quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Tá confuso? Entenda as mudanças do regulamento para o carnaval de 2020

Por Felipe Tinoco

Quer entender as mudanças no julgamento do carnaval de 2020 do Grupo Especial carioca? Quantas notas, quantos julgadores, onde eles estarão?

De 2012 a 2019, o júri das escolas de samba contou com 4 julgadores com notas lidas por quesito, sendo a menor descartada e 3 notas válidas. Assim, desde 2015, com a extinção do quesito conjunto, a maior nota possível é de 270 pontos, feito conseguido apenas pela campeã de 2019.‬

‪Horas antes do início dos desfiles de Domingo, o júri se reúne em um prédio comercial próximo ao Sambódromo e é realizado um sorteio para definir as cabines nas quais ficarão. Até 2019, eles se dividiam em 4 módulos ao longo da avenida nestes setores: 3, 6, 8 e 10.‬


‪Em 2019, uma mudança foi feita para dar mais legitimidade e segurança ao julgamento: ao invés de apenas 4 julgadores por quesito (36 ao todo), o júri contou com 6 julgadores por quesito (54 ao todo), sendo dois módulos com duas cabines, no setor 3 e no setor 10.‬

‪Assim, outro sorteio foi realizado na quarta-feira de cinzas, escolhendo um julgador do primeiro e do último módulo que foram os responsáveis pelas notas lidas por quesito. Os outros 18 julgadores (9 de cada cabine do setor 3 e do setor 10) tiveram suas notas desconsideradas.

‪Em 2020, isso não mais acontecerá. O júri contará com 5 notas lidas, aumentando o tempo da apuração, e serão descartadas a menor e a maior nota, como ocorreu em 2010 e em 2011. Dessa forma, o máximo de pontos válidos possíveis continuará sendo 30 por quesito, e 270 no total.‬

‪Não haverá julgadores reservas, como em 2019. E, diferentemente dos outros anos, os 5 julgadores se concentrarão em três módulos: duas cabines no setor 3, uma cabine no setor 6 e duas cabines no setor 10.‬

‪Esse modelo é semelhante ao adotado em 2017, com o famoso “módulo duplo”, que se localizava no setor 6, diminuindo uma parada obrigatória das escolas para apresentar seus quesitos. Em 2020, também teremos apenas 3 paradas obrigatórias, podendo dar + dinamismo™️ às apresentações.‬

‪No entanto, além de menos pessoas assistindo às apresentações oficiais de segmentos como comissão de frente e casais de mestre-sala e porta-bandeira, esse modelo subvaloriza o meio da avenida, que terá apenas uma cabine das 5 válidas. ‪Buracos que ocorram em frente a um dos módulos duplos, por exemplo, acarretarão em dois descontos, enquanto equívocos que ocorram em frente ao setor 6, apenas um. Já deslizes em frente ao setor 8 não serão canetados, pois não estarão dentro do campo de visão de nenhum módulo.



‪Em 2017, durante a fantástica apresentação da UPM na Série A, cantando Ossain, o incidente com a porta-bandeira Jéssica ocorreu à frente das duas cabines, gerando 2 avaliações negativas sobre sua apresentação. Logo após o carnaval, as ligas resolveram acabar com o módulo duplo.‬

Antes dos desfiles, há um encontro do júri com representantes da Liga. Para 2020, durante as duas próximas semanas, os carnavalescos poderão participar nos dias de curso aos quesitos que possuam associação com seus trabalhos! Será que dará polêmica? 

Só dá Lalá! Das marchinhas de Lamartine Babo aos carnavais da Imperatriz

Por Leonardo Antan




Nascido em 10/01/1904, Lamartine de Azeredo Babo viu sua vida se cruzar com o carnaval diversas vezes. Foi um maiores músicos brasileiros quando o assunto é a folia e quando virou enredo de escola de samba, deu um título marcante para a Imperatriz Leopoldinense em 1981, com um samba que será reeditado agora em 2020.

"Com serpentinas enrolando foliões, dominós e colombinas envolvendo corações"


Nas primeiras décadas do século XX, o rádio era o principal meio de comunicação e ajudou a definir a cultura nacional, encontrando na música popular um expoente fundamental. Nas ondas do som, surgiram artistas fundamentais da nossa história: Lamartine foi um deles!

