terça-feira, 9 de julho de 2019

Do Setor 1 à Apoteose: Tupinicópolis - Mocidade Independente 1987

Acompanhe toda terça-feira um novo texto da série Do Setor 1 à apoteose, com todos bastidores de um desfile.





Após vencer o campeonato de 1985 com icônico enredo "Ziriguidum 2001 - O carnaval nas estrelas", o carnavalesco Fernando Pinto despediu-se da Mocidade por algumas desavenças com a diretoria da verde e branca. Entretanto, após o fracasso da apresentação de 1986, com o estranho enredo "Bruxarias e histórias do arco da velha", o artista tropicalista marcou seu reencontro com Padre Miguel. Para tentar alçar um voo de proporção ainda maior que a viagem sideral de outrora, Fernando criou um enredo ainda mais ousado e delirante. Nascia, assim, a metrópole retrô-futurista, símbolo do Tupi Power: a grande Tupinicópolis.

Fernando Pinto voltaria à temática indígena quatro anos após tê-la abordado de maneira pioneira, num grito de preservação ecológica em "Como Era Verde Meu Xingu", e de maneira idílica em "Viagem Encantada Pindorama Adentro", em 1973, no Império Serrano. Dessa vez, a ideia era ilustrar uma cidade comum, semelhante a qualquer outra brasileira, exceto fato de ser dominada por índios. Todos os elementos de uma grande metrópole foram representados nas alegorias e alas, aliando ícones da nossa cultura com a temática indígena. Assim, nascia a lendária cidade do terceiro milênio. 

Com cocar na cabeça e patins nos pés, venha passear por esse mundo incrível a partir de agora, na descrição do desfile de ponta a ponta.


"Vejam quanta a alegria vem aí, é uma cidade a sorrir"





A ironia festiva que marcaria o desfile já dava  o ar de sua graça na Comissão de Frente, em que enormes caciques de terno, óculos escuros e malas de couro saudavam o público. A junção de símbolos tão díspares, num misto de crítica social e celebração, pautariam um desfile dúbio e com forte herança do movimento tropicalista, que marcou a arte brasileira nos anos de 1960. O abre-alas marcaria uma grande inovação, apostando numa abertura monumental, já que cinco chassis diferentes formavam uma grande alegoria acoplada e que trazia a primeira visão geral da Taba de Pedra. Depois de inventar o acoplamento na inesquecível Nave Mãe, de 1985, o carnavalesco voltaria a investir na grandiosidade de seus carros. 

Num processo narrativo simples mas cheio de camadas, a cidade indígena passava diante dos olhos do espectador numa série de fragmentos e imagens que parecem ilusórias e alucinógenas. Placas de trânsitos, operários, trabalhadores, caipiras e esportistas; tinha todo tipo de gente em Tupinicópolis. Nas alas, a aposta foi em grandes esplendores de fácil leitura para facilitar a comunicação de tamanha multiplicidade cultural. 


"E a oca virou taba, a taba virou metrópole, eis aqui a grande Tupinicópolis"



Alguns dos maiores destaques do desfile seriam as divertidas marcas locais criadas por Fernando Pinto, abusando de sua irreverência, com nomes de elementos culturais indígenas associados a outras referências dos mais diversos tipos. Nesse processo de justaposição de significados, sugiram as mais inusitadas misturas, como o Supermercado Casas da Onça, em referência a Casas da Banha; o Shopping Boitatá, que representou uma das alegorias mais bonitas daquele desfile, repletos de eletrodomésticos, e produtos divertidos como o xampu Jurema Maracujá. Um grande chafariz de verdade chamava atenção no meio da alegria que apresentava o consumo agressivo e contraditório. Outra febre de consumo era a Farmácia Raoni, repleta de chás para diversas doenças e de várias pajelanças, foi representada em uma das várias alegorias. A ala dos tupiterapeutas, uma mistura de médico e pajé, veio na sequência.

Para fazer tantas compras, a cidade tinha sua própria moeda! No momento seguinte do desfile, o Banco Tupinicopolitano foi mostrado. A moeda vigente no Brasil, então, foi colocada lado a lado do Guarani usado na cidade futurista, onde 500 cruzados valeriam apenas uma unidade da moeda indígena, numa crítica a inflação  que começava a assombrar os brasileiros. A bateria se apresentou belamente vestida de fraques e cocares, com destaque, mais uma vez, para a inesquecível Monique Evans, representando Iracema II, como rainha dos ritmistas. Bira, Jorjão e Léo comandaram a Bateria Nota 10 (assim era chamada naquele tempo), que foi mais uma vez impecável, e Ney Vianna conduziu muito bem samba ao lado de David do Pandeiro. 

"Boate Saci, Shopping Boitatá, Chá do Raoni e Pó de Guaraná..."



