de história em 65 minutos no Anhembi. Em um tema que, segundo ele, emocionará o público, a escola pretende contar a história do país com todos seus elementos típicos e suas particularidades culturais.

Encerrando a primeira noite de desfiles, a X-9 Paulistana misturará os batuques brasileiros no enredo “Batuques para um rei coroado”. Rendendo homenagem às mais diversas manifestações rítmicas e artísticas do país, a X-9 de Pedro Magoo quer se apropriar da miscigenação do nosso povo e contar a história de como foram formados os principais ritmos que influenciam o samba-enredo. Pelo segundo ano consecutivo a escola encomendou seu samba, e você já pode conferir o resultado aqui:


Campeão do Grupo de Acesso 1 e retornando ao Especial depois de 4 anos, o Pérola Negra abrirá os desfiles de sábado com o enredo “Bartali Tcheran - A estrela cigana brilha no Pérola Negra”. A escola da Vila Madalena contará a história dos ciganos, com um grande tributo a este povo que surgiu há milhares de anos no norte da Índia e que foi brutalmente discriminado e driblador de diversas crueldades. O tema é assinado pelo carnavalesco Anselmo Brito, rumo ao seu quarto ano na agremiação.

Já nas bandas europeias e católicas, “Que rei sou eu?” é o título do enredo que a Colorado do Brás levará para avenida em 2020. Após sua estreia no Grupo Especial, a vermelho e branco sonha agora em alçar voos maiores com a história de Dom Sebastião, um dos personagens mais enigmáticos da humanidade. Uma vida marcada por mistérios, lutas, crenças e sabedoria será mostrada no Anhembi e Leonardo Catta Preta assinará o desfile da agremiação, que já possui o seu samba-enredo:


Sob a batuta da dupla estreante em territórios paulistanos, Paulo Barros e Paulo Menezes, os Gaviões da Fiel terão o amor como enredo. O enigmático título “Um não sei que, que nasce não sei onde, vem não sei como e explode não sei porquê" não revela muita coisa, mas, diante do seu aniversário de 50 anos, a agremiação lembrará de grandes histórias de amor - inclusive a paixão que rege seus torcedores.

“Dos cantos das Yabás, renasce uma nova Morada”, por sua vez, é o título do enredo que a Mocidade Alegre levará para o Anhembi em 2020. A escola do bairro do Limão promete mostrar um canto de esperança para que a humanidade melhore e retome sua conexão com Olorum – segundo a tradição iorubá, o criador do mundo – e, com isso, para que a terra volte a ser um paraíso. O enredo transmitirá a mensagem de que é fundamental reconhecer a sabedoria, a força e o poder feminino, por meio das Yabás, as orixás femininas. O carnavalesco Edson Pereira integrará a comissão de carnaval da Morada do Samba e fará sua estreia pela escola.

O Águia de Ouro, após retornar ao Grupo Especial e terminar na sexta posição no último ranking, reinicia a sua trajetória em busca do primeiro título. “O poder do saber. Se saber é poder... Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” é o título do enredo da agremiação da Pompeia que trará como tema o poder da sabedoria no mundo, por intermédio de suas invenções e os efeitos da falta desse importante elemento na sociedade. Será a estreia do carnavalesco Sidnei França na azul e branco.

“China: o sonho de um povo embala o samba e faz a Vila sonhar” é o último CEP do ano, título do enredo da Unidos de Vila Maria para o próximo carnaval, em que a Vila Mais Famosa exaltará suas tradições milenares, as importantes invenções para o mundo contemporâneo e também o grande poder que o país possui nos dias de hoje. Em 2019, contando a história da nação peruana, a agremiação terminou na quarta posição e agora, para 2020, sonha em alcançar o lugar mais alto com essa viagem asiática.

A responsabilidade em encerrar os desfiles do carnaval de 2020 será da Rosas de Ouro, preenchendo a avenida com os “Tempos Modernos”. Com início na Revolução Industrial e inspirada no histórico e monumental filme de Charles Chaplin, a azul e rosa abordará os avanços tecnológicos do mundo nos últimos séculos mediante uma viagem com o robô ROXP4. O enredo é assinado pelo carnavalesco André Machado, completando seu quarto carnaval na Roseira.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

SINOPSE | Estação Primeira de Mangueira: "A verdade vos fará livre"



“Vou pedir que me levem lá pro céu

Que cada dia chega mais perto do morro

E onde já viram Deus compondo

Um samba para escola desfilar”

(SAMBA de Hermínio Bello de Carvalho e Maurício Tapajós)


A VERDADE VOS FARÁ LIVRE

Nasceu pobre e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular. Sem posses e mais retinto do que lhe foi apresentado, andou ao lado daqueles que a sociedade virou as costas oferecendo-lhes sua face mais amorosa e desprovida de intolerância. Sábio, separou o joio do trigo, semeou terrenos férteis e jamais deixou uma ovelha sequer para trás.

