segunda-feira, 4 de novembro de 2019

#Efemérides | 1939 - A inovação da Vizinha Faladeira x a tradição da Portela


Por Leonardo Antan


O que o fim de uma década pode dizer sobre os anos que passaram e os que estão por vir? Em 2019, a segunda década do século XIX chega ao fim e marca o aniversário de inúmeros desfiles importantes. Dos trinta anos do histórico embate entre "Liberdade! Liberdade!" e "Ratos e urubus" aos cinquenta anos de "Heróis da Liberdade", dá pra recontar a história das nossas escolas de samba, em síntese, se passarmos por alguns dos desfiles mais importantes da festa. Tentaremos dar conta dessa missão por aqui no mês de novembro. Vem com a gente!


1939 - A inovação da Vizinha Faladeira e a Tradição da Portela


Há 80 anos, dois desfiles emblemáticos aconteciam na Praça Onze, o grande berço do samba carioca. As escolas de samba davam seus primeiros passos, conquistando o povo e os intelectuais da época. Nos primeiros desfiles, a dúvida era cristalina: o que queriam as escolas de samba em meio ao movimentado carnaval do Rio de Janeiro? Dividindo atenção com luxuosas e aristocráticas Grandes Sociedades e os populares e divertidos Ranchos, cabia nas escolas um carnaval espetacular e cheio de requinte visual? Ou valia mais a simplicidade de temas patrióticos que agradassem aos governantes e fizessem os heróis nacionais caírem no samba? 

Essa tensão pode ser vista em duas apresentações que marcaram o último ano daquela primeira década de competição. De um lado, a Vizinha Faladeira deu o que falar ao tentar fazer o primeira tema internacional ao contar a história de "Branca de Neve e os sete anões", baseado no filme animado de Walt Disney. Na briga contra o "estrangeirismo", a Portela deu as bases de um carnaval educacional e politicamente correto com "Teste ao Samba". Era a (hoje conhecida) disputa entre tradição e inovação que já ecoava na festa. Vamos lembrar mais a fundo para saber quem levou a melhor nessa história.  


"Praça Onze, berço das nossas fantasias..."



Os primeiros desfiles das escolas de sambas em nada lembram o espetáculo audiovisual que as mesmas agremiações apresentam hoje no Sambódromo. Quando a primeira disputa oficial realizada entre os grupos foi promovida pelo Jornal Mundo Sportivo, em 1932, os sambistas dos morros e subúrbios se apresentaram para o júri subindo em um pequeno palanque após circular pelo espaço da Praça Onze. Não existiam ainda o cortejo e a pista reta que caracterizaram os desfiles tempos depois; era tudo muito mais improvisado e espontâneo. Assim, não se pode esperar também que houvesse uma unidade entre o apresentado pelos intérpretes e ritmistas, que improvisavam versos, e as fantasias simples de baianas, cabrochas e malandros.

Longe do sucesso que têm hoje, as agremiações ainda disputavam atenção com outras formas de brincar muito mais populares, como os ranchos, blocos, cordões e as Grandes Sociedades. Apesar disso, logo foram aceitas pela sociedade e já em 1935 ganharam um órgão oficial responsável pela administração dos desfiles e as escolas passaram a receber verba pública da Secretaria do Turismo. Ao usarem o ritmo, que fazia sucesso fonográfico na folia, as agremiações surgiram em um contexto de valorização e popularização do samba não só como música típica do Brasil, mas também aliando elementos que já existiam nessas outras manifestações, tentando buscar aceitação social. A estratégia foi muito bem vista pelo governo populista de Getúlio Vargas e os intelectuais modernistas que buscavam criar uma identidade nacional a ser exportada. Nesse jogo de negociações, as escolas de samba souberam ecoar sua gramática dos tambores surgidas na diáspora e valorizar a cultura ancestral negra, enquanto ainda agradavam os políticos e artistas eruditos. Seria essa capacidade de negociação o grande trunfo para perpetuar a longevidade dessas instituições. Foi assim que elas já surgiram verdadeiramente "tradicionais", reafirmando sua ancestralidade negra, trazendo baianas e proibindo os instrumentos de sopro, expurgando qualquer herança estrangeira e se tornando um produto da nossa brasilidade. 