Como boa cidade globalizada, Tupinicópolis também tinha seu lazer e muitas foram as alegorias que marcaram o divertimento no lugar. O primeiro a passar na avenida foi o Tupinambá Esporte Clube, que veio representado em verde e amarelo, com bandeiras e uma réplica da taça Jules Rimet, símbolo do futebol. As figuras das Olimpíadas e da miss de Tupinicópolis também foram criações de Fernando. Grandes letreiros luminosos tomaram conta da paisagem do desfile, como de filmes de ficção científica e que começavam a tomar conta das metrópoles, neles se via representado locais como o Cine Marajoara (em cartaz, Iracema II), o Teatro Jacuí, Motel Karajás, as Saunas Amazonas, Gambá Drink’s, Boate Karajás e do Hotel Pirarucu, todos representando a agitada vida noturna da cidade.



Os prazeres da noite de Tupinicópolis trouxeram, ainda, o carro da Discoteca do Saci, com uma pista de patinação quadriculada, efeitos de fumaça, utilizada por índios-punks de patins, óculos escuros e cabelos espetados. O carro tinha um cenário vazado com grandes pistas de danças num formato pouco usado no carnaval carioca. A estrutura modernosa e a imagem síntese de nativos patinando como punks foi um dos grandes marcos do desfile. Depois, a ala do cassino abriu passagem para o carro do luxuosíssimo Cassino Eldorado, com jogos de azar, roleta, dados, cartas e espetáculos com shows de revista. O carro do Bordel da Uiara, o mais procurado pelos endinheirados, veio repleto de índias de topless, rodando bolsinha, com perucas coloridas, meia arrastão, plumas, óculos escuros e uma piranha na cabeça. Outra imagem irônica e multi-cultural que deu o tom da apresentação. 


"Até o lixo é o luxo quando é real, Tupi Cacique, poder geral"


Na sequência dos prazeres e do entretenimento, a força bélica e social da cidade desfile em alas e alegorias. A Prisão Jurupari trouxe prisioneiros com a inscrição 171 no uniforme. Nesse setor, esteve presente o casal de mestre-sala e porta-bandeira Roxinho e Irinéa, que acabou desfilando sem chapéu, o que foi levantado por Fernando Pamplona na transmissão da TV Manchete, fato que poderia custar pontos preciosos.



O pequeno setor que representava a força bélica do lugar começou com um grande letreiro apresentando a Tapioca dos Poderes, de onde surgiram as forças armadas de Tupinicópolis, representadas pelos carros do tatu guerreiro (exército), marreco bélico (marinha) e gaviavião (aeronáutica).



Uma das mais enigmáticas e emblemáticas alegorias do desfile surgiria logo depois. Um teclado de computador e uma tela com o busto de um Cacique representariam a soberania e sabedoria da cidade, programadores do grande cérebro tupiniquim (a Tupi informática). A ideia era mostrar que a grande força da cidade era, na verdade, um sistema operacional, ou seja, os computadores mandavam na cidade. Assim como a mais rebuscada das ficções científicas que faziam muito sucesso na década de 1980.



A ala seguinte trouxe a feijoada tupi na cabeça. Enquanto, as crianças passaram de garis com vassouras na mão. O último carro da escola, Tupilurb, o Lixo do Luxo, representando a limpeza da cidade, trouxe sucata de carros, tevês, geladeiras, escombros e uma réplica de pontos turísticos brasileiros de outrora, como o Cristo Redentor, Elevador Lacerda e Monumento aos Pracinhas; era o lixo do velho mundo. A última alegoria marcava um grande "plot-twister" da narrativa do desfile, mostrando que Tupinicópolis se passava séculos a frente do tempo atual. Na ficção inventada, os indígenas expulsavam os brancos do país e formaram seu próprio lugar.

"Minha cidade, minha vida, minha nação, que faz mais verde meu coração"


Se no aspecto plástico e narrativa, Fernando Pinto havia criado um obra-prima pouco vezes vista na história do carnaval. O quesito de samba-enredo foi um dos mais discutidos daquela apresentação. Tudo começou já em uma disputa acirrada. A obra vencedora desbancou o favoritismo da parceria de Tiãozinho Mocidade, que havia composto o hino campeão de 1985. Optou-se uma canção mais descritiva, que embora alegre e com boa leitura sobre o enredo, deixava a desejar em riqueza melódica. Na apuração disputada, a verde e branco perdeu para a Mangueira por um ponto, num resultado controverso e discutido até hoje. Alguns apontam o samba como fator preponderante.



O segundo lugar ajudou a fixar a apresentação na memória afetiva de torcedores independentes e amantes do carnaval em geral. Até porque, ele seria o último preparado totalmente em vida pelo genial carnavalesco de cabelos cacheados. Em novembro daquele ano, na preparação para o desfile, Fernando Pinto morreria num acidente de carro na Avenida Brasil, voltando da quadra da Mocidade. Para se ter ideia de como a apresentação marcou diferentes estilos e gerações de carnavalescos, ele seria o favorito de artistas como Rosa Magalhães, Jorge Silveira e Paulo Barros. Ganhando ainda diversas releituras e referências no carnaval, como em desfiles na Renascer de Jacarepaguá, em 2010, e na Mocidade Independente, em 2014.
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