segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Processos da criação: João Vitor Araújo - A loteria chamada carnaval


Por Redação Carnavalize

Dando continuidade à nossa série Processos da Criação, o Carnavalize entrevista João Vitor Araújo, responsável pela parte artística do desfile da Unidos de Padre Miguel por dois anos consecutivos. 

O jovem carnavalesco vem de dois excelentes desfiles recentes na Série A e conta para o site detalhes de sua trajetória, da realidade vivida na concepção dos desfiles no grupo e no cenário contemporâneo, além da maneira como desenvolve e encara seu trabalho. 

Então se liga e confere o bate papo do site com um dos nomes de maior destaque da nova geração de carnavalescos da nossa folia!


Carnavalize: Como foi seu início no carnaval? Você era aderecista e chegou a trabalhar com desataques de luxo. Como foi essa trajetória de assistente até chegar ao posto carnavalesco? 

João Vitor: Na verdade, eu não tinha grandes pretensões no carnaval. Eu sempre fui bom, muito habilidoso com fantasias, peças menores, delicadas…. Tudo bem que eu não comecei fazendo fantasia, eu comecei na bancada. Só que eu sempre fui apaixonado por isso, sempre gostei de desenhar, mas via a carreira de carnavalesco como algo muito distante. Era tanta gente boa no mercado na época, tanto os que estavam no auge quanto os que estavam chegando. Eu pensei “até eu conseguir alguma coisa, já terei quarenta, cinquenta, sessenta anos de idade”, então a minha pretensão de fato era abrir um ateliê e trabalhar com confecção de fantasias, que era uma coisa que eu gostava; tinha muita habilidade e, de certa forma, é um setor do carnaval bem rentável. Só que a coisa foi mudando de figura e a cada ano eu fui ganhando mais responsabilidade dentro dos barracões com os carnavalescos que eu trabalhei anteriormente e eu comecei de fato a aprender a fazer de tudo um pouco. Eu posso dizer a vocês que eu já fiz de tudo nessa vida de barracão, já passei por todos os setores. Então ninguém me passa a perna no barracão de escola de samba (risos). Ferreiro não me engana, carpinteiro também não, aderecista, chapeleiro, costureiro…. De tudo eu já fui, então sei como acontece esse processo.

C: E houve alguma dificuldade maior nesse processo?

A grande prova de fogo para mim foi a Viradouro, quando cheguei como diretor artístico em 2012 para produzir o carnaval de 2013, mas anteriormente eu já tinha fechado contrato com uma escola do Espírito Santo, a Independente de São Torquato, como carnavalesco oficial. Não deu certo. Digo abertamente porque foi uma escola que não me deu um real e no final até passagens eu comprava com o meu dinheiro para poder trabalhar e achei aquilo um absurdo; realmente larguei o trabalho no meio do caminho porque aquilo foi algo surreal. 

Fiquei triste porque deixei enredo e projeto bacanas na escola, mas nem tudo foi em vão. Foi a partir desse trabalho que conheci o Gusttavo Clarão, que era presidente da Viradouro, e me deu a oportunidade de ingressar na agremiação como carnavalesco. Foi preciso que eu saísse das minhas origens, do Rio de Janeiro e passar por outro estado para ganhar essa oportunidade na minha cidade.

"O que conta para muitos é você saber desenhar, mas isso é um detalhe só que todo mundo coloca lá no topo."

C: Você falou sobre esse olhar apurado que ganhou por já ter passado por todos os setores de uma escola de samba, algo de grande importância para um carnavalesco. Como foi esse processo de transitar por todos os setores e como isso é uma ajuda para o seu papel atual? 

JV: Em determinados anos eu tive que trabalhar em escolas bem pobres e quando você trabalha em uma escola pobre precisa botar a mão na massa, entende que precisa ajudar os outros profissionais, e por isso eu comecei a observar como aquilo tudo era feito. Claro que eu não sou um expert, que eu não tenho a capacidade de erguer um carro alegórico na máquina de solda sozinho, eu não sou dessa área, mas eu entendo. Não vou pegar uma tico-tico para serrar madeira para erguer uma alegoria toda na carpintaria porque eu não sou marceneiro, entende? Mas eu conheço o trabalho, eu sei mais ou menos como funciona. 


C: Seu olhar como artista foi moldado para olhar o barracão do carnaval como um todo… 

JV: Sim, como um todo, porque isso é importante, é muito necessário. O que conta para muitos é você saber desenhar, mas isso é um detalhe só que todo mundo coloca lá no topo. Na verdade, não é, porque basta você ter boas ideias. O Joãosinho Trinta não desenhava, mas ele sabia o que queria; isso é muito mais importante do que desenhar rosto bonito com feições quase reais, que é o que menos importa. O que vale é ter boas ideias e ter uma pessoa de confiança para desenhar para você, para elaborar um texto, criar um figurino…. O essencial é saber o que você quer. 


C: O carnavalesco é muito mais o profissional que organiza todas as funções, que orquestra tudo isso… 

JV: Sim, ele é o diretor de arte. Exatamente como os grandes estilistas aí fora fazem. Você sabe bem que a Stella McCartney não desenha nada há muito tempo, assim como a Donatela e tantos outros, entende? É dessa forma que acontece no carnaval. Até hoje, eu consigo tocar meu projeto sozinho, desenho, mas quanto maior a responsabilidade menos tempo você começa a ter com esse tipo de atividade porque você precisa dar atenção. Por exemplo: hoje eu trabalho com quatro carros alegóricos; se eu chego no Especial, já são seis, sete, oito alegorias para desenhar. Então você tem um tempo muito curto para trabalhar naquele projeto o tempo inteiro. Daí já surge a necessidade de ter um assistente de figurino, projetista, etc., e por aí vai. Acontece e não é demérito nenhum. 

As fantasias do desfile da Portela de 2016 foram criadas por João Vitor.

"Eu direi do Paulo o que levei comigo. Não que eu não fosse uma pessoa séria, mas fiquei muito mais depois de trabalhar com ele; mais pé no chão, muito mais profissional em todos os sentidos."

C: Você já passou exatamente por esses dois lados: já foi assistente, inclusive desenhou para o Paulo Barros no meio do processo em que você já tinha assinado carnavais solos. Como funciona estar submetido à ideia de uma pessoa enquanto assistente e ter o seu próprio processo criativo, no seu barracão e com seus profissionais? O que você tirou de lição dessas experiências? 

JV: Foi uma lição muito boa. O engraçado é que muita gente me perguntou sobre isso, sobre como é ser carnavalesco um ano e depois ser assistente. Eu falo a verdade: eu precisava de dinheiro, precisava trabalhar e me sustentar; o carnaval anterior tinha sido muito complicado, eu não recebi o combinado como todo mundo já sabe e saí praticamente com uma mão na frente e outra atrás. Eu não tenho vergonha nenhuma de dizer, precisava trabalhar com quem fosse, pagar minhas contas atrasadas, pelo menos viver de forma digna e com a cabeça fria. E foi uma experiência incrível porque existe o João Vitor Araújo antes da Portela e o João Vitor Araújo depois dela. O mais interessante é que já trabalhei com tantos carnavalescos, mas o que importa é você trabalhar com eles, atender as necessidades deles e ainda assim conseguir deixar aquela empreitada para seguir o seu rumo com a sua personalidade. 


C: Falando sobre essa tal personalidade, você se preocupava em passar alguma característica sua mesmo como assistente? 

JV: Eu direi do Paulo o que levei comigo. Não que eu não fosse uma pessoa séria, mas fiquei muito mais depois de trabalhar com ele; mais pé no chão, muito mais profissional em todos os sentidos. Ele é o carnavalesco top, o mais famoso da atualidade, e eu o vi passando por perrengues que às vezes nem eu havia passado, mas ele agia de forma muito natural e objetiva sobre tal problema. Aí eu paro para pensar: se ele, que é o Paulo Barros, está passando por isso, eu vou passar por muito mais. Eu passei a observar como ele tratava aqueles problemas, como ele reagia àquelas dificuldades e o carnaval que ele fazia não ficava para trás pela existência delas. Isso me deu gás, fôlego, energia e experiência e sempre me perguntam por que o carnaval da Rocinha no ano seguinte foi tão bem-sucedido…. Foi experiência, organização, matemática, tudo isso que aprendi por um ano inteiro na Portela me serviu. Parecia que eu estava realmente aprendendo dentro de uma sala de aula e a prova aconteceu no ano seguinte. 


C: Aquele foi um carnaval que definiu a sua carreira, né? 

JV: Exatamente. Eu renasci naquele carnaval. 


C: Dentre esses profissionais que fazem parte da construção de um desfile, sempre chamou atenção você trabalhar com um enredista. Agora você está com o João Gustavo Melo. Como é essa troca de criação? 

