quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Grupo especial em retrospecto: um balanço da década das escolas que desfilam na segunda




Dando sequência aos nossos retrospectos, voltamos a analisar as oscilações, principais mudanças e acontecimentos de cada escola ao longo da última década do carnaval, iniciada em 2010 e que se encerra nos desfiles que estão se aproximando! 

Agora, falaremos das escolas cariocas que desfilarão na Segunda-Feira! Se você ainda não leu o retrospecto das agremiações que passarão pela Sapucaí no Domingo, não perde essa chance e depois volta pra cá! 

Bora conferir!

1 - São Clemente - Em busca de estabilidade


Primeira escola de samba da zona sul, a São Clemente voltou ao Grupo Especial depois do campeonato que faturou em 2010 na Série A, com o enredo “Choque de ordem na folia”, de Mauro Quintaes, uma retomada de seus famosos carnavais irreverentes. Nada é mais desafiante para uma escola recém-chegada do que se manter no grupo para evitar o tão comum “efeito ioiô”. A São Clemente, logo na estreia, porém, teve a seu favor o fato de que naquele ano não houve rebaixamento por conta do incêndio que atingiu os barracões de três co-irmãs no pré-carnaval. Com os trabalhos de Fábio Ricardo, a escola buscou pisar firme no novo terreno, mas acabou na nona colocação, a última possível daquele ano.



Uma escola familiar, a preto e amarela segue comandada pela família Almeida Gomes desde sua fundação, pelo patriarca Ivo. A família que se espalha em diversos segmentos da escol soube se estruturar e se organizar para se manter no grupo, mas foi a chegada de Rosa Magalhães, durante sua passagem que durou de 2015 a 2017, a responsabilidade pela estabilidade maior à agremiação. Em 2015, fez um maravilhoso e emocionante desfile sobre Fernando Pamplona, gerando expectativas fortes de um retorno ao sábado das campeãs. Mal avaliado pelo júri oficial e exageradamente canetada em alguns quesitos, a agremiação terminou em oitavo lugar. Em 2018, apesar do bom carnaval, falhou em quesitos como harmonia e evolução, que seguem como o calcanhar de Aquiles da escola ano após ano. 

Em 2019, o grande x da questão clementiana é repaginar o enredo “O samba sambou”, já apresentado pela escola em 1990, e convencer as arquibancadas e os jurados que driblou o desnivelamento de seus quesitos de chão, os que mais geram descontos de pontos à escola, além de surpreender para balancear o peso da bandeira no ano de duplo descenso no grupo. A assinatura do carnaval será mais uma vez do talentoso Jorge Silveira. Será que que a sombra do rebaixamento ficará mais longe dessa vez?


2- Vila Isabel - Altos e Baixos


Nada mais fiel ao panorama da escola do bairro de Noel do que o verso “o mundo gira nas voltas da Vila”. Passeios de lá pra cá pelas duas pontas da tabela marcaram a história da Vila Isabel durante a década. Começando o período bem, a Vila era uma escola estável e com vaga certa nas campeãs, seja com homenagens ao compositor Noel Rosa ou aos cabelos. Em 2012, a escola emocionou com Angola, assinado por Rosa Magalhães, e conquistou um terceiro lugar com cheirinho de campeonato moral, com direito a diversas premiações e um ótimo samba com contra-canto. No carnaval seguinte, triunfou majestosamente com “Festa no Arraiá”, uma música pra lá de abraçada pelos foliões, festejada dentro e fora do carnaval, e que deu à Rosa o seu primeiro campeonato da década. 



No entanto, desde o referido título não volta ao sábado das campeãs e segue patinando pelas partes intermediária e baixa da tabela. Com problemas administrativos, a escola chegou a mudar de presidente intensamente e durante todo carnaval, além de sofrem com problemas de gestões que interfiriram diretamente seu barracão. Apesar de Pai Arraia, uma homenagem a Miguel Arraes, ter surpreendido positivamente com mais um ótimo samba, os maiores esforços da escola para se reerguer com carnavalescos do cacife de Alex de Souza e também Paulo Barros não foi suficiente para que conseguisse se renovar e voltar ao auge de suas apresentações. Tentando o retorno pela briga entre as posições mais altas da tabela, em 2019 a escola homenageará Petrópolis, sob comando de Edson Pereira, atual campeão da Série A, agora buscando se estruturar melhor e com um barracão adiantado. Se a quarta de cinzas não traz resultados tão animadores, fica, pelo menos, a bagagem de bons sambas da Vila - assinados por nomes como André Diniz, Arlindo Cruz e Martinho da Vila -, o ponto mais forte desses seus quase 10 carnavais.


3- Portela - A virada da Águia


A Portela é o grande exemplo de quem fez o jogo virar no último decênio. A majestade do samba passou por momentos complicados durante a gestão Nilo Figueiredo: além do incêndio que atingiu seu barracão em 2011, ficou marcada pela falta de planejamento e estrutura, o que gerou uma crise que afastou diversos profissionais da escola, como o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Rogerinho e Lucinha Nobre, e o intérprete Gilsinho, que rumou à Vila Isabel. Apesar dos bons sambas, os desfiles assinados por Paulo Menezes sofreram de grandes problemas de barracão por problemáticas de gestão e financeiras que prejudicaram a agremiação.