Sua atuação no Carnaval foi decisiva no momento em que a folia se definia como a grande festa da identidade nacional. O modernismo fez da festa nosso maior patrimônio. Lamartine transformou essa alegria em músicas que explodiram nos dias comandados por momos. Ao lado de João de Barros, Lalá ajudou a criar o que conhecemos como marcha-carnavalesca, que já tinha expoentes como Sinhô e Eduardo Souto, figura que o introduziu nesse universo. As músicas de carnaval eram vitais no contexto do rádio e se tornavam sucessos de rádio e público!


As letras criadas por Lamartine captaram muito bem as necessidades rítmicas (samba ou marcha carnavalesca), melódicas (simples e fáceis de memorizar) e temáticas (muito humor, paródias, crítica do cotidiano) exigidas pela rede formada pela indústria fonográfica e radiofônica. Uma das mais conhecidas é “O Teu Cabelo Não Nega”, hit da folia de 1932, que após o sucesso de outrora provoca diversas discussões entre o movimento negro. Com frases explicitamente racistas, os versos revelam bem como o preconceito era naturalizado naquela época. O que hoje seria inaceitável.

Mas se de folia vivia Lalá, em 1931, em parceria com Ary Barroso, lançou o samba-canção (ou samba de meio de ano) “No Rancho Fundo”. Após ser por Elisa Coelho e por Sílvio Caldas em 1939, tornou-se um grande clássico da música popular brasileira.

"Eu vou me embora, vou no Trem da alegria, ser feliz um dia"


Um trecho famoso do samba-enredo foi traduzido brilhantemente pelo Arlindo Rodrigues em gigantesca locomotiva colorida que soltava fumaça em plena Avenida. A referência é ao programa Trem da Alegria, programa da rádio Mayrink Veiga, criado por Lamartine nos anos de 1940. Foi neste programa, comandado por Heber de Boscoli, que surgiu um desafio para Lalá: compor um hino por semana para clubes de futebol do Rio. Com isso, no final da década de 1940, todos os 11 times que disputavam o Campeonato Carioca já tinham os seus hinos, em um enorme sucesso!‬

‪Sem pretensões extras, ele compôs uma marchinha para o Fla no carnaval de 1945, que acabou virando o hino informal do time, usado até hoje. Assim surgiram os hinos para Vasco, Fluminense, Botafogo, América, Bangu, Madureira, Olaria, Bonsucesso, Canto do Rio e São Cristóvão!‬

O compositor torcia pelo América, e por isso dizem que o hino do clube é o mais belo de todos os compostos pelo artista. Fato curioso é que em 1960, ele festejou o título do Estadual vestido de diabo, desfilando em carro aberto com a fantasia. Foi a última vez que a equipe venceu o torneio.

"Nossa escola se encanta, o povo se agiganta"


‪O desfile de 1981 foi o segundo título assinado por Arlindo na Imperatriz e o primeiro solo da escola, quando Arlindo faturou seu tri, iniciado em 79 na Mocidade. Em 80, levou Ramos ao pódio com “O que é que a Bahia tem?", em um campeonato dividido com Portela e Beija-Flor.‬



‪O casamento com Arlindo consagrou a Imperatriz como uma das penetras que invadiu a hegemonia entre Império, Portela, Manga e Sal, as 4 grandes. Um dos trunfos da escola era a apadrinhamento de bicheiros. Na Gresil, entrou em cena Luizinho Pacheco Drummond, até hoje na agremiação.‬

‪A boa fase financeira foi benéfica para a chega de Arlindo Rodrigues, que se consagrava com um dos maiores artistas dos desfiles, marcando seu legado em meios às transformações que aconteciam no visual do carnaval. O casamento marcou a escola como barroca, requintada e histórica.‬ Arlindo tinha um estilo barroco e propunha uma estética opulenta e grandiosa. Mas, em 81, com leveza e cores alegres, mostrou que sabia adaptar seu estilo ao enredo proposto. Ícones do carnaval exaltados por Lalá, pierrôs, arlequins e colombinas desfilaram em marcantes tripés.‬



‪Arlindo dividiu o enredo com placas e tripés com escritos relativos à trajetória de Lamartine. Isso reforçou a coerência com a qual o enredo era montado e ainda equilibrou uma divisão cromática que variava do verde e branco da escola ao colorido presente na vida do compositor.‬ Também não faltaram as citações ao futebol e aos hinos dos clubes do Rio de Janeiro, outras famosas composições de Lamartine. Uma enorme ala com bandeiras de América, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco deu o tom da alegria.