JV: Eu acho um barato porque chega um determinado momento que fica impossível trabalhar sozinho. Eu sou muito proativo, me disponho a fazer muitas coisas. Tem carnavalescos que contratam uma equipe para fazer protótipo, para fazer desenho…. Eu não tenho isso porque gosto de fazer as minhas coisas, então tudo acontece ao mesmo tempo. Com isso, eu não consigo dar conta de tudo, e aí é a hora que eu me reúno com uma pessoa de confiança – hoje eu trabalho com o Gustavo, que é um amigo de muitos anos que eu sempre quis trabalhar – e enquanto ele trabalha de um lado, eu trabalho de outro. Eu gosto muito do trabalho dele porque tem uma visão de carnaval de quem é expert, trabalhou muitos anos no Salgueiro, na Viradouro, em São Paulo e olho para ele e questiono se aquilo está bom ou não e ele dará a opinião dele se sim ou não. É muito bom trabalhar com pessoas que conduzem o projeto dessa forma e foi uma delícia porque apresentei a eles o enredo e as possibilidades e viemos montando esses pilares. 


C: E esse processo de escolha de enredo? Parece ser sempre um ponto de partida seu, correto? 

JV: Sim, é muito de acordo com a escola. Quando fiz o Viriato na Rocinha, todo mundo dizia que ele seria caro, que a escola não tinha grana. “Quem disse que Viriato é caro? Viriato era caro quando estava com Joãosinho Trinta. Mas seus carnavais solo eram simples e de bom gosto, era uma boa modelagem, paleta de cores”, eu respondi. Isso foi me ajudando a montar aquele carnaval e equilibrá-lo de forma elegante. Deu certo lá. Quando cheguei na UPM, fui buscar no histórico da escola tudo que ela já havia apresentado nos anos mais bem-sucedidos para que eu pudesse seguir uma linha. No primeiro ano é complicado mudar o estilo; eu tinha várias ideias mas eu não posso fazer uma mudança muito brusca na escola por conta do costume do público, do desfile, e cheguei à conclusão do enredo indígena com o Eldorado Submerso. Esse ano, já mais à vontade com a escola, a história do Dias Gomes, sendo muito cultural e rica, me permite viajar por uma estética menos cara, com mais mensagem. Podem dizer que foge ao que a apresenta a UPM, mas aí é que entra o ponto de que é preciso imprimir um estilo, uma personalidade na escola, e a escolha agradou de certa forma. É muito de acordo com o momento, com a comunidade e envolve sentimento e energia. Eu tinha mil possibilidades para o carnaval de 2019 e Dias Gomes, de fato, era o melhor, era o que a escola precisava no momento. 


C: Já que você desenha suas próprias fantasias, de onde vêm as referências para elas diante de cada enredo? São de dentro ou de fora do carnaval? 

JV: É de fora do carnaval. Eu sou muito ligado à moda, então eu tenho os estilistas favoritos, aqueles que me inspiram. Também gosto de ópera. Hoje eu tenho pouquíssimos livros aqui (no barracão) por conta do problema com chuva, tenho pavor que meus livros fiquem danificados, mas estou sempre comprando livros de óperas, de concertos, musicais e são eles que me inspiram. Claro que sempre adequo ao tema proposto e assisto desfiles antigos. Tenho referência de Rosa, de João (Trinta), do Viriato Ferreira, mas procuro trazer um pouco dessa característica do que eu gosto, do que eu curto, que é a moda.




C: Falando da famigerada crise, como esse momento de escassez interfere diretamente no seu trabalho? 

JV: Eu já sabia que seria assim mas não que seria tão agressiva. Duzentos e cinquenta mil reais para uma escola da Série A é covardia. Exigem da gente - da UPM e de todo o grupo - um padrão elevado, e é impossível fazer essa comparação de dizer que a Série A é o novo Grupo Especial. Não é. Não temos estrutura alguma para esse tipo de comparação. Parte desse valor já estava prometido como carta de crédito, a sorte é que eu tinha um almoxarifado “rico” de carnavais anteriores, a escola tinha um acervo muito bom de casais de mestre-sala e porta bandeira também. Ano passado, quando eu fiz o Eldorado, eu ergui uma estrutura para que ela fosse reaproveitada e, modéstia à parte, eu sei me virar muito bem. 


C: O fato de ter sido um carnaval muito caro gerou muitas possibilidades? 

JV: Sim, sim. Nós vendemos muita coisa, arranjamos um dinheiro legal e o que restou eu consegui extrair bastante coisa. 


C: Você acha que esse cotidiano interfere no seu processo final, então? Parte de uma ideia inicial mas você não tem medo de mudar esse projeto durante um tempo? 

JV: Não, porque faz parte. Na verdade, o carnaval do Eldorado foi o meu segundo projeto na íntegra. O da Rocinha foi o primeiro porque foi exatamente aquilo que eu havia planejado dentro das possibilidades da escola. Anteriormente, eu desenhava seis índios e levava dois, fazia três piratas e não ia nenhum, então não tenho do que reclamar (risos). Mas faz parte da materialização do projeto de todo artista; tem que dar um jeito. 

"Se não houver uma mudança, eu não sei se o carnaval vai existir daqui a cinco ou dez anos. É tanta violência que nossa festa vem sofrendo que se torna quase impossível fazer uma previsão do que eu estarei fazendo daqui a alguns anos."

C: Você falou sobre as referências de moda e transparece a nós o seu apego pelo figurino. Você guarda suas melhores ideias para as alas? 

JV: Eu tenho apego pelo figurino. É engraçado, todo mundo fala disso, geralmente as fantasias, pelo fato de serem em grande quantidade, vira uma coisa maçante e fica um pouco impossível manter a qualidade visual em quarenta, cinquenta fantasias. Eu tenho realmente um apego muito grande, eu gosto de me vestir, gosto de modelar, gosto de ter aquele carinho e contato com o tecido, com a textura e realmente eu tenho carinho e facilidade para tal. Às vezes chegam e dizem “que figurino lindo!”, e falam em João Vitor Araújo porque eu abraço cada um deles, abraço todos, mas sem perder o foco das minhas alegorias. Eu sou apaixonado por isso aqui.



C: Você está indo para o quinto carnaval, e apesar de ser um número relativamente pequeno, já mostra um imaginário dos seus carnavais. Como você enxerga a identidade que está criando? 

JV: É bacana porque são cinco carnavais marcantes, para o melhor e para o pior. No primeiro eu consegui o título de cara, no seguinte a escola foi rebaixada, no terceiro foi um sucesso – a escola não ganhou, mas a repercussão foi boa e jamais imaginada por mim - e na UPM idem ano passado. Tenho certeza que mesmo com toda dificuldade nós conseguiremos levar um carnaval de excelência para a Avenida. E eu digo de coração: eu não sei definir meu estilo. Isso eu deixo para vocês (risos). Eu não sei te dizer, porque ano passado fiz uma temática amazonense, nesse é literário, um outro ano foi carnavalesca de fato, literalmente falando…. Então eu não sei. Trabalhei com Paulo em um estilo futurista, logo acho que mesmo como assistente já transitei um pouquinho por todas as características. 


C: Mas você confirma que sua principal característica é o requinte? 

JV: Ah, eu gosto. Quem não gosta? Eu adoro acabamento, um espelho, um galão a mais. Eu gosto do requinte, da coisa boa, mas o trabalho não é caro; ele é bem feito. Só que eu não gosto daquela coisa entulhada. Mesmo bem requintado, ele é limpo, tem uma mensagem atrás daquela estética visual. Não é porque eu tenho dez esculturas boas e um carro vazio que vou botar as dez ali para impressionar. Impressionar quem? 


C: Para encerrar, você tem em longo prazo sonhos e projetos para realizar na carreira? 

JV: Olha, eu vou ser muito sincero, eu quero ganhar na Mega Sena da Virada e largar o carnaval (risos). Eu digo isso todo ano, meus planos de 2019 foram todos virados para o prêmio da Mega Sena. É uma profissão maravilhosa, só que o carnaval está sofrendo muito, levando uma surra ano após ano. Se não houver uma mudança, eu não sei se o carnaval vai existir daqui a cinco ou dez anos. É tanta violência que nossa festa vem sofrendo que se torna quase impossível fazer uma previsão do que eu estarei fazendo daqui a alguns anos. Eu amo isso aqui e espero que as coisas melhorem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Processos da criação: Leandro Vieira - Da ideia de Brasil ao 'desprojeto' de carnaval



Por Redação Carnavalize

A menos de quarenta dias do início dos desfiles das escolas de samba, o Carnavalize prepara uma série de entrevistas com profissionais da maior folia do mundo!

O “Processos da criação” é movido pela curiosidade em compreender como se dão as maneiras de conceber a arte do carnaval pelos trabalhadores do maior espetáculo do mundo! Para isso, conversaremos com os profissionais sobre suas identidades, o cotidiano de suas funções, as suas perspectivas acerca de seus ofícios e o que mais envolve o processo criativo!