Um vizinha muito exibida



É inegável que todo esse projeto deu certo, mas ele fica ainda mais claro quando pesquisadores resgatam a história da Vizinha Faladeira. Fundada em 1932, na Zona Portuária, trata-se de uma escola inovadora naquela década de 30, trazendo elementos que não eram imaginados no contexto e causaram rebuliço. Já em 1933, no concurso organizado pelo jornal O Globo, a agremiação das cores azul e branco cometeu a ousadia de trazer um automóvel para seu desfile. Com desfiles espetaculosos, apostou em componentes montados a cavalos, automóveis decorados, fantasias de tecidos caros e até iluminação especial. Tanta novidade dividia opiniões dos jurados, público e imprensa. Será que era aquele caminho que queriam as escolas?

A repercussão das inovações da Vizinha faria a União das Escolas de Samba proibir os carros e carretas nos desfiles, alegando que a brincadeira estava se descaracterizando. Veja bem: uma forma de brincar que ainda estava surgindo e mal tinha se entendido direito. Outra proibição que chama atenção foi a impossibilidade de desfilar  histórias internacionais em sonho ou imaginação, marcando a preferência por temas brasileiros. Mesmo assim, ninguém conseguiu parar a escola que se sagrou campeã em 1937, com um desfile feito pelos cenógrafos Irmãos Garrido,  com luxuosas fantasias. Apesar do campeonato, a comissão julgadora destacou em relatório enviado à Diretoria de Turismo que a Portela fora “a única que se apresentou conservando todas as tradições de uma verdadeira escola de samba, enquanto as outras se desviavam, consideravelmente, dessa finalidade”.


Portela: a guardiã da tradição!



Enquanto a Vizinha Faladeira era duramente criticada por importar um modelo muito espetacular para as "singelas" escolas de sambas, uma certa escola azul e branco de Oswaldo Cruz tentava defender toda a "tradição" das recém surgidas agremiações. Cantando sempre temas nacionais e idílicos, ela era liderada por um dos grandes intelectuais cariocas da primeira metade do século XX: Paulo da Portela. O sambista nascido na Zona Portuária, mas que logo se mudou para o subúrbio de Oswaldo Cruz, foi o responsável por tentar colocar fim na discriminação contra os sambistas. A sua arma? A elegância! 

“Pés e pescoços cobertos!” era o que ele dizia, defendendo a ideia de que sambista devia permanecer com uma beca impecável para combater o racismo institucional que marcava o Rio de Janeiro desde a escravidão. Não é à toa que a Portela se tornaria a Majestade do Samba, famosa por sua pompa e bom trato, herdando o estilo inconfundível de seu fundador. Ao contrário da Vizinha Faladeira, a azul e branco investiu em grandes sambas e apresentações sem tantas pirotecnias. Foi assim que conquistou seu primeiro título, em 1935, mas ainda tentava marcar seu território contra escolas como a Mangueira e Unidos da Tijuca. 

1939: o grande duelo! 


O duelo da tradição ancestral da Portela e as inovações da Vizinha Faladeira marcou definitivamente o ano de 1939. Afinal, qual escola definiria os rumos do carnaval dali pra frente? 

Mostrando que a falta de organização também era uma "tradição" das escolas já naquele tempo, o pré-carnaval teve momentos conturbados que não deixaram evidente qual seria o regulamento a ser usado naquele ano, após uma série de discussões na entidade organizadora da festa. O impasse fez o regulamento de 1938 ser reutilizado. Com isso, foram reafirmadas as proibições de instrumentos de sopro, carros alegóricos ou temas estrangeiros, itens que tinham sido explicitamente proibidos no regulamento anterior. Para completar o sarapatel, a divulgação das regras do concurso foi feita apenas 17 dias antes do desfile, restando menos de um mês para as escolas se prepararem para a disputa. Tal falta de organização faria com que algumas escolas decidissem ousar, desfilando com carros alegóricos, fantasias luxuosas e outras novidades.