Para o pré-carnaval de 2014, com a vitória da chapa de oposição "Portela Verdade", a escola conseguiu iniciar o processo de renovação não só financeira, mas nos quesitos que disputam o carnaval. A reestruturação da Águia de Madureira corroborou com a continuidade nos bons sambas, trazendo a escola para outro patamar também em quesitos como harmonia, evolução e bateria. Além de estandartes de ouro em oito categorias diferentes na década, a Portela conseguiu quebrar o jejum de trinta e três anos de fila. Capitaneada, então, por Luis Carlos Magalhães - após o trágico episódio da morte de Marcos Falcon -, e dirigida por Paulo Barros pelo segundo, a azul e branco ergueu novamente a taça de campeã do carnaval, ao lado da Mocidade Independente.

Para este carnaval, a escola segue o casamento com Rosa Magalhães, que rendeu um bom desfile em 2018, apesar de pequenos problemas na parte plástica. Vale ficar de olho na Comissão de Frente da escola, que, após a saída de Sérgio Lobato, será comandada por Carlinhos de Jesus. Apostando alto em uma esperada homenagem à Clara Nunes, a Águia tem tudo para emocionar a Sapucaí.


 4 - União da Ilha - Estabilidade ameaçada


A União da Ilha regressou ao Grupo Especial com a virada da década e sob as bênçãos de Rosa Magalhães – um verdadeiro amuleto nos últimos carnavais para diversas agremiações – e se manteve novamente entre as grandes com uma simpática apresentação sobre Dom Quixote. Para 2011, ela foi a terceira das escolas que tiveram seus barracões atingidos por um incêndio a poucos dias do carnaval, mas mesmo assim apresentou um belo desfile ao se debruçar sobre as descobertas do mundo biológico de Darwin.



Sob a batuta do talentoso Alex de Souza, a tricolor passeou entre carnavais regulares e boas surpresas. Em 2014, viveu seu grande momento com o enredo “É brinquedo, é brincadeira! A Ilha vai levantar poeira”, de temática infantil e que emocionou a Avenida a partir do trabalho do carnavalesco. Naquele ano, marcou sua primeira e única volta no sábado das campeãs depois da temporada no Acesso, em uma das melhores apresentações da história da escola. Logo em seguida, a tentativa de se manter entre as primeiras não deu certo e a agremiação murchou, contentando-se com as posições do meio para baixo da tabela em apresentações problemáticas, falando sobre beleza e sobre as Olimpíadas – em um carnaval único concebido pela dupla Paulo Menezes e Jack Vasconcelos. 

Dentre os obstáculos insulanos, os sambas medianos comprometeram as notas do quesito e também o rendimento na pista, além dos problemas de enredo que despertavam pouco interesse em sua narrativa. A escola vem tentando achar novamente um rumo desde a chegada de Severo Luzardo, mas parece levemente ameaçada, ainda que tenha feito uma ótima apresentação em 2017, prejudicada por problemas em seus carros alegóricos. Para o carnaval que se aproxima, a nova presidência deverá mostrar o resultado do trabalho que vem fazendo, assim como os novos mestres de bateria, crias da casa, que substituem Ciça, um dos pontos mais estáveis da União nos últimos carnavais.


5- Tuiuti - Também posso ser grande


A grande surpresa desse rol está em São Cristóvão. A Paraíso do Tuiuti teve um início de década delicado, mas conquistou o campeonato do então Grupo B em uma homenagem ao gigante Caetano Veloso. Posteriormente, com a criação da Lierj para o carnaval de 2013, seus desfiles passaram e frequentar a Série A, e dentre seus carnavais, a azul e amarela chegou a reeditar o enredo campeão da Unidos de Vila Isabel de 1988, “Kizomba, a festa da raça”, como forma de se manter na Série A, realizando o primeiro desfile de destaque e surpreendente no grupo, assinado por Severo Luzardo.

Desde a chegada de Jack Vasconcelos, no entanto, foi que a escola deu uma guinada e atingiu um alto patamar de criação artística, por meio da maturidade e do talento desse artista, criador de enredos originais e muito elogiados, hoje reconhecido. Foi ele o responsável por um brilhante – e elogiadíssimo – desfile em 2015 e pelo campeonato de 2016, intitulado “A farra do boi”. O habilidoso artista lançou as bases para a corrida da escola por um estruturação no Grupo Especial, em que desfilará pelo terceiro ano consecutivo, passando de uma estreia marcada por um triste acidente a um vice-campeonato histórico no ano seguinte. 