Para começar, apresentamos a vocês o bate-papo do Carnavalize com Leandro Vieira, o talentoso carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira. Simbora!

Carnavalize: Começando pela escolha do enredo, de que maneira a decisão da história escolhida dá o tom visual do desfile? Ela é um ponto de partida da maneira que você ajustará a estética para o desfile? De onde você tira as referências?

Leandro: Ele é fundamental. Eu tiro as referências da minha memória afetiva e dos livros de História, das imagens que ilustraram os livros que eu estudei; dos contornos mais populares que existem em torno dos contornos feitos pelo Victor Meirelles, pelo Pedro Américo, estátuas do Museu Nacional de Belas Artes, das pinturas épicas, da Batalha do Avaí, o grito do Ipiranga, um índio tamoio, a estátua equestre de Dom Pedro, que tem aqueles índios lindos na Praça Tiradentes.... É uma seleção afetiva.


C: O enredo é pautado sobre outros personagens; você tira esses atores da História oficial e coloca no centro outros subalternizados. De que maneira você consegue retratá-los esteticamente?

L: Eu utilizo da estética épica para dar contorno épico a esses personagens que não tiveram isso. É uma tradução simbólica dotada de heroísmo. Algo importante de se falar é que os que são apresentados com contorno épico na narrativa oficial vêm de forma chargista, mais ligada à caricatura e à anedótica. Os que não são exaltados ganham o contorno épico.

Fantasias divulgadas para o carnaval 2019.

C: Sobre as referências das quais estamos falando, sabemos que você retira muitas ideias das pinturas das artes canônica, erudita e popular. Mas o cotidiano da cidade também é uma presença sua, certo?

L: Eu sempre digo isso: eu tenho uma seleção afetiva, ela é da minha memória. Tudo que eu escolho é o que me emociona, é o que de alguma forma fica cristalizado na minha memória. Eu sou um artista que valoriza a questão estética indígena, eu gosto de artistas plásticos, populares ou não, que se debruçaram na construção de signos da cultura afro. Então é a minha seleção, é o meu repertório.

 "Só que hoje em dia existe uma necessidade absurda do rótulo, e estou muito longe de ser o artista que posso vir ou não a ser, sou apenas o rascunho do que posso me tornar."

C: Já que estamos falando mais uma vez de Brasil, você está indo para o quarto enredo na Mangueira. De que forma você acha que eles dialogam entre si? É por ter o país e a cultura brasileira como guia? Você acha que eles podem ser entendidos como um conjunto narrativo?

L: O grande conjunto narrativo disso é o fato de ser desenvolvido por mim porque todos eles são baseados no meu repertório de Brasil e isso já dá uma unidade. Mas de alguma forma, também, eu acho que tem muito do meu pensamento crítico. Então desde 2016, para falar sobre a Mangueira - mas posso afirmar que desde 2015, na Caprichosos -, eu sigo falando do Brasil que eu acredito. Em alguns momentos exaltando. E a escolha do tema que o exalta reflete, para mim, um pensamento crítico. Em outros momentos, me colocando, colocando a minha arte, meu trabalho e meu carnaval em defesa desse conteúdo artístico popular do Brasil, que é o que eu acho que fica mais evidente nos últimos dois anos (2018 e 2019). Isso no sentido de colocar o meu trabalho em defesa do Brasil e da cultura popular, mas que também já estavam presentes em 2016 e 2017, já eram impregnados disso.


C: Partindo para a estética, seu trabalho ficou muito marcado pelo uso de certos materiais e cores com as famosas plumas de acetato. Por mais que haja discordância, as pessoas reproduzem esse tipo de discurso a seu respeito. Em uma formatação estética de desfile de carnaval que já é tão consolidada, era sua intenção criar o tipo de uma linguagem própria ou isso se deu naturalmente?

L: Eu discordo totalmente disso porque eu tenho quatro carnavais – sem contar o próximo – e com quatro carnavais você não é nada, você não é ninguém. Não é o suficiente para você desenvolver uma linha estética, para tomar conhecimento do artista que você é. Não é nada. “Quatro carnavais” é uma condição numérica que só me permite fazer experiências, nada mais que isso. Só que hoje em dia existe uma necessidade absurda do rótulo, e estou muito longe de ser o artista que posso vir ou não a ser, sou apenas o rascunho do que posso me tornar. “Ficou marcado pelo uso das penas de acetato” é reduzir demais. Ano passado eu não usei as tais penas de acetato em nenhum esplendor. Mas será que porque em 2016 e em 2017 eu usei esse recurso, que dialogava para mim com aquele universo que eu estava trabalhando, é uma previsão de que daqui a dois anos estarei usando? A única coisa que eu sei a respeito do artista que eu sou agora, e eu gostaria de seguir com algumas coisas dele, é que eu tenho interesse de continuar falando daquilo que eu acredito. O “verde-água e rosa-bebê” fazia sentido para mim no ano passado, mas esse ano não faz.


C: Mas esses rótulos chegam ao seu conhecimento? Eles te influenciam de alguma maneira?

L: Chegam, as pessoas escrevem nas minhas redes sociais. Eu acho que é uma opinião. Vou dar um exemplo: em 2016, meu carnaval não tinha tons ditos “bebês”. Eu não acho que meu desfile daquele ano foi um desfile em tons pastéis; tinha tons metálicos, terrosos e ficava colorido no final. Claro que algumas combinações com rosa-bebê tinham. Em 2017, o ano do santo, eu acho que tinha um setor rosa, com nuances de rosa. Os outros eram brancos, o último era muito colorido, vermelho com amarelo, azul royal…. O meu carnaval mais bebê foi o último e de alguma forma as pessoas padronizaram meu trabalho assim. Elas tomam uma coisa pelo todo. Mas quando eu fiz 2016 e 2017 eu ouvi que eu era um carnavalesco que só fazia carnavais religiosos. Eu só fiz dois carnavais, mas disseram: “ele só faz carnavais religiosos”. Agora, por 2018 e 2019, eu sou o que só faz enredos críticos (risos) e no fim das contas eu sou o mesmo. É igual o cara que diz que a Rosa é barroca e o Renato é high tech.

"Quem faz o meu trabalho nunca viu um desenho, só no primeiro ano porque eu tinha que apresentar."

C: Falando sobre cor assim, ela parece um elemento fundamental para o seu o processo criativo.

L: Eu sou pintor!


C: Você parte da cor para pensar o todo? Você tem essa noção da primeira ala até a última ala, você faz um desenho de cores ou é de cada momento?

L: Cara, isso é um negócio muito doido, porque a minha construção artística é muito doida. Primeiro, ela não resulta da cartela cromática, não resulta mesmo. Eu fui assistente de carnavalesco durante muito tempo, então eu fiz. Alguns carnavalescos fazem isso; pegam azul, azul escuro, verde água, amarelo…. E desenvolvem tipo a escala cromática da escola e decidem a partir disso o que vão realizar. Eu não consigo fazer isso porque nas minhas escolhas eu estou muito mais preocupado em me agradar do que atender recursos estéticos. E aí, para eu me agradar, eu tenho algumas ferramentas. Uma ferramenta é a forma, outra ferramenta é a cor e outra ferramenta é a escolha dos signos do desfile. E as minhas escolhas todas são em cima disso: a forma, a cor e os signos.



Tudo é particular, mas os signos ganham um contorno mais particular. Por exemplo, em 2016, eu usei o rosto da minha ex-mulher como referência para construção das orixás do carro. Em 2017, eu usei como referência para construção do cristo-oxalá a obra de um artista que eu ganhei de presente no dia em que uma mãe de santo disse qual era o meu orixá de cabeça. Então as escolhas partem de eu olhar e me identificar. Aquilo registra quando eu quero fazer, por exemplo, o setor da umbanda de 2017, que são as escolhas das cores que eu vi e são cores muito longe das imagens que todo mundo tem a respeito de umbanda e candomblé. A cor é importante porque ela tem a capacidade de dar um simbolismo muito grande. O carnavalesco dos tons pastéis de 2018 era o carnavalesco, a pessoa, o humano que tem um entendimento romântico a respeito do carnaval.  E a escolha daquela cartela traduzia a minha interpretação de um carnaval nostálgico.


C: E como uma foto, ela era meio desbotada. De onde vieram esses tons?

