domingo, 15 de dezembro de 2019

QUASE UMA REPÓRTER: Aquiles da Vila e suas composições no carnaval paulistano


Por Juliana Yamamoto

O quadro “Quase uma repórter” está de volta ao Carnavalize. O carnaval 2020 já está batendo na porta e para esquentarmos os tamborins, o entrevistado de hoje é um dos grandes compositores do carnaval de São Paulo: Aquiles da Vila.

Aquiles iniciou sua trajetória como compositor em 2002, na X-9 Paulistana. Depois disso, nunca mais parou, e assim começou a colecionar vitórias na ‘terra da garoa’, principalmente na Rosas de Ouro.

Nessa entrevista pode-se conhecer um pouco de sua história no carnaval, seus sambas favoritos, entender como um samba é composto, bem como sua opinião acerca da nova forma de eliminatórias e a polêmica encomenda de samba-enredo. Confira abaixo:


Carnavalize: Gostaria que você contasse um pouco da sua história no carnaval. Onde começou e como surgiu o interesse em compor sambas de enredo?

Aquiles da Vila: Nasci na Vila Sá Barbosa, uma vila residencial próxima à Avenida Tiradentes, que naquela época era o palco dos desfiles de carnaval. Toda aquela atmosfera fazia parte da minha vida e, assim, foram dados os primeiros passos, como platéia. Na adolescência, comecei a me interessar por música em geral, sobretudo o gênero samba e pelas escolas de samba. Em paralelo, fui assíduo frequentador dos tradicionais bailes de carnaval, o que também contribui com minha formação como sambista. Logo, procurei me aproximar das escolas de samba, e a convite de um amigo, em 2001, fui torcer para o samba dele que concorria na X-9 Paulistana. No ano seguinte, 2002, já migrei para a parceria e concorri na minha primeira eliminatória. Eram 32 sambas e ficamos em sexto lugar.


Carnavalize: Você é um compositor muito famoso na cidade de São Paulo, com vários sambas campeões na trajetória. Existe uma “fórmula” para o sucesso em escrever um samba-enredo?

Aquiles: Eu aprendi com o tempo que um bom samba-enredo é aquele que vai além da sinopse criada pela carnavalesco. Ir além significa propor novos insumos para o desfile. A música - letra e melodia - deve se sobrepor, surpreendendo a plástica da escola, uma vez que o carnaval é audiovisual.


Carnavalize: Para o carnaval 2020, teremos dois sambas seus na Avenida, Dragões da Real e Rosas de Ouro. Como foram as disputas nessas escolas e o que esses sambas representam para você?

Aquiles: Estamos falando de duas escolas que estão sempre brigando pelo título do carnaval. Dessa forma, fica explícita a dificuldade de vencer um samba-enredo. Quanto ao sambas, são temas completamente diferentes, mas ambos possuem um fio condutor que é o ser humano. O enredo da Rosas de Ouro, apesar de parecer tecnológico, é extremamente humano, uma vez que um pequeno robô questiona o futuro da humanidade. Já a Dragões, aborda a cura através do sorriso. São sambas emotivos, mas com pitadas de irreverência onde os enredos pedem. 


Carnavalize: Agora, vamos falar um pouco sobre o processo de composição de samba-enredo. Poderia explicar melhor como funciona a composição de um samba? Desde a explanação do sinopse do enredo pelo carnavalesco, até o momento das reuniões entre o grupo de compositores, a gravação e as eliminatórias?

Aquiles: O carnaval está pronto no papel, feito um projeto de arquitetura, desde abril, maio... É feita uma sinopse que somada a explanação do carnavalesco dá aos compositores insumos para o desenvolvimento. Eu costumo ler a sinopse inúmeras vezes, e depois deixo-a de lado. Com o tempo, tudo aquilo começa a brotar dentro de mim… Muitas vezes parto de letra, sem melodia alguma. Outras, já existe uma melodia que julgamos interessante para o trecho do enredo, e aí há o mágico trabalho de encaixar a letra. Assim seguimos e quando o samba está pronto, partimos para o estúdio, onde gravamos o samba com todas as ferramentas possíveis, para mostrarmos nossa obra da melhor forma.

Aquiles da Vila, desfilando pela Unidos de Vila Maria em 2019


Carnavalize: Qual a sua opinião sobre o novo formato que algumas escolas estão adotando para as eliminatórias de samba-enredo visando diminuir os custos para os compositores?

Aquiles: Para o compositor, com relação a custos, o formato de CD (trata-se de disputa fechada, com audição pelo CD entregue pelas parcerias), de fato é menos oneroso. Para a escola, creio que perde-se financeiramente e em relação à participação da comunidade na escolha do samba propriamente. De qualquer forma, o importante é a escola escolher o que é melhor para o projeto daquele ano. Para isso, se faz necessário uma comissão julgadora capacitada.



Carnavalize: Pra você, qual é o modelo ideal para as eliminatórias de samba-enredo que ajudam os compositores e também as escolas?

Aquiles: O modelo ideal é aquele que respeita o compositor, e sobretudo trata a música com carinho. Samba-enredo é o quesito mais democrático da escola, por isso deve ser escolhido com muita categoria e responsabilidade.


Carnavalize: O que você acha de algumas agremiações encomendarem seus sambas para um grupo de compositores específicos? Você é a favor ou contra a encomenda de sambas-enredos?

Aquiles: Acho super válido, desde que a escola tenha competência e sabedoria para escolher. Não importa o formato da escolha. Como eu sempre digo, as safras, via de regra, são muito boas. Difícil mesmo é a colheita


Carnavalize: Você possui o costume de acompanhar as escolas onde seu samba se consagra campeão, nos ensaios e eventos? Como costuma ser sua relação com elas?

Aquiles: Sempre! Vou aos ensaios e até no barracão. Nesse, costumo inclusive colaborar com um lanchinho e refrigerantes. Acho que isso faz toda a diferença, afinal sou parte interessada no projeto.


Carnavalize: De tantos sambas que compôs, tem algum que é mais especial pra você, que possui lembranças marcantes? (Não precisa ser necessariamente um samba que venceu).

Aquiles: X-9 Paulistana 2006 e Mocidade Alegre 2016. Perdi, mas são sambas que até hoje são muito comentados e lamentados. O de 2006 me colocou no cenário. O de 2016 ganhou um corpo além, devido ao fato de ser um samba muito diferente ao que estava acostumado a fazer. Esse nos colocou em outro patamar de composição. E também Rosas de Ouro 2017, um dos sambas com mais efeitos positivos de desfile, sobretudo pelas dificuldades que a escola vinha passando. O samba já vinha se mostrando forte desde as eliminatórias, mas no dia do desfile tomou uma proporção muito grande.


Carnavalize: Para finalizar Aquiles, qual samba-enredo de 2020 (tirando os seus) te encanta mais e por quê?

Aquiles: Tenho um carinho especial por dois sambas cariocas: Unidos da Tijuca, pela delicadeza da letra e a inovadora melodia. Essa samba me emociona; Estação Primeira de Mangueira, pelo ousado tema e pela forma como os compositores o abordaram. É mais que um samba. É uma causa!
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