Enquanto em 2017, ao homenagear a Tropicália, a história tuiutiana ficou marcada por atropelamentos e problemas com seu último carro, diante do Setor 1, o carnaval de 2018 foi o mais relevante de toda história da agremiação, por intermédio de um samba espetacular, uma comissão de frente emocionalmente forte e um enredo altamente inteligente e assertivo. Ele gerou apoteoses na avenida, tanto de catarses típicas de desfiles memoráveis quanto apoteoses de apoio e críticas nas redes sociais.  A gigante repercussão fez o talento de Jack aparecer ao mundo, e a escola correu atrás de se firmar em diversos setores. .

Com bons sambas, o modelo de encomenda adotado pela escola garante sucesso entre a crítica e os jurados, além de empolgar os foliões, ainda que levante justos debates sobre a ausência de disputa. Em 2019, a escola vislumbra manter uma boa posição para estruturar seu futuros carnavais. O enredo, chamado o “Salvador da Pátria”, é a história do bode ioiô, eleito vereador no Ceará no século XX, e mistura crítica ao bom humor.


6- Mangueira - Reinvenção da verde e rosa


Uma das escolas mais tradicionais do carnaval, a Mangueira começou com o pé direito ao garantir a volta no sábado em 2010 e 2011. Com bons sambas, que é um forte quesito da verde e rosa, as boas posições deixaram um pouco a desejar na plástica, em que teve problemas maiores. A escola também passou pela transição da gestão de Ivo Meirelles pra Chiquinho da Mangueira, assim como mudanças no carro de som e em alguns quesitos como casal de mestre-sala e porta-bandeira e comissão de frente. O meio da tabela foi constante e a parte de baixo assustou a escola - especialmente o décimo lugar no chuvoso 2015. 


Em 2016, a chegada de Leandro Vieira mudou a qualidade da escola não só por conta do título que faturou com uma homenagem para a divina Maria Bethânia, mas também pela ótimo processo criativo que envolve enredo, além de quesitos fortes, como o de responsabilidade dos defensores do pavilhão. Até a chegada do artista, a Mangueira sofreu com instabilidades de carnavalescos e passou pela mão de diversos outros nomes, como Cid Carvalho, Rosa Magalhães, Jaime Cesário, Jorge Caribé, Wagner Gonçalves e Mauro Quenates. Foi Leandro, no entanto, que apresentou possibilidades estéticas e temáticas alternativas às predominantemente vigentes no carnaval, fazendo com que a agremiação pudesse manter um alto nível nos quesitos plásticos ainda que vivesse limitações orçamentárias. 

Em 2019, segue mais um ano como aspirante a favorita do pré-carnaval, expectativa reforçada pelo enredo que conta a história subalterna do Brasil e rememora figuras em seu ótimo samba, como Marielle Franco, vereadora e defensora dos direitos humanos brutalmente assassinada em março de 2018, junto com seu motorista Anderson. A contratação dos badalados Priscilla Mota e Rodrigo Negri para comissão de frente, quesito que a escola não gabaritou nenhuma vez nessa década, também sopram bons ventos. 


7- Mocidade – Virada independente 


A Mocidade teve um início de década amargo nas posições mais baixas da tabela e com desfiles pouco inspirados que a deixaram longe das expectativas de renovação de títulos e um longo período fora do Sábado das Campeãs. Ainda que Alexandre Louzada tenha feito uma agradável homenagem ao pintor Portinari em 2012, passando por uma crise administrativa, em 2013 a Mocidade e o carnavalesco realizaram um desfile duvidoso sobre o Rock in Rio, um dos maiores festivais de música da atualidade, terminando em penúltimo lugar. 



Em 2014, ameaçada de não conseguir desfilar, teve o presidente Paulo Vianna afastado por determinação judicial por conta de sua negligência durante a gestão. Wandyr Trindade, o vice-presidente, assumiu o cargo, a família Andrade voltou a dar as cartas na escola, e a pouco tempo do carnaval iniciou-se uma verdadeira virada para conseguir prestar a homenagem a Fernando Pinto, sua criação e seu estado de origem com o enredo “Pernambucópolis” na Avenida, de autoria de Paulo Menezes. A agremiação conseguiu fazer um desfile digno dentro de suas limitações e faturou a nona colocação.

Em 2015, a luz da esperança se acendeu com um desfile inusitado e muito aguardado de Paulo Barros, com direito a fogo na porta-bandeira, mas ficou a uma posição de voltar no sábado das campeãs em uma apresentação morna e influenciada pela grande chuva – que assombrou os desfiles e a concentração de Viradouro e Mangueira. Após mais um desfile complexo e terminado de véspera em 2016, que marcou o retorno de Louzada para a estrela-guia, em 2017, ela brilhou forte e a Mocidade faturou um campeonato com homenagem ao Marrocos. O título foi embalado por um belo samba – ponto forte dos dois últimos carnavais –, a volta de Wander Pires, o efeito de tapete voador na comissão de frente, de Jorge Texeira e Saulo Finelon e uma disputa polêmica pela divisão do título com a Portela, após um equívoco de um julgador de enredo Em 2018, com algumas problemáticas estéticas, manteve-se no sábado das campeãs em sexto-lugar, e em 2019 contará a relação do homem com o tempo, mais uma vez sob o comendo de Louzada.
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