L: Isso, que é como eu enxergo o carnaval. E eu sou uma pessoa que se emociona com o carnaval. O de escola de samba me emociona menos, mas o de rua me emociona muito e eu sou folião do carnaval de rua. Uma coisa engraçada a respeito disso é que ano passado eu queria fazer um encerramento apoteótico no desfile de 2018. Todo mundo quer encerrar de forma apoteótica e eu queria. Fiz o que eu achava que era apoteótico a partir das minhas escolhas. Aí eu encontrei, meses depois do carnaval, o Ricardo Lourenço e ele falou para mim: “olha, seu carnaval foi incrível, eu fiquei extasiado com o desfile da Mangueira, mas o final foi triste. Aquilo foi a coisa mais linda que passou naquela noite, mas era de uma melancolia… Era uma melancolia linda mas faltou o arrebatamento”. Eu fiquei com isso na cabeça. Fiquei pensando como a ideia de arrebatamento é diferente. Àquele final, eu fui buscar dentro de mim o que era a apoteose de um carnaval quanto à minha experiência, e a apoteose do meu carnaval sempre foi a Banda de Ipanema na porta da Igreja Nossa Senhora da Paz. Quando ela interrompe a sequência de marchas animadas e toca a sequência de marcha-rancho, porque o Pixinguinha morreu dentro da igreja, eles tocam “Carinhoso”. A partir de “Carinhoso” eles engrenam na sequência de marcha-rancho, como “Máscara negra”, “Bandeira branca”…. Aquilo para mim é apoteótico por causa da ideia da dualidade do próprio carnaval. Isso é inevitavelmente melancólico, mas em mim nunca soou como a melancolia da tristeza, sim como a apoteose da grandeza dos sentimentos. Eu acabei fazendo um encerramento com sabor de marcha-rancho, que era lindo, mas algumas pessoas não entenderam da forma que eu entendo. Se eu errei, eu não sei, mas é a minha verdade e eu prefiro prevalecer com a minha verdade.



C: Seu cotidiano influencia diretamente seu processo criativo… De que maneira você tem esse entendimento?

L: Total. A primeira coisa que eu resolvi foi abolir o projeto. Eu tenho um esboço do que eu vou fazer, mas nenhum funcionário meu trabalha com projeto. Hoje, cada vez mais, isso existe menos. Primeiro porque durante muito tempo eu fui refém do desenho e isso é horrível. Quem faz o meu trabalho nunca viu um desenho, só no primeiro ano porque eu tinha que apresentar. Todos os anos eu faço, mas eles não veem porque eu não dou a eles a oportunidade de interpretar porque quando você entrega um projeto – e o figurino é um projeto –, o modelista, o aderecista, o chapeleiro, o ferreiro…. Eles têm uma experiência vivida e eles costumam interpretar isso a partir dessas suas experiências. Quando eles não sabem o que é, eles estão reféns de mim, entendeu? Eles estão reféns da minha proporção, da minha escolha de material, de onde eu acho que a calça tem que apertar ou não, do tamanho da manga e da gola de arame que eu acho que tem que ter, da minha colocação de plumas…. Eles são reféns. Agora, a alegoria é na base do vai fazer. “Forra isso de verde, agora pinta”. A pessoa não sabe o que vai ter.


C: É uma forma de controlar todo esse processo…

L: Sim, é. Talvez seja por conta disso que se diga que eu consegui desenvolver uma assinatura em quatro anos, porque é meu mesmo, porque literalmente não passa na mão de ninguém.


C: Você consegue ter esse controle até sobre as fantasias que são feitas fora daqui?

L: Todas são feitas a partir do meu protótipo, como casal. Destaque menos, eu não sou chegado a destaque, embora eu ache que os meus são excelentes. Talvez eu não goste de destaque porque eles têm a condição de interpretar. Mas casal não, inclusive em 2017, a duas semanas do desfile, mandei tingir as penas todas de novo porque eu queria que a roupa fosse rosa bebê e ela estava fotografando salmão.


C: Qual é a importância disso? É centralizar? O que tem por baixo desse processo?

L: É me descobrir, eu preciso saber o artista que sou, o que sou capaz de fazer, o que é que eu sei fazer….


C: Isso tem a ver com o fato de você ter passado quase dez anos desenhando, porque de certa forma você não tinha controle sobre aquilo….

L: Nenhum controle, meu desenho estava submetido à interpretação do carnavalesco e aí não tinha a minha cara. Uma ou outra tem mais: Zico, Pará.


C: Falando agora sobre outro assunto que talvez more no seu processo. Você é um carnavalesco dito “da escassez”. Muita gente gosta de falar que você é um carnavalesco “barato”.

L: É, sou. Primeiro porque enxergo a atividade do carnavalesco como isso. Se for diferente disso é cinema, vai fazer cenografia de filme. Eu não faço isso, eu busco sempre olhar para o meu carnaval da maneira que eu fazia e faço ainda a roupa para ir brincar no Bola Preta. É a mesma coisa, para mim não tem diferença nenhuma. Se eu me distanciar muito disso, eu tô fazendo outra coisa. Essa interpretação, essa característica mambembe, do mal-ajambrado…. Eu acho meu carnaval de 2018 o meu melhor carnaval, mal-ajambrado, tudo remendado, eu acho lindo. Esse último carnaval que passou é o carnaval onde eu estou mais presente e que eu mais me diverti. Aquele último setor com fantasia de gorila, só com sobra de tecido do barracão, usar toalha, cortina, sabe? Era o que eu fazia para arrumar minhas roupas para brincar carnaval. Só que, claro, eu não peguei toalha; eu escolhi o tecido toalha, eu escolhi o tecido toalha de banho, o tecido toalha de mesa, escolhi caneca…


C: Falando dessa questão financeira, sempre temos essa frase: “não consegui fazer 80% do meu projeto inicial”.

L: Eu acho que essa é a pior frase que um carnavalesco pode falar. Eu lamento um carnavalesco falar isso porque eu sempre atinjo a totalidade do meu projeto pelo fato de que meu projeto não existe. Se eu tivesse um figurino com duzentas plumas e eu conseguisse fazer dez, eu talvez ficasse um pouco frustrado com isso, mas se eu não tiver pluma, também não tinha no projeto.

"Comissão de frente não é um quesito ligado a mim, eu faço questão de me distanciar porque eu acho que à frente dele tem um artista como eu, que tem liberdade e identidade."

C: O interessante dessa inexistência de projeto é poder sobrepor ideias ao longo do tempo, como daqui até o carnaval transformar algo….

L: Isso para mim é fundamental, se eu fechar o projeto perde a graça rápido. Eu mantenho meu projeto aberto.


C: Teve algum elemento de suas criações que só pensou às vésperas dos desfiles e que fez a diferença no seu carnaval?

L: O judas, no último desfile. Para esse carnaval agora, de 2019, eu mudei e mexi em muitas coisas. Passei por algumas situações pessoais e quis impregnar meu carnaval nessas situações. Pensei: “se eu olhar, vou lembrar, isso aqui foi por causa disso”.


C: Você diria que sua relação no barracão com os profissionais é o que define seu trabalho?

L: Eu tenho que estar (no barracão). Eles brincam que se eu não estiver aqui não tem trabalho. Falo “vamos resolver isso, agora faça dez desse aqui, agora esse...”.



C: Pensando no seu carnaval, a comissão de frente pode estar ou não ligada ao carnavalesco e ela foi o calcanhar de Aquiles dos últimos carnavais da Mangueira. Com a chegada do Rodrigo e da Priscilla, que são o grande gabarito desde 2010, cria-se a expectativa de “como será?”, por eles terem vindo de projetos espetaculosos. Como você acha que seus trabalhos se encaixarão?

L: No meu carnaval a comissão de frente não está ligada ao carnavalesco. Eu acho que a Priscilla e o Rodrigo são artistas contemporâneos, e o meu trabalho é todo em cima do universo contemporâneo também, eu não vejo essa distância. Talvez o processo seja diferente; eles estão acostumados com projetos juntos a outros artistas, não só o Paulo Barros. Comissão de frente não é um quesito ligado a mim, eu faço questão de me distanciar porque eu acho que à frente dele tem um artista como eu, que tem liberdade e identidade. Mas claro que sempre é feito em acordo comigo, tanto é que as comissões dialogam com meu trabalho, existe uma pertinência estética. Em alguns anos eu me meti mais, noutros menos…. Acho que esse ano estaremos bem.


C: Mudando de assunto, de que maneira você acha que o sucesso de seu trabalho está relacionado a uma crise identitária das escolas de samba?

L: Eu só sou o carnavalesco da Mangueira porque as escolas passam por uma crise de identidade. Ninguém nunca vai conseguir me enganar dizendo que eu só me tornei o carnavalesco da escola em 2016 porque meu trabalho era maravilhoso. Eu me tornei porque o carnaval passa por uma crise, os profissionais estão caros e eu era o carnavalesco mais barato disponível naquele momento. Foi a crise que me revelou e continua me revelando. A dificuldade que as pessoas dizem ter de fazer carnaval sem dinheiro existe para quem experimentou um dia fazer carnaval com dinheiro.


C: Você acha então que seus enredos são um tipo de resposta a esse momento em que as escolas estão esvaziadas simbolicamente?