Exaltou os humildes e condenou o acúmulo de riqueza. Insurgiu-se contra o comércio da fé e desafiou a hipocrisia dos líderes religiosos de seu tempo. Questionou o poder do império romano e condenou a opressão. Seu comportamento pacifista e suas ideias revolucionárias inflamaram o discurso dos algozes que passaram a excitar o estado a decretar sua sentença. O fim todos sabemos: Foi torturado, padeceu e morreu.

Séculos depois, sua trajetória ainda anda na boca dos homens e em seu nome, para o mal dito “de bem” – e com rígido contorno de moralidade - muito já foi realizado de forma estanque ao  sentido mais completo do AMOR por ele difundido. O amor incondicional, irrestrito e ágape.

Por isso, quando preso à cruz, ele não pode ser apresentado como um. Ser um, exclui os demais. Preso à cruz, ele é a extensão de tantos, inclusive daqueles que a escolha pelo modelo “oficial” quis esconder.  Sendo assim, sua imagem humana não pode ser apenas branca e masculina. Na cruz, ele é homem e é também mulher. Ele é o corpo indígena nu que a igreja viu tanto pecado e nenhuma humanidade. Ele é a ialorixá que professa a fé apedrejada e vilipendiada. Ele é corpo franzino e sujo do menor que você teme no momento em que ele lhe estende a mão nas calçadas. Na cruz, ele é também a pele preta de cabelo crespo. Queiram ou não queiram, o corpo andrógino que te causa estranheza, também é a extensão de seu corpo.

Sem anunciar o inferno, ele prometeu que voltaria. Acredito que, se ele voltasse à terra por uma encosta que toca o céu - para nascer da mesma forma: pobre e mais retinto, criado por pai e mãe humilde, para viver ao lado dos oprimidos e dar-lhes acolhimento - ele desceria pela parte mais íngreme de uma  favela qualquer dessa cidade. Talvez na Vila Miséria*, região mais alta e habitada do Morro de Mangueira. Ali, uma estrela iluminaria a sala sem emboço onde ele nasceria menino outra vez. Então, ele cresceria entre os becos da Travessa Saião Lobato*, correria junto das crianças da Candelária*, espalharia suas palavras no Chalé* e no "Pindura" Saia*. Impediria que atirassem pedras contra os que vivem nas quebradas e nos becos do Buraco Quente*. Estaria do lado dos sem eira e nem beira estranhando ver sua imagem erguida para a foto postal tão distante, dando as costas para aqueles onde seu abraço é tão necessário.

Se sobrevivesse às estatísticas destinadas aos pobres que nascem em comunidades, chegaria aos 33 anos para morrer da mesma forma. Teria a morte incentivada pelas velhas ideias que ainda habitam os homens. O amor irrestrito ainda assusta. A diferença jamais foi entendida. Estender a mão ao oprimido ainda causa estranheza. Seria torturado com base nas mesmas ideias.

Morto, ressuscitaria mais uma vez e, por ter voltado em Mangueira, saudaríamos a possibilidade de vermos seu sorriso amoroso novamente com o que aqui fazemos de melhor. Louvaríamos sua presença afetuosa com samba e batucada. Vestiríamos todos nossa roupa mais cara. Aquela de paetês e purpurina. De cetim com joias falsas. Desfilaríamos diante dele e, em seu louvor, instauraríamos a lei que rege nossos três dias de folia. Sem pecado, irmanados e em pleno estado de graça.

Explicaríamos nessa ocasião que a cruz pesada que carregamos como fardo ao longo do ano nos é tirada das costas no carnaval. Por ter vencido a morte e sem ter o peso de sua cruz nas costas, ele sorri para a baiana que desce para se apresentar. Ele acena com a mão direita para a passista que amarra a sandália, enquanto a mão esquerda dá a benção para o ritmista que rompe o silencio com a levada de seu tamborim.

Fitando o céu, ele parece ver algo ou alguém acima da linha do horizonte . Sorri, como se pego em meio a brincadeira e se soubesse humano também.  Entendendo que ali ele é rebento e que todos, sem exceção, são seu rebanho; ciente de que o pecado, por vezes, é invenção para garantir medo e servidão, ele pede para que toda essa gente que brinca anuncie enquanto canta sorrindo: A VERDADE VOS FARÁ LIVRE.

 Vila Miséria* Travessa Saião Lobato* Candelária* Chalé* Pindura Saia* Buraco Quente* - Todos os nomes referem-se a localidades ocupadas pela comunidade do Morro da Mangueira.

Rio de Janeiro, Julho de 2019.

PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E TEXTO: LEANDRO VIEIRA

domingo, 14 de julho de 2019

SINOPSE | Unidos de Vila Isabel: "Gigante pela própria natureza: Jaçanã e um índio chamado Brasil"


CARNAVAL 2020 - GIGANTE PELA PRÓPRIA NATUREZA:
JAÇANÃ E UM ÍNDIO CHAMADO BRASIL

SINOPSE DE ENREDO

Abriram-se as margens do rio ao sol nascente,
que esverdeava ainda mais a mata e azulava o céu incandescente,
para desvendar uma lenda indígena
que falaria a um pequeno índio-menino sobre uma relíquia.
E com o menino começamos a caminhada...
Perto do rio, o curumim levantou-se cedo – a pesca o esperava!
Animado na alma com a vida na mata,
bebeu escondido aluá e fartou-se com a pupunha da sua mãe que sempre o alimentava.
Beijou-a e sozinho, fingindo ser o homem que ainda não era,
pulou em sua canoa sem destino
rumo à peripécia que, os grandes, espera.
Pelo rio, com riso nos lábios e vontade de alegria na pescaria e na jornada,
o curumim gritava alto às águas para espantar Boiúna, ou tudo, ou nada:

“Eu sou Brasil! Tenha medo de mim!
Aqui quem fala é um pequeno gigante
que já pesca com vontade danada de gente grande!”

A canoa em frente, a flecha armada,
curumim pescava e brincava baixinho para conseguir pegar a jatuarana sem espantá-la.
Com o sol forte da manhã, entretanto,
Brasil resolveu descansar do seu gracejo.
O pequeno deitou-se na canoa embalada pelo banzeiro
e adormeceu para sonhar o sonho dado ao miúdo bravo guerreiro...
A canoa, no mundo da fantasia, transformou-se em Jaçanã e partiu...
Levantou voo do rio e Brasil a tudo assistiu:

“Pequeno menino, quero lhe contar sobre a sua irmã tão mais nova que é quase filha!
Será forte e esperançosa, um ponto de luz no universo que nascerá em abril.
Sabe-se que ela terá muito a dar aos homens e mulheres de boa vontade na terra,
e que será grande, gigante, reta, moderna,
só podendo ser entendida se soubermos sobre sua pátria-família,
a verdadeira mãe e geradora da sua irmã nessa cantiga”.

A Jaçanã, montada pelo menino e com asas batendo forte,
foi primeiro para baixo cruzando serras no céu anil.
Mostrou ao pequeno Brasil um pampa aberto sob as estrelas, enorme!
Lá, irmãos brancos de cabeças amarelas montavam seres mágicos
e galopavam amarrando com laços outros bichos encantados.
Tomavam bebida quente em cuias e, Brasil, espantado, ouviu deles o recado:

“Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
tomba: é a chuva que cai e que, o Paranoá, rega;
e a cada gota, ali, cada gérmen se apega
fecundando, a minar modernamente, toda a terra”.

Jaçanã levantou-se de novo voando para longe
dando adeus aos cabeças-amarelas que apontavam para outro fronte.
Brasil desconfiado não entendia o sonho: seria um delírio?
“Não, pequeno menino meu...” – disse Jaçanã. “É uma profecia!”.
Chegando em outro pedaço daquele mundão, Brasil viu irmãos orando e rodando
pedindo clemência pela dança a Deuses que o índio desconhecia.
O povo preto clamava igualdade e liberdade,
e na dor sofria
sem esquecer nunca a força ancestral que para sempre na resistência lhe caberia.
O povo preto um beijo deu na Jaçanã e ao Brasil declamou um pouco de crença
afinando a profecia:

“são duas asas unidas
de dois pajés construtores nascidas.
Talvez do mesmo arrebol,
vivendo toda a gente no mesmo chão arado e concretado,
da mesma gota de orvalho,
do mesmo raio de sol”.

O menino ainda não entendia... O que era essa tal profecia?
Jaçanã com pressa, pois sonhos têm prazo certo,
decolou e ali perto encontraram outro pedaço de terra
que misturava areia, água salgada e pedra.
A gente irmã suada do litoral também apontava para outro local
e embebida nas cantorias e Novas Bossas suas sinas,
misturando-as com palavras das Minas,
profetizou o futuro do seu passado para o menino:

“‘No princípio era o ermo
eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
no princípio era o agreste:
o céu azul, a terra vermelho-pungente
e o verde triste do cerrado.
Eram antigas solidões banhadas
de mansos rios inocentes
por entre as matas recortadas.
Não havia ninguém. A solidão
mais parecia um povo inexistente
dizendo coisas sobre nada’.
Mas...
‘Para cantar, pelas Duas Asas, de amor tenros cuidados,
Tomem entre vós, do mineiro cacique, a vontade e o instrumento;
Ouvi pois, dos Candangos, o fúnebre lamento;
Se é que de compaixão sois animados’”...