A arquibancada cantou o tempo todo com a Imperatriz, até porque o samba-enredo era curto e empolgante. Composição de Gibi, Serjão e Zé Katimba, um dos maiores compositores do carnaval carioca. Em 1972, sua obra Martin Cererê já havia sido sucesso nacional na novela Bandeira 2.

Umas das presenças ilustres do desfile foi de As Frenéticas. As rainhas da discoteca brasileiro tinham lançado no ano anterior o álbum Babando Lamartine, em homenagem ao compositor. O grupo desfilou em uma das alegorias da escola.

A bateria da Rainha de Ramos, como já vinha sendo hábito, sustentou com categoria o ritmo e num andamento impecável. A Imperatriz deixou a pista favorita ao bicampeonato, com gritos de “já ganhou” vindos do público, que não arredava pé mesmo com o sol fortíssimo. A escola recebeu o principal prêmio do Estandarte de Ouro de "Comunicação com o público", já que na época ainda não havia a categoria de Melhor Escola.

Quem dera que a vida fosse assim... Canta, sambar e nunca mais ter fim...


‪Em 2000, Lalá e Imperatriz se reencontraram no enredo de Rosa Magalhães sobre o Descobrimento do Brasil, nomeado com uma marchinha do compositor: "Quem descobriu o Brasil, foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval". Ele virou uma escultura no último carro!‬

Para 2020, a Imperatriz Leopoldinense irá reeditar o samba-enredo em homenagem ao artista. O desfile será assinado por Leandro Vieira, bicampeão do carnaval carioca pela Mangueira e um dos artistas mais badalados dos últimos anos. A apresentação promete resgatar o orgulho e a força do torcedor gresilense que irá desfilar na Série A, colocando fim a uma sequência de quarenta anos da verde e branco no Grupo Especial. O seu último rebaixamento havia sido em 1977.



A escolha pela reedição de uma apresentação assinada por Arlindo não foi à toa. Em debate promovido pelo Carnavalize em homenagem a Arlindo, Leandro Vieira esteve presente e falou de como o estilo do artista é uma das referências do seu trabalho. A proposta de Leandro Vieira é misturar seu estilo a um carnaval leve e colorido, mas sem perder o rigor estético que é marca do seu trabalho. Um dos grandes momentos do desfile promete ser o último setor, que trará os times de futebol, com fantasias que já repercutiram na internet.



A Rainha de Ramos será a quinta a se apresentar no sábado de Carnaval! “Quem dera, que a vida fosse assim... Cantar, sambar, e nunca mais ter fim!"

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

100 anos de Dona Dodô - porta-bandeira e baluarte da Portela

Por Leonardo Antan e Beatriz Freire



Apesar de portelense, Maria das Dores Alves Rodrigues viveu toda a vida bem longe de Oswaldo Cruz e Madureira. Nascida em Barra Mansa, mudou-se para o Rio aos 3 anos, onde viveu no Morro da Previdência. A casa de Dodô é um ponto turístico famoso da primeira favela do Brasil.



Já aos 14 anos, começou a trabalhar como empacadora em uma fábrica. Com as amigas de trabalho começou a demonstrar seu talento como porta-bandeira durante o horário de almoço, quando deu seus primeiros passos treinando com uma vassoura e pano de chão. No trabalho, Dodô conheceu Dora, moradora do bairro de Oswaldo Cruz, rainha da Portela (à época, ainda Vai Como Pode), cargo conquistado através do livro de ouro. No intervalo do trabalho, Dodô, Dora e as outras amigas dançavam e cantavam sambas e músicas de carnaval. Indicada por Dora, a jovem estreou no cargo em 1935, com apenas 15 anos, em um lugar tradicionalmente ocupado por mulheres mais velhas. Paulo da Portela pediu que o mestre-sala Antônio a avaliasse.