L: É uma preocupação minha não para as escolas de samba, mas para o que elas são e o que devem permanecer sendo.  Eu acho que a escola de samba deve fazer escolhas para assumir a identidade popular mesmo, falar do Brasil. Não o Brasil genérico, mas daquele que acredito; regional, original.


C: O que é o Brasil para você a partir de uma imagem?

L: O Brasil é o povo do Morro da Mangueira. O Brasil é o funk, o samba, a mulher negra, o homem negro, a criança, o idoso, o evangélico. É o umbandista e o candomblecista de lá, é o povo da Mangueira.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

#10YearsChallenge - Desafio dos 10 anos do carnaval do Rio


A internet se movimentou nas últimas horas para fazer o desafio dos 10 anos. Relembrar como você era 10 anos atrás e comparar com quem você é hoje é uma provocação que pode ser difícil para muitas pessoas. 

Alguns famosos caíram na brincadeira, que viralizou com as fotos antigas - geralmente bem vergonhosas - e as atuais do pessoal. O Carnavalize não queria deixar as escolas de samba fora dessa e fez um comparativo entre as agremiações do Grupo Especial do Rio de Janeiro no ano de 2009 e com as projeções e realidades para o carnaval de 2019.

Como será que estavam as escolas 10 anos atrás? Quem vivia bons e quem vivia maus momentos? Confiram!


1- Beija-Flor de Nilópolis



Em 2009, a azul e branca nilopolitana celebrava um vice-campeonato - por pouco não foi tricampeã - com um enredo sobre os banhos. Além de cheiro, de arruda e de gato, a agremiação também teve banho de notas 10 nesse carnaval e nos subsequentes. Há 10 anos, a Beija-Flor tinha nomes que até hoje estão na agremiação, como Neguinho e Selminha e Claudinho. 

Já em 2019, assim como em 2009, a agremiação também desfilará no posto de campeã do carnaval, agora com um enredo homenageando seus 70 anos de história! Além disso, não conta mais com o diretor de carnaval Laíla, e nem com nomes como Fran-Sérgio para a comissão de carnaval. Marcelo Misailidis e Cid Carvalho encabeçam a parte artística da agremiação. 


2- Paraíso do Tuiuti



Paraíso do Tuiuti é, sem dúvidas, a escola que mais variou nesse comparativo! Dez anos atrás, a azul e amarelo de São Cristóvão estava no Grupo A, então organizado pela extinta Lesga, e cantava o famoso Cassino da Urca, local onde já se apresentaram diversos artistas, como Carmem Miranda, Grande Otelo e Emilinha. O local também já foi sede da TV Tupi e de hotéis e hoje abriga o IED (Istituto Europeo di Design) - no qual Maria Augusta e Leandro Vieira já deram cursos relacionados à arte carnavalesca. A agremiação terminou em sétimo lugar, preparando o terreno para seu rebaixamento no ano seguinte. O presidente Thor já estava à frente da escola, que era assinada pelo carnavalesco Eduardo Gonçalves.

Para o carnaval que se aproxima, o panorama é completamente diferente. Tuiuti pisa na pista como atual vice-campeã da elite carioca, após um desfile histórico, e promete mexer com o povo por meio de um ótimo samba-enredo. O carnaval é assinado mais uma vez por Jack Vasconcelos, que se propõe a contar a história do Bode Ioiô, eleito vereador em Fortaleza, em um enredo instigante. 

3- Acadêmicos do Salgueiro



Há 10 anos atrás, o Salgueiro ganhava seu nono campeonato com o marcante desfile “Tambor”. Ao adentrar na história da percussão e do instrumento, a tijucana conquistou o coração do público, da crítica e do júri e teve um justíssimo campeonato capitaneado pela originalidade de Renato Lage. Foi o primeiro título da agremiação desde o famoso “Explode coração” - "Peguei um Ita no Norte" -, de 1993, e o primeiro desfile com Regina Celi na função de presidente.

Dez anos depois, o Salgueiro traz mais um grande enredo - Xangô -, conta com um ótimo samba, mas apresenta uma instabilidade jurídica que, dizem, pode voltar a mexer com as estruturas da agremiação. Até então, Regina Celi não é mais a presidente da escola. Além disso, Hélio e Beth Bejani e Renato e Márcia Lage, que ficaram na agremiação durante um grande intervalo de tempo e estavam à frente dela no campeonato de 10 anos atrás, não estão mais nos comandos da comissão e da estética do Salgueiro. Agora, Sérgio Lobato e Alex de Souza, respectivamente, assumem essas responsabilidades. Será que a escola demorará os mesmos 16 anos para levantar novamente a taça e só se consagrará campeã em 2025? 

4- Portela



A azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira teve uma grande ascensão de 2009 para 2019. No último ano da década passada, ao cantar na avenida um samba sobre o amor, a Portela até terminou o desfile, assinado por Lane Santana e Jorge Caribé, em uma honrosa terceira colocação. Não possuía, no entanto, grande destaque entre as coirmãs, e estava em um período com um histórico de sambas e enredos tímidos. Além disso, o controverso Nilo Figueiredo era o então presidente da Águia altaneira. 

Para o carnaval de 2019, a agremiação vem com uma confiança muito maior do que de dez anos atrás, por conta de seus ótimos sambas e enredos recentes e do título finalmente reconquistado em 2017, após décadas sem faturar o ponto mais alto do pódio. Agora sob comando de Luis Carlos Magalhães na diretoria e sob responsabilidade artística da professora Rosa Magalhães, a Portela se prepara para homenagear um de seus ícones: Clara Nunes. O enredo é desejado há anos por seus integrantes, que prometem cantarolar com força seu bom samba. 


5- Estação Primeira de Mangueira



A Estação Primeira terminou o carnaval de 2009 com o Estandarte de Ouro de melhor samba-enredo, com uma comunidade pulsante e com um dos mais importantes casais de mestre-sala e porta-bandeira da época, Marquinhos e Giovanna, coroado pelo júri. No entanto, seu desfile em homenagem à formação do povo brasileiro, do polonês Roberto Szaniecki, foi marcado por dificuldades financeiras altíssimas, sendo terminado às curvas da Marquês de Sapucaí. No carro de som da verde e rosa, Luizito - falecido em 2015 - dava voz ao guerreiro samba.

Para o carnaval que chega, a Mangueira se encontra em outra fase. Não só um grupo assumiu a responsabilidade de gerir a escola e pagar suas dívidas, como também Leandro Vieira desponta, sendo um dos nomes mais marcantes da narrativa e da plástica mangueirense. O carnavalesco, pelo quarto ano consecutivo, promete um desfile cativante, agora exaltando as histórias que a História não conta, as figuras marginalizadas pelos livros e pelo ensino convencionais. Na comissão de frente, será a primeira vez que os talentosos Priscilla Mota e Rodrigo Negri participam da agremiação. Assim como em 2009, a escola conta com um fortíssimo samba e um casal de mestre-sala e porta-bandeira de raiz mangueirense; Squel Jorgea e Matheus Olivério, respectivamente neta e filho de Xangô da Mangueira. 

6- Mocidade Independente de Padre Miguel



A Mocidade é outra agremiação que vivia uma época muito diferente em 2009. Com um péssimo desfile inspirado nos gênios da literatura brasileira Guimarães Rosa e Machado de Assis, a escola estava sob comando do polêmico presidente Paulo Vianna. O desfile, criado por Cláudio Cebola, contou com pontos positivos, mas sofreu com a forte crise financeira e administrativa que percorria a agremiação. A estrela-guia de Padre Miguel terminou em penúltimo lugar e por pouco não foi rebaixada. 

Agora sob comando de outros profissionais e diretores, a agremiação enfrenta uma fase mais tranquila e estável, de dois bons carnavais consecutivos - um deles campeão - que tiveram dois ótimos sambas. Em 2019, conta com mais uma boa composição e com Alexandre Louzada concebendo seus desfiles, além de Jorge Teixeira e Saulo Finelon responsáveis pela comissão de frente e Wander Pires pelo carro de som. 

7- Unidos da Tijuca



Em 2009, a Tijuca fez um enredo sobre o espaço e o que se passava acima das cabeças da humanidade. De deuses e ET’s às Jornadas nas Estrelas, o criativo desfile teve Lucinha e Rogerinho como casal de mestre-sala e porta-bandeira e foi assinado por Luiz Carlos Bruno, também diretor de carnaval, logrando à escola a nona colocação daquele carnaval. 

Já em 2019, Fernando Horta continua à frente da agremiação, que agora é tetracampeã. Pela primeira vez, Laíla assume a direção de carnaval da agremiação, e também compõe a comissão de carnaval, ao lado de Annik Salmon, Marcus Paulo, Hélcio Paim e Fran-Sérgio. Assim como Fran e Laíla, Jardel Lemos é estreante no pavão e é responsável por sua comissão de frente. Nos microfones, o experiente Wantuir retorna à escola do Borel após alguns carnavais afastado. Ele cantará o samba-enredo que exalta o pão como forma primordial de alimentação. 