Foi nessa confusão generalizada que a Vizinha Faladeira tentou inovar com um tema inédito: "Branca de Neve e os sete anões" abordava o filme lançando pelo estúdio Walt Disney como primeiro longa-metragem de animação do mundo. Surpreendendo a todos, a escola arrancou aplausos ao desfilar com 400 integrantes, comissão de frente trajando terno de flanela e polainas, bateria fantasiada, carro alegórico com luzes e anões em volta da Branca de Neve. 

Interessados em valorizar as escolas de samba, os jornais destacavam seu caráter nacionalista, descrevendo-as como “núcleos de cultivadores da nossa música típica, no que ela tem de mais histórico e básico da civilização brasileira” ou como “simpáticas manifestações do folclore nacional”. Comandada por Paulo da Portela, a azul e branco de Madureira preparou para aquele ano o "Teste ao samba", unindo visual e música pela primeira vez. Contra o estrangeirismo, a agremiação também fez uma apresentação com elementos ousados e pouco usuais na época. Aproveitando-se de outras inovações da Vizinha, mas dando a elas aspectos mais líricos. Paulo se transformou no professor e entregou diplomas para os foliões vestidos com becas de estudantes, enquanto o samba também composto por ele cantava "vou começar a aula perante a comissão". 

Arrematando a cena, uma pequena alegoria representando um quadro-negro trazia a simbólica frase: "Prestigiar o samba, música típica e original do Brasil e incentivar o povo". O caráter uniforme e disciplinado da escola em uma apresentação coesa que remetia o militarismo e bons costumes, agradou a todos. Com um show de educação singelo, a Portela se mostrou a escola mais afinada ao projeto de transformar a escolas de samba em produto típico nacional e símbolo da identidade cultural do Brasil. Até hoje, este é considerado o primeiro "samba-enredo" da História. Afirmando o imaginário da azul e branco como uma escola pioneira.

E a grande campeã... foi?


A disputa pelo título começou antes do julgamento. A Portela pediu a desclassificação imediata da Vizinha Faladeira por desfilar com um tema estrangeiro, se valendo das proibições dos regulamentos anteriores. O pedido não só foi aceito, com a Majestade do Samba se tornou a grande campeã, consolidando seu desfile "tradicional" e patriótico. Revoltada, a Vizinha Faladeira não se calou para o ano seguinte e resolveu cutucar com o tema batizado de “Carnaval para o povo”. Assim, no carnaval de 1940, a escola fez um grande protesto, se virando contra o corpo de jurados na hora de sua apresentação. Após passar por trás da cabine, se virou ao povo exibindo uma enorme faixa com os dizeres “Devido às marmeladas, adeus carnaval. Um dia voltaremos”. 

Depois do sucesso que conquistou na primeira década de desfile, a Vizinha Faladeira virou história e enrolou sua bandeira, voltando a ativa somente recentemente. O fracasso da escola estava diretamente ligado a vitória da Portela, ainda mais com a vitória da "tradição" das recém-fundadas instituições contra as inovações e o luxo. Apesar de parecer uma dicotomia, foi a capacidade de reinvenção e adaptação que garantiu o sucesso da Portela, que incorporou o uso de uma alegoria, mas a transformou num objeto de patriotismo, cumprindo diversos interesses. E foi entre essas negociações e trocas que a Majestade se tornou uma das maiores escolas do carnaval brasileiro. 

Símbolo máximo do carnaval, as escolas são fruto da capacidade de reinventar constantemente suas tradições adaptando-as aos interesses da intelectualidade sem perder de vista seus próprios objetivos. 


Que saber mais sobre a história do carnaval? Não perca nossos próximos textos, na quinta vamos direto à folia de 1959.

Referências bibliográficas:
O artigo "Incômoda Vizinhança", de Gabriel Turano e Felipe Ferreira.
A tese "Que carnaval é esse?", de Gabriel Turano.
O livro "Pra tudo começar na quinta-feira", de Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato. 

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