Jaçanã enfim pronunciou:

“Está vendo, menino Brasil, o que essa gente toda conta?
Querem amor e união em uma nova casa pronta!
Modelada por dois pajés, realizada pelo cacique e feita por nobres sofredores Candangos,
com a ajuda e a idealização de tantos outros de agora e de outrora,
será o projeto moderno centro desse chão!
Nova pindorama de árvores retorcidas nascida porque filha dos filhos dessa terra em confraternização!”.

Voou então a ave para outro rincão
para mostrar uma família que tanto padecia
no sol lascado braseiro de testas, Vidas Secas e Severina!
Pés marcados no chão rachado e as mãos apertadas sem brecha,
todos da família oravam de joelhos pedindo esperança e bom agouro,
alguns dos futuros Candangos esses cabras-da-peste.
Quando viram Jaçanã e o menino Brasil, logo correram e apontaram para o Oeste:

“Ave Musa incandescente
do deserto do Sertão!
Forje, no Sol do meu Sangue,
o Trono do meu clarão:
cante as Pedras encantadas
e a Catedral Soterrada,
Castelo deste meu Chão!”.

E, rápida, para o longínquo Centro-Oeste,
onde outros Candangos de lá já aguardavam,
Jaçanã levou o pequeno Brasil.
Pousou no meio daquele cerrado e ela mesma, antes de sumir, sorriu:

“Brasil, no futuro essa profecia se revelará a um Padre-Santo
em outro sonho para se realizar em moderno Piloto Plano!
O que os cabeças-amarelas, os pretos,
os filhos do mar, das Minas e os futuros Candangos recitavam e apontavam
será aqui: sua irmã, o lugar de fé que unirá aquela gente, aquele povo todo,
para o mundo jorrando leite e mel com gosto...
A terra mística no alto desse Planalto
que se levantará tentando nos dar ‘sessenta’ anos em cinco de avanço sem percalço
com tanta gente junta que se esparramarão para além das Asas da casa,
deitando-se até em seu entorno
com as cores das suas culturas servindo de reboco!
Vem, menino Brasil, anime-se! Sua irmã Brasília será ave que voa e rodopia!”.

Deitou-se então no seu jazigo e, abrindo as duas asas,
Jaçanã ao chão se fundiu, o corpo inteiro tornando-se asfalto e magia.
Um pássaro que viraria casa para o Brasil, quem diria?!...
Daí a queda! A volta! Um clarão!
Uma marola sacudiu a canoa e acordou o bravo menino de supetão!
Brasil navegou ligeiro de volta não mais à toa
deixando as jatuaranas animadas na água boa.
Pé na margem, foi correndo contar para sua mãe o sonho da canoa!
“Mamãe, Mamãe! Sonhei com uma profecia!”.
A mãe no chão, sisuda de terra, ouvia...
Pediu calma ao menino, pois também tinha uma linda notícia,
e sorria:

“Filho meu, Brasil pequenino...
Descobri hoje com o xamã que você terá uma irmã!
Em sua homenagem se chamará Brasília!
Uma menina-Brasília que será gigante pela própria natureza!”.

Alma cheia d´água, o menino pressentiu:
sabia que cedo ou tarde sua irmã seria grande como aquele rio
e no futuro a filha da profecia!
Pensou na Jaçanã e feliz decidiu ir brincar:
quem sabe se o destino de todo mundo não é sempre para uma casa voltar? 
Mas, se tudo isso é estória,
fato mais bonito (re)inventado do sonho de um curumim lendário talhado na memória,
a realidade é outra coisa...
Contudo, pede-se licença para imaginar contos de límpida felicidade no Carnaval
para nesses dias acalmar o sofrimento incessante do doloroso real.
Assim, Vila Isabel, canta essa Brasília irmã com o pequeno Brasil e sua Jaçanã,
a doce morada nos dada de encomenda
pelas bênçãos do céu azulado orvalhando o cerrado!
Bênçãos da Aparecida Nossa Senhora,
Padroeira dos filhos do Brasil e da nossa Brasília, desejosas de igualdade generosa!
Livrai-nos, Santa, da dor e do mal,
cravando nas retas da cidade as curvas do coração
desse povo bravo, heroico, sofrido,
estopim da chama da cidade candente de migração...
Ah, Brasília! Pois honrando tua inspiração
que caibam no teu seio muitos Brasis forjados pela oração!
Recebe-nos, Irmã, com lágrimas de misericórdia então
e cuida, enfim, dos gemidos da nação em oferenda,
pois na Sapucaí, só por hoje, saibam todos,
o resto tudo é tudo lenda...

Autores: Edson Pereira, Clark Mangabeira, Victor Marques
Texto e pesquisa: Clark Mangabeira e Victor Marques