8- Imperatriz Leopoldinense 



Há dez anos atrás, a Imperatriz entrava na avenida com o último carnaval da professora Rosa Magalhães na agremiação. Aproveitando a proximidade de seu cinquentenário, a agremiação mostrou que Ramos também faz samba cantando a história da Imperatriz e de entidades como Fundo de Quintal e Cacique de Ramos. O desfile terminou no sétimo lugar. 

A agremiação continua frequentando zonas medianas na tabela. Agora com Mário e Kaká Monteiro como carnavalescos, a diretoria da escola e a diretoria de carnaval se mantêm as mesmas, sob comando de Luiz Pacheco Drumond e Wagner Araújo. Para 2019, propõe outra pegada de carnaval, mais descontraída e ácida, com o enredo “Me dá um dinheiro aí”. 

9- Vila Isabel



No carnaval de 2009, a Vila Isabel celebrava o centenário do Theatro Municipal em um imponente desfile assinado por Alex de Souza, com participação de Paulo Barros - que somou à equipe já durante o processo de criação do desfile. O ótimo carnaval da agremiação tinha samba assinada por André Diniz - em parceria com Serginho 20, Artur das Ferragens e Leonel - e cantado por Tinga. 

Para 2019, a escola retorna a nobreza de seus temas ao homenagear a cidade de Petrópolis, em busca de conseguir novamente patamares mais altos. Tinga também estará cantando pela agremiação após um período afastado e André Diniz também participa da autoria do samba-enredo. Com outra diretoria, Edson Pereira é o carnavalesco da agremiação após uma premiada temporada assinando desfiles na Série A. Na comissão de frente, Patrick Carvalho volta a agremiação, realizando seu segundo trabalho. Além disso, a porta-bandeira Denadir assume o pavilhão da agremiação do bairro de Noel.


10- União da Ilha



Em 2009, a União da Ilha desfilava no então Grupo A e tinha como carnavalesco Jack Vasconcelos, que realizou um carnaval sobre viagens. Pegando carona no tema, com passagem só de ida ao Grupo Especial, a escola foi campeã do acesso há 10 anos e desde então se mantém na elite. O presidente da agremiação, na época, era Ney Filardi.

Agora dirigida por Djalma Falcão, a agremiação mantém Ito Melodia como intérprete. Para 2019, conta novamente com o renomado figurinista televisivo Severo Luzardo para realizar um enredo em homenagem ao estado do Ceará, a partir das obras de Rachel de Queiroz e José de Alencar. Com um samba não tão festejado, a Ilha tenta garantir o retorno ao sábado das campeãs - que não ocorre desde 2014. 

11- São Clemente



Outra escola que estava no acesso há dez anos atrás, a São Clemente tinha como carnavalesco Mauro Quintaes, e Leonardo Bessa como intérprete. O divertido enredo homenageava um dos principais artistas e nomes do circo brasileiro: Benjamin de Oliveira. A preto e amarelo terminou aquele carnaval em quarto lugar, preparando-se para ser campeã do grupo no ano seguinte e ascender ao Grupo Especial.

Para o carnaval que se aproxima, a São Clemente continua sob a chefia da família Almeida Gomes, e apostando em uma reedição de um de seus carnavais mais festejados! “E o samba sambou” traz de volta uma crítica ao destino que as próprias escolas de samba estão contextualizadas, agora atualizada sob a perspectiva do carnavalesco Jorge Silveira. A televisão, os diretores, o troca-troca, os camarotes; tudo será alfinetado. O microfone está sob responsabilidade de Leozinho Nunes, Bruno Ribas e Larissa Luz, e a expectativa para o retorno da porta-bandeira Giovanna para o carnaval - agora ao lado de Fabrício - é grande. 


12- Acadêmicos do Grande Rio



Em 2009, a Grande Rio tinha a estreia de Cahê Rodrigues como carnavalesco da caxiense em um enredo em homenagem à França. Repleta de luxo e de expressões francesas - merci beaucoup, Carnavalizé! -, a tricolor faturou o quinto lugar com microfones nas mãos de Wantuir, e pavilhão sob responsabilidade de Squel e Sidclei.

Dez anos se passaram e a agremiação continua com os mesmos nomes à frente de sua diretoria - Perácio, Helinho e Jaider Soares - e se mantém como grande frequentadora do sábado das campeãs, mas ainda não conquistou seu sonhado caneco. Agora com Renato e Márcia Lage, a agremiação traz um enredo intitulado “Quem nunca...? Que atire a primeira pedra”, após uma polêmica virada de mesa que capitaneou após ser rebaixada no carnaval do ano passado. Evandro Malandro estreia como voz principal do carro de som e Daniel Werneck e Taciana Couto estreiam como primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Grande Rio. 


13- Império Serrano



Após faturar o caneco do Grupo A em 2008, o Império festejava seu retorno ao Grupo Especial em 2009, com uma reedição do histórico “A lenda das sereias e os mistérios do mar”, então assinado pela carnavalesca Márcia Lage. A agremiação não conseguiu se firmar entre as doze do grupo e acabou retornando para o Acesso. 

Em 2019, a escola também abrirá os desfiles de domingo e continua no grupo após a virada de mesa já descrita, que também privilegiou o Império. Com o objetivo de não sofrer do mal do rebaixamento como há 10 anos atrás, a agremiação aposta na transformação da famosa canção de Gonzaguinha “O que é, o que é?” em samba-enredo para trilhar seus caminhos. A ideia surgiu do carnavalesco Paulo Menezes, responsável pelo desfile da agremiação. 


14- Unidos do Viradouro



No carnaval de 2009, a Viradouro tinha o enredo “Vira-Bahia, pura energia”, de Milton Cunha, como chave para defender suas cores no Grupo Especial, onde já se encontrava desde 1991. O enredo cantava entidades, orixás, ingredientes de comidas típicas, combustíveis e demais elementos associados à cultura baiana. A agremiação de Niterói conquistou a oitava colocação naquele ano. 

Dez anos se passaram e a Viradouro procura a estabilidade de seus desfiles e de seu posicionamento na elite da folia, entre idas e vindas. Agora com Paulo Barros, a agremiação traz o imaginativo tema “ViraViradouro” para a Sapucaí, e está investindo fortemente em seu carnaval. Com Zé Paulo Sierra no microfone e Alex Fab e Dudu Falcão como diretores de carnaval, as expectativas são fortes para a agremiação que acabou de subir da Série A, ainda reforçada pelo casal Ruth e Julinho e o coreógrafo Alex Neoral.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Comissão de trás para frente - O que houve com o quesito?

Por Felipe Tinoco
É indiscutível o cenário instável que se encontra o quesito comissão de frente. No Grupo Especial do Rio de Janeiro, para os desfiles que se aproximam, das 14 escolas de samba que desfilarão no domingo e na segunda-feira, apenas duas agremiações continuarão com seus profissionais do carnaval passado. Em outros setores das instituições, como bateria, carro de som, casal de mestre-sala e porta-bandeira e carnavalesco, há uma rotatividade muito menor para o ano que se inicia. 

A volatilidade no quesito, no entanto, não é restrita ao intervalo de 2018 até 2019; há uma mudança constante de profissionais entre as escolas e uma dificuldade acima da média dos demais quesitos de se conseguir a nota 30 pelo corpo de júri - quem dirá a nota 40, sem descarte. Em 2018, apenas a Mocidade Independente fechou os 40 pontos, enquanto em 2017, em 2014 e em 2013, nenhuma agremiação alçou tal feito. Nos últimos sete carnavais, apenas sete trabalhos conseguiram as almejadas quatro notas 10. Ou seja, aproximadamente 8% das comissões de frente apresentadas no grupo de 2012 até 2018 foram classificadas com o maior grau de excelência possível. A tabela abaixo indica quais agremiações, destacadas em laranja, atingiram essa proeza. 

*Em 2017, Mocidade Independente de Padre Miguel, por conta de um equívoco de um julgador de Enredo, após uma intensa disputa política-jurídica envolvendo a Liesa e a Portela, dividiu o título de campeã com a coirmã. Não houve segundo lugar nesse carnaval. 

Diante desse cenário tão curioso quanto incerto, surge a pergunta: o que aconteceu com o quesito comissão de frente? Ao tentar respondê-la, aprofundaremos as questões que envolvem esse setor das escolas de samba.



