quinta-feira, 5 de março de 2020

#BOLOEGUARANÁ: Salgueiro, a escola onde o negro não sai de cartaz, completa 67 anos


Por Bernado Pilloto

Fundado no dia 05 de março de 1953, o Acadêmicos do Salgueiro completa hoje 67 anos. A escola é considerada uma das “matriarcas do samba”, tendo conquistado 9 campeonatos do carnaval carioca, sendo o último em 2009. Apesar de ter ficado muito famosa por explodir o coração na maior felicidade, o Salgueiro é muito mais do que esse refrão.

A fundação da escola é fruto da fusão de escolas de samba que já existiam no Morro do Salgueiro. Até o início dos anos 1950, coexistiam três escolas de samba naquela região: a Azul e Branco, a Unidos do Salgueiro e a Depois Eu Digo. 

Cada uma dessas escolas tinha sua importância. A Azul e Branco, por exemplo, que era liderada pelo sambista Antenor Gargalhada, funcionou como uma associação de moradores nos anos 1930 quando Emílio Turano, que alegava ser proprietário das terras do morro, quis despejar os mais de 7000 moradores do local. 

Mesmo assim, essas escolas não conseguiam ameaçar o domínio de Mangueira, Portela e Império Serrano. Por isso, após o carnaval de 1953, um grupo de sambistas, liderados por Geraldo Babão, começou um movimento para a unificação das escolas de samba do morro. Num primeiro momento, houve a fusão entre a Azul e Branco e a Depois Eu Digo, fundando o Acadêmicos do Salgueiro. Posteriormente, os sambistas da Unidos do Salgueiro também aderiram à nova escola, fazendo com que a recém criada agremiação já nascesse grande: já no seu primeiro desfile, em 1954, o Acadêmicos do Salgueiro conquistou o 3º lugar.  

”Em 59
Balançamos a roseira
Demos susto na Portela
Derrubando o Império e a Mangueira
Por 1 ponto e meio
Perdemos a grande vitória
Mas fomos vice-campeões
Com orgulho e glória”

Em 1959, como diz o samba de Binha, a escola balançou a roseira e foi a vice-campeã do carnaval, deixando Império Serrano e Mangueira para trás. Além de quase chegar ao título, a escola chamou a atenção de Fernando Pamplona, que era jurado naquele ano. Em 1960, Pamplona veio para o Salgueiro para cumprir a função de carnavalesco, iniciando uma verdadeira revolução no carnaval. 

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Pamplona no centro com Max Lopes, Rosa Magalhães, Maria Augusta e Laíla.  Foto: Guito Moreto / O Globo

Foi a partir da chegada de Pamplona ao Salgueiro que personalidades negras passaram a ser tema de enredo na escolas de samba. A vermelho e branco ganhou o título de 1960 com “Quilombo dos Palmares” e homenageou Aleijadinho em 1961, Xica da Silva em 1963 (mais um título), Chico-Rei em 1964 e Dona Beja em 1968. Foi também no Salgueiro que se formou uma geração de grandes carnavalescos, como Joãosinho Trinta, Maria Augusta, Rosa Magalhães, Arlindo Rodrigues. Lícia Lacerda e Renato Lage. Todos esses chegaram à escola e ao carnaval convidados por Pamplona. 

Com ou sem Pamplona, a temática negra se manteve presente na escola, como em “Festa Para Um Rei Negro” (1971), “Templo negro em tempo de consciência negra” (1989), “Candaces” (2007), “A Ópera dos Malandros” (2016), “Senhoras do Ventre do Mundo” (2018), “Xangô” (2019) e “O Rei Negro do Picadeiro” (2020). 


A comissão de frente do Salgueiro de 2020. Foto: Vitor Melo / Carnavalize

E não é só no quesito enredo que o Salgueiro é fundamental para o carnaval carioca. Desde sua fundação, a escola contou com grandes compositores, como Noel Rosa de Oliveira, Geraldo Babão e Anescarzinho, e uma excelente bateria, hoje conhecida como Furiosa. Foi também por conta do Salgueiro que surgiu o termo passista, para nomear Paula do Salgueiro, que cativava a todos com seus incríveis passos de dança.  

Diferente de outras agremiações, que tiveram altos e baixos em sua trajetória, o Salgueiro nasceu grande e se manteve grande ao longo dos anos. Isso pode ser medido tanto pela sua presença nas primeiras colocações do carnaval (em 2020, ficou pela 13ª vez seguida entre as 6 melhores do carnaval), como pela força da sua comunidade, sempre presente nos ensaios, ou ainda pelos seus enredos e seus sambas. 

Em 2020, com a homenagem a Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil, a escola conquistou o 5º lugar e mostrou que nela o negro não sai de cartaz.
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