Apesar da pouca idade, Dodô se destacou logo de cara pela elegância e graça. Ainda falando sobre Paulo da Portela, se o “professor” é o grande patriarca da escola azul e branco e simboliza toda a tradição e elegância da águia de Madureira e Oswaldo Cruz, Dona Dodô é a representante feminina e matriarca da identidade da agremiação. O casamento entre a porta-bandeira e a azul e branco foi um dos mais longos da folia. Nos mais de 20 anos que atuou na agremiação como primeira porta-bandeira, Dodô foi 11 vezes campeã, símbolo da relação mais vitoriosa entre a defensora de um pavilhão e sua escola. Dona de um perfil forte, ela não deixava que ninguém fizesse suas fantasias. Ela mesma bordava suas roupas, fazendo os vestidos a seu gosto: formais, sem decotes, com o luxo devido à função.

Mesmo depois que Vilma Nascimento assumiu o posto de primeira porta-bandeira em 1956, Dodô seguiu como segunda e terceira defensora do pavilhão por mais dez anos, até 1966. Selou a marca de mais de trinta anos de atuação no mesmo cargo em uma escola, um recorde absoluto. Já fora do posto, Dodô seguiu atuando na Majestade do Samba. Um outro marco atribuído a ela é a criação da Ala das Damas, símbolo da elegância e pompa portelense, que já faturou o Estandarte de Ouro de melhor ala em 1991 e em 2014.



Por falar na principal premiação da folia, Dodô é uma das raras personalidades do Carnaval a ostentar dois prêmios em categorias especiais do Estandarte de Ouro. O primeiro em 1986, como Destaque Feminino, e o segundo em 2004, como Personalidade. O prêmio de 2004 não foi à toa. Na reedição do clássico “Lendas e Mistérios da Amazonas”, a Portela escolheu ninguém menos que Dodô para atuar à frente dos ritmistas da Tabajara. A baluarte reinou soberana aos 84 anos como Madrinha de Bateria da azul e branco. Outra bonita homenagem da Portela aconteceu em 2000, no carnaval que marcou os 500 anos do Brasil. A eterna porta-bandeira voltou a desfilar ostentando o pavilhão azul e branco em uma bela homenagem. Na ocasião, Rute e Marcelinho compunham o primeiro casal da escola.



Dona de uma elegância ímpar, seguiu orientando as portas-bandeiras que passavam pela azul e branco de Madureira. Dodô era firme quanto ao uso obrigatório de anáguas, e não shorts, por debaixo das saias das porta-bandeiras que a sucederam na Portela. Lucinha Nobre lembra que o primeiro gesto feito por tia Dodô foi levantar sua saia para conferir a anágua quando assumiu o cargo na Portela, em 2010. Dodô também não tinha costume de frequentar as feijoadas da escola, mas fez questão de ir à apresentação de Lucinha e anunciá-la no microfone. Desde 2018, Lucinha desfila com a ponteira de Dodô, encontrada na quadra e restaurada. A relíquia ganhou um banho de ouro.


Dodô faleceu dias depois de alcançar 95 anos. Em 2015, primeiro carnaval da história da Portela sem ela, Dodô foi homenageada pela porta-bandeira Danielle Nascimento. Seu rosto apareceu no telão da comissão de frente coreografada por Ghislane Cavalcanti. Católica fervorosa, era Dodô quem cuidava das cerimônias religiosas na quadra da agremiação. Após sua morte, um antigo desejo foi realizado em sua homenagem: uma capela com os padroeiros da agremiação, Nossa Senhora da Conceição e São Sebastião, inaugurada em 2015.



Se a função de porta-bandeira tem toda a sua etiqueta e elegância, Dona Dodô foi uma das percussoras deste legado. Afinal, carregar o pavilhão de uma escola é uma responsabilidade única. Elegância, etiqueta, pompa, suavidade sem perder a força. Dona Dodô foi não só uma das maiores porta-bandeiras do carnaval, mas seguiu numa atuação como baluarte fundamental da Portela. É figura feminina ímpar da história da folia nacional.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A preparação dos casais de mestre-sala e porta-bandeira no carnavais de Rio de Janeiro e São Paulo


Por Juliana Yamamoto
Os casais de mestre-sala e porta-bandeira encantam com sua dança e fantasia, defendendo o principal símbolo de uma escola de samba com muita nobreza. Porém, antes de chegarem na pista esbanjando talento e força, são meses de preparo e trabalho por trás do grande dia. Treinamentos exaustivos, criação de coreografia e repetições, tudo para beirar à perfeição e alcançar a nota máxima.

Tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, o trabalho dos casais de mestre-sala e porta-bandeira se inicia cedo. Considerados atletas, as duplas recebem todo o suporte de profissionais para ajudá-los em pontos importantes e cruciais para o desenvolvimento na avenida: resistência física, coreografia e movimentos obrigatórios da dança. Nas duas cidades, há três figuras importantes que ajudam inúmeros casais, sendo pilares que contribuem para a nota dez: Bruno Germano, do Rio de Janeiro e Ednei Pedro e Daniela Renzo, de São Paulo.

Foto: Alex Nunes
Bruno Germano é conhecido por ser um dos principais preparadores físicos de casais do Rio de Janeiro. Iniciou seu trabalho no final de 2013, a pedido do mestre-sala Sidclei, e nunca mais parou. Para Bruno, a preparação física dos casais é muito importante para uma boa evolução e apresentação na avenida. Segundo o preparador, os casais são atletas. As apresentações são de alto nível de intensidade, há muito peso sobre o corpo devido à fantasia, o calor envolvido e a grande responsabilidade, assim como nos casos de atletas profissionais. Por isso, a preparação precisa ser a mesma.

Bruno cria um repertório de treinos e exercícios específicos para cada casal, pois cada um tem uma necessidade específica. Seja de resistência, agilidade, coordenação motora... Além disso, o profissional trabalha também em cima da coreografia para o cortejo. Em 2020, Germano está trabalhando com os casais de Salgueiro (Sidclei e Marcella), Grande Rio (Daniel e Taciana), Unidos de Padre Miguel (Vinicius e Jéssica) e Viradouro (neste caso, apenas Rute é treinada pelo profissional). 

Foto: Arquivo pessoal/Bruno Germano
A preparação dos casais com Bruno inicia-se em outubro, indo até o dia do desfile. Para o preparador, é extremamente importante iniciar os trabalhos no período correto, para que o casal, junto ao profissional, consiga cuidar de todos os pontos necessários. Ele ainda sonha em ver um casal envolvido em todos os aspectos de um atleta, com fisioterapia, nutrição e psicologia do esporte.


Foto: Camila Abade
Ednei Pedro iniciou sua trajetória como preparador técnico em 1998, no Barroca Zona Sul, ainda ocupando a posição de mestre-sala. Entretanto, seus trabalhos começaram oficialmente a partir de 2005. 

Ednei se considera como orientador técnico, analisando a dança do casal. É através de sua observação que trabalha nos principais pontos a serem melhorados por cada dupla. Assim como Bruno Germano, o trabalho é diferente para cada casal. Para o Ednei, a dança de mestre-sala e porta-bandeira pode ser comparada a uma ginástica artística; todos precisam apresentar o mesmo movimento, mas cada corpo fará da sua maneira, quem atingir a perfeição conseguirá a nota máxima. O profissional trabalha em cima da dança que os casais já possuem, tentando melhorar o que os jurados estão exigindo no quesito.

Quanto ao início da preparação, quando um casal é novo, é necessário realizar o entrosamento entre os dois, num período de um a dois meses. Quando já é um casal formado, Ednei apenas trabalha na limpeza da coreografia, focado nos ensaios técnicos do Anhembi. Além de cuidar da técnica e correção da dança, ele também auxilia na criação da coreografia com os mesmos, dando a eles a liberdade de sugerir passos, mas também orientando-os para que se alcance o objetivo do casal. 

Foto: Arquivo pessoal/Miriam Acedo
O profissional tem contato direto com os ateliês que fazem as fantasias dos casais. Segundo ele, isso influencia também na dança, pois a coreografia criada precisa funcionar junto ao figurino, para que o mesmo não atrapalha os movimentos e a evolução da dupla. 

Apesar de tudo, Edinei não se considera um preparador físico. O foco do profissional é a dança, além do suporte de uma nutricionista caso haja necessidade. Para o carnaval 2020, Ednei está trabalhando com diversos casais tanto do Grupo Especial paulistano, como dos Acessos I e II, alguns deles são: Unidos de Vila Maria (Brunno e Tatiana), Águia de Ouro (João Carlos e Ana Reis), X-9 Paulistana (Marquinhos e Lyssandra), Vai-Vai (Pingo e Paulinha), Dom Bosco (Leonardo e Mariana) Amizade da Zona Leste (João Lucas e Jacque Silva).


Foto: Arquivo pessoal/Daniela Renzo
Daniela Renzo iniciou seus trabalhos como preparadora de casais no ano de 2004, quando integrou o curso da AMESPBEESP. Com seus primeiros casais, o trabalho começou logo após encerrar a carreira como porta-bandeira em 2009, no Morro da Casa Verde.

A preparadora possui um projeto intitulado “A nobre arte”, em que foca seu trabalho nas seguintes áreas: técnica (passos tradicionais de mestre-sala e porta-bandeira e o critério de julgamento), estratégia (desenho de pista, estudo da condição do casal e também os outros casais dos quadro e o que a escola procura) e força (busca outros fatores internos para motivar o casal. A dança por si só não basta, é preciso buscar outros estímulos e ferramentas para que a dança flua. A dupla precisa estar motivada e empoderada).

A preparação se inicia logo após o término do carnaval. Com alguns casais, são analisados os resultados e as notas junto às justificativas. A preparação física com as duplas se inicia em maio. Assim como Ednei, Daniela também ajuda na criação das coreografias. Seja partindo do princípio ou apenas ajustando um bailado já criado pelo próprio casal. Além disso, a preparadora acompanha a confecção dos figurinos, analisando o material que está sendo utilizado, o peso, se a roupa está confortável para os dois e se a mesma permite a realização dos movimentos coreográficos. 

Foto: Arquivo pessoal/Daniela Renzo
Seus trabalhos em São Paulo ganharam tanta força e notoriedade que Daniela atravessou a ponte aérea e também começou a trabalhar com alguns casais no Rio de Janeiro. O trabalho é o mesmo, o que muda são alguns pontos técnicos que são diferentes em relação à folia paulistana. 

Para o carnaval 2020, Daniela está cuidando de vários casais visando a nota máxima, são eles Tom Maior (Jairo e Simone), Mancha Verde (Marcelo e Adriana), Acadêmicos do Tatuapé (Diego e Jussara), Camisa Verde e Branco (Gabriel e Joice), Tradição Albertinense (Diego e Erica), Acadêmicos do Tucuruvi (Luan e Waleska) e Unidos do Peruche (Kawe e Nathalia). 

Waleska Gomes, que já vai para o seu quarto ano no Zaca, afirmou a importância de uma pessoa como a Daniela na sua preparação para o desfile: “o trabalho da Daniela é essencial e primordial, porque ela funciona como os olhos do casal. O que a gente não vê, ela vê. Sem ela é difícil, praticamente impossível”. O papel da preparadora é ser um terceiro olho sobre a dança do casal, trabalhando com a limpeza e a defesa dos critérios de julgamento, com finalidade de deixar a dança mais bonita, imponente e atraente.

Os casais de mestre-sala e porta-bandeira, para abrilhantar ainda mais a passarela do samba, contam com o apoio e o suporte de preparadores físicos e técnicos. Com eles, o trabalho é intenso e dura meses, tudo em prol do pavilhão que estão defendendo. Atrás dessa dupla, há uma equipe que também não mede esforços para ajudá-los a alcançar a nota máxima. Eles são extremamente essenciais para o sucesso do casal.