As revoluções no quesito 
Ainda longe da Era Sambódromo, iniciada em 1984, a Portela inovou em levar para os desfiles do carnaval figuras da escola com fraques e cartolas brindando o público ao início de sua apresentação. Foi na Imperatriz Leopoldinense, porém, em sua mais áurea fase, que o rumo das comissões de frente foi modificado e a perspectiva artística sobre o quesito se expandiu como nunca observado. Capitaneados pelo encontro de sucesso entre a carnavalesca Rosa Magalhães e o coreógrafo Fábio de Mello, a indumentária e os movimentos do grupo à frente da agremiação ampliaram o tom cenográfico para a abertura dos desfiles e transformaram a forma como o quesito era tratado e observado. 

A Imperatriz possuía, até 1991, um grupo acostumado a desfilar na frente da escola, mas Rosa teve a ideia de contratar alguém para coordenar os passos da apresentação para o ano seguinte. Com a resposta negativa do grupo, que se demitiu, o instrutor foi chamado e, em pouco tempo de preparo, mudou a estrutura de apresentação de abertura da Imperatriz, conquistando todas as notas 10 daquele carnaval. Ao longo da década de 90, os figurinos da professora, geralmente marcados com os tons de verde, branco e/ou dourado, conglomeravam-se com a simetria, beleza e originalidade da coreografia de Fábio. As máscaras do sassarico do freguês de 1993, os leques inspirados em Catarina de Médici de 1994, as sombrinhas do jegue nordestino de 1995, as capas de teclado em 1997... Os diversos ícones fizeram com que a plástica nas comissões de frente fosse potencializada a outro patamar. 

Então, dirigentes e profissionais do carnaval passaram a enxergar a necessidade de investimento em comissão de frente e de valorizar sua apresentação para estar em pé de igualdade com as agremiações que apresentavam a vanguarda do quesito. Os Frankensteins da Mocidade Independente (Claudia Ribeiro, 1996), os dançantes malandros mangueirenses (Carlinhos de Jesus, 1998) e um trabalho de caracterização emocionante e inesquecível do século de samba da Mangueira (Carlinhos de Jesus, 1999) foram destaques desse período, enquanto Fábio de Mello continuava a fazer belíssimas comissões na Imperatriz. 

Com o avançar da década de 2000 e da profissionalização do quesito, diversos outros coreógrafos surgiram e se destacaram, e os tripés começaram a dar as caras de forma cada vez mais imponente. Nomes como Carlinhos de Jesus, Ghislaine Cavalcanti e Marcelo Misailidis fizeram trabalhos muito marcantes e as discussões sobre o excesso de espetacularização e glamourização ao quesito já existiam. Não se esperava o que estava por vir, porém, no início da década seguinte. 

Paulo Barros, em 2010, já possuía uma história de intervenção de sucesso nas comissões de frente dos carnavais que assinava, com sugestões, recomendações e um alinhamento do que se apresentava na cabeça da escola com sua proposta de carnaval. Mas foi a partir da comissão de frente do festejado “É Segredo!”, talvez a mais famosa da história do carnaval, que o efeito gerado por uma abertura imponente dos desfiles ficou cristalino. Com o público delirando ao ver a mágica da troca de roupas, a Unidos da Tijuca garantiu seu segundo título - o primeiro na Sapucaí - com um desfile repleto de excelentes momentos visuais e um chão impecável. 

A comissão de frente não só foi inovadora pelo seu efeito como também pela nova interpretação que deu ao regulamento da Liesa. Paulo considerou que o máximo de 15 componentes na comissão eram 15 componentes aparentes, a cada vez que apareciam. O elenco de bailarinos contava com praticamente o dobro desse número, para que fosse possível realizar a troca de roupas ao longo da passarela. Essa ressignificação das regras foi tomada por outras escolas e profissionais, que começaram a esconder seus componentes dentro dos tripés. Eles, por conseguinte, viraram cabines de troca de elenco e de troca de roupa, guichês de preparação, essencialmente coxias. Por vezes, vimos “tripés” (verdadeiramente elementos cenográficos com proporções de carros alegóricos) com tamanhos exuberantes, que não só escondiam o mestre-sala e porta-bandeira, geralmente atrás das comissões, como também eram confundidos com o carro abre-alas. São exemplos desse exagero desproporcional as apresentações vistas na Inocentes de Belford Roxo em 2013, Unidos da Tijuca em 2014, Grande Rio em 2014, Beija-Flor 2014 e Portela em 2016 e 2017.

Além disso, houve um investimento forte para proporcionar os efeitos de “boom” que se deseja nas comissões de frente, com a contratação de serviços de ilusionismo e de tecnologias avançadas para que isso fosse possível. Hoje, entretanto, o quesito se encontra na transição da fase do exuberante-mágico-delirante, surgida em 2010, para outra que não se sabe qual é - e por isso estar nesse caminho requer cuidado. Há nitidamente um freio nos investimentos e nos acontecimentos megalomaníacos nas comissões na maioria das agremiações, mas as cobranças do júri, da mídia, de alguns torcedores e o posicionamento de alguns artistas e dirigentes ainda caminham para a continuidade da inflamação do quesito. 

Comissão da Grande Rio de 2015, responsabilizada a Priscilla Mota e Rodrigo Negri. Foto: Roberto Filho/Getty Images.
Ainda na histórica comissão da Tijuca de 2010, o impacto sugerido por Paulo Barros não seria possível sem a precisão e a originalidade coreográfica alcançada pelos profissionais contemporâneos de maior sucesso de público e de júri no quesito: Priscilla Mota e Rodrigo Negri. No período de 2010 até 2014, em parceria com o carnavalesco, fizeram outros trabalhos que deram continuidade à troca de roupas, como as cabeças que rolavam no medo de cinema, a mola da sanfona de Gonzagão, os poderes de Thor ao exaltar a Alemanha e os truques da corrida de Ayrton Senna. O casamento de sucesso terminou com a saída de ambos da Unidos da Tijuca após o título de 2014, em que o carnavalesco se direcionou para a Mocidade e o casal, para Grande Rio. Paulo até hoje não conseguiu repetir o sucesso de suas comissões sem Priscilla e Rodrigo. O casal, por sua vez, continuou conquistando o público e os jurados na tricolor caxiense, e alcançando o feito de conseguir ao menos as três notas 10 necessárias para gabaritar o quesito durante o período de 2010 até 2017, um marco incrível de 8 carnavais consecutivos. Em 2018, no entanto, os primeiros solistas do Theatro Municipal, ao receberem um 9,9 e um 9,8 (descartado), deixaram escorrer seu primeiro décimo desses anos, ainda que tenham animado a arquibancada com um de seus trabalhos mais originais em homenagem ao Chacrinha.


Os profissionais 
Além de Priscilla e Rodrigo, agora na Estação Primeira de Mangueira, o intercâmbio entre carnaval e o Theatro Municipal - que, em primeiro momento, é relacionado a Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, carnavalescos fundamentais para a história das escolas de samba e da arte brasileira - é visto entre diversos outros nomes que fizeram e fazem comissões de frente. Claudia Motta, Hélio Bejani, Marcelo Misailidis, Renato Vieira e Ana Maria Botafogo são artistas associados ao carnaval e que deixaram sua marca no Municipal. Carlinhos de Jesus, Deborah Colker, Jaime Arôxa e outros nomes reconhecidos da dança brasileira e mundial também passaram e passam pelas agremiações. 

Desses, juntos de Priscilla e Rodrigo, Bejani e Misailidis são os coreógrafos mais festejados nos últimos anos. Já com uma bagagem forte no carnaval, ambos conseguiram alçar o impacto desejado por suas apresentações, alinhados a um forte trabalho corporal. Juntam-se aos dois e ao casal segredo os mais jovens Alex Neoral e Patrick Carvalho, e o também casal Jorge Teixeira e Saulo Finelon. Somente os quatro coreógrafos e os dois casais de coreógrafos, cada um a seu estilo, na soma oficial dos últimos sete anos, conseguiram não perder nenhum décimo em pelo menos um de seus trabalhos. Desde quando o modelo de quatro julgadores por quesito com descarte da menor nota foi implementado, no período de 2012 até 2018, nenhum outro profissional que assinou a cabeça das escolas conseguiu sair da avenida arrancando ao menos três notas 10. 

Comissão da Paraíso do Tuiuti, responsabilizada a Patrick Carvalho. Foto: Leo Correa/AP
Além disso, entre os coreógrafos citados, houve oscilações nesse período, com apresentações não tão bem consideradas e com notas não tão boas entre eles. Há, no entanto, a esperança para que no carnaval de 2019 surjam nomes que tentem desbancar essa barreira, assim como Patrick Carvalho despontou para o júri e ganhou notoriedade ao público com a fenomenal comissão de frente do Paraíso do Tuiuti em 2018. A Unidos da Tijuca aposta em uma novidade que vem se destacando na Série A, Jardel Lemos, estreante no Grupo Especial. Assim como ele, será a primeira vez na elite para Leandro Azevedo (União da Ilha), Fábio Batista (Imperatriz Leopoldinense) e Filipe Moreira e Élida Brum (Paraíso do Tuiuti). É, sem dúvidas, o ano com mais novatos desde bons carnavais. Claudia Motta, responsável pelas duas últimas belas comissões de frente da Imperatriz, é outro nome em ascensão e com expectativa de quebrar essa barreira, agora no Império Serrano. Completam o time para 2019 Sérgio Lobato, que fez São Clemente e Portela nos últimos anos e agora assume o Salgueiro após a saída de Hélio Bejani; o experiente coreógrafo Carlinhos de Jesus, que retorna ao carnaval pela Portela, e Junior Scapin, com passagens recentes pela Mangueira e pelo Império, que terá o desafio de abrir o desfile da São Clemente.


