sábado, 7 de março de 2020

#BOLOEGUARANÁ: Apesar da má fase, União da Ilha do Governador tem muito o que comemorar aos 67 anos


Por Bernardo Pilotto





É verdade que a azul vermelho e branco da Ilha do Governador não vive uma de suas melhores fases. Depois de anos fora do Desfile das Campeãs, a escola disputará a Série A em 2021 após ficar em último lugar no Grupo Especial nesse carnaval, num desfile que não vai deixar saudade. Mas mesmo essa má fase não apaga a gloriosa história da agremiação insulana. 

"Obrigado, madrinha Portela
Que me ajudou a caminhar"

(“Bom, Bonito e Barato” - Robertinho Devagar / Jorge Ferreira / Edinho Capeta)

Foi em um dia 07 de março, em 1953, quinta-feira após o carnaval, que membros do União Futebol Clube resolveram fundar uma escola de samba com o mesmo nome e as mesmas cores. Para eles, era importante ter uma agremiação que representasse a Cacuia, um dos 14 bairros da Ilha do Governador. Até então, o bairro recebia o desfile das escolas da Ilha (sim! a Ilha tinha um desfile próprio) mas não tinha uma escola que o representasse. 

Nos seus primeiros anos de desfile, a União ganhou um desfile atrás do outro. Mais organizada e com boa condição financeira do que as coirmãs, a escola passou a atrair sambistas de outras escolas da região. Esse sucesso permitiu que ela se dirigisse até Madureira, em 1958, para pedir que a gigante Portela fosse sua madrinha, que acatou a solicitação. Foi apenas em 1960 que a escola começou a participar do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e foi nesse momento que a agremiação passou a ter o nome atual: União da Ilha do Governador. 

Aroldo e Ito Melodia, pai e filho, e as vozes mais marcantes da União da Ilha. Foto: Gustavo Stephan / O Globo

Depois de alguns anos nos grupos inferiores dos desfiles, alternando entre a segunda e a terceira divisão, a União foi campeã em 1974 do então chamado Grupo 2 e conquistou o direito a desfilar entre as principais escolas no ano seguinte. É nesse ano também que começa a ganhar destaque, para além das fronteiras do carnaval, os seus sambas-enredo, já que Elza Soares gravou “Lendas e Festas das Yabás”. 

“Muito bom
O meu bonito é barato
Da simpatia, o retrato
Do povo no carnaval”

(“Bom, Bonito e Barato” - Robertinho Devagar / Jorge Ferreira / Edinho Capeta)

A partir de 1974 a Ilha ganhou projeção nacional, ficando conhecida pela sua alegria e criatividade. Em um momento no qual as escolas tinham como enredos temas históricos e densos, a União priorizou, a partir da chegada da carnavalesca Maria Augusta, assuntos mais cotidianos, que se aproximavam imediatamente do público. O sucesso foi imediato: com “Domingo” (em 1977), a escola chegou ao 3º lugar, e com “O Amanhã” (em 1978), a escola alcançou a 4ª colocação. A simplicidade e a garra da Ilha faziam com que ela ganhasse simpatia e contrastavam com a opulência da Beija-Flor, então tricampeã (1976/77/78) naqueles anos.  

Essa conexão imediata com o público facilitou com que os sambas-enredo da escola ficassem conhecidos em todo o Brasil. Além da gravação deles por dezenas de nomes importantes da MPB, as músicas passaram a ser cantadas em rodas de samba e blocos de carnaval todos os anos. Sem a União da Ilha, a música brasileira ficaria sem os já citados “Domingo” e “O Amanhã” e “É Hoje” (de 1982), “Festa Profana” (de 1989) e “De Bar Em Bar, Didi Um Poeta” (de 1991). 

Além da criatividade e inovação dos enredos e a beleza dos seus sambas, a bateria e o seu intérprete ajudaram a projetar a escola. Isso porque foi na União da Ilha que grandes mestres de bateria, como Paulão e Odilon Costa, formaram-se; e é também à frente do microfone na tricolor insulana que esteve, por mais 15 carnavais, Aroldo Melodia, uma das vozes mais marcantes do carnaval, criador de segura a marimba e outros bordões inesquecíveis. 

Mesmo sem chegar ao tão sonhado título, é impossível não reconhecer que a escola marcou seu espaço entre as grandes do carnaval. Depois da morte do compositor Didi (autor da maioria desses dos sambas-enredo do período de auge da escola) e do fim da carreira de Aroldo Melodia, a Ilha não conseguiu mais se firmar entre aqueles que disputam o campeonato. 

Nos anos 2000, a escola amargou alguns anos na Série A, de 2002 a 2009, quando foi campeã e retornou ao Grupo Especial. Seu melhor momento desde então foi em 2014, com o enredo "É brinquedo, é brincadeira. A Ilha vai levantar poeira!", muito próximo das raízes da escola, quando fez um desfile que fez a escola ser apontada por muitos como favorita para o carnaval. Acabou ficando em 4º lugar. 


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O abre-alas da Ilha em 2014. Foto: Marco Antônio Cavalcante / Riotur

Para o carnaval de 2020, a Ilha passou por uma grave crise, simbolizada no fato da disputa de samba-enredo acontecer sem ter uma sinopse de enredo elaborada. Com um conjunto fraco de alegorias e fantasias, um enredo confuso e um samba que não empolgou, a agremiação amargou a última colocação, sendo rebaixada novamente para a Série A. 

Os amantes do carnaval certamente vão sentir falta da União da Ilha desfilando entre as grandes escolas do Rio de Janeiro. Uma agremiação que tanto nos ensinou e inovou merece resgatar sua história e voltar a figurar entre as gigantes do maior show da terra.  


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