A identidade 
Dentre as equipes citadas, apenas Misailidis e Jorge e Saulo continuam em suas escolas de 2018, respectivamente Beija-Flor e Mocidade. Questões políticas, viradas de mesa, ascensões e quedas proporcionaram uma dança das cadeiras tão intensa. No entanto, é comum se ver uma variação grande no quesito entre as escolas. 

Com a profissionalização, inflação e glamourização do quesito, os coreógrafos deixaram de ser apenas coreógrafos e ganharam o título de “responsável(eis) pela comissão de frente”. A qualificação é coerente, já que esses profissionais e o quesito não dependem mais apenas dos movimentos de seus bailarinos. O figurino e toda indumentária, os “tripés”, as ilusões, os efeitos, a marcenaria, a mecânica, os ensaios, os imprevistos... tudo deve ser levado em consideração, programado, projetado. 

Essa expansão do quesito já apontada provoca a rotatividade grande entre os responsáveis pela comissão de frente, pois é causa da dificuldade em se criar vínculos entre eles e os pavilhões. Dificilmente um nome de comissão de frente é relacionado a alguma agremiação, enquanto em outros quesitos ainda há uma resistência maior dessa relação. Associa-se sem esforço alguns cantores, mestres de bateria e mestres-salas e porta-bandeiras, por exemplo, a determinadas escolas. Por consequência, há uma ausência de identidade fomentada no quesito por essa instabilidade, ainda que os coreógrafos preservem sua forma de trabalhar e sua estilística de apresentações - que não mais são vinculadas às escolas. 


O júri e a crítica 
A instabilidade e essa ausência de vínculos, entretanto, também estão diretamente relacionadas com a maneira com que o júri se porta diante dos trabalhos apresentados, assim como a glamourização talvez excessiva do quesito também é oriunda, dentre outras causas, da perspectiva dos julgadores e dos resultados da avenida dados em nota. 

Em primeiro lugar, as comissões se apresentam em um espetáculo a céu aberto e em tempo real, muitas vezes sem condições de ensaios e de preparação ideais, além de baixos recursos financeiros. Isso tudo torna as apresentações recheadas de riscos e possibilidades de equívocos - que dificilmente deixam de ser considerados pelo júri. O papel picado que não é lançado, a luz que não funciona, o efeito negligenciado pela tecnologia, o tripé que não anda, o bailarino que escorregou na pista... Há uma série de chances de erros para que o julgamento, gerador de culpabilidade excessiva e exageradamente fiscalizador, não se omita em “canetar”. 

O júri, além disso, cobra excessivamente o efeito de impacto que a criação da comissão tem que levar em conta, enquanto a simplicidade não é levada em consideração. Não basta apresentar a agremiação e parte de seu enredo se o júri não se sentir impactado - ou não sentir que os espectadores lá presentes foram. Esse argumento, no entanto, é abarrotado de abstração e de ausência de critérios. Em um julgamento de arte, é possível alinhar a objetividade e a subjetividade na percepção sobre os trabalhos vistos no início de cada desfile. O júri, no entanto, prende-se imensamente a pessoalidades e uma metodologia não bem definida para descontar pontos das agremiações. 

No Manual do Julgador, há uma subdivisão do quesito entre concepção e realização. No primeiro item, é indicado que se leve em consideração “a concepção da comissão de frente e sua capacidade de impactar positivamente o público” e “a indumentária”. Ou seja, na concepção o avaliador deve observar as qualidades da coreografia idealizada e dos trajes da apresentação. No segundo item, é indicado que se leve em consideração “o cumprimento da função de saudar o público e apresentar a Escola” e “a coordenação, o sincronismo e a criatividade de sua exibição, podendo evoluir da maneira que desejar”. Ou seja, na realização o avaliador deve observar se os passos e movimentos da comissão foram bem executados e se eles cumpriram o básico: iniciar a apresentação da agremiação à plateia. 

Note que frases como “podendo evoluir da maneira que desejar” e “capacidade de impactar positivamente” geram controvérsias em uma simples tentativa de compreensão das regras direcionadas aos julgadores. É notável que se dê um grau de liberdade a eles, mas será possível realizar apresentações à altura do esperado com recomendações tão genéricas e frágeis? Os julgadores podem se basear - ou não - sob diversas justificativas, que se tornam válidas e até mesmo coerentes diante de tal cenário. 

Embora poucas notas 10 corram por aí, o júri se mantém estável. Paulo César Morato é o mais experiente julgador ainda em atuação no quesito e é conhecido por justificativas com expressões complexas e um alto rigor artístico. O carnavalesco Paulo Barros já criticou os escritos do julgador, quando ele usou as palavras “orgânico” e “híbrido” ao fazer sua apreciação à comissão da Portela de 2017. Acompanham Morato há quatro carnavais Marcus Nery Magalhães e João Wlamir, que retornou para a avaliação de comissões de frente em 2015 após um período afastado. 

Vale ressaltar, também, que a crítica especializada do carnaval frequentemente entra em conflito com suas escolhas de “melhor comissão de frente” do ano, e também com as próprias notas do júri. O recente projeto de Patrick Carvalho em Tuiuti é uma magnífica exceção. Dificilmente o Estandarte de Ouro, por exemplo, premia trabalhos que conquistaram fortemente o júri, já que seus membros, assim como ocorre em outras premiações, possuem diferente perspectiva e diferente filosofia acerca do quesito. 


E agora, José, o que esperar? 
O cenário instável apresentado não deve ser motivo de negatividade diante do quesito. Em um ideal de carnaval que preze a essência das agremiações, as suas capacidades em contar e exaltar histórias e personagens relevantes e em se portar como instituições de resistência, capazes de promover a liberdade da vida, as comissões devem servir a tal propósito, independentemente de ilusionismos ou não. Os grandes efeitos precisam estar alinhados com a realidade das agremiações, com a proposta das escolas e com a valorização dos valores essenciais das escolas de... samba! 

Nesse sentido, é possível que as comissões continuem arrebatando corações e compartilhem a atenção do público com o recado das agremiações e o canto das comunidades - como foi que aconteceu com o último trabalho de Patrick Carvalho (Paraíso do Tuiuti, 2018), mais uma vez citado. O talentoso jovem conseguiu unir criatividade, originalidade, emoção e adequação ao criar uma apresentação com um pequeno elemento cenográfico e aparentemente sem efeitos megalomaníacos. O semelhante ocorre recorrentemente na Série A. As escolas do grupo coordenado pela Lierj não podiam fazer uso de elementos cenográficos com rodas, e com isso seus coreógrafos foram estimulados a virar e revirar as possibilidades. Isso valorizou não só o ballet e os pés no chão, como também a imaginação para o uso de outros adereços. Em algumas apresentações, inclusive, objetos semelhantes aos conhecidos tripés foram usados, mas sem rodas e carregados pelos bailarinos de forma inusitada. São exemplos o ônibus da Caprichosos de Pilares (Hélio Bejani, 2015), o picadeiro circense da Porto da Pedra (Patrick Carvalho, 2016) e a máquina do tempo da Viradouro (Márcio Moura, 2018). 

Comissão de frente do Império da Tijuca no carnaval de 2013, dirigida por Junior Scapin 
Não há culpa para o exagero que alcançou as comissões de frente - e que parece ter diminuído, como demonstra as ausências de carros gigantescos e a simplicidade que alguns coreógrafos resolveram começar ou retornar a defender. Há, no entanto, responsáveis e causas para que essa problemática e a instabilidade venham à tona. No meio de um sistema de avaliação em que cada décimo é primordial às agremiações, os dirigentes e os coreógrafos do carnaval se pressionam e cobram para corresponder às expectativas do júri, que possuí padrões de análise mal definidos por eles e pela Liga. 

Assim como todo esse contexto é responsável pela intranquilidade do quesito, essas figuras são fundamentais para que seja possível que ele se estabilize e que haja consenso entre o todo. Não há como se vislumbrar uma conjuntura com tais ganhos sem um diálogo aberto, franco e consciente com dirigentes, artistas e o júri. Dessa forma, será possível alcançar uma compreensão do que se deseja para o futuro das